← Voltar para a lista de provas Marinha do Brasil — Escola Naval · Admissão à Escola Naval (CPAEN) 40 questões nesta prova · página 2 de 2 · 39 com gabarito Gabarito disponível As duas frequências são de harmônicos consecutivos: f₂ − f₁ = v/2L. Daí T = 4L²(f₂ − f₁)²μ. Uma corda fixa nas duas pontas ressoa em fₙ = n·v/(2L). Se só aparecem duas frequências, elas são de harmônicos consecutivos, então f₂ − f₁ = v/(2L). Como v = √(T/μ), segue que T = μ·(2L·Δf)² = 4L²(f₂ − f₁)²μ. B, C, D e E não obedecem à dimensão de força (N) nem à relação v = √(T/μ) combinada com Δf = v/2L. C usa a soma das frequências e D tem √μ no denominador. B tem √μ no numerador, e E tem μ² e o fator 2L². Referência: Ondas estacionárias em cordas; velocidade v = √(T/μ). Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Em C o autor troca a palavra 'sóbria' por outra mais corrente para o atendente. No trecho, o autor diz que empregou outra palavra, mais corrente, ao falar com o funcionário da papelaria. Isso mostra que ele adequou o vocabulário ao nível de conhecimento do interlocutor. A) É exclamação e jogo de palavras do autor, sem relação com o interlocutor. B) Comenta a impessoalidade das mensagens. D) Critica as expressões prontas dos cartões. E) É um comentário sobre o uso da linguagem com crianças, e não uma adaptação ao interlocutor. Referência: Adequação vocabular ao interlocutor. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível A alternativa D é um relato pessoal, sem citação nem referência a outro texto. 'Fui a uma boa papelaria comprar um cartão...' é uma narração em primeira pessoa de um fato vivido pelo autor, sem diálogo com outro texto. Nas demais alternativas há citação ou alusão a outro texto ou autor. A) É fala de Mário Quintana, citada no texto. B) É fala atribuída a Rachel de Queiroz. C) É citação de Manoel de Barros. E) Reproduz frases de cartões prontos, ou seja, textos de outros. Referência: Intertextualidade: citação e alusão. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Só a alternativa E usa as palavras em sentido literal, sem figuras nem expressões idiomáticas. Em 'No meu tempo de docência universitária, ouvia, frequentemente, alunos comentarem que concluiriam o curso sem saberem escrever', todas as palavras têm sentido próprio, literal. Trata-se de um relato objetivo, sem linguagem figurada. A) 'Interlocutor potente' é uso figurado, e 'Todo cuidado é pouco' é expressão idiomática. B) 'Língua bem comportada' atribui à língua um comportamento humano, o que é conotativo. C) 'Tampar o sol com a peneira' é expressão idiomática, conotativa. D) 'Palavras com paletó e gravata' é metáfora para linguagem formal. Referência: Semântica: denotação e conotação. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível As reticências em 'É, mais ou menos...' marcam hesitação e dúvida. Em 'nem todos, nem todos...' elas têm a mesma função. Na fala do aluno, 'É, mais ou menos...' mostra hesitação, uma resposta insegura e sem convicção. Em 'nem todos, nem todos...' as reticências também expressam hesitação, com o autor se corrigindo e atenuando o que disse. Por isso a intenção é a mesma. A) As reticências marcam pausa seguida de surpresa ('Ainda são!'), não hesitação. B) Indicam que a enumeração continua (outras regras). D) Indicam continuidade de uma sequência de expressões prontas. E) Criam suspense ou prudência, num tom de advertência irônica, e não dúvida do falante. Referência: Pontuação: usos expressivos das reticências. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível 'em que' equivale a 'na qual', pois o verbo falar rege a preposição 'em' aqui. Em 'língua em que você está falando', o relativo 'que' é antecedido pela preposição 'em', e o antecedente é 'língua'. A paráfrase correta troca 'em que' por 'na qual' (em + a qual), mantendo regência e concordância com 'língua', substantivo feminino. B) 'da qual' e C) 'de que' trocam a preposição por 'de', que não é a exigida. D) 'através da que' é construção inexistente. E) 'cuja' é relativo possessivo e exige substantivo logo depois, o que não ocorre aqui. Referência: Gramática: pronomes relativos e regência. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível A diferença está em 'escrever' exigir conhecimento do real, ordenação de ideias, gênero e intenção comunicativa. O 6º parágrafo explica que escrever vai além de seguir o português ensinado: exige conhecer o real, ordenar ideias, dominar o gênero e ter intenção comunicativa. Por contraste, 'fazer redação' seria só cumprir a tarefa escolar, sem autoria. Essa diferença é apresentada de forma implícita nesse trecho. A) trata da dificuldade percebida de escrever. B) critica a cultura do erro na escola. D) lista proibições da língua. E) trata do desejo social por textos prontos. Nenhuma delas explica o que é escrever em contraste com fazer redação. Referência: Uchôa, 'Ser autor' (6º e 11º parágrafos). Resolução comentada do VaiConcursos. Questão anulada Gabarito disponível Gabarito disponível Há mistura de tratamento: 'te' (2ª pessoa) com 'vão amar' (3ª), registro coloquial. Na frase da alternativa A, a mãe fala com o filho em 'você' (3ª pessoa), mas usa o pronome oblíquo 'te', de 2ª pessoa. A norma-padrão pede uniformidade de tratamento (vão amar você / lhe amar). O uso de 'te' com 'você' é típico do registro coloquial e foge às regras da gramática normativa. B), C), D) e E) estão de acordo com a norma-padrão. Podem ser figurativas ou poéticas, mas não violam a gramática. Referência: Gramática normativa: uniformidade de tratamento e colocação pronominal. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Os versos de Barros (ser noviça, monge e mendigo) ilustram a valorização da diferença e da palavra nova. No poema, escrever liberta o menino para ser várias coisas ao mesmo tempo, ou seja, para criar livremente com as palavras. Isso ilustra a ideia de Uchôa de que "a vida está na diferença" e que "uma palavra diferente pode nos proporcionar uma esperança nova", em oposição à linguagem pronta e repetida. A) critica mensagens gastas e solenes, mas não trata da liberdade criativa. C) trata do desejo social por textos prontos. D) e E) tratam da rotina escolar e do medo da avaliação. Nenhuma delas se liga à ideia de criar com liberdade ilustrada pelos versos. Referência: Uchôa, 'Ser autor' (9º§), e Manoel de Barros, 'O menino que carregava água na peneira'. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponívelMarinha do Brasil — CPAEN/2022 — Concurso Público de Admissão à Escola Naval — 2º Dia — Prova de Física e Português — Prova Azul
Resolução comentada
Análise das alternativas
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Na figura acima, o bloco A, de massa m, repousa sobre um piso horizontal sem atrito, enquanto que o bloco B, de massa m/4, repousa sobre o bloco A. O coeficiente de atrito estático entre os blocos é μ. Sendo g a aceleração da gravidade, qual o módulo da maior força horizontal F que deve ser aplicada ao bloco B sem que os blocos deixem de se mover juntos?
TEXTO 1
SER AUTOR
Escrever é difícil? Parece que sim, a julgar pelo que ouço de pessoas muito diversas, até mesmo de escritores. Imagine para os pobres mortais! E, sobretudo, acrescentaria, numa sociedade que se julga e é julgada por não saber, em geral, escrever. Até mestrandos e doutorandos, vejam só, recorrem a colegas, selecionados da área de Letras, que supõem "saber português", para uma boa revisão do que rascunharam em seus trabalhos acadêmicos.
No meu tempo de docência universitária, ouvia, frequentemente, alunos comentarem que concluiriam o curso sem saberem escrever, que o português era difícil, com muitas regras e exceções! Tomava fôlego, quando este comentário era feito em sala de aula e, como quem não quer nada, indagava informalmente a um aluno: Por que você acha que não sabe português e que nossa(!) língua é difícil? Resposta invariável: Não domino bem estas classificações gramaticais e tenho também meus vacilos quanto ao uso da norma culta! Veja a gramática do inglês! Bem mais simples, não? Então, você escreve bem textos em inglês? É, mais ou menos...
Respiro fundo. Me lembro logo do Mário Quintana em situação semelhante: "Um dia de espantos, hoje. Conversando com uma rapariga em flor, estudante, queixa-se ela da dificuldade da língua portuguesa, espanto-me: Mas como pode ser difícil uma língua em que você está falando comigo há dez minutos com toda a facilidade? Ela ficou espantada."
Meus espantos eram frequentes... Ainda são! A escola, embora queiram alguns tampar o sol com a peneira, estimula a cultura do erro, contribuindo muito, e desde cedo, para perpetuar esta avaliação de que a língua é difícil, de que escrever "um texto correto" então nem se fala! Basta uma concordância, uma regência, "as sintaxes de exceção"...
Passava para os meus alunos testemunhos de alguns escritores, valorizados como tais, o de Rachel de Queiroz, por exemplo: Se eu dependesse, afirmava, para escrever, do domínio dos nomes tão complicados presentes no ensino da língua (ela se divertia), eu não poderia ser escritora. Como é mesmo? Oração reduzida de gerúndio? Sujeito inexistente? Substantivo epiceno?, caçoava. E ela, acrescento, mesmo pela fala da narradora, nem sempre se vale da língua bem comportada.
Escrever, na verdade, ainda que adotado certinho o português que é ensinado, exige bem mais da gente: o conhecimento do real, a ordenação das ideias, o domínio do gênero textual, a intenção comunicativa... Muitos outros conhecimentos, enfim! A vivência dos bancos escolares prossegue atuante pela vida afora, qual uma corrente. Nos tornamos adultos, com curso superior, e carentes ainda de um professor, por perto, para nos corrigir! Não dá para entender, dá? Só os escritores (e, atualmente, nem todos, nem todos...) e os que se arvoram em conhecedores da língua escapam de uma avaliação severa. Eta língua difícil! Eta sociedade que fica então a afrontar o uso da língua legitimado pelas autor(idades)!
Como ficar seguro de se assumir como autor, na escola e na vida, com tanto isto não pode, isto deve ser evitado, isto afronta as leis da língua, isto é de emprego não referendado pelos escritores (quais, na verdade?), isto, tenham paciência, é lá português? Perguntinha tola que me fica incomodando (gosto de me complicar - neurose? - com indagações perturbadoras): que língua falam todos os brasileiros (e são tantos!) sem escolaridade?
Fui a uma boa papelaria comprar um cartão para escrever a uma amiga, que aniversariava. Em minha procura, fui me dando conta de que eu só selecionava cartões com ilustrações de gosto duvidoso para mim: em geral, multicoloridas, florezinhas que estressavam o cartão, com variedade nas partes externa e interna deles, borboletas estilizadas então, em quase todos... E as mensagens? Sem erros gramaticais, diga-se logo! Mas que mensagens tolas, com palavras ou expressões mais que gastas, ou, ao contrário, meio solenes, com a pretensão, talvez, de darem ao texto certo sabor literário. Estas mensagens pouco variavam. Pudera!, eram impessoais. Onde o autor?
Sempre considerei que a vida, asseguradas certas igualdades, está na diferença. Uma palavra diferente pode nos proporcionar uma esperança nova. Indaguei a um funcionário da papelaria se não havia cartão, desses duplos, sem mensagem, e que a ilustração, caso existente, fosse sóbria (empreguei outra palavra, mais corrente, na ocasião). Não tinha, me respondeu. Coube, então, ao atendente me perguntar: Por que quer escrever a mensagem? Que trabalho! Já estão prontas em todos estes cartões daqui!
Capitulei. A sociedade, de modo geral, quer mesmo textos prontos e quase iguais. Reflexo mais evidente de gente que não está habituada a pensar, que acha que não pode ser autora nem de uma frasezinha (para que se expor assim à avaliação de um professor por aí?). Pego um destes cartões: "os primeiros raios de sol", "iluminem seu coração", "fazer seus pensamentos brilharem"... Positivamente não imagino uma criança ou um jovem como autor destas expressões. Para um adulto ser o destinatário, iriam pensar, iriam sim!, que ele as copiou justamente de um cartão destes, que já gozam de certa tradição, não se pode enganar!
