← Voltar para a lista de provas Marinha do Brasil · Oficial do Quadro Técnico do Corpo Auxiliar da Marinha — Letras 51 questões nesta prova · página 3 de 3 · 49 com gabarito Questão anulada Gabarito disponível Acentuam-se hiato i/u, paroxítona em ditongo crescente e monossílabo tônico em -a/-e/-o. 'Arruínam' recebe acento por hiato com i/u tônico, 'obrigatórios' por ser paroxítona terminada em ditongo crescente, e 'há' por ser monossílabo tônico. Na alternativa B, 'área' é paroxítona terminada em ditongo crescente, 'sós' é monossílabo tônico terminado em o, e 'Timbouva' (timbaúva) segue o hiato com u tônico. A) 'Bainha' e 'vil' não são acentuadas, e 'heroico' perdeu o acento pelo Acordo Ortográfico. C) 'Demiurgo' não leva acento, 'tem' (eles) também não. D) 'Averigue' não leva acento. E) 'Louvaríamos' leva acento, mas 'mes' não existe como palavra acentuada com a mesma regra, então a alternativa não fecha. Referência: Acentuação gráfica Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Verbo ser antecedendo sujeito composto posposto vai ao plural, como em 'São melhores amigos o filho do Paulo e o meu filho'. No trecho, 'Eram' vem antes do sujeito composto posposto ('um industrial... e um marinheiro') e concorda com ele no plural. A alternativa E repete a estrutura: 'São' concorda com o sujeito composto 'o filho do Paulo e o meu filho'. A) 'O que há de diferente são as cores': ser concorda com o predicativo plural. B) 'Eram perto de vinte e duas horas': ser indicando horas concorda com a expressão numérica. C) 'O resto são artimanhas': ser concorda com o predicativo, pois o sujeito é pronome/palavra como 'resto'. D) 'Que eram onze meses': ser indicando tempo concorda com o numeral. Referência: Concordância verbal: verbo ser Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível A perífrase 'hão de ver' (haver de + infinitivo) expressa intenção/propósito, com tom de ameaça. A locução 'haver de + infinitivo' indica propósito firme, resolução. Na fala do capitão furioso, 'Vocês hão de ver comigo' revela a intenção de se vingar dos colegas. A) Realização: a ação ainda não aconteceu. B) Suposição seria expressa por 'deve + infinitivo'. D) Alusão: não há referência indireta. E) Dissuasão: ele não tenta convencê-los de nada. Referência: Locuções verbais; valor semântico de haver de + infinitivo Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível A fala do capitão impõe a vontade dele pela força da hierarquia (ad baculum). O capitão desqualifica a mágica ('besta') e ameaça implicitamente o tenente, seu subordinado: 'faz outra que eu te ensino'. Ele não rebate com argumentos. Usa o poder e a posição hierárquica como ameaça, o que caracteriza o argumentum ad baculum (apelo à força). A) Tu quoque aponta incoerência do interlocutor, o que não ocorre. B) Ad consequentiam julga algo verdadeiro ou falso pelas consequências. D) Ad hominem ataca a pessoa, e aqui o alvo é a mágica, não a pessoa. E) Ad ignorantiam sustenta uma tese pela ausência de provas contrárias. Referência: Estratégias argumentativas / falácias Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível Exigir que o mágico jogasse só de cuecas subentende o desejo de evitar trapaças. Os parceiros mandavam o tenente se despir para que ele não escondesse cartas na roupa. Isso é um subentendido: o texto não diz que era para garantir a honestidade, mas a leitura leva a essa conclusão. A frase seguinte reforça isso ao dizer que, mesmo assim, ele fazia o baralho sumir. A) Errada: o texto diz apenas que isso ocorria 'a horas tantas' numa noite específica, e não que sempre era tarde da noite. B) Errada: só o mágico era obrigado a se despir. C) Errada: o que era irritante era o prodígio, não a pessoa do tenente. D) Errada: o texto não diz isso, e o desaparecimento ocorria em outras situações também. Referência: Interpretação de texto: pressupostos e subentendidos Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível "O tal" expressa tom depreciativo do narrador em relação ao tenente. No contexto, "tal" funciona como um determinativo de tom irônico ou desdenhoso, que indica um sujeito já conhecido e meio duvidoso ("o famoso tenente"). A avaliação do narrador é de depreciação. B, C, E: prestígio, honrarias e reconhecimento indicariam valorização, o oposto do tom irônico. D: dissimulação refere-se a ocultar intenções, e não é a atitude do narrador na avaliação do tenente. Referência: Fernando Sabino, O tenente mágico – interpretação de texto Resolução comentada do VaiConcursos. Sem padrão de resposta — pratique a escrita INSTRUÇÕESMarinha do Brasil — CP-T/2025 (Quadro Técnico do Corpo Auxiliar da Marinha) — Letras — Prova Amarela
Texto III
AS REGRAS DA ATRAÇÃO
Pesquisa norte-americana relaciona os tropeços de gramática como o segundo principal motivo para as pessoas descartarem potenciais namorados.
Norte-americanos solteiros acabam de eleger os tropeços de gramática como uma das principais razões que arruínam um primeiro encontro ou o flerte com um potencial parceiro.
Uma pesquisa realizada com 5.481 adultos com mais de 21 anos foi conduzida pela empresa de marketing on-line MarketTools, para definir as qualidades, atitudes e expectativas que ilustram as mudanças culturais nas relações de aproximação entre pessoas solteiras.
Encomendada pelo site Match.com, com sede em Dallas, a sondagem buscou definir um quadro dos 100 milhões de norte-americanos solteiros, 1/3 da população segundo o Censo 2012, dos EUA.
O levantamento, divulgado pouco antes do carnaval de 2013, mostrou que, ao julgar um parceiro em potencial, tanto homens como mulheres colocam a gramática no topo da lista de “requisitos obrigatórios” de um relacionamento, com 55% da preferência, atrás apenas do estado geral dos dentes da pessoa (58%). Além disso, 19% dos homens entrevistados se sentem atraídos (ou repelem) mulheres com sotaque muito acentuado.
Rejeição
Rigorosa, mas desenvolvida para fins comerciais, a pesquisa não tem necessariamente validade científica. Dá, no entanto, ideia da dimensão de um fenômeno que pode ser mais comum do que se imagina. No Brasil, onde não há pesquisa do gênero, o paulistano, Flávio Vianna, de 41 anos, é expressão confessa do perfil apontado pela pesquisa. Separado, reclama da grande quantidade de mulheres por quem se interessa e, quando emenda uma conversa, se decepciona com o linguajar trôpego.
- Há pouco tempo, conheci uma garota bonita, com um corpo bonito, mas quando abriu a boca foi um desastre. Tentei ignorar isso, mas depois de algum tempo o negócio batia como um tambor no meu ouvido - afirma ele.
Entre as expressões que incomodam Flávio, “é nóis” e “para mim fazê” lideram.
- Realmente me incomoda, a ponto de eu sentir vergonha. Vai que um amigo escuta? Ter um relacionamento com alguém que não sabe falar direito é um retrocesso.
Padrão
Cada um escolhe os critérios para aproximar-se de quem o atrai. Mas muita gente pode considerar que a falta de familiaridade com o padrão do idioma retrata outros aspectos da personalidade e da inteligência de uma pessoa, fato nunca comprovado pela ciência e raciocínio que alimenta preconceitos.
A língua, no entanto, é fenômeno social. Uma expressão ou palavra fora da convenção estabelecida por um dado meio indica desprestígio, falta de preparo ou cuidado. Dizer é criar uma linguagem social de si. É ela que está em jogo quando se tropeça no registro gramatical pedido pela situação de comunicação - um risco se o interlocutor for um superior hierárquico, um potencial empregador, um leitor, cliente ou até parceiro conjugal.
O sentido é construído pela seleção e combinação de palavras. E, ao selecionar, a pessoa dá mostras de seu universo de referência, do lugar social de onde procede, suas preferências ideológicas e até de seu gosto estético e amoroso. Indica o tamanho do repertório que a credencia a tornar-se interessante aos olhos de potenciais conquistas amorosas.
