← Voltar para a lista de provas Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) · Vestibular — Português e Redação 21 questões nesta prova · página 1 de 2 · 20 com gabarito Gabarito disponível O autor sugere que o universitário aprenda um ofício junto com o curso superior. Nas linhas 48-50, o autor diz que já sugeriu que os jovens aprendessem, junto com o curso "nobre", um ofício como marceneiro, mecânico ou eletricista. Isso é conciliar o curso superior com uma formação alternativa. A) Errada: o texto nega que o diploma garanta sucesso. C) Errada: o autor não defende uma segunda formação universitária. D) Errada: ele fala em jovens aprenderem um ofício, não em as universidades criarem cursos para trabalhadores manuais. E) Errada: o texto não relaciona cursos de curta duração ao amadurecimento do jovem. Referência: Rubem Alves, Diploma não é solução (Folha de S. Paulo, 2004). Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível O autor reconhece que há mais diplomados do que vagas de emprego. Nas linhas 45-47, o autor diz que muitos jovens saem da universidade com diploma e sem emprego, "por uma razão aritmética: o número de diplomados é muitas vezes maior que o número de empregos". Isso mostra uma visão realista sobre a oferta limitada de trabalho para quem tem diploma. A) Errada: ele critica a ilusão em torno do diploma, não a realização dos vestibulares. B) Errada: o tom é crítico e pessimista quanto ao cenário. C) Errada: ele sugere aprender um ofício, mas não trata de atividades informais não assalariadas. E) Errada: ele fala do mercado de universidades particulares como negócio, mas não critica seus critérios de seleção. Referência: Rubem Alves, Diploma não é solução (Folha de S. Paulo, 2004). Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível A expectativa que persiste é o diploma como garantia de emprego e prestígio. O autor afirma que essa ilusão "continua a morar na cabeça dos pais" e dos filhos: profissão honrosa e rendosa seria a de diploma universitário. A expectativa que se mantém é, portanto, o diploma como garantia de emprego e reconhecimento. A, B e C são expectativas do passado, o seminário, o exército e o casamento, e o texto as apresenta como "naqueles tempos". D: o concurso público não é mencionado. Referência: Rubem Alves, "Diploma não é solução". Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível A tese é que o diploma não basta; dizer que as melhores carreiras são as universitárias a contradiz. A tese de Rubem Alves é que o diploma não garante emprego nem felicidade e que há outras opções de trabalho. A afirmação de que as melhores carreiras são as oferecidas pelas universidades reproduz a ilusão que ele critica. A: diplomados sem emprego sustentam a tese. B: diplomados descontentes sustentam a tese. D: ofícios mais rentáveis que algumas carreiras superiores sustentam a tese. E: quem trocou a profissão por outro ofício, como o amigo caminhoneiro, sustenta a tese. Referência: Rubem Alves, "Diploma não é solução". Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível "Aí o sinal fica verde e eu continuo" é coloquial. O marcador "Aí" como conectivo de sequência e o tom de relato oral caracterizam a coloquialidade. Os demais trechos seguem a norma culta formal. A, B, D e E usam vocabulário e construções neutras ou formais ("confessar um pecado", "salvem-se enquanto é tempo", "último patamar", "atestado de nobreza"), sem marcas orais. Referência: Variação linguística: registro coloquial e formal. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível "Tremia de medo de fazer discursos" não é ironia. A frase descreve literalmente o medo do amigo e não diz o contrário do que se quer expressar. Por isso não há ironia. O exagero "tremia de medo" seria, no máximo, hipérbole. A: "faço maldades, mas não faço por mal" é paradoxo. B: "imenso, mas imenso mesmo" intensifica o termo, seguindo a lógica de gradação adotada pela banca. C: alegria e tristeza são antíteses. E: "caminhão gigantesco" é hipérbole. Referência: Figuras de pensamento: paradoxo, antítese, hipérbole e ironia. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível Ambos os textos tratam da valorização do trabalho intelectual sobre o manual. No Texto 1, o diploma era "atestado de nobreza" para quem "não precisava trabalhar com as mãos". No Texto 2, o trabalho mental "não suja as mãos" e é digno dos antigos senhores, em contraste com o esforço físico. O ponto comum é, portanto, a valorização do trabalho intelectual em detrimento do manual. A: só o Texto 1 trata de escolhas profissionais. B: nenhum fala em absorção pelo mercado. C: só o Texto 2 trata do crescimento urbano. E: só o Texto 2 discute a formação histórico-social dessa distinção. Referência: Rubem Alves, "Diploma não é solução"; Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível O tom predominante do Texto 2 é crítico. O autor analisa criticamente a valorização do trabalho intelectual herdada da sociedade senhorial. Ele aponta o apego à "frase sonora", à "erudição ostentosa" e aos "brasões de nobreza", sem sarcasmo, humor ou revolta. Seu tom é analítico e crítico. A: não há saudade do passado. C: o sarcasmo não aparece, o tom é de análise. D: não há comicidade. E: não há indignação, apenas análise sociológica. Referência: Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível A vírgula é opcional antes do adjunto adverbial deslocado em "em contraste com as atividades". Em "o simples exercício da inteligência, em contraste com as atividades que requerem...", a locução "em contraste com..." é um complemento que pode ser separado ou não por vírgula. É por isso que o emprego é facultativo. A, B, D e E apresentam termos intercalados, apostos ou orações explicativas, cuja vírgula é obrigatória (ex.: "precipitada...", "que não suja as mãos...") ou marcam pausa obrigatória de interpolação. Referência: Emprego da vírgula; Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível Brás Cubas não afirma que a morte de Eulália foi a passagem mais triste de sua vida. A questão pede a alternativa incorreta. Brás não confessa que a morte precoce de Eulália foi o momento mais triste. Sua relação com Eulália é breve e ele a trata com a distância irônica típica do narrador, sem apontá-la como a maior dor da vida. A: a paixão da juventude por Marcela é destacada. B: o balanço final é melancólico, de saldo negativo. C: a franqueza e a falta de autocomplacência são marcas do narrador. D: o adultério com Virgília, mulher de Lobo Neves, é narrado. Referência: Machado de Assis, Memórias póstumas de Brás Cubas. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Pombinha escreve, aos domingos, as cartas ditadas pelos moradores. Em O cortiço, Pombinha, instruída, escreve as cartas dos moradores do cortiço aos domingos, ditadas por eles, e é admirada por isso. A: Rita Baiana seduz Jerônimo por atração e identificação, não só por vingança. C: Estela, mulher de Miranda, o trai. D: Bertoleza é explorada por João Romão e não tem apenas amor platônico por ele. E: Léonie, que não mora no cortiço, é prostituta, não lojista. Referência: Aluísio Azevedo, O cortiço. