← Voltar para a lista de provas Marinha do Brasil · Oficial do Quadro Técnico do Corpo Auxiliar da Marinha — Letras 51 questões nesta prova · página 1 de 3 · 49 com gabarito Gabarito disponível A madrinha mandou a boneca porque morava longe e não podia ir pessoalmente. As orações reduzidas de gerúndio e de particípio ("Morando em outra cidade e impossibilitada de ir...") expressam a causa de a madrinha ter enviado a boneca por encomenda postal. A) Só descreve o estado da menina. B) Apenas soma informações. C) A expressão com gerúndio indica modo ou circunstância da pose, não causa. E) São perguntas retóricas em sequência, sem relação de causa. Referência: Orações reduzidas e valor causal. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível As orações estão em coordenação sindética aditiva, ligadas por "nem". "Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante" tem duas orações independentes ligadas por "nem". Essa conjunção soma ideias negativas, o que caracteriza coordenação aditiva. A) Há conectivo ("nem"), então não é justaposição. C) Não há subordinação semântica nem sintática. D) "Nem" não indica alternância, como "ou" e "ora...ora". E) Não há oração subordinada, e "nem" não é conjunção concessiva. Referência: Sintaxe do período composto: coordenação sindética aditiva. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Só I e II estão corretas; III exagera ao dizer que o narrador está convicto. I é correta: o narrador supõe que a menina é marota e "mal consegue esconder a alegria". II é correta: o narrador é um observador, não participa da história, e narra de forma muito subjetiva, com suposições e emoções. III é falsa: ele diz que o dia foi "esquecido, provavelmente", ou seja, apenas supõe, sem convicção. A) Ignora que II é correta. B) Ignora que I é correta. C) III é falsa. D) Inclui III, que é falsa, e exclui I, que é correta. E) Correta. Referência: Interpretação de texto: foco narrativo e modalização. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível "Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho" é uma conclusão tirada de indícios. Inferência é uma conclusão tirada de pistas, sem declaração explícita. A cronista conclui, a partir da roupa, do cordão, da fita e da renda, que a menina foi arrumada com capricho para a foto. Isso não está dito no retrato. A) Descreve a pose observada, ligada à ação do fotógrafo. C) Apenas enumera detalhes visíveis do vestido. D) Descreve a boneca sentada. E) É uma pergunta retórica, uma especulação sobre a vida da menina, e não uma inferência a partir de pistas do retrato. Referência: Interpretação de texto: inferência. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível A dúvida sobre a cor da fita se explica por a foto ser em preto e branco. Uma fotografia de 1910 era em preto e branco. Por isso o narrador não consegue saber a cor da fita ("quem sabe se vermelha ou azul") e só pode conjecturar. A incerteza nasce da natureza do registro, e não de um efeito estilístico. A) A dúvida não busca provocar sensações no leitor. Ela decorre da limitação da imagem. B) O texto não fala em desgaste das cores. C) "Blusa folgada" e "saia pequena" não têm relação com a incerteza sobre os tons. E) A cronista é minuciosa nos detalhes, e a alternativa generaliza sem base no texto. Referência: Interpretação de texto: 4º parágrafo de "O retrato". Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível O narrador supõe que a menina é buliçosa e mal esconde a alegria. No 2º parágrafo o narrador diz: "Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância". Isso corresponde à alternativa A, que trata a menina como esperta, marota, e feliz com a ocasião. B) Errada: o narrador não conhece a menina, só leu o nome no verso da foto. C) Errada: o texto não afirma que foi escrito na década de 90. Isso é só um cálculo possível, e a afirmação "deixa claro" é indevida. D) Errada: ele não tem certeza, pois admite que a boneca pode ser um brinquedo guardado pela mãe ("ou, se não..."). E) Errada: quem imagina é o narrador, e a alternativa atribui isso à autora, o que a banca não aceita. O gabarito oficial é A. Referência: Interpretação de texto: 2º e 5º parágrafos de "O retrato". Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Conhecimento enciclopédico: o estilo Luís XV/XVI exige saber de história da arte e do mobiliário. Conhecimento enciclopédico é o saber de mundo, adquirido fora do texto. Ao descrever a cadeira como "estilo Luís XV ou XVI", a cronista usa esse repertório histórico e artístico para caracterizar o móvel. As demais passagens só descrevem o que se vê na foto ou relatam impressões e falas. B) Informa o que está escrito no verso do retrato, ou seja, uma informação do próprio texto. C) Descreve a roupa observada na foto. D) Expressa o estado de espírito e a ignorância do narrador. E) É a fala imaginada da senhora, sem recurso a saber enciclopédico. Referência: Linguística textual: conhecimento enciclopédico (de mundo) como fator de coerência. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível A retomada 'Já disse que o vestido é branco' mantém o tema do texto: coerência temática. O narrador retoma a informação sobre o vestido para manter a continuidade do assunto que está descrevendo (a fotografia), preservando a unidade do tema. A) Sintática trata de estrutura. C) Estilística trata da adequação do estilo. D) Genérica trata do gênero textual. E) Pragmática trata do contexto e da intenção, e não é o foco da retomada. Referência: Coerência textual Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível 'Menineira' é um neologismo criado pela autora. A palavra não é dicionarizada com esse sentido e foi criada para o contexto (menina brincalhona), o que é neologismo, conforme o gabarito. A) Não há união de duas palavras. B) Não há prefixo. C) Parassíntese exigiria prefixo e sufixo simultâneos. D) Hibridismo mistura elementos de línguas diferentes. Referência: Formação de palavras: neologismo Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Estão corretas I e III. I: o plágio é 'praga' e a IA é 'crime que não deixa rastro', então se infere que o primeiro deixa rastro e a segunda não. III: os programas são ameaça (intimidam) à vida acadêmica honesta e o pensamento aterrador equivale a destruidor. II está errada: o autor diz que interessa 'não apenas o resultado', mas também o processo, e a ideia se refere a feitos humanos. A, B, C, D) Cada uma omite ou inclui indevidamente uma das afirmativas, pois I e III são as corretas e II é falsa. Referência: Interpretação de texto Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponívelMarinha do Brasil — CP-T/2025 (Quadro Técnico do Corpo Auxiliar da Marinha) — Letras — Prova Amarela
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no braço esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no último Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saída da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou às mãos de outra menininha da família, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquário? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores Crônicas. Disponível em: <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17917/o-retrato>)
Assinale a opção em que é possível identificar, no fragmento empregado, a existência de ideia causal.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no braço esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no último Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saída da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou às mãos de outra menininha da família, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquário? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores Crônicas. Disponível em: <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17917/o-retrato>)
Analise as orações apresentadas no trecho “[...] Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama [...]” (3º§) e assinale a opção correta em relação ao verbo sublinhado.
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Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no braço esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no último Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saída da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou às mãos de outra menininha da família, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquário? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores Crônicas. Disponível em: <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17917/o-retrato>)
Analise os trechos a seguir retirados do texto.
I- “Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império [...].” (3º§)
II- “[...] sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto.” (3º§)
Assinale a opção que apresenta, respectivamente, sinônimos dos termos sublinhados em I) e em II).
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Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no braço esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no último Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saída da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou às mãos de outra menininha da família, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquário? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores Crônicas. Disponível em: <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17917/o-retrato>)
Leia o fragmento:
“[...] Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, [...]” (8º§)
Assinale a opção correta sobre o valor semântico da preposição sublinhada.
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Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no braço esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no último Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saída da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou às mãos de outra menininha da família, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquário? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores Crônicas. Disponível em: <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17917/o-retrato>)
Analise as orações apresentadas no trecho “[...] Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante [...].” (3º§) e assinale a opção correta quanto à relação sintática entre elas.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no braço esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no último Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saída da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou às mãos de outra menininha da família, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquário? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores Crônicas. Disponível em: <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17917/o-retrato>)
De acordo com o texto, é possível afirmar que:
I- O narrador faz suposições sobre o comportamento da menina da fotografia e admite hipoteticamente que a garota tenta esconder a sua felicidade.