No fundo mesmo, continuidade de uma rotina escolar antiga, em que o estudante, raramente, se sente autor do que escreve. Ouvi ou li outro dia o comentário pertinente que na escola se faz muita redação, mas se escreve pouco. Diria, que, sobretudo, quando se espera que, no texto, se crie um clima afetivo, com reticências, exclamações, interrogações. A escola se apresenta como a escola do ponto, fundamentalmente. Afinal, quase sempre, o interlocutor do aluno, - um interlocutor potente! - , é o professor. Todo cuidado é pouco... não é? Por isso, muitas vezes, a presença, em textos escolares, de palavras com paletó e gravata, ainda que empregadas inadequadamente.
O Manoel de Barros tem razão: Língua solene é coisa de políticos e advogados. É preciso ir ao encriançamento das palavras, palavras-brinquedo, palavras bolhas-de-sabão... Em certas situações, naturalmente. Com crianças então! Para festejar o aniversário de uma amiga, por que, num cartão, não começar a ser autor com um singelo, mas carinhoso "Gosto de você" ou num torpedo com um sempre bem recebido "Um beijo, minha amiga". Garantia assegurada de autoria textual! E de afetividade...
Fonte: UCHÔA, Carlos Eduardo Falcão. A vida e o tempo em tom de conversa: crônicas de um professor de linguagem. 1ª ed. Rio de Janeiro: Odisseia, 2013, p. 141-145. (Texto adaptado)
Assinale a opção que destaca o cuidado do locutor em adequar seu vocabulário aos conhecimentos linguísticos de seu interlocutor.Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 1
SER AUTOR
Escrever é difícil? Parece que sim, a julgar pelo que ouço de pessoas muito diversas, até mesmo de escritores. Imagine para os pobres mortais! E, sobretudo, acrescentaria, numa sociedade que se julga e é julgada por não saber, em geral, escrever. Até mestrandos e doutorandos, vejam só, recorrem a colegas, selecionados da área de Letras, que supõem "saber português", para uma boa revisão do que rascunharam em seus trabalhos acadêmicos.
No meu tempo de docência universitária, ouvia, frequentemente, alunos comentarem que concluiriam o curso sem saberem escrever, que o português era difícil, com muitas regras e exceções! Tomava fôlego, quando este comentário era feito em sala de aula e, como quem não quer nada, indagava informalmente a um aluno: Por que você acha que não sabe português e que nossa(!) língua é difícil? Resposta invariável: Não domino bem estas classificações gramaticais e tenho também meus vacilos quanto ao uso da norma culta! Veja a gramática do inglês! Bem mais simples, não? Então, você escreve bem textos em inglês? É, mais ou menos...
Respiro fundo. Me lembro logo do Mário Quintana em situação semelhante: "Um dia de espantos, hoje. Conversando com uma rapariga em flor, estudante, queixa-se ela da dificuldade da língua portuguesa, espanto-me: Mas como pode ser difícil uma língua em que você está falando comigo há dez minutos com toda a facilidade? Ela ficou espantada."
Meus espantos eram frequentes... Ainda são! A escola, embora queiram alguns tampar o sol com a peneira, estimula a cultura do erro, contribuindo muito, e desde cedo, para perpetuar esta avaliação de que a língua é difícil, de que escrever "um texto correto" então nem se fala! Basta uma concordância, uma regência, "as sintaxes de exceção"...
Passava para os meus alunos testemunhos de alguns escritores, valorizados como tais, o de Rachel de Queiroz, por exemplo: Se eu dependesse, afirmava, para escrever, do domínio dos nomes tão complicados presentes no ensino da língua (ela se divertia), eu não poderia ser escritora. Como é mesmo? Oração reduzida de gerúndio? Sujeito inexistente? Substantivo epiceno?, caçoava. E ela, acrescento, mesmo pela fala da narradora, nem sempre se vale da língua bem comportada.
Escrever, na verdade, ainda que adotado certinho o português que é ensinado, exige bem mais da gente: o conhecimento do real, a ordenação das ideias, o domínio do gênero textual, a intenção comunicativa... Muitos outros conhecimentos, enfim! A vivência dos bancos escolares prossegue atuante pela vida afora, qual uma corrente. Nos tornamos adultos, com curso superior, e carentes ainda de um professor, por perto, para nos corrigir! Não dá para entender, dá? Só os escritores (e, atualmente, nem todos, nem todos...) e os que se arvoram em conhecedores da língua escapam de uma avaliação severa. Eta língua difícil! Eta sociedade que fica então a afrontar o uso da língua legitimado pelas autor(idades)!
Como ficar seguro de se assumir como autor, na escola e na vida, com tanto isto não pode, isto deve ser evitado, isto afronta as leis da língua, isto é de emprego não referendado pelos escritores (quais, na verdade?), isto, tenham paciência, é lá português? Perguntinha tola que me fica incomodando (gosto de me complicar - neurose? - com indagações perturbadoras): que língua falam todos os brasileiros (e são tantos!) sem escolaridade?
Fui a uma boa papelaria comprar um cartão para escrever a uma amiga, que aniversariava. Em minha procura, fui me dando conta de que eu só selecionava cartões com ilustrações de gosto duvidoso para mim: em geral, multicoloridas, florezinhas que estressavam o cartão, com variedade nas partes externa e interna deles, borboletas estilizadas então, em quase todos... E as mensagens? Sem erros gramaticais, diga-se logo! Mas que mensagens tolas, com palavras ou expressões mais que gastas, ou, ao contrário, meio solenes, com a pretensão, talvez, de darem ao texto certo sabor literário. Estas mensagens pouco variavam. Pudera!, eram impessoais. Onde o autor?
Sempre considerei que a vida, asseguradas certas igualdades, está na diferença. Uma palavra diferente pode nos proporcionar uma esperança nova. Indaguei a um funcionário da papelaria se não havia cartão, desses duplos, sem mensagem, e que a ilustração, caso existente, fosse sóbria (empreguei outra palavra, mais corrente, na ocasião). Não tinha, me respondeu. Coube, então, ao atendente me perguntar: Por que quer escrever a mensagem? Que trabalho! Já estão prontas em todos estes cartões daqui!
Capitulei. A sociedade, de modo geral, quer mesmo textos prontos e quase iguais. Reflexo mais evidente de gente que não está habituada a pensar, que acha que não pode ser autora nem de uma frasezinha (para que se expor assim à avaliação de um professor por aí?). Pego um destes cartões: "os primeiros raios de sol", "iluminem seu coração", "fazer seus pensamentos brilharem"... Positivamente não imagino uma criança ou um jovem como autor destas expressões. Para um adulto ser o destinatário, iriam pensar, iriam sim!, que ele as copiou justamente de um cartão destes, que já gozam de certa tradição, não se pode enganar!
No fundo mesmo, continuidade de uma rotina escolar antiga, em que o estudante, raramente, se sente autor do que escreve. Ouvi ou li outro dia o comentário pertinente que na escola se faz muita redação, mas se escreve pouco. Diria, que, sobretudo, quando se espera que, no texto, se crie um clima afetivo, com reticências, exclamações, interrogações. A escola se apresenta como a escola do ponto, fundamentalmente. Afinal, quase sempre, o interlocutor do aluno, - um interlocutor potente! - , é o professor. Todo cuidado é pouco... não é? Por isso, muitas vezes, a presença, em textos escolares, de palavras com paletó e gravata, ainda que empregadas inadequadamente.
O Manoel de Barros tem razão: Língua solene é coisa de políticos e advogados. É preciso ir ao encriançamento das palavras, palavras-brinquedo, palavras bolhas-de-sabão... Em certas situações, naturalmente. Com crianças então! Para festejar o aniversário de uma amiga, por que, num cartão, não começar a ser autor com um singelo, mas carinhoso "Gosto de você" ou num torpedo com um sempre bem recebido "Um beijo, minha amiga". Garantia assegurada de autoria textual! E de afetividade...
Fonte: UCHÔA, Carlos Eduardo Falcão. A vida e o tempo em tom de conversa: crônicas de um professor de linguagem. 1ª ed. Rio de Janeiro: Odisseia, 2013, p. 141-145. (Texto adaptado)
Observe o trecho:
“Como é mesmo? Oração reduzida de gerúndio? Sujeito inexistente? Substantivo epiceno?, caçoava.” (5º§)
Assinale a opção em que o termo destacado nos trechos abaixo é um substantivo epiceno.
TEXTO 1
SER AUTOR
Escrever é difícil? Parece que sim, a julgar pelo que ouço de pessoas muito diversas, até mesmo de escritores. Imagine para os pobres mortais! E, sobretudo, acrescentaria, numa sociedade que se julga e é julgada por não saber, em geral, escrever. Até mestrandos e doutorandos, vejam só, recorrem a colegas, selecionados da área de Letras, que supõem "saber português", para uma boa revisão do que rascunharam em seus trabalhos acadêmicos.
No meu tempo de docência universitária, ouvia, frequentemente, alunos comentarem que concluiriam o curso sem saberem escrever, que o português era difícil, com muitas regras e exceções! Tomava fôlego, quando este comentário era feito em sala de aula e, como quem não quer nada, indagava informalmente a um aluno: Por que você acha que não sabe português e que nossa(!) língua é difícil? Resposta invariável: Não domino bem estas classificações gramaticais e tenho também meus vacilos quanto ao uso da norma culta! Veja a gramática do inglês! Bem mais simples, não? Então, você escreve bem textos em inglês? É, mais ou menos...
Respiro fundo. Me lembro logo do Mário Quintana em situação semelhante: "Um dia de espantos, hoje. Conversando com uma rapariga em flor, estudante, queixa-se ela da dificuldade da língua portuguesa, espanto-me: Mas como pode ser difícil uma língua em que você está falando comigo há dez minutos com toda a facilidade? Ela ficou espantada."
Meus espantos eram frequentes... Ainda são! A escola, embora queiram alguns tampar o sol com a peneira, estimula a cultura do erro, contribuindo muito, e desde cedo, para perpetuar esta avaliação de que a língua é difícil, de que escrever "um texto correto" então nem se fala! Basta uma concordância, uma regência, "as sintaxes de exceção"...
Passava para os meus alunos testemunhos de alguns escritores, valorizados como tais, o de Rachel de Queiroz, por exemplo: Se eu dependesse, afirmava, para escrever, do domínio dos nomes tão complicados presentes no ensino da língua (ela se divertia), eu não poderia ser escritora. Como é mesmo? Oração reduzida de gerúndio? Sujeito inexistente? Substantivo epiceno?, caçoava. E ela, acrescento, mesmo pela fala da narradora, nem sempre se vale da língua bem comportada.
Escrever, na verdade, ainda que adotado certinho o português que é ensinado, exige bem mais da gente: o conhecimento do real, a ordenação das ideias, o domínio do gênero textual, a intenção comunicativa... Muitos outros conhecimentos, enfim! A vivência dos bancos escolares prossegue atuante pela vida afora, qual uma corrente. Nos tornamos adultos, com curso superior, e carentes ainda de um professor, por perto, para nos corrigir! Não dá para entender, dá? Só os escritores (e, atualmente, nem todos, nem todos...) e os que se arvoram em conhecedores da língua escapam de uma avaliação severa. Eta língua difícil! Eta sociedade que fica então a afrontar o uso da língua legitimado pelas autor(idades)!
Como ficar seguro de se assumir como autor, na escola e na vida, com tanto isto não pode, isto deve ser evitado, isto afronta as leis da língua, isto é de emprego não referendado pelos escritores (quais, na verdade?), isto, tenham paciência, é lá português? Perguntinha tola que me fica incomodando (gosto de me complicar - neurose? - com indagações perturbadoras): que língua falam todos os brasileiros (e são tantos!) sem escolaridade?