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível O título árcade contrasta com o realismo social dos versos. "Bucólica" remete à tradição árcade, que idealiza a vida campestre. Os versos mostram um camponês sem terra, que não colherá o que planta, e denunciam a desigualdade rural. O poema contrasta, portanto, o arcadismo do título com o realismo social do conteúdo. A: não há oposição campo/cidade. B: o bucolismo é só do título, os versos o negam. C: não há representação romântica. E: ao contrário, há representação realista do homem do campo. Referência: José Paulo Paes, Um por todos; paródia e ironia. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível A tragédia de São Bernardo vem do conflito entre Paulo Honório e Madalena. O desenlace trágico, o suicídio de Madalena, decorre do choque entre o temperamento possessivo e coisificador de Paulo Honório e a sensibilidade, a humanidade e os ideais de Madalena. Esse choque é agravado pelo ciúme dele. A: Madalena não se casa só por interesse financeiro. B: o ciúme é parte do conflito, mas a dúvida sobre a paternidade não é a causa central. C: o desinteresse pela fazenda é consequência, não causa. D: envolvimentos sexuais com empregadas não são o motivo do desenlace. Referência: Graciliano Ramos, São Bernardo. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível A 1ª estrofe usa metáforas da natureza para a infância, e a 2ª as desloca para a interioridade. Na 1ª estrofe, montanha e flor amarela representam, por metáfora, a infância guardada (I). Na 2ª, o "porém" não rompe a metáfora, apenas admite que o lugar pode ser outro. O foco passa a ser acreditar e guardar o menino dentro, o que desloca a imagem para a interioridade do sujeito (III). II é falsa: o "porém" mantém e redireciona a metáfora, sem rompê-la. Assim B, D e E estão incorretas. A omite III. Referência: Ivan Junqueira, Poemas reunidos; análise de metáfora. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível O poema mantém a estrutura da adivinha e a reinventa com resposta aberta e abstrata. O poema preserva traços formais da adivinha: a pergunta "o que é" e as oposições entre "mas" e o resultado. Por isso I é correta. Ele a reinventa ao não ter resposta única nem concreta, ao contrário do abacaxi, e ao tratar de sensações abstratas. Isso torna III correta. II é falsa: a resposta não é única nem concreta, pois o poema evoca o abstrato e o enigma fica aberto. Por isso B, D e E estão erradas. A omite III. Referência: Orides Fontela, Teia; poesia contemporânea e gêneros populares. Resolução comentada do VaiConcursos.ITA — Vestibular 2016 — Prova de Português (questões 21 a 40) e Redação
Texto 1
1 Vou confessar um pecado: às vezes, faço maldades. Mas não faço por mal. Faço o que faziam os
2 mestres zen com seus "koans". "Koans" eram rasteiras que os mestres passavam no pensamento dos
3 discípulos. Eles sabiam que só se aprende o novo quando as certezas velhas caem. E acontece que eu
4 gosto de passar rasteiras em certezas de jovens e de velhos...
5 Pois o que eu faço é o seguinte. Lá estão os jovens nos semáforos, de cabeças raspadas e caras
6 pintadas, na maior alegria, celebrando o fato de haverem passado no vestibular. Estão pedindo dinheiro para
7 a festa! Eu paro o carro, abro a janela e na maior seriedade digo: "Não vou dar dinheiro. Mas vou dar um
8 conselho. Sou professor emérito da Unicamp. O conselho é este: salvem-se enquanto é tempo!". Aí o sinal
9 fica verde e eu continuo.
10 "Mas que desmancha-prazeres você é!", vocês me dirão. É verdade. Desmancha-prazeres. Prazeres
11 inocentes baseados no engano. Porque aquela alegria toda se deve precisamente a isto: eles estão
12 enganados.
13 Estão alegres porque acreditam que a universidade é a chave do mundo. Acabaram de chegar ao
14 último patamar. As celebrações têm o mesmo sentido que os eventos iniciáticos – nas culturas ditas
15 primitivas, as provas a que têm de se submeter os jovens que passaram pela puberdade. Passadas as
16 provas e os seus sofrimentos, os jovens deixaram de ser crianças. Agora são adultos, com todos os seus
17 direitos e deveres. Podem assentar-se na roda dos homens. Assim como os nossos jovens agora podem
18 dizer: "Deixei o cursinho. Estou na universidade".
19 Houve um tempo em que as celebrações eram justas. Isso foi há muito tempo, quando eu era jovem.
20 Naqueles tempos, um diploma universitário era garantia de trabalho. Os pais se davam como prontos para
21 morrer quando uma destas coisas acontecia: 1) a filha se casava. Isso garantia o seu sustento pelo resto da
22 vida; 2) a filha tirava o diploma de normalista. Isso garantiria o seu sustento caso não casasse; 3) o filho
23 entrava para o Banco do Brasil; 4) o filho tirava diploma.
24 O diploma era mais que garantia de emprego. Era um atestado de nobreza. Quem tirava diploma não
25 precisava trabalhar com as mãos, como os mecânicos, pedreiros e carpinteiros, que tinham mãos rudes e
26 sujas.
27 Para provar para todo mundo que não trabalhavam com as mãos, os diplomados tratavam de pôr no
28 dedo um anel com pedra colorida. Havia pedras para todas as profissões: médicos, advogados, músicos,
29 engenheiros. Até os bispos tinham suas pedras.
30 (Ah! Ia me esquecendo: os pais também se davam como prontos para morrer quando o filho entrava
31 para o seminário para ser padre – aos 45 anos seria bispo – ou para o exército para ser oficial – aos 45 anos
32 seria general.)
33 Essa ilusão continua a morar na cabeça dos pais e é introduzida na cabeça dos filhos desde
34 pequenos. Profissão honrosa é profissão que tem diploma universitário. Profissão rendosa é a que tem
35 diploma universitário. Cria-se, então, a fantasia de que as únicas opções de profissão são aquelas oferecidas
36 pelas universidades.
37 Quando se pergunta a um jovem "O que é que você vai fazer?", o sentido dessa pergunta é "Quando
38 você for preencher os formulários do vestibular, qual das opções oferecidas você vai escolher?". E as
39 opções não oferecidas? Haverá alternativas de trabalho que não se encontram nos formulários de
40 vestibular?
41 Como todos os pais querem que seus filhos entrem na universidade e (quase) todos os jovens querem
42 entrar na universidade, configura-se um mercado imenso, mas imenso mesmo, de pessoas desejosas de
43 diplomas e prontas a pagar o preço. Enquanto houver jovens que não passam nos vestibulares das
44 universidades do Estado, haverá mercado para a criação de universidades particulares. É um bom negócio.
45 Alegria na entrada. Tristeza ao sair. Forma-se, então, a multidão de jovens com diploma na mão, mas
46 que não conseguem arranjar emprego. Por uma razão aritmética: o número de diplomados é muitas vezes
47 maior que o número de empregos.
48 Já sugeri que os jovens que entram na universidade deveriam aprender, junto com o curso "nobre"
49 que frequentam, um ofício: marceneiro, mecânico, cozinheiro, jardineiro, técnico de computador, eletricista,
50 encanador, descupinizador, motorista de trator... O rol de ofícios possíveis é imenso. Pena que, nas escolas,
51 as crianças e os jovens não sejam informados sobre essas alternativas, por vezes mais felizes e mais
52 rendosas.
