← Voltar para a lista de provas Marinha do Brasil · Oficial do Quadro Técnico do Corpo Auxiliar da Marinha — Letras 50 questões nesta prova · página 2 de 3 · 49 com gabarito Gabarito disponível O texto injuntivo orienta ou ordena; o trecho C usa subjuntivo com valor de ordem. 'Que Portugal faça o mesmo conosco, procure nos entender e nos amar' emprega o presente do subjuntivo com valor imperativo para pedir uma ação ao interlocutor. Esse traço de ordem e orientação caracteriza o texto injuntivo. A, B, D e E são trechos expositivos, narrativos ou argumentativos: contestam uma proposta, explicam fatos e descrevem a autora, sem instruir o leitor a agir. Referência: Tipologia textual: texto injuntivo Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Predomina a função conativa: a autora se dirige ao interlocutor. A sentença usa vocativo ('Meu caro amigo português') e verbos em referência ao interlocutor ('o irrite'), buscando convencê-lo. Isso caracteriza a função conativa (apelativa). 'É que' é expressão de realce, mas aqui o gabarito considera a conativa como correta. A repetição de 'é' não é recorrência de termos. 'Irrite' admite próclise ou ênclise. 'Tanto... quanto...' tem valor aditivo/inclusivo, não puramente comparativo. Referência: Funções da linguagem Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível A alternativa C reorganiza a frase com ênfase em 'É... que' e sem erros. 'É neste jeito descansado de mulher do campo, que conta histórias do que conhece e do que ama, que me podem achar a pequena graça' mantém o sentido original, com ênfase na expressão 'neste jeito'. Usa próclise de 'me', correta com o sujeito 'podem', e a oração explicativa fica corretamente entre vírgulas. A usa ênclise ('podem-me') indevida e muda o sentido. B inverte as relações e atribui ao jeito 'ser mulher descansada'. D e E atribuem 'do campo' a 'histórias' e alteram o sentido. Referência: Reescrita: colocação pronominal e sentido Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Os dois períodos se ligam por pressupostos: a grandeza dos colegas justifica a resistência à 'cirurgia'. O segundo período ('Eles são tão grandes, tão ricos que...') retoma e explica o pressuposto do primeiro: os escritos dos colegas resistiriam às correções. Os períodos são conectados por ideias pressupostas, o que caracteriza a conexão de pressupostos. Não há confronto de ideias opostas, nem comentário à parte, nem agrupamento metalinguístico, nem interpretação diagnóstica (que consiste em tirar uma conclusão com base em indícios). Referência: Relações pragmático-discursivas entre períodos Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível 'Muito obrigada, mas assim, não' implica que sob outras condições a autora poderia aceitar. O advérbio 'assim' restringe a recusa às condições propostas (as alterações no texto). Fica subentendido que, sem essas alterações, a publicação seria possível. A atribui ao Acordo um cumprimento 'rigoroso' que o texto não afirma. C extrapola, pois chamar a imitação de 'contrafação' não diz que o modelo de Portugal seja artificial. D é irônica e não implica superioridade das obras dos colegas. E contraria o sentido, já que o trecho expressa um desejo de manutenção do patrimônio comum. Referência: Pressupostos e subentendidos Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Reescrita do trecho conforme o gabarito oficial (B). Segundo o gabarito, a alternativa B mantém as relações de sentido entre as orações: a comparação com 'como', a oração 'tal como faz parte da sua' e a causa/agente 'Por nós tem sido enriquecida'. Todas as outras alternativas alteram o sentido ou cometem erros mais evidentes. A usa 'nos a' e vírgulas indevidas. C usa 'no-las' (plural indevido), 'o mais tudo' e vírgula entre verbo e complemento. D altera a regência ('a ela') e o sentido de 'tudo o mais'. E altera 'tal como' por 'tal que', mudando a relação de comparação. Referência: Pronomes oblíquos e reescrita de frases Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível 'Nos criam a nós' repete o complemento, caracterizando objeto direto pleonástico. O pronome oblíquo 'nos' e o termo preposicionado 'a nós' representam o mesmo objeto direto, repetido para dar ênfase. Isso é o objeto pleonástico. 'Perifrástico' refere-se a locuções verbais; 'catafórico' refere-se a referência a termo posterior; 'metafórico' refere-se a figura de linguagem. 'Catártico' não é classificação de objeto. Referência: Sintaxe: objeto direto pleonástico Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível O autor registra a ignorância dos brasileiros sobre a própria língua, a partir das situações vividas por ele. O rapaz do bar chama o sotaque português de 'estrangeiro', e o taxista não sabe que Angola é um país nem que lá se fala português. O autor usa essas situações para mostrar o parco conhecimento dos brasileiros sobre sua língua e suas variantes. A distorce o texto: a xenofobia não é de 'classes sociais'. B diz que a mudança é brusca, mas o texto fala em mudança sutil. C contraria o texto, que diz que as redes valorizam a escrita. D afirma que o crioulo é mais simples, o que o texto não diz. Referência: AGUALUSA, A luz da nossa língua Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível A alternativa C é a única que mantém o sentido e respeita a norma. 'Recordo-me de uma ocasião, faz alguns anos, durante viagem pelo interior pernambucano, quando parei a fim de pedir informações, junto a um pequeno bar' preserva as circunstâncias e a sequência do original. Usa 'faz' impessoal (tempo decorrido), ênclise correta em 'Recordo-me' e 'a fim de' expressando finalidade. A tem vírgula indevida, 'à pequeno' (crase indevida) e altera o sentido. B inverte as ideias e usa 'Tem alguns anos'. D altera os fatos e o sujeito de 'parado'. E tem 'Fazem' (verbo impessoal) e desorganiza o sentido. Referência: Reescrita: concordância, regência e pontuação Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível A coerência ligada ao gênero textual é a genérica. A coerência genérica leva em conta o gênero e sua adequação ao propósito comunicativo, à forma composicional e ao tema. O fragmento abre um texto de opinião (crônica) com tese e argumento, de acordo com o gênero. A semântica trata da relação entre os significados. A sintática trata da estrutura gramatical. A pragmática trata da adequação à situação e à intenção do falante. A estilística trata das escolhas de estilo. Referência: Coerência textual (Koch) Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Variação diatópica é a variação geográfica, como o sotaque regional. A variação diatópica refere-se ao lugar, às diferenças regionais ou nacionais. O sotaque angolano ou português não compreendido no interior de Pernambuco é exemplo claro dessa variação. A trata de preconceito social. B compara línguas diferentes. C e E tratam do valor do museu e da língua como patrimônio, sem referência a diferenças geográficas. Referência: Variação linguística: diatópica, diastrática, diafásica Resolução comentada do VaiConcursos.Marinha do Brasil — DEnsM — CP-T/2020 (Quadro Técnico do Corpo Auxiliar da Marinha) — Letras — Prova Amarela
Texto II
CARTA DE UM EDITOR PORTUGUÊS
(Rachel de Queiroz)
"... A necessidade que se impõe para uma edição portuguesa de obras de autores brasileiros, de certas e inofensivas alterações, como sejam a deslocação de pronomes (em certos casos), harmonização da ortografia com as determinações do Acordo Luso-brasileiro - que em Portugal é cumprido - e uma ou outra substituição de termos pouco usados em Portugal ou que tenham sentido diferente daquele que o autor lhes quis dar."
O trecho que acima transcrevo são palavras de uma carta em que ilustre editor português me fez a gentileza de solicitar permissão para publicar livros meus; parece que só mediante tais condições é que autores brasileiros podem ser editados no Portugal europeu e ultramarino.
Pois a resposta que tenho a dar ao prezado editor português é a mesma que já lhe deu, tempos atrás, meu editor e meu amigo José Olympio: - Muito obrigada, mas assim, não.
A primeira interrogação que nos ocorre diante de tal projeto de "alterações", é esta: será verdade, realmente, que o público português não entende a língua portuguesa do Brasil, tal como a falamos?
Não haverá, na ideia dessas alterações, mais uma questão de prestígio que de necessidade? Convivo com grande número de portugueses entre amigos e parentes, e nunca nos desentendemos por incompreensão de palavras ou de modismos. E a língua falada, com as diferenças de sotaque e pronúncia, é muito mais difícil de entender que a língua escrita.
O Brasil é grande, todos o sabemos. E os sessenta milhões de brasileiros falamos e escrevemos de inúmeras maneiras a língua que nos deu Portugal. Compare-se um texto de Simões Lopes a outro de José Lins do Rego e notar-se-ão as infinitas diferenças que separam os dois, no vocabulário e na sintaxe. Mas ousaria um editor do Norte ou do Sul propor alterações nas páginas do paraibano para que o entendessem os gaúchos, ou nas do gaúcho para que o entendessem os paraibanos?
Meu caro amigo português, talvez essa ideia o irrite, mas a verdade é que, hoje, a sua língua é um patrimônio tanto nosso quanto seu. Sei que o trabalho de formá-la, assim bela e nobre, foi dos portugueses. Mas, também, já há quatrocentos anos que a amamos e a apuramos ao nosso modo. Nem tinha ela mais idade quando a usou Camões. Vocês no-la deram, como nos deram tudo o mais com que se fez o Brasil. E hoje ela faz parte essencial da nossa vida de povo, tal como faz parte da sua. Por nós tem sido enriquecida e fecundada. Se em Portugal acham que a maltratamos e a desfiguramos, é porque cada um tem sua maneira de amar e, nessas questões, o que é ortodoxia para uns é heresia espantosa para os outros.
Não, não me venha dizer que em Portugal não entendem o que escrevemos. E, fosse esse o caso, bastaria a aposição de um glossário no fim de cada livro para resolver as dúvidas. Mas o que nos propõe é outra coisa: é correção, é conserto de pronomes, é a revisão do caçanje brasileiro que fere o bom ouvido peninsular.
Acontece entretanto, meu caro amigo, que esse caçanje, que esses pronomes mal postos, que essa língua que lhes revolta o ouvido, é a nossa língua, é o nosso modo normal de expressão, é - ouso dizer - a nossa língua literária e artística. Já não temos outra e, voltar ao modelo inflexível da fala de Portugal, seria para nós, a esta altura, uma contrafação impossível e ridícula.
Digo mais: não acredito de modo nenhum que esse tal sistema de nos corrigir primeiro os livros para os entregar depois ao público português, represente um serviço à aproximação das duas culturas. Acho, ao contrário, que tal prática serve apenas para cultivar diferenças e marcar distâncias. Pode acariciar o vosso orgulho, mas fere fundo as nossas suscetibilidades, sem falar no quanto afeta a integridade e harmonia da nossa obra literária. Pois o que Portugal fica conhecendo, assim, não é literatura brasileira na sua forma espontânea e genuína, mas obra mutilada e remendada, necessariamente grotesca. Que sobrará de um texto meu, por exemplo, depois de ter os seus pronomes recolocados à portuguesa, depois de me trocarem as palavras próprias por outras "de mais fácil compreensão" - mas alheias? Talvez os escritos daqueles colegas muito mais importantes que me citou na sua carta, e que se submeteram às correções, resistissem galhardamente à cirurgia. Eles são tão grandes, tão ricos que, por mais que lhes tirem, sempre fica riqueza suficiente para encantar a qualquer um. Mas, eu, coitadinha, que será feito de mim se me cortam e me deturpam a pouca pobreza? Que restará? Não sou escritor de imaginação que componha bonitos enredos, nem traço retrato de uma época, nem sou capaz de profundezas de psicologia, nem criei nada de novo ou importante na ficção nacional. A pequena graça que me podem achar é neste jeito descansado de mulher do campo, que conta histórias do que conhece e do que ama. E como pode, de repente, essa sertaneja de fala cantada, desandar a trocar língua em puro alfacinha? [...]
Portugal cometeu um erro trágico quando, à volta de D. João VI ao reino, não quis reconhecer ao Brasil o seu estado de adulto e tentou devolvê-lo à menoridade. Por culpa desse erro, rompeu-se a união luso-brasileira. De dois países irmãos e unidos que poderíamos ser, passamos a dois estranhos. Atravessada a crise da Independência, restou-nos, o que não é pouco, o patrimônio comum da cultura e da língua. Mas é preciso que haja respeito e consideração recíprocos, para que tal patrimônio se mantenha indiviso e perfeito. Que haja igualdade de tratamento, de parte a parte. Nunca a um de nós ocorreria "adaptar" ao escrever e ao falar brasileiro, a obra do mais humilde escritor português. Que Portugal faça o mesmo conosco, procure nos entender e nos amar tais como somos, como nos fez o tempo e o gênio português transplantado às terras da América.
Afinal, o Brasil não é um filho bastardo de Portugal. É seu filho legítimo e, mais que isso, é o seu morgado - com todos os direitos e privilégios que estão inerentes à primogenitura.
(QUEIROZ, Rachel de. Um alpendre, uma rede, um açude: 100 escolhidas. São Paulo: Siciliano, 1993 - texto adaptado)
Assinale a opção em que a autora emprega características tipológicas do texto injuntivo.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto II
CARTA DE UM EDITOR PORTUGUÊS
(Rachel de Queiroz)
"... A necessidade que se impõe para uma edição portuguesa de obras de autores brasileiros, de certas e inofensivas alterações, como sejam a deslocação de pronomes (em certos casos), harmonização da ortografia com as determinações do Acordo Luso-brasileiro - que em Portugal é cumprido - e uma ou outra substituição de termos pouco usados em Portugal ou que tenham sentido diferente daquele que o autor lhes quis dar."
O trecho que acima transcrevo são palavras de uma carta em que ilustre editor português me fez a gentileza de solicitar permissão para publicar livros meus; parece que só mediante tais condições é que autores brasileiros podem ser editados no Portugal europeu e ultramarino.
Pois a resposta que tenho a dar ao prezado editor português é a mesma que já lhe deu, tempos atrás, meu editor e meu amigo José Olympio: - Muito obrigada, mas assim, não.
A primeira interrogação que nos ocorre diante de tal projeto de "alterações", é esta: será verdade, realmente, que o público português não entende a língua portuguesa do Brasil, tal como a falamos?
Não haverá, na ideia dessas alterações, mais uma questão de prestígio que de necessidade? Convivo com grande número de portugueses entre amigos e parentes, e nunca nos desentendemos por incompreensão de palavras ou de modismos. E a língua falada, com as diferenças de sotaque e pronúncia, é muito mais difícil de entender que a língua escrita.