Fui a uma boa papelaria comprar um cartão para escrever a uma amiga, que aniversariava. Em minha procura, fui me dando conta de que eu só selecionava cartões com ilustrações de gosto duvidoso para mim: em geral, multicoloridas, florezinhas que estressavam o cartão, com variedade nas partes externa e interna deles, borboletas estilizadas então, em quase todos... E as mensagens? Sem erros gramaticais, diga-se logo! Mas que mensagens tolas, com palavras ou expressões mais que gastas, ou, ao contrário, meio solenes, com a pretensão, talvez, de darem ao texto certo sabor literário. Estas mensagens pouco variavam. Pudera!, eram impessoais. Onde o autor?
Sempre considerei que a vida, asseguradas certas igualdades, está na diferença. Uma palavra diferente pode nos proporcionar uma esperança nova. Indaguei a um funcionário da papelaria se não havia cartão, desses duplos, sem mensagem, e que a ilustração, caso existente, fosse sóbria (empreguei outra palavra, mais corrente, na ocasião). Não tinha, me respondeu. Coube, então, ao atendente me perguntar: Por que quer escrever a mensagem? Que trabalho! Já estão prontas em todos estes cartões daqui!
Capitulei. A sociedade, de modo geral, quer mesmo textos prontos e quase iguais. Reflexo mais evidente de gente que não está habituada a pensar, que acha que não pode ser autora nem de uma frasezinha (para que se expor assim à avaliação de um professor por aí?). Pego um destes cartões: "os primeiros raios de sol", "iluminem seu coração", "fazer seus pensamentos brilharem"... Positivamente não imagino uma criança ou um jovem como autor destas expressões. Para um adulto ser o destinatário, iriam pensar, iriam sim!, que ele as copiou justamente de um cartão destes, que já gozam de certa tradição, não se pode enganar!
No fundo mesmo, continuidade de uma rotina escolar antiga, em que o estudante, raramente, se sente autor do que escreve. Ouvi ou li outro dia o comentário pertinente que na escola se faz muita redação, mas se escreve pouco. Diria, que, sobretudo, quando se espera que, no texto, se crie um clima afetivo, com reticências, exclamações, interrogações. A escola se apresenta como a escola do ponto, fundamentalmente. Afinal, quase sempre, o interlocutor do aluno, - um interlocutor potente! - , é o professor. Todo cuidado é pouco... não é? Por isso, muitas vezes, a presença, em textos escolares, de palavras com paletó e gravata, ainda que empregadas inadequadamente.
O Manoel de Barros tem razão: Língua solene é coisa de políticos e advogados. É preciso ir ao encriançamento das palavras, palavras-brinquedo, palavras bolhas-de-sabão... Em certas situações, naturalmente. Com crianças então! Para festejar o aniversário de uma amiga, por que, num cartão, não começar a ser autor com um singelo, mas carinhoso "Gosto de você" ou num torpedo com um sempre bem recebido "Um beijo, minha amiga". Garantia assegurada de autoria textual! E de afetividade...
Fonte: UCHÔA, Carlos Eduardo Falcão. A vida e o tempo em tom de conversa: crônicas de um professor de linguagem. 1ª ed. Rio de Janeiro: Odisseia, 2013, p. 141-145. (Texto adaptado)
Leia o trecho abaixo.
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Assinale a opção em que a palavra proposta deve ser acentuada por não seguir a mesma regra de acentuação do termo em destaque no trecho.
TEXTO 1
SER AUTOR
Escrever é difícil? Parece que sim, a julgar pelo que ouço de pessoas muito diversas, até mesmo de escritores. Imagine para os pobres mortais! E, sobretudo, acrescentaria, numa sociedade que se julga e é julgada por não saber, em geral, escrever. Até mestrandos e doutorandos, vejam só, recorrem a colegas, selecionados da área de Letras, que supõem "saber português", para uma boa revisão do que rascunharam em seus trabalhos acadêmicos.
No meu tempo de docência universitária, ouvia, frequentemente, alunos comentarem que concluiriam o curso sem saberem escrever, que o português era difícil, com muitas regras e exceções! Tomava fôlego, quando este comentário era feito em sala de aula e, como quem não quer nada, indagava informalmente a um aluno: Por que você acha que não sabe português e que nossa(!) língua é difícil? Resposta invariável: Não domino bem estas classificações gramaticais e tenho também meus vacilos quanto ao uso da norma culta! Veja a gramática do inglês! Bem mais simples, não? Então, você escreve bem textos em inglês? É, mais ou menos...
Respiro fundo. Me lembro logo do Mário Quintana em situação semelhante: "Um dia de espantos, hoje. Conversando com uma rapariga em flor, estudante, queixa-se ela da dificuldade da língua portuguesa, espanto-me: Mas como pode ser difícil uma língua em que você está falando comigo há dez minutos com toda a facilidade? Ela ficou espantada."
Meus espantos eram frequentes... Ainda são! A escola, embora queiram alguns tampar o sol com a peneira, estimula a cultura do erro, contribuindo muito, e desde cedo, para perpetuar esta avaliação de que a língua é difícil, de que escrever "um texto correto" então nem se fala! Basta uma concordância, uma regência, "as sintaxes de exceção"...
Passava para os meus alunos testemunhos de alguns escritores, valorizados como tais, o de Rachel de Queiroz, por exemplo: Se eu dependesse, afirmava, para escrever, do domínio dos nomes tão complicados presentes no ensino da língua (ela se divertia), eu não poderia ser escritora. Como é mesmo? Oração reduzida de gerúndio? Sujeito inexistente? Substantivo epiceno?, caçoava. E ela, acrescento, mesmo pela fala da narradora, nem sempre se vale da língua bem comportada.
Escrever, na verdade, ainda que adotado certinho o português que é ensinado, exige bem mais da gente: o conhecimento do real, a ordenação das ideias, o domínio do gênero textual, a intenção comunicativa... Muitos outros conhecimentos, enfim! A vivência dos bancos escolares prossegue atuante pela vida afora, qual uma corrente. Nos tornamos adultos, com curso superior, e carentes ainda de um professor, por perto, para nos corrigir! Não dá para entender, dá? Só os escritores (e, atualmente, nem todos, nem todos...) e os que se arvoram em conhecedores da língua escapam de uma avaliação severa. Eta língua difícil! Eta sociedade que fica então a afrontar o uso da língua legitimado pelas autor(idades)!
Como ficar seguro de se assumir como autor, na escola e na vida, com tanto isto não pode, isto deve ser evitado, isto afronta as leis da língua, isto é de emprego não referendado pelos escritores (quais, na verdade?), isto, tenham paciência, é lá português? Perguntinha tola que me fica incomodando (gosto de me complicar - neurose? - com indagações perturbadoras): que língua falam todos os brasileiros (e são tantos!) sem escolaridade?
Fui a uma boa papelaria comprar um cartão para escrever a uma amiga, que aniversariava. Em minha procura, fui me dando conta de que eu só selecionava cartões com ilustrações de gosto duvidoso para mim: em geral, multicoloridas, florezinhas que estressavam o cartão, com variedade nas partes externa e interna deles, borboletas estilizadas então, em quase todos... E as mensagens? Sem erros gramaticais, diga-se logo! Mas que mensagens tolas, com palavras ou expressões mais que gastas, ou, ao contrário, meio solenes, com a pretensão, talvez, de darem ao texto certo sabor literário. Estas mensagens pouco variavam. Pudera!, eram impessoais. Onde o autor?
Sempre considerei que a vida, asseguradas certas igualdades, está na diferença. Uma palavra diferente pode nos proporcionar uma esperança nova. Indaguei a um funcionário da papelaria se não havia cartão, desses duplos, sem mensagem, e que a ilustração, caso existente, fosse sóbria (empreguei outra palavra, mais corrente, na ocasião). Não tinha, me respondeu. Coube, então, ao atendente me perguntar: Por que quer escrever a mensagem? Que trabalho! Já estão prontas em todos estes cartões daqui!
Capitulei. A sociedade, de modo geral, quer mesmo textos prontos e quase iguais. Reflexo mais evidente de gente que não está habituada a pensar, que acha que não pode ser autora nem de uma frasezinha (para que se expor assim à avaliação de um professor por aí?). Pego um destes cartões: "os primeiros raios de sol", "iluminem seu coração", "fazer seus pensamentos brilharem"... Positivamente não imagino uma criança ou um jovem como autor destas expressões. Para um adulto ser o destinatário, iriam pensar, iriam sim!, que ele as copiou justamente de um cartão destes, que já gozam de certa tradição, não se pode enganar!
No fundo mesmo, continuidade de uma rotina escolar antiga, em que o estudante, raramente, se sente autor do que escreve. Ouvi ou li outro dia o comentário pertinente que na escola se faz muita redação, mas se escreve pouco. Diria, que, sobretudo, quando se espera que, no texto, se crie um clima afetivo, com reticências, exclamações, interrogações. A escola se apresenta como a escola do ponto, fundamentalmente. Afinal, quase sempre, o interlocutor do aluno, - um interlocutor potente! - , é o professor. Todo cuidado é pouco... não é? Por isso, muitas vezes, a presença, em textos escolares, de palavras com paletó e gravata, ainda que empregadas inadequadamente.
O Manoel de Barros tem razão: Língua solene é coisa de políticos e advogados. É preciso ir ao encriançamento das palavras, palavras-brinquedo, palavras bolhas-de-sabão... Em certas situações, naturalmente. Com crianças então! Para festejar o aniversário de uma amiga, por que, num cartão, não começar a ser autor com um singelo, mas carinhoso "Gosto de você" ou num torpedo com um sempre bem recebido "Um beijo, minha amiga". Garantia assegurada de autoria textual! E de afetividade...
Fonte: UCHÔA, Carlos Eduardo Falcão. A vida e o tempo em tom de conversa: crônicas de um professor de linguagem. 1ª ed. Rio de Janeiro: Odisseia, 2013, p. 141-145. (Texto adaptado)
A partir das informações presentes no texto, assinale a opção em que se reproduz um trecho que NÃO contém intertextualidade.Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 1
SER AUTOR
Escrever é difícil? Parece que sim, a julgar pelo que ouço de pessoas muito diversas, até mesmo de escritores. Imagine para os pobres mortais! E, sobretudo, acrescentaria, numa sociedade que se julga e é julgada por não saber, em geral, escrever. Até mestrandos e doutorandos, vejam só, recorrem a colegas, selecionados da área de Letras, que supõem "saber português", para uma boa revisão do que rascunharam em seus trabalhos acadêmicos.
No meu tempo de docência universitária, ouvia, frequentemente, alunos comentarem que concluiriam o curso sem saberem escrever, que o português era difícil, com muitas regras e exceções! Tomava fôlego, quando este comentário era feito em sala de aula e, como quem não quer nada, indagava informalmente a um aluno: Por que você acha que não sabe português e que nossa(!) língua é difícil? Resposta invariável: Não domino bem estas classificações gramaticais e tenho também meus vacilos quanto ao uso da norma culta! Veja a gramática do inglês! Bem mais simples, não? Então, você escreve bem textos em inglês? É, mais ou menos...
Respiro fundo. Me lembro logo do Mário Quintana em situação semelhante: "Um dia de espantos, hoje. Conversando com uma rapariga em flor, estudante, queixa-se ela da dificuldade da língua portuguesa, espanto-me: Mas como pode ser difícil uma língua em que você está falando comigo há dez minutos com toda a facilidade? Ela ficou espantada."
Meus espantos eram frequentes... Ainda são! A escola, embora queiram alguns tampar o sol com a peneira, estimula a cultura do erro, contribuindo muito, e desde cedo, para perpetuar esta avaliação de que a língua é difícil, de que escrever "um texto correto" então nem se fala! Basta uma concordância, uma regência, "as sintaxes de exceção"...
Passava para os meus alunos testemunhos de alguns escritores, valorizados como tais, o de Rachel de Queiroz, por exemplo: Se eu dependesse, afirmava, para escrever, do domínio dos nomes tão complicados presentes no ensino da língua (ela se divertia), eu não poderia ser escritora. Como é mesmo? Oração reduzida de gerúndio? Sujeito inexistente? Substantivo epiceno?, caçoava. E ela, acrescento, mesmo pela fala da narradora, nem sempre se vale da língua bem comportada.
