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ITA — Vestibular 2014 — Prova de Português (questões 21 a 40 e Redação)

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) · Vestibular 2014 — Português e Redação

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA)Médio

21 questões nesta prova · página 1 de 2 · 19 com gabarito

Língua Portuguesa Interpretação de Texto — Ideia Central

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Médio

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) · Vestibular 2014 — Português e Redação

Gabarito disponível

Texto-base:
As questões de 21 a 32 referem-se ao Texto 1, de Manuel Bandeira, publicado em 1937.

TEXTO 1
1 Não há hoje no mundo, em qualquer domínio de atividade artística, um artista cuja arte contenha
maior universalidade que a de Charles Chaplin. A razão vem de que o tipo de Carlito é uma dessas
criações que, salvo idiossincrasias muito raras, interessam e agradam a toda a gente. Como os heróis
das lendas populares ou as personagens das velhas farsas de mamulengo.
5 Carlito é popular no sentido mais alto da palavra. Não saiu completo e definitivo da cabeça de
Chaplin: foi uma criação em que o artista procedeu por uma sucessão de tentativas e erradas.
Chaplin observava sobre o público o efeito de cada detalhe.
Um dos traços mais característicos da pessoa física de Carlito foi achado casual. Chaplin certa
vez lembrou-se de arremedar a marcha desgovernada de um tabético. O público riu: estava fixado o
10 andar habitual de Carlito.
O vestuário da personagem – fraquezinho humorístico, calças lambazonas, botinas
escarrapachadas, cartolinha – também se fixou pelo consenso do público.
Certa vez que Carlito trocou por outras as botinas escarrapachadas e a clássica cartolinha, o
público não achou graça: estava desapontado. Chaplin eliminou imediatamente a variante. Sentiu com o
15 público que ela destruía a unidade física do tipo. Podia ser jocosa também, mas não era mais Carlito.
Note-se que essa indumentária, que vem dos primeiros filmes do artista, não contém nada de
especialmente extravagante. Agrada por não sei quê de elegante que há no seu ridículo de miséria.
Pode-se dizer que Carlito possui o dandismo do grotesco.
Não será exagero afirmar que toda a humanidade viva colaborou nas salas de cinema para a
20 realização da personagem de Carlito, como ela aparece nessas estupendas obras-primas de humour
que são O Garoto, Ombro Arma, Em Busca do Ouro e O Circo.
Isto por si só atestaria em Chaplin um extraordinário dom de discernimento psicológico. Não
obstante, se não houvesse nele profundidade de pensamento, lirismo, ternura, seria levado por esse
processo de criação à vulgaridade dos artistas medíocres que condescendem com o fácil gosto do
25 público.
Aqui é que começa a genialidade de Chaplin. Descendo até o público, não só não se vulgarizou,
mas ao contrário ganhou maior força de emoção e de poesia. A sua originalidade extremou-se. Ele
soube isolar em seus dados pessoais, em sua inteligência e em sua sensibilidade de exceção, os
elementos de irredutível humanidade. Como se diz em linguagem matemática, pôs em evidência o fator
30 comum de todas as expressões humanas. O olhar de Carlito, no filme O Circo, para a brioche do menino
faz rir a criançada como um gesto de gulodice engraçada. Para um adulto pode sugerir da maneira mais
dramática todas as categorias do desejo. A sua arte simplificou-se ao mesmo tempo que se aprofundou
e alargou. Cada espectador pode encontrar nela o que procura: o riso, a crítica, o lirismo ou ainda o
contrário de tudo isso.
35 Essas reflexões me acudiram ao espírito ao ler umas linhas da entrevista fornecida a Florent Fels
pelo pintor Pascin, búlgaro naturalizado americano. Pascin não gosta de Carlito e explicou que uma fita
de Carlito nos Estados Unidos tem uma significação muito diversa da que lhe dão fora de lá. Nos
Estados Unidos Carlito é o sujeito que não sabe fazer as coisas como todo mundo, que não sabe viver
como os outros, não se acomoda em meio algum, – em suma um inadaptável. O espectador americano
40 ri satisfeito de se sentir tão diferente daquele sonhador ridículo. É isto que faz o sucesso de Chaplin nos
Estados Unidos. Carlito com as suas lamentáveis aventuras constitui ali uma lição de moral para
educação da mocidade no sentido de preparar uma geração de homens hábeis, práticos e bem
quaisquer!
Por mais ao par que se esteja do caráter prático do americano, do seu critério de sucesso para
45 julgamento das ações humanas, do seu gosto pela estandardização, não deixa de surpreender aquela
interpretação moralista dos filmes de Chaplin. Bem examinadas as coisas, não havia motivo para
surpresa. A interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem verdadeiramente
americano, o que veda a entrada do seu território a doentes e estropiados, o que propõe o pacto contra
a guerra e ao mesmo tempo assalta a Nicarágua, não poderia sentir de outro modo.
50 Não importa, não será menos legítima a concepção contrária, tanto é verdade que tudo cabe na
humanidade vasta de Carlito. Em vez de um fraco, de um pulha, de um inadaptável, posso eu interpretar
Carlito como um herói. Carlito passa por todas as misérias sem lágrimas nem queixas. Não é força isto?
Não perde a bondade apesar de todas as experiências, e no meio das maiores privações acha um jeito
de amparar a outras criaturas em aperto. Isso é pulhice?
55 Aceita com estoicismo as piores situações, dorme onde é possível ou não dorme, come sola de
sapato cozida como se se tratasse de alguma língua do Rio Grande. É um inadaptável?
Sem dúvida não sabe se adaptar às condições de sucesso na vida. Mas haverá sucesso que
valha a força de ânimo do sujeito sem nada neste mundo, sem dinheiro, sem amores, sem teto, quando
ele pode agitar a bengalinha como Carlito com um gesto de quem vai tirar a felicidade do nada? Quando
60 um ajuntamento se forma nos filmes, os transeuntes vão parando e acercando-se do grupo com um ar
de curiosidade interesseira. Todos têm uma fisionomia preocupada. Carlito é o único que está certo do
prazer ingênuo de olhar.
Neste sentido Carlito é um verdadeiro professor de heroísmo. Quem vive na solidão das grandes
cidades não pode deixar de sentir intensamente o influxo da sua lição, e uma simpatia enorme nos
65 prende ao boêmio nos seus gestos de aceitação tão simples.
Nada mais heróico, mais comovente do que a saída de Carlito no fim de O Circo. Partida a
companhia, em cuja troupe seguia a menina que ele ajudara a casar com outro, Carlito por alguns
momentos se senta no círculo que ficou como último vestígio do picadeiro, refletindo sobre os dias de
barriga cheia e relativa felicidade sentimental que acabava de desfrutar. Agora está de novo sem nada e
70 inteiramente só. Mas os minutos de fraqueza duram pouco. Carlito levanta-se, dá um puxão na
casaquinha para recuperar a linha, faz um molinete com a bengalinha e sai campo afora sem olhar para
trás. Não tem um vintém, não tem uma afeição, não tem onde dormir nem o que comer. No entanto vai
como um conquistador pisando em terra nova. Parece que o Universo é dele. E não tenham dúvida: o
Universo é dele.
75 Com efeito, Carlito é poeta.
(Em: Crônicas da Província do Brasil. 1937.)

idiossincrasia (linha 3): maneira de ser e de agir própria de cada pessoa.
mamulengo (linha 4): fantoche, boneco usado à mão em peças de teatro popular ou infantil.
tabético (linha 9): que tem andar desgovernado, sem muita firmeza.
dandismo (linha 18): relativo ao indivíduo que se veste e se comporta com elegância.
pulhice (linha 54): safadeza, canalhice.
estoicismo (linha 55): resignação com dignidade diante do sofrimento, da adversidade, do infortúnio.
molinete (linha 71): movimento giratório que se faz com a espada ou outro objeto semelhante.

Considerando que o título pode antecipar para o leitor o tema central do texto, assinale a opção que apresenta o título mais adequado.
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

O tema central é o heroísmo de Carlito.

O texto percorre a criação do personagem e as leituras americanas, mas a tese final é que Carlito é 'um verdadeiro professor de heroísmo', fechando com a cena heroica de O Circo e 'Carlito é poeta'. O título que sintetiza a ideia central é 'O heroísmo de Carlito'.

Análise das alternativas

A) Restringe o tema a um filme. C) É genérico e não expressa a tese. D) A recepção é só parte do texto. E) A dualidade não é o foco, pois o autor defende a leitura heroica.

Referência: Ideia central; título.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Interpretação de Texto

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Médio

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) · Vestibular 2014 — Português e Redação

Gabarito disponível

Texto-base:
As questões de 21 a 32 referem-se ao Texto 1, de Manuel Bandeira, publicado em 1937.

TEXTO 1
1 Não há hoje no mundo, em qualquer domínio de atividade artística, um artista cuja arte contenha
maior universalidade que a de Charles Chaplin. A razão vem de que o tipo de Carlito é uma dessas
criações que, salvo idiossincrasias muito raras, interessam e agradam a toda a gente. Como os heróis
das lendas populares ou as personagens das velhas farsas de mamulengo.
5 Carlito é popular no sentido mais alto da palavra. Não saiu completo e definitivo da cabeça de
Chaplin: foi uma criação em que o artista procedeu por uma sucessão de tentativas e erradas.
Chaplin observava sobre o público o efeito de cada detalhe.
Um dos traços mais característicos da pessoa física de Carlito foi achado casual. Chaplin certa
vez lembrou-se de arremedar a marcha desgovernada de um tabético. O público riu: estava fixado o
10 andar habitual de Carlito.
O vestuário da personagem – fraquezinho humorístico, calças lambazonas, botinas
escarrapachadas, cartolinha – também se fixou pelo consenso do público.
Certa vez que Carlito trocou por outras as botinas escarrapachadas e a clássica cartolinha, o
público não achou graça: estava desapontado. Chaplin eliminou imediatamente a variante. Sentiu com o
15 público que ela destruía a unidade física do tipo. Podia ser jocosa também, mas não era mais Carlito.
Note-se que essa indumentária, que vem dos primeiros filmes do artista, não contém nada de
especialmente extravagante. Agrada por não sei quê de elegante que há no seu ridículo de miséria.
Pode-se dizer que Carlito possui o dandismo do grotesco.
Não será exagero afirmar que toda a humanidade viva colaborou nas salas de cinema para a
20 realização da personagem de Carlito, como ela aparece nessas estupendas obras-primas de humour
que são O Garoto, Ombro Arma, Em Busca do Ouro e O Circo.
Isto por si só atestaria em Chaplin um extraordinário dom de discernimento psicológico. Não
obstante, se não houvesse nele profundidade de pensamento, lirismo, ternura, seria levado por esse
processo de criação à vulgaridade dos artistas medíocres que condescendem com o fácil gosto do
25 público.
Aqui é que começa a genialidade de Chaplin. Descendo até o público, não só não se vulgarizou,
mas ao contrário ganhou maior força de emoção e de poesia. A sua originalidade extremou-se. Ele
soube isolar em seus dados pessoais, em sua inteligência e em sua sensibilidade de exceção, os
elementos de irredutível humanidade. Como se diz em linguagem matemática, pôs em evidência o fator
30 comum de todas as expressões humanas. O olhar de Carlito, no filme O Circo, para a brioche do menino
faz rir a criançada como um gesto de gulodice engraçada. Para um adulto pode sugerir da maneira mais
dramática todas as categorias do desejo. A sua arte simplificou-se ao mesmo tempo que se aprofundou
e alargou. Cada espectador pode encontrar nela o que procura: o riso, a crítica, o lirismo ou ainda o
contrário de tudo isso.
35 Essas reflexões me acudiram ao espírito ao ler umas linhas da entrevista fornecida a Florent Fels
pelo pintor Pascin, búlgaro naturalizado americano. Pascin não gosta de Carlito e explicou que uma fita
de Carlito nos Estados Unidos tem uma significação muito diversa da que lhe dão fora de lá. Nos
Estados Unidos Carlito é o sujeito que não sabe fazer as coisas como todo mundo, que não sabe viver
como os outros, não se acomoda em meio algum, – em suma um inadaptável. O espectador americano
40 ri satisfeito de se sentir tão diferente daquele sonhador ridículo. É isto que faz o sucesso de Chaplin nos
Estados Unidos. Carlito com as suas lamentáveis aventuras constitui ali uma lição de moral para
educação da mocidade no sentido de preparar uma geração de homens hábeis, práticos e bem
quaisquer!
Por mais ao par que se esteja do caráter prático do americano, do seu critério de sucesso para
45 julgamento das ações humanas, do seu gosto pela estandardização, não deixa de surpreender aquela
interpretação moralista dos filmes de Chaplin. Bem examinadas as coisas, não havia motivo para
surpresa. A interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem verdadeiramente
americano, o que veda a entrada do seu território a doentes e estropiados, o que propõe o pacto contra
a guerra e ao mesmo tempo assalta a Nicarágua, não poderia sentir de outro modo.
50 Não importa, não será menos legítima a concepção contrária, tanto é verdade que tudo cabe na
humanidade vasta de Carlito. Em vez de um fraco, de um pulha, de um inadaptável, posso eu interpretar
Carlito como um herói. Carlito passa por todas as misérias sem lágrimas nem queixas. Não é força isto?
Não perde a bondade apesar de todas as experiências, e no meio das maiores privações acha um jeito
de amparar a outras criaturas em aperto. Isso é pulhice?
55 Aceita com estoicismo as piores situações, dorme onde é possível ou não dorme, come sola de
sapato cozida como se se tratasse de alguma língua do Rio Grande. É um inadaptável?
Sem dúvida não sabe se adaptar às condições de sucesso na vida. Mas haverá sucesso que
valha a força de ânimo do sujeito sem nada neste mundo, sem dinheiro, sem amores, sem teto, quando
ele pode agitar a bengalinha como Carlito com um gesto de quem vai tirar a felicidade do nada? Quando
60 um ajuntamento se forma nos filmes, os transeuntes vão parando e acercando-se do grupo com um ar
de curiosidade interesseira. Todos têm uma fisionomia preocupada. Carlito é o único que está certo do
prazer ingênuo de olhar.
Neste sentido Carlito é um verdadeiro professor de heroísmo. Quem vive na solidão das grandes
cidades não pode deixar de sentir intensamente o influxo da sua lição, e uma simpatia enorme nos
65 prende ao boêmio nos seus gestos de aceitação tão simples.
Nada mais heróico, mais comovente do que a saída de Carlito no fim de O Circo. Partida a
companhia, em cuja troupe seguia a menina que ele ajudara a casar com outro, Carlito por alguns
momentos se senta no círculo que ficou como último vestígio do picadeiro, refletindo sobre os dias de
barriga cheia e relativa felicidade sentimental que acabava de desfrutar. Agora está de novo sem nada e
70 inteiramente só. Mas os minutos de fraqueza duram pouco. Carlito levanta-se, dá um puxão na
casaquinha para recuperar a linha, faz um molinete com a bengalinha e sai campo afora sem olhar para
trás. Não tem um vintém, não tem uma afeição, não tem onde dormir nem o que comer. No entanto vai
como um conquistador pisando em terra nova. Parece que o Universo é dele. E não tenham dúvida: o
Universo é dele.
75 Com efeito, Carlito é poeta.
(Em: Crônicas da Província do Brasil. 1937.)

idiossincrasia (linha 3): maneira de ser e de agir própria de cada pessoa.
mamulengo (linha 4): fantoche, boneco usado à mão em peças de teatro popular ou infantil.
tabético (linha 9): que tem andar desgovernado, sem muita firmeza.
dandismo (linha 18): relativo ao indivíduo que se veste e se comporta com elegância.
pulhice (linha 54): safadeza, canalhice.
estoicismo (linha 55): resignação com dignidade diante do sofrimento, da adversidade, do infortúnio.
molinete (linha 71): movimento giratório que se faz com a espada ou outro objeto semelhante.