O Brasil é grande, todos o sabemos. E os sessenta milhões de brasileiros falamos e escrevemos de inúmeras maneiras a língua que nos deu Portugal. Compare-se um texto de Simões Lopes a outro de José Lins do Rego e notar-se-ão as infinitas diferenças que separam os dois, no vocabulário e na sintaxe. Mas ousaria um editor do Norte ou do Sul propor alterações nas páginas do paraibano para que o entendessem os gaúchos, ou nas do gaúcho para que o entendessem os paraibanos?
Meu caro amigo português, talvez essa ideia o irrite, mas a verdade é que, hoje, a sua língua é um patrimônio tanto nosso quanto seu. Sei que o trabalho de formá-la, assim bela e nobre, foi dos portugueses. Mas, também, já há quatrocentos anos que a amamos e a apuramos ao nosso modo. Nem tinha ela mais idade quando a usou Camões. Vocês no-la deram, como nos deram tudo o mais com que se fez o Brasil. E hoje ela faz parte essencial da nossa vida de povo, tal como faz parte da sua. Por nós tem sido enriquecida e fecundada. Se em Portugal acham que a maltratamos e a desfiguramos, é porque cada um tem sua maneira de amar e, nessas questões, o que é ortodoxia para uns é heresia espantosa para os outros.
Não, não me venha dizer que em Portugal não entendem o que escrevemos. E, fosse esse o caso, bastaria a aposição de um glossário no fim de cada livro para resolver as dúvidas. Mas o que nos propõe é outra coisa: é correção, é conserto de pronomes, é a revisão do caçanje brasileiro que fere o bom ouvido peninsular.
Acontece entretanto, meu caro amigo, que esse caçanje, que esses pronomes mal postos, que essa língua que lhes revolta o ouvido, é a nossa língua, é o nosso modo normal de expressão, é - ouso dizer - a nossa língua literária e artística. Já não temos outra e, voltar ao modelo inflexível da fala de Portugal, seria para nós, a esta altura, uma contrafação impossível e ridícula.
Digo mais: não acredito de modo nenhum que esse tal sistema de nos corrigir primeiro os livros para os entregar depois ao público português, represente um serviço à aproximação das duas culturas. Acho, ao contrário, que tal prática serve apenas para cultivar diferenças e marcar distâncias. Pode acariciar o vosso orgulho, mas fere fundo as nossas suscetibilidades, sem falar no quanto afeta a integridade e harmonia da nossa obra literária. Pois o que Portugal fica conhecendo, assim, não é literatura brasileira na sua forma espontânea e genuína, mas obra mutilada e remendada, necessariamente grotesca. Que sobrará de um texto meu, por exemplo, depois de ter os seus pronomes recolocados à portuguesa, depois de me trocarem as palavras próprias por outras "de mais fácil compreensão" - mas alheias? Talvez os escritos daqueles colegas muito mais importantes que me citou na sua carta, e que se submeteram às correções, resistissem galhardamente à cirurgia. Eles são tão grandes, tão ricos que, por mais que lhes tirem, sempre fica riqueza suficiente para encantar a qualquer um. Mas, eu, coitadinha, que será feito de mim se me cortam e me deturpam a pouca pobreza? Que restará? Não sou escritor de imaginação que componha bonitos enredos, nem traço retrato de uma época, nem sou capaz de profundezas de psicologia, nem criei nada de novo ou importante na ficção nacional. A pequena graça que me podem achar é neste jeito descansado de mulher do campo, que conta histórias do que conhece e do que ama. E como pode, de repente, essa sertaneja de fala cantada, desandar a trocar língua em puro alfacinha? [...]
Portugal cometeu um erro trágico quando, à volta de D. João VI ao reino, não quis reconhecer ao Brasil o seu estado de adulto e tentou devolvê-lo à menoridade. Por culpa desse erro, rompeu-se a união luso-brasileira. De dois países irmãos e unidos que poderíamos ser, passamos a dois estranhos. Atravessada a crise da Independência, restou-nos, o que não é pouco, o patrimônio comum da cultura e da língua. Mas é preciso que haja respeito e consideração recíprocos, para que tal patrimônio se mantenha indiviso e perfeito. Que haja igualdade de tratamento, de parte a parte. Nunca a um de nós ocorreria "adaptar" ao escrever e ao falar brasileiro, a obra do mais humilde escritor português. Que Portugal faça o mesmo conosco, procure nos entender e nos amar tais como somos, como nos fez o tempo e o gênio português transplantado às terras da América.
Afinal, o Brasil não é um filho bastardo de Portugal. É seu filho legítimo e, mais que isso, é o seu morgado - com todos os direitos e privilégios que estão inerentes à primogenitura.
(QUEIROZ, Rachel de. Um alpendre, uma rede, um açude: 100 escolhidas. São Paulo: Siciliano, 1993 - texto adaptado)
Leia a sentença a seguir.
"Meu caro amigo português, talvez essa ideia o irrite, mas a verdade é que, hoje, a sua língua é um patrimônio tanto nosso quanto seu." (6º§)
Assinale a opção que apresenta a afirmação correta quanto à sentença acima.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto II
CARTA DE UM EDITOR PORTUGUÊS
(Rachel de Queiroz)
"... A necessidade que se impõe para uma edição portuguesa de obras de autores brasileiros, de certas e inofensivas alterações, como sejam a deslocação de pronomes (em certos casos), harmonização da ortografia com as determinações do Acordo Luso-brasileiro - que em Portugal é cumprido - e uma ou outra substituição de termos pouco usados em Portugal ou que tenham sentido diferente daquele que o autor lhes quis dar."
O trecho que acima transcrevo são palavras de uma carta em que ilustre editor português me fez a gentileza de solicitar permissão para publicar livros meus; parece que só mediante tais condições é que autores brasileiros podem ser editados no Portugal europeu e ultramarino.
Pois a resposta que tenho a dar ao prezado editor português é a mesma que já lhe deu, tempos atrás, meu editor e meu amigo José Olympio: - Muito obrigada, mas assim, não.
A primeira interrogação que nos ocorre diante de tal projeto de "alterações", é esta: será verdade, realmente, que o público português não entende a língua portuguesa do Brasil, tal como a falamos?
Não haverá, na ideia dessas alterações, mais uma questão de prestígio que de necessidade? Convivo com grande número de portugueses entre amigos e parentes, e nunca nos desentendemos por incompreensão de palavras ou de modismos. E a língua falada, com as diferenças de sotaque e pronúncia, é muito mais difícil de entender que a língua escrita.
O Brasil é grande, todos o sabemos. E os sessenta milhões de brasileiros falamos e escrevemos de inúmeras maneiras a língua que nos deu Portugal. Compare-se um texto de Simões Lopes a outro de José Lins do Rego e notar-se-ão as infinitas diferenças que separam os dois, no vocabulário e na sintaxe. Mas ousaria um editor do Norte ou do Sul propor alterações nas páginas do paraibano para que o entendessem os gaúchos, ou nas do gaúcho para que o entendessem os paraibanos?
Meu caro amigo português, talvez essa ideia o irrite, mas a verdade é que, hoje, a sua língua é um patrimônio tanto nosso quanto seu. Sei que o trabalho de formá-la, assim bela e nobre, foi dos portugueses. Mas, também, já há quatrocentos anos que a amamos e a apuramos ao nosso modo. Nem tinha ela mais idade quando a usou Camões. Vocês no-la deram, como nos deram tudo o mais com que se fez o Brasil. E hoje ela faz parte essencial da nossa vida de povo, tal como faz parte da sua. Por nós tem sido enriquecida e fecundada. Se em Portugal acham que a maltratamos e a desfiguramos, é porque cada um tem sua maneira de amar e, nessas questões, o que é ortodoxia para uns é heresia espantosa para os outros.
Não, não me venha dizer que em Portugal não entendem o que escrevemos. E, fosse esse o caso, bastaria a aposição de um glossário no fim de cada livro para resolver as dúvidas. Mas o que nos propõe é outra coisa: é correção, é conserto de pronomes, é a revisão do caçanje brasileiro que fere o bom ouvido peninsular.
Acontece entretanto, meu caro amigo, que esse caçanje, que esses pronomes mal postos, que essa língua que lhes revolta o ouvido, é a nossa língua, é o nosso modo normal de expressão, é - ouso dizer - a nossa língua literária e artística. Já não temos outra e, voltar ao modelo inflexível da fala de Portugal, seria para nós, a esta altura, uma contrafação impossível e ridícula.
Digo mais: não acredito de modo nenhum que esse tal sistema de nos corrigir primeiro os livros para os entregar depois ao público português, represente um serviço à aproximação das duas culturas. Acho, ao contrário, que tal prática serve apenas para cultivar diferenças e marcar distâncias. Pode acariciar o vosso orgulho, mas fere fundo as nossas suscetibilidades, sem falar no quanto afeta a integridade e harmonia da nossa obra literária. Pois o que Portugal fica conhecendo, assim, não é literatura brasileira na sua forma espontânea e genuína, mas obra mutilada e remendada, necessariamente grotesca. Que sobrará de um texto meu, por exemplo, depois de ter os seus pronomes recolocados à portuguesa, depois de me trocarem as palavras próprias por outras "de mais fácil compreensão" - mas alheias? Talvez os escritos daqueles colegas muito mais importantes que me citou na sua carta, e que se submeteram às correções, resistissem galhardamente à cirurgia. Eles são tão grandes, tão ricos que, por mais que lhes tirem, sempre fica riqueza suficiente para encantar a qualquer um. Mas, eu, coitadinha, que será feito de mim se me cortam e me deturpam a pouca pobreza? Que restará? Não sou escritor de imaginação que componha bonitos enredos, nem traço retrato de uma época, nem sou capaz de profundezas de psicologia, nem criei nada de novo ou importante na ficção nacional. A pequena graça que me podem achar é neste jeito descansado de mulher do campo, que conta histórias do que conhece e do que ama. E como pode, de repente, essa sertaneja de fala cantada, desandar a trocar língua em puro alfacinha? [...]
Portugal cometeu um erro trágico quando, à volta de D. João VI ao reino, não quis reconhecer ao Brasil o seu estado de adulto e tentou devolvê-lo à menoridade. Por culpa desse erro, rompeu-se a união luso-brasileira. De dois países irmãos e unidos que poderíamos ser, passamos a dois estranhos. Atravessada a crise da Independência, restou-nos, o que não é pouco, o patrimônio comum da cultura e da língua. Mas é preciso que haja respeito e consideração recíprocos, para que tal patrimônio se mantenha indiviso e perfeito. Que haja igualdade de tratamento, de parte a parte. Nunca a um de nós ocorreria "adaptar" ao escrever e ao falar brasileiro, a obra do mais humilde escritor português. Que Portugal faça o mesmo conosco, procure nos entender e nos amar tais como somos, como nos fez o tempo e o gênio português transplantado às terras da América.
Afinal, o Brasil não é um filho bastardo de Portugal. É seu filho legítimo e, mais que isso, é o seu morgado - com todos os direitos e privilégios que estão inerentes à primogenitura.
(QUEIROZ, Rachel de. Um alpendre, uma rede, um açude: 100 escolhidas. São Paulo: Siciliano, 1993 - texto adaptado)
Assinale a opção em que o termo destacado NÃO exerce o papel de demonstrativo no trecho.
Texto II
CARTA DE UM EDITOR PORTUGUÊS
(Rachel de Queiroz)
"... A necessidade que se impõe para uma edição portuguesa de obras de autores brasileiros, de certas e inofensivas alterações, como sejam a deslocação de pronomes (em certos casos), harmonização da ortografia com as determinações do Acordo Luso-brasileiro - que em Portugal é cumprido - e uma ou outra substituição de termos pouco usados em Portugal ou que tenham sentido diferente daquele que o autor lhes quis dar."
O trecho que acima transcrevo são palavras de uma carta em que ilustre editor português me fez a gentileza de solicitar permissão para publicar livros meus; parece que só mediante tais condições é que autores brasileiros podem ser editados no Portugal europeu e ultramarino.
Pois a resposta que tenho a dar ao prezado editor português é a mesma que já lhe deu, tempos atrás, meu editor e meu amigo José Olympio: - Muito obrigada, mas assim, não.
A primeira interrogação que nos ocorre diante de tal projeto de "alterações", é esta: será verdade, realmente, que o público português não entende a língua portuguesa do Brasil, tal como a falamos?
Não haverá, na ideia dessas alterações, mais uma questão de prestígio que de necessidade? Convivo com grande número de portugueses entre amigos e parentes, e nunca nos desentendemos por incompreensão de palavras ou de modismos. E a língua falada, com as diferenças de sotaque e pronúncia, é muito mais difícil de entender que a língua escrita.
O Brasil é grande, todos o sabemos. E os sessenta milhões de brasileiros falamos e escrevemos de inúmeras maneiras a língua que nos deu Portugal. Compare-se um texto de Simões Lopes a outro de José Lins do Rego e notar-se-ão as infinitas diferenças que separam os dois, no vocabulário e na sintaxe. Mas ousaria um editor do Norte ou do Sul propor alterações nas páginas do paraibano para que o entendessem os gaúchos, ou nas do gaúcho para que o entendessem os paraibanos?
Meu caro amigo português, talvez essa ideia o irrite, mas a verdade é que, hoje, a sua língua é um patrimônio tanto nosso quanto seu. Sei que o trabalho de formá-la, assim bela e nobre, foi dos portugueses. Mas, também, já há quatrocentos anos que a amamos e a apuramos ao nosso modo. Nem tinha ela mais idade quando a usou Camões. Vocês no-la deram, como nos deram tudo o mais com que se fez o Brasil. E hoje ela faz parte essencial da nossa vida de povo, tal como faz parte da sua. Por nós tem sido enriquecida e fecundada. Se em Portugal acham que a maltratamos e a desfiguramos, é porque cada um tem sua maneira de amar e, nessas questões, o que é ortodoxia para uns é heresia espantosa para os outros.