II- O narrador é o personagem secundário da história. Ele conta o que viu na velha fotografia com um grande efeito de subjetividade.
III- O narrador está convicto de que a menina da fotografia esqueceu esse dia. Embora não a conheça, a admira abundantemente.
Assinale a opção correta com relação às afirmativas acima.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no braço esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no último Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saída da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou às mãos de outra menininha da família, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquário? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores Crônicas. Disponível em: <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17917/o-retrato>)
No trecho “Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: [...]” (1º§), os termos sublinhados estabelecem relações lexicais que pertencem ao mesmo campo semântico. Assinale a opção abaixo na qual os vocábulos mostram, respectivamente, esse mesmo tipo de relação.
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Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no braço esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no último Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saída da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou às mãos de outra menininha da família, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquário? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores Crônicas. Disponível em: <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17917/o-retrato>)
No trecho abaixo, analise o verbo sublinhado sob o ponto de vista da sintaxe dos modos e dos tempos, e assinale a opção correta.
“Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então.” (4º§)
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Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no braço esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no último Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saída da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou às mãos de outra menininha da família, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquário? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores Crônicas. Disponível em: <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17917/o-retrato>)
Assinale a opção em que se pode identificar uma inferência por parte da cronista.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no braço esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no último Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saída da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou às mãos de outra menininha da família, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquário? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores Crônicas. Disponível em: <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17917/o-retrato>)
No trecho “Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena [...]” (4º§), a cronista deixa transparecer uma dúvida. Assinale a opção que contém a afirmativa correta a respeito da incerteza manifestada pela narradora.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no braço esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no último Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saída da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou às mãos de outra menininha da família, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquário? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores Crônicas. Disponível em: <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17917/o-retrato>)
De acordo com o texto, assinale a opção correta.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no braço esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no último Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saída da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou às mãos de outra menininha da família, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquário? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores Crônicas. Disponível em: <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17917/o-retrato>)
Assinale a opção em que a cronista emprega o conhecimento enciclopédico no trato com as informações apresentadas no texto.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no braço esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no último Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saída da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou às mãos de outra menininha da família, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquário? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores Crônicas. Disponível em: <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17917/o-retrato>)
Marque a opção em que a função sintática do trecho em destaque NÃO está indicada corretamente.
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no braço esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no último Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saída da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou às mãos de outra menininha da família, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquário? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores Crônicas. Disponível em: <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17917/o-retrato>)
Observe o período:
“Já disse que o vestido é branco.” (4º§)
Pode-se afirmar que o enunciado acima é empregado para auxiliar na manutenção de que tipo de coerência?Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no braço esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no último Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saída da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou às mãos de outra menininha da família, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquário? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores Crônicas. Disponível em: <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17917/o-retrato>)
Analise o trecho “[...] dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito.” (8º§), e assinale a opção correta quanto ao emprego do hífen nos compostos representados pela forma bem.
I- I - De acordo com o novo acordo ortográfico, em muitos compostos, o advérbio bem deve aparecer aglutinado ao segundo elemento, quer este tenha ou não vida à parte, quando o significado primitivo dos termos é alterado.
II- II - Com os advérbios bem-, emprega-se o hífen em todos os compostos sem elementos de ligação, quando o elemento seguinte começa por vogal ou consoante.
III- III - Em compostos com valor de adjetivo ou interjeição, o emprego do hífen é obrigatório.
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Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no braço esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no último Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saída da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou às mãos de outra menininha da família, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquário? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores Crônicas. Disponível em: <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17917/o-retrato>)
Assinale a opção que apresenta a análise morfológica INCORRETA do termo sublinhado.
Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no braço esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no último Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saída da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou às mãos de outra menininha da família, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquário? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores Crônicas. Disponível em: <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17917/o-retrato>)
Leia o fragmento abaixo:
“[...] No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.” (1º§)
Quanto aos processos coesivos, assinale a opção correta com relação ao termo sublinhado.