53 Tive um amigo professor que foi guindado, contra a sua vontade, à posição de reitor de um grande
54 colégio americano no interior de Minas. Ele odiava essa posição porque era obrigado a fazer discursos. E ele
55 tremia de medo de fazer discursos. Um dia ele desapareceu sem explicações. Voltou com a família para o
56 seu país, os Estados Unidos. Tempos depois, encontrei um amigo comum e perguntei: "Como vai o
57 Fulano?". Respondeu-me: "Felicíssimo. É motorista de um caminhão gigantesco que cruza o país!".
(Rubem Alves. Diploma não é solução, Folha de S. Paulo, 25/05/2004.)
De acordo com o autor,Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 1
1 Vou confessar um pecado: às vezes, faço maldades. Mas não faço por mal. Faço o que faziam os
2 mestres zen com seus "koans". "Koans" eram rasteiras que os mestres passavam no pensamento dos
3 discípulos. Eles sabiam que só se aprende o novo quando as certezas velhas caem. E acontece que eu
4 gosto de passar rasteiras em certezas de jovens e de velhos...
5 Pois o que eu faço é o seguinte. Lá estão os jovens nos semáforos, de cabeças raspadas e caras
6 pintadas, na maior alegria, celebrando o fato de haverem passado no vestibular. Estão pedindo dinheiro para
7 a festa! Eu paro o carro, abro a janela e na maior seriedade digo: "Não vou dar dinheiro. Mas vou dar um
8 conselho. Sou professor emérito da Unicamp. O conselho é este: salvem-se enquanto é tempo!". Aí o sinal
9 fica verde e eu continuo.
10 "Mas que desmancha-prazeres você é!", vocês me dirão. É verdade. Desmancha-prazeres. Prazeres
11 inocentes baseados no engano. Porque aquela alegria toda se deve precisamente a isto: eles estão
12 enganados.
13 Estão alegres porque acreditam que a universidade é a chave do mundo. Acabaram de chegar ao
14 último patamar. As celebrações têm o mesmo sentido que os eventos iniciáticos – nas culturas ditas
15 primitivas, as provas a que têm de se submeter os jovens que passaram pela puberdade. Passadas as
16 provas e os seus sofrimentos, os jovens deixaram de ser crianças. Agora são adultos, com todos os seus
17 direitos e deveres. Podem assentar-se na roda dos homens. Assim como os nossos jovens agora podem
18 dizer: "Deixei o cursinho. Estou na universidade".
19 Houve um tempo em que as celebrações eram justas. Isso foi há muito tempo, quando eu era jovem.
20 Naqueles tempos, um diploma universitário era garantia de trabalho. Os pais se davam como prontos para
21 morrer quando uma destas coisas acontecia: 1) a filha se casava. Isso garantia o seu sustento pelo resto da
22 vida; 2) a filha tirava o diploma de normalista. Isso garantiria o seu sustento caso não casasse; 3) o filho
23 entrava para o Banco do Brasil; 4) o filho tirava diploma.
24 O diploma era mais que garantia de emprego. Era um atestado de nobreza. Quem tirava diploma não
25 precisava trabalhar com as mãos, como os mecânicos, pedreiros e carpinteiros, que tinham mãos rudes e
26 sujas.
27 Para provar para todo mundo que não trabalhavam com as mãos, os diplomados tratavam de pôr no
28 dedo um anel com pedra colorida. Havia pedras para todas as profissões: médicos, advogados, músicos,
29 engenheiros. Até os bispos tinham suas pedras.
30 (Ah! Ia me esquecendo: os pais também se davam como prontos para morrer quando o filho entrava
31 para o seminário para ser padre – aos 45 anos seria bispo – ou para o exército para ser oficial – aos 45 anos
32 seria general.)
33 Essa ilusão continua a morar na cabeça dos pais e é introduzida na cabeça dos filhos desde
34 pequenos. Profissão honrosa é profissão que tem diploma universitário. Profissão rendosa é a que tem
35 diploma universitário. Cria-se, então, a fantasia de que as únicas opções de profissão são aquelas oferecidas
36 pelas universidades.
37 Quando se pergunta a um jovem "O que é que você vai fazer?", o sentido dessa pergunta é "Quando
38 você for preencher os formulários do vestibular, qual das opções oferecidas você vai escolher?". E as
39 opções não oferecidas? Haverá alternativas de trabalho que não se encontram nos formulários de
40 vestibular?
41 Como todos os pais querem que seus filhos entrem na universidade e (quase) todos os jovens querem
42 entrar na universidade, configura-se um mercado imenso, mas imenso mesmo, de pessoas desejosas de
43 diplomas e prontas a pagar o preço. Enquanto houver jovens que não passam nos vestibulares das
44 universidades do Estado, haverá mercado para a criação de universidades particulares. É um bom negócio.
45 Alegria na entrada. Tristeza ao sair. Forma-se, então, a multidão de jovens com diploma na mão, mas
46 que não conseguem arranjar emprego. Por uma razão aritmética: o número de diplomados é muitas vezes
47 maior que o número de empregos.
48 Já sugeri que os jovens que entram na universidade deveriam aprender, junto com o curso "nobre"
49 que frequentam, um ofício: marceneiro, mecânico, cozinheiro, jardineiro, técnico de computador, eletricista,
50 encanador, descupinizador, motorista de trator... O rol de ofícios possíveis é imenso. Pena que, nas escolas,
51 as crianças e os jovens não sejam informados sobre essas alternativas, por vezes mais felizes e mais
52 rendosas.
53 Tive um amigo professor que foi guindado, contra a sua vontade, à posição de reitor de um grande
54 colégio americano no interior de Minas. Ele odiava essa posição porque era obrigado a fazer discursos. E ele
55 tremia de medo de fazer discursos. Um dia ele desapareceu sem explicações. Voltou com a família para o
56 seu país, os Estados Unidos. Tempos depois, encontrei um amigo comum e perguntei: "Como vai o
57 Fulano?". Respondeu-me: "Felicíssimo. É motorista de um caminhão gigantesco que cruza o país!".
(Rubem Alves. Diploma não é solução, Folha de S. Paulo, 25/05/2004.)
O autor mostra-seResolução comentada
Análise das alternativas
Texto 1
1 Vou confessar um pecado: às vezes, faço maldades. Mas não faço por mal. Faço o que faziam os
2 mestres zen com seus "koans". "Koans" eram rasteiras que os mestres passavam no pensamento dos
3 discípulos. Eles sabiam que só se aprende o novo quando as certezas velhas caem. E acontece que eu
4 gosto de passar rasteiras em certezas de jovens e de velhos...
5 Pois o que eu faço é o seguinte. Lá estão os jovens nos semáforos, de cabeças raspadas e caras
6 pintadas, na maior alegria, celebrando o fato de haverem passado no vestibular. Estão pedindo dinheiro para
7 a festa! Eu paro o carro, abro a janela e na maior seriedade digo: "Não vou dar dinheiro. Mas vou dar um
8 conselho. Sou professor emérito da Unicamp. O conselho é este: salvem-se enquanto é tempo!". Aí o sinal
9 fica verde e eu continuo.
10 "Mas que desmancha-prazeres você é!", vocês me dirão. É verdade. Desmancha-prazeres. Prazeres
11 inocentes baseados no engano. Porque aquela alegria toda se deve precisamente a isto: eles estão
12 enganados.