- Ter desenvoltura com o idioma faz a pessoa conversar melhor, namorar melhor, trabalhar melhor e ficar bem em qualquer situação em que está inserido - disse à Língua o apresentador Marcelo Tas, do programa CQC (TV Bandeirantes).
Quando falamos, temos a ilusão de achar que comunicamos só um conteúdo intencional, mas há outras informações quando se fala.
O modo de dizer altera a coisa dita.
Flexibilidade é a prova dos nove
O erro de português grave e reiterado pode incomodar e melar uma aproximação promissora entre casais. Mas não está dado que alguém mantenha relacionamento duradouro sendo inflexível no uso da gramática formal. Se alguém aplica, de forma ortodoxa, a gramática normativa numa conversa de bar, por exemplo, pode virar o chato da mesa. Pode perder a namorada.
O problema é que a norma culta tem sido há muito tempo considerada no Brasil um código de distinção social, quando é elemento de comunicação vital à constituição de nossa identidade e de nossos relacionamentos. As distorções dessa visão podem tornar irrelevantes outros aspectos que constituem a linguagem do namoro, como o humor e a capacidade de fazer correlações surpreendentes de ideias.
O que torna a norma culta uma sombra do idioma é tomá-la como universal, quando na verdade não existe um único padrão, mas cada situação de comunicação pede um registro que lhe é adequado. A flexibilidade do registro gramatical, adequado ao contexto de fala e escrita, é um aprendizado desafiador não só para solteiros conquistadores. Caso contrário, a pessoa se arrisca a perder muito mais do que um futuro parceiro.
(Revista Língua Portuguesa, Ano 8, no 89, 2013, p.16-17. Texto adaptado.)
Assinale a opção em que a passagem do trecho a seguir para o discurso indireto está correta.
“Há pouco tempo, conheci uma garota bonita, com um corpo bonito, mas quando abriu a boca foi um desastre. Tentei ignorar isso, mas depois de algum tempo o negócio batia como um tambor no meu ouvido.” (6º§)
Texto III
AS REGRAS DA ATRAÇÃO
Pesquisa norte-americana relaciona os tropeços de gramática como o segundo principal motivo para as pessoas descartarem potenciais namorados.
Norte-americanos solteiros acabam de eleger os tropeços de gramática como uma das principais razões que arruínam um primeiro encontro ou o flerte com um potencial parceiro.
Uma pesquisa realizada com 5.481 adultos com mais de 21 anos foi conduzida pela empresa de marketing on-line MarketTools, para definir as qualidades, atitudes e expectativas que ilustram as mudanças culturais nas relações de aproximação entre pessoas solteiras.
Encomendada pelo site Match.com, com sede em Dallas, a sondagem buscou definir um quadro dos 100 milhões de norte-americanos solteiros, 1/3 da população segundo o Censo 2012, dos EUA.
O levantamento, divulgado pouco antes do carnaval de 2013, mostrou que, ao julgar um parceiro em potencial, tanto homens como mulheres colocam a gramática no topo da lista de “requisitos obrigatórios” de um relacionamento, com 55% da preferência, atrás apenas do estado geral dos dentes da pessoa (58%). Além disso, 19% dos homens entrevistados se sentem atraídos (ou repelem) mulheres com sotaque muito acentuado.
Rejeição
Rigorosa, mas desenvolvida para fins comerciais, a pesquisa não tem necessariamente validade científica. Dá, no entanto, ideia da dimensão de um fenômeno que pode ser mais comum do que se imagina. No Brasil, onde não há pesquisa do gênero, o paulistano, Flávio Vianna, de 41 anos, é expressão confessa do perfil apontado pela pesquisa. Separado, reclama da grande quantidade de mulheres por quem se interessa e, quando emenda uma conversa, se decepciona com o linguajar trôpego.
- Há pouco tempo, conheci uma garota bonita, com um corpo bonito, mas quando abriu a boca foi um desastre. Tentei ignorar isso, mas depois de algum tempo o negócio batia como um tambor no meu ouvido - afirma ele.
Entre as expressões que incomodam Flávio, “é nóis” e “para mim fazê” lideram.
- Realmente me incomoda, a ponto de eu sentir vergonha. Vai que um amigo escuta? Ter um relacionamento com alguém que não sabe falar direito é um retrocesso.
Padrão
Cada um escolhe os critérios para aproximar-se de quem o atrai. Mas muita gente pode considerar que a falta de familiaridade com o padrão do idioma retrata outros aspectos da personalidade e da inteligência de uma pessoa, fato nunca comprovado pela ciência e raciocínio que alimenta preconceitos.
A língua, no entanto, é fenômeno social. Uma expressão ou palavra fora da convenção estabelecida por um dado meio indica desprestígio, falta de preparo ou cuidado. Dizer é criar uma linguagem social de si. É ela que está em jogo quando se tropeça no registro gramatical pedido pela situação de comunicação - um risco se o interlocutor for um superior hierárquico, um potencial empregador, um leitor, cliente ou até parceiro conjugal.
O sentido é construído pela seleção e combinação de palavras. E, ao selecionar, a pessoa dá mostras de seu universo de referência, do lugar social de onde procede, suas preferências ideológicas e até de seu gosto estético e amoroso. Indica o tamanho do repertório que a credencia a tornar-se interessante aos olhos de potenciais conquistas amorosas.
- Ter desenvoltura com o idioma faz a pessoa conversar melhor, namorar melhor, trabalhar melhor e ficar bem em qualquer situação em que está inserido - disse à Língua o apresentador Marcelo Tas, do programa CQC (TV Bandeirantes).
Quando falamos, temos a ilusão de achar que comunicamos só um conteúdo intencional, mas há outras informações quando se fala.
O modo de dizer altera a coisa dita.
Flexibilidade é a prova dos nove
O erro de português grave e reiterado pode incomodar e melar uma aproximação promissora entre casais. Mas não está dado que alguém mantenha relacionamento duradouro sendo inflexível no uso da gramática formal. Se alguém aplica, de forma ortodoxa, a gramática normativa numa conversa de bar, por exemplo, pode virar o chato da mesa. Pode perder a namorada.
O problema é que a norma culta tem sido há muito tempo considerada no Brasil um código de distinção social, quando é elemento de comunicação vital à constituição de nossa identidade e de nossos relacionamentos. As distorções dessa visão podem tornar irrelevantes outros aspectos que constituem a linguagem do namoro, como o humor e a capacidade de fazer correlações surpreendentes de ideias.
O que torna a norma culta uma sombra do idioma é tomá-la como universal, quando na verdade não existe um único padrão, mas cada situação de comunicação pede um registro que lhe é adequado. A flexibilidade do registro gramatical, adequado ao contexto de fala e escrita, é um aprendizado desafiador não só para solteiros conquistadores. Caso contrário, a pessoa se arrisca a perder muito mais do que um futuro parceiro.
(Revista Língua Portuguesa, Ano 8, no 89, 2013, p.16-17. Texto adaptado.)
Observe a grafia das palavras a seguir:
arruínam - obrigatórios - há
Assinale a opção em que todas as palavras devem receber acento, de acordo com as mesmas regras aplicadas às palavras acima.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto IV
O TENENTE MÁGICO
Havia um Tenente que fazia mágicas. Hoje deve ser major ou coronel, se já não passou pela mágica de ir diretamente a general de pijama. Aprendeu o ofício com um mestre europeu, fez o curso completo em três “matérias”: prestidigitação, ilusionismo, e aquela outra que se refere a escapar de algemas, laços e prisões, que fez a glória de Houdine, não sei que nome tenha. Eram seus colegas de aprendizado um industrial de São Paulo e um marinheiro. O industrial de São Paulo aprendeu o bastante para fazer dinheiro fácil e abundante, hoje é grande capitalista naquela praça. O marinheiro caiu no mundo, e se já não morreu, deve estar embasbacando os papalvos de tudo quanto é porto.
Éramos dois aspirantes, mais o tal tenente e um capitão adventício, jogando cartas à noite no quarto de hotel. Exigíamos que o mágico se despisse, jogando apenas de cuecas - mas ainda assim a horas tantas, quando a sorte lhe era adversa, cometia com um passe inesperado o irritante prodígio de fazer desaparecer todo o baralho. Por mais que déssemos busca, não o encontrávamos - e com outro gesto seu as cartas começavam a pingar do nariz do capitão. O capitão não achava graça, mas como ganhava sempre, e nem podia ser de outro modo, estava respeitada a hierarquia.