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Texto I
O retrato
Remexendo em papéis alheios, encontro a ampliação de uma velha fotografia, que me enfeitiça: o retrato de uma menina de 1910, vestida de branco. Percebe-se vagamente, no fundo, uma cortina ou cenário, com uma paisagem pintada, folhagens, um pedaço de coluna - desses, bizarramente greco-romanos, que se usavam no começo do século, para emprestar às fotografias, ditas artísticas, uma atmosfera de poesia atemporal. No primeiro plano, à esquerda, uma cadeira estilo Luís XV ou XVI, estofada em seda florida, de pernas finas e espaldar elaborado. Sobre ela, uma boneca enorme, loura. Ao lado, a menina morena.
A menina está séria, embora seu ar não transmita gravidade. Simplesmente não sorri. Observando-a melhor, chego a pensar que talvez esteja a ponto de achar graça, mas não se atreve: os olhos estão fixos; a boca, de lábios cheios e contorno quase ardente, apesar de infantil, disfarça o esboço de um sorriso. Todo o seu jeito é de implícita curiosidade. A menina está séria, de pé, imobilizada pelas ordens do fotógrafo. Suponho-a buliçosa, marota, mal conseguindo esconder a alegria, naquele momento de importância. O rosto é lindo, oval; o cabelinho preto deve ter sido cuidadosamente aparado para a circunstância: a franjinha curta demais ainda está meio rígida e não adere bem à testa ampla.
Nunca vi essa menina que, hoje, se estiver viva, deve andar pelos 79 anos. Os dizeres, no reverso do retrato, me informam que ela se chama, digamos, Maria Carlota e teve, de solteira e casada, sobrenomes ilustres. Fico sabendo também que o seu avô foi um colendo cidadão do nosso Império; filha de Aracélia e Rodolfo. Nunca ouvi falar em nenhuma dessas pessoas, nem sequer conheço a parenta distante que deixou, sem explicação, esse retrato na gaveta que perscruto. Sei apenas que se trata de uma garota de oito anos, que, há 71, posou para essa fotografia.
Séria, junto à cadeira, com a mão esquerda na cintura e a direita segurando a da boneca. Um pezinho cruzado na frente do outro, como indicavam os figurinos de então. Botinas pretas, abotoadas, deixando entrever, sobre o cano curto, uma nesga das meias xadrez. Já disse que o vestido é branco. Falta-me acrescentar que tem duas fileiras de botõezinhos na frente, gola redonda, grande, mangas largas, até o cotovelo, cintura baixa. Uma fita de cetim, quem sabe se vermelha ou azul, separa a blusa folgada da saia pequena, de três babados, que termina exatamente sobre os joelhos da garota - tudo arrematando em renda mimosa. Ao redor do pescoço de Maria Carlota descubro um cordão (que só pode ser de ouro), com uma figa (provavelmente de coral) pendurada; uma pulseirinha no braço esquerdo. Não há dúvida que a menina foi vestida com capricho para a fotografia.
A boneca de porcelana, com membros articulados, está sentada, com os pés durinhos para cima. Sua roupa deve ser branca também, com fitas de cor enfeitando as cavas e a pala. Usa cachos compridos e o rosto exibe essa expressão estática das antigas bonecas de luxo. Reparo que parece nova. Com certeza Maria Carlota a recebeu de presente no último Natal; ou, se não, deve ser um desses brinquedos intocáveis que as mães guardam e só entregam às filhas em ocasiões especialíssimas: em dias de doença, de visitas de cerimônia, dias de tirar retrato.
De repente uma cena que me agrada: imagino esse retrato tirado precisamente no dia do aniversário de Maria Carlota. Morando em outra cidade e impossibilitada de ir pessoalmente beijar a afilhada, a madrinha mandou a boneca na semana anterior, como encomenda postal, acompanhada por uma carta, em letra inclinada e minuciosa, felicitando a aniversariante e pedindo um retratinho para matar as saudades. Assim, logo depois da missa, Maria Carlota foi conduzida à casa do fotógrafo, repleta de emoções fundas: o prestígio de ter oito anos; a próxima festa; a boneca recém-saída da caixa de papelão, cheirando a coisa estrangeira, de boa qualidade; a estreia do vestido de cambraia, feito à mão pela tia solteira, a expectativa do retrato.... Depois a cortina insólita, o fotógrafo de pano preto na cabeça, a insistência:
- Quietinha, sem se mexer, olha o passarinho! - enquanto a mãe e a avó, na outra ponta da sala, aprovavam com a cabeça, solenes.