13 Estão alegres porque acreditam que a universidade é a chave do mundo. Acabaram de chegar ao
14 último patamar. As celebrações têm o mesmo sentido que os eventos iniciáticos – nas culturas ditas
15 primitivas, as provas a que têm de se submeter os jovens que passaram pela puberdade. Passadas as
16 provas e os seus sofrimentos, os jovens deixaram de ser crianças. Agora são adultos, com todos os seus
17 direitos e deveres. Podem assentar-se na roda dos homens. Assim como os nossos jovens agora podem
18 dizer: "Deixei o cursinho. Estou na universidade".
19 Houve um tempo em que as celebrações eram justas. Isso foi há muito tempo, quando eu era jovem.
20 Naqueles tempos, um diploma universitário era garantia de trabalho. Os pais se davam como prontos para
21 morrer quando uma destas coisas acontecia: 1) a filha se casava. Isso garantia o seu sustento pelo resto da
22 vida; 2) a filha tirava o diploma de normalista. Isso garantiria o seu sustento caso não casasse; 3) o filho
23 entrava para o Banco do Brasil; 4) o filho tirava diploma.
24 O diploma era mais que garantia de emprego. Era um atestado de nobreza. Quem tirava diploma não
25 precisava trabalhar com as mãos, como os mecânicos, pedreiros e carpinteiros, que tinham mãos rudes e
26 sujas.
27 Para provar para todo mundo que não trabalhavam com as mãos, os diplomados tratavam de pôr no
28 dedo um anel com pedra colorida. Havia pedras para todas as profissões: médicos, advogados, músicos,
29 engenheiros. Até os bispos tinham suas pedras.
30 (Ah! Ia me esquecendo: os pais também se davam como prontos para morrer quando o filho entrava
31 para o seminário para ser padre – aos 45 anos seria bispo – ou para o exército para ser oficial – aos 45 anos
32 seria general.)
33 Essa ilusão continua a morar na cabeça dos pais e é introduzida na cabeça dos filhos desde
34 pequenos. Profissão honrosa é profissão que tem diploma universitário. Profissão rendosa é a que tem
35 diploma universitário. Cria-se, então, a fantasia de que as únicas opções de profissão são aquelas oferecidas
36 pelas universidades.
37 Quando se pergunta a um jovem "O que é que você vai fazer?", o sentido dessa pergunta é "Quando
38 você for preencher os formulários do vestibular, qual das opções oferecidas você vai escolher?". E as
39 opções não oferecidas? Haverá alternativas de trabalho que não se encontram nos formulários de
40 vestibular?
41 Como todos os pais querem que seus filhos entrem na universidade e (quase) todos os jovens querem
42 entrar na universidade, configura-se um mercado imenso, mas imenso mesmo, de pessoas desejosas de
43 diplomas e prontas a pagar o preço. Enquanto houver jovens que não passam nos vestibulares das
44 universidades do Estado, haverá mercado para a criação de universidades particulares. É um bom negócio.
45 Alegria na entrada. Tristeza ao sair. Forma-se, então, a multidão de jovens com diploma na mão, mas
46 que não conseguem arranjar emprego. Por uma razão aritmética: o número de diplomados é muitas vezes
47 maior que o número de empregos.
48 Já sugeri que os jovens que entram na universidade deveriam aprender, junto com o curso "nobre"
49 que frequentam, um ofício: marceneiro, mecânico, cozinheiro, jardineiro, técnico de computador, eletricista,
50 encanador, descupinizador, motorista de trator... O rol de ofícios possíveis é imenso. Pena que, nas escolas,
51 as crianças e os jovens não sejam informados sobre essas alternativas, por vezes mais felizes e mais
52 rendosas.
53 Tive um amigo professor que foi guindado, contra a sua vontade, à posição de reitor de um grande
54 colégio americano no interior de Minas. Ele odiava essa posição porque era obrigado a fazer discursos. E ele
55 tremia de medo de fazer discursos. Um dia ele desapareceu sem explicações. Voltou com a família para o
56 seu país, os Estados Unidos. Tempos depois, encontrei um amigo comum e perguntei: "Como vai o
57 Fulano?". Respondeu-me: "Felicíssimo. É motorista de um caminhão gigantesco que cruza o país!".
(Rubem Alves. Diploma não é solução, Folha de S. Paulo, 25/05/2004.)
De acordo com o texto, uma expectativa da sociedade brasileira que ainda se mantém éResolução comentada
Análise das alternativas
Texto 1
1 Vou confessar um pecado: às vezes, faço maldades. Mas não faço por mal. Faço o que faziam os
2 mestres zen com seus "koans". "Koans" eram rasteiras que os mestres passavam no pensamento dos
3 discípulos. Eles sabiam que só se aprende o novo quando as certezas velhas caem. E acontece que eu
4 gosto de passar rasteiras em certezas de jovens e de velhos...
5 Pois o que eu faço é o seguinte. Lá estão os jovens nos semáforos, de cabeças raspadas e caras
6 pintadas, na maior alegria, celebrando o fato de haverem passado no vestibular. Estão pedindo dinheiro para
7 a festa! Eu paro o carro, abro a janela e na maior seriedade digo: "Não vou dar dinheiro. Mas vou dar um
8 conselho. Sou professor emérito da Unicamp. O conselho é este: salvem-se enquanto é tempo!". Aí o sinal
9 fica verde e eu continuo.
10 "Mas que desmancha-prazeres você é!", vocês me dirão. É verdade. Desmancha-prazeres. Prazeres
11 inocentes baseados no engano. Porque aquela alegria toda se deve precisamente a isto: eles estão
12 enganados.
13 Estão alegres porque acreditam que a universidade é a chave do mundo. Acabaram de chegar ao
14 último patamar. As celebrações têm o mesmo sentido que os eventos iniciáticos – nas culturas ditas
15 primitivas, as provas a que têm de se submeter os jovens que passaram pela puberdade. Passadas as
16 provas e os seus sofrimentos, os jovens deixaram de ser crianças. Agora são adultos, com todos os seus
17 direitos e deveres. Podem assentar-se na roda dos homens. Assim como os nossos jovens agora podem
18 dizer: "Deixei o cursinho. Estou na universidade".
19 Houve um tempo em que as celebrações eram justas. Isso foi há muito tempo, quando eu era jovem.
20 Naqueles tempos, um diploma universitário era garantia de trabalho. Os pais se davam como prontos para
21 morrer quando uma destas coisas acontecia: 1) a filha se casava. Isso garantia o seu sustento pelo resto da
22 vida; 2) a filha tirava o diploma de normalista. Isso garantiria o seu sustento caso não casasse; 3) o filho
23 entrava para o Banco do Brasil; 4) o filho tirava diploma.
24 O diploma era mais que garantia de emprego. Era um atestado de nobreza. Quem tirava diploma não
25 precisava trabalhar com as mãos, como os mecânicos, pedreiros e carpinteiros, que tinham mãos rudes e
26 sujas.