Escrever, na verdade, ainda que adotado certinho o português que é ensinado, exige bem mais da gente: o conhecimento do real, a ordenação das ideias, o domínio do gênero textual, a intenção comunicativa... Muitos outros conhecimentos, enfim! A vivência dos bancos escolares prossegue atuante pela vida afora, qual uma corrente. Nos tornamos adultos, com curso superior, e carentes ainda de um professor, por perto, para nos corrigir! Não dá para entender, dá? Só os escritores (e, atualmente, nem todos, nem todos...) e os que se arvoram em conhecedores da língua escapam de uma avaliação severa. Eta língua difícil! Eta sociedade que fica então a afrontar o uso da língua legitimado pelas autor(idades)!
Como ficar seguro de se assumir como autor, na escola e na vida, com tanto isto não pode, isto deve ser evitado, isto afronta as leis da língua, isto é de emprego não referendado pelos escritores (quais, na verdade?), isto, tenham paciência, é lá português? Perguntinha tola que me fica incomodando (gosto de me complicar - neurose? - com indagações perturbadoras): que língua falam todos os brasileiros (e são tantos!) sem escolaridade?
Fui a uma boa papelaria comprar um cartão para escrever a uma amiga, que aniversariava. Em minha procura, fui me dando conta de que eu só selecionava cartões com ilustrações de gosto duvidoso para mim: em geral, multicoloridas, florezinhas que estressavam o cartão, com variedade nas partes externa e interna deles, borboletas estilizadas então, em quase todos... E as mensagens? Sem erros gramaticais, diga-se logo! Mas que mensagens tolas, com palavras ou expressões mais que gastas, ou, ao contrário, meio solenes, com a pretensão, talvez, de darem ao texto certo sabor literário. Estas mensagens pouco variavam. Pudera!, eram impessoais. Onde o autor?
Sempre considerei que a vida, asseguradas certas igualdades, está na diferença. Uma palavra diferente pode nos proporcionar uma esperança nova. Indaguei a um funcionário da papelaria se não havia cartão, desses duplos, sem mensagem, e que a ilustração, caso existente, fosse sóbria (empreguei outra palavra, mais corrente, na ocasião). Não tinha, me respondeu. Coube, então, ao atendente me perguntar: Por que quer escrever a mensagem? Que trabalho! Já estão prontas em todos estes cartões daqui!
Capitulei. A sociedade, de modo geral, quer mesmo textos prontos e quase iguais. Reflexo mais evidente de gente que não está habituada a pensar, que acha que não pode ser autora nem de uma frasezinha (para que se expor assim à avaliação de um professor por aí?). Pego um destes cartões: "os primeiros raios de sol", "iluminem seu coração", "fazer seus pensamentos brilharem"... Positivamente não imagino uma criança ou um jovem como autor destas expressões. Para um adulto ser o destinatário, iriam pensar, iriam sim!, que ele as copiou justamente de um cartão destes, que já gozam de certa tradição, não se pode enganar!
No fundo mesmo, continuidade de uma rotina escolar antiga, em que o estudante, raramente, se sente autor do que escreve. Ouvi ou li outro dia o comentário pertinente que na escola se faz muita redação, mas se escreve pouco. Diria, que, sobretudo, quando se espera que, no texto, se crie um clima afetivo, com reticências, exclamações, interrogações. A escola se apresenta como a escola do ponto, fundamentalmente. Afinal, quase sempre, o interlocutor do aluno, - um interlocutor potente! - , é o professor. Todo cuidado é pouco... não é? Por isso, muitas vezes, a presença, em textos escolares, de palavras com paletó e gravata, ainda que empregadas inadequadamente.
O Manoel de Barros tem razão: Língua solene é coisa de políticos e advogados. É preciso ir ao encriançamento das palavras, palavras-brinquedo, palavras bolhas-de-sabão... Em certas situações, naturalmente. Com crianças então! Para festejar o aniversário de uma amiga, por que, num cartão, não começar a ser autor com um singelo, mas carinhoso "Gosto de você" ou num torpedo com um sempre bem recebido "Um beijo, minha amiga". Garantia assegurada de autoria textual! E de afetividade...
Fonte: UCHÔA, Carlos Eduardo Falcão. A vida e o tempo em tom de conversa: crônicas de um professor de linguagem. 1ª ed. Rio de Janeiro: Odisseia, 2013, p. 141-145. (Texto adaptado)
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TEXTO 1
SER AUTOR
Escrever é difícil? Parece que sim, a julgar pelo que ouço de pessoas muito diversas, até mesmo de escritores. Imagine para os pobres mortais! E, sobretudo, acrescentaria, numa sociedade que se julga e é julgada por não saber, em geral, escrever. Até mestrandos e doutorandos, vejam só, recorrem a colegas, selecionados da área de Letras, que supõem "saber português", para uma boa revisão do que rascunharam em seus trabalhos acadêmicos.
No meu tempo de docência universitária, ouvia, frequentemente, alunos comentarem que concluiriam o curso sem saberem escrever, que o português era difícil, com muitas regras e exceções! Tomava fôlego, quando este comentário era feito em sala de aula e, como quem não quer nada, indagava informalmente a um aluno: Por que você acha que não sabe português e que nossa(!) língua é difícil? Resposta invariável: Não domino bem estas classificações gramaticais e tenho também meus vacilos quanto ao uso da norma culta! Veja a gramática do inglês! Bem mais simples, não? Então, você escreve bem textos em inglês? É, mais ou menos...
Respiro fundo. Me lembro logo do Mário Quintana em situação semelhante: "Um dia de espantos, hoje. Conversando com uma rapariga em flor, estudante, queixa-se ela da dificuldade da língua portuguesa, espanto-me: Mas como pode ser difícil uma língua em que você está falando comigo há dez minutos com toda a facilidade? Ela ficou espantada."
Meus espantos eram frequentes... Ainda são! A escola, embora queiram alguns tampar o sol com a peneira, estimula a cultura do erro, contribuindo muito, e desde cedo, para perpetuar esta avaliação de que a língua é difícil, de que escrever "um texto correto" então nem se fala! Basta uma concordância, uma regência, "as sintaxes de exceção"...
Passava para os meus alunos testemunhos de alguns escritores, valorizados como tais, o de Rachel de Queiroz, por exemplo: Se eu dependesse, afirmava, para escrever, do domínio dos nomes tão complicados presentes no ensino da língua (ela se divertia), eu não poderia ser escritora. Como é mesmo? Oração reduzida de gerúndio? Sujeito inexistente? Substantivo epiceno?, caçoava. E ela, acrescento, mesmo pela fala da narradora, nem sempre se vale da língua bem comportada.
Escrever, na verdade, ainda que adotado certinho o português que é ensinado, exige bem mais da gente: o conhecimento do real, a ordenação das ideias, o domínio do gênero textual, a intenção comunicativa... Muitos outros conhecimentos, enfim! A vivência dos bancos escolares prossegue atuante pela vida afora, qual uma corrente. Nos tornamos adultos, com curso superior, e carentes ainda de um professor, por perto, para nos corrigir! Não dá para entender, dá? Só os escritores (e, atualmente, nem todos, nem todos...) e os que se arvoram em conhecedores da língua escapam de uma avaliação severa. Eta língua difícil! Eta sociedade que fica então a afrontar o uso da língua legitimado pelas autor(idades)!
Como ficar seguro de se assumir como autor, na escola e na vida, com tanto isto não pode, isto deve ser evitado, isto afronta as leis da língua, isto é de emprego não referendado pelos escritores (quais, na verdade?), isto, tenham paciência, é lá português? Perguntinha tola que me fica incomodando (gosto de me complicar - neurose? - com indagações perturbadoras): que língua falam todos os brasileiros (e são tantos!) sem escolaridade?
Fui a uma boa papelaria comprar um cartão para escrever a uma amiga, que aniversariava. Em minha procura, fui me dando conta de que eu só selecionava cartões com ilustrações de gosto duvidoso para mim: em geral, multicoloridas, florezinhas que estressavam o cartão, com variedade nas partes externa e interna deles, borboletas estilizadas então, em quase todos... E as mensagens? Sem erros gramaticais, diga-se logo! Mas que mensagens tolas, com palavras ou expressões mais que gastas, ou, ao contrário, meio solenes, com a pretensão, talvez, de darem ao texto certo sabor literário. Estas mensagens pouco variavam. Pudera!, eram impessoais. Onde o autor?
Sempre considerei que a vida, asseguradas certas igualdades, está na diferença. Uma palavra diferente pode nos proporcionar uma esperança nova. Indaguei a um funcionário da papelaria se não havia cartão, desses duplos, sem mensagem, e que a ilustração, caso existente, fosse sóbria (empreguei outra palavra, mais corrente, na ocasião). Não tinha, me respondeu. Coube, então, ao atendente me perguntar: Por que quer escrever a mensagem? Que trabalho! Já estão prontas em todos estes cartões daqui!
Capitulei. A sociedade, de modo geral, quer mesmo textos prontos e quase iguais. Reflexo mais evidente de gente que não está habituada a pensar, que acha que não pode ser autora nem de uma frasezinha (para que se expor assim à avaliação de um professor por aí?). Pego um destes cartões: "os primeiros raios de sol", "iluminem seu coração", "fazer seus pensamentos brilharem"... Positivamente não imagino uma criança ou um jovem como autor destas expressões. Para um adulto ser o destinatário, iriam pensar, iriam sim!, que ele as copiou justamente de um cartão destes, que já gozam de certa tradição, não se pode enganar!
No fundo mesmo, continuidade de uma rotina escolar antiga, em que o estudante, raramente, se sente autor do que escreve. Ouvi ou li outro dia o comentário pertinente que na escola se faz muita redação, mas se escreve pouco. Diria, que, sobretudo, quando se espera que, no texto, se crie um clima afetivo, com reticências, exclamações, interrogações. A escola se apresenta como a escola do ponto, fundamentalmente. Afinal, quase sempre, o interlocutor do aluno, - um interlocutor potente! - , é o professor. Todo cuidado é pouco... não é? Por isso, muitas vezes, a presença, em textos escolares, de palavras com paletó e gravata, ainda que empregadas inadequadamente.
O Manoel de Barros tem razão: Língua solene é coisa de políticos e advogados. É preciso ir ao encriançamento das palavras, palavras-brinquedo, palavras bolhas-de-sabão... Em certas situações, naturalmente. Com crianças então! Para festejar o aniversário de uma amiga, por que, num cartão, não começar a ser autor com um singelo, mas carinhoso "Gosto de você" ou num torpedo com um sempre bem recebido "Um beijo, minha amiga". Garantia assegurada de autoria textual! E de afetividade...
Fonte: UCHÔA, Carlos Eduardo Falcão. A vida e o tempo em tom de conversa: crônicas de um professor de linguagem. 1ª ed. Rio de Janeiro: Odisseia, 2013, p. 141-145. (Texto adaptado)
Assinale a opção em que o enunciado se estrutura, exclusivamente, com sentido denotativo.Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 1
SER AUTOR
Escrever é difícil? Parece que sim, a julgar pelo que ouço de pessoas muito diversas, até mesmo de escritores. Imagine para os pobres mortais! E, sobretudo, acrescentaria, numa sociedade que se julga e é julgada por não saber, em geral, escrever. Até mestrandos e doutorandos, vejam só, recorrem a colegas, selecionados da área de Letras, que supõem "saber português", para uma boa revisão do que rascunharam em seus trabalhos acadêmicos.
No meu tempo de docência universitária, ouvia, frequentemente, alunos comentarem que concluiriam o curso sem saberem escrever, que o português era difícil, com muitas regras e exceções! Tomava fôlego, quando este comentário era feito em sala de aula e, como quem não quer nada, indagava informalmente a um aluno: Por que você acha que não sabe português e que nossa(!) língua é difícil? Resposta invariável: Não domino bem estas classificações gramaticais e tenho também meus vacilos quanto ao uso da norma culta! Veja a gramática do inglês! Bem mais simples, não? Então, você escreve bem textos em inglês? É, mais ou menos...