Acompanho com ternura esse dia de Maria Carlota, esgarçado entre tantos, esquecido, provavelmente, pela própria protagonista, e que hoje - em outros tempos, em outras terras, em outro tudo - desentranho da sombra. Não sei quem é essa garota, nunca me chegaram notícias dela e, no entanto, eis-me aqui a contemplá-la, intensa, longamente, em busca do que se oculta atrás desse rostinho fresco, dos olhos escuros, imensos, do nariz bem-feito. Quem é, quem foi essa menina, em que mulher se transformou, com que marido conviveu, que filhos teve? Como foram seus partos, sua vida em sociedade, seu prazer, suas angústias, seu segredo, talvez sua morte? Que fim levou a boneca: se espatifou contra o chão, depois de um movimento brusco de sua dona? Passou às mãos de outra menininha da família, de mais outra e outra mais? Estará seu rosto vazio e indecifrável exposto em alguma clínica de bonecas, ou numa vitrina de antiquário? Que atalhos percorreu Maria Carlota de mãos dadas com sua companheira de louça?
De tanto inquirir o retrato, chego a sonhar que, por uma dessas artimanhas do destino, uma senhora quase octogenária vai abrir o jornal neste momento, ler esta crônica e (confundida pelo nome suposto e por todas as minhas fantasias) extrair fiapos de lembrança do seu baú de memórias:
- Que coincidência, acho que uma vez eu também tirei uma fotografia assim, com aquela boneca francesa que Vovô Barão me deu. Como é que ela se chamava? Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.
(Maria Julieta Drummond de Andrade - Coleção melhores Crônicas. Disponível em: <https://cronicabrasileira.org.br/cronicas/17917/o-retrato>)
A partir da leitura do trecho “Era tão bonita, loura... - sem compreender, como no soneto de Arvers, que é dela mesma, séria e menineira, o retrato que não pôde reconhecer.” (8º§), pode-se inferir que a palavra menineira expressa o sentido de menina brincalhona em oposição ao adjetivo séria. Quanto ao processo de formação de palavras, é correto afirmar que a palavra menineira originou-se por:Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto II
RETRATO DO ARTISTA QUANDO MÁQUINA
Tempos atrás, um colega enviou-me um e-mail com um pedido. Ele tinha escrito um ensaio sobre um tema que me é familiar. Estaria eu disposto a ler e a dar uma opinião? Aceitei. Li. Ensaio rigoroso, sem grandes floreados estilísticos e muito bem estruturado. Gostei. Ele agradeceu a ajuda e depois informou-me, entre risos, que o ensaio tinha sido escrito por um software de inteligência artificial.
Desconfiei. Uma máquina não podia escrever assim. O texto soava demasiado humano. Ele enviou o mesmo ensaio, mas com algumas variações. Em rima, em diálogo, como piada, como tragédia clássica, em estilo satírico, em estilo barroco etc. E convidou-me a experimentar. Entrei no site, fiz a experiência - escrevi: “Usando alguma ironia, me dê uma boa razão para tolerar idiotas”. Depois contemplei uma parte do meu mundo a desaparecer. Veja só o primeiro parágrafo:
“Uma boa razão para tolerar idiotas é que eles podem proporcionar entretenimento e diversão infindos com suas ações insensatas e crenças equivocadas, desde que estejamos a uma distância segura.”
Como professor, vou ser obrigado a dizer adeus aos ensaios e a regressar aos exames presenciais. Os plágios já eram uma praga da vida acadêmica. A inteligência artificial é outra coisa: um crime que não deixa qualquer rastro. É possível produzir incontáveis textos sobre o mesmo assunto e nenhum deles ser igual aos restantes.