27 Para provar para todo mundo que não trabalhavam com as mãos, os diplomados tratavam de pôr no
28 dedo um anel com pedra colorida. Havia pedras para todas as profissões: médicos, advogados, músicos,
29 engenheiros. Até os bispos tinham suas pedras.
30 (Ah! Ia me esquecendo: os pais também se davam como prontos para morrer quando o filho entrava
31 para o seminário para ser padre – aos 45 anos seria bispo – ou para o exército para ser oficial – aos 45 anos
32 seria general.)
33 Essa ilusão continua a morar na cabeça dos pais e é introduzida na cabeça dos filhos desde
34 pequenos. Profissão honrosa é profissão que tem diploma universitário. Profissão rendosa é a que tem
35 diploma universitário. Cria-se, então, a fantasia de que as únicas opções de profissão são aquelas oferecidas
36 pelas universidades.
37 Quando se pergunta a um jovem "O que é que você vai fazer?", o sentido dessa pergunta é "Quando
38 você for preencher os formulários do vestibular, qual das opções oferecidas você vai escolher?". E as
39 opções não oferecidas? Haverá alternativas de trabalho que não se encontram nos formulários de
40 vestibular?
41 Como todos os pais querem que seus filhos entrem na universidade e (quase) todos os jovens querem
42 entrar na universidade, configura-se um mercado imenso, mas imenso mesmo, de pessoas desejosas de
43 diplomas e prontas a pagar o preço. Enquanto houver jovens que não passam nos vestibulares das
44 universidades do Estado, haverá mercado para a criação de universidades particulares. É um bom negócio.
45 Alegria na entrada. Tristeza ao sair. Forma-se, então, a multidão de jovens com diploma na mão, mas
46 que não conseguem arranjar emprego. Por uma razão aritmética: o número de diplomados é muitas vezes
47 maior que o número de empregos.
48 Já sugeri que os jovens que entram na universidade deveriam aprender, junto com o curso "nobre"
49 que frequentam, um ofício: marceneiro, mecânico, cozinheiro, jardineiro, técnico de computador, eletricista,
50 encanador, descupinizador, motorista de trator... O rol de ofícios possíveis é imenso. Pena que, nas escolas,
51 as crianças e os jovens não sejam informados sobre essas alternativas, por vezes mais felizes e mais
52 rendosas.
53 Tive um amigo professor que foi guindado, contra a sua vontade, à posição de reitor de um grande
54 colégio americano no interior de Minas. Ele odiava essa posição porque era obrigado a fazer discursos. E ele
55 tremia de medo de fazer discursos. Um dia ele desapareceu sem explicações. Voltou com a família para o
56 seu país, os Estados Unidos. Tempos depois, encontrei um amigo comum e perguntei: "Como vai o
57 Fulano?". Respondeu-me: "Felicíssimo. É motorista de um caminhão gigantesco que cruza o país!".
(Rubem Alves. Diploma não é solução, Folha de S. Paulo, 25/05/2004.)
Assinale a opção que NÃO sustenta a tese do autor.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 1
1 Vou confessar um pecado: às vezes, faço maldades. Mas não faço por mal. Faço o que faziam os
2 mestres zen com seus "koans". "Koans" eram rasteiras que os mestres passavam no pensamento dos
3 discípulos. Eles sabiam que só se aprende o novo quando as certezas velhas caem. E acontece que eu
4 gosto de passar rasteiras em certezas de jovens e de velhos...
5 Pois o que eu faço é o seguinte. Lá estão os jovens nos semáforos, de cabeças raspadas e caras
6 pintadas, na maior alegria, celebrando o fato de haverem passado no vestibular. Estão pedindo dinheiro para
7 a festa! Eu paro o carro, abro a janela e na maior seriedade digo: "Não vou dar dinheiro. Mas vou dar um
8 conselho. Sou professor emérito da Unicamp. O conselho é este: salvem-se enquanto é tempo!". Aí o sinal
9 fica verde e eu continuo.
10 "Mas que desmancha-prazeres você é!", vocês me dirão. É verdade. Desmancha-prazeres. Prazeres
11 inocentes baseados no engano. Porque aquela alegria toda se deve precisamente a isto: eles estão
12 enganados.
13 Estão alegres porque acreditam que a universidade é a chave do mundo. Acabaram de chegar ao
14 último patamar. As celebrações têm o mesmo sentido que os eventos iniciáticos – nas culturas ditas
15 primitivas, as provas a que têm de se submeter os jovens que passaram pela puberdade. Passadas as
16 provas e os seus sofrimentos, os jovens deixaram de ser crianças. Agora são adultos, com todos os seus
17 direitos e deveres. Podem assentar-se na roda dos homens. Assim como os nossos jovens agora podem
18 dizer: "Deixei o cursinho. Estou na universidade".
19 Houve um tempo em que as celebrações eram justas. Isso foi há muito tempo, quando eu era jovem.
20 Naqueles tempos, um diploma universitário era garantia de trabalho. Os pais se davam como prontos para
21 morrer quando uma destas coisas acontecia: 1) a filha se casava. Isso garantia o seu sustento pelo resto da
22 vida; 2) a filha tirava o diploma de normalista. Isso garantiria o seu sustento caso não casasse; 3) o filho
23 entrava para o Banco do Brasil; 4) o filho tirava diploma.
24 O diploma era mais que garantia de emprego. Era um atestado de nobreza. Quem tirava diploma não
25 precisava trabalhar com as mãos, como os mecânicos, pedreiros e carpinteiros, que tinham mãos rudes e
26 sujas.
27 Para provar para todo mundo que não trabalhavam com as mãos, os diplomados tratavam de pôr no
28 dedo um anel com pedra colorida. Havia pedras para todas as profissões: médicos, advogados, músicos,
29 engenheiros. Até os bispos tinham suas pedras.
30 (Ah! Ia me esquecendo: os pais também se davam como prontos para morrer quando o filho entrava
31 para o seminário para ser padre – aos 45 anos seria bispo – ou para o exército para ser oficial – aos 45 anos
32 seria general.)
33 Essa ilusão continua a morar na cabeça dos pais e é introduzida na cabeça dos filhos desde
34 pequenos. Profissão honrosa é profissão que tem diploma universitário. Profissão rendosa é a que tem
35 diploma universitário. Cria-se, então, a fantasia de que as únicas opções de profissão são aquelas oferecidas
36 pelas universidades.
37 Quando se pergunta a um jovem "O que é que você vai fazer?", o sentido dessa pergunta é "Quando
38 você for preencher os formulários do vestibular, qual das opções oferecidas você vai escolher?". E as
39 opções não oferecidas? Haverá alternativas de trabalho que não se encontram nos formulários de
40 vestibular?
41 Como todos os pais querem que seus filhos entrem na universidade e (quase) todos os jovens querem
42 entrar na universidade, configura-se um mercado imenso, mas imenso mesmo, de pessoas desejosas de
43 diplomas e prontas a pagar o preço. Enquanto houver jovens que não passam nos vestibulares das
44 universidades do Estado, haverá mercado para a criação de universidades particulares. É um bom negócio.