Considere o enunciado “Carlito é popular no sentido mais alto da palavra” (linha 5) e as informações de todo o texto. Na visão de Bandeira, a popularidade pode ser explicada pelo fato de Carlito

I. ser apresentado com indumentária elegante.
II. ser responsável por atrair grande público para os cinemas.
III. retratar o tipo heroico americano, que não quer ser considerado malsucedido.
IV. ter sido ajustado a partir das reações do público.

Está(ão) correta(s):
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

A popularidade vem de atrair o grande público e de ser ajustado pelas reações dele (II e IV).

Bandeira diz que Carlito 'agrada a toda a gente' e que foi construído pelo consenso do público (IV), de modo que 'toda a humanidade viva colaborou' nas salas de cinema. Essa universalidade explica a atração de grande público (II). O item I é descrito como característica secundária, sem ser causa da popularidade. O item III contradiz o texto, pois Carlito não é o herói americano.

Análise das alternativas

A, B e E incluem o item I, que não é apresentado como razão da popularidade. B e D incluem o item III, que é falso, pois os americanos rejeitam o tipo.

Referência: Interpretação de texto; linha 5.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Coesão Textual — Conectivos

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Médio

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) · Vestibular 2014 — Português e Redação

Gabarito disponível

Texto-base:
As questões de 21 a 32 referem-se ao Texto 1, de Manuel Bandeira, publicado em 1937.

TEXTO 1
1 Não há hoje no mundo, em qualquer domínio de atividade artística, um artista cuja arte contenha
maior universalidade que a de Charles Chaplin. A razão vem de que o tipo de Carlito é uma dessas
criações que, salvo idiossincrasias muito raras, interessam e agradam a toda a gente. Como os heróis
das lendas populares ou as personagens das velhas farsas de mamulengo.
5 Carlito é popular no sentido mais alto da palavra. Não saiu completo e definitivo da cabeça de
Chaplin: foi uma criação em que o artista procedeu por uma sucessão de tentativas e erradas.
Chaplin observava sobre o público o efeito de cada detalhe.
Um dos traços mais característicos da pessoa física de Carlito foi achado casual. Chaplin certa
vez lembrou-se de arremedar a marcha desgovernada de um tabético. O público riu: estava fixado o
10 andar habitual de Carlito.
O vestuário da personagem – fraquezinho humorístico, calças lambazonas, botinas
escarrapachadas, cartolinha – também se fixou pelo consenso do público.
Certa vez que Carlito trocou por outras as botinas escarrapachadas e a clássica cartolinha, o
público não achou graça: estava desapontado. Chaplin eliminou imediatamente a variante. Sentiu com o
15 público que ela destruía a unidade física do tipo. Podia ser jocosa também, mas não era mais Carlito.
Note-se que essa indumentária, que vem dos primeiros filmes do artista, não contém nada de
especialmente extravagante. Agrada por não sei quê de elegante que há no seu ridículo de miséria.
Pode-se dizer que Carlito possui o dandismo do grotesco.
Não será exagero afirmar que toda a humanidade viva colaborou nas salas de cinema para a
20 realização da personagem de Carlito, como ela aparece nessas estupendas obras-primas de humour
que são O Garoto, Ombro Arma, Em Busca do Ouro e O Circo.
Isto por si só atestaria em Chaplin um extraordinário dom de discernimento psicológico. Não
obstante, se não houvesse nele profundidade de pensamento, lirismo, ternura, seria levado por esse
processo de criação à vulgaridade dos artistas medíocres que condescendem com o fácil gosto do
25 público.
Aqui é que começa a genialidade de Chaplin. Descendo até o público, não só não se vulgarizou,
mas ao contrário ganhou maior força de emoção e de poesia. A sua originalidade extremou-se. Ele
soube isolar em seus dados pessoais, em sua inteligência e em sua sensibilidade de exceção, os
elementos de irredutível humanidade. Como se diz em linguagem matemática, pôs em evidência o fator
30 comum de todas as expressões humanas. O olhar de Carlito, no filme O Circo, para a brioche do menino
faz rir a criançada como um gesto de gulodice engraçada. Para um adulto pode sugerir da maneira mais
dramática todas as categorias do desejo. A sua arte simplificou-se ao mesmo tempo que se aprofundou
e alargou. Cada espectador pode encontrar nela o que procura: o riso, a crítica, o lirismo ou ainda o
contrário de tudo isso.
35 Essas reflexões me acudiram ao espírito ao ler umas linhas da entrevista fornecida a Florent Fels
pelo pintor Pascin, búlgaro naturalizado americano. Pascin não gosta de Carlito e explicou que uma fita
de Carlito nos Estados Unidos tem uma significação muito diversa da que lhe dão fora de lá. Nos
Estados Unidos Carlito é o sujeito que não sabe fazer as coisas como todo mundo, que não sabe viver
como os outros, não se acomoda em meio algum, – em suma um inadaptável. O espectador americano
40 ri satisfeito de se sentir tão diferente daquele sonhador ridículo. É isto que faz o sucesso de Chaplin nos
Estados Unidos. Carlito com as suas lamentáveis aventuras constitui ali uma lição de moral para
educação da mocidade no sentido de preparar uma geração de homens hábeis, práticos e bem
quaisquer!
Por mais ao par que se esteja do caráter prático do americano, do seu critério de sucesso para
45 julgamento das ações humanas, do seu gosto pela estandardização, não deixa de surpreender aquela
interpretação moralista dos filmes de Chaplin. Bem examinadas as coisas, não havia motivo para
surpresa. A interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem verdadeiramente
americano, o que veda a entrada do seu território a doentes e estropiados, o que propõe o pacto contra
a guerra e ao mesmo tempo assalta a Nicarágua, não poderia sentir de outro modo.
50 Não importa, não será menos legítima a concepção contrária, tanto é verdade que tudo cabe na
humanidade vasta de Carlito. Em vez de um fraco, de um pulha, de um inadaptável, posso eu interpretar
Carlito como um herói. Carlito passa por todas as misérias sem lágrimas nem queixas. Não é força isto?
Não perde a bondade apesar de todas as experiências, e no meio das maiores privações acha um jeito
de amparar a outras criaturas em aperto. Isso é pulhice?
55 Aceita com estoicismo as piores situações, dorme onde é possível ou não dorme, come sola de
sapato cozida como se se tratasse de alguma língua do Rio Grande. É um inadaptável?
Sem dúvida não sabe se adaptar às condições de sucesso na vida. Mas haverá sucesso que
valha a força de ânimo do sujeito sem nada neste mundo, sem dinheiro, sem amores, sem teto, quando
ele pode agitar a bengalinha como Carlito com um gesto de quem vai tirar a felicidade do nada? Quando
60 um ajuntamento se forma nos filmes, os transeuntes vão parando e acercando-se do grupo com um ar
de curiosidade interesseira. Todos têm uma fisionomia preocupada. Carlito é o único que está certo do
prazer ingênuo de olhar.
Neste sentido Carlito é um verdadeiro professor de heroísmo. Quem vive na solidão das grandes
cidades não pode deixar de sentir intensamente o influxo da sua lição, e uma simpatia enorme nos
65 prende ao boêmio nos seus gestos de aceitação tão simples.
Nada mais heróico, mais comovente do que a saída de Carlito no fim de O Circo. Partida a
companhia, em cuja troupe seguia a menina que ele ajudara a casar com outro, Carlito por alguns
momentos se senta no círculo que ficou como último vestígio do picadeiro, refletindo sobre os dias de
barriga cheia e relativa felicidade sentimental que acabava de desfrutar. Agora está de novo sem nada e
70 inteiramente só. Mas os minutos de fraqueza duram pouco. Carlito levanta-se, dá um puxão na
casaquinha para recuperar a linha, faz um molinete com a bengalinha e sai campo afora sem olhar para
trás. Não tem um vintém, não tem uma afeição, não tem onde dormir nem o que comer. No entanto vai
como um conquistador pisando em terra nova. Parece que o Universo é dele. E não tenham dúvida: o
Universo é dele.
75 Com efeito, Carlito é poeta.
(Em: Crônicas da Província do Brasil. 1937.)

idiossincrasia (linha 3): maneira de ser e de agir própria de cada pessoa.
mamulengo (linha 4): fantoche, boneco usado à mão em peças de teatro popular ou infantil.
tabético (linha 9): que tem andar desgovernado, sem muita firmeza.
dandismo (linha 18): relativo ao indivíduo que se veste e se comporta com elegância.
pulhice (linha 54): safadeza, canalhice.
estoicismo (linha 55): resignação com dignidade diante do sofrimento, da adversidade, do infortúnio.
molinete (linha 71): movimento giratório que se faz com a espada ou outro objeto semelhante.

Assinale a opção cujo elemento coesivo em negrito substitui os dois pontos sem alterar o sentido do enunciado.
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Só 'já que' equivale ao sentido explicativo dos dois pontos na alternativa A.

Em A, a segunda oração explica a primeira (foi uma criação por tentativas), e 'já que' mantém a relação causal/explicativa. Nas demais, a substituição altera o sentido ou é inadequada.

Análise das alternativas

B) 'visto que' também seria causal, mas a oração seguinte está no pretérito e a ordem causa-consequência do original (riu → estava fixado) fica invertida. C) 'de forma que' expressa consequência, e a relação é causal. D) 'posto que' é concessiva e não cabe diante de uma enumeração. E) 'tanto que' introduz prova ou consequência e não equivale aos dois pontos.

Referência: Coesão; conectivos e valor dos dois-pontos.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Interpretação de Texto

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Médio

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) · Vestibular 2014 — Português e Redação

Gabarito disponível

Texto-base:
As questões de 21 a 32 referem-se ao Texto 1, de Manuel Bandeira, publicado em 1937.

TEXTO 1
1 Não há hoje no mundo, em qualquer domínio de atividade artística, um artista cuja arte contenha
maior universalidade que a de Charles Chaplin. A razão vem de que o tipo de Carlito é uma dessas
criações que, salvo idiossincrasias muito raras, interessam e agradam a toda a gente. Como os heróis
das lendas populares ou as personagens das velhas farsas de mamulengo.
5 Carlito é popular no sentido mais alto da palavra. Não saiu completo e definitivo da cabeça de
Chaplin: foi uma criação em que o artista procedeu por uma sucessão de tentativas e erradas.
Chaplin observava sobre o público o efeito de cada detalhe.
Um dos traços mais característicos da pessoa física de Carlito foi achado casual. Chaplin certa
vez lembrou-se de arremedar a marcha desgovernada de um tabético. O público riu: estava fixado o
10 andar habitual de Carlito.
O vestuário da personagem – fraquezinho humorístico, calças lambazonas, botinas
escarrapachadas, cartolinha – também se fixou pelo consenso do público.
Certa vez que Carlito trocou por outras as botinas escarrapachadas e a clássica cartolinha, o
público não achou graça: estava desapontado. Chaplin eliminou imediatamente a variante. Sentiu com o
15 público que ela destruía a unidade física do tipo. Podia ser jocosa também, mas não era mais Carlito.
Note-se que essa indumentária, que vem dos primeiros filmes do artista, não contém nada de
especialmente extravagante. Agrada por não sei quê de elegante que há no seu ridículo de miséria.
Pode-se dizer que Carlito possui o dandismo do grotesco.
Não será exagero afirmar que toda a humanidade viva colaborou nas salas de cinema para a
20 realização da personagem de Carlito, como ela aparece nessas estupendas obras-primas de humour
que são O Garoto, Ombro Arma, Em Busca do Ouro e O Circo.
Isto por si só atestaria em Chaplin um extraordinário dom de discernimento psicológico. Não
obstante, se não houvesse nele profundidade de pensamento, lirismo, ternura, seria levado por esse
processo de criação à vulgaridade dos artistas medíocres que condescendem com o fácil gosto do
25 público.
Aqui é que começa a genialidade de Chaplin. Descendo até o público, não só não se vulgarizou,
mas ao contrário ganhou maior força de emoção e de poesia. A sua originalidade extremou-se. Ele
soube isolar em seus dados pessoais, em sua inteligência e em sua sensibilidade de exceção, os
elementos de irredutível humanidade. Como se diz em linguagem matemática, pôs em evidência o fator
30 comum de todas as expressões humanas. O olhar de Carlito, no filme O Circo, para a brioche do menino
faz rir a criançada como um gesto de gulodice engraçada. Para um adulto pode sugerir da maneira mais
dramática todas as categorias do desejo. A sua arte simplificou-se ao mesmo tempo que se aprofundou
e alargou. Cada espectador pode encontrar nela o que procura: o riso, a crítica, o lirismo ou ainda o
contrário de tudo isso.
35 Essas reflexões me acudiram ao espírito ao ler umas linhas da entrevista fornecida a Florent Fels
pelo pintor Pascin, búlgaro naturalizado americano. Pascin não gosta de Carlito e explicou que uma fita
de Carlito nos Estados Unidos tem uma significação muito diversa da que lhe dão fora de lá. Nos
Estados Unidos Carlito é o sujeito que não sabe fazer as coisas como todo mundo, que não sabe viver
como os outros, não se acomoda em meio algum, – em suma um inadaptável. O espectador americano
40 ri satisfeito de se sentir tão diferente daquele sonhador ridículo. É isto que faz o sucesso de Chaplin nos
Estados Unidos. Carlito com as suas lamentáveis aventuras constitui ali uma lição de moral para
educação da mocidade no sentido de preparar uma geração de homens hábeis, práticos e bem
quaisquer!
Por mais ao par que se esteja do caráter prático do americano, do seu critério de sucesso para
45 julgamento das ações humanas, do seu gosto pela estandardização, não deixa de surpreender aquela
interpretação moralista dos filmes de Chaplin. Bem examinadas as coisas, não havia motivo para
surpresa. A interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem verdadeiramente
americano, o que veda a entrada do seu território a doentes e estropiados, o que propõe o pacto contra
a guerra e ao mesmo tempo assalta a Nicarágua, não poderia sentir de outro modo.
50 Não importa, não será menos legítima a concepção contrária, tanto é verdade que tudo cabe na
humanidade vasta de Carlito. Em vez de um fraco, de um pulha, de um inadaptável, posso eu interpretar
Carlito como um herói. Carlito passa por todas as misérias sem lágrimas nem queixas. Não é força isto?
Não perde a bondade apesar de todas as experiências, e no meio das maiores privações acha um jeito
de amparar a outras criaturas em aperto. Isso é pulhice?
55 Aceita com estoicismo as piores situações, dorme onde é possível ou não dorme, come sola de
sapato cozida como se se tratasse de alguma língua do Rio Grande. É um inadaptável?
Sem dúvida não sabe se adaptar às condições de sucesso na vida. Mas haverá sucesso que
valha a força de ânimo do sujeito sem nada neste mundo, sem dinheiro, sem amores, sem teto, quando
ele pode agitar a bengalinha como Carlito com um gesto de quem vai tirar a felicidade do nada? Quando
60 um ajuntamento se forma nos filmes, os transeuntes vão parando e acercando-se do grupo com um ar
de curiosidade interesseira. Todos têm uma fisionomia preocupada. Carlito é o único que está certo do
prazer ingênuo de olhar.
Neste sentido Carlito é um verdadeiro professor de heroísmo. Quem vive na solidão das grandes
cidades não pode deixar de sentir intensamente o influxo da sua lição, e uma simpatia enorme nos
65 prende ao boêmio nos seus gestos de aceitação tão simples.
Nada mais heróico, mais comovente do que a saída de Carlito no fim de O Circo. Partida a
companhia, em cuja troupe seguia a menina que ele ajudara a casar com outro, Carlito por alguns
momentos se senta no círculo que ficou como último vestígio do picadeiro, refletindo sobre os dias de
barriga cheia e relativa felicidade sentimental que acabava de desfrutar. Agora está de novo sem nada e
70 inteiramente só. Mas os minutos de fraqueza duram pouco. Carlito levanta-se, dá um puxão na
casaquinha para recuperar a linha, faz um molinete com a bengalinha e sai campo afora sem olhar para
trás. Não tem um vintém, não tem uma afeição, não tem onde dormir nem o que comer. No entanto vai
como um conquistador pisando em terra nova. Parece que o Universo é dele. E não tenham dúvida: o
Universo é dele.
75 Com efeito, Carlito é poeta.
(Em: Crônicas da Província do Brasil. 1937.)