Não, não me venha dizer que em Portugal não entendem o que escrevemos. E, fosse esse o caso, bastaria a aposição de um glossário no fim de cada livro para resolver as dúvidas. Mas o que nos propõe é outra coisa: é correção, é conserto de pronomes, é a revisão do caçanje brasileiro que fere o bom ouvido peninsular.
Acontece entretanto, meu caro amigo, que esse caçanje, que esses pronomes mal postos, que essa língua que lhes revolta o ouvido, é a nossa língua, é o nosso modo normal de expressão, é - ouso dizer - a nossa língua literária e artística. Já não temos outra e, voltar ao modelo inflexível da fala de Portugal, seria para nós, a esta altura, uma contrafação impossível e ridícula.
Digo mais: não acredito de modo nenhum que esse tal sistema de nos corrigir primeiro os livros para os entregar depois ao público português, represente um serviço à aproximação das duas culturas. Acho, ao contrário, que tal prática serve apenas para cultivar diferenças e marcar distâncias. Pode acariciar o vosso orgulho, mas fere fundo as nossas suscetibilidades, sem falar no quanto afeta a integridade e harmonia da nossa obra literária. Pois o que Portugal fica conhecendo, assim, não é literatura brasileira na sua forma espontânea e genuína, mas obra mutilada e remendada, necessariamente grotesca. Que sobrará de um texto meu, por exemplo, depois de ter os seus pronomes recolocados à portuguesa, depois de me trocarem as palavras próprias por outras "de mais fácil compreensão" - mas alheias? Talvez os escritos daqueles colegas muito mais importantes que me citou na sua carta, e que se submeteram às correções, resistissem galhardamente à cirurgia. Eles são tão grandes, tão ricos que, por mais que lhes tirem, sempre fica riqueza suficiente para encantar a qualquer um. Mas, eu, coitadinha, que será feito de mim se me cortam e me deturpam a pouca pobreza? Que restará? Não sou escritor de imaginação que componha bonitos enredos, nem traço retrato de uma época, nem sou capaz de profundezas de psicologia, nem criei nada de novo ou importante na ficção nacional. A pequena graça que me podem achar é neste jeito descansado de mulher do campo, que conta histórias do que conhece e do que ama. E como pode, de repente, essa sertaneja de fala cantada, desandar a trocar língua em puro alfacinha? [...]
Portugal cometeu um erro trágico quando, à volta de D. João VI ao reino, não quis reconhecer ao Brasil o seu estado de adulto e tentou devolvê-lo à menoridade. Por culpa desse erro, rompeu-se a união luso-brasileira. De dois países irmãos e unidos que poderíamos ser, passamos a dois estranhos. Atravessada a crise da Independência, restou-nos, o que não é pouco, o patrimônio comum da cultura e da língua. Mas é preciso que haja respeito e consideração recíprocos, para que tal patrimônio se mantenha indiviso e perfeito. Que haja igualdade de tratamento, de parte a parte. Nunca a um de nós ocorreria "adaptar" ao escrever e ao falar brasileiro, a obra do mais humilde escritor português. Que Portugal faça o mesmo conosco, procure nos entender e nos amar tais como somos, como nos fez o tempo e o gênio português transplantado às terras da América.
Afinal, o Brasil não é um filho bastardo de Portugal. É seu filho legítimo e, mais que isso, é o seu morgado - com todos os direitos e privilégios que estão inerentes à primogenitura.
(QUEIROZ, Rachel de. Um alpendre, uma rede, um açude: 100 escolhidas. São Paulo: Siciliano, 1993 - texto adaptado)
Assinale a opção que apresenta corretamente o processo de formação da palavra destacada.
Texto II
CARTA DE UM EDITOR PORTUGUÊS
(Rachel de Queiroz)
"... A necessidade que se impõe para uma edição portuguesa de obras de autores brasileiros, de certas e inofensivas alterações, como sejam a deslocação de pronomes (em certos casos), harmonização da ortografia com as determinações do Acordo Luso-brasileiro - que em Portugal é cumprido - e uma ou outra substituição de termos pouco usados em Portugal ou que tenham sentido diferente daquele que o autor lhes quis dar."
O trecho que acima transcrevo são palavras de uma carta em que ilustre editor português me fez a gentileza de solicitar permissão para publicar livros meus; parece que só mediante tais condições é que autores brasileiros podem ser editados no Portugal europeu e ultramarino.
Pois a resposta que tenho a dar ao prezado editor português é a mesma que já lhe deu, tempos atrás, meu editor e meu amigo José Olympio: - Muito obrigada, mas assim, não.
A primeira interrogação que nos ocorre diante de tal projeto de "alterações", é esta: será verdade, realmente, que o público português não entende a língua portuguesa do Brasil, tal como a falamos?
Não haverá, na ideia dessas alterações, mais uma questão de prestígio que de necessidade? Convivo com grande número de portugueses entre amigos e parentes, e nunca nos desentendemos por incompreensão de palavras ou de modismos. E a língua falada, com as diferenças de sotaque e pronúncia, é muito mais difícil de entender que a língua escrita.
O Brasil é grande, todos o sabemos. E os sessenta milhões de brasileiros falamos e escrevemos de inúmeras maneiras a língua que nos deu Portugal. Compare-se um texto de Simões Lopes a outro de José Lins do Rego e notar-se-ão as infinitas diferenças que separam os dois, no vocabulário e na sintaxe. Mas ousaria um editor do Norte ou do Sul propor alterações nas páginas do paraibano para que o entendessem os gaúchos, ou nas do gaúcho para que o entendessem os paraibanos?
Meu caro amigo português, talvez essa ideia o irrite, mas a verdade é que, hoje, a sua língua é um patrimônio tanto nosso quanto seu. Sei que o trabalho de formá-la, assim bela e nobre, foi dos portugueses. Mas, também, já há quatrocentos anos que a amamos e a apuramos ao nosso modo. Nem tinha ela mais idade quando a usou Camões. Vocês no-la deram, como nos deram tudo o mais com que se fez o Brasil. E hoje ela faz parte essencial da nossa vida de povo, tal como faz parte da sua. Por nós tem sido enriquecida e fecundada. Se em Portugal acham que a maltratamos e a desfiguramos, é porque cada um tem sua maneira de amar e, nessas questões, o que é ortodoxia para uns é heresia espantosa para os outros.
Não, não me venha dizer que em Portugal não entendem o que escrevemos. E, fosse esse o caso, bastaria a aposição de um glossário no fim de cada livro para resolver as dúvidas. Mas o que nos propõe é outra coisa: é correção, é conserto de pronomes, é a revisão do caçanje brasileiro que fere o bom ouvido peninsular.
Acontece entretanto, meu caro amigo, que esse caçanje, que esses pronomes mal postos, que essa língua que lhes revolta o ouvido, é a nossa língua, é o nosso modo normal de expressão, é - ouso dizer - a nossa língua literária e artística. Já não temos outra e, voltar ao modelo inflexível da fala de Portugal, seria para nós, a esta altura, uma contrafação impossível e ridícula.
Digo mais: não acredito de modo nenhum que esse tal sistema de nos corrigir primeiro os livros para os entregar depois ao público português, represente um serviço à aproximação das duas culturas. Acho, ao contrário, que tal prática serve apenas para cultivar diferenças e marcar distâncias. Pode acariciar o vosso orgulho, mas fere fundo as nossas suscetibilidades, sem falar no quanto afeta a integridade e harmonia da nossa obra literária. Pois o que Portugal fica conhecendo, assim, não é literatura brasileira na sua forma espontânea e genuína, mas obra mutilada e remendada, necessariamente grotesca. Que sobrará de um texto meu, por exemplo, depois de ter os seus pronomes recolocados à portuguesa, depois de me trocarem as palavras próprias por outras "de mais fácil compreensão" - mas alheias? Talvez os escritos daqueles colegas muito mais importantes que me citou na sua carta, e que se submeteram às correções, resistissem galhardamente à cirurgia. Eles são tão grandes, tão ricos que, por mais que lhes tirem, sempre fica riqueza suficiente para encantar a qualquer um. Mas, eu, coitadinha, que será feito de mim se me cortam e me deturpam a pouca pobreza? Que restará? Não sou escritor de imaginação que componha bonitos enredos, nem traço retrato de uma época, nem sou capaz de profundezas de psicologia, nem criei nada de novo ou importante na ficção nacional. A pequena graça que me podem achar é neste jeito descansado de mulher do campo, que conta histórias do que conhece e do que ama. E como pode, de repente, essa sertaneja de fala cantada, desandar a trocar língua em puro alfacinha? [...]
Portugal cometeu um erro trágico quando, à volta de D. João VI ao reino, não quis reconhecer ao Brasil o seu estado de adulto e tentou devolvê-lo à menoridade. Por culpa desse erro, rompeu-se a união luso-brasileira. De dois países irmãos e unidos que poderíamos ser, passamos a dois estranhos. Atravessada a crise da Independência, restou-nos, o que não é pouco, o patrimônio comum da cultura e da língua. Mas é preciso que haja respeito e consideração recíprocos, para que tal patrimônio se mantenha indiviso e perfeito. Que haja igualdade de tratamento, de parte a parte. Nunca a um de nós ocorreria "adaptar" ao escrever e ao falar brasileiro, a obra do mais humilde escritor português. Que Portugal faça o mesmo conosco, procure nos entender e nos amar tais como somos, como nos fez o tempo e o gênio português transplantado às terras da América.
Afinal, o Brasil não é um filho bastardo de Portugal. É seu filho legítimo e, mais que isso, é o seu morgado - com todos os direitos e privilégios que estão inerentes à primogenitura.
(QUEIROZ, Rachel de. Um alpendre, uma rede, um açude: 100 escolhidas. São Paulo: Siciliano, 1993 - texto adaptado)
Leia o trecho abaixo para responder à questão.
"A pequena graça que me podem achar é neste jeito descansado de mulher do campo, que conta histórias do que conhece e do que ama." (9º§)
Assinale a opção em que a reescritura do trecho citado mantém seu sentido original e respeita a norma padrão da língua.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto II
CARTA DE UM EDITOR PORTUGUÊS
(Rachel de Queiroz)
"... A necessidade que se impõe para uma edição portuguesa de obras de autores brasileiros, de certas e inofensivas alterações, como sejam a deslocação de pronomes (em certos casos), harmonização da ortografia com as determinações do Acordo Luso-brasileiro - que em Portugal é cumprido - e uma ou outra substituição de termos pouco usados em Portugal ou que tenham sentido diferente daquele que o autor lhes quis dar."
O trecho que acima transcrevo são palavras de uma carta em que ilustre editor português me fez a gentileza de solicitar permissão para publicar livros meus; parece que só mediante tais condições é que autores brasileiros podem ser editados no Portugal europeu e ultramarino.
Pois a resposta que tenho a dar ao prezado editor português é a mesma que já lhe deu, tempos atrás, meu editor e meu amigo José Olympio: - Muito obrigada, mas assim, não.
A primeira interrogação que nos ocorre diante de tal projeto de "alterações", é esta: será verdade, realmente, que o público português não entende a língua portuguesa do Brasil, tal como a falamos?
Não haverá, na ideia dessas alterações, mais uma questão de prestígio que de necessidade? Convivo com grande número de portugueses entre amigos e parentes, e nunca nos desentendemos por incompreensão de palavras ou de modismos. E a língua falada, com as diferenças de sotaque e pronúncia, é muito mais difícil de entender que a língua escrita.
O Brasil é grande, todos o sabemos. E os sessenta milhões de brasileiros falamos e escrevemos de inúmeras maneiras a língua que nos deu Portugal. Compare-se um texto de Simões Lopes a outro de José Lins do Rego e notar-se-ão as infinitas diferenças que separam os dois, no vocabulário e na sintaxe. Mas ousaria um editor do Norte ou do Sul propor alterações nas páginas do paraibano para que o entendessem os gaúchos, ou nas do gaúcho para que o entendessem os paraibanos?
Meu caro amigo português, talvez essa ideia o irrite, mas a verdade é que, hoje, a sua língua é um patrimônio tanto nosso quanto seu. Sei que o trabalho de formá-la, assim bela e nobre, foi dos portugueses. Mas, também, já há quatrocentos anos que a amamos e a apuramos ao nosso modo. Nem tinha ela mais idade quando a usou Camões. Vocês no-la deram, como nos deram tudo o mais com que se fez o Brasil. E hoje ela faz parte essencial da nossa vida de povo, tal como faz parte da sua. Por nós tem sido enriquecida e fecundada. Se em Portugal acham que a maltratamos e a desfiguramos, é porque cada um tem sua maneira de amar e, nessas questões, o que é ortodoxia para uns é heresia espantosa para os outros.
Não, não me venha dizer que em Portugal não entendem o que escrevemos. E, fosse esse o caso, bastaria a aposição de um glossário no fim de cada livro para resolver as dúvidas. Mas o que nos propõe é outra coisa: é correção, é conserto de pronomes, é a revisão do caçanje brasileiro que fere o bom ouvido peninsular.
Acontece entretanto, meu caro amigo, que esse caçanje, que esses pronomes mal postos, que essa língua que lhes revolta o ouvido, é a nossa língua, é o nosso modo normal de expressão, é - ouso dizer - a nossa língua literária e artística. Já não temos outra e, voltar ao modelo inflexível da fala de Portugal, seria para nós, a esta altura, uma contrafação impossível e ridícula.
Digo mais: não acredito de modo nenhum que esse tal sistema de nos corrigir primeiro os livros para os entregar depois ao público português, represente um serviço à aproximação das duas culturas. Acho, ao contrário, que tal prática serve apenas para cultivar diferenças e marcar distâncias. Pode acariciar o vosso orgulho, mas fere fundo as nossas suscetibilidades, sem falar no quanto afeta a integridade e harmonia da nossa obra literária. Pois o que Portugal fica conhecendo, assim, não é literatura brasileira na sua forma espontânea e genuína, mas obra mutilada e remendada, necessariamente grotesca. Que sobrará de um texto meu, por exemplo, depois de ter os seus pronomes recolocados à portuguesa, depois de me trocarem as palavras próprias por outras "de mais fácil compreensão" - mas alheias? Talvez os escritos daqueles colegas muito mais importantes que me citou na sua carta, e que se submeteram às correções, resistissem galhardamente à cirurgia. Eles são tão grandes, tão ricos que, por mais que lhes tirem, sempre fica riqueza suficiente para encantar a qualquer um. Mas, eu, coitadinha, que será feito de mim se me cortam e me deturpam a pouca pobreza? Que restará? Não sou escritor de imaginação que componha bonitos enredos, nem traço retrato de uma época, nem sou capaz de profundezas de psicologia, nem criei nada de novo ou importante na ficção nacional. A pequena graça que me podem achar é neste jeito descansado de mulher do campo, que conta histórias do que conhece e do que ama. E como pode, de repente, essa sertaneja de fala cantada, desandar a trocar língua em puro alfacinha? [...]