45 Alegria na entrada. Tristeza ao sair. Forma-se, então, a multidão de jovens com diploma na mão, mas
46 que não conseguem arranjar emprego. Por uma razão aritmética: o número de diplomados é muitas vezes
47 maior que o número de empregos.
48 Já sugeri que os jovens que entram na universidade deveriam aprender, junto com o curso "nobre"
49 que frequentam, um ofício: marceneiro, mecânico, cozinheiro, jardineiro, técnico de computador, eletricista,
50 encanador, descupinizador, motorista de trator... O rol de ofícios possíveis é imenso. Pena que, nas escolas,
51 as crianças e os jovens não sejam informados sobre essas alternativas, por vezes mais felizes e mais
52 rendosas.
53 Tive um amigo professor que foi guindado, contra a sua vontade, à posição de reitor de um grande
54 colégio americano no interior de Minas. Ele odiava essa posição porque era obrigado a fazer discursos. E ele
55 tremia de medo de fazer discursos. Um dia ele desapareceu sem explicações. Voltou com a família para o
56 seu país, os Estados Unidos. Tempos depois, encontrei um amigo comum e perguntei: "Como vai o
57 Fulano?". Respondeu-me: "Felicíssimo. É motorista de um caminhão gigantesco que cruza o país!".
(Rubem Alves. Diploma não é solução, Folha de S. Paulo, 25/05/2004.)
Considere a frase seguinte no seu contexto: “Essa ilusão continua a morar na cabeça dos pais”. O sintagma sublinhado diz respeito à
![]()
Texto 1
1 Vou confessar um pecado: às vezes, faço maldades. Mas não faço por mal. Faço o que faziam os
2 mestres zen com seus "koans". "Koans" eram rasteiras que os mestres passavam no pensamento dos
3 discípulos. Eles sabiam que só se aprende o novo quando as certezas velhas caem. E acontece que eu
4 gosto de passar rasteiras em certezas de jovens e de velhos...
5 Pois o que eu faço é o seguinte. Lá estão os jovens nos semáforos, de cabeças raspadas e caras
6 pintadas, na maior alegria, celebrando o fato de haverem passado no vestibular. Estão pedindo dinheiro para
7 a festa! Eu paro o carro, abro a janela e na maior seriedade digo: "Não vou dar dinheiro. Mas vou dar um
8 conselho. Sou professor emérito da Unicamp. O conselho é este: salvem-se enquanto é tempo!". Aí o sinal
9 fica verde e eu continuo.
10 "Mas que desmancha-prazeres você é!", vocês me dirão. É verdade. Desmancha-prazeres. Prazeres
11 inocentes baseados no engano. Porque aquela alegria toda se deve precisamente a isto: eles estão
12 enganados.
13 Estão alegres porque acreditam que a universidade é a chave do mundo. Acabaram de chegar ao
14 último patamar. As celebrações têm o mesmo sentido que os eventos iniciáticos – nas culturas ditas
15 primitivas, as provas a que têm de se submeter os jovens que passaram pela puberdade. Passadas as
16 provas e os seus sofrimentos, os jovens deixaram de ser crianças. Agora são adultos, com todos os seus
17 direitos e deveres. Podem assentar-se na roda dos homens. Assim como os nossos jovens agora podem
18 dizer: "Deixei o cursinho. Estou na universidade".
19 Houve um tempo em que as celebrações eram justas. Isso foi há muito tempo, quando eu era jovem.
20 Naqueles tempos, um diploma universitário era garantia de trabalho. Os pais se davam como prontos para
21 morrer quando uma destas coisas acontecia: 1) a filha se casava. Isso garantia o seu sustento pelo resto da
22 vida; 2) a filha tirava o diploma de normalista. Isso garantiria o seu sustento caso não casasse; 3) o filho
23 entrava para o Banco do Brasil; 4) o filho tirava diploma.
24 O diploma era mais que garantia de emprego. Era um atestado de nobreza. Quem tirava diploma não
25 precisava trabalhar com as mãos, como os mecânicos, pedreiros e carpinteiros, que tinham mãos rudes e
26 sujas.
27 Para provar para todo mundo que não trabalhavam com as mãos, os diplomados tratavam de pôr no
28 dedo um anel com pedra colorida. Havia pedras para todas as profissões: médicos, advogados, músicos,
29 engenheiros. Até os bispos tinham suas pedras.
30 (Ah! Ia me esquecendo: os pais também se davam como prontos para morrer quando o filho entrava
31 para o seminário para ser padre – aos 45 anos seria bispo – ou para o exército para ser oficial – aos 45 anos
32 seria general.)
33 Essa ilusão continua a morar na cabeça dos pais e é introduzida na cabeça dos filhos desde
34 pequenos. Profissão honrosa é profissão que tem diploma universitário. Profissão rendosa é a que tem
35 diploma universitário. Cria-se, então, a fantasia de que as únicas opções de profissão são aquelas oferecidas
36 pelas universidades.
37 Quando se pergunta a um jovem "O que é que você vai fazer?", o sentido dessa pergunta é "Quando
38 você for preencher os formulários do vestibular, qual das opções oferecidas você vai escolher?". E as
39 opções não oferecidas? Haverá alternativas de trabalho que não se encontram nos formulários de
40 vestibular?
41 Como todos os pais querem que seus filhos entrem na universidade e (quase) todos os jovens querem
42 entrar na universidade, configura-se um mercado imenso, mas imenso mesmo, de pessoas desejosas de
43 diplomas e prontas a pagar o preço. Enquanto houver jovens que não passam nos vestibulares das
44 universidades do Estado, haverá mercado para a criação de universidades particulares. É um bom negócio.
45 Alegria na entrada. Tristeza ao sair. Forma-se, então, a multidão de jovens com diploma na mão, mas
46 que não conseguem arranjar emprego. Por uma razão aritmética: o número de diplomados é muitas vezes
47 maior que o número de empregos.
48 Já sugeri que os jovens que entram na universidade deveriam aprender, junto com o curso "nobre"
49 que frequentam, um ofício: marceneiro, mecânico, cozinheiro, jardineiro, técnico de computador, eletricista,
50 encanador, descupinizador, motorista de trator... O rol de ofícios possíveis é imenso. Pena que, nas escolas,
51 as crianças e os jovens não sejam informados sobre essas alternativas, por vezes mais felizes e mais
52 rendosas.
53 Tive um amigo professor que foi guindado, contra a sua vontade, à posição de reitor de um grande
54 colégio americano no interior de Minas. Ele odiava essa posição porque era obrigado a fazer discursos. E ele
55 tremia de medo de fazer discursos. Um dia ele desapareceu sem explicações. Voltou com a família para o
56 seu país, os Estados Unidos. Tempos depois, encontrei um amigo comum e perguntei: "Como vai o
57 Fulano?". Respondeu-me: "Felicíssimo. É motorista de um caminhão gigantesco que cruza o país!".
(Rubem Alves. Diploma não é solução, Folha de S. Paulo, 25/05/2004.)