Mas programas como o ChatGPT - eis o nome do monstro - não são apenas uma ameaça para a vida acadêmica honesta. Podem ser o princípio do fim para a vida artística, literária ou jornalística, o que não deixa de ser um pensamento aterrador. Quem diria que as profissões criativas também estariam na lista negra do progresso tecnológico? Poucos. Ninguém. Dias atrás, Derek Thomson escrevia na revista Atlantic que vários pesquisadores de Oxford anteciparam em 2013 as profissões que seriam destruídas pela automação e pela inteligência artificial. Todas elas eram ocupações repetitivas, manuais e sem imaginação. Os arquitetos e os escritores estariam a salvo, afirma ironicamente Thomson.
Não mais. Será possível produzir livros, quadros ou músicas sem nenhuma intervenção humana. Melhor, ou pior: será possível programar um computador para que ele escreva ou pinte como o romancista X ou o artista Y. No limite, o autor só tem de produzir uma única obra. Depois, o seu estilo será incorporado pela máquina, que acabará regurgitando novas produções do mesmo “autor”. Isso para ficarmos nos vivos. Sobre os mortos, quem disse que Dante desapareceu da paisagem no século 14? Quem disse que Charles Dickens não escreveu mais nada depois de 1870? Ambos continuarão produzindo pela eternidade afora.
Sim, talvez eu esteja exagerando. Somos filhos dos românticos. Aquilo que nos interessa em qualquer feito humano não é apenas o resultado; é o processo que conduz ao resultado. Entre dois poemas igualmente belos, um escrito por uma máquina e o outro por um ser humano, preferimos o poema escrito por um poeta de verdade. Há na imitação, mesmo na mais perfeita, uma mancha inapagável que desvaloriza o produto final. Se assim não fosse, um quadro de Van Gogh e uma cópia primorosa do mesmo quadro teriam o mesmo valor - monetário e artístico. Claro: para o comum dos mortais, uma exposição só com quadros forjados de Van Gogh chegava e sobrava. Mas bastaria informar o público de que os quadros eram falsificações para que o entusiasmo se evaporasse.
Dito de outra forma: buscamos experiências autênticas, e não apenas experiências. Isso significa que a sobrevivência das artes e das letras exige autenticidade humana. Mas como aferir essa autenticidade na era da inteligência artificial? Acredito, ou quero muito acreditar, que haverá formas igualmente virtuais de detectar o que é produto da máquina e não do homem. Se isso não for possível, imagino um futuro próximo em que o escritor só será lido se for também um performer da sua obra: sentado no palco, escrevendo o seu romance ou o seu poema, e os leitores na plateia, como testemunhas, acompanhando as palavras na tela gigante. O livro será o resultado dessas sessões teatrais.
(João Pereira Coutinho - Gazeta do Povo. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/joao-pereira-coutinho/inteligencia-artificial-chatgpt-arte/)
De acordo com o texto, analise as afirmativas abaixo.
I- Pode-se inferir que o plágio e a Inteligência Artificial são crimes da vida acadêmica, sendo que o primeiro deixa rastros; e o segundo, não.
II- Em qualquer obra artística, literária ou jornalística, o que mais interessa é o processo de elaboração da obra, e não o resultado em si.
III- Os programas de Inteligência artificial intimidam a vida acadêmica digna, não deixando de ser um pensamento destruidor.
Assinale a opção correta.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto II
RETRATO DO ARTISTA QUANDO MÁQUINA
Tempos atrás, um colega enviou-me um e-mail com um pedido. Ele tinha escrito um ensaio sobre um tema que me é familiar. Estaria eu disposto a ler e a dar uma opinião? Aceitei. Li. Ensaio rigoroso, sem grandes floreados estilísticos e muito bem estruturado. Gostei. Ele agradeceu a ajuda e depois informou-me, entre risos, que o ensaio tinha sido escrito por um software de inteligência artificial.