Portugal cometeu um erro trágico quando, à volta de D. João VI ao reino, não quis reconhecer ao Brasil o seu estado de adulto e tentou devolvê-lo à menoridade. Por culpa desse erro, rompeu-se a união luso-brasileira. De dois países irmãos e unidos que poderíamos ser, passamos a dois estranhos. Atravessada a crise da Independência, restou-nos, o que não é pouco, o patrimônio comum da cultura e da língua. Mas é preciso que haja respeito e consideração recíprocos, para que tal patrimônio se mantenha indiviso e perfeito. Que haja igualdade de tratamento, de parte a parte. Nunca a um de nós ocorreria "adaptar" ao escrever e ao falar brasileiro, a obra do mais humilde escritor português. Que Portugal faça o mesmo conosco, procure nos entender e nos amar tais como somos, como nos fez o tempo e o gênio português transplantado às terras da América.
Afinal, o Brasil não é um filho bastardo de Portugal. É seu filho legítimo e, mais que isso, é o seu morgado - com todos os direitos e privilégios que estão inerentes à primogenitura.
(QUEIROZ, Rachel de. Um alpendre, uma rede, um açude: 100 escolhidas. São Paulo: Siciliano, 1993 - texto adaptado)
Leia o trecho a seguir.
"Talvez os escritos daqueles colegas muito mais importantes que me citou na sua carta, e que se submeteram às correções, resistissem galhardamente à cirurgia. Eles são tão grandes, tão ricos que, por mais que lhes tirem, sempre fica riqueza suficiente para encantar a qualquer um." (9º§)
Assinale a opção que apresenta corretamente o tipo de relação pragmático-discursiva estabelecida entre os períodos do trecho acima.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto II
CARTA DE UM EDITOR PORTUGUÊS
(Rachel de Queiroz)
"... A necessidade que se impõe para uma edição portuguesa de obras de autores brasileiros, de certas e inofensivas alterações, como sejam a deslocação de pronomes (em certos casos), harmonização da ortografia com as determinações do Acordo Luso-brasileiro - que em Portugal é cumprido - e uma ou outra substituição de termos pouco usados em Portugal ou que tenham sentido diferente daquele que o autor lhes quis dar."
O trecho que acima transcrevo são palavras de uma carta em que ilustre editor português me fez a gentileza de solicitar permissão para publicar livros meus; parece que só mediante tais condições é que autores brasileiros podem ser editados no Portugal europeu e ultramarino.
Pois a resposta que tenho a dar ao prezado editor português é a mesma que já lhe deu, tempos atrás, meu editor e meu amigo José Olympio: - Muito obrigada, mas assim, não.
A primeira interrogação que nos ocorre diante de tal projeto de "alterações", é esta: será verdade, realmente, que o público português não entende a língua portuguesa do Brasil, tal como a falamos?
Não haverá, na ideia dessas alterações, mais uma questão de prestígio que de necessidade? Convivo com grande número de portugueses entre amigos e parentes, e nunca nos desentendemos por incompreensão de palavras ou de modismos. E a língua falada, com as diferenças de sotaque e pronúncia, é muito mais difícil de entender que a língua escrita.
O Brasil é grande, todos o sabemos. E os sessenta milhões de brasileiros falamos e escrevemos de inúmeras maneiras a língua que nos deu Portugal. Compare-se um texto de Simões Lopes a outro de José Lins do Rego e notar-se-ão as infinitas diferenças que separam os dois, no vocabulário e na sintaxe. Mas ousaria um editor do Norte ou do Sul propor alterações nas páginas do paraibano para que o entendessem os gaúchos, ou nas do gaúcho para que o entendessem os paraibanos?
Meu caro amigo português, talvez essa ideia o irrite, mas a verdade é que, hoje, a sua língua é um patrimônio tanto nosso quanto seu. Sei que o trabalho de formá-la, assim bela e nobre, foi dos portugueses. Mas, também, já há quatrocentos anos que a amamos e a apuramos ao nosso modo. Nem tinha ela mais idade quando a usou Camões. Vocês no-la deram, como nos deram tudo o mais com que se fez o Brasil. E hoje ela faz parte essencial da nossa vida de povo, tal como faz parte da sua. Por nós tem sido enriquecida e fecundada. Se em Portugal acham que a maltratamos e a desfiguramos, é porque cada um tem sua maneira de amar e, nessas questões, o que é ortodoxia para uns é heresia espantosa para os outros.
Não, não me venha dizer que em Portugal não entendem o que escrevemos. E, fosse esse o caso, bastaria a aposição de um glossário no fim de cada livro para resolver as dúvidas. Mas o que nos propõe é outra coisa: é correção, é conserto de pronomes, é a revisão do caçanje brasileiro que fere o bom ouvido peninsular.
Acontece entretanto, meu caro amigo, que esse caçanje, que esses pronomes mal postos, que essa língua que lhes revolta o ouvido, é a nossa língua, é o nosso modo normal de expressão, é - ouso dizer - a nossa língua literária e artística. Já não temos outra e, voltar ao modelo inflexível da fala de Portugal, seria para nós, a esta altura, uma contrafação impossível e ridícula.
Digo mais: não acredito de modo nenhum que esse tal sistema de nos corrigir primeiro os livros para os entregar depois ao público português, represente um serviço à aproximação das duas culturas. Acho, ao contrário, que tal prática serve apenas para cultivar diferenças e marcar distâncias. Pode acariciar o vosso orgulho, mas fere fundo as nossas suscetibilidades, sem falar no quanto afeta a integridade e harmonia da nossa obra literária. Pois o que Portugal fica conhecendo, assim, não é literatura brasileira na sua forma espontânea e genuína, mas obra mutilada e remendada, necessariamente grotesca. Que sobrará de um texto meu, por exemplo, depois de ter os seus pronomes recolocados à portuguesa, depois de me trocarem as palavras próprias por outras "de mais fácil compreensão" - mas alheias? Talvez os escritos daqueles colegas muito mais importantes que me citou na sua carta, e que se submeteram às correções, resistissem galhardamente à cirurgia. Eles são tão grandes, tão ricos que, por mais que lhes tirem, sempre fica riqueza suficiente para encantar a qualquer um. Mas, eu, coitadinha, que será feito de mim se me cortam e me deturpam a pouca pobreza? Que restará? Não sou escritor de imaginação que componha bonitos enredos, nem traço retrato de uma época, nem sou capaz de profundezas de psicologia, nem criei nada de novo ou importante na ficção nacional. A pequena graça que me podem achar é neste jeito descansado de mulher do campo, que conta histórias do que conhece e do que ama. E como pode, de repente, essa sertaneja de fala cantada, desandar a trocar língua em puro alfacinha? [...]
Portugal cometeu um erro trágico quando, à volta de D. João VI ao reino, não quis reconhecer ao Brasil o seu estado de adulto e tentou devolvê-lo à menoridade. Por culpa desse erro, rompeu-se a união luso-brasileira. De dois países irmãos e unidos que poderíamos ser, passamos a dois estranhos. Atravessada a crise da Independência, restou-nos, o que não é pouco, o patrimônio comum da cultura e da língua. Mas é preciso que haja respeito e consideração recíprocos, para que tal patrimônio se mantenha indiviso e perfeito. Que haja igualdade de tratamento, de parte a parte. Nunca a um de nós ocorreria "adaptar" ao escrever e ao falar brasileiro, a obra do mais humilde escritor português. Que Portugal faça o mesmo conosco, procure nos entender e nos amar tais como somos, como nos fez o tempo e o gênio português transplantado às terras da América.
Afinal, o Brasil não é um filho bastardo de Portugal. É seu filho legítimo e, mais que isso, é o seu morgado - com todos os direitos e privilégios que estão inerentes à primogenitura.
(QUEIROZ, Rachel de. Um alpendre, uma rede, um açude: 100 escolhidas. São Paulo: Siciliano, 1993 - texto adaptado)
Leia o fragmento a seguir:
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Assinale a opção em que a flexão do verbo se dá pela mesma regra usada com a forma verbal destacada acima.
Texto II
CARTA DE UM EDITOR PORTUGUÊS
(Rachel de Queiroz)
"... A necessidade que se impõe para uma edição portuguesa de obras de autores brasileiros, de certas e inofensivas alterações, como sejam a deslocação de pronomes (em certos casos), harmonização da ortografia com as determinações do Acordo Luso-brasileiro - que em Portugal é cumprido - e uma ou outra substituição de termos pouco usados em Portugal ou que tenham sentido diferente daquele que o autor lhes quis dar."
O trecho que acima transcrevo são palavras de uma carta em que ilustre editor português me fez a gentileza de solicitar permissão para publicar livros meus; parece que só mediante tais condições é que autores brasileiros podem ser editados no Portugal europeu e ultramarino.
Pois a resposta que tenho a dar ao prezado editor português é a mesma que já lhe deu, tempos atrás, meu editor e meu amigo José Olympio: - Muito obrigada, mas assim, não.
A primeira interrogação que nos ocorre diante de tal projeto de "alterações", é esta: será verdade, realmente, que o público português não entende a língua portuguesa do Brasil, tal como a falamos?
Não haverá, na ideia dessas alterações, mais uma questão de prestígio que de necessidade? Convivo com grande número de portugueses entre amigos e parentes, e nunca nos desentendemos por incompreensão de palavras ou de modismos. E a língua falada, com as diferenças de sotaque e pronúncia, é muito mais difícil de entender que a língua escrita.
O Brasil é grande, todos o sabemos. E os sessenta milhões de brasileiros falamos e escrevemos de inúmeras maneiras a língua que nos deu Portugal. Compare-se um texto de Simões Lopes a outro de José Lins do Rego e notar-se-ão as infinitas diferenças que separam os dois, no vocabulário e na sintaxe. Mas ousaria um editor do Norte ou do Sul propor alterações nas páginas do paraibano para que o entendessem os gaúchos, ou nas do gaúcho para que o entendessem os paraibanos?
Meu caro amigo português, talvez essa ideia o irrite, mas a verdade é que, hoje, a sua língua é um patrimônio tanto nosso quanto seu. Sei que o trabalho de formá-la, assim bela e nobre, foi dos portugueses. Mas, também, já há quatrocentos anos que a amamos e a apuramos ao nosso modo. Nem tinha ela mais idade quando a usou Camões. Vocês no-la deram, como nos deram tudo o mais com que se fez o Brasil. E hoje ela faz parte essencial da nossa vida de povo, tal como faz parte da sua. Por nós tem sido enriquecida e fecundada. Se em Portugal acham que a maltratamos e a desfiguramos, é porque cada um tem sua maneira de amar e, nessas questões, o que é ortodoxia para uns é heresia espantosa para os outros.
Não, não me venha dizer que em Portugal não entendem o que escrevemos. E, fosse esse o caso, bastaria a aposição de um glossário no fim de cada livro para resolver as dúvidas. Mas o que nos propõe é outra coisa: é correção, é conserto de pronomes, é a revisão do caçanje brasileiro que fere o bom ouvido peninsular.
Acontece entretanto, meu caro amigo, que esse caçanje, que esses pronomes mal postos, que essa língua que lhes revolta o ouvido, é a nossa língua, é o nosso modo normal de expressão, é - ouso dizer - a nossa língua literária e artística. Já não temos outra e, voltar ao modelo inflexível da fala de Portugal, seria para nós, a esta altura, uma contrafação impossível e ridícula.
Digo mais: não acredito de modo nenhum que esse tal sistema de nos corrigir primeiro os livros para os entregar depois ao público português, represente um serviço à aproximação das duas culturas. Acho, ao contrário, que tal prática serve apenas para cultivar diferenças e marcar distâncias. Pode acariciar o vosso orgulho, mas fere fundo as nossas suscetibilidades, sem falar no quanto afeta a integridade e harmonia da nossa obra literária. Pois o que Portugal fica conhecendo, assim, não é literatura brasileira na sua forma espontânea e genuína, mas obra mutilada e remendada, necessariamente grotesca. Que sobrará de um texto meu, por exemplo, depois de ter os seus pronomes recolocados à portuguesa, depois de me trocarem as palavras próprias por outras "de mais fácil compreensão" - mas alheias? Talvez os escritos daqueles colegas muito mais importantes que me citou na sua carta, e que se submeteram às correções, resistissem galhardamente à cirurgia. Eles são tão grandes, tão ricos que, por mais que lhes tirem, sempre fica riqueza suficiente para encantar a qualquer um. Mas, eu, coitadinha, que será feito de mim se me cortam e me deturpam a pouca pobreza? Que restará? Não sou escritor de imaginação que componha bonitos enredos, nem traço retrato de uma época, nem sou capaz de profundezas de psicologia, nem criei nada de novo ou importante na ficção nacional. A pequena graça que me podem achar é neste jeito descansado de mulher do campo, que conta histórias do que conhece e do que ama. E como pode, de repente, essa sertaneja de fala cantada, desandar a trocar língua em puro alfacinha? [...]
Portugal cometeu um erro trágico quando, à volta de D. João VI ao reino, não quis reconhecer ao Brasil o seu estado de adulto e tentou devolvê-lo à menoridade. Por culpa desse erro, rompeu-se a união luso-brasileira. De dois países irmãos e unidos que poderíamos ser, passamos a dois estranhos. Atravessada a crise da Independência, restou-nos, o que não é pouco, o patrimônio comum da cultura e da língua. Mas é preciso que haja respeito e consideração recíprocos, para que tal patrimônio se mantenha indiviso e perfeito. Que haja igualdade de tratamento, de parte a parte. Nunca a um de nós ocorreria "adaptar" ao escrever e ao falar brasileiro, a obra do mais humilde escritor português. Que Portugal faça o mesmo conosco, procure nos entender e nos amar tais como somos, como nos fez o tempo e o gênio português transplantado às terras da América.