idiossincrasia (linha 3): maneira de ser e de agir própria de cada pessoa.
mamulengo (linha 4): fantoche, boneco usado à mão em peças de teatro popular ou infantil.
tabético (linha 9): que tem andar desgovernado, sem muita firmeza.
dandismo (linha 18): relativo ao indivíduo que se veste e se comporta com elegância.
pulhice (linha 54): safadeza, canalhice.
estoicismo (linha 55): resignação com dignidade diante do sofrimento, da adversidade, do infortúnio.
molinete (linha 71): movimento giratório que se faz com a espada ou outro objeto semelhante.

De acordo com Bandeira,
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Bandeira vê em Carlito o lado heroico do humano, não explicitado nos filmes.

Bandeira propõe interpretar Carlito 'como um herói' e o chama de 'professor de heroísmo', leitura que ele defende contra a visão moralista americana. Essa dimensão heroica é uma interpretação sua, pois os filmes a apresentam pelo humor e os americanos a ignoram.

Análise das alternativas

A) Bandeira não diz que ele é triste. B) A simplicidade universal não é a razão da identificação, pois os americanos não se identificam. C) Os americanos riem dele por se sentirem diferentes, não por ele ser sonhador como eles. E) Não se fala em deboche, e o sucesso se deve à universalidade.

Referência: Interpretação de texto.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Interpretação de Texto

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Médio

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) · Vestibular 2014 — Português e Redação

Gabarito disponível

Texto-base:
As questões de 21 a 32 referem-se ao Texto 1, de Manuel Bandeira, publicado em 1937.

TEXTO 1
1 Não há hoje no mundo, em qualquer domínio de atividade artística, um artista cuja arte contenha
maior universalidade que a de Charles Chaplin. A razão vem de que o tipo de Carlito é uma dessas
criações que, salvo idiossincrasias muito raras, interessam e agradam a toda a gente. Como os heróis
das lendas populares ou as personagens das velhas farsas de mamulengo.
5 Carlito é popular no sentido mais alto da palavra. Não saiu completo e definitivo da cabeça de
Chaplin: foi uma criação em que o artista procedeu por uma sucessão de tentativas e erradas.
Chaplin observava sobre o público o efeito de cada detalhe.
Um dos traços mais característicos da pessoa física de Carlito foi achado casual. Chaplin certa
vez lembrou-se de arremedar a marcha desgovernada de um tabético. O público riu: estava fixado o
10 andar habitual de Carlito.
O vestuário da personagem – fraquezinho humorístico, calças lambazonas, botinas
escarrapachadas, cartolinha – também se fixou pelo consenso do público.
Certa vez que Carlito trocou por outras as botinas escarrapachadas e a clássica cartolinha, o
público não achou graça: estava desapontado. Chaplin eliminou imediatamente a variante. Sentiu com o
15 público que ela destruía a unidade física do tipo. Podia ser jocosa também, mas não era mais Carlito.
Note-se que essa indumentária, que vem dos primeiros filmes do artista, não contém nada de
especialmente extravagante. Agrada por não sei quê de elegante que há no seu ridículo de miséria.
Pode-se dizer que Carlito possui o dandismo do grotesco.
Não será exagero afirmar que toda a humanidade viva colaborou nas salas de cinema para a
20 realização da personagem de Carlito, como ela aparece nessas estupendas obras-primas de humour
que são O Garoto, Ombro Arma, Em Busca do Ouro e O Circo.
Isto por si só atestaria em Chaplin um extraordinário dom de discernimento psicológico. Não
obstante, se não houvesse nele profundidade de pensamento, lirismo, ternura, seria levado por esse
processo de criação à vulgaridade dos artistas medíocres que condescendem com o fácil gosto do
25 público.
Aqui é que começa a genialidade de Chaplin. Descendo até o público, não só não se vulgarizou,
mas ao contrário ganhou maior força de emoção e de poesia. A sua originalidade extremou-se. Ele
soube isolar em seus dados pessoais, em sua inteligência e em sua sensibilidade de exceção, os
elementos de irredutível humanidade. Como se diz em linguagem matemática, pôs em evidência o fator
30 comum de todas as expressões humanas. O olhar de Carlito, no filme O Circo, para a brioche do menino
faz rir a criançada como um gesto de gulodice engraçada. Para um adulto pode sugerir da maneira mais
dramática todas as categorias do desejo. A sua arte simplificou-se ao mesmo tempo que se aprofundou
e alargou. Cada espectador pode encontrar nela o que procura: o riso, a crítica, o lirismo ou ainda o
contrário de tudo isso.
35 Essas reflexões me acudiram ao espírito ao ler umas linhas da entrevista fornecida a Florent Fels
pelo pintor Pascin, búlgaro naturalizado americano. Pascin não gosta de Carlito e explicou que uma fita
de Carlito nos Estados Unidos tem uma significação muito diversa da que lhe dão fora de lá. Nos
Estados Unidos Carlito é o sujeito que não sabe fazer as coisas como todo mundo, que não sabe viver
como os outros, não se acomoda em meio algum, – em suma um inadaptável. O espectador americano
40 ri satisfeito de se sentir tão diferente daquele sonhador ridículo. É isto que faz o sucesso de Chaplin nos
Estados Unidos. Carlito com as suas lamentáveis aventuras constitui ali uma lição de moral para
educação da mocidade no sentido de preparar uma geração de homens hábeis, práticos e bem
quaisquer!
Por mais ao par que se esteja do caráter prático do americano, do seu critério de sucesso para
45 julgamento das ações humanas, do seu gosto pela estandardização, não deixa de surpreender aquela
interpretação moralista dos filmes de Chaplin. Bem examinadas as coisas, não havia motivo para
surpresa. A interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem verdadeiramente
americano, o que veda a entrada do seu território a doentes e estropiados, o que propõe o pacto contra
a guerra e ao mesmo tempo assalta a Nicarágua, não poderia sentir de outro modo.
50 Não importa, não será menos legítima a concepção contrária, tanto é verdade que tudo cabe na
humanidade vasta de Carlito. Em vez de um fraco, de um pulha, de um inadaptável, posso eu interpretar
Carlito como um herói. Carlito passa por todas as misérias sem lágrimas nem queixas. Não é força isto?
Não perde a bondade apesar de todas as experiências, e no meio das maiores privações acha um jeito
de amparar a outras criaturas em aperto. Isso é pulhice?
55 Aceita com estoicismo as piores situações, dorme onde é possível ou não dorme, come sola de
sapato cozida como se se tratasse de alguma língua do Rio Grande. É um inadaptável?
Sem dúvida não sabe se adaptar às condições de sucesso na vida. Mas haverá sucesso que
valha a força de ânimo do sujeito sem nada neste mundo, sem dinheiro, sem amores, sem teto, quando
ele pode agitar a bengalinha como Carlito com um gesto de quem vai tirar a felicidade do nada? Quando
60 um ajuntamento se forma nos filmes, os transeuntes vão parando e acercando-se do grupo com um ar
de curiosidade interesseira. Todos têm uma fisionomia preocupada. Carlito é o único que está certo do
prazer ingênuo de olhar.
Neste sentido Carlito é um verdadeiro professor de heroísmo. Quem vive na solidão das grandes
cidades não pode deixar de sentir intensamente o influxo da sua lição, e uma simpatia enorme nos
65 prende ao boêmio nos seus gestos de aceitação tão simples.
Nada mais heróico, mais comovente do que a saída de Carlito no fim de O Circo. Partida a
companhia, em cuja troupe seguia a menina que ele ajudara a casar com outro, Carlito por alguns
momentos se senta no círculo que ficou como último vestígio do picadeiro, refletindo sobre os dias de
barriga cheia e relativa felicidade sentimental que acabava de desfrutar. Agora está de novo sem nada e
70 inteiramente só. Mas os minutos de fraqueza duram pouco. Carlito levanta-se, dá um puxão na
casaquinha para recuperar a linha, faz um molinete com a bengalinha e sai campo afora sem olhar para
trás. Não tem um vintém, não tem uma afeição, não tem onde dormir nem o que comer. No entanto vai
como um conquistador pisando em terra nova. Parece que o Universo é dele. E não tenham dúvida: o
Universo é dele.
75 Com efeito, Carlito é poeta.
(Em: Crônicas da Província do Brasil. 1937.)

idiossincrasia (linha 3): maneira de ser e de agir própria de cada pessoa.
mamulengo (linha 4): fantoche, boneco usado à mão em peças de teatro popular ou infantil.
tabético (linha 9): que tem andar desgovernado, sem muita firmeza.
dandismo (linha 18): relativo ao indivíduo que se veste e se comporta com elegância.
pulhice (linha 54): safadeza, canalhice.
estoicismo (linha 55): resignação com dignidade diante do sofrimento, da adversidade, do infortúnio.
molinete (linha 71): movimento giratório que se faz com a espada ou outro objeto semelhante.

Sobre Charles Chaplin, o texto nos permite dizer que
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

A arte de Chaplin desperta várias emoções e ultrapassa fronteiras.

O texto fala de 'universalidade', do riso, da crítica e do lirismo que cada espectador encontra, e da leitura distinta nos EUA e fora deles. Isso mostra uma arte de emoções diversas e alcance além das fronteiras geográficas.

Análise das alternativas

B) A reação do público ajustou detalhes, mas o personagem não se originou dela. C) Carlito não é descrito como astuto, e sim como inadaptável e sonhador. D) O texto não o apresenta como sátira da miséria; ele a enfrenta com dignidade. E) A arte não desfaz sentimentos antagônicos; permite 'o contrário de tudo isso'.

Referência: Interpretação de texto.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Coesão Textual — Referenciação

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Médio

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) · Vestibular 2014 — Português e Redação

Questão anulada

Texto-base:
As questões de 21 a 32 referem-se ao Texto 1, de Manuel Bandeira, publicado em 1937.