Quando saíamos com ele à rua os prodígios se sucediam: éramos três ou quatro a entrar numa festa do clube local, embora só dispuséssemos de um convite: o convite era entregue por ele ao porteiro e surripiado várias vezes para ser entregue novamente. Não sei como fazia isso, mas podia ficar ali o resto da noite embromando o porteiro com a sua mágica e introduzir nos salões do clube a população da cidade inteira.
Fazia desaparecer tudo que lhe caía nas mãos, e os objetos surgiam nos lugares mais inesperados. Metia um ovo inteiro na boca, como se o tivesse engolido, e o capitão, sentindo brotar no bolso algo estranho, ia apalpar e espatifava num gesto brusco o ovo dentro do paletó.
- Mágica besta. Faz outra que eu te ensino.
Um dia o capitão o desafiou com a sugestão de número inédito:
- Um mágico já engoliu meu anel e depois devolveu.
- Isso é fácil, também sei fazer: me dá o anel.
Tomou o anel do capitão, levou-o à boca e o engoliu.
- Me dá meu anel - protestou o capitão, procurando-o inutilmente nos bolsos.
- Eu engoli. Amanhã devolvo.
Por mais que o capitão reclamasse, afirmava que realmente o engolira, a pedido seu. Eu não poderia jurar - o certo é que só foi devolvido no dia seguinte.
Tamanha era a sua versatilidade no gênero de distração a que se dedicara, que um dia o provocamos a bater a carteira de um desconhecido - especialidade em que também já se revelara um mestre. Aceito o desafio, já em termos de aposta, saímos à rua para escolher a vítima. No café da esquina ele se adiantou abruptamente e foi entrando:
- Com licença.
Deu um esbarrão num sujeito parado à porta, pediu desculpas, depois se acercou de nós exibindo disfarçadamente a carteira:
- Olhem aqui. Agora me paguem.
Restava devolvê-la. Não pretendíamos que a brincadeira fosse às últimas consequências, ficando ele com a carteira. Alheio a tudo, o cidadão já se dispunha a sair, quando o tenente mágico o abordou:
- Essa carteira é sua, vou lhe explicar.
O homem não quis saber de explicações. Reteve o tenente pelo braço, chamando-o de ladrão, e começou o bate-boca. Inutilmente procuramos intervir. Um guarda acabou surgindo, tivemos de declinar nossa qualidade de oficiais do Exército. Por pouco não fomos presos assim mesmo: era um desses casos que hoje em dia terminam em pancadaria entre civis e militares, com depredação de delegacias e tudo mais. Pusemos a culpa no capitão e demos o fora.
Suas mágicas atingiram o clímax no dia em que nos revelou a mais extraordinária de suas habilidades: a tal de escapar de cordas e laços, coisas assim. A demonstração consistia no seguinte: depois de amarrado fortemente numa cadeira do quarto, com voltas e mais voltas de uma corda bem segura por muitos nós, era colocado com cadeira e tudo atrás da porta aberta do armário; em menos de dois minutos se desvencilharia, mas não podíamos ver como. E realmente ficou ali estrebuchando, suando e gemendo, para ao fim de dois minutos, controlados a relógio, saltar da cadeira. Tão grande foi nosso pasmo, que deu na cabeça do capitão a estúpida vanglória de fazer o mesmo, pediu que o amarrássemos como ao outro. Obedecemos - afinal de contas ele era capitão. Pediu que saíssemos do quarto, para tentar escapar longe de nossos olhos. Saímos e fomos jantar. Depois do jantar esquecemos o homem e fomos passear pela cidade. Só tarde da noite nos lembramos e corremos ao hotel, para encontrá-lo furibundo, tombado ao chão, ainda preso à cadeira, se esgoelando a plenos pulmões e tentando tocar a campainha da parede com o pé.
- Miseráveis. Vocês hão de ver comigo.
Não vimos coisa nenhuma. No dia seguinte o tenente mágico conseguiu o prodígio de fazer desaparecer para sempre o próprio capitão.
(SABINO, Fernando. O homem nu. - 46ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2009.)
“Tamanha era a sua versatilidade no gênero de distração a que se dedicara, que um dia o provocamos a bater carteira de um desconhecido [...].” (13º§)
A respeito dos termos sublinhados, é correto afirmar que:
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Texto IV
O TENENTE MÁGICO
Havia um Tenente que fazia mágicas. Hoje deve ser major ou coronel, se já não passou pela mágica de ir diretamente a general de pijama. Aprendeu o ofício com um mestre europeu, fez o curso completo em três “matérias”: prestidigitação, ilusionismo, e aquela outra que se refere a escapar de algemas, laços e prisões, que fez a glória de Houdine, não sei que nome tenha. Eram seus colegas de aprendizado um industrial de São Paulo e um marinheiro. O industrial de São Paulo aprendeu o bastante para fazer dinheiro fácil e abundante, hoje é grande capitalista naquela praça. O marinheiro caiu no mundo, e se já não morreu, deve estar embasbacando os papalvos de tudo quanto é porto.
Éramos dois aspirantes, mais o tal tenente e um capitão adventício, jogando cartas à noite no quarto de hotel. Exigíamos que o mágico se despisse, jogando apenas de cuecas - mas ainda assim a horas tantas, quando a sorte lhe era adversa, cometia com um passe inesperado o irritante prodígio de fazer desaparecer todo o baralho. Por mais que déssemos busca, não o encontrávamos - e com outro gesto seu as cartas começavam a pingar do nariz do capitão. O capitão não achava graça, mas como ganhava sempre, e nem podia ser de outro modo, estava respeitada a hierarquia.
Quando saíamos com ele à rua os prodígios se sucediam: éramos três ou quatro a entrar numa festa do clube local, embora só dispuséssemos de um convite: o convite era entregue por ele ao porteiro e surripiado várias vezes para ser entregue novamente. Não sei como fazia isso, mas podia ficar ali o resto da noite embromando o porteiro com a sua mágica e introduzir nos salões do clube a população da cidade inteira.
Fazia desaparecer tudo que lhe caía nas mãos, e os objetos surgiam nos lugares mais inesperados. Metia um ovo inteiro na boca, como se o tivesse engolido, e o capitão, sentindo brotar no bolso algo estranho, ia apalpar e espatifava num gesto brusco o ovo dentro do paletó.
- Mágica besta. Faz outra que eu te ensino.
Um dia o capitão o desafiou com a sugestão de número inédito:
- Um mágico já engoliu meu anel e depois devolveu.
- Isso é fácil, também sei fazer: me dá o anel.
Tomou o anel do capitão, levou-o à boca e o engoliu.
- Me dá meu anel - protestou o capitão, procurando-o inutilmente nos bolsos.
- Eu engoli. Amanhã devolvo.
Por mais que o capitão reclamasse, afirmava que realmente o engolira, a pedido seu. Eu não poderia jurar - o certo é que só foi devolvido no dia seguinte.
Tamanha era a sua versatilidade no gênero de distração a que se dedicara, que um dia o provocamos a bater a carteira de um desconhecido - especialidade em que também já se revelara um mestre. Aceito o desafio, já em termos de aposta, saímos à rua para escolher a vítima. No café da esquina ele se adiantou abruptamente e foi entrando:
- Com licença.
Deu um esbarrão num sujeito parado à porta, pediu desculpas, depois se acercou de nós exibindo disfarçadamente a carteira:
- Olhem aqui. Agora me paguem.
Restava devolvê-la. Não pretendíamos que a brincadeira fosse às últimas consequências, ficando ele com a carteira. Alheio a tudo, o cidadão já se dispunha a sair, quando o tenente mágico o abordou:
- Essa carteira é sua, vou lhe explicar.