Respiro fundo. Me lembro logo do Mário Quintana em situação semelhante: "Um dia de espantos, hoje. Conversando com uma rapariga em flor, estudante, queixa-se ela da dificuldade da língua portuguesa, espanto-me: Mas como pode ser difícil uma língua em que você está falando comigo há dez minutos com toda a facilidade? Ela ficou espantada."
Meus espantos eram frequentes... Ainda são! A escola, embora queiram alguns tampar o sol com a peneira, estimula a cultura do erro, contribuindo muito, e desde cedo, para perpetuar esta avaliação de que a língua é difícil, de que escrever "um texto correto" então nem se fala! Basta uma concordância, uma regência, "as sintaxes de exceção"...
Passava para os meus alunos testemunhos de alguns escritores, valorizados como tais, o de Rachel de Queiroz, por exemplo: Se eu dependesse, afirmava, para escrever, do domínio dos nomes tão complicados presentes no ensino da língua (ela se divertia), eu não poderia ser escritora. Como é mesmo? Oração reduzida de gerúndio? Sujeito inexistente? Substantivo epiceno?, caçoava. E ela, acrescento, mesmo pela fala da narradora, nem sempre se vale da língua bem comportada.
Escrever, na verdade, ainda que adotado certinho o português que é ensinado, exige bem mais da gente: o conhecimento do real, a ordenação das ideias, o domínio do gênero textual, a intenção comunicativa... Muitos outros conhecimentos, enfim! A vivência dos bancos escolares prossegue atuante pela vida afora, qual uma corrente. Nos tornamos adultos, com curso superior, e carentes ainda de um professor, por perto, para nos corrigir! Não dá para entender, dá? Só os escritores (e, atualmente, nem todos, nem todos...) e os que se arvoram em conhecedores da língua escapam de uma avaliação severa. Eta língua difícil! Eta sociedade que fica então a afrontar o uso da língua legitimado pelas autor(idades)!
Como ficar seguro de se assumir como autor, na escola e na vida, com tanto isto não pode, isto deve ser evitado, isto afronta as leis da língua, isto é de emprego não referendado pelos escritores (quais, na verdade?), isto, tenham paciência, é lá português? Perguntinha tola que me fica incomodando (gosto de me complicar - neurose? - com indagações perturbadoras): que língua falam todos os brasileiros (e são tantos!) sem escolaridade?
Fui a uma boa papelaria comprar um cartão para escrever a uma amiga, que aniversariava. Em minha procura, fui me dando conta de que eu só selecionava cartões com ilustrações de gosto duvidoso para mim: em geral, multicoloridas, florezinhas que estressavam o cartão, com variedade nas partes externa e interna deles, borboletas estilizadas então, em quase todos... E as mensagens? Sem erros gramaticais, diga-se logo! Mas que mensagens tolas, com palavras ou expressões mais que gastas, ou, ao contrário, meio solenes, com a pretensão, talvez, de darem ao texto certo sabor literário. Estas mensagens pouco variavam. Pudera!, eram impessoais. Onde o autor?
Sempre considerei que a vida, asseguradas certas igualdades, está na diferença. Uma palavra diferente pode nos proporcionar uma esperança nova. Indaguei a um funcionário da papelaria se não havia cartão, desses duplos, sem mensagem, e que a ilustração, caso existente, fosse sóbria (empreguei outra palavra, mais corrente, na ocasião). Não tinha, me respondeu. Coube, então, ao atendente me perguntar: Por que quer escrever a mensagem? Que trabalho! Já estão prontas em todos estes cartões daqui!
Capitulei. A sociedade, de modo geral, quer mesmo textos prontos e quase iguais. Reflexo mais evidente de gente que não está habituada a pensar, que acha que não pode ser autora nem de uma frasezinha (para que se expor assim à avaliação de um professor por aí?). Pego um destes cartões: "os primeiros raios de sol", "iluminem seu coração", "fazer seus pensamentos brilharem"... Positivamente não imagino uma criança ou um jovem como autor destas expressões. Para um adulto ser o destinatário, iriam pensar, iriam sim!, que ele as copiou justamente de um cartão destes, que já gozam de certa tradição, não se pode enganar!
No fundo mesmo, continuidade de uma rotina escolar antiga, em que o estudante, raramente, se sente autor do que escreve. Ouvi ou li outro dia o comentário pertinente que na escola se faz muita redação, mas se escreve pouco. Diria, que, sobretudo, quando se espera que, no texto, se crie um clima afetivo, com reticências, exclamações, interrogações. A escola se apresenta como a escola do ponto, fundamentalmente. Afinal, quase sempre, o interlocutor do aluno, - um interlocutor potente! - , é o professor. Todo cuidado é pouco... não é? Por isso, muitas vezes, a presença, em textos escolares, de palavras com paletó e gravata, ainda que empregadas inadequadamente.
O Manoel de Barros tem razão: Língua solene é coisa de políticos e advogados. É preciso ir ao encriançamento das palavras, palavras-brinquedo, palavras bolhas-de-sabão... Em certas situações, naturalmente. Com crianças então! Para festejar o aniversário de uma amiga, por que, num cartão, não começar a ser autor com um singelo, mas carinhoso "Gosto de você" ou num torpedo com um sempre bem recebido "Um beijo, minha amiga". Garantia assegurada de autoria textual! E de afetividade...
Fonte: UCHÔA, Carlos Eduardo Falcão. A vida e o tempo em tom de conversa: crônicas de um professor de linguagem. 1ª ed. Rio de Janeiro: Odisseia, 2013, p. 141-145. (Texto adaptado)
Analise a intencionalidade do autor a partir do uso das reticências no seguinte trecho: “Então, você escreve bem textos em inglês? É, mais ou menos...” (2º§)
Em qual opção as reticências são utilizadas pelo autor com a mesma intencionalidade.Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 1
SER AUTOR
Escrever é difícil? Parece que sim, a julgar pelo que ouço de pessoas muito diversas, até mesmo de escritores. Imagine para os pobres mortais! E, sobretudo, acrescentaria, numa sociedade que se julga e é julgada por não saber, em geral, escrever. Até mestrandos e doutorandos, vejam só, recorrem a colegas, selecionados da área de Letras, que supõem "saber português", para uma boa revisão do que rascunharam em seus trabalhos acadêmicos.
No meu tempo de docência universitária, ouvia, frequentemente, alunos comentarem que concluiriam o curso sem saberem escrever, que o português era difícil, com muitas regras e exceções! Tomava fôlego, quando este comentário era feito em sala de aula e, como quem não quer nada, indagava informalmente a um aluno: Por que você acha que não sabe português e que nossa(!) língua é difícil? Resposta invariável: Não domino bem estas classificações gramaticais e tenho também meus vacilos quanto ao uso da norma culta! Veja a gramática do inglês! Bem mais simples, não? Então, você escreve bem textos em inglês? É, mais ou menos...
Respiro fundo. Me lembro logo do Mário Quintana em situação semelhante: "Um dia de espantos, hoje. Conversando com uma rapariga em flor, estudante, queixa-se ela da dificuldade da língua portuguesa, espanto-me: Mas como pode ser difícil uma língua em que você está falando comigo há dez minutos com toda a facilidade? Ela ficou espantada."
Meus espantos eram frequentes... Ainda são! A escola, embora queiram alguns tampar o sol com a peneira, estimula a cultura do erro, contribuindo muito, e desde cedo, para perpetuar esta avaliação de que a língua é difícil, de que escrever "um texto correto" então nem se fala! Basta uma concordância, uma regência, "as sintaxes de exceção"...
Passava para os meus alunos testemunhos de alguns escritores, valorizados como tais, o de Rachel de Queiroz, por exemplo: Se eu dependesse, afirmava, para escrever, do domínio dos nomes tão complicados presentes no ensino da língua (ela se divertia), eu não poderia ser escritora. Como é mesmo? Oração reduzida de gerúndio? Sujeito inexistente? Substantivo epiceno?, caçoava. E ela, acrescento, mesmo pela fala da narradora, nem sempre se vale da língua bem comportada.
Escrever, na verdade, ainda que adotado certinho o português que é ensinado, exige bem mais da gente: o conhecimento do real, a ordenação das ideias, o domínio do gênero textual, a intenção comunicativa... Muitos outros conhecimentos, enfim! A vivência dos bancos escolares prossegue atuante pela vida afora, qual uma corrente. Nos tornamos adultos, com curso superior, e carentes ainda de um professor, por perto, para nos corrigir! Não dá para entender, dá? Só os escritores (e, atualmente, nem todos, nem todos...) e os que se arvoram em conhecedores da língua escapam de uma avaliação severa. Eta língua difícil! Eta sociedade que fica então a afrontar o uso da língua legitimado pelas autor(idades)!
Como ficar seguro de se assumir como autor, na escola e na vida, com tanto isto não pode, isto deve ser evitado, isto afronta as leis da língua, isto é de emprego não referendado pelos escritores (quais, na verdade?), isto, tenham paciência, é lá português? Perguntinha tola que me fica incomodando (gosto de me complicar - neurose? - com indagações perturbadoras): que língua falam todos os brasileiros (e são tantos!) sem escolaridade?
Fui a uma boa papelaria comprar um cartão para escrever a uma amiga, que aniversariava. Em minha procura, fui me dando conta de que eu só selecionava cartões com ilustrações de gosto duvidoso para mim: em geral, multicoloridas, florezinhas que estressavam o cartão, com variedade nas partes externa e interna deles, borboletas estilizadas então, em quase todos... E as mensagens? Sem erros gramaticais, diga-se logo! Mas que mensagens tolas, com palavras ou expressões mais que gastas, ou, ao contrário, meio solenes, com a pretensão, talvez, de darem ao texto certo sabor literário. Estas mensagens pouco variavam. Pudera!, eram impessoais. Onde o autor?
Sempre considerei que a vida, asseguradas certas igualdades, está na diferença. Uma palavra diferente pode nos proporcionar uma esperança nova. Indaguei a um funcionário da papelaria se não havia cartão, desses duplos, sem mensagem, e que a ilustração, caso existente, fosse sóbria (empreguei outra palavra, mais corrente, na ocasião). Não tinha, me respondeu. Coube, então, ao atendente me perguntar: Por que quer escrever a mensagem? Que trabalho! Já estão prontas em todos estes cartões daqui!
Capitulei. A sociedade, de modo geral, quer mesmo textos prontos e quase iguais. Reflexo mais evidente de gente que não está habituada a pensar, que acha que não pode ser autora nem de uma frasezinha (para que se expor assim à avaliação de um professor por aí?). Pego um destes cartões: "os primeiros raios de sol", "iluminem seu coração", "fazer seus pensamentos brilharem"... Positivamente não imagino uma criança ou um jovem como autor destas expressões. Para um adulto ser o destinatário, iriam pensar, iriam sim!, que ele as copiou justamente de um cartão destes, que já gozam de certa tradição, não se pode enganar!
No fundo mesmo, continuidade de uma rotina escolar antiga, em que o estudante, raramente, se sente autor do que escreve. Ouvi ou li outro dia o comentário pertinente que na escola se faz muita redação, mas se escreve pouco. Diria, que, sobretudo, quando se espera que, no texto, se crie um clima afetivo, com reticências, exclamações, interrogações. A escola se apresenta como a escola do ponto, fundamentalmente. Afinal, quase sempre, o interlocutor do aluno, - um interlocutor potente! - , é o professor. Todo cuidado é pouco... não é? Por isso, muitas vezes, a presença, em textos escolares, de palavras com paletó e gravata, ainda que empregadas inadequadamente.
O Manoel de Barros tem razão: Língua solene é coisa de políticos e advogados. É preciso ir ao encriançamento das palavras, palavras-brinquedo, palavras bolhas-de-sabão... Em certas situações, naturalmente. Com crianças então! Para festejar o aniversário de uma amiga, por que, num cartão, não começar a ser autor com um singelo, mas carinhoso "Gosto de você" ou num torpedo com um sempre bem recebido "Um beijo, minha amiga". Garantia assegurada de autoria textual! E de afetividade...