TEXTO 1
1 Não há hoje no mundo, em qualquer domínio de atividade artística, um artista cuja arte contenha
maior universalidade que a de Charles Chaplin. A razão vem de que o tipo de Carlito é uma dessas
criações que, salvo idiossincrasias muito raras, interessam e agradam a toda a gente. Como os heróis
das lendas populares ou as personagens das velhas farsas de mamulengo.
5 Carlito é popular no sentido mais alto da palavra. Não saiu completo e definitivo da cabeça de
Chaplin: foi uma criação em que o artista procedeu por uma sucessão de tentativas e erradas.
Chaplin observava sobre o público o efeito de cada detalhe.
Um dos traços mais característicos da pessoa física de Carlito foi achado casual. Chaplin certa
vez lembrou-se de arremedar a marcha desgovernada de um tabético. O público riu: estava fixado o
10 andar habitual de Carlito.
O vestuário da personagem – fraquezinho humorístico, calças lambazonas, botinas
escarrapachadas, cartolinha – também se fixou pelo consenso do público.
Certa vez que Carlito trocou por outras as botinas escarrapachadas e a clássica cartolinha, o
público não achou graça: estava desapontado. Chaplin eliminou imediatamente a variante. Sentiu com o
15 público que ela destruía a unidade física do tipo. Podia ser jocosa também, mas não era mais Carlito.
Note-se que essa indumentária, que vem dos primeiros filmes do artista, não contém nada de
especialmente extravagante. Agrada por não sei quê de elegante que há no seu ridículo de miséria.
Pode-se dizer que Carlito possui o dandismo do grotesco.
Não será exagero afirmar que toda a humanidade viva colaborou nas salas de cinema para a
20 realização da personagem de Carlito, como ela aparece nessas estupendas obras-primas de humour
que são O Garoto, Ombro Arma, Em Busca do Ouro e O Circo.
Isto por si só atestaria em Chaplin um extraordinário dom de discernimento psicológico. Não
obstante, se não houvesse nele profundidade de pensamento, lirismo, ternura, seria levado por esse
processo de criação à vulgaridade dos artistas medíocres que condescendem com o fácil gosto do
25 público.
Aqui é que começa a genialidade de Chaplin. Descendo até o público, não só não se vulgarizou,
mas ao contrário ganhou maior força de emoção e de poesia. A sua originalidade extremou-se. Ele
soube isolar em seus dados pessoais, em sua inteligência e em sua sensibilidade de exceção, os
elementos de irredutível humanidade. Como se diz em linguagem matemática, pôs em evidência o fator
30 comum de todas as expressões humanas. O olhar de Carlito, no filme O Circo, para a brioche do menino
faz rir a criançada como um gesto de gulodice engraçada. Para um adulto pode sugerir da maneira mais
dramática todas as categorias do desejo. A sua arte simplificou-se ao mesmo tempo que se aprofundou
e alargou. Cada espectador pode encontrar nela o que procura: o riso, a crítica, o lirismo ou ainda o
contrário de tudo isso.
35 Essas reflexões me acudiram ao espírito ao ler umas linhas da entrevista fornecida a Florent Fels
pelo pintor Pascin, búlgaro naturalizado americano. Pascin não gosta de Carlito e explicou que uma fita
de Carlito nos Estados Unidos tem uma significação muito diversa da que lhe dão fora de lá. Nos
Estados Unidos Carlito é o sujeito que não sabe fazer as coisas como todo mundo, que não sabe viver
como os outros, não se acomoda em meio algum, – em suma um inadaptável. O espectador americano
40 ri satisfeito de se sentir tão diferente daquele sonhador ridículo. É isto que faz o sucesso de Chaplin nos
Estados Unidos. Carlito com as suas lamentáveis aventuras constitui ali uma lição de moral para
educação da mocidade no sentido de preparar uma geração de homens hábeis, práticos e bem
quaisquer!
Por mais ao par que se esteja do caráter prático do americano, do seu critério de sucesso para
45 julgamento das ações humanas, do seu gosto pela estandardização, não deixa de surpreender aquela
interpretação moralista dos filmes de Chaplin. Bem examinadas as coisas, não havia motivo para
surpresa. A interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem verdadeiramente
americano, o que veda a entrada do seu território a doentes e estropiados, o que propõe o pacto contra
a guerra e ao mesmo tempo assalta a Nicarágua, não poderia sentir de outro modo.
50 Não importa, não será menos legítima a concepção contrária, tanto é verdade que tudo cabe na
humanidade vasta de Carlito. Em vez de um fraco, de um pulha, de um inadaptável, posso eu interpretar
Carlito como um herói. Carlito passa por todas as misérias sem lágrimas nem queixas. Não é força isto?
Não perde a bondade apesar de todas as experiências, e no meio das maiores privações acha um jeito
de amparar a outras criaturas em aperto. Isso é pulhice?
55 Aceita com estoicismo as piores situações, dorme onde é possível ou não dorme, come sola de
sapato cozida como se se tratasse de alguma língua do Rio Grande. É um inadaptável?
Sem dúvida não sabe se adaptar às condições de sucesso na vida. Mas haverá sucesso que
valha a força de ânimo do sujeito sem nada neste mundo, sem dinheiro, sem amores, sem teto, quando
ele pode agitar a bengalinha como Carlito com um gesto de quem vai tirar a felicidade do nada? Quando
60 um ajuntamento se forma nos filmes, os transeuntes vão parando e acercando-se do grupo com um ar
de curiosidade interesseira. Todos têm uma fisionomia preocupada. Carlito é o único que está certo do
prazer ingênuo de olhar.
Neste sentido Carlito é um verdadeiro professor de heroísmo. Quem vive na solidão das grandes
cidades não pode deixar de sentir intensamente o influxo da sua lição, e uma simpatia enorme nos
65 prende ao boêmio nos seus gestos de aceitação tão simples.
Nada mais heróico, mais comovente do que a saída de Carlito no fim de O Circo. Partida a
companhia, em cuja troupe seguia a menina que ele ajudara a casar com outro, Carlito por alguns
momentos se senta no círculo que ficou como último vestígio do picadeiro, refletindo sobre os dias de
barriga cheia e relativa felicidade sentimental que acabava de desfrutar. Agora está de novo sem nada e
70 inteiramente só. Mas os minutos de fraqueza duram pouco. Carlito levanta-se, dá um puxão na
casaquinha para recuperar a linha, faz um molinete com a bengalinha e sai campo afora sem olhar para
trás. Não tem um vintém, não tem uma afeição, não tem onde dormir nem o que comer. No entanto vai
como um conquistador pisando em terra nova. Parece que o Universo é dele. E não tenham dúvida: o
Universo é dele.
75 Com efeito, Carlito é poeta.
(Em: Crônicas da Província do Brasil. 1937.)

idiossincrasia (linha 3): maneira de ser e de agir própria de cada pessoa.
mamulengo (linha 4): fantoche, boneco usado à mão em peças de teatro popular ou infantil.
tabético (linha 9): que tem andar desgovernado, sem muita firmeza.
dandismo (linha 18): relativo ao indivíduo que se veste e se comporta com elegância.
pulhice (linha 54): safadeza, canalhice.
estoicismo (linha 55): resignação com dignidade diante do sofrimento, da adversidade, do infortúnio.
molinete (linha 71): movimento giratório que se faz com a espada ou outro objeto semelhante.

Assinale a opção que retoma a palavra variante no trecho “Chaplin eliminou imediatamente a variante” (linha 14).
Selecione uma alternativa

Língua Portuguesa Classes de Palavras — Valor Adjetivo

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Médio

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) · Vestibular 2014 — Português e Redação

Gabarito disponível

Texto-base:
As questões de 21 a 32 referem-se ao Texto 1, de Manuel Bandeira, publicado em 1937.

TEXTO 1
1 Não há hoje no mundo, em qualquer domínio de atividade artística, um artista cuja arte contenha
maior universalidade que a de Charles Chaplin. A razão vem de que o tipo de Carlito é uma dessas
criações que, salvo idiossincrasias muito raras, interessam e agradam a toda a gente. Como os heróis
das lendas populares ou as personagens das velhas farsas de mamulengo.
5 Carlito é popular no sentido mais alto da palavra. Não saiu completo e definitivo da cabeça de
Chaplin: foi uma criação em que o artista procedeu por uma sucessão de tentativas e erradas.
Chaplin observava sobre o público o efeito de cada detalhe.
Um dos traços mais característicos da pessoa física de Carlito foi achado casual. Chaplin certa
vez lembrou-se de arremedar a marcha desgovernada de um tabético. O público riu: estava fixado o
10 andar habitual de Carlito.
O vestuário da personagem – fraquezinho humorístico, calças lambazonas, botinas
escarrapachadas, cartolinha – também se fixou pelo consenso do público.
Certa vez que Carlito trocou por outras as botinas escarrapachadas e a clássica cartolinha, o
público não achou graça: estava desapontado. Chaplin eliminou imediatamente a variante. Sentiu com o
15 público que ela destruía a unidade física do tipo. Podia ser jocosa também, mas não era mais Carlito.
Note-se que essa indumentária, que vem dos primeiros filmes do artista, não contém nada de
especialmente extravagante. Agrada por não sei quê de elegante que há no seu ridículo de miséria.
Pode-se dizer que Carlito possui o dandismo do grotesco.
Não será exagero afirmar que toda a humanidade viva colaborou nas salas de cinema para a
20 realização da personagem de Carlito, como ela aparece nessas estupendas obras-primas de humour
que são O Garoto, Ombro Arma, Em Busca do Ouro e O Circo.
Isto por si só atestaria em Chaplin um extraordinário dom de discernimento psicológico. Não
obstante, se não houvesse nele profundidade de pensamento, lirismo, ternura, seria levado por esse
processo de criação à vulgaridade dos artistas medíocres que condescendem com o fácil gosto do
25 público.
Aqui é que começa a genialidade de Chaplin. Descendo até o público, não só não se vulgarizou,
mas ao contrário ganhou maior força de emoção e de poesia. A sua originalidade extremou-se. Ele
soube isolar em seus dados pessoais, em sua inteligência e em sua sensibilidade de exceção, os
elementos de irredutível humanidade. Como se diz em linguagem matemática, pôs em evidência o fator
30 comum de todas as expressões humanas. O olhar de Carlito, no filme O Circo, para a brioche do menino
faz rir a criançada como um gesto de gulodice engraçada. Para um adulto pode sugerir da maneira mais
dramática todas as categorias do desejo. A sua arte simplificou-se ao mesmo tempo que se aprofundou
e alargou. Cada espectador pode encontrar nela o que procura: o riso, a crítica, o lirismo ou ainda o
contrário de tudo isso.
35 Essas reflexões me acudiram ao espírito ao ler umas linhas da entrevista fornecida a Florent Fels
pelo pintor Pascin, búlgaro naturalizado americano. Pascin não gosta de Carlito e explicou que uma fita
de Carlito nos Estados Unidos tem uma significação muito diversa da que lhe dão fora de lá. Nos
Estados Unidos Carlito é o sujeito que não sabe fazer as coisas como todo mundo, que não sabe viver
como os outros, não se acomoda em meio algum, – em suma um inadaptável. O espectador americano
40 ri satisfeito de se sentir tão diferente daquele sonhador ridículo. É isto que faz o sucesso de Chaplin nos
Estados Unidos. Carlito com as suas lamentáveis aventuras constitui ali uma lição de moral para
educação da mocidade no sentido de preparar uma geração de homens hábeis, práticos e bem
quaisquer!
Por mais ao par que se esteja do caráter prático do americano, do seu critério de sucesso para
45 julgamento das ações humanas, do seu gosto pela estandardização, não deixa de surpreender aquela
interpretação moralista dos filmes de Chaplin. Bem examinadas as coisas, não havia motivo para
surpresa. A interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem verdadeiramente
americano, o que veda a entrada do seu território a doentes e estropiados, o que propõe o pacto contra
a guerra e ao mesmo tempo assalta a Nicarágua, não poderia sentir de outro modo.
50 Não importa, não será menos legítima a concepção contrária, tanto é verdade que tudo cabe na
humanidade vasta de Carlito. Em vez de um fraco, de um pulha, de um inadaptável, posso eu interpretar
Carlito como um herói. Carlito passa por todas as misérias sem lágrimas nem queixas. Não é força isto?
Não perde a bondade apesar de todas as experiências, e no meio das maiores privações acha um jeito
de amparar a outras criaturas em aperto. Isso é pulhice?
55 Aceita com estoicismo as piores situações, dorme onde é possível ou não dorme, come sola de
sapato cozida como se se tratasse de alguma língua do Rio Grande. É um inadaptável?
Sem dúvida não sabe se adaptar às condições de sucesso na vida. Mas haverá sucesso que
valha a força de ânimo do sujeito sem nada neste mundo, sem dinheiro, sem amores, sem teto, quando
ele pode agitar a bengalinha como Carlito com um gesto de quem vai tirar a felicidade do nada? Quando
60 um ajuntamento se forma nos filmes, os transeuntes vão parando e acercando-se do grupo com um ar
de curiosidade interesseira. Todos têm uma fisionomia preocupada. Carlito é o único que está certo do
prazer ingênuo de olhar.
Neste sentido Carlito é um verdadeiro professor de heroísmo. Quem vive na solidão das grandes
cidades não pode deixar de sentir intensamente o influxo da sua lição, e uma simpatia enorme nos
65 prende ao boêmio nos seus gestos de aceitação tão simples.
Nada mais heróico, mais comovente do que a saída de Carlito no fim de O Circo. Partida a
companhia, em cuja troupe seguia a menina que ele ajudara a casar com outro, Carlito por alguns
momentos se senta no círculo que ficou como último vestígio do picadeiro, refletindo sobre os dias de
barriga cheia e relativa felicidade sentimental que acabava de desfrutar. Agora está de novo sem nada e
70 inteiramente só. Mas os minutos de fraqueza duram pouco. Carlito levanta-se, dá um puxão na
casaquinha para recuperar a linha, faz um molinete com a bengalinha e sai campo afora sem olhar para
trás. Não tem um vintém, não tem uma afeição, não tem onde dormir nem o que comer. No entanto vai
como um conquistador pisando em terra nova. Parece que o Universo é dele. E não tenham dúvida: o
Universo é dele.
75 Com efeito, Carlito é poeta.
(Em: Crônicas da Província do Brasil. 1937.)

idiossincrasia (linha 3): maneira de ser e de agir própria de cada pessoa.
mamulengo (linha 4): fantoche, boneco usado à mão em peças de teatro popular ou infantil.
tabético (linha 9): que tem andar desgovernado, sem muita firmeza.
dandismo (linha 18): relativo ao indivíduo que se veste e se comporta com elegância.
pulhice (linha 54): safadeza, canalhice.
estoicismo (linha 55): resignação com dignidade diante do sofrimento, da adversidade, do infortúnio.
molinete (linha 71): movimento giratório que se faz com a espada ou outro objeto semelhante.

Considere os enunciados abaixo, atentando para as palavras em negrito.

I. Não há hoje no mundo, em qualquer domínio de atividade artística, um artista cuja arte contenha maior universalidade que a de Charles Chaplin. (linhas 1 e 2)
II. Agrada por não sei quê de elegante que há no seu ridículo de miséria. (linha 17)
III. [...] uma fita de Carlito nos Estados Unidos tem uma significação muito diversa da que lhe dão fora de lá. (linhas 36 e 37)
IV. A interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem verdadeiramente americano, o que veda a entrada do seu território a doentes e estropiados, [...] (linhas 47 e 48)

Recorte do original com os enunciados I a IV da questão; as palavras em negrito são: qualquer (I), ridículo (II), diversa (III) e americano (IV), esta última a segunda ocorrência da palavra no enunciado IV.

As palavras em negrito têm valor de adjetivo
Selecione uma alternativa

Língua Portuguesa Interpretação de Texto

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Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) · Vestibular 2014 — Português e Redação

Gabarito disponível

Texto-base:
As questões de 21 a 32 referem-se ao Texto 1, de Manuel Bandeira, publicado em 1937.