O homem não quis saber de explicações. Reteve o tenente pelo braço, chamando-o de ladrão, e começou o bate-boca. Inutilmente procuramos intervir. Um guarda acabou surgindo, tivemos de declinar nossa qualidade de oficiais do Exército. Por pouco não fomos presos assim mesmo: era um desses casos que hoje em dia terminam em pancadaria entre civis e militares, com depredação de delegacias e tudo mais. Pusemos a culpa no capitão e demos o fora.
Suas mágicas atingiram o clímax no dia em que nos revelou a mais extraordinária de suas habilidades: a tal de escapar de cordas e laços, coisas assim. A demonstração consistia no seguinte: depois de amarrado fortemente numa cadeira do quarto, com voltas e mais voltas de uma corda bem segura por muitos nós, era colocado com cadeira e tudo atrás da porta aberta do armário; em menos de dois minutos se desvencilharia, mas não podíamos ver como. E realmente ficou ali estrebuchando, suando e gemendo, para ao fim de dois minutos, controlados a relógio, saltar da cadeira. Tão grande foi nosso pasmo, que deu na cabeça do capitão a estúpida vanglória de fazer o mesmo, pediu que o amarrássemos como ao outro. Obedecemos - afinal de contas ele era capitão. Pediu que saíssemos do quarto, para tentar escapar longe de nossos olhos. Saímos e fomos jantar. Depois do jantar esquecemos o homem e fomos passear pela cidade. Só tarde da noite nos lembramos e corremos ao hotel, para encontrá-lo furibundo, tombado ao chão, ainda preso à cadeira, se esgoelando a plenos pulmões e tentando tocar a campainha da parede com o pé.
- Miseráveis. Vocês hão de ver comigo.
Não vimos coisa nenhuma. No dia seguinte o tenente mágico conseguiu o prodígio de fazer desaparecer para sempre o próprio capitão.
(SABINO, Fernando. O homem nu. - 46ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2009.)
Leia o fragmento abaixo:
“Eram seus colegas de aprendizado um industrial de São Paulo e um marinheiro.” (1º§)
Assinale a opção em que se aplica a mesma regra de concordância verbal que a aplicada no trecho acima.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto IV
O TENENTE MÁGICO
Havia um Tenente que fazia mágicas. Hoje deve ser major ou coronel, se já não passou pela mágica de ir diretamente a general de pijama. Aprendeu o ofício com um mestre europeu, fez o curso completo em três “matérias”: prestidigitação, ilusionismo, e aquela outra que se refere a escapar de algemas, laços e prisões, que fez a glória de Houdine, não sei que nome tenha. Eram seus colegas de aprendizado um industrial de São Paulo e um marinheiro. O industrial de São Paulo aprendeu o bastante para fazer dinheiro fácil e abundante, hoje é grande capitalista naquela praça. O marinheiro caiu no mundo, e se já não morreu, deve estar embasbacando os papalvos de tudo quanto é porto.
Éramos dois aspirantes, mais o tal tenente e um capitão adventício, jogando cartas à noite no quarto de hotel. Exigíamos que o mágico se despisse, jogando apenas de cuecas - mas ainda assim a horas tantas, quando a sorte lhe era adversa, cometia com um passe inesperado o irritante prodígio de fazer desaparecer todo o baralho. Por mais que déssemos busca, não o encontrávamos - e com outro gesto seu as cartas começavam a pingar do nariz do capitão. O capitão não achava graça, mas como ganhava sempre, e nem podia ser de outro modo, estava respeitada a hierarquia.
Quando saíamos com ele à rua os prodígios se sucediam: éramos três ou quatro a entrar numa festa do clube local, embora só dispuséssemos de um convite: o convite era entregue por ele ao porteiro e surripiado várias vezes para ser entregue novamente. Não sei como fazia isso, mas podia ficar ali o resto da noite embromando o porteiro com a sua mágica e introduzir nos salões do clube a população da cidade inteira.
Fazia desaparecer tudo que lhe caía nas mãos, e os objetos surgiam nos lugares mais inesperados. Metia um ovo inteiro na boca, como se o tivesse engolido, e o capitão, sentindo brotar no bolso algo estranho, ia apalpar e espatifava num gesto brusco o ovo dentro do paletó.
- Mágica besta. Faz outra que eu te ensino.
Um dia o capitão o desafiou com a sugestão de número inédito:
- Um mágico já engoliu meu anel e depois devolveu.
- Isso é fácil, também sei fazer: me dá o anel.
Tomou o anel do capitão, levou-o à boca e o engoliu.
- Me dá meu anel - protestou o capitão, procurando-o inutilmente nos bolsos.
- Eu engoli. Amanhã devolvo.
Por mais que o capitão reclamasse, afirmava que realmente o engolira, a pedido seu. Eu não poderia jurar - o certo é que só foi devolvido no dia seguinte.
Tamanha era a sua versatilidade no gênero de distração a que se dedicara, que um dia o provocamos a bater a carteira de um desconhecido - especialidade em que também já se revelara um mestre. Aceito o desafio, já em termos de aposta, saímos à rua para escolher a vítima. No café da esquina ele se adiantou abruptamente e foi entrando:
- Com licença.
Deu um esbarrão num sujeito parado à porta, pediu desculpas, depois se acercou de nós exibindo disfarçadamente a carteira:
- Olhem aqui. Agora me paguem.
Restava devolvê-la. Não pretendíamos que a brincadeira fosse às últimas consequências, ficando ele com a carteira. Alheio a tudo, o cidadão já se dispunha a sair, quando o tenente mágico o abordou:
- Essa carteira é sua, vou lhe explicar.
O homem não quis saber de explicações. Reteve o tenente pelo braço, chamando-o de ladrão, e começou o bate-boca. Inutilmente procuramos intervir. Um guarda acabou surgindo, tivemos de declinar nossa qualidade de oficiais do Exército. Por pouco não fomos presos assim mesmo: era um desses casos que hoje em dia terminam em pancadaria entre civis e militares, com depredação de delegacias e tudo mais. Pusemos a culpa no capitão e demos o fora.
Suas mágicas atingiram o clímax no dia em que nos revelou a mais extraordinária de suas habilidades: a tal de escapar de cordas e laços, coisas assim. A demonstração consistia no seguinte: depois de amarrado fortemente numa cadeira do quarto, com voltas e mais voltas de uma corda bem segura por muitos nós, era colocado com cadeira e tudo atrás da porta aberta do armário; em menos de dois minutos se desvencilharia, mas não podíamos ver como. E realmente ficou ali estrebuchando, suando e gemendo, para ao fim de dois minutos, controlados a relógio, saltar da cadeira. Tão grande foi nosso pasmo, que deu na cabeça do capitão a estúpida vanglória de fazer o mesmo, pediu que o amarrássemos como ao outro. Obedecemos - afinal de contas ele era capitão. Pediu que saíssemos do quarto, para tentar escapar longe de nossos olhos. Saímos e fomos jantar. Depois do jantar esquecemos o homem e fomos passear pela cidade. Só tarde da noite nos lembramos e corremos ao hotel, para encontrá-lo furibundo, tombado ao chão, ainda preso à cadeira, se esgoelando a plenos pulmões e tentando tocar a campainha da parede com o pé.
- Miseráveis. Vocês hão de ver comigo.
Não vimos coisa nenhuma. No dia seguinte o tenente mágico conseguiu o prodígio de fazer desaparecer para sempre o próprio capitão.
(SABINO, Fernando. O homem nu. - 46ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2009.)
No fragmento “- Miseráveis. Vocês hão de ver comigo.” (21º§), o uso da estrutura perifrástica imprime à fala da personagem um sentido de:Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto IV
O TENENTE MÁGICO
Havia um Tenente que fazia mágicas. Hoje deve ser major ou coronel, se já não passou pela mágica de ir diretamente a general de pijama. Aprendeu o ofício com um mestre europeu, fez o curso completo em três “matérias”: prestidigitação, ilusionismo, e aquela outra que se refere a escapar de algemas, laços e prisões, que fez a glória de Houdine, não sei que nome tenha. Eram seus colegas de aprendizado um industrial de São Paulo e um marinheiro. O industrial de São Paulo aprendeu o bastante para fazer dinheiro fácil e abundante, hoje é grande capitalista naquela praça. O marinheiro caiu no mundo, e se já não morreu, deve estar embasbacando os papalvos de tudo quanto é porto.