Afinal, o Brasil não é um filho bastardo de Portugal. É seu filho legítimo e, mais que isso, é o seu morgado - com todos os direitos e privilégios que estão inerentes à primogenitura.
(QUEIROZ, Rachel de. Um alpendre, uma rede, um açude: 100 escolhidas. São Paulo: Siciliano, 1993 - texto adaptado)
Assinale a opção em que a informação implícita no enunciado está corretamente indicada.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto II
CARTA DE UM EDITOR PORTUGUÊS
(Rachel de Queiroz)
"... A necessidade que se impõe para uma edição portuguesa de obras de autores brasileiros, de certas e inofensivas alterações, como sejam a deslocação de pronomes (em certos casos), harmonização da ortografia com as determinações do Acordo Luso-brasileiro - que em Portugal é cumprido - e uma ou outra substituição de termos pouco usados em Portugal ou que tenham sentido diferente daquele que o autor lhes quis dar."
O trecho que acima transcrevo são palavras de uma carta em que ilustre editor português me fez a gentileza de solicitar permissão para publicar livros meus; parece que só mediante tais condições é que autores brasileiros podem ser editados no Portugal europeu e ultramarino.
Pois a resposta que tenho a dar ao prezado editor português é a mesma que já lhe deu, tempos atrás, meu editor e meu amigo José Olympio: - Muito obrigada, mas assim, não.
A primeira interrogação que nos ocorre diante de tal projeto de "alterações", é esta: será verdade, realmente, que o público português não entende a língua portuguesa do Brasil, tal como a falamos?
Não haverá, na ideia dessas alterações, mais uma questão de prestígio que de necessidade? Convivo com grande número de portugueses entre amigos e parentes, e nunca nos desentendemos por incompreensão de palavras ou de modismos. E a língua falada, com as diferenças de sotaque e pronúncia, é muito mais difícil de entender que a língua escrita.
O Brasil é grande, todos o sabemos. E os sessenta milhões de brasileiros falamos e escrevemos de inúmeras maneiras a língua que nos deu Portugal. Compare-se um texto de Simões Lopes a outro de José Lins do Rego e notar-se-ão as infinitas diferenças que separam os dois, no vocabulário e na sintaxe. Mas ousaria um editor do Norte ou do Sul propor alterações nas páginas do paraibano para que o entendessem os gaúchos, ou nas do gaúcho para que o entendessem os paraibanos?
Meu caro amigo português, talvez essa ideia o irrite, mas a verdade é que, hoje, a sua língua é um patrimônio tanto nosso quanto seu. Sei que o trabalho de formá-la, assim bela e nobre, foi dos portugueses. Mas, também, já há quatrocentos anos que a amamos e a apuramos ao nosso modo. Nem tinha ela mais idade quando a usou Camões. Vocês no-la deram, como nos deram tudo o mais com que se fez o Brasil. E hoje ela faz parte essencial da nossa vida de povo, tal como faz parte da sua. Por nós tem sido enriquecida e fecundada. Se em Portugal acham que a maltratamos e a desfiguramos, é porque cada um tem sua maneira de amar e, nessas questões, o que é ortodoxia para uns é heresia espantosa para os outros.
Não, não me venha dizer que em Portugal não entendem o que escrevemos. E, fosse esse o caso, bastaria a aposição de um glossário no fim de cada livro para resolver as dúvidas. Mas o que nos propõe é outra coisa: é correção, é conserto de pronomes, é a revisão do caçanje brasileiro que fere o bom ouvido peninsular.
Acontece entretanto, meu caro amigo, que esse caçanje, que esses pronomes mal postos, que essa língua que lhes revolta o ouvido, é a nossa língua, é o nosso modo normal de expressão, é - ouso dizer - a nossa língua literária e artística. Já não temos outra e, voltar ao modelo inflexível da fala de Portugal, seria para nós, a esta altura, uma contrafação impossível e ridícula.
Digo mais: não acredito de modo nenhum que esse tal sistema de nos corrigir primeiro os livros para os entregar depois ao público português, represente um serviço à aproximação das duas culturas. Acho, ao contrário, que tal prática serve apenas para cultivar diferenças e marcar distâncias. Pode acariciar o vosso orgulho, mas fere fundo as nossas suscetibilidades, sem falar no quanto afeta a integridade e harmonia da nossa obra literária. Pois o que Portugal fica conhecendo, assim, não é literatura brasileira na sua forma espontânea e genuína, mas obra mutilada e remendada, necessariamente grotesca. Que sobrará de um texto meu, por exemplo, depois de ter os seus pronomes recolocados à portuguesa, depois de me trocarem as palavras próprias por outras "de mais fácil compreensão" - mas alheias? Talvez os escritos daqueles colegas muito mais importantes que me citou na sua carta, e que se submeteram às correções, resistissem galhardamente à cirurgia. Eles são tão grandes, tão ricos que, por mais que lhes tirem, sempre fica riqueza suficiente para encantar a qualquer um. Mas, eu, coitadinha, que será feito de mim se me cortam e me deturpam a pouca pobreza? Que restará? Não sou escritor de imaginação que componha bonitos enredos, nem traço retrato de uma época, nem sou capaz de profundezas de psicologia, nem criei nada de novo ou importante na ficção nacional. A pequena graça que me podem achar é neste jeito descansado de mulher do campo, que conta histórias do que conhece e do que ama. E como pode, de repente, essa sertaneja de fala cantada, desandar a trocar língua em puro alfacinha? [...]
Portugal cometeu um erro trágico quando, à volta de D. João VI ao reino, não quis reconhecer ao Brasil o seu estado de adulto e tentou devolvê-lo à menoridade. Por culpa desse erro, rompeu-se a união luso-brasileira. De dois países irmãos e unidos que poderíamos ser, passamos a dois estranhos. Atravessada a crise da Independência, restou-nos, o que não é pouco, o patrimônio comum da cultura e da língua. Mas é preciso que haja respeito e consideração recíprocos, para que tal patrimônio se mantenha indiviso e perfeito. Que haja igualdade de tratamento, de parte a parte. Nunca a um de nós ocorreria "adaptar" ao escrever e ao falar brasileiro, a obra do mais humilde escritor português. Que Portugal faça o mesmo conosco, procure nos entender e nos amar tais como somos, como nos fez o tempo e o gênio português transplantado às terras da América.
Afinal, o Brasil não é um filho bastardo de Portugal. É seu filho legítimo e, mais que isso, é o seu morgado - com todos os direitos e privilégios que estão inerentes à primogenitura.
(QUEIROZ, Rachel de. Um alpendre, uma rede, um açude: 100 escolhidas. São Paulo: Siciliano, 1993 - texto adaptado)
Leia o trecho a seguir.
"Vocês no-la deram, como nos deram tudo o mais com que se fez o Brasil. E hoje ela faz parte essencial da nossa vida de povo, tal como faz parte da sua. Por nós tem sido enriquecida e fecundada." (6º§)
Assinale a opção em que a reescritura do trecho acima está de acordo com a norma-padrão e não altera as relações de sentido entre as orações.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto III
A LUZ DA NOSSA LÍNGUA
O incêndio que atingiu o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, não provocou piores danos - excetuando a perda, sempre irreparável, de uma vida humana - pela simples razão de aquilo que nele se mostrava ser resistente ao fogo. A língua portuguesa é patrimônio imaterial. Não há incêndio capaz de a devorar, a não ser o da ignorância.
Inaugurado em março de 2006, o Museu da Língua Portuguesa, ou Estação Luz da Nossa Língua, teve sucesso imediato. Tal sucesso justifica-se pela qualidade da mostra principal e das exposições temporárias entretanto realizadas; o principal motivo, contudo, tem a ver simplesmente com o fato de ser tão necessário. O museu faz sucesso porque precisamos dele. O que surpreende é não ter surgido mais cedo. O que espanta é que não existam em todos os países e territórios onde se fala a nossa língua, bem como em todos os estados brasileiros, estruturas semelhantes.
Compreender como se formou e afirmou a língua que falamos, conhecer as diferentes variantes do português, ajuda-nos a perceber melhor a história do mundo e - acredito - pode tornar-nos um pouco mais abertos ao outro. O pensamento xenófobo e racista que volta e meia aflora, como uma doença repugnante, em certas franjas das sociedades brasileira e portuguesa, é, em larga medida, uma expressão da ignorância da história da língua que nos deu origem.
Acredito que existe hoje um maior conhecimento mútuo das diferentes variantes da língua portuguesa, desde logo porque as novas tecnologias tendem a derrubar fronteiras. Persiste, mesmo assim, muita ignorância. Recordo certa ocasião, há alguns anos, quando, em viagem pelo interior de Pernambuco, parei junto a um pequeno bar para pedir informações. O rapaz que me recebeu não compreendeu o meu sotaque. Repeti a mesma questão uma e outra vez, sem qualquer sucesso. Tentei de novo, mas dessa vez com o meu melhor sotaque pernambucano. O rosto do rapaz iluminou-se: "Moço, se você fala português, por que estava falando comigo em estrangeiro?".
Numa outra ocasião, no Rio, um taxista, estranhando o meu sotaque, quis saber de onde eu vinha. "Angola?! E em que estado fica isso?" Quando lhe expliquei que Angola é um país, na costa ocidental de África, fez questão de me parabenizar pela qualidade do meu português. Disse-lhe que em Angola também falamos português: "Jura?!" - retorquiu. - "Pensei que só no Brasil se falasse português".
Se nós criamos as línguas, as línguas também nos criam a nós. Não é a mesma coisa crescer falando português, tupi ou swahili. Um dos meus sobrinhos, Samuel, nasceu e cresceu em Luxemburgo, filho de pai luxemburguês. Aprendeu a falar português com a mãe e luxemburguês e alemão com o pai. Como os pais falavam um com o outro em francês, domina também essa língua desde o berço. Sempre que muda do português para o alemão, e deste para o francês ou o luxemburguês, há alguma coisa em Samuel, um sutil aspeto da personalidade, que parece se alterar também. É como se coexistissem dentro dele várias pessoas, cada uma se exprimindo num idioma diferente.
Em Cabo Verde, o bilinguismo é uma situação vulgar. As pessoas falam naturalmente duas línguas maternas, o português e o crioulo. Fascina-me a forma como os cabo-verdianos cultos trocam de língua, enquanto conversam, dependendo do tema e do interlocutor. Ao mudarem do crioulo para o português, verifica-se também uma ligeira mudança de personalidade. Um cabo-verdiano ao falar português torna-se um tudo-nada mais formal. Não por acaso, a esmagadora maioria da riquíssima música cabo-verdiana usa o crioulo, ao passo que a língua portuguesa reina quase isolada na literatura.
Uma das consequências ainda menos estudadas do triunfo das redes sociais tem a ver com o regresso da comunicação escrita, e com uma maior atenção prestada aos idiomas utilizados nessa comunicação. O bom domínio da língua é uma condição cada vez mais valorizada na hora de escolher amigos e parceiros.
Espero assistir, em 2016, à reabertura do Museu da Língua Portuguesa. Espero que a tragédia que agora o atingiu, em vez de o diminuir, possa servir para chamar a atenção para a sua importância e que este ressurja - à imagem da própria língua - mais pujante e mais diverso do que nunca.
(AGUALUSA, José Eduardo. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/cultura/a-luz-da-nossa-lingua-18371130> - texto adaptado)
Leia o trecho a seguir:
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Assinale a opção que pode substituir a expressão em destaque no trecho, mantendo o mesmo sentido e respeitando as normas gramaticais.
Texto III
A LUZ DA NOSSA LÍNGUA
O incêndio que atingiu o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, não provocou piores danos - excetuando a perda, sempre irreparável, de uma vida humana - pela simples razão de aquilo que nele se mostrava ser resistente ao fogo. A língua portuguesa é patrimônio imaterial. Não há incêndio capaz de a devorar, a não ser o da ignorância.
Inaugurado em março de 2006, o Museu da Língua Portuguesa, ou Estação Luz da Nossa Língua, teve sucesso imediato. Tal sucesso justifica-se pela qualidade da mostra principal e das exposições temporárias entretanto realizadas; o principal motivo, contudo, tem a ver simplesmente com o fato de ser tão necessário. O museu faz sucesso porque precisamos dele. O que surpreende é não ter surgido mais cedo. O que espanta é que não existam em todos os países e territórios onde se fala a nossa língua, bem como em todos os estados brasileiros, estruturas semelhantes.
Compreender como se formou e afirmou a língua que falamos, conhecer as diferentes variantes do português, ajuda-nos a perceber melhor a história do mundo e - acredito - pode tornar-nos um pouco mais abertos ao outro. O pensamento xenófobo e racista que volta e meia aflora, como uma doença repugnante, em certas franjas das sociedades brasileira e portuguesa, é, em larga medida, uma expressão da ignorância da história da língua que nos deu origem.
Acredito que existe hoje um maior conhecimento mútuo das diferentes variantes da língua portuguesa, desde logo porque as novas tecnologias tendem a derrubar fronteiras. Persiste, mesmo assim, muita ignorância. Recordo certa ocasião, há alguns anos, quando, em viagem pelo interior de Pernambuco, parei junto a um pequeno bar para pedir informações. O rapaz que me recebeu não compreendeu o meu sotaque. Repeti a mesma questão uma e outra vez, sem qualquer sucesso. Tentei de novo, mas dessa vez com o meu melhor sotaque pernambucano. O rosto do rapaz iluminou-se: "Moço, se você fala português, por que estava falando comigo em estrangeiro?".
Numa outra ocasião, no Rio, um taxista, estranhando o meu sotaque, quis saber de onde eu vinha. "Angola?! E em que estado fica isso?" Quando lhe expliquei que Angola é um país, na costa ocidental de África, fez questão de me parabenizar pela qualidade do meu português. Disse-lhe que em Angola também falamos português: "Jura?!" - retorquiu. - "Pensei que só no Brasil se falasse português".