TEXTO 1
1 Não há hoje no mundo, em qualquer domínio de atividade artística, um artista cuja arte contenha
maior universalidade que a de Charles Chaplin. A razão vem de que o tipo de Carlito é uma dessas
criações que, salvo idiossincrasias muito raras, interessam e agradam a toda a gente. Como os heróis
das lendas populares ou as personagens das velhas farsas de mamulengo.
5 Carlito é popular no sentido mais alto da palavra. Não saiu completo e definitivo da cabeça de
Chaplin: foi uma criação em que o artista procedeu por uma sucessão de tentativas e erradas.
Chaplin observava sobre o público o efeito de cada detalhe.
Um dos traços mais característicos da pessoa física de Carlito foi achado casual. Chaplin certa
vez lembrou-se de arremedar a marcha desgovernada de um tabético. O público riu: estava fixado o
10 andar habitual de Carlito.
O vestuário da personagem – fraquezinho humorístico, calças lambazonas, botinas
escarrapachadas, cartolinha – também se fixou pelo consenso do público.
Certa vez que Carlito trocou por outras as botinas escarrapachadas e a clássica cartolinha, o
público não achou graça: estava desapontado. Chaplin eliminou imediatamente a variante. Sentiu com o
15 público que ela destruía a unidade física do tipo. Podia ser jocosa também, mas não era mais Carlito.
Note-se que essa indumentária, que vem dos primeiros filmes do artista, não contém nada de
especialmente extravagante. Agrada por não sei quê de elegante que há no seu ridículo de miséria.
Pode-se dizer que Carlito possui o dandismo do grotesco.
Não será exagero afirmar que toda a humanidade viva colaborou nas salas de cinema para a
20 realização da personagem de Carlito, como ela aparece nessas estupendas obras-primas de humour
que são O Garoto, Ombro Arma, Em Busca do Ouro e O Circo.
Isto por si só atestaria em Chaplin um extraordinário dom de discernimento psicológico. Não
obstante, se não houvesse nele profundidade de pensamento, lirismo, ternura, seria levado por esse
processo de criação à vulgaridade dos artistas medíocres que condescendem com o fácil gosto do
25 público.
Aqui é que começa a genialidade de Chaplin. Descendo até o público, não só não se vulgarizou,
mas ao contrário ganhou maior força de emoção e de poesia. A sua originalidade extremou-se. Ele
soube isolar em seus dados pessoais, em sua inteligência e em sua sensibilidade de exceção, os
elementos de irredutível humanidade. Como se diz em linguagem matemática, pôs em evidência o fator
30 comum de todas as expressões humanas. O olhar de Carlito, no filme O Circo, para a brioche do menino
faz rir a criançada como um gesto de gulodice engraçada. Para um adulto pode sugerir da maneira mais
dramática todas as categorias do desejo. A sua arte simplificou-se ao mesmo tempo que se aprofundou
e alargou. Cada espectador pode encontrar nela o que procura: o riso, a crítica, o lirismo ou ainda o
contrário de tudo isso.
35 Essas reflexões me acudiram ao espírito ao ler umas linhas da entrevista fornecida a Florent Fels
pelo pintor Pascin, búlgaro naturalizado americano. Pascin não gosta de Carlito e explicou que uma fita
de Carlito nos Estados Unidos tem uma significação muito diversa da que lhe dão fora de lá. Nos
Estados Unidos Carlito é o sujeito que não sabe fazer as coisas como todo mundo, que não sabe viver
como os outros, não se acomoda em meio algum, – em suma um inadaptável. O espectador americano
40 ri satisfeito de se sentir tão diferente daquele sonhador ridículo. É isto que faz o sucesso de Chaplin nos
Estados Unidos. Carlito com as suas lamentáveis aventuras constitui ali uma lição de moral para
educação da mocidade no sentido de preparar uma geração de homens hábeis, práticos e bem
quaisquer!
Por mais ao par que se esteja do caráter prático do americano, do seu critério de sucesso para
45 julgamento das ações humanas, do seu gosto pela estandardização, não deixa de surpreender aquela
interpretação moralista dos filmes de Chaplin. Bem examinadas as coisas, não havia motivo para
surpresa. A interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem verdadeiramente
americano, o que veda a entrada do seu território a doentes e estropiados, o que propõe o pacto contra
a guerra e ao mesmo tempo assalta a Nicarágua, não poderia sentir de outro modo.
50 Não importa, não será menos legítima a concepção contrária, tanto é verdade que tudo cabe na
humanidade vasta de Carlito. Em vez de um fraco, de um pulha, de um inadaptável, posso eu interpretar
Carlito como um herói. Carlito passa por todas as misérias sem lágrimas nem queixas. Não é força isto?
Não perde a bondade apesar de todas as experiências, e no meio das maiores privações acha um jeito
de amparar a outras criaturas em aperto. Isso é pulhice?
55 Aceita com estoicismo as piores situações, dorme onde é possível ou não dorme, come sola de
sapato cozida como se se tratasse de alguma língua do Rio Grande. É um inadaptável?
Sem dúvida não sabe se adaptar às condições de sucesso na vida. Mas haverá sucesso que
valha a força de ânimo do sujeito sem nada neste mundo, sem dinheiro, sem amores, sem teto, quando
ele pode agitar a bengalinha como Carlito com um gesto de quem vai tirar a felicidade do nada? Quando
60 um ajuntamento se forma nos filmes, os transeuntes vão parando e acercando-se do grupo com um ar
de curiosidade interesseira. Todos têm uma fisionomia preocupada. Carlito é o único que está certo do
prazer ingênuo de olhar.
Neste sentido Carlito é um verdadeiro professor de heroísmo. Quem vive na solidão das grandes
cidades não pode deixar de sentir intensamente o influxo da sua lição, e uma simpatia enorme nos
65 prende ao boêmio nos seus gestos de aceitação tão simples.
Nada mais heróico, mais comovente do que a saída de Carlito no fim de O Circo. Partida a
companhia, em cuja troupe seguia a menina que ele ajudara a casar com outro, Carlito por alguns
momentos se senta no círculo que ficou como último vestígio do picadeiro, refletindo sobre os dias de
barriga cheia e relativa felicidade sentimental que acabava de desfrutar. Agora está de novo sem nada e
70 inteiramente só. Mas os minutos de fraqueza duram pouco. Carlito levanta-se, dá um puxão na
casaquinha para recuperar a linha, faz um molinete com a bengalinha e sai campo afora sem olhar para
trás. Não tem um vintém, não tem uma afeição, não tem onde dormir nem o que comer. No entanto vai
como um conquistador pisando em terra nova. Parece que o Universo é dele. E não tenham dúvida: o
Universo é dele.
75 Com efeito, Carlito é poeta.
(Em: Crônicas da Província do Brasil. 1937.)

idiossincrasia (linha 3): maneira de ser e de agir própria de cada pessoa.
mamulengo (linha 4): fantoche, boneco usado à mão em peças de teatro popular ou infantil.
tabético (linha 9): que tem andar desgovernado, sem muita firmeza.
dandismo (linha 18): relativo ao indivíduo que se veste e se comporta com elegância.
pulhice (linha 54): safadeza, canalhice.
estoicismo (linha 55): resignação com dignidade diante do sofrimento, da adversidade, do infortúnio.
molinete (linha 71): movimento giratório que se faz com a espada ou outro objeto semelhante.

Segundo Bandeira, o comportamento de Carlito é “uma lição de moral para educação da mocidade” (linhas 41 e 42), porque:
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Os americanos veem Carlito como lição de moral porque rejeitam para si o que ele é.

Segundo Pascin, o espectador americano ri 'satisfeito de se sentir tão diferente' do inadaptável. A lição consiste em não ser como Carlito, de modo a formar homens 'hábeis, práticos'. Logo, as pessoas rejeitam para si as características do personagem.

Análise das alternativas

A) Carlito não é modelo a seguir, e sim o contrário. B) Não desejam se parecer com ele. C) A contradição do personagem não é a razão apontada. D) A humanidade do personagem é a leitura de Bandeira, não a razão da 'lição de moral'.

Referência: Interpretação de texto; linhas 36-43.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Interpretação de Texto

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Médio

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) · Vestibular 2014 — Português e Redação

Gabarito disponível

Texto-base:
As questões de 21 a 32 referem-se ao Texto 1, de Manuel Bandeira, publicado em 1937.

TEXTO 1
1 Não há hoje no mundo, em qualquer domínio de atividade artística, um artista cuja arte contenha
maior universalidade que a de Charles Chaplin. A razão vem de que o tipo de Carlito é uma dessas
criações que, salvo idiossincrasias muito raras, interessam e agradam a toda a gente. Como os heróis
das lendas populares ou as personagens das velhas farsas de mamulengo.
5 Carlito é popular no sentido mais alto da palavra. Não saiu completo e definitivo da cabeça de
Chaplin: foi uma criação em que o artista procedeu por uma sucessão de tentativas e erradas.
Chaplin observava sobre o público o efeito de cada detalhe.
Um dos traços mais característicos da pessoa física de Carlito foi achado casual. Chaplin certa
vez lembrou-se de arremedar a marcha desgovernada de um tabético. O público riu: estava fixado o
10 andar habitual de Carlito.
O vestuário da personagem – fraquezinho humorístico, calças lambazonas, botinas
escarrapachadas, cartolinha – também se fixou pelo consenso do público.
Certa vez que Carlito trocou por outras as botinas escarrapachadas e a clássica cartolinha, o
público não achou graça: estava desapontado. Chaplin eliminou imediatamente a variante. Sentiu com o
15 público que ela destruía a unidade física do tipo. Podia ser jocosa também, mas não era mais Carlito.
Note-se que essa indumentária, que vem dos primeiros filmes do artista, não contém nada de
especialmente extravagante. Agrada por não sei quê de elegante que há no seu ridículo de miséria.
Pode-se dizer que Carlito possui o dandismo do grotesco.
Não será exagero afirmar que toda a humanidade viva colaborou nas salas de cinema para a
20 realização da personagem de Carlito, como ela aparece nessas estupendas obras-primas de humour
que são O Garoto, Ombro Arma, Em Busca do Ouro e O Circo.
Isto por si só atestaria em Chaplin um extraordinário dom de discernimento psicológico. Não
obstante, se não houvesse nele profundidade de pensamento, lirismo, ternura, seria levado por esse
processo de criação à vulgaridade dos artistas medíocres que condescendem com o fácil gosto do
25 público.
Aqui é que começa a genialidade de Chaplin. Descendo até o público, não só não se vulgarizou,
mas ao contrário ganhou maior força de emoção e de poesia. A sua originalidade extremou-se. Ele
soube isolar em seus dados pessoais, em sua inteligência e em sua sensibilidade de exceção, os
elementos de irredutível humanidade. Como se diz em linguagem matemática, pôs em evidência o fator
30 comum de todas as expressões humanas. O olhar de Carlito, no filme O Circo, para a brioche do menino
faz rir a criançada como um gesto de gulodice engraçada. Para um adulto pode sugerir da maneira mais
dramática todas as categorias do desejo. A sua arte simplificou-se ao mesmo tempo que se aprofundou
e alargou. Cada espectador pode encontrar nela o que procura: o riso, a crítica, o lirismo ou ainda o
contrário de tudo isso.
35 Essas reflexões me acudiram ao espírito ao ler umas linhas da entrevista fornecida a Florent Fels
pelo pintor Pascin, búlgaro naturalizado americano. Pascin não gosta de Carlito e explicou que uma fita
de Carlito nos Estados Unidos tem uma significação muito diversa da que lhe dão fora de lá. Nos
Estados Unidos Carlito é o sujeito que não sabe fazer as coisas como todo mundo, que não sabe viver
como os outros, não se acomoda em meio algum, – em suma um inadaptável. O espectador americano
40 ri satisfeito de se sentir tão diferente daquele sonhador ridículo. É isto que faz o sucesso de Chaplin nos
Estados Unidos. Carlito com as suas lamentáveis aventuras constitui ali uma lição de moral para
educação da mocidade no sentido de preparar uma geração de homens hábeis, práticos e bem
quaisquer!
Por mais ao par que se esteja do caráter prático do americano, do seu critério de sucesso para
45 julgamento das ações humanas, do seu gosto pela estandardização, não deixa de surpreender aquela
interpretação moralista dos filmes de Chaplin. Bem examinadas as coisas, não havia motivo para
surpresa. A interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem verdadeiramente
americano, o que veda a entrada do seu território a doentes e estropiados, o que propõe o pacto contra
a guerra e ao mesmo tempo assalta a Nicarágua, não poderia sentir de outro modo.
50 Não importa, não será menos legítima a concepção contrária, tanto é verdade que tudo cabe na
humanidade vasta de Carlito. Em vez de um fraco, de um pulha, de um inadaptável, posso eu interpretar
Carlito como um herói. Carlito passa por todas as misérias sem lágrimas nem queixas. Não é força isto?
Não perde a bondade apesar de todas as experiências, e no meio das maiores privações acha um jeito
de amparar a outras criaturas em aperto. Isso é pulhice?
55 Aceita com estoicismo as piores situações, dorme onde é possível ou não dorme, come sola de
sapato cozida como se se tratasse de alguma língua do Rio Grande. É um inadaptável?
Sem dúvida não sabe se adaptar às condições de sucesso na vida. Mas haverá sucesso que
valha a força de ânimo do sujeito sem nada neste mundo, sem dinheiro, sem amores, sem teto, quando
ele pode agitar a bengalinha como Carlito com um gesto de quem vai tirar a felicidade do nada? Quando
60 um ajuntamento se forma nos filmes, os transeuntes vão parando e acercando-se do grupo com um ar
de curiosidade interesseira. Todos têm uma fisionomia preocupada. Carlito é o único que está certo do
prazer ingênuo de olhar.
Neste sentido Carlito é um verdadeiro professor de heroísmo. Quem vive na solidão das grandes
cidades não pode deixar de sentir intensamente o influxo da sua lição, e uma simpatia enorme nos
65 prende ao boêmio nos seus gestos de aceitação tão simples.
Nada mais heróico, mais comovente do que a saída de Carlito no fim de O Circo. Partida a
companhia, em cuja troupe seguia a menina que ele ajudara a casar com outro, Carlito por alguns
momentos se senta no círculo que ficou como último vestígio do picadeiro, refletindo sobre os dias de
barriga cheia e relativa felicidade sentimental que acabava de desfrutar. Agora está de novo sem nada e
70 inteiramente só. Mas os minutos de fraqueza duram pouco. Carlito levanta-se, dá um puxão na
casaquinha para recuperar a linha, faz um molinete com a bengalinha e sai campo afora sem olhar para
trás. Não tem um vintém, não tem uma afeição, não tem onde dormir nem o que comer. No entanto vai
como um conquistador pisando em terra nova. Parece que o Universo é dele. E não tenham dúvida: o
Universo é dele.
75 Com efeito, Carlito é poeta.
(Em: Crônicas da Província do Brasil. 1937.)

idiossincrasia (linha 3): maneira de ser e de agir própria de cada pessoa.
mamulengo (linha 4): fantoche, boneco usado à mão em peças de teatro popular ou infantil.
tabético (linha 9): que tem andar desgovernado, sem muita firmeza.
dandismo (linha 18): relativo ao indivíduo que se veste e se comporta com elegância.
pulhice (linha 54): safadeza, canalhice.
estoicismo (linha 55): resignação com dignidade diante do sofrimento, da adversidade, do infortúnio.
molinete (linha 71): movimento giratório que se faz com a espada ou outro objeto semelhante.

Segundo o texto, herói é aquele que
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Para Bandeira, herói enfrenta adversidades mesmo com momentos de fraqueza.

O texto mostra Carlito enfrentando misérias sem queixas, 'aceita com estoicismo as piores situações'. Na cena final, após 'minutos de fraqueza', ele se levanta e parte como conquistador. Essa é a concepção de herói do autor.

Análise das alternativas

A) Comover é efeito do herói, não sua definição. B) A leveza não é apresentada como definição de herói. C) 'Previsível' não aparece e destoa da ideia. E) Carlito não despreza o sucesso, apenas o considera menos valioso que a força de ânimo.

Referência: Interpretação de texto; conceito de herói.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Argumentação — Estrutura e Recursos do Texto

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Médio

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) · Vestibular 2014 — Português e Redação

Gabarito disponível

Texto-base:
As questões de 21 a 32 referem-se ao Texto 1, de Manuel Bandeira, publicado em 1937.