Fonte: UCHÔA, Carlos Eduardo Falcão. A vida e o tempo em tom de conversa: crônicas de um professor de linguagem. 1ª ed. Rio de Janeiro: Odisseia, 2013, p. 141-145. (Texto adaptado)
Observe o trecho:
“Mas como pode ser difícil uma língua em que você está falando comigo há dez minutos com toda a facilidade?” (3º§)
Assinale a opção em que se parafraseia corretamente o trecho acima.Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 1
SER AUTOR
Escrever é difícil? Parece que sim, a julgar pelo que ouço de pessoas muito diversas, até mesmo de escritores. Imagine para os pobres mortais! E, sobretudo, acrescentaria, numa sociedade que se julga e é julgada por não saber, em geral, escrever. Até mestrandos e doutorandos, vejam só, recorrem a colegas, selecionados da área de Letras, que supõem "saber português", para uma boa revisão do que rascunharam em seus trabalhos acadêmicos.
No meu tempo de docência universitária, ouvia, frequentemente, alunos comentarem que concluiriam o curso sem saberem escrever, que o português era difícil, com muitas regras e exceções! Tomava fôlego, quando este comentário era feito em sala de aula e, como quem não quer nada, indagava informalmente a um aluno: Por que você acha que não sabe português e que nossa(!) língua é difícil? Resposta invariável: Não domino bem estas classificações gramaticais e tenho também meus vacilos quanto ao uso da norma culta! Veja a gramática do inglês! Bem mais simples, não? Então, você escreve bem textos em inglês? É, mais ou menos...
Respiro fundo. Me lembro logo do Mário Quintana em situação semelhante: "Um dia de espantos, hoje. Conversando com uma rapariga em flor, estudante, queixa-se ela da dificuldade da língua portuguesa, espanto-me: Mas como pode ser difícil uma língua em que você está falando comigo há dez minutos com toda a facilidade? Ela ficou espantada."
Meus espantos eram frequentes... Ainda são! A escola, embora queiram alguns tampar o sol com a peneira, estimula a cultura do erro, contribuindo muito, e desde cedo, para perpetuar esta avaliação de que a língua é difícil, de que escrever "um texto correto" então nem se fala! Basta uma concordância, uma regência, "as sintaxes de exceção"...
Passava para os meus alunos testemunhos de alguns escritores, valorizados como tais, o de Rachel de Queiroz, por exemplo: Se eu dependesse, afirmava, para escrever, do domínio dos nomes tão complicados presentes no ensino da língua (ela se divertia), eu não poderia ser escritora. Como é mesmo? Oração reduzida de gerúndio? Sujeito inexistente? Substantivo epiceno?, caçoava. E ela, acrescento, mesmo pela fala da narradora, nem sempre se vale da língua bem comportada.
Escrever, na verdade, ainda que adotado certinho o português que é ensinado, exige bem mais da gente: o conhecimento do real, a ordenação das ideias, o domínio do gênero textual, a intenção comunicativa... Muitos outros conhecimentos, enfim! A vivência dos bancos escolares prossegue atuante pela vida afora, qual uma corrente. Nos tornamos adultos, com curso superior, e carentes ainda de um professor, por perto, para nos corrigir! Não dá para entender, dá? Só os escritores (e, atualmente, nem todos, nem todos...) e os que se arvoram em conhecedores da língua escapam de uma avaliação severa. Eta língua difícil! Eta sociedade que fica então a afrontar o uso da língua legitimado pelas autor(idades)!
Como ficar seguro de se assumir como autor, na escola e na vida, com tanto isto não pode, isto deve ser evitado, isto afronta as leis da língua, isto é de emprego não referendado pelos escritores (quais, na verdade?), isto, tenham paciência, é lá português? Perguntinha tola que me fica incomodando (gosto de me complicar - neurose? - com indagações perturbadoras): que língua falam todos os brasileiros (e são tantos!) sem escolaridade?
Fui a uma boa papelaria comprar um cartão para escrever a uma amiga, que aniversariava. Em minha procura, fui me dando conta de que eu só selecionava cartões com ilustrações de gosto duvidoso para mim: em geral, multicoloridas, florezinhas que estressavam o cartão, com variedade nas partes externa e interna deles, borboletas estilizadas então, em quase todos... E as mensagens? Sem erros gramaticais, diga-se logo! Mas que mensagens tolas, com palavras ou expressões mais que gastas, ou, ao contrário, meio solenes, com a pretensão, talvez, de darem ao texto certo sabor literário. Estas mensagens pouco variavam. Pudera!, eram impessoais. Onde o autor?
Sempre considerei que a vida, asseguradas certas igualdades, está na diferença. Uma palavra diferente pode nos proporcionar uma esperança nova. Indaguei a um funcionário da papelaria se não havia cartão, desses duplos, sem mensagem, e que a ilustração, caso existente, fosse sóbria (empreguei outra palavra, mais corrente, na ocasião). Não tinha, me respondeu. Coube, então, ao atendente me perguntar: Por que quer escrever a mensagem? Que trabalho! Já estão prontas em todos estes cartões daqui!
Capitulei. A sociedade, de modo geral, quer mesmo textos prontos e quase iguais. Reflexo mais evidente de gente que não está habituada a pensar, que acha que não pode ser autora nem de uma frasezinha (para que se expor assim à avaliação de um professor por aí?). Pego um destes cartões: "os primeiros raios de sol", "iluminem seu coração", "fazer seus pensamentos brilharem"... Positivamente não imagino uma criança ou um jovem como autor destas expressões. Para um adulto ser o destinatário, iriam pensar, iriam sim!, que ele as copiou justamente de um cartão destes, que já gozam de certa tradição, não se pode enganar!
No fundo mesmo, continuidade de uma rotina escolar antiga, em que o estudante, raramente, se sente autor do que escreve. Ouvi ou li outro dia o comentário pertinente que na escola se faz muita redação, mas se escreve pouco. Diria, que, sobretudo, quando se espera que, no texto, se crie um clima afetivo, com reticências, exclamações, interrogações. A escola se apresenta como a escola do ponto, fundamentalmente. Afinal, quase sempre, o interlocutor do aluno, - um interlocutor potente! - , é o professor. Todo cuidado é pouco... não é? Por isso, muitas vezes, a presença, em textos escolares, de palavras com paletó e gravata, ainda que empregadas inadequadamente.
O Manoel de Barros tem razão: Língua solene é coisa de políticos e advogados. É preciso ir ao encriançamento das palavras, palavras-brinquedo, palavras bolhas-de-sabão... Em certas situações, naturalmente. Com crianças então! Para festejar o aniversário de uma amiga, por que, num cartão, não começar a ser autor com um singelo, mas carinhoso "Gosto de você" ou num torpedo com um sempre bem recebido "Um beijo, minha amiga". Garantia assegurada de autoria textual! E de afetividade...
Fonte: UCHÔA, Carlos Eduardo Falcão. A vida e o tempo em tom de conversa: crônicas de um professor de linguagem. 1ª ed. Rio de Janeiro: Odisseia, 2013, p. 141-145. (Texto adaptado)
Observe o trecho:
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Assinale a opção em que se encontra o termo referido pelo conector destacado acima.
TEXTO 1
SER AUTOR
Escrever é difícil? Parece que sim, a julgar pelo que ouço de pessoas muito diversas, até mesmo de escritores. Imagine para os pobres mortais! E, sobretudo, acrescentaria, numa sociedade que se julga e é julgada por não saber, em geral, escrever. Até mestrandos e doutorandos, vejam só, recorrem a colegas, selecionados da área de Letras, que supõem "saber português", para uma boa revisão do que rascunharam em seus trabalhos acadêmicos.
No meu tempo de docência universitária, ouvia, frequentemente, alunos comentarem que concluiriam o curso sem saberem escrever, que o português era difícil, com muitas regras e exceções! Tomava fôlego, quando este comentário era feito em sala de aula e, como quem não quer nada, indagava informalmente a um aluno: Por que você acha que não sabe português e que nossa(!) língua é difícil? Resposta invariável: Não domino bem estas classificações gramaticais e tenho também meus vacilos quanto ao uso da norma culta! Veja a gramática do inglês! Bem mais simples, não? Então, você escreve bem textos em inglês? É, mais ou menos...
Respiro fundo. Me lembro logo do Mário Quintana em situação semelhante: "Um dia de espantos, hoje. Conversando com uma rapariga em flor, estudante, queixa-se ela da dificuldade da língua portuguesa, espanto-me: Mas como pode ser difícil uma língua em que você está falando comigo há dez minutos com toda a facilidade? Ela ficou espantada."
Meus espantos eram frequentes... Ainda são! A escola, embora queiram alguns tampar o sol com a peneira, estimula a cultura do erro, contribuindo muito, e desde cedo, para perpetuar esta avaliação de que a língua é difícil, de que escrever "um texto correto" então nem se fala! Basta uma concordância, uma regência, "as sintaxes de exceção"...
Passava para os meus alunos testemunhos de alguns escritores, valorizados como tais, o de Rachel de Queiroz, por exemplo: Se eu dependesse, afirmava, para escrever, do domínio dos nomes tão complicados presentes no ensino da língua (ela se divertia), eu não poderia ser escritora. Como é mesmo? Oração reduzida de gerúndio? Sujeito inexistente? Substantivo epiceno?, caçoava. E ela, acrescento, mesmo pela fala da narradora, nem sempre se vale da língua bem comportada.
Escrever, na verdade, ainda que adotado certinho o português que é ensinado, exige bem mais da gente: o conhecimento do real, a ordenação das ideias, o domínio do gênero textual, a intenção comunicativa... Muitos outros conhecimentos, enfim! A vivência dos bancos escolares prossegue atuante pela vida afora, qual uma corrente. Nos tornamos adultos, com curso superior, e carentes ainda de um professor, por perto, para nos corrigir! Não dá para entender, dá? Só os escritores (e, atualmente, nem todos, nem todos...) e os que se arvoram em conhecedores da língua escapam de uma avaliação severa. Eta língua difícil! Eta sociedade que fica então a afrontar o uso da língua legitimado pelas autor(idades)!
Como ficar seguro de se assumir como autor, na escola e na vida, com tanto isto não pode, isto deve ser evitado, isto afronta as leis da língua, isto é de emprego não referendado pelos escritores (quais, na verdade?), isto, tenham paciência, é lá português? Perguntinha tola que me fica incomodando (gosto de me complicar - neurose? - com indagações perturbadoras): que língua falam todos os brasileiros (e são tantos!) sem escolaridade?
Fui a uma boa papelaria comprar um cartão para escrever a uma amiga, que aniversariava. Em minha procura, fui me dando conta de que eu só selecionava cartões com ilustrações de gosto duvidoso para mim: em geral, multicoloridas, florezinhas que estressavam o cartão, com variedade nas partes externa e interna deles, borboletas estilizadas então, em quase todos... E as mensagens? Sem erros gramaticais, diga-se logo! Mas que mensagens tolas, com palavras ou expressões mais que gastas, ou, ao contrário, meio solenes, com a pretensão, talvez, de darem ao texto certo sabor literário. Estas mensagens pouco variavam. Pudera!, eram impessoais. Onde o autor?
Sempre considerei que a vida, asseguradas certas igualdades, está na diferença. Uma palavra diferente pode nos proporcionar uma esperança nova. Indaguei a um funcionário da papelaria se não havia cartão, desses duplos, sem mensagem, e que a ilustração, caso existente, fosse sóbria (empreguei outra palavra, mais corrente, na ocasião). Não tinha, me respondeu. Coube, então, ao atendente me perguntar: Por que quer escrever a mensagem? Que trabalho! Já estão prontas em todos estes cartões daqui!