Éramos dois aspirantes, mais o tal tenente e um capitão adventício, jogando cartas à noite no quarto de hotel. Exigíamos que o mágico se despisse, jogando apenas de cuecas - mas ainda assim a horas tantas, quando a sorte lhe era adversa, cometia com um passe inesperado o irritante prodígio de fazer desaparecer todo o baralho. Por mais que déssemos busca, não o encontrávamos - e com outro gesto seu as cartas começavam a pingar do nariz do capitão. O capitão não achava graça, mas como ganhava sempre, e nem podia ser de outro modo, estava respeitada a hierarquia.
Quando saíamos com ele à rua os prodígios se sucediam: éramos três ou quatro a entrar numa festa do clube local, embora só dispuséssemos de um convite: o convite era entregue por ele ao porteiro e surripiado várias vezes para ser entregue novamente. Não sei como fazia isso, mas podia ficar ali o resto da noite embromando o porteiro com a sua mágica e introduzir nos salões do clube a população da cidade inteira.
Fazia desaparecer tudo que lhe caía nas mãos, e os objetos surgiam nos lugares mais inesperados. Metia um ovo inteiro na boca, como se o tivesse engolido, e o capitão, sentindo brotar no bolso algo estranho, ia apalpar e espatifava num gesto brusco o ovo dentro do paletó.
- Mágica besta. Faz outra que eu te ensino.
Um dia o capitão o desafiou com a sugestão de número inédito:
- Um mágico já engoliu meu anel e depois devolveu.
- Isso é fácil, também sei fazer: me dá o anel.
Tomou o anel do capitão, levou-o à boca e o engoliu.
- Me dá meu anel - protestou o capitão, procurando-o inutilmente nos bolsos.
- Eu engoli. Amanhã devolvo.
Por mais que o capitão reclamasse, afirmava que realmente o engolira, a pedido seu. Eu não poderia jurar - o certo é que só foi devolvido no dia seguinte.
Tamanha era a sua versatilidade no gênero de distração a que se dedicara, que um dia o provocamos a bater a carteira de um desconhecido - especialidade em que também já se revelara um mestre. Aceito o desafio, já em termos de aposta, saímos à rua para escolher a vítima. No café da esquina ele se adiantou abruptamente e foi entrando:
- Com licença.
Deu um esbarrão num sujeito parado à porta, pediu desculpas, depois se acercou de nós exibindo disfarçadamente a carteira:
- Olhem aqui. Agora me paguem.
Restava devolvê-la. Não pretendíamos que a brincadeira fosse às últimas consequências, ficando ele com a carteira. Alheio a tudo, o cidadão já se dispunha a sair, quando o tenente mágico o abordou:
- Essa carteira é sua, vou lhe explicar.
O homem não quis saber de explicações. Reteve o tenente pelo braço, chamando-o de ladrão, e começou o bate-boca. Inutilmente procuramos intervir. Um guarda acabou surgindo, tivemos de declinar nossa qualidade de oficiais do Exército. Por pouco não fomos presos assim mesmo: era um desses casos que hoje em dia terminam em pancadaria entre civis e militares, com depredação de delegacias e tudo mais. Pusemos a culpa no capitão e demos o fora.
Suas mágicas atingiram o clímax no dia em que nos revelou a mais extraordinária de suas habilidades: a tal de escapar de cordas e laços, coisas assim. A demonstração consistia no seguinte: depois de amarrado fortemente numa cadeira do quarto, com voltas e mais voltas de uma corda bem segura por muitos nós, era colocado com cadeira e tudo atrás da porta aberta do armário; em menos de dois minutos se desvencilharia, mas não podíamos ver como. E realmente ficou ali estrebuchando, suando e gemendo, para ao fim de dois minutos, controlados a relógio, saltar da cadeira. Tão grande foi nosso pasmo, que deu na cabeça do capitão a estúpida vanglória de fazer o mesmo, pediu que o amarrássemos como ao outro. Obedecemos - afinal de contas ele era capitão. Pediu que saíssemos do quarto, para tentar escapar longe de nossos olhos. Saímos e fomos jantar. Depois do jantar esquecemos o homem e fomos passear pela cidade. Só tarde da noite nos lembramos e corremos ao hotel, para encontrá-lo furibundo, tombado ao chão, ainda preso à cadeira, se esgoelando a plenos pulmões e tentando tocar a campainha da parede com o pé.
- Miseráveis. Vocês hão de ver comigo.
Não vimos coisa nenhuma. No dia seguinte o tenente mágico conseguiu o prodígio de fazer desaparecer para sempre o próprio capitão.
(SABINO, Fernando. O homem nu. - 46ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2009.)
Leia a sentença abaixo:
“- Mágica besta. Faz outra que te ensino.” (5º§)
Considerando a intencionalidade discursiva manifesta no trecho, pode-se afirmar que a estratégia discursiva empregada pela personagem é chamada de:Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto IV
O TENENTE MÁGICO
Havia um Tenente que fazia mágicas. Hoje deve ser major ou coronel, se já não passou pela mágica de ir diretamente a general de pijama. Aprendeu o ofício com um mestre europeu, fez o curso completo em três “matérias”: prestidigitação, ilusionismo, e aquela outra que se refere a escapar de algemas, laços e prisões, que fez a glória de Houdine, não sei que nome tenha. Eram seus colegas de aprendizado um industrial de São Paulo e um marinheiro. O industrial de São Paulo aprendeu o bastante para fazer dinheiro fácil e abundante, hoje é grande capitalista naquela praça. O marinheiro caiu no mundo, e se já não morreu, deve estar embasbacando os papalvos de tudo quanto é porto.
Éramos dois aspirantes, mais o tal tenente e um capitão adventício, jogando cartas à noite no quarto de hotel. Exigíamos que o mágico se despisse, jogando apenas de cuecas - mas ainda assim a horas tantas, quando a sorte lhe era adversa, cometia com um passe inesperado o irritante prodígio de fazer desaparecer todo o baralho. Por mais que déssemos busca, não o encontrávamos - e com outro gesto seu as cartas começavam a pingar do nariz do capitão. O capitão não achava graça, mas como ganhava sempre, e nem podia ser de outro modo, estava respeitada a hierarquia.
Quando saíamos com ele à rua os prodígios se sucediam: éramos três ou quatro a entrar numa festa do clube local, embora só dispuséssemos de um convite: o convite era entregue por ele ao porteiro e surripiado várias vezes para ser entregue novamente. Não sei como fazia isso, mas podia ficar ali o resto da noite embromando o porteiro com a sua mágica e introduzir nos salões do clube a população da cidade inteira.
Fazia desaparecer tudo que lhe caía nas mãos, e os objetos surgiam nos lugares mais inesperados. Metia um ovo inteiro na boca, como se o tivesse engolido, e o capitão, sentindo brotar no bolso algo estranho, ia apalpar e espatifava num gesto brusco o ovo dentro do paletó.
- Mágica besta. Faz outra que eu te ensino.
Um dia o capitão o desafiou com a sugestão de número inédito:
- Um mágico já engoliu meu anel e depois devolveu.
- Isso é fácil, também sei fazer: me dá o anel.
Tomou o anel do capitão, levou-o à boca e o engoliu.
- Me dá meu anel - protestou o capitão, procurando-o inutilmente nos bolsos.
- Eu engoli. Amanhã devolvo.
Por mais que o capitão reclamasse, afirmava que realmente o engolira, a pedido seu. Eu não poderia jurar - o certo é que só foi devolvido no dia seguinte.
Tamanha era a sua versatilidade no gênero de distração a que se dedicara, que um dia o provocamos a bater a carteira de um desconhecido - especialidade em que também já se revelara um mestre. Aceito o desafio, já em termos de aposta, saímos à rua para escolher a vítima. No café da esquina ele se adiantou abruptamente e foi entrando:
- Com licença.
Deu um esbarrão num sujeito parado à porta, pediu desculpas, depois se acercou de nós exibindo disfarçadamente a carteira:
- Olhem aqui. Agora me paguem.