TEXTO 1
1 Não há hoje no mundo, em qualquer domínio de atividade artística, um artista cuja arte contenha
maior universalidade que a de Charles Chaplin. A razão vem de que o tipo de Carlito é uma dessas
criações que, salvo idiossincrasias muito raras, interessam e agradam a toda a gente. Como os heróis
das lendas populares ou as personagens das velhas farsas de mamulengo.
5 Carlito é popular no sentido mais alto da palavra. Não saiu completo e definitivo da cabeça de
Chaplin: foi uma criação em que o artista procedeu por uma sucessão de tentativas e erradas.
Chaplin observava sobre o público o efeito de cada detalhe.
Um dos traços mais característicos da pessoa física de Carlito foi achado casual. Chaplin certa
vez lembrou-se de arremedar a marcha desgovernada de um tabético. O público riu: estava fixado o
10 andar habitual de Carlito.
O vestuário da personagem – fraquezinho humorístico, calças lambazonas, botinas
escarrapachadas, cartolinha – também se fixou pelo consenso do público.
Certa vez que Carlito trocou por outras as botinas escarrapachadas e a clássica cartolinha, o
público não achou graça: estava desapontado. Chaplin eliminou imediatamente a variante. Sentiu com o
15 público que ela destruía a unidade física do tipo. Podia ser jocosa também, mas não era mais Carlito.
Note-se que essa indumentária, que vem dos primeiros filmes do artista, não contém nada de
especialmente extravagante. Agrada por não sei quê de elegante que há no seu ridículo de miséria.
Pode-se dizer que Carlito possui o dandismo do grotesco.
Não será exagero afirmar que toda a humanidade viva colaborou nas salas de cinema para a
20 realização da personagem de Carlito, como ela aparece nessas estupendas obras-primas de humour
que são O Garoto, Ombro Arma, Em Busca do Ouro e O Circo.
Isto por si só atestaria em Chaplin um extraordinário dom de discernimento psicológico. Não
obstante, se não houvesse nele profundidade de pensamento, lirismo, ternura, seria levado por esse
processo de criação à vulgaridade dos artistas medíocres que condescendem com o fácil gosto do
25 público.
Aqui é que começa a genialidade de Chaplin. Descendo até o público, não só não se vulgarizou,
mas ao contrário ganhou maior força de emoção e de poesia. A sua originalidade extremou-se. Ele
soube isolar em seus dados pessoais, em sua inteligência e em sua sensibilidade de exceção, os
elementos de irredutível humanidade. Como se diz em linguagem matemática, pôs em evidência o fator
30 comum de todas as expressões humanas. O olhar de Carlito, no filme O Circo, para a brioche do menino
faz rir a criançada como um gesto de gulodice engraçada. Para um adulto pode sugerir da maneira mais
dramática todas as categorias do desejo. A sua arte simplificou-se ao mesmo tempo que se aprofundou
e alargou. Cada espectador pode encontrar nela o que procura: o riso, a crítica, o lirismo ou ainda o
contrário de tudo isso.
35 Essas reflexões me acudiram ao espírito ao ler umas linhas da entrevista fornecida a Florent Fels
pelo pintor Pascin, búlgaro naturalizado americano. Pascin não gosta de Carlito e explicou que uma fita
de Carlito nos Estados Unidos tem uma significação muito diversa da que lhe dão fora de lá. Nos
Estados Unidos Carlito é o sujeito que não sabe fazer as coisas como todo mundo, que não sabe viver
como os outros, não se acomoda em meio algum, – em suma um inadaptável. O espectador americano
40 ri satisfeito de se sentir tão diferente daquele sonhador ridículo. É isto que faz o sucesso de Chaplin nos
Estados Unidos. Carlito com as suas lamentáveis aventuras constitui ali uma lição de moral para
educação da mocidade no sentido de preparar uma geração de homens hábeis, práticos e bem
quaisquer!
Por mais ao par que se esteja do caráter prático do americano, do seu critério de sucesso para
45 julgamento das ações humanas, do seu gosto pela estandardização, não deixa de surpreender aquela
interpretação moralista dos filmes de Chaplin. Bem examinadas as coisas, não havia motivo para
surpresa. A interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem verdadeiramente
americano, o que veda a entrada do seu território a doentes e estropiados, o que propõe o pacto contra
a guerra e ao mesmo tempo assalta a Nicarágua, não poderia sentir de outro modo.
50 Não importa, não será menos legítima a concepção contrária, tanto é verdade que tudo cabe na
humanidade vasta de Carlito. Em vez de um fraco, de um pulha, de um inadaptável, posso eu interpretar
Carlito como um herói. Carlito passa por todas as misérias sem lágrimas nem queixas. Não é força isto?
Não perde a bondade apesar de todas as experiências, e no meio das maiores privações acha um jeito
de amparar a outras criaturas em aperto. Isso é pulhice?
55 Aceita com estoicismo as piores situações, dorme onde é possível ou não dorme, come sola de
sapato cozida como se se tratasse de alguma língua do Rio Grande. É um inadaptável?
Sem dúvida não sabe se adaptar às condições de sucesso na vida. Mas haverá sucesso que
valha a força de ânimo do sujeito sem nada neste mundo, sem dinheiro, sem amores, sem teto, quando
ele pode agitar a bengalinha como Carlito com um gesto de quem vai tirar a felicidade do nada? Quando
60 um ajuntamento se forma nos filmes, os transeuntes vão parando e acercando-se do grupo com um ar
de curiosidade interesseira. Todos têm uma fisionomia preocupada. Carlito é o único que está certo do
prazer ingênuo de olhar.
Neste sentido Carlito é um verdadeiro professor de heroísmo. Quem vive na solidão das grandes
cidades não pode deixar de sentir intensamente o influxo da sua lição, e uma simpatia enorme nos
65 prende ao boêmio nos seus gestos de aceitação tão simples.
Nada mais heróico, mais comovente do que a saída de Carlito no fim de O Circo. Partida a
companhia, em cuja troupe seguia a menina que ele ajudara a casar com outro, Carlito por alguns
momentos se senta no círculo que ficou como último vestígio do picadeiro, refletindo sobre os dias de
barriga cheia e relativa felicidade sentimental que acabava de desfrutar. Agora está de novo sem nada e
70 inteiramente só. Mas os minutos de fraqueza duram pouco. Carlito levanta-se, dá um puxão na
casaquinha para recuperar a linha, faz um molinete com a bengalinha e sai campo afora sem olhar para
trás. Não tem um vintém, não tem uma afeição, não tem onde dormir nem o que comer. No entanto vai
como um conquistador pisando em terra nova. Parece que o Universo é dele. E não tenham dúvida: o
Universo é dele.
75 Com efeito, Carlito é poeta.
(Em: Crônicas da Província do Brasil. 1937.)

idiossincrasia (linha 3): maneira de ser e de agir própria de cada pessoa.
mamulengo (linha 4): fantoche, boneco usado à mão em peças de teatro popular ou infantil.
tabético (linha 9): que tem andar desgovernado, sem muita firmeza.
dandismo (linha 18): relativo ao indivíduo que se veste e se comporta com elegância.
pulhice (linha 54): safadeza, canalhice.
estoicismo (linha 55): resignação com dignidade diante do sofrimento, da adversidade, do infortúnio.
molinete (linha 71): movimento giratório que se faz com a espada ou outro objeto semelhante.

Considerando a estrutura do texto, pode-se dizer que Bandeira

I. vale-se de outro texto para refletir sobre a recepção do público americano aos filmes de Chaplin.
II. considera fatos da época para refletir sobre o comportamento dos americanos.
III. descreve cenas de filmes para enaltecer a criação de Chaplin.
IV. usa recursos linguísticos, como perguntas retóricas e adjetivos, para reforçar seu ponto de vista.

Está(ão) correta(s)
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Todas as afirmações descrevem corretamente a estrutura do texto.

Bandeira parte da entrevista de Pascin a Fels (I), usa fatos da época como a proibição a doentes, o pacto contra a guerra e a Nicarágua (II), descreve cenas como o olhar para a brioche e a saída de O Circo para enaltecer Chaplin (III), e usa perguntas retóricas ('Não é força isto?', 'Isso é pulhice?') e adjetivos ('estupendas', 'extraordinário') para reforçar sua tese (IV).

Análise das alternativas

A, B, C e D deixam de fora ao menos um item correto, e todos os itens I a IV são válidos.

Referência: Estrutura argumentativa; recursos linguísticos.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Interpretação de Texto — Inferência

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Médio

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) · Vestibular 2014 — Português e Redação

Gabarito disponível

Texto-base:
As questões de 21 a 32 referem-se ao Texto 1, de Manuel Bandeira, publicado em 1937.

TEXTO 1
1 Não há hoje no mundo, em qualquer domínio de atividade artística, um artista cuja arte contenha
maior universalidade que a de Charles Chaplin. A razão vem de que o tipo de Carlito é uma dessas
criações que, salvo idiossincrasias muito raras, interessam e agradam a toda a gente. Como os heróis
das lendas populares ou as personagens das velhas farsas de mamulengo.
5 Carlito é popular no sentido mais alto da palavra. Não saiu completo e definitivo da cabeça de
Chaplin: foi uma criação em que o artista procedeu por uma sucessão de tentativas e erradas.
Chaplin observava sobre o público o efeito de cada detalhe.
Um dos traços mais característicos da pessoa física de Carlito foi achado casual. Chaplin certa
vez lembrou-se de arremedar a marcha desgovernada de um tabético. O público riu: estava fixado o
10 andar habitual de Carlito.
O vestuário da personagem – fraquezinho humorístico, calças lambazonas, botinas
escarrapachadas, cartolinha – também se fixou pelo consenso do público.
Certa vez que Carlito trocou por outras as botinas escarrapachadas e a clássica cartolinha, o
público não achou graça: estava desapontado. Chaplin eliminou imediatamente a variante. Sentiu com o
15 público que ela destruía a unidade física do tipo. Podia ser jocosa também, mas não era mais Carlito.
Note-se que essa indumentária, que vem dos primeiros filmes do artista, não contém nada de
especialmente extravagante. Agrada por não sei quê de elegante que há no seu ridículo de miséria.
Pode-se dizer que Carlito possui o dandismo do grotesco.
Não será exagero afirmar que toda a humanidade viva colaborou nas salas de cinema para a
20 realização da personagem de Carlito, como ela aparece nessas estupendas obras-primas de humour
que são O Garoto, Ombro Arma, Em Busca do Ouro e O Circo.
Isto por si só atestaria em Chaplin um extraordinário dom de discernimento psicológico. Não
obstante, se não houvesse nele profundidade de pensamento, lirismo, ternura, seria levado por esse
processo de criação à vulgaridade dos artistas medíocres que condescendem com o fácil gosto do
25 público.
Aqui é que começa a genialidade de Chaplin. Descendo até o público, não só não se vulgarizou,
mas ao contrário ganhou maior força de emoção e de poesia. A sua originalidade extremou-se. Ele
soube isolar em seus dados pessoais, em sua inteligência e em sua sensibilidade de exceção, os
elementos de irredutível humanidade. Como se diz em linguagem matemática, pôs em evidência o fator
30 comum de todas as expressões humanas. O olhar de Carlito, no filme O Circo, para a brioche do menino
faz rir a criançada como um gesto de gulodice engraçada. Para um adulto pode sugerir da maneira mais
dramática todas as categorias do desejo. A sua arte simplificou-se ao mesmo tempo que se aprofundou
e alargou. Cada espectador pode encontrar nela o que procura: o riso, a crítica, o lirismo ou ainda o
contrário de tudo isso.
35 Essas reflexões me acudiram ao espírito ao ler umas linhas da entrevista fornecida a Florent Fels
pelo pintor Pascin, búlgaro naturalizado americano. Pascin não gosta de Carlito e explicou que uma fita
de Carlito nos Estados Unidos tem uma significação muito diversa da que lhe dão fora de lá. Nos
Estados Unidos Carlito é o sujeito que não sabe fazer as coisas como todo mundo, que não sabe viver
como os outros, não se acomoda em meio algum, – em suma um inadaptável. O espectador americano
40 ri satisfeito de se sentir tão diferente daquele sonhador ridículo. É isto que faz o sucesso de Chaplin nos
Estados Unidos. Carlito com as suas lamentáveis aventuras constitui ali uma lição de moral para
educação da mocidade no sentido de preparar uma geração de homens hábeis, práticos e bem
quaisquer!
Por mais ao par que se esteja do caráter prático do americano, do seu critério de sucesso para
45 julgamento das ações humanas, do seu gosto pela estandardização, não deixa de surpreender aquela
interpretação moralista dos filmes de Chaplin. Bem examinadas as coisas, não havia motivo para
surpresa. A interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem verdadeiramente
americano, o que veda a entrada do seu território a doentes e estropiados, o que propõe o pacto contra
a guerra e ao mesmo tempo assalta a Nicarágua, não poderia sentir de outro modo.
50 Não importa, não será menos legítima a concepção contrária, tanto é verdade que tudo cabe na
humanidade vasta de Carlito. Em vez de um fraco, de um pulha, de um inadaptável, posso eu interpretar
Carlito como um herói. Carlito passa por todas as misérias sem lágrimas nem queixas. Não é força isto?
Não perde a bondade apesar de todas as experiências, e no meio das maiores privações acha um jeito
de amparar a outras criaturas em aperto. Isso é pulhice?
55 Aceita com estoicismo as piores situações, dorme onde é possível ou não dorme, come sola de
sapato cozida como se se tratasse de alguma língua do Rio Grande. É um inadaptável?
Sem dúvida não sabe se adaptar às condições de sucesso na vida. Mas haverá sucesso que
valha a força de ânimo do sujeito sem nada neste mundo, sem dinheiro, sem amores, sem teto, quando
ele pode agitar a bengalinha como Carlito com um gesto de quem vai tirar a felicidade do nada? Quando
60 um ajuntamento se forma nos filmes, os transeuntes vão parando e acercando-se do grupo com um ar
de curiosidade interesseira. Todos têm uma fisionomia preocupada. Carlito é o único que está certo do
prazer ingênuo de olhar.
Neste sentido Carlito é um verdadeiro professor de heroísmo. Quem vive na solidão das grandes
cidades não pode deixar de sentir intensamente o influxo da sua lição, e uma simpatia enorme nos
65 prende ao boêmio nos seus gestos de aceitação tão simples.
Nada mais heróico, mais comovente do que a saída de Carlito no fim de O Circo. Partida a
companhia, em cuja troupe seguia a menina que ele ajudara a casar com outro, Carlito por alguns
momentos se senta no círculo que ficou como último vestígio do picadeiro, refletindo sobre os dias de
barriga cheia e relativa felicidade sentimental que acabava de desfrutar. Agora está de novo sem nada e
70 inteiramente só. Mas os minutos de fraqueza duram pouco. Carlito levanta-se, dá um puxão na
casaquinha para recuperar a linha, faz um molinete com a bengalinha e sai campo afora sem olhar para
trás. Não tem um vintém, não tem uma afeição, não tem onde dormir nem o que comer. No entanto vai
como um conquistador pisando em terra nova. Parece que o Universo é dele. E não tenham dúvida: o
Universo é dele.
75 Com efeito, Carlito é poeta.
(Em: Crônicas da Província do Brasil. 1937.)

idiossincrasia (linha 3): maneira de ser e de agir própria de cada pessoa.
mamulengo (linha 4): fantoche, boneco usado à mão em peças de teatro popular ou infantil.
tabético (linha 9): que tem andar desgovernado, sem muita firmeza.
dandismo (linha 18): relativo ao indivíduo que se veste e se comporta com elegância.
pulhice (linha 54): safadeza, canalhice.
estoicismo (linha 55): resignação com dignidade diante do sofrimento, da adversidade, do infortúnio.
molinete (linha 71): movimento giratório que se faz com a espada ou outro objeto semelhante.