Capitulei. A sociedade, de modo geral, quer mesmo textos prontos e quase iguais. Reflexo mais evidente de gente que não está habituada a pensar, que acha que não pode ser autora nem de uma frasezinha (para que se expor assim à avaliação de um professor por aí?). Pego um destes cartões: "os primeiros raios de sol", "iluminem seu coração", "fazer seus pensamentos brilharem"... Positivamente não imagino uma criança ou um jovem como autor destas expressões. Para um adulto ser o destinatário, iriam pensar, iriam sim!, que ele as copiou justamente de um cartão destes, que já gozam de certa tradição, não se pode enganar!
No fundo mesmo, continuidade de uma rotina escolar antiga, em que o estudante, raramente, se sente autor do que escreve. Ouvi ou li outro dia o comentário pertinente que na escola se faz muita redação, mas se escreve pouco. Diria, que, sobretudo, quando se espera que, no texto, se crie um clima afetivo, com reticências, exclamações, interrogações. A escola se apresenta como a escola do ponto, fundamentalmente. Afinal, quase sempre, o interlocutor do aluno, - um interlocutor potente! - , é o professor. Todo cuidado é pouco... não é? Por isso, muitas vezes, a presença, em textos escolares, de palavras com paletó e gravata, ainda que empregadas inadequadamente.
O Manoel de Barros tem razão: Língua solene é coisa de políticos e advogados. É preciso ir ao encriançamento das palavras, palavras-brinquedo, palavras bolhas-de-sabão... Em certas situações, naturalmente. Com crianças então! Para festejar o aniversário de uma amiga, por que, num cartão, não começar a ser autor com um singelo, mas carinhoso "Gosto de você" ou num torpedo com um sempre bem recebido "Um beijo, minha amiga". Garantia assegurada de autoria textual! E de afetividade...
Fonte: UCHÔA, Carlos Eduardo Falcão. A vida e o tempo em tom de conversa: crônicas de um professor de linguagem. 1ª ed. Rio de Janeiro: Odisseia, 2013, p. 141-145. (Texto adaptado)
Em “Ouvi ou li outro dia o comentário pertinente que na escola se faz muita redação, mas se escreve pouco.” (11º§), o autor estabelece uma diferença entre “fazer redação” e “escrever”.
Assinale a opção em que o autor explica, implicitamente, a diferença entre os dois processos: “fazer redação” e “escrever”.Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 1
SER AUTOR
Escrever é difícil? Parece que sim, a julgar pelo que ouço de pessoas muito diversas, até mesmo de escritores. Imagine para os pobres mortais! E, sobretudo, acrescentaria, numa sociedade que se julga e é julgada por não saber, em geral, escrever. Até mestrandos e doutorandos, vejam só, recorrem a colegas, selecionados da área de Letras, que supõem "saber português", para uma boa revisão do que rascunharam em seus trabalhos acadêmicos.
No meu tempo de docência universitária, ouvia, frequentemente, alunos comentarem que concluiriam o curso sem saberem escrever, que o português era difícil, com muitas regras e exceções! Tomava fôlego, quando este comentário era feito em sala de aula e, como quem não quer nada, indagava informalmente a um aluno: Por que você acha que não sabe português e que nossa(!) língua é difícil? Resposta invariável: Não domino bem estas classificações gramaticais e tenho também meus vacilos quanto ao uso da norma culta! Veja a gramática do inglês! Bem mais simples, não? Então, você escreve bem textos em inglês? É, mais ou menos...
Respiro fundo. Me lembro logo do Mário Quintana em situação semelhante: "Um dia de espantos, hoje. Conversando com uma rapariga em flor, estudante, queixa-se ela da dificuldade da língua portuguesa, espanto-me: Mas como pode ser difícil uma língua em que você está falando comigo há dez minutos com toda a facilidade? Ela ficou espantada."
Meus espantos eram frequentes... Ainda são! A escola, embora queiram alguns tampar o sol com a peneira, estimula a cultura do erro, contribuindo muito, e desde cedo, para perpetuar esta avaliação de que a língua é difícil, de que escrever "um texto correto" então nem se fala! Basta uma concordância, uma regência, "as sintaxes de exceção"...
Passava para os meus alunos testemunhos de alguns escritores, valorizados como tais, o de Rachel de Queiroz, por exemplo: Se eu dependesse, afirmava, para escrever, do domínio dos nomes tão complicados presentes no ensino da língua (ela se divertia), eu não poderia ser escritora. Como é mesmo? Oração reduzida de gerúndio? Sujeito inexistente? Substantivo epiceno?, caçoava. E ela, acrescento, mesmo pela fala da narradora, nem sempre se vale da língua bem comportada.
Escrever, na verdade, ainda que adotado certinho o português que é ensinado, exige bem mais da gente: o conhecimento do real, a ordenação das ideias, o domínio do gênero textual, a intenção comunicativa... Muitos outros conhecimentos, enfim! A vivência dos bancos escolares prossegue atuante pela vida afora, qual uma corrente. Nos tornamos adultos, com curso superior, e carentes ainda de um professor, por perto, para nos corrigir! Não dá para entender, dá? Só os escritores (e, atualmente, nem todos, nem todos...) e os que se arvoram em conhecedores da língua escapam de uma avaliação severa. Eta língua difícil! Eta sociedade que fica então a afrontar o uso da língua legitimado pelas autor(idades)!
Como ficar seguro de se assumir como autor, na escola e na vida, com tanto isto não pode, isto deve ser evitado, isto afronta as leis da língua, isto é de emprego não referendado pelos escritores (quais, na verdade?), isto, tenham paciência, é lá português? Perguntinha tola que me fica incomodando (gosto de me complicar - neurose? - com indagações perturbadoras): que língua falam todos os brasileiros (e são tantos!) sem escolaridade?
Fui a uma boa papelaria comprar um cartão para escrever a uma amiga, que aniversariava. Em minha procura, fui me dando conta de que eu só selecionava cartões com ilustrações de gosto duvidoso para mim: em geral, multicoloridas, florezinhas que estressavam o cartão, com variedade nas partes externa e interna deles, borboletas estilizadas então, em quase todos... E as mensagens? Sem erros gramaticais, diga-se logo! Mas que mensagens tolas, com palavras ou expressões mais que gastas, ou, ao contrário, meio solenes, com a pretensão, talvez, de darem ao texto certo sabor literário. Estas mensagens pouco variavam. Pudera!, eram impessoais. Onde o autor?
Sempre considerei que a vida, asseguradas certas igualdades, está na diferença. Uma palavra diferente pode nos proporcionar uma esperança nova. Indaguei a um funcionário da papelaria se não havia cartão, desses duplos, sem mensagem, e que a ilustração, caso existente, fosse sóbria (empreguei outra palavra, mais corrente, na ocasião). Não tinha, me respondeu. Coube, então, ao atendente me perguntar: Por que quer escrever a mensagem? Que trabalho! Já estão prontas em todos estes cartões daqui!
Capitulei. A sociedade, de modo geral, quer mesmo textos prontos e quase iguais. Reflexo mais evidente de gente que não está habituada a pensar, que acha que não pode ser autora nem de uma frasezinha (para que se expor assim à avaliação de um professor por aí?). Pego um destes cartões: "os primeiros raios de sol", "iluminem seu coração", "fazer seus pensamentos brilharem"... Positivamente não imagino uma criança ou um jovem como autor destas expressões. Para um adulto ser o destinatário, iriam pensar, iriam sim!, que ele as copiou justamente de um cartão destes, que já gozam de certa tradição, não se pode enganar!
No fundo mesmo, continuidade de uma rotina escolar antiga, em que o estudante, raramente, se sente autor do que escreve. Ouvi ou li outro dia o comentário pertinente que na escola se faz muita redação, mas se escreve pouco. Diria, que, sobretudo, quando se espera que, no texto, se crie um clima afetivo, com reticências, exclamações, interrogações. A escola se apresenta como a escola do ponto, fundamentalmente. Afinal, quase sempre, o interlocutor do aluno, - um interlocutor potente! - , é o professor. Todo cuidado é pouco... não é? Por isso, muitas vezes, a presença, em textos escolares, de palavras com paletó e gravata, ainda que empregadas inadequadamente.
O Manoel de Barros tem razão: Língua solene é coisa de políticos e advogados. É preciso ir ao encriançamento das palavras, palavras-brinquedo, palavras bolhas-de-sabão... Em certas situações, naturalmente. Com crianças então! Para festejar o aniversário de uma amiga, por que, num cartão, não começar a ser autor com um singelo, mas carinhoso "Gosto de você" ou num torpedo com um sempre bem recebido "Um beijo, minha amiga". Garantia assegurada de autoria textual! E de afetividade...
Fonte: UCHÔA, Carlos Eduardo Falcão. A vida e o tempo em tom de conversa: crônicas de um professor de linguagem. 1ª ed. Rio de Janeiro: Odisseia, 2013, p. 141-145. (Texto adaptado)
Leia o trecho abaixo.
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Os termos em destaque no trecho acima foram formados, respectivamente, por meio dos processos de:
TEXTO 1
SER AUTOR
Escrever é difícil? Parece que sim, a julgar pelo que ouço de pessoas muito diversas, até mesmo de escritores. Imagine para os pobres mortais! E, sobretudo, acrescentaria, numa sociedade que se julga e é julgada por não saber, em geral, escrever. Até mestrandos e doutorandos, vejam só, recorrem a colegas, selecionados da área de Letras, que supõem "saber português", para uma boa revisão do que rascunharam em seus trabalhos acadêmicos.
No meu tempo de docência universitária, ouvia, frequentemente, alunos comentarem que concluiriam o curso sem saberem escrever, que o português era difícil, com muitas regras e exceções! Tomava fôlego, quando este comentário era feito em sala de aula e, como quem não quer nada, indagava informalmente a um aluno: Por que você acha que não sabe português e que nossa(!) língua é difícil? Resposta invariável: Não domino bem estas classificações gramaticais e tenho também meus vacilos quanto ao uso da norma culta! Veja a gramática do inglês! Bem mais simples, não? Então, você escreve bem textos em inglês? É, mais ou menos...
Respiro fundo. Me lembro logo do Mário Quintana em situação semelhante: "Um dia de espantos, hoje. Conversando com uma rapariga em flor, estudante, queixa-se ela da dificuldade da língua portuguesa, espanto-me: Mas como pode ser difícil uma língua em que você está falando comigo há dez minutos com toda a facilidade? Ela ficou espantada."
Meus espantos eram frequentes... Ainda são! A escola, embora queiram alguns tampar o sol com a peneira, estimula a cultura do erro, contribuindo muito, e desde cedo, para perpetuar esta avaliação de que a língua é difícil, de que escrever "um texto correto" então nem se fala! Basta uma concordância, uma regência, "as sintaxes de exceção"...
Passava para os meus alunos testemunhos de alguns escritores, valorizados como tais, o de Rachel de Queiroz, por exemplo: Se eu dependesse, afirmava, para escrever, do domínio dos nomes tão complicados presentes no ensino da língua (ela se divertia), eu não poderia ser escritora. Como é mesmo? Oração reduzida de gerúndio? Sujeito inexistente? Substantivo epiceno?, caçoava. E ela, acrescento, mesmo pela fala da narradora, nem sempre se vale da língua bem comportada.
Escrever, na verdade, ainda que adotado certinho o português que é ensinado, exige bem mais da gente: o conhecimento do real, a ordenação das ideias, o domínio do gênero textual, a intenção comunicativa... Muitos outros conhecimentos, enfim! A vivência dos bancos escolares prossegue atuante pela vida afora, qual uma corrente. Nos tornamos adultos, com curso superior, e carentes ainda de um professor, por perto, para nos corrigir! Não dá para entender, dá? Só os escritores (e, atualmente, nem todos, nem todos...) e os que se arvoram em conhecedores da língua escapam de uma avaliação severa. Eta língua difícil! Eta sociedade que fica então a afrontar o uso da língua legitimado pelas autor(idades)!
Como ficar seguro de se assumir como autor, na escola e na vida, com tanto isto não pode, isto deve ser evitado, isto afronta as leis da língua, isto é de emprego não referendado pelos escritores (quais, na verdade?), isto, tenham paciência, é lá português? Perguntinha tola que me fica incomodando (gosto de me complicar - neurose? - com indagações perturbadoras): que língua falam todos os brasileiros (e são tantos!) sem escolaridade?