Assinale a opção que apresenta características de coloquialidade.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 1
1 Vou confessar um pecado: às vezes, faço maldades. Mas não faço por mal. Faço o que faziam os
2 mestres zen com seus "koans". "Koans" eram rasteiras que os mestres passavam no pensamento dos
3 discípulos. Eles sabiam que só se aprende o novo quando as certezas velhas caem. E acontece que eu
4 gosto de passar rasteiras em certezas de jovens e de velhos...
5 Pois o que eu faço é o seguinte. Lá estão os jovens nos semáforos, de cabeças raspadas e caras
6 pintadas, na maior alegria, celebrando o fato de haverem passado no vestibular. Estão pedindo dinheiro para
7 a festa! Eu paro o carro, abro a janela e na maior seriedade digo: "Não vou dar dinheiro. Mas vou dar um
8 conselho. Sou professor emérito da Unicamp. O conselho é este: salvem-se enquanto é tempo!". Aí o sinal
9 fica verde e eu continuo.
10 "Mas que desmancha-prazeres você é!", vocês me dirão. É verdade. Desmancha-prazeres. Prazeres
11 inocentes baseados no engano. Porque aquela alegria toda se deve precisamente a isto: eles estão
12 enganados.
13 Estão alegres porque acreditam que a universidade é a chave do mundo. Acabaram de chegar ao
14 último patamar. As celebrações têm o mesmo sentido que os eventos iniciáticos – nas culturas ditas
15 primitivas, as provas a que têm de se submeter os jovens que passaram pela puberdade. Passadas as
16 provas e os seus sofrimentos, os jovens deixaram de ser crianças. Agora são adultos, com todos os seus
17 direitos e deveres. Podem assentar-se na roda dos homens. Assim como os nossos jovens agora podem
18 dizer: "Deixei o cursinho. Estou na universidade".
19 Houve um tempo em que as celebrações eram justas. Isso foi há muito tempo, quando eu era jovem.
20 Naqueles tempos, um diploma universitário era garantia de trabalho. Os pais se davam como prontos para
21 morrer quando uma destas coisas acontecia: 1) a filha se casava. Isso garantia o seu sustento pelo resto da
22 vida; 2) a filha tirava o diploma de normalista. Isso garantiria o seu sustento caso não casasse; 3) o filho
23 entrava para o Banco do Brasil; 4) o filho tirava diploma.
24 O diploma era mais que garantia de emprego. Era um atestado de nobreza. Quem tirava diploma não
25 precisava trabalhar com as mãos, como os mecânicos, pedreiros e carpinteiros, que tinham mãos rudes e
26 sujas.
27 Para provar para todo mundo que não trabalhavam com as mãos, os diplomados tratavam de pôr no
28 dedo um anel com pedra colorida. Havia pedras para todas as profissões: médicos, advogados, músicos,
29 engenheiros. Até os bispos tinham suas pedras.
30 (Ah! Ia me esquecendo: os pais também se davam como prontos para morrer quando o filho entrava
31 para o seminário para ser padre – aos 45 anos seria bispo – ou para o exército para ser oficial – aos 45 anos
32 seria general.)
33 Essa ilusão continua a morar na cabeça dos pais e é introduzida na cabeça dos filhos desde
34 pequenos. Profissão honrosa é profissão que tem diploma universitário. Profissão rendosa é a que tem
35 diploma universitário. Cria-se, então, a fantasia de que as únicas opções de profissão são aquelas oferecidas
36 pelas universidades.
37 Quando se pergunta a um jovem "O que é que você vai fazer?", o sentido dessa pergunta é "Quando
38 você for preencher os formulários do vestibular, qual das opções oferecidas você vai escolher?". E as
39 opções não oferecidas? Haverá alternativas de trabalho que não se encontram nos formulários de
40 vestibular?
41 Como todos os pais querem que seus filhos entrem na universidade e (quase) todos os jovens querem
42 entrar na universidade, configura-se um mercado imenso, mas imenso mesmo, de pessoas desejosas de
43 diplomas e prontas a pagar o preço. Enquanto houver jovens que não passam nos vestibulares das
44 universidades do Estado, haverá mercado para a criação de universidades particulares. É um bom negócio.
45 Alegria na entrada. Tristeza ao sair. Forma-se, então, a multidão de jovens com diploma na mão, mas
46 que não conseguem arranjar emprego. Por uma razão aritmética: o número de diplomados é muitas vezes
47 maior que o número de empregos.
48 Já sugeri que os jovens que entram na universidade deveriam aprender, junto com o curso "nobre"
49 que frequentam, um ofício: marceneiro, mecânico, cozinheiro, jardineiro, técnico de computador, eletricista,
50 encanador, descupinizador, motorista de trator... O rol de ofícios possíveis é imenso. Pena que, nas escolas,
51 as crianças e os jovens não sejam informados sobre essas alternativas, por vezes mais felizes e mais
52 rendosas.
53 Tive um amigo professor que foi guindado, contra a sua vontade, à posição de reitor de um grande
54 colégio americano no interior de Minas. Ele odiava essa posição porque era obrigado a fazer discursos. E ele
55 tremia de medo de fazer discursos. Um dia ele desapareceu sem explicações. Voltou com a família para o
56 seu país, os Estados Unidos. Tempos depois, encontrei um amigo comum e perguntei: "Como vai o
57 Fulano?". Respondeu-me: "Felicíssimo. É motorista de um caminhão gigantesco que cruza o país!".
(Rubem Alves. Diploma não é solução, Folha de S. Paulo, 25/05/2004.)
Assinale a opção em que o segmento NÃO apresenta a figura de pensamento a ele atribuída.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 1
1 Vou confessar um pecado: às vezes, faço maldades. Mas não faço por mal. Faço o que faziam os
2 mestres zen com seus "koans". "Koans" eram rasteiras que os mestres passavam no pensamento dos
3 discípulos. Eles sabiam que só se aprende o novo quando as certezas velhas caem. E acontece que eu
4 gosto de passar rasteiras em certezas de jovens e de velhos...
5 Pois o que eu faço é o seguinte. Lá estão os jovens nos semáforos, de cabeças raspadas e caras
6 pintadas, na maior alegria, celebrando o fato de haverem passado no vestibular. Estão pedindo dinheiro para
7 a festa! Eu paro o carro, abro a janela e na maior seriedade digo: "Não vou dar dinheiro. Mas vou dar um
8 conselho. Sou professor emérito da Unicamp. O conselho é este: salvem-se enquanto é tempo!". Aí o sinal
9 fica verde e eu continuo.
10 "Mas que desmancha-prazeres você é!", vocês me dirão. É verdade. Desmancha-prazeres. Prazeres
11 inocentes baseados no engano. Porque aquela alegria toda se deve precisamente a isto: eles estão
12 enganados.
13 Estão alegres porque acreditam que a universidade é a chave do mundo. Acabaram de chegar ao
14 último patamar. As celebrações têm o mesmo sentido que os eventos iniciáticos – nas culturas ditas
15 primitivas, as provas a que têm de se submeter os jovens que passaram pela puberdade. Passadas as
16 provas e os seus sofrimentos, os jovens deixaram de ser crianças. Agora são adultos, com todos os seus
17 direitos e deveres. Podem assentar-se na roda dos homens. Assim como os nossos jovens agora podem
18 dizer: "Deixei o cursinho. Estou na universidade".