Se nós criamos as línguas, as línguas também nos criam a nós. Não é a mesma coisa crescer falando português, tupi ou swahili. Um dos meus sobrinhos, Samuel, nasceu e cresceu em Luxemburgo, filho de pai luxemburguês. Aprendeu a falar português com a mãe e luxemburguês e alemão com o pai. Como os pais falavam um com o outro em francês, domina também essa língua desde o berço. Sempre que muda do português para o alemão, e deste para o francês ou o luxemburguês, há alguma coisa em Samuel, um sutil aspeto da personalidade, que parece se alterar também. É como se coexistissem dentro dele várias pessoas, cada uma se exprimindo num idioma diferente.
Em Cabo Verde, o bilinguismo é uma situação vulgar. As pessoas falam naturalmente duas línguas maternas, o português e o crioulo. Fascina-me a forma como os cabo-verdianos cultos trocam de língua, enquanto conversam, dependendo do tema e do interlocutor. Ao mudarem do crioulo para o português, verifica-se também uma ligeira mudança de personalidade. Um cabo-verdiano ao falar português torna-se um tudo-nada mais formal. Não por acaso, a esmagadora maioria da riquíssima música cabo-verdiana usa o crioulo, ao passo que a língua portuguesa reina quase isolada na literatura.
Uma das consequências ainda menos estudadas do triunfo das redes sociais tem a ver com o regresso da comunicação escrita, e com uma maior atenção prestada aos idiomas utilizados nessa comunicação. O bom domínio da língua é uma condição cada vez mais valorizada na hora de escolher amigos e parceiros.
Espero assistir, em 2016, à reabertura do Museu da Língua Portuguesa. Espero que a tragédia que agora o atingiu, em vez de o diminuir, possa servir para chamar a atenção para a sua importância e que este ressurja - à imagem da própria língua - mais pujante e mais diverso do que nunca.
(AGUALUSA, José Eduardo. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/cultura/a-luz-da-nossa-lingua-18371130> - texto adaptado)
Considere a regência do verbo destacado no trecho abaixo:
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Assinale a opção em que a regência do verbo "parar" ocorre segundo o mesmo critério empregado no fragmento acima.
Texto III
A LUZ DA NOSSA LÍNGUA
O incêndio que atingiu o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, não provocou piores danos - excetuando a perda, sempre irreparável, de uma vida humana - pela simples razão de aquilo que nele se mostrava ser resistente ao fogo. A língua portuguesa é patrimônio imaterial. Não há incêndio capaz de a devorar, a não ser o da ignorância.
Inaugurado em março de 2006, o Museu da Língua Portuguesa, ou Estação Luz da Nossa Língua, teve sucesso imediato. Tal sucesso justifica-se pela qualidade da mostra principal e das exposições temporárias entretanto realizadas; o principal motivo, contudo, tem a ver simplesmente com o fato de ser tão necessário. O museu faz sucesso porque precisamos dele. O que surpreende é não ter surgido mais cedo. O que espanta é que não existam em todos os países e territórios onde se fala a nossa língua, bem como em todos os estados brasileiros, estruturas semelhantes.
Compreender como se formou e afirmou a língua que falamos, conhecer as diferentes variantes do português, ajuda-nos a perceber melhor a história do mundo e - acredito - pode tornar-nos um pouco mais abertos ao outro. O pensamento xenófobo e racista que volta e meia aflora, como uma doença repugnante, em certas franjas das sociedades brasileira e portuguesa, é, em larga medida, uma expressão da ignorância da história da língua que nos deu origem.
Acredito que existe hoje um maior conhecimento mútuo das diferentes variantes da língua portuguesa, desde logo porque as novas tecnologias tendem a derrubar fronteiras. Persiste, mesmo assim, muita ignorância. Recordo certa ocasião, há alguns anos, quando, em viagem pelo interior de Pernambuco, parei junto a um pequeno bar para pedir informações. O rapaz que me recebeu não compreendeu o meu sotaque. Repeti a mesma questão uma e outra vez, sem qualquer sucesso. Tentei de novo, mas dessa vez com o meu melhor sotaque pernambucano. O rosto do rapaz iluminou-se: "Moço, se você fala português, por que estava falando comigo em estrangeiro?".
Numa outra ocasião, no Rio, um taxista, estranhando o meu sotaque, quis saber de onde eu vinha. "Angola?! E em que estado fica isso?" Quando lhe expliquei que Angola é um país, na costa ocidental de África, fez questão de me parabenizar pela qualidade do meu português. Disse-lhe que em Angola também falamos português: "Jura?!" - retorquiu. - "Pensei que só no Brasil se falasse português".
Se nós criamos as línguas, as línguas também nos criam a nós. Não é a mesma coisa crescer falando português, tupi ou swahili. Um dos meus sobrinhos, Samuel, nasceu e cresceu em Luxemburgo, filho de pai luxemburguês. Aprendeu a falar português com a mãe e luxemburguês e alemão com o pai. Como os pais falavam um com o outro em francês, domina também essa língua desde o berço. Sempre que muda do português para o alemão, e deste para o francês ou o luxemburguês, há alguma coisa em Samuel, um sutil aspeto da personalidade, que parece se alterar também. É como se coexistissem dentro dele várias pessoas, cada uma se exprimindo num idioma diferente.
Em Cabo Verde, o bilinguismo é uma situação vulgar. As pessoas falam naturalmente duas línguas maternas, o português e o crioulo. Fascina-me a forma como os cabo-verdianos cultos trocam de língua, enquanto conversam, dependendo do tema e do interlocutor. Ao mudarem do crioulo para o português, verifica-se também uma ligeira mudança de personalidade. Um cabo-verdiano ao falar português torna-se um tudo-nada mais formal. Não por acaso, a esmagadora maioria da riquíssima música cabo-verdiana usa o crioulo, ao passo que a língua portuguesa reina quase isolada na literatura.
Uma das consequências ainda menos estudadas do triunfo das redes sociais tem a ver com o regresso da comunicação escrita, e com uma maior atenção prestada aos idiomas utilizados nessa comunicação. O bom domínio da língua é uma condição cada vez mais valorizada na hora de escolher amigos e parceiros.
Espero assistir, em 2016, à reabertura do Museu da Língua Portuguesa. Espero que a tragédia que agora o atingiu, em vez de o diminuir, possa servir para chamar a atenção para a sua importância e que este ressurja - à imagem da própria língua - mais pujante e mais diverso do que nunca.
(AGUALUSA, José Eduardo. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/cultura/a-luz-da-nossa-lingua-18371130> - texto adaptado)
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Texto III
A LUZ DA NOSSA LÍNGUA
O incêndio que atingiu o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, não provocou piores danos - excetuando a perda, sempre irreparável, de uma vida humana - pela simples razão de aquilo que nele se mostrava ser resistente ao fogo. A língua portuguesa é patrimônio imaterial. Não há incêndio capaz de a devorar, a não ser o da ignorância.
Inaugurado em março de 2006, o Museu da Língua Portuguesa, ou Estação Luz da Nossa Língua, teve sucesso imediato. Tal sucesso justifica-se pela qualidade da mostra principal e das exposições temporárias entretanto realizadas; o principal motivo, contudo, tem a ver simplesmente com o fato de ser tão necessário. O museu faz sucesso porque precisamos dele. O que surpreende é não ter surgido mais cedo. O que espanta é que não existam em todos os países e territórios onde se fala a nossa língua, bem como em todos os estados brasileiros, estruturas semelhantes.
Compreender como se formou e afirmou a língua que falamos, conhecer as diferentes variantes do português, ajuda-nos a perceber melhor a história do mundo e - acredito - pode tornar-nos um pouco mais abertos ao outro. O pensamento xenófobo e racista que volta e meia aflora, como uma doença repugnante, em certas franjas das sociedades brasileira e portuguesa, é, em larga medida, uma expressão da ignorância da história da língua que nos deu origem.
Acredito que existe hoje um maior conhecimento mútuo das diferentes variantes da língua portuguesa, desde logo porque as novas tecnologias tendem a derrubar fronteiras. Persiste, mesmo assim, muita ignorância. Recordo certa ocasião, há alguns anos, quando, em viagem pelo interior de Pernambuco, parei junto a um pequeno bar para pedir informações. O rapaz que me recebeu não compreendeu o meu sotaque. Repeti a mesma questão uma e outra vez, sem qualquer sucesso. Tentei de novo, mas dessa vez com o meu melhor sotaque pernambucano. O rosto do rapaz iluminou-se: "Moço, se você fala português, por que estava falando comigo em estrangeiro?".
Numa outra ocasião, no Rio, um taxista, estranhando o meu sotaque, quis saber de onde eu vinha. "Angola?! E em que estado fica isso?" Quando lhe expliquei que Angola é um país, na costa ocidental de África, fez questão de me parabenizar pela qualidade do meu português. Disse-lhe que em Angola também falamos português: "Jura?!" - retorquiu. - "Pensei que só no Brasil se falasse português".
Se nós criamos as línguas, as línguas também nos criam a nós. Não é a mesma coisa crescer falando português, tupi ou swahili. Um dos meus sobrinhos, Samuel, nasceu e cresceu em Luxemburgo, filho de pai luxemburguês. Aprendeu a falar português com a mãe e luxemburguês e alemão com o pai. Como os pais falavam um com o outro em francês, domina também essa língua desde o berço. Sempre que muda do português para o alemão, e deste para o francês ou o luxemburguês, há alguma coisa em Samuel, um sutil aspeto da personalidade, que parece se alterar também. É como se coexistissem dentro dele várias pessoas, cada uma se exprimindo num idioma diferente.
Em Cabo Verde, o bilinguismo é uma situação vulgar. As pessoas falam naturalmente duas línguas maternas, o português e o crioulo. Fascina-me a forma como os cabo-verdianos cultos trocam de língua, enquanto conversam, dependendo do tema e do interlocutor. Ao mudarem do crioulo para o português, verifica-se também uma ligeira mudança de personalidade. Um cabo-verdiano ao falar português torna-se um tudo-nada mais formal. Não por acaso, a esmagadora maioria da riquíssima música cabo-verdiana usa o crioulo, ao passo que a língua portuguesa reina quase isolada na literatura.
Uma das consequências ainda menos estudadas do triunfo das redes sociais tem a ver com o regresso da comunicação escrita, e com uma maior atenção prestada aos idiomas utilizados nessa comunicação. O bom domínio da língua é uma condição cada vez mais valorizada na hora de escolher amigos e parceiros.
Espero assistir, em 2016, à reabertura do Museu da Língua Portuguesa. Espero que a tragédia que agora o atingiu, em vez de o diminuir, possa servir para chamar a atenção para a sua importância e que este ressurja - à imagem da própria língua - mais pujante e mais diverso do que nunca.
(AGUALUSA, José Eduardo. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/cultura/a-luz-da-nossa-lingua-18371130> - texto adaptado)
No trecho "Se nós criamos as línguas, as línguas também nos criam a nós." (6º§), observa-se um exemplo de objeto:Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto III
A LUZ DA NOSSA LÍNGUA
O incêndio que atingiu o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, não provocou piores danos - excetuando a perda, sempre irreparável, de uma vida humana - pela simples razão de aquilo que nele se mostrava ser resistente ao fogo. A língua portuguesa é patrimônio imaterial. Não há incêndio capaz de a devorar, a não ser o da ignorância.
Inaugurado em março de 2006, o Museu da Língua Portuguesa, ou Estação Luz da Nossa Língua, teve sucesso imediato. Tal sucesso justifica-se pela qualidade da mostra principal e das exposições temporárias entretanto realizadas; o principal motivo, contudo, tem a ver simplesmente com o fato de ser tão necessário. O museu faz sucesso porque precisamos dele. O que surpreende é não ter surgido mais cedo. O que espanta é que não existam em todos os países e territórios onde se fala a nossa língua, bem como em todos os estados brasileiros, estruturas semelhantes.
Compreender como se formou e afirmou a língua que falamos, conhecer as diferentes variantes do português, ajuda-nos a perceber melhor a história do mundo e - acredito - pode tornar-nos um pouco mais abertos ao outro. O pensamento xenófobo e racista que volta e meia aflora, como uma doença repugnante, em certas franjas das sociedades brasileira e portuguesa, é, em larga medida, uma expressão da ignorância da história da língua que nos deu origem.
Acredito que existe hoje um maior conhecimento mútuo das diferentes variantes da língua portuguesa, desde logo porque as novas tecnologias tendem a derrubar fronteiras. Persiste, mesmo assim, muita ignorância. Recordo certa ocasião, há alguns anos, quando, em viagem pelo interior de Pernambuco, parei junto a um pequeno bar para pedir informações. O rapaz que me recebeu não compreendeu o meu sotaque. Repeti a mesma questão uma e outra vez, sem qualquer sucesso. Tentei de novo, mas dessa vez com o meu melhor sotaque pernambucano. O rosto do rapaz iluminou-se: "Moço, se você fala português, por que estava falando comigo em estrangeiro?".
Numa outra ocasião, no Rio, um taxista, estranhando o meu sotaque, quis saber de onde eu vinha. "Angola?! E em que estado fica isso?" Quando lhe expliquei que Angola é um país, na costa ocidental de África, fez questão de me parabenizar pela qualidade do meu português. Disse-lhe que em Angola também falamos português: "Jura?!" - retorquiu. - "Pensei que só no Brasil se falasse português".
Se nós criamos as línguas, as línguas também nos criam a nós. Não é a mesma coisa crescer falando português, tupi ou swahili. Um dos meus sobrinhos, Samuel, nasceu e cresceu em Luxemburgo, filho de pai luxemburguês. Aprendeu a falar português com a mãe e luxemburguês e alemão com o pai. Como os pais falavam um com o outro em francês, domina também essa língua desde o berço. Sempre que muda do português para o alemão, e deste para o francês ou o luxemburguês, há alguma coisa em Samuel, um sutil aspeto da personalidade, que parece se alterar também. É como se coexistissem dentro dele várias pessoas, cada uma se exprimindo num idioma diferente.
Em Cabo Verde, o bilinguismo é uma situação vulgar. As pessoas falam naturalmente duas línguas maternas, o português e o crioulo. Fascina-me a forma como os cabo-verdianos cultos trocam de língua, enquanto conversam, dependendo do tema e do interlocutor. Ao mudarem do crioulo para o português, verifica-se também uma ligeira mudança de personalidade. Um cabo-verdiano ao falar português torna-se um tudo-nada mais formal. Não por acaso, a esmagadora maioria da riquíssima música cabo-verdiana usa o crioulo, ao passo que a língua portuguesa reina quase isolada na literatura.