Fui a uma boa papelaria comprar um cartão para escrever a uma amiga, que aniversariava. Em minha procura, fui me dando conta de que eu só selecionava cartões com ilustrações de gosto duvidoso para mim: em geral, multicoloridas, florezinhas que estressavam o cartão, com variedade nas partes externa e interna deles, borboletas estilizadas então, em quase todos... E as mensagens? Sem erros gramaticais, diga-se logo! Mas que mensagens tolas, com palavras ou expressões mais que gastas, ou, ao contrário, meio solenes, com a pretensão, talvez, de darem ao texto certo sabor literário. Estas mensagens pouco variavam. Pudera!, eram impessoais. Onde o autor?
Sempre considerei que a vida, asseguradas certas igualdades, está na diferença. Uma palavra diferente pode nos proporcionar uma esperança nova. Indaguei a um funcionário da papelaria se não havia cartão, desses duplos, sem mensagem, e que a ilustração, caso existente, fosse sóbria (empreguei outra palavra, mais corrente, na ocasião). Não tinha, me respondeu. Coube, então, ao atendente me perguntar: Por que quer escrever a mensagem? Que trabalho! Já estão prontas em todos estes cartões daqui!
Capitulei. A sociedade, de modo geral, quer mesmo textos prontos e quase iguais. Reflexo mais evidente de gente que não está habituada a pensar, que acha que não pode ser autora nem de uma frasezinha (para que se expor assim à avaliação de um professor por aí?). Pego um destes cartões: "os primeiros raios de sol", "iluminem seu coração", "fazer seus pensamentos brilharem"... Positivamente não imagino uma criança ou um jovem como autor destas expressões. Para um adulto ser o destinatário, iriam pensar, iriam sim!, que ele as copiou justamente de um cartão destes, que já gozam de certa tradição, não se pode enganar!
No fundo mesmo, continuidade de uma rotina escolar antiga, em que o estudante, raramente, se sente autor do que escreve. Ouvi ou li outro dia o comentário pertinente que na escola se faz muita redação, mas se escreve pouco. Diria, que, sobretudo, quando se espera que, no texto, se crie um clima afetivo, com reticências, exclamações, interrogações. A escola se apresenta como a escola do ponto, fundamentalmente. Afinal, quase sempre, o interlocutor do aluno, - um interlocutor potente! - , é o professor. Todo cuidado é pouco... não é? Por isso, muitas vezes, a presença, em textos escolares, de palavras com paletó e gravata, ainda que empregadas inadequadamente.
O Manoel de Barros tem razão: Língua solene é coisa de políticos e advogados. É preciso ir ao encriançamento das palavras, palavras-brinquedo, palavras bolhas-de-sabão... Em certas situações, naturalmente. Com crianças então! Para festejar o aniversário de uma amiga, por que, num cartão, não começar a ser autor com um singelo, mas carinhoso "Gosto de você" ou num torpedo com um sempre bem recebido "Um beijo, minha amiga". Garantia assegurada de autoria textual! E de afetividade...
Fonte: UCHÔA, Carlos Eduardo Falcão. A vida e o tempo em tom de conversa: crônicas de um professor de linguagem. 1ª ed. Rio de Janeiro: Odisseia, 2013, p. 141-145. (Texto adaptado)
Observe os trechos abaixo:
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Nestes trechos, são demonstrativos os termos destacados em:
TEXTO 2
O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
Fonte: BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2011. (Texto adaptado)
Assinale a opção em que o autor utiliza o registro coloquial, que foge aos padrões estabelecidos pelas regras gramaticais vigentes.Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 2
O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
Fonte: BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2011. (Texto adaptado)
As expressões destacadas nas opções abaixo podem ser substituídas pelas expressões sugeridas, mantendo o mesmo valor semântico do trecho, EXCETO:
TEXTO 1
SER AUTOR
Escrever é difícil? Parece que sim, a julgar pelo que ouço de pessoas muito diversas, até mesmo de escritores. Imagine para os pobres mortais! E, sobretudo, acrescentaria, numa sociedade que se julga e é julgada por não saber, em geral, escrever. Até mestrandos e doutorandos, vejam só, recorrem a colegas, selecionados da área de Letras, que supõem "saber português", para uma boa revisão do que rascunharam em seus trabalhos acadêmicos.
No meu tempo de docência universitária, ouvia, frequentemente, alunos comentarem que concluiriam o curso sem saberem escrever, que o português era difícil, com muitas regras e exceções! Tomava fôlego, quando este comentário era feito em sala de aula e, como quem não quer nada, indagava informalmente a um aluno: Por que você acha que não sabe português e que nossa(!) língua é difícil? Resposta invariável: Não domino bem estas classificações gramaticais e tenho também meus vacilos quanto ao uso da norma culta! Veja a gramática do inglês! Bem mais simples, não? Então, você escreve bem textos em inglês? É, mais ou menos...
Respiro fundo. Me lembro logo do Mário Quintana em situação semelhante: "Um dia de espantos, hoje. Conversando com uma rapariga em flor, estudante, queixa-se ela da dificuldade da língua portuguesa, espanto-me: Mas como pode ser difícil uma língua em que você está falando comigo há dez minutos com toda a facilidade? Ela ficou espantada."
Meus espantos eram frequentes... Ainda são! A escola, embora queiram alguns tampar o sol com a peneira, estimula a cultura do erro, contribuindo muito, e desde cedo, para perpetuar esta avaliação de que a língua é difícil, de que escrever "um texto correto" então nem se fala! Basta uma concordância, uma regência, "as sintaxes de exceção"...
Passava para os meus alunos testemunhos de alguns escritores, valorizados como tais, o de Rachel de Queiroz, por exemplo: Se eu dependesse, afirmava, para escrever, do domínio dos nomes tão complicados presentes no ensino da língua (ela se divertia), eu não poderia ser escritora. Como é mesmo? Oração reduzida de gerúndio? Sujeito inexistente? Substantivo epiceno?, caçoava. E ela, acrescento, mesmo pela fala da narradora, nem sempre se vale da língua bem comportada.
Escrever, na verdade, ainda que adotado certinho o português que é ensinado, exige bem mais da gente: o conhecimento do real, a ordenação das ideias, o domínio do gênero textual, a intenção comunicativa... Muitos outros conhecimentos, enfim! A vivência dos bancos escolares prossegue atuante pela vida afora, qual uma corrente. Nos tornamos adultos, com curso superior, e carentes ainda de um professor, por perto, para nos corrigir! Não dá para entender, dá? Só os escritores (e, atualmente, nem todos, nem todos...) e os que se arvoram em conhecedores da língua escapam de uma avaliação severa. Eta língua difícil! Eta sociedade que fica então a afrontar o uso da língua legitimado pelas autor(idades)!
Como ficar seguro de se assumir como autor, na escola e na vida, com tanto isto não pode, isto deve ser evitado, isto afronta as leis da língua, isto é de emprego não referendado pelos escritores (quais, na verdade?), isto, tenham paciência, é lá português? Perguntinha tola que me fica incomodando (gosto de me complicar - neurose? - com indagações perturbadoras): que língua falam todos os brasileiros (e são tantos!) sem escolaridade?
Fui a uma boa papelaria comprar um cartão para escrever a uma amiga, que aniversariava. Em minha procura, fui me dando conta de que eu só selecionava cartões com ilustrações de gosto duvidoso para mim: em geral, multicoloridas, florezinhas que estressavam o cartão, com variedade nas partes externa e interna deles, borboletas estilizadas então, em quase todos... E as mensagens? Sem erros gramaticais, diga-se logo! Mas que mensagens tolas, com palavras ou expressões mais que gastas, ou, ao contrário, meio solenes, com a pretensão, talvez, de darem ao texto certo sabor literário. Estas mensagens pouco variavam. Pudera!, eram impessoais. Onde o autor?
Sempre considerei que a vida, asseguradas certas igualdades, está na diferença. Uma palavra diferente pode nos proporcionar uma esperança nova. Indaguei a um funcionário da papelaria se não havia cartão, desses duplos, sem mensagem, e que a ilustração, caso existente, fosse sóbria (empreguei outra palavra, mais corrente, na ocasião). Não tinha, me respondeu. Coube, então, ao atendente me perguntar: Por que quer escrever a mensagem? Que trabalho! Já estão prontas em todos estes cartões daqui!
Capitulei. A sociedade, de modo geral, quer mesmo textos prontos e quase iguais. Reflexo mais evidente de gente que não está habituada a pensar, que acha que não pode ser autora nem de uma frasezinha (para que se expor assim à avaliação de um professor por aí?). Pego um destes cartões: "os primeiros raios de sol", "iluminem seu coração", "fazer seus pensamentos brilharem"... Positivamente não imagino uma criança ou um jovem como autor destas expressões. Para um adulto ser o destinatário, iriam pensar, iriam sim!, que ele as copiou justamente de um cartão destes, que já gozam de certa tradição, não se pode enganar!
No fundo mesmo, continuidade de uma rotina escolar antiga, em que o estudante, raramente, se sente autor do que escreve. Ouvi ou li outro dia o comentário pertinente que na escola se faz muita redação, mas se escreve pouco. Diria, que, sobretudo, quando se espera que, no texto, se crie um clima afetivo, com reticências, exclamações, interrogações. A escola se apresenta como a escola do ponto, fundamentalmente. Afinal, quase sempre, o interlocutor do aluno, - um interlocutor potente! - , é o professor. Todo cuidado é pouco... não é? Por isso, muitas vezes, a presença, em textos escolares, de palavras com paletó e gravata, ainda que empregadas inadequadamente.
O Manoel de Barros tem razão: Língua solene é coisa de políticos e advogados. É preciso ir ao encriançamento das palavras, palavras-brinquedo, palavras bolhas-de-sabão... Em certas situações, naturalmente. Com crianças então! Para festejar o aniversário de uma amiga, por que, num cartão, não começar a ser autor com um singelo, mas carinhoso "Gosto de você" ou num torpedo com um sempre bem recebido "Um beijo, minha amiga". Garantia assegurada de autoria textual! E de afetividade...
Fonte: UCHÔA, Carlos Eduardo Falcão. A vida e o tempo em tom de conversa: crônicas de um professor de linguagem. 1ª ed. Rio de Janeiro: Odisseia, 2013, p. 141-145. (Texto adaptado)
Texto-base:
TEXTO 2
O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
Fonte: BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2011. (Texto adaptado)
Leia o trecho abaixo, do poeta Manoel de Barros:
“No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.” (8ª estrofe)
Assinale a opção em que a ideia de Uchôa (texto 1), sobre o uso da língua, é ilustrada pelos versos de Manoel de Barros citados acima.Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 2
O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
Fonte: BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2011. (Texto adaptado)
Assinale a opção em que a expressão destacada é um complemento verbal.
TEXTO 2
O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
Fonte: BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2011. (Texto adaptado)
Observe o trecho:
![]()
A forma feminina da palavra em destaque no trecho acima recebe sufixo idêntico ao da forma feminina de:
TEXTO 2
O MENINO QUE CARREGAVA ÁGUA NA PENEIRA
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.
A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.
A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.
O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.
A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.
Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.
Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.
No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.
O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.
Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.
A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.
Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
Fonte: BARROS, Manoel de. Poesia Completa. São Paulo: Leya, 2011. (Texto adaptado)
Assinale a opção em que o termo destacado no trecho pertence a uma classe gramatical diferente dos demais termos destacados nas outras opções.
Uma corda de violão de comprimento L e densidade linear μ é colocada próxima a um alto-falante alimentado por um oscilador de frequência variável. Observa-se que, quando a frequência do oscilador varia continuamente em uma certa faixa de frequências, a corda do violão só oscila apreciavelmente em duas determinadas frequências, f₁ e f₂. Sabendo-se que f₂ é maior do que f₁, a tração a que a corda está submetida é dada pela expressão:
Analise a figura abaixo.
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