Restava devolvê-la. Não pretendíamos que a brincadeira fosse às últimas consequências, ficando ele com a carteira. Alheio a tudo, o cidadão já se dispunha a sair, quando o tenente mágico o abordou:
- Essa carteira é sua, vou lhe explicar.
O homem não quis saber de explicações. Reteve o tenente pelo braço, chamando-o de ladrão, e começou o bate-boca. Inutilmente procuramos intervir. Um guarda acabou surgindo, tivemos de declinar nossa qualidade de oficiais do Exército. Por pouco não fomos presos assim mesmo: era um desses casos que hoje em dia terminam em pancadaria entre civis e militares, com depredação de delegacias e tudo mais. Pusemos a culpa no capitão e demos o fora.
Suas mágicas atingiram o clímax no dia em que nos revelou a mais extraordinária de suas habilidades: a tal de escapar de cordas e laços, coisas assim. A demonstração consistia no seguinte: depois de amarrado fortemente numa cadeira do quarto, com voltas e mais voltas de uma corda bem segura por muitos nós, era colocado com cadeira e tudo atrás da porta aberta do armário; em menos de dois minutos se desvencilharia, mas não podíamos ver como. E realmente ficou ali estrebuchando, suando e gemendo, para ao fim de dois minutos, controlados a relógio, saltar da cadeira. Tão grande foi nosso pasmo, que deu na cabeça do capitão a estúpida vanglória de fazer o mesmo, pediu que o amarrássemos como ao outro. Obedecemos - afinal de contas ele era capitão. Pediu que saíssemos do quarto, para tentar escapar longe de nossos olhos. Saímos e fomos jantar. Depois do jantar esquecemos o homem e fomos passear pela cidade. Só tarde da noite nos lembramos e corremos ao hotel, para encontrá-lo furibundo, tombado ao chão, ainda preso à cadeira, se esgoelando a plenos pulmões e tentando tocar a campainha da parede com o pé.
- Miseráveis. Vocês hão de ver comigo.
Não vimos coisa nenhuma. No dia seguinte o tenente mágico conseguiu o prodígio de fazer desaparecer para sempre o próprio capitão.
(SABINO, Fernando. O homem nu. - 46ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2009.)
O pronome adjetivo possessivo precede normalmente o substantivo que determina. No entanto, pode o referido pronome vir posposto ao substantivo, em conformidade com os termos grifados nos trechos a seguir: “Por mais que déssemos busca, não o encontrávamos - e com outro gesto seu as cartas começavam a pingar do nariz do capitão.” (2º§) e “Por mais que o capitão reclamasse, afirmava que realmente o engolira, a pedido seu.” (12º§).
Conforme preconizado por Celso Cunha e Lindley Cintra (2016), analise as afirmativas a seguir, e assinale a opção correta sobre o emprego adequado dos pronomes possessivos pospostos ao substantivo, sublinhados nos trechos acima.
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Texto IV
O TENENTE MÁGICO
Havia um Tenente que fazia mágicas. Hoje deve ser major ou coronel, se já não passou pela mágica de ir diretamente a general de pijama. Aprendeu o ofício com um mestre europeu, fez o curso completo em três “matérias”: prestidigitação, ilusionismo, e aquela outra que se refere a escapar de algemas, laços e prisões, que fez a glória de Houdine, não sei que nome tenha. Eram seus colegas de aprendizado um industrial de São Paulo e um marinheiro. O industrial de São Paulo aprendeu o bastante para fazer dinheiro fácil e abundante, hoje é grande capitalista naquela praça. O marinheiro caiu no mundo, e se já não morreu, deve estar embasbacando os papalvos de tudo quanto é porto.
Éramos dois aspirantes, mais o tal tenente e um capitão adventício, jogando cartas à noite no quarto de hotel. Exigíamos que o mágico se despisse, jogando apenas de cuecas - mas ainda assim a horas tantas, quando a sorte lhe era adversa, cometia com um passe inesperado o irritante prodígio de fazer desaparecer todo o baralho. Por mais que déssemos busca, não o encontrávamos - e com outro gesto seu as cartas começavam a pingar do nariz do capitão. O capitão não achava graça, mas como ganhava sempre, e nem podia ser de outro modo, estava respeitada a hierarquia.
Quando saíamos com ele à rua os prodígios se sucediam: éramos três ou quatro a entrar numa festa do clube local, embora só dispuséssemos de um convite: o convite era entregue por ele ao porteiro e surripiado várias vezes para ser entregue novamente. Não sei como fazia isso, mas podia ficar ali o resto da noite embromando o porteiro com a sua mágica e introduzir nos salões do clube a população da cidade inteira.
Fazia desaparecer tudo que lhe caía nas mãos, e os objetos surgiam nos lugares mais inesperados. Metia um ovo inteiro na boca, como se o tivesse engolido, e o capitão, sentindo brotar no bolso algo estranho, ia apalpar e espatifava num gesto brusco o ovo dentro do paletó.
- Mágica besta. Faz outra que eu te ensino.
Um dia o capitão o desafiou com a sugestão de número inédito:
- Um mágico já engoliu meu anel e depois devolveu.
- Isso é fácil, também sei fazer: me dá o anel.
Tomou o anel do capitão, levou-o à boca e o engoliu.
- Me dá meu anel - protestou o capitão, procurando-o inutilmente nos bolsos.
- Eu engoli. Amanhã devolvo.
Por mais que o capitão reclamasse, afirmava que realmente o engolira, a pedido seu. Eu não poderia jurar - o certo é que só foi devolvido no dia seguinte.
Tamanha era a sua versatilidade no gênero de distração a que se dedicara, que um dia o provocamos a bater a carteira de um desconhecido - especialidade em que também já se revelara um mestre. Aceito o desafio, já em termos de aposta, saímos à rua para escolher a vítima. No café da esquina ele se adiantou abruptamente e foi entrando:
- Com licença.
Deu um esbarrão num sujeito parado à porta, pediu desculpas, depois se acercou de nós exibindo disfarçadamente a carteira:
- Olhem aqui. Agora me paguem.
Restava devolvê-la. Não pretendíamos que a brincadeira fosse às últimas consequências, ficando ele com a carteira. Alheio a tudo, o cidadão já se dispunha a sair, quando o tenente mágico o abordou:
- Essa carteira é sua, vou lhe explicar.
O homem não quis saber de explicações. Reteve o tenente pelo braço, chamando-o de ladrão, e começou o bate-boca. Inutilmente procuramos intervir. Um guarda acabou surgindo, tivemos de declinar nossa qualidade de oficiais do Exército. Por pouco não fomos presos assim mesmo: era um desses casos que hoje em dia terminam em pancadaria entre civis e militares, com depredação de delegacias e tudo mais. Pusemos a culpa no capitão e demos o fora.
Suas mágicas atingiram o clímax no dia em que nos revelou a mais extraordinária de suas habilidades: a tal de escapar de cordas e laços, coisas assim. A demonstração consistia no seguinte: depois de amarrado fortemente numa cadeira do quarto, com voltas e mais voltas de uma corda bem segura por muitos nós, era colocado com cadeira e tudo atrás da porta aberta do armário; em menos de dois minutos se desvencilharia, mas não podíamos ver como. E realmente ficou ali estrebuchando, suando e gemendo, para ao fim de dois minutos, controlados a relógio, saltar da cadeira. Tão grande foi nosso pasmo, que deu na cabeça do capitão a estúpida vanglória de fazer o mesmo, pediu que o amarrássemos como ao outro. Obedecemos - afinal de contas ele era capitão. Pediu que saíssemos do quarto, para tentar escapar longe de nossos olhos. Saímos e fomos jantar. Depois do jantar esquecemos o homem e fomos passear pela cidade. Só tarde da noite nos lembramos e corremos ao hotel, para encontrá-lo furibundo, tombado ao chão, ainda preso à cadeira, se esgoelando a plenos pulmões e tentando tocar a campainha da parede com o pé.
- Miseráveis. Vocês hão de ver comigo.
Não vimos coisa nenhuma. No dia seguinte o tenente mágico conseguiu o prodígio de fazer desaparecer para sempre o próprio capitão.
(SABINO, Fernando. O homem nu. - 46ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2009.)
Assinale a opção em que o valor semântico do elemento destacado está apontado corretamente.