Uma das consequências ainda menos estudadas do triunfo das redes sociais tem a ver com o regresso da comunicação escrita, e com uma maior atenção prestada aos idiomas utilizados nessa comunicação. O bom domínio da língua é uma condição cada vez mais valorizada na hora de escolher amigos e parceiros.
Espero assistir, em 2016, à reabertura do Museu da Língua Portuguesa. Espero que a tragédia que agora o atingiu, em vez de o diminuir, possa servir para chamar a atenção para a sua importância e que este ressurja - à imagem da própria língua - mais pujante e mais diverso do que nunca.
(AGUALUSA, José Eduardo. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/cultura/a-luz-da-nossa-lingua-18371130> - texto adaptado)
A partir da leitura do texto, pode-se afirmar que:Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto III
A LUZ DA NOSSA LÍNGUA
O incêndio que atingiu o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, não provocou piores danos - excetuando a perda, sempre irreparável, de uma vida humana - pela simples razão de aquilo que nele se mostrava ser resistente ao fogo. A língua portuguesa é patrimônio imaterial. Não há incêndio capaz de a devorar, a não ser o da ignorância.
Inaugurado em março de 2006, o Museu da Língua Portuguesa, ou Estação Luz da Nossa Língua, teve sucesso imediato. Tal sucesso justifica-se pela qualidade da mostra principal e das exposições temporárias entretanto realizadas; o principal motivo, contudo, tem a ver simplesmente com o fato de ser tão necessário. O museu faz sucesso porque precisamos dele. O que surpreende é não ter surgido mais cedo. O que espanta é que não existam em todos os países e territórios onde se fala a nossa língua, bem como em todos os estados brasileiros, estruturas semelhantes.
Compreender como se formou e afirmou a língua que falamos, conhecer as diferentes variantes do português, ajuda-nos a perceber melhor a história do mundo e - acredito - pode tornar-nos um pouco mais abertos ao outro. O pensamento xenófobo e racista que volta e meia aflora, como uma doença repugnante, em certas franjas das sociedades brasileira e portuguesa, é, em larga medida, uma expressão da ignorância da história da língua que nos deu origem.
Acredito que existe hoje um maior conhecimento mútuo das diferentes variantes da língua portuguesa, desde logo porque as novas tecnologias tendem a derrubar fronteiras. Persiste, mesmo assim, muita ignorância. Recordo certa ocasião, há alguns anos, quando, em viagem pelo interior de Pernambuco, parei junto a um pequeno bar para pedir informações. O rapaz que me recebeu não compreendeu o meu sotaque. Repeti a mesma questão uma e outra vez, sem qualquer sucesso. Tentei de novo, mas dessa vez com o meu melhor sotaque pernambucano. O rosto do rapaz iluminou-se: "Moço, se você fala português, por que estava falando comigo em estrangeiro?".
Numa outra ocasião, no Rio, um taxista, estranhando o meu sotaque, quis saber de onde eu vinha. "Angola?! E em que estado fica isso?" Quando lhe expliquei que Angola é um país, na costa ocidental de África, fez questão de me parabenizar pela qualidade do meu português. Disse-lhe que em Angola também falamos português: "Jura?!" - retorquiu. - "Pensei que só no Brasil se falasse português".
Se nós criamos as línguas, as línguas também nos criam a nós. Não é a mesma coisa crescer falando português, tupi ou swahili. Um dos meus sobrinhos, Samuel, nasceu e cresceu em Luxemburgo, filho de pai luxemburguês. Aprendeu a falar português com a mãe e luxemburguês e alemão com o pai. Como os pais falavam um com o outro em francês, domina também essa língua desde o berço. Sempre que muda do português para o alemão, e deste para o francês ou o luxemburguês, há alguma coisa em Samuel, um sutil aspeto da personalidade, que parece se alterar também. É como se coexistissem dentro dele várias pessoas, cada uma se exprimindo num idioma diferente.
Em Cabo Verde, o bilinguismo é uma situação vulgar. As pessoas falam naturalmente duas línguas maternas, o português e o crioulo. Fascina-me a forma como os cabo-verdianos cultos trocam de língua, enquanto conversam, dependendo do tema e do interlocutor. Ao mudarem do crioulo para o português, verifica-se também uma ligeira mudança de personalidade. Um cabo-verdiano ao falar português torna-se um tudo-nada mais formal. Não por acaso, a esmagadora maioria da riquíssima música cabo-verdiana usa o crioulo, ao passo que a língua portuguesa reina quase isolada na literatura.
Uma das consequências ainda menos estudadas do triunfo das redes sociais tem a ver com o regresso da comunicação escrita, e com uma maior atenção prestada aos idiomas utilizados nessa comunicação. O bom domínio da língua é uma condição cada vez mais valorizada na hora de escolher amigos e parceiros.
Espero assistir, em 2016, à reabertura do Museu da Língua Portuguesa. Espero que a tragédia que agora o atingiu, em vez de o diminuir, possa servir para chamar a atenção para a sua importância e que este ressurja - à imagem da própria língua - mais pujante e mais diverso do que nunca.
(AGUALUSA, José Eduardo. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/cultura/a-luz-da-nossa-lingua-18371130> - texto adaptado)
Leia o trecho abaixo:
"Recordo certa ocasião, há alguns anos, quando, em viagem pelo interior de Pernambuco, parei junto a um pequeno bar para pedir informações." (4º§)
Assinale a opção em que a reescritura do trecho citado mantém seu sentido original e respeita a norma padrão da língua.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto III
A LUZ DA NOSSA LÍNGUA
O incêndio que atingiu o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, não provocou piores danos - excetuando a perda, sempre irreparável, de uma vida humana - pela simples razão de aquilo que nele se mostrava ser resistente ao fogo. A língua portuguesa é patrimônio imaterial. Não há incêndio capaz de a devorar, a não ser o da ignorância.
Inaugurado em março de 2006, o Museu da Língua Portuguesa, ou Estação Luz da Nossa Língua, teve sucesso imediato. Tal sucesso justifica-se pela qualidade da mostra principal e das exposições temporárias entretanto realizadas; o principal motivo, contudo, tem a ver simplesmente com o fato de ser tão necessário. O museu faz sucesso porque precisamos dele. O que surpreende é não ter surgido mais cedo. O que espanta é que não existam em todos os países e territórios onde se fala a nossa língua, bem como em todos os estados brasileiros, estruturas semelhantes.
Compreender como se formou e afirmou a língua que falamos, conhecer as diferentes variantes do português, ajuda-nos a perceber melhor a história do mundo e - acredito - pode tornar-nos um pouco mais abertos ao outro. O pensamento xenófobo e racista que volta e meia aflora, como uma doença repugnante, em certas franjas das sociedades brasileira e portuguesa, é, em larga medida, uma expressão da ignorância da história da língua que nos deu origem.
Acredito que existe hoje um maior conhecimento mútuo das diferentes variantes da língua portuguesa, desde logo porque as novas tecnologias tendem a derrubar fronteiras. Persiste, mesmo assim, muita ignorância. Recordo certa ocasião, há alguns anos, quando, em viagem pelo interior de Pernambuco, parei junto a um pequeno bar para pedir informações. O rapaz que me recebeu não compreendeu o meu sotaque. Repeti a mesma questão uma e outra vez, sem qualquer sucesso. Tentei de novo, mas dessa vez com o meu melhor sotaque pernambucano. O rosto do rapaz iluminou-se: "Moço, se você fala português, por que estava falando comigo em estrangeiro?".
Numa outra ocasião, no Rio, um taxista, estranhando o meu sotaque, quis saber de onde eu vinha. "Angola?! E em que estado fica isso?" Quando lhe expliquei que Angola é um país, na costa ocidental de África, fez questão de me parabenizar pela qualidade do meu português. Disse-lhe que em Angola também falamos português: "Jura?!" - retorquiu. - "Pensei que só no Brasil se falasse português".
Se nós criamos as línguas, as línguas também nos criam a nós. Não é a mesma coisa crescer falando português, tupi ou swahili. Um dos meus sobrinhos, Samuel, nasceu e cresceu em Luxemburgo, filho de pai luxemburguês. Aprendeu a falar português com a mãe e luxemburguês e alemão com o pai. Como os pais falavam um com o outro em francês, domina também essa língua desde o berço. Sempre que muda do português para o alemão, e deste para o francês ou o luxemburguês, há alguma coisa em Samuel, um sutil aspeto da personalidade, que parece se alterar também. É como se coexistissem dentro dele várias pessoas, cada uma se exprimindo num idioma diferente.
Em Cabo Verde, o bilinguismo é uma situação vulgar. As pessoas falam naturalmente duas línguas maternas, o português e o crioulo. Fascina-me a forma como os cabo-verdianos cultos trocam de língua, enquanto conversam, dependendo do tema e do interlocutor. Ao mudarem do crioulo para o português, verifica-se também uma ligeira mudança de personalidade. Um cabo-verdiano ao falar português torna-se um tudo-nada mais formal. Não por acaso, a esmagadora maioria da riquíssima música cabo-verdiana usa o crioulo, ao passo que a língua portuguesa reina quase isolada na literatura.
Uma das consequências ainda menos estudadas do triunfo das redes sociais tem a ver com o regresso da comunicação escrita, e com uma maior atenção prestada aos idiomas utilizados nessa comunicação. O bom domínio da língua é uma condição cada vez mais valorizada na hora de escolher amigos e parceiros.
Espero assistir, em 2016, à reabertura do Museu da Língua Portuguesa. Espero que a tragédia que agora o atingiu, em vez de o diminuir, possa servir para chamar a atenção para a sua importância e que este ressurja - à imagem da própria língua - mais pujante e mais diverso do que nunca.
(AGUALUSA, José Eduardo. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/cultura/a-luz-da-nossa-lingua-18371130> - texto adaptado)
Assinale a opção que apresenta corretamente o comentário sobre as expressões destacadas.
Texto III
A LUZ DA NOSSA LÍNGUA
O incêndio que atingiu o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, não provocou piores danos - excetuando a perda, sempre irreparável, de uma vida humana - pela simples razão de aquilo que nele se mostrava ser resistente ao fogo. A língua portuguesa é patrimônio imaterial. Não há incêndio capaz de a devorar, a não ser o da ignorância.
Inaugurado em março de 2006, o Museu da Língua Portuguesa, ou Estação Luz da Nossa Língua, teve sucesso imediato. Tal sucesso justifica-se pela qualidade da mostra principal e das exposições temporárias entretanto realizadas; o principal motivo, contudo, tem a ver simplesmente com o fato de ser tão necessário. O museu faz sucesso porque precisamos dele. O que surpreende é não ter surgido mais cedo. O que espanta é que não existam em todos os países e territórios onde se fala a nossa língua, bem como em todos os estados brasileiros, estruturas semelhantes.
Compreender como se formou e afirmou a língua que falamos, conhecer as diferentes variantes do português, ajuda-nos a perceber melhor a história do mundo e - acredito - pode tornar-nos um pouco mais abertos ao outro. O pensamento xenófobo e racista que volta e meia aflora, como uma doença repugnante, em certas franjas das sociedades brasileira e portuguesa, é, em larga medida, uma expressão da ignorância da história da língua que nos deu origem.
Acredito que existe hoje um maior conhecimento mútuo das diferentes variantes da língua portuguesa, desde logo porque as novas tecnologias tendem a derrubar fronteiras. Persiste, mesmo assim, muita ignorância. Recordo certa ocasião, há alguns anos, quando, em viagem pelo interior de Pernambuco, parei junto a um pequeno bar para pedir informações. O rapaz que me recebeu não compreendeu o meu sotaque. Repeti a mesma questão uma e outra vez, sem qualquer sucesso. Tentei de novo, mas dessa vez com o meu melhor sotaque pernambucano. O rosto do rapaz iluminou-se: "Moço, se você fala português, por que estava falando comigo em estrangeiro?".
Numa outra ocasião, no Rio, um taxista, estranhando o meu sotaque, quis saber de onde eu vinha. "Angola?! E em que estado fica isso?" Quando lhe expliquei que Angola é um país, na costa ocidental de África, fez questão de me parabenizar pela qualidade do meu português. Disse-lhe que em Angola também falamos português: "Jura?!" - retorquiu. - "Pensei que só no Brasil se falasse português".
Se nós criamos as línguas, as línguas também nos criam a nós. Não é a mesma coisa crescer falando português, tupi ou swahili. Um dos meus sobrinhos, Samuel, nasceu e cresceu em Luxemburgo, filho de pai luxemburguês. Aprendeu a falar português com a mãe e luxemburguês e alemão com o pai. Como os pais falavam um com o outro em francês, domina também essa língua desde o berço. Sempre que muda do português para o alemão, e deste para o francês ou o luxemburguês, há alguma coisa em Samuel, um sutil aspeto da personalidade, que parece se alterar também. É como se coexistissem dentro dele várias pessoas, cada uma se exprimindo num idioma diferente.
Em Cabo Verde, o bilinguismo é uma situação vulgar. As pessoas falam naturalmente duas línguas maternas, o português e o crioulo. Fascina-me a forma como os cabo-verdianos cultos trocam de língua, enquanto conversam, dependendo do tema e do interlocutor. Ao mudarem do crioulo para o português, verifica-se também uma ligeira mudança de personalidade. Um cabo-verdiano ao falar português torna-se um tudo-nada mais formal. Não por acaso, a esmagadora maioria da riquíssima música cabo-verdiana usa o crioulo, ao passo que a língua portuguesa reina quase isolada na literatura.
Uma das consequências ainda menos estudadas do triunfo das redes sociais tem a ver com o regresso da comunicação escrita, e com uma maior atenção prestada aos idiomas utilizados nessa comunicação. O bom domínio da língua é uma condição cada vez mais valorizada na hora de escolher amigos e parceiros.
Espero assistir, em 2016, à reabertura do Museu da Língua Portuguesa. Espero que a tragédia que agora o atingiu, em vez de o diminuir, possa servir para chamar a atenção para a sua importância e que este ressurja - à imagem da própria língua - mais pujante e mais diverso do que nunca.