Depreende-se do texto que os americanos

I. procuram valorizar as particularidades das pessoas.
II. julgam as pessoas, conforme seu padrão de sucesso ou fracasso.
III. são incoerentes em suas atitudes.
IV. não reconhecem suas próprias fraquezas.

Está(ão) correta(s)
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Os americanos julgam pelo critério de sucesso, são incoerentes e não reconhecem fraquezas (II, III e IV).

O texto cita o 'critério de sucesso para julgamento das ações humanas' (II). Aponta a incoerência de quem veda a entrada de doentes, propõe pacto contra a guerra e assalta a Nicarágua (III). O espectador americano ri do Carlito para sentir-se diferente dele, sem se reconhecer nele (IV). O item I é falso, pois os americanos veem o inadaptável como lição de moral e valorizam a padronização.

Análise das alternativas

A, B e E incluem o item I, que contradiz o texto, pois o americano vê a diferença como defeito e gosta de estandardização. D omite o item II, que está correto.

Referência: Inferência; interpretação de texto.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Marcas de Subjetividade — Avaliação do Autor

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Médio

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) · Vestibular 2014 — Português e Redação

Gabarito disponível

Texto-base:
As questões de 21 a 32 referem-se ao Texto 1, de Manuel Bandeira, publicado em 1937.

TEXTO 1
1 Não há hoje no mundo, em qualquer domínio de atividade artística, um artista cuja arte contenha
maior universalidade que a de Charles Chaplin. A razão vem de que o tipo de Carlito é uma dessas
criações que, salvo idiossincrasias muito raras, interessam e agradam a toda a gente. Como os heróis
das lendas populares ou as personagens das velhas farsas de mamulengo.
5 Carlito é popular no sentido mais alto da palavra. Não saiu completo e definitivo da cabeça de
Chaplin: foi uma criação em que o artista procedeu por uma sucessão de tentativas e erradas.
Chaplin observava sobre o público o efeito de cada detalhe.
Um dos traços mais característicos da pessoa física de Carlito foi achado casual. Chaplin certa
vez lembrou-se de arremedar a marcha desgovernada de um tabético. O público riu: estava fixado o
10 andar habitual de Carlito.
O vestuário da personagem – fraquezinho humorístico, calças lambazonas, botinas
escarrapachadas, cartolinha – também se fixou pelo consenso do público.
Certa vez que Carlito trocou por outras as botinas escarrapachadas e a clássica cartolinha, o
público não achou graça: estava desapontado. Chaplin eliminou imediatamente a variante. Sentiu com o
15 público que ela destruía a unidade física do tipo. Podia ser jocosa também, mas não era mais Carlito.
Note-se que essa indumentária, que vem dos primeiros filmes do artista, não contém nada de
especialmente extravagante. Agrada por não sei quê de elegante que há no seu ridículo de miséria.
Pode-se dizer que Carlito possui o dandismo do grotesco.
Não será exagero afirmar que toda a humanidade viva colaborou nas salas de cinema para a
20 realização da personagem de Carlito, como ela aparece nessas estupendas obras-primas de humour
que são O Garoto, Ombro Arma, Em Busca do Ouro e O Circo.
Isto por si só atestaria em Chaplin um extraordinário dom de discernimento psicológico. Não
obstante, se não houvesse nele profundidade de pensamento, lirismo, ternura, seria levado por esse
processo de criação à vulgaridade dos artistas medíocres que condescendem com o fácil gosto do
25 público.
Aqui é que começa a genialidade de Chaplin. Descendo até o público, não só não se vulgarizou,
mas ao contrário ganhou maior força de emoção e de poesia. A sua originalidade extremou-se. Ele
soube isolar em seus dados pessoais, em sua inteligência e em sua sensibilidade de exceção, os
elementos de irredutível humanidade. Como se diz em linguagem matemática, pôs em evidência o fator
30 comum de todas as expressões humanas. O olhar de Carlito, no filme O Circo, para a brioche do menino
faz rir a criançada como um gesto de gulodice engraçada. Para um adulto pode sugerir da maneira mais
dramática todas as categorias do desejo. A sua arte simplificou-se ao mesmo tempo que se aprofundou
e alargou. Cada espectador pode encontrar nela o que procura: o riso, a crítica, o lirismo ou ainda o
contrário de tudo isso.
35 Essas reflexões me acudiram ao espírito ao ler umas linhas da entrevista fornecida a Florent Fels
pelo pintor Pascin, búlgaro naturalizado americano. Pascin não gosta de Carlito e explicou que uma fita
de Carlito nos Estados Unidos tem uma significação muito diversa da que lhe dão fora de lá. Nos
Estados Unidos Carlito é o sujeito que não sabe fazer as coisas como todo mundo, que não sabe viver
como os outros, não se acomoda em meio algum, – em suma um inadaptável. O espectador americano
40 ri satisfeito de se sentir tão diferente daquele sonhador ridículo. É isto que faz o sucesso de Chaplin nos
Estados Unidos. Carlito com as suas lamentáveis aventuras constitui ali uma lição de moral para
educação da mocidade no sentido de preparar uma geração de homens hábeis, práticos e bem
quaisquer!
Por mais ao par que se esteja do caráter prático do americano, do seu critério de sucesso para
45 julgamento das ações humanas, do seu gosto pela estandardização, não deixa de surpreender aquela
interpretação moralista dos filmes de Chaplin. Bem examinadas as coisas, não havia motivo para
surpresa. A interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem verdadeiramente
americano, o que veda a entrada do seu território a doentes e estropiados, o que propõe o pacto contra
a guerra e ao mesmo tempo assalta a Nicarágua, não poderia sentir de outro modo.
50 Não importa, não será menos legítima a concepção contrária, tanto é verdade que tudo cabe na
humanidade vasta de Carlito. Em vez de um fraco, de um pulha, de um inadaptável, posso eu interpretar
Carlito como um herói. Carlito passa por todas as misérias sem lágrimas nem queixas. Não é força isto?
Não perde a bondade apesar de todas as experiências, e no meio das maiores privações acha um jeito
de amparar a outras criaturas em aperto. Isso é pulhice?
55 Aceita com estoicismo as piores situações, dorme onde é possível ou não dorme, come sola de
sapato cozida como se se tratasse de alguma língua do Rio Grande. É um inadaptável?
Sem dúvida não sabe se adaptar às condições de sucesso na vida. Mas haverá sucesso que
valha a força de ânimo do sujeito sem nada neste mundo, sem dinheiro, sem amores, sem teto, quando
ele pode agitar a bengalinha como Carlito com um gesto de quem vai tirar a felicidade do nada? Quando
60 um ajuntamento se forma nos filmes, os transeuntes vão parando e acercando-se do grupo com um ar
de curiosidade interesseira. Todos têm uma fisionomia preocupada. Carlito é o único que está certo do
prazer ingênuo de olhar.
Neste sentido Carlito é um verdadeiro professor de heroísmo. Quem vive na solidão das grandes
cidades não pode deixar de sentir intensamente o influxo da sua lição, e uma simpatia enorme nos
65 prende ao boêmio nos seus gestos de aceitação tão simples.
Nada mais heróico, mais comovente do que a saída de Carlito no fim de O Circo. Partida a
companhia, em cuja troupe seguia a menina que ele ajudara a casar com outro, Carlito por alguns
momentos se senta no círculo que ficou como último vestígio do picadeiro, refletindo sobre os dias de
barriga cheia e relativa felicidade sentimental que acabava de desfrutar. Agora está de novo sem nada e
70 inteiramente só. Mas os minutos de fraqueza duram pouco. Carlito levanta-se, dá um puxão na
casaquinha para recuperar a linha, faz um molinete com a bengalinha e sai campo afora sem olhar para
trás. Não tem um vintém, não tem uma afeição, não tem onde dormir nem o que comer. No entanto vai
como um conquistador pisando em terra nova. Parece que o Universo é dele. E não tenham dúvida: o
Universo é dele.
75 Com efeito, Carlito é poeta.
(Em: Crônicas da Província do Brasil. 1937.)

idiossincrasia (linha 3): maneira de ser e de agir própria de cada pessoa.
mamulengo (linha 4): fantoche, boneco usado à mão em peças de teatro popular ou infantil.
tabético (linha 9): que tem andar desgovernado, sem muita firmeza.
dandismo (linha 18): relativo ao indivíduo que se veste e se comporta com elegância.
pulhice (linha 54): safadeza, canalhice.
estoicismo (linha 55): resignação com dignidade diante do sofrimento, da adversidade, do infortúnio.
molinete (linha 71): movimento giratório que se faz com a espada ou outro objeto semelhante.

Assinale a opção em que NÃO há avaliação do autor.
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

A frase da alternativa B apenas informa um procedimento, sem juízo de valor.

'Chaplin observava sobre o público o efeito de cada detalhe' é descrição objetiva do método de criação, sem adjetivos ou juízos do autor. As demais trazem avaliação explícita: 'maior universalidade', 'jocosa', 'extraordinário dom' e 'genialidade'.

Análise das alternativas

A) Afirmação superlativa que avalia Chaplin. C) 'Podia ser jocosa' é um juízo sobre a variante. D) 'Extraordinário dom' é um adjetivo valorativo. E) 'Genialidade' é um elogio explícito.

Referência: Marcas de subjetividade; modalização e adjetivação.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Interpretação de Texto — Crônica

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Médio

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) · Vestibular 2014 — Português e Redação

Gabarito disponível

Texto-base:
As questões de 33 e 34 referem-se ao Texto 2, de Ruy Castro.

TEXTO 2
Ritos
1 Nos filmes americanos do passado, quando alguém estava falando ao telefone e a linha de
repente era cortada, a pessoa batia repetidamente no gancho, dizendo “Alô? Alô?”, para ver se o outro
voltava. Nunca vi uma linha voltar por esse processo, nem no cinema, nem na vida real, mas era assim
que os atores faziam.
5 Assim como acontecia também com o ato de o sujeito enfiar a carta dentro do envelope e lamber
este envelope para fechá-lo. Era formidável a “nonchalance” com que os atores lambiam envelopes no
cinema americano – a cola devia ser de primeira. Nos nossos envelopes, se não aplicássemos a
possante goma arábica, as cartas chegariam abertas ao destino.
Outra coisa que sempre me intrigou nos velhos filmes era: o sujeito recebia um telegrama ou
10 mensagem de um boy, enfiava a mão no bolso lateral da calça e já saía com uma moeda no valor certo
da gorjeta, que ele atirava ao ar e o garoto pegava com notável facilidade. Ninguém tirava a moeda do
bolsinho caça-níqueis, que é onde os homens costumam guardar moedas.
E ninguém tirava também um cigarro do maço e o levava à boca. Tirava-o da cigarreira ou de
dentro do bolso mesmo, da calça ou do paletó. Ou seja, nos velhos filmes americanos, as pessoas
15 andavam com os cigarros soltos pelos bolsos. Acho que era para não mostrar de graça, para milhões, a
marca impressa no maço.
Já uma coisa que nunca entendi era por que todo mundo só entrava no carro pelo lado do carona
e tinha de vencer aquele banco imenso, passando por cima das marchas, para chegar ao volante. Não
seria mais prático, já que iriam dirigir, entrar pelo lado do motorista? Seria. Mas Hollywood, como tantas
20 instituições, em Roma, Tegucigalpa ou Brasília, tinha seus ritos. E vá você entender os ritos, sacros ou
profanos.
(Em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2707200805.htm, 27/07/2009)

Nonchalance: indiferença, desinteresse.
Tegucigalpa: capital de Honduras.

O Texto 2 é uma crítica
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

O Texto 2 critica a artificialidade dos ritos do cinema, que não correspondem à vida real.

Castro ironiza gestos que só existem nos filmes (bater no gancho, lamber envelopes, a moeda certa no bolso, entrar pelo lado do carona) e que ele nunca viu funcionar 'nem no cinema, nem na vida real'. A conclusão sobre os 'ritos, sacros ou profanos' reforça a crítica ao convencionalismo artificial.

Análise das alternativas

B) A crônica não condena Hollywood em si, só suas convenções, em tom bem-humorado. C) A ausência de marcas no maço é só uma suposição pontual do autor. D) Não se avalia a qualidade de produtos americanos. E) Os aparelhos aparecem apenas como exemplos de cena.

Referência: Interpretação de crônica; ironia.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Intertextualidade — Comparação entre Textos

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Médio

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) · Vestibular 2014 — Português e Redação

Gabarito disponível

Texto-base:
As questões de 21 a 32 referem-se ao Texto 1, de Manuel Bandeira, publicado em 1937.