Texto IV
O TENENTE MÁGICO
Havia um Tenente que fazia mágicas. Hoje deve ser major ou coronel, se já não passou pela mágica de ir diretamente a general de pijama. Aprendeu o ofício com um mestre europeu, fez o curso completo em três “matérias”: prestidigitação, ilusionismo, e aquela outra que se refere a escapar de algemas, laços e prisões, que fez a glória de Houdine, não sei que nome tenha. Eram seus colegas de aprendizado um industrial de São Paulo e um marinheiro. O industrial de São Paulo aprendeu o bastante para fazer dinheiro fácil e abundante, hoje é grande capitalista naquela praça. O marinheiro caiu no mundo, e se já não morreu, deve estar embasbacando os papalvos de tudo quanto é porto.
Éramos dois aspirantes, mais o tal tenente e um capitão adventício, jogando cartas à noite no quarto de hotel. Exigíamos que o mágico se despisse, jogando apenas de cuecas - mas ainda assim a horas tantas, quando a sorte lhe era adversa, cometia com um passe inesperado o irritante prodígio de fazer desaparecer todo o baralho. Por mais que déssemos busca, não o encontrávamos - e com outro gesto seu as cartas começavam a pingar do nariz do capitão. O capitão não achava graça, mas como ganhava sempre, e nem podia ser de outro modo, estava respeitada a hierarquia.
Quando saíamos com ele à rua os prodígios se sucediam: éramos três ou quatro a entrar numa festa do clube local, embora só dispuséssemos de um convite: o convite era entregue por ele ao porteiro e surripiado várias vezes para ser entregue novamente. Não sei como fazia isso, mas podia ficar ali o resto da noite embromando o porteiro com a sua mágica e introduzir nos salões do clube a população da cidade inteira.
Fazia desaparecer tudo que lhe caía nas mãos, e os objetos surgiam nos lugares mais inesperados. Metia um ovo inteiro na boca, como se o tivesse engolido, e o capitão, sentindo brotar no bolso algo estranho, ia apalpar e espatifava num gesto brusco o ovo dentro do paletó.
- Mágica besta. Faz outra que eu te ensino.
Um dia o capitão o desafiou com a sugestão de número inédito:
- Um mágico já engoliu meu anel e depois devolveu.
- Isso é fácil, também sei fazer: me dá o anel.
Tomou o anel do capitão, levou-o à boca e o engoliu.
- Me dá meu anel - protestou o capitão, procurando-o inutilmente nos bolsos.
- Eu engoli. Amanhã devolvo.
Por mais que o capitão reclamasse, afirmava que realmente o engolira, a pedido seu. Eu não poderia jurar - o certo é que só foi devolvido no dia seguinte.
Tamanha era a sua versatilidade no gênero de distração a que se dedicara, que um dia o provocamos a bater a carteira de um desconhecido - especialidade em que também já se revelara um mestre. Aceito o desafio, já em termos de aposta, saímos à rua para escolher a vítima. No café da esquina ele se adiantou abruptamente e foi entrando:
- Com licença.
Deu um esbarrão num sujeito parado à porta, pediu desculpas, depois se acercou de nós exibindo disfarçadamente a carteira:
- Olhem aqui. Agora me paguem.
Restava devolvê-la. Não pretendíamos que a brincadeira fosse às últimas consequências, ficando ele com a carteira. Alheio a tudo, o cidadão já se dispunha a sair, quando o tenente mágico o abordou:
- Essa carteira é sua, vou lhe explicar.
O homem não quis saber de explicações. Reteve o tenente pelo braço, chamando-o de ladrão, e começou o bate-boca. Inutilmente procuramos intervir. Um guarda acabou surgindo, tivemos de declinar nossa qualidade de oficiais do Exército. Por pouco não fomos presos assim mesmo: era um desses casos que hoje em dia terminam em pancadaria entre civis e militares, com depredação de delegacias e tudo mais. Pusemos a culpa no capitão e demos o fora.
Suas mágicas atingiram o clímax no dia em que nos revelou a mais extraordinária de suas habilidades: a tal de escapar de cordas e laços, coisas assim. A demonstração consistia no seguinte: depois de amarrado fortemente numa cadeira do quarto, com voltas e mais voltas de uma corda bem segura por muitos nós, era colocado com cadeira e tudo atrás da porta aberta do armário; em menos de dois minutos se desvencilharia, mas não podíamos ver como. E realmente ficou ali estrebuchando, suando e gemendo, para ao fim de dois minutos, controlados a relógio, saltar da cadeira. Tão grande foi nosso pasmo, que deu na cabeça do capitão a estúpida vanglória de fazer o mesmo, pediu que o amarrássemos como ao outro. Obedecemos - afinal de contas ele era capitão. Pediu que saíssemos do quarto, para tentar escapar longe de nossos olhos. Saímos e fomos jantar. Depois do jantar esquecemos o homem e fomos passear pela cidade. Só tarde da noite nos lembramos e corremos ao hotel, para encontrá-lo furibundo, tombado ao chão, ainda preso à cadeira, se esgoelando a plenos pulmões e tentando tocar a campainha da parede com o pé.
- Miseráveis. Vocês hão de ver comigo.
Não vimos coisa nenhuma. No dia seguinte o tenente mágico conseguiu o prodígio de fazer desaparecer para sempre o próprio capitão.
(SABINO, Fernando. O homem nu. - 46ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2009.)
Leia o trecho abaixo:
“Exigíamos que o mágico se despisse, jogando apenas de cuecas - mas ainda assim a horas tantas, quando a sorte lhe era adversa, cometia com um passe inesperado o irritante prodígio de fazer desaparecer todo o baralho.” (2º§)
Quanto às informações presentes no trecho, pode-se afirmar que:Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto IV
O TENENTE MÁGICO
Havia um Tenente que fazia mágicas. Hoje deve ser major ou coronel, se já não passou pela mágica de ir diretamente a general de pijama. Aprendeu o ofício com um mestre europeu, fez o curso completo em três “matérias”: prestidigitação, ilusionismo, e aquela outra que se refere a escapar de algemas, laços e prisões, que fez a glória de Houdine, não sei que nome tenha. Eram seus colegas de aprendizado um industrial de São Paulo e um marinheiro. O industrial de São Paulo aprendeu o bastante para fazer dinheiro fácil e abundante, hoje é grande capitalista naquela praça. O marinheiro caiu no mundo, e se já não morreu, deve estar embasbacando os papalvos de tudo quanto é porto.
Éramos dois aspirantes, mais o tal tenente e um capitão adventício, jogando cartas à noite no quarto de hotel. Exigíamos que o mágico se despisse, jogando apenas de cuecas - mas ainda assim a horas tantas, quando a sorte lhe era adversa, cometia com um passe inesperado o irritante prodígio de fazer desaparecer todo o baralho. Por mais que déssemos busca, não o encontrávamos - e com outro gesto seu as cartas começavam a pingar do nariz do capitão. O capitão não achava graça, mas como ganhava sempre, e nem podia ser de outro modo, estava respeitada a hierarquia.
Quando saíamos com ele à rua os prodígios se sucediam: éramos três ou quatro a entrar numa festa do clube local, embora só dispuséssemos de um convite: o convite era entregue por ele ao porteiro e surripiado várias vezes para ser entregue novamente. Não sei como fazia isso, mas podia ficar ali o resto da noite embromando o porteiro com a sua mágica e introduzir nos salões do clube a população da cidade inteira.
Fazia desaparecer tudo que lhe caía nas mãos, e os objetos surgiam nos lugares mais inesperados. Metia um ovo inteiro na boca, como se o tivesse engolido, e o capitão, sentindo brotar no bolso algo estranho, ia apalpar e espatifava num gesto brusco o ovo dentro do paletó.
- Mágica besta. Faz outra que eu te ensino.
Um dia o capitão o desafiou com a sugestão de número inédito:
- Um mágico já engoliu meu anel e depois devolveu.
- Isso é fácil, também sei fazer: me dá o anel.
Tomou o anel do capitão, levou-o à boca e o engoliu.
- Me dá meu anel - protestou o capitão, procurando-o inutilmente nos bolsos.