(AGUALUSA, José Eduardo. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/cultura/a-luz-da-nossa-lingua-18371130> - texto adaptado)
Leia o trecho a seguir:
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O termo sublinhado no trecho acima é uma variante ortográfica, pois se admite também a escrita com a presença da oclusiva velar "aspecto". Assinale a opção em que a conservação da oclusiva velar também é opcional, segundo as normas ortográficas vigentes no Brasil.
Texto III
A LUZ DA NOSSA LÍNGUA
O incêndio que atingiu o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, não provocou piores danos - excetuando a perda, sempre irreparável, de uma vida humana - pela simples razão de aquilo que nele se mostrava ser resistente ao fogo. A língua portuguesa é patrimônio imaterial. Não há incêndio capaz de a devorar, a não ser o da ignorância.
Inaugurado em março de 2006, o Museu da Língua Portuguesa, ou Estação Luz da Nossa Língua, teve sucesso imediato. Tal sucesso justifica-se pela qualidade da mostra principal e das exposições temporárias entretanto realizadas; o principal motivo, contudo, tem a ver simplesmente com o fato de ser tão necessário. O museu faz sucesso porque precisamos dele. O que surpreende é não ter surgido mais cedo. O que espanta é que não existam em todos os países e territórios onde se fala a nossa língua, bem como em todos os estados brasileiros, estruturas semelhantes.
Compreender como se formou e afirmou a língua que falamos, conhecer as diferentes variantes do português, ajuda-nos a perceber melhor a história do mundo e - acredito - pode tornar-nos um pouco mais abertos ao outro. O pensamento xenófobo e racista que volta e meia aflora, como uma doença repugnante, em certas franjas das sociedades brasileira e portuguesa, é, em larga medida, uma expressão da ignorância da história da língua que nos deu origem.
Acredito que existe hoje um maior conhecimento mútuo das diferentes variantes da língua portuguesa, desde logo porque as novas tecnologias tendem a derrubar fronteiras. Persiste, mesmo assim, muita ignorância. Recordo certa ocasião, há alguns anos, quando, em viagem pelo interior de Pernambuco, parei junto a um pequeno bar para pedir informações. O rapaz que me recebeu não compreendeu o meu sotaque. Repeti a mesma questão uma e outra vez, sem qualquer sucesso. Tentei de novo, mas dessa vez com o meu melhor sotaque pernambucano. O rosto do rapaz iluminou-se: "Moço, se você fala português, por que estava falando comigo em estrangeiro?".
Numa outra ocasião, no Rio, um taxista, estranhando o meu sotaque, quis saber de onde eu vinha. "Angola?! E em que estado fica isso?" Quando lhe expliquei que Angola é um país, na costa ocidental de África, fez questão de me parabenizar pela qualidade do meu português. Disse-lhe que em Angola também falamos português: "Jura?!" - retorquiu. - "Pensei que só no Brasil se falasse português".
Se nós criamos as línguas, as línguas também nos criam a nós. Não é a mesma coisa crescer falando português, tupi ou swahili. Um dos meus sobrinhos, Samuel, nasceu e cresceu em Luxemburgo, filho de pai luxemburguês. Aprendeu a falar português com a mãe e luxemburguês e alemão com o pai. Como os pais falavam um com o outro em francês, domina também essa língua desde o berço. Sempre que muda do português para o alemão, e deste para o francês ou o luxemburguês, há alguma coisa em Samuel, um sutil aspeto da personalidade, que parece se alterar também. É como se coexistissem dentro dele várias pessoas, cada uma se exprimindo num idioma diferente.
Em Cabo Verde, o bilinguismo é uma situação vulgar. As pessoas falam naturalmente duas línguas maternas, o português e o crioulo. Fascina-me a forma como os cabo-verdianos cultos trocam de língua, enquanto conversam, dependendo do tema e do interlocutor. Ao mudarem do crioulo para o português, verifica-se também uma ligeira mudança de personalidade. Um cabo-verdiano ao falar português torna-se um tudo-nada mais formal. Não por acaso, a esmagadora maioria da riquíssima música cabo-verdiana usa o crioulo, ao passo que a língua portuguesa reina quase isolada na literatura.
Uma das consequências ainda menos estudadas do triunfo das redes sociais tem a ver com o regresso da comunicação escrita, e com uma maior atenção prestada aos idiomas utilizados nessa comunicação. O bom domínio da língua é uma condição cada vez mais valorizada na hora de escolher amigos e parceiros.
Espero assistir, em 2016, à reabertura do Museu da Língua Portuguesa. Espero que a tragédia que agora o atingiu, em vez de o diminuir, possa servir para chamar a atenção para a sua importância e que este ressurja - à imagem da própria língua - mais pujante e mais diverso do que nunca.
(AGUALUSA, José Eduardo. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/cultura/a-luz-da-nossa-lingua-18371130> - texto adaptado)
Assinale a opção em que o termo em destaque no trecho pode ser substituído pelo termo proposto, mantendo o valor semântico original.
Texto III
A LUZ DA NOSSA LÍNGUA
O incêndio que atingiu o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, não provocou piores danos - excetuando a perda, sempre irreparável, de uma vida humana - pela simples razão de aquilo que nele se mostrava ser resistente ao fogo. A língua portuguesa é patrimônio imaterial. Não há incêndio capaz de a devorar, a não ser o da ignorância.
Inaugurado em março de 2006, o Museu da Língua Portuguesa, ou Estação Luz da Nossa Língua, teve sucesso imediato. Tal sucesso justifica-se pela qualidade da mostra principal e das exposições temporárias entretanto realizadas; o principal motivo, contudo, tem a ver simplesmente com o fato de ser tão necessário. O museu faz sucesso porque precisamos dele. O que surpreende é não ter surgido mais cedo. O que espanta é que não existam em todos os países e territórios onde se fala a nossa língua, bem como em todos os estados brasileiros, estruturas semelhantes.
Compreender como se formou e afirmou a língua que falamos, conhecer as diferentes variantes do português, ajuda-nos a perceber melhor a história do mundo e - acredito - pode tornar-nos um pouco mais abertos ao outro. O pensamento xenófobo e racista que volta e meia aflora, como uma doença repugnante, em certas franjas das sociedades brasileira e portuguesa, é, em larga medida, uma expressão da ignorância da história da língua que nos deu origem.
Acredito que existe hoje um maior conhecimento mútuo das diferentes variantes da língua portuguesa, desde logo porque as novas tecnologias tendem a derrubar fronteiras. Persiste, mesmo assim, muita ignorância. Recordo certa ocasião, há alguns anos, quando, em viagem pelo interior de Pernambuco, parei junto a um pequeno bar para pedir informações. O rapaz que me recebeu não compreendeu o meu sotaque. Repeti a mesma questão uma e outra vez, sem qualquer sucesso. Tentei de novo, mas dessa vez com o meu melhor sotaque pernambucano. O rosto do rapaz iluminou-se: "Moço, se você fala português, por que estava falando comigo em estrangeiro?".
Numa outra ocasião, no Rio, um taxista, estranhando o meu sotaque, quis saber de onde eu vinha. "Angola?! E em que estado fica isso?" Quando lhe expliquei que Angola é um país, na costa ocidental de África, fez questão de me parabenizar pela qualidade do meu português. Disse-lhe que em Angola também falamos português: "Jura?!" - retorquiu. - "Pensei que só no Brasil se falasse português".
Se nós criamos as línguas, as línguas também nos criam a nós. Não é a mesma coisa crescer falando português, tupi ou swahili. Um dos meus sobrinhos, Samuel, nasceu e cresceu em Luxemburgo, filho de pai luxemburguês. Aprendeu a falar português com a mãe e luxemburguês e alemão com o pai. Como os pais falavam um com o outro em francês, domina também essa língua desde o berço. Sempre que muda do português para o alemão, e deste para o francês ou o luxemburguês, há alguma coisa em Samuel, um sutil aspeto da personalidade, que parece se alterar também. É como se coexistissem dentro dele várias pessoas, cada uma se exprimindo num idioma diferente.
Em Cabo Verde, o bilinguismo é uma situação vulgar. As pessoas falam naturalmente duas línguas maternas, o português e o crioulo. Fascina-me a forma como os cabo-verdianos cultos trocam de língua, enquanto conversam, dependendo do tema e do interlocutor. Ao mudarem do crioulo para o português, verifica-se também uma ligeira mudança de personalidade. Um cabo-verdiano ao falar português torna-se um tudo-nada mais formal. Não por acaso, a esmagadora maioria da riquíssima música cabo-verdiana usa o crioulo, ao passo que a língua portuguesa reina quase isolada na literatura.
Uma das consequências ainda menos estudadas do triunfo das redes sociais tem a ver com o regresso da comunicação escrita, e com uma maior atenção prestada aos idiomas utilizados nessa comunicação. O bom domínio da língua é uma condição cada vez mais valorizada na hora de escolher amigos e parceiros.
Espero assistir, em 2016, à reabertura do Museu da Língua Portuguesa. Espero que a tragédia que agora o atingiu, em vez de o diminuir, possa servir para chamar a atenção para a sua importância e que este ressurja - à imagem da própria língua - mais pujante e mais diverso do que nunca.
(AGUALUSA, José Eduardo. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/cultura/a-luz-da-nossa-lingua-18371130> - texto adaptado)
Leia o fragmento a seguir:
"O incêndio que atingiu o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, não provocou piores danos - excetuando a perda, sempre irreparável, de uma vida humana - pela simples razão de aquilo que nele se mostrava ser resistente ao fogo. A língua portuguesa é patrimônio imaterial. Não há incêndio capaz de a devorar, a não ser o da ignorância." (1º§)
O fragmento acima é ilustrativo de um tipo de coerência que leva em consideração o propósito comunicacional, a forma composicional e o conteúdo temático de um texto. Assinale a opção que apresenta a denominação correta desse tipo de coerência.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto III
A LUZ DA NOSSA LÍNGUA
O incêndio que atingiu o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, não provocou piores danos - excetuando a perda, sempre irreparável, de uma vida humana - pela simples razão de aquilo que nele se mostrava ser resistente ao fogo. A língua portuguesa é patrimônio imaterial. Não há incêndio capaz de a devorar, a não ser o da ignorância.
Inaugurado em março de 2006, o Museu da Língua Portuguesa, ou Estação Luz da Nossa Língua, teve sucesso imediato. Tal sucesso justifica-se pela qualidade da mostra principal e das exposições temporárias entretanto realizadas; o principal motivo, contudo, tem a ver simplesmente com o fato de ser tão necessário. O museu faz sucesso porque precisamos dele. O que surpreende é não ter surgido mais cedo. O que espanta é que não existam em todos os países e territórios onde se fala a nossa língua, bem como em todos os estados brasileiros, estruturas semelhantes.
Compreender como se formou e afirmou a língua que falamos, conhecer as diferentes variantes do português, ajuda-nos a perceber melhor a história do mundo e - acredito - pode tornar-nos um pouco mais abertos ao outro. O pensamento xenófobo e racista que volta e meia aflora, como uma doença repugnante, em certas franjas das sociedades brasileira e portuguesa, é, em larga medida, uma expressão da ignorância da história da língua que nos deu origem.
Acredito que existe hoje um maior conhecimento mútuo das diferentes variantes da língua portuguesa, desde logo porque as novas tecnologias tendem a derrubar fronteiras. Persiste, mesmo assim, muita ignorância. Recordo certa ocasião, há alguns anos, quando, em viagem pelo interior de Pernambuco, parei junto a um pequeno bar para pedir informações. O rapaz que me recebeu não compreendeu o meu sotaque. Repeti a mesma questão uma e outra vez, sem qualquer sucesso. Tentei de novo, mas dessa vez com o meu melhor sotaque pernambucano. O rosto do rapaz iluminou-se: "Moço, se você fala português, por que estava falando comigo em estrangeiro?".
Numa outra ocasião, no Rio, um taxista, estranhando o meu sotaque, quis saber de onde eu vinha. "Angola?! E em que estado fica isso?" Quando lhe expliquei que Angola é um país, na costa ocidental de África, fez questão de me parabenizar pela qualidade do meu português. Disse-lhe que em Angola também falamos português: "Jura?!" - retorquiu. - "Pensei que só no Brasil se falasse português".
Se nós criamos as línguas, as línguas também nos criam a nós. Não é a mesma coisa crescer falando português, tupi ou swahili. Um dos meus sobrinhos, Samuel, nasceu e cresceu em Luxemburgo, filho de pai luxemburguês. Aprendeu a falar português com a mãe e luxemburguês e alemão com o pai. Como os pais falavam um com o outro em francês, domina também essa língua desde o berço. Sempre que muda do português para o alemão, e deste para o francês ou o luxemburguês, há alguma coisa em Samuel, um sutil aspeto da personalidade, que parece se alterar também. É como se coexistissem dentro dele várias pessoas, cada uma se exprimindo num idioma diferente.
Em Cabo Verde, o bilinguismo é uma situação vulgar. As pessoas falam naturalmente duas línguas maternas, o português e o crioulo. Fascina-me a forma como os cabo-verdianos cultos trocam de língua, enquanto conversam, dependendo do tema e do interlocutor. Ao mudarem do crioulo para o português, verifica-se também uma ligeira mudança de personalidade. Um cabo-verdiano ao falar português torna-se um tudo-nada mais formal. Não por acaso, a esmagadora maioria da riquíssima música cabo-verdiana usa o crioulo, ao passo que a língua portuguesa reina quase isolada na literatura.
Uma das consequências ainda menos estudadas do triunfo das redes sociais tem a ver com o regresso da comunicação escrita, e com uma maior atenção prestada aos idiomas utilizados nessa comunicação. O bom domínio da língua é uma condição cada vez mais valorizada na hora de escolher amigos e parceiros.
Espero assistir, em 2016, à reabertura do Museu da Língua Portuguesa. Espero que a tragédia que agora o atingiu, em vez de o diminuir, possa servir para chamar a atenção para a sua importância e que este ressurja - à imagem da própria língua - mais pujante e mais diverso do que nunca.
(AGUALUSA, José Eduardo. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/cultura/a-luz-da-nossa-lingua-18371130> - texto adaptado)
Assinale a opção em que o autor faz referência à variação diatópica da língua.Resolução comentada
Análise das alternativas
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