TEXTO 1
1 Não há hoje no mundo, em qualquer domínio de atividade artística, um artista cuja arte contenha
maior universalidade que a de Charles Chaplin. A razão vem de que o tipo de Carlito é uma dessas
criações que, salvo idiossincrasias muito raras, interessam e agradam a toda a gente. Como os heróis
das lendas populares ou as personagens das velhas farsas de mamulengo.
5 Carlito é popular no sentido mais alto da palavra. Não saiu completo e definitivo da cabeça de
Chaplin: foi uma criação em que o artista procedeu por uma sucessão de tentativas e erradas.
Chaplin observava sobre o público o efeito de cada detalhe.
Um dos traços mais característicos da pessoa física de Carlito foi achado casual. Chaplin certa
vez lembrou-se de arremedar a marcha desgovernada de um tabético. O público riu: estava fixado o
10 andar habitual de Carlito.
O vestuário da personagem – fraquezinho humorístico, calças lambazonas, botinas
escarrapachadas, cartolinha – também se fixou pelo consenso do público.
Certa vez que Carlito trocou por outras as botinas escarrapachadas e a clássica cartolinha, o
público não achou graça: estava desapontado. Chaplin eliminou imediatamente a variante. Sentiu com o
15 público que ela destruía a unidade física do tipo. Podia ser jocosa também, mas não era mais Carlito.
Note-se que essa indumentária, que vem dos primeiros filmes do artista, não contém nada de
especialmente extravagante. Agrada por não sei quê de elegante que há no seu ridículo de miséria.
Pode-se dizer que Carlito possui o dandismo do grotesco.
Não será exagero afirmar que toda a humanidade viva colaborou nas salas de cinema para a
20 realização da personagem de Carlito, como ela aparece nessas estupendas obras-primas de humour
que são O Garoto, Ombro Arma, Em Busca do Ouro e O Circo.
Isto por si só atestaria em Chaplin um extraordinário dom de discernimento psicológico. Não
obstante, se não houvesse nele profundidade de pensamento, lirismo, ternura, seria levado por esse
processo de criação à vulgaridade dos artistas medíocres que condescendem com o fácil gosto do
25 público.
Aqui é que começa a genialidade de Chaplin. Descendo até o público, não só não se vulgarizou,
mas ao contrário ganhou maior força de emoção e de poesia. A sua originalidade extremou-se. Ele
soube isolar em seus dados pessoais, em sua inteligência e em sua sensibilidade de exceção, os
elementos de irredutível humanidade. Como se diz em linguagem matemática, pôs em evidência o fator
30 comum de todas as expressões humanas. O olhar de Carlito, no filme O Circo, para a brioche do menino
faz rir a criançada como um gesto de gulodice engraçada. Para um adulto pode sugerir da maneira mais
dramática todas as categorias do desejo. A sua arte simplificou-se ao mesmo tempo que se aprofundou
e alargou. Cada espectador pode encontrar nela o que procura: o riso, a crítica, o lirismo ou ainda o
contrário de tudo isso.
35 Essas reflexões me acudiram ao espírito ao ler umas linhas da entrevista fornecida a Florent Fels
pelo pintor Pascin, búlgaro naturalizado americano. Pascin não gosta de Carlito e explicou que uma fita
de Carlito nos Estados Unidos tem uma significação muito diversa da que lhe dão fora de lá. Nos
Estados Unidos Carlito é o sujeito que não sabe fazer as coisas como todo mundo, que não sabe viver
como os outros, não se acomoda em meio algum, – em suma um inadaptável. O espectador americano
40 ri satisfeito de se sentir tão diferente daquele sonhador ridículo. É isto que faz o sucesso de Chaplin nos
Estados Unidos. Carlito com as suas lamentáveis aventuras constitui ali uma lição de moral para
educação da mocidade no sentido de preparar uma geração de homens hábeis, práticos e bem
quaisquer!
Por mais ao par que se esteja do caráter prático do americano, do seu critério de sucesso para
45 julgamento das ações humanas, do seu gosto pela estandardização, não deixa de surpreender aquela
interpretação moralista dos filmes de Chaplin. Bem examinadas as coisas, não havia motivo para
surpresa. A interpretação cabe perfeitamente dentro do tipo e mais: o americano bem verdadeiramente
americano, o que veda a entrada do seu território a doentes e estropiados, o que propõe o pacto contra
a guerra e ao mesmo tempo assalta a Nicarágua, não poderia sentir de outro modo.
50 Não importa, não será menos legítima a concepção contrária, tanto é verdade que tudo cabe na
humanidade vasta de Carlito. Em vez de um fraco, de um pulha, de um inadaptável, posso eu interpretar
Carlito como um herói. Carlito passa por todas as misérias sem lágrimas nem queixas. Não é força isto?
Não perde a bondade apesar de todas as experiências, e no meio das maiores privações acha um jeito
de amparar a outras criaturas em aperto. Isso é pulhice?
55 Aceita com estoicismo as piores situações, dorme onde é possível ou não dorme, come sola de
sapato cozida como se se tratasse de alguma língua do Rio Grande. É um inadaptável?
Sem dúvida não sabe se adaptar às condições de sucesso na vida. Mas haverá sucesso que
valha a força de ânimo do sujeito sem nada neste mundo, sem dinheiro, sem amores, sem teto, quando
ele pode agitar a bengalinha como Carlito com um gesto de quem vai tirar a felicidade do nada? Quando
60 um ajuntamento se forma nos filmes, os transeuntes vão parando e acercando-se do grupo com um ar
de curiosidade interesseira. Todos têm uma fisionomia preocupada. Carlito é o único que está certo do
prazer ingênuo de olhar.
Neste sentido Carlito é um verdadeiro professor de heroísmo. Quem vive na solidão das grandes
cidades não pode deixar de sentir intensamente o influxo da sua lição, e uma simpatia enorme nos
65 prende ao boêmio nos seus gestos de aceitação tão simples.
Nada mais heróico, mais comovente do que a saída de Carlito no fim de O Circo. Partida a
companhia, em cuja troupe seguia a menina que ele ajudara a casar com outro, Carlito por alguns
momentos se senta no círculo que ficou como último vestígio do picadeiro, refletindo sobre os dias de
barriga cheia e relativa felicidade sentimental que acabava de desfrutar. Agora está de novo sem nada e
70 inteiramente só. Mas os minutos de fraqueza duram pouco. Carlito levanta-se, dá um puxão na
casaquinha para recuperar a linha, faz um molinete com a bengalinha e sai campo afora sem olhar para
trás. Não tem um vintém, não tem uma afeição, não tem onde dormir nem o que comer. No entanto vai
como um conquistador pisando em terra nova. Parece que o Universo é dele. E não tenham dúvida: o
Universo é dele.
75 Com efeito, Carlito é poeta.
(Em: Crônicas da Província do Brasil. 1937.)

idiossincrasia (linha 3): maneira de ser e de agir própria de cada pessoa.
mamulengo (linha 4): fantoche, boneco usado à mão em peças de teatro popular ou infantil.
tabético (linha 9): que tem andar desgovernado, sem muita firmeza.
dandismo (linha 18): relativo ao indivíduo que se veste e se comporta com elegância.
pulhice (linha 54): safadeza, canalhice.
estoicismo (linha 55): resignação com dignidade diante do sofrimento, da adversidade, do infortúnio.
molinete (linha 71): movimento giratório que se faz com a espada ou outro objeto semelhante.

Texto-base:
As questões de 33 e 34 referem-se ao Texto 2, de Ruy Castro.

TEXTO 2
Ritos
1 Nos filmes americanos do passado, quando alguém estava falando ao telefone e a linha de
repente era cortada, a pessoa batia repetidamente no gancho, dizendo “Alô? Alô?”, para ver se o outro
voltava. Nunca vi uma linha voltar por esse processo, nem no cinema, nem na vida real, mas era assim
que os atores faziam.
5 Assim como acontecia também com o ato de o sujeito enfiar a carta dentro do envelope e lamber
este envelope para fechá-lo. Era formidável a “nonchalance” com que os atores lambiam envelopes no
cinema americano – a cola devia ser de primeira. Nos nossos envelopes, se não aplicássemos a
possante goma arábica, as cartas chegariam abertas ao destino.
Outra coisa que sempre me intrigou nos velhos filmes era: o sujeito recebia um telegrama ou
10 mensagem de um boy, enfiava a mão no bolso lateral da calça e já saía com uma moeda no valor certo
da gorjeta, que ele atirava ao ar e o garoto pegava com notável facilidade. Ninguém tirava a moeda do
bolsinho caça-níqueis, que é onde os homens costumam guardar moedas.
E ninguém tirava também um cigarro do maço e o levava à boca. Tirava-o da cigarreira ou de
dentro do bolso mesmo, da calça ou do paletó. Ou seja, nos velhos filmes americanos, as pessoas
15 andavam com os cigarros soltos pelos bolsos. Acho que era para não mostrar de graça, para milhões, a
marca impressa no maço.
Já uma coisa que nunca entendi era por que todo mundo só entrava no carro pelo lado do carona
e tinha de vencer aquele banco imenso, passando por cima das marchas, para chegar ao volante. Não
seria mais prático, já que iriam dirigir, entrar pelo lado do motorista? Seria. Mas Hollywood, como tantas
20 instituições, em Roma, Tegucigalpa ou Brasília, tinha seus ritos. E vá você entender os ritos, sacros ou
profanos.
(Em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz2707200805.htm, 27/07/2009)

Nonchalance: indiferença, desinteresse.
Tegucigalpa: capital de Honduras.

Está presente no Texto 1, de Manuel Bandeira, e no 2, de Ruy Castro
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Ponto comum entre Bandeira e Castro: os filmes criam realidades próprias.

No Texto 1, Carlito é uma criação do cinema, cujo sentido (herói, inadaptável, poeta) o público e a arte constroem. No Texto 2, Castro mostra que os filmes americanos tinham ritos e convenções próprios (linha cortada, moeda certa no bolso, entrar pelo lado do carona), distintos da vida real. Ambos tratam, portanto, de universos que o cinema constrói por si.

Análise das alternativas

B) Só o Texto 2 descreve gestos artificiais; Bandeira não trata disso. C) Só Castro critica situações improváveis. D) Bandeira trata da recepção do público, mas Castro não descreve comportamento do público. E) Bandeira não comenta comportamentos inadequados dos americanos em geral; sua ironia é sobre a leitura moralista do personagem.

Referência: Intertextualidade; comparação entre Textos 1 e 2.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Literatura Romantismo — Lucíola (José de Alencar)

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Médio

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) · Vestibular 2014 — Português e Redação

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Em uma passagem do romance Lucíola, de José de Alencar, Lúcia e Paulo vão a uma praia em Niterói, local onde ela passou a infância. Podemos afirmar que esta cena
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

A praia faz Lúcia voltar a ser criança e revela sua pureza e ingenuidade.

Em Lucíola, a visita à praia de sua infância leva Lúcia a reencontrar a menina que foi. O episódio sugere que, apesar da prostituição, ela preserva um fundo puro e ingênuo, o que reforça a ideia de purificação pelo amor típica do Romantismo.

Análise das alternativas

A) O romance se passa no meio urbano, e o amor ali é possível. B) A oposição violência urbana versus paz natural não é o foco. C) A cena não é o momento de Lúcia relatar como foi obrigada a se prostituir. E) Reduz a cena a mero gosto pela cor local. D é a correta.

Referência: José de Alencar, Lucíola (1862).

Resolução comentada do VaiConcursos.

Literatura Modernismo — Vidas Secas (Graciliano Ramos)

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Médio

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) · Vestibular 2014 — Português e Redação

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Acerca da representação da infância em Vidas secas, de Graciliano Ramos, é INCORRETO dizer que
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

O menino mais velho não se rebela contra a mãe nem contra a situação da família.

Em Vidas secas, o menino mais velho se confunde com a ideia de inferno e com a surra de Sinhá Vitória, mas não faz nenhuma rebelião aberta. Ele é um personagem submisso, sem mobilização para enfrentar a situação, e a obra enfatiza a falta de recursos para mudar.

Análise das alternativas

A) Os meninos encontram pouca alegria no ambiente inóspito. B) Ambos têm afeto por Baleia. D) O mais novo admira o pai, e o mais velho conflita com a mãe sobre o inferno. E) Ao associar o lugar ao inferno, o menino começa a deixar de ser criança. Todas são verdadeiras, e C é a incorreta pedida.

Referência: Graciliano Ramos, Vidas secas (1938).

Resolução comentada do VaiConcursos.

Literatura Modernismo — Poesia de Cecília Meireles

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Médio

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O poema abaixo é de Cecília Meireles:

Epigrama 8

Encostei-me em ti, sabendo bem que eras somente onda.
Sabendo bem que eras nuvem, depus minha vida em ti.

Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil,
fiquei sem poder chorar, quando caí.

É CORRETO afirmar que o texto
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

O poema é ambíguo: diz que não chorou, mas expressa tristeza.

O sujeito lírico afirma que, por saber que o outro era só onda e nuvem, ficou sem poder chorar ao cair. Essa afirmação sugere dor contida, uma tristeza tão grande que nem o choro vem. O sentido literal (não chorou) e o sentido sugerido (sofre) criam a ambiguidade.

Análise das alternativas

A) O tom é contido, não exagerado. B) Saber de antemão não elimina a dor. C) A entrega foi total ("depus minha vida em ti"). E) O poema não dá conselho. D é a correta.

Referência: Cecília Meireles, Epigramas.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Literatura Modernismo — Gabriela, Cravo e Canela (Jorge Amado)

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Acerca do romance Gabriela, cravo e canela, de Jorge Amado, assinale a opção CORRETA.
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

No final, a união de Gabriela e Nacib não segue as regras do casamento oficial.

Nacib anula o casamento ao flagrar a traição, mas acaba reatando com Gabriela fora das convenções matrimoniais formais. O romance mostra que a relação dos dois não se encaixa nos valores sociais ligados ao matrimônio oficial.

Análise das alternativas

A) A obra é modernista e não segue estritamente o modelo realista-naturalista. C) O adultério de Gabriela foi com Tonico Bastos, não com Mundinho Falcão. D) Nem todas as outras mulheres têm destino semelhante ao de Sinhazinha. E) O adultério não é secundário, e o coronelismo é um tema ao lado dele. B é a correta.

Referência: Jorge Amado, Gabriela, cravo e canela (1958).

Resolução comentada do VaiConcursos.

Literatura Poesia Contemporânea — Paulo Leminski

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Médio

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O poema abaixo, sem título, é um haicai de Paulo Leminski:

lua à vista
brilhavas assim
sobre auschwitz?

(Distraídos venceremos. São Paulo: Brasiliense, 1987.)

Neste texto,

I. há constraste entre a imagem natural e o fato histórico.
II. o contraste entre “lua” e “auschwitz” provoca uma reação emotiva no sujeito lírico.
III. o caráter interrogativo revela a perplexidade do sujeito lírico.

Está(ão) correta(s):
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

As três afirmações interpretam corretamente o haicai.

O poema opõe a lua, imagem natural e serena, a Auschwitz, fato histórico de horror (I). Esse choque provoca no sujeito lírico uma reação emotiva de indignação e dor (II). A pergunta final, dirigida à lua, revela perplexidade diante da indiferença da natureza ao sofrimento humano (III).

Análise das alternativas

A, B, C e D excluem uma afirmação que é válida. E é a correta.

Referência: Paulo Leminski, Distraídos venceremos (1987).

Resolução comentada do VaiConcursos.

Literatura Intertextualidade — Poesia e Pintura

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Gabarito disponível

Considere o poema abaixo, de Carlos Drummond de Andrade, à luz da reprodução da pintura de Edvard Munch a que ele se refere.

O grito (Munch)

A natureza grita, apavorante.
Doem os ouvidos, dói o quadro.

Reprodução da pintura O grito, de Edvard Munch: figura humana em primeiro plano, com as mãos no rosto e a boca aberta, sobre uma ponte com parapeito, sob um céu de faixas alaranjadas e vermelhas e diante de águas azul-escuras.
O grito – Edvard Munch (1863-1944), Noruega

O texto de Drummond

I. traduz a estreita relação entre a forma e o conteúdo da pintura.
II. mostra como o desespero do homem retratado repercute no ambiente.
III. contém o mesmo exagero dramático e aterrorizante da pintura.
IV. interpreta poeticamente a pintura.

Está(ão) correta(s)
Selecione uma alternativa