- Eu engoli. Amanhã devolvo.
Por mais que o capitão reclamasse, afirmava que realmente o engolira, a pedido seu. Eu não poderia jurar - o certo é que só foi devolvido no dia seguinte.
Tamanha era a sua versatilidade no gênero de distração a que se dedicara, que um dia o provocamos a bater a carteira de um desconhecido - especialidade em que também já se revelara um mestre. Aceito o desafio, já em termos de aposta, saímos à rua para escolher a vítima. No café da esquina ele se adiantou abruptamente e foi entrando:
- Com licença.
Deu um esbarrão num sujeito parado à porta, pediu desculpas, depois se acercou de nós exibindo disfarçadamente a carteira:
- Olhem aqui. Agora me paguem.
Restava devolvê-la. Não pretendíamos que a brincadeira fosse às últimas consequências, ficando ele com a carteira. Alheio a tudo, o cidadão já se dispunha a sair, quando o tenente mágico o abordou:
- Essa carteira é sua, vou lhe explicar.
O homem não quis saber de explicações. Reteve o tenente pelo braço, chamando-o de ladrão, e começou o bate-boca. Inutilmente procuramos intervir. Um guarda acabou surgindo, tivemos de declinar nossa qualidade de oficiais do Exército. Por pouco não fomos presos assim mesmo: era um desses casos que hoje em dia terminam em pancadaria entre civis e militares, com depredação de delegacias e tudo mais. Pusemos a culpa no capitão e demos o fora.
Suas mágicas atingiram o clímax no dia em que nos revelou a mais extraordinária de suas habilidades: a tal de escapar de cordas e laços, coisas assim. A demonstração consistia no seguinte: depois de amarrado fortemente numa cadeira do quarto, com voltas e mais voltas de uma corda bem segura por muitos nós, era colocado com cadeira e tudo atrás da porta aberta do armário; em menos de dois minutos se desvencilharia, mas não podíamos ver como. E realmente ficou ali estrebuchando, suando e gemendo, para ao fim de dois minutos, controlados a relógio, saltar da cadeira. Tão grande foi nosso pasmo, que deu na cabeça do capitão a estúpida vanglória de fazer o mesmo, pediu que o amarrássemos como ao outro. Obedecemos - afinal de contas ele era capitão. Pediu que saíssemos do quarto, para tentar escapar longe de nossos olhos. Saímos e fomos jantar. Depois do jantar esquecemos o homem e fomos passear pela cidade. Só tarde da noite nos lembramos e corremos ao hotel, para encontrá-lo furibundo, tombado ao chão, ainda preso à cadeira, se esgoelando a plenos pulmões e tentando tocar a campainha da parede com o pé.
- Miseráveis. Vocês hão de ver comigo.
Não vimos coisa nenhuma. No dia seguinte o tenente mágico conseguiu o prodígio de fazer desaparecer para sempre o próprio capitão.
(SABINO, Fernando. O homem nu. - 46ª ed. - Rio de Janeiro: Record, 2009.)
A partir do emprego da expressão “o tal” no fragmento “Éramos dois aspirantes, mais o tal tenente e um capitão adventício, jogando cartas à noite no quarto de hotel.” (2º§), pode-se inferir que a avaliação do narrador sobre o tenente é de:Resolução comentada
Análise das alternativas
A partir da análise de catástrofes, [foram identificados] fatores determinantes para a eficiência da resposta militar a desastres. Destacam-se: a prontificação dos efetivos; a adequação dos recursos utilizados; a interoperabilidade dos meios militares com os esforços de ajuda mais ampla, inclusive a internacional, vindos das diferentes organizações envolvidas no esforço de ajuda; a capacidade de absorção do país que recebe a ajuda para acomodar um grande fluxo de bens e pessoas, e ainda como as instituições desse país gerenciam desastres e coordenam a assistência externa. [Concluiu-se] que as unidades militares, para serem bem-sucedidas nessas operações, precisam ter capacidade de autodireção, serem ágeis, autossuficientes e multiqualificadas. Assim, estarão prontas para operar em questão de horas, levando os equipamentos que lhes permitam estabelecer uma posição avançada de comando central das operações e atividades subsequentes. Devem ser capazes de se adaptar e de responder ao que lhes for exigido, mesmo distantes da sua cadeia de comando e sede, tomando decisões rápidas, com base em sua avaliação do ambiente.
Fonte: VILELA, Fabiano Ferro. O Emprego da Marinha do Brasil na ajuda humanitária: capacidades e limitações. Rio de Janeiro: Escola de Guerra Naval, 2015, p. 22-23, (monografia). (adaptado)
TEXTO 2
A Marinha do Brasil (MB) resgatou, em 2024, 458 pessoas com vida, vítimas de acidentes no mar e em rios. O Serviço de Busca e Salvamento (SAR) da Força foi acionado 270 vezes no ano passado, número inferior se comparado ao ano de 2023, que registrou 295 ocorrências. Um dos motivos para a redução de tragédias são as campanhas de conscientização sobre navegação segura, desenvolvidas pelas Capitanias, Delegacias e Agências da Marinha no País, de acordo com o Comando de Operações Marítimas e Proteção da Amazônia Azul (COMPAAz). Situações de “Homem ao mar” foi o pedido de socorro mais solicitado, com 73 casos. Já os naufrágios foram responsáveis por 67 atendimentos. Embarcações à deriva correspondem a 47 pedidos de ajuda. Outro dado relevante refere-se à evacuação médica, com 44 assistências.
Disponível em: https://www.agencia.marinha.mil.br/seguranca-da-navegacao/militares-da-marinha-salvam-mais-de-450-vidas-em-2024. Acesso em: 09 de abril de 2025.
TEXTO 3
Em um ano [2024] marcado por desafios climáticos extremos, a Marinha do Brasil atuou de forma decisiva para mitigar os impactos das tragédias ambientais. No Rio Grande do Sul, após as enchentes históricas que assolaram o estado, a Força Naval mobilizou mais de 2 mil militares, nove navios, 11 helicópteros, 73 embarcações e 215 viaturas para oferecer suporte às vítimas. Além de transportar mais de 115 toneladas de doações, foi montado um hospital de campanha, proporcionando atendimento médico em áreas críticas. No Pantanal, os focos de incêndio atingiram números alarmantes, com mais de 14,6 mil registros entre janeiro e novembro. A Marinha participou ativamente do combate às chamas, utilizando helicópteros, navios e embarcações, além de prestar assistência médica às famílias ribeirinhas afetadas pela fumaça. Na Terra Indígena Yanomami, os militares integraram a Operação Catrimani II, combatendo o garimpo ilegal e prestando assistência humanitária às comunidades locais. Foram inutilizados mais de 300 acampamentos e 45 pistas clandestinas, apreendidas 221 dragas e quase mil motores, além de mais de 17 quilos de ouro extraídos ilegalmente.
Disponível em: https://www.defesaemfoco.com.br/de-defesa-a-ajuda-humanitaria-principais-acoes-da-marinha-em-2024/. Acesso em: 09 de abril de 2025. (adaptado)
PROPOSTA DE REDAÇÃO - A partir da leitura dos textos de apoio e de suas reflexões, redija uma dissertação argumentativa a respeito do tema “Os impactos sociais das ações de ajuda humanitária da Marinha do Brasil em desastres naturais ocorridos em território nacional”. Dê um título ao seu texto.
1. A redação deverá ser uma dissertação argumentativa com ideias coerentes, claras e objetivas, em língua portuguesa e com letra legível. Se utilizada a letra de forma (caixa-alta), as letras maiúsculas deverão receber o devido realce;
2. Deverá ter, no mínimo, 15 (quinze) linhas contínuas, considerando o recuo dos parágrafos, e, no máximo, 30 (trinta) linhas. Não poderá conter qualquer marca identificadora ou assinatura, o que implicará a atribuição de nota zero;
3. Os trechos da redação que contiverem cópias dos textos de apoio ao tema proposto ou dos textos do caderno de prova serão desconsiderados para a correção e para a contagem do número mínimo de linhas;
4. O candidato deverá dar um título à redação; e
5. O rascunho deverá ser feito em local apropriado.
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