Desconfiei. Uma máquina não podia escrever assim. O texto soava demasiado humano. Ele enviou o mesmo ensaio, mas com algumas variações. Em rima, em diálogo, como piada, como tragédia clássica, em estilo satírico, em estilo barroco etc. E convidou-me a experimentar. Entrei no site, fiz a experiência - escrevi: “Usando alguma ironia, me dê uma boa razão para tolerar idiotas”. Depois contemplei uma parte do meu mundo a desaparecer. Veja só o primeiro parágrafo:
“Uma boa razão para tolerar idiotas é que eles podem proporcionar entretenimento e diversão infindos com suas ações insensatas e crenças equivocadas, desde que estejamos a uma distância segura.”
Como professor, vou ser obrigado a dizer adeus aos ensaios e a regressar aos exames presenciais. Os plágios já eram uma praga da vida acadêmica. A inteligência artificial é outra coisa: um crime que não deixa qualquer rastro. É possível produzir incontáveis textos sobre o mesmo assunto e nenhum deles ser igual aos restantes.
Mas programas como o ChatGPT - eis o nome do monstro - não são apenas uma ameaça para a vida acadêmica honesta. Podem ser o princípio do fim para a vida artística, literária ou jornalística, o que não deixa de ser um pensamento aterrador. Quem diria que as profissões criativas também estariam na lista negra do progresso tecnológico? Poucos. Ninguém. Dias atrás, Derek Thomson escrevia na revista Atlantic que vários pesquisadores de Oxford anteciparam em 2013 as profissões que seriam destruídas pela automação e pela inteligência artificial. Todas elas eram ocupações repetitivas, manuais e sem imaginação. Os arquitetos e os escritores estariam a salvo, afirma ironicamente Thomson.
Não mais. Será possível produzir livros, quadros ou músicas sem nenhuma intervenção humana. Melhor, ou pior: será possível programar um computador para que ele escreva ou pinte como o romancista X ou o artista Y. No limite, o autor só tem de produzir uma única obra. Depois, o seu estilo será incorporado pela máquina, que acabará regurgitando novas produções do mesmo “autor”. Isso para ficarmos nos vivos. Sobre os mortos, quem disse que Dante desapareceu da paisagem no século 14? Quem disse que Charles Dickens não escreveu mais nada depois de 1870? Ambos continuarão produzindo pela eternidade afora.
Sim, talvez eu esteja exagerando. Somos filhos dos românticos. Aquilo que nos interessa em qualquer feito humano não é apenas o resultado; é o processo que conduz ao resultado. Entre dois poemas igualmente belos, um escrito por uma máquina e o outro por um ser humano, preferimos o poema escrito por um poeta de verdade. Há na imitação, mesmo na mais perfeita, uma mancha inapagável que desvaloriza o produto final. Se assim não fosse, um quadro de Van Gogh e uma cópia primorosa do mesmo quadro teriam o mesmo valor - monetário e artístico. Claro: para o comum dos mortais, uma exposição só com quadros forjados de Van Gogh chegava e sobrava. Mas bastaria informar o público de que os quadros eram falsificações para que o entusiasmo se evaporasse.
Dito de outra forma: buscamos experiências autênticas, e não apenas experiências. Isso significa que a sobrevivência das artes e das letras exige autenticidade humana. Mas como aferir essa autenticidade na era da inteligência artificial? Acredito, ou quero muito acreditar, que haverá formas igualmente virtuais de detectar o que é produto da máquina e não do homem. Se isso não for possível, imagino um futuro próximo em que o escritor só será lido se for também um performer da sua obra: sentado no palco, escrevendo o seu romance ou o seu poema, e os leitores na plateia, como testemunhas, acompanhando as palavras na tela gigante. O livro será o resultado dessas sessões teatrais.
(João Pereira Coutinho - Gazeta do Povo. Disponível em: https://www.gazetadopovo.com.br/vozes/joao-pereira-coutinho/inteligencia-artificial-chatgpt-arte/)
Assinale a opção em que a classificação morfossintática do elemento destacado está correta.
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