19 Houve um tempo em que as celebrações eram justas. Isso foi há muito tempo, quando eu era jovem.
20 Naqueles tempos, um diploma universitário era garantia de trabalho. Os pais se davam como prontos para
21 morrer quando uma destas coisas acontecia: 1) a filha se casava. Isso garantia o seu sustento pelo resto da
22 vida; 2) a filha tirava o diploma de normalista. Isso garantiria o seu sustento caso não casasse; 3) o filho
23 entrava para o Banco do Brasil; 4) o filho tirava diploma.
24 O diploma era mais que garantia de emprego. Era um atestado de nobreza. Quem tirava diploma não
25 precisava trabalhar com as mãos, como os mecânicos, pedreiros e carpinteiros, que tinham mãos rudes e
26 sujas.
27 Para provar para todo mundo que não trabalhavam com as mãos, os diplomados tratavam de pôr no
28 dedo um anel com pedra colorida. Havia pedras para todas as profissões: médicos, advogados, músicos,
29 engenheiros. Até os bispos tinham suas pedras.
30 (Ah! Ia me esquecendo: os pais também se davam como prontos para morrer quando o filho entrava
31 para o seminário para ser padre – aos 45 anos seria bispo – ou para o exército para ser oficial – aos 45 anos
32 seria general.)
33 Essa ilusão continua a morar na cabeça dos pais e é introduzida na cabeça dos filhos desde
34 pequenos. Profissão honrosa é profissão que tem diploma universitário. Profissão rendosa é a que tem
35 diploma universitário. Cria-se, então, a fantasia de que as únicas opções de profissão são aquelas oferecidas
36 pelas universidades.
37 Quando se pergunta a um jovem "O que é que você vai fazer?", o sentido dessa pergunta é "Quando
38 você for preencher os formulários do vestibular, qual das opções oferecidas você vai escolher?". E as
39 opções não oferecidas? Haverá alternativas de trabalho que não se encontram nos formulários de
40 vestibular?
41 Como todos os pais querem que seus filhos entrem na universidade e (quase) todos os jovens querem
42 entrar na universidade, configura-se um mercado imenso, mas imenso mesmo, de pessoas desejosas de
43 diplomas e prontas a pagar o preço. Enquanto houver jovens que não passam nos vestibulares das
44 universidades do Estado, haverá mercado para a criação de universidades particulares. É um bom negócio.
45 Alegria na entrada. Tristeza ao sair. Forma-se, então, a multidão de jovens com diploma na mão, mas
46 que não conseguem arranjar emprego. Por uma razão aritmética: o número de diplomados é muitas vezes
47 maior que o número de empregos.
48 Já sugeri que os jovens que entram na universidade deveriam aprender, junto com o curso "nobre"
49 que frequentam, um ofício: marceneiro, mecânico, cozinheiro, jardineiro, técnico de computador, eletricista,
50 encanador, descupinizador, motorista de trator... O rol de ofícios possíveis é imenso. Pena que, nas escolas,
51 as crianças e os jovens não sejam informados sobre essas alternativas, por vezes mais felizes e mais
52 rendosas.
53 Tive um amigo professor que foi guindado, contra a sua vontade, à posição de reitor de um grande
54 colégio americano no interior de Minas. Ele odiava essa posição porque era obrigado a fazer discursos. E ele
55 tremia de medo de fazer discursos. Um dia ele desapareceu sem explicações. Voltou com a família para o
56 seu país, os Estados Unidos. Tempos depois, encontrei um amigo comum e perguntei: "Como vai o
57 Fulano?". Respondeu-me: "Felicíssimo. É motorista de um caminhão gigantesco que cruza o país!".
(Rubem Alves. Diploma não é solução, Folha de S. Paulo, 25/05/2004.)
Assinale a opção em que o verbo ter apresenta valor semântico diferente das demais.
![]()
Texto 1
1 Vou confessar um pecado: às vezes, faço maldades. Mas não faço por mal. Faço o que faziam os
2 mestres zen com seus "koans". "Koans" eram rasteiras que os mestres passavam no pensamento dos
3 discípulos. Eles sabiam que só se aprende o novo quando as certezas velhas caem. E acontece que eu
4 gosto de passar rasteiras em certezas de jovens e de velhos...
5 Pois o que eu faço é o seguinte. Lá estão os jovens nos semáforos, de cabeças raspadas e caras
6 pintadas, na maior alegria, celebrando o fato de haverem passado no vestibular. Estão pedindo dinheiro para
7 a festa! Eu paro o carro, abro a janela e na maior seriedade digo: "Não vou dar dinheiro. Mas vou dar um
8 conselho. Sou professor emérito da Unicamp. O conselho é este: salvem-se enquanto é tempo!". Aí o sinal
9 fica verde e eu continuo.
10 "Mas que desmancha-prazeres você é!", vocês me dirão. É verdade. Desmancha-prazeres. Prazeres
11 inocentes baseados no engano. Porque aquela alegria toda se deve precisamente a isto: eles estão
12 enganados.
13 Estão alegres porque acreditam que a universidade é a chave do mundo. Acabaram de chegar ao
14 último patamar. As celebrações têm o mesmo sentido que os eventos iniciáticos – nas culturas ditas
15 primitivas, as provas a que têm de se submeter os jovens que passaram pela puberdade. Passadas as
16 provas e os seus sofrimentos, os jovens deixaram de ser crianças. Agora são adultos, com todos os seus
17 direitos e deveres. Podem assentar-se na roda dos homens. Assim como os nossos jovens agora podem
18 dizer: "Deixei o cursinho. Estou na universidade".
19 Houve um tempo em que as celebrações eram justas. Isso foi há muito tempo, quando eu era jovem.
20 Naqueles tempos, um diploma universitário era garantia de trabalho. Os pais se davam como prontos para
21 morrer quando uma destas coisas acontecia: 1) a filha se casava. Isso garantia o seu sustento pelo resto da
22 vida; 2) a filha tirava o diploma de normalista. Isso garantiria o seu sustento caso não casasse; 3) o filho
23 entrava para o Banco do Brasil; 4) o filho tirava diploma.
24 O diploma era mais que garantia de emprego. Era um atestado de nobreza. Quem tirava diploma não
25 precisava trabalhar com as mãos, como os mecânicos, pedreiros e carpinteiros, que tinham mãos rudes e
26 sujas.
27 Para provar para todo mundo que não trabalhavam com as mãos, os diplomados tratavam de pôr no
28 dedo um anel com pedra colorida. Havia pedras para todas as profissões: médicos, advogados, músicos,
29 engenheiros. Até os bispos tinham suas pedras.
30 (Ah! Ia me esquecendo: os pais também se davam como prontos para morrer quando o filho entrava
31 para o seminário para ser padre – aos 45 anos seria bispo – ou para o exército para ser oficial – aos 45 anos
32 seria general.)
33 Essa ilusão continua a morar na cabeça dos pais e é introduzida na cabeça dos filhos desde
34 pequenos. Profissão honrosa é profissão que tem diploma universitário. Profissão rendosa é a que tem
35 diploma universitário. Cria-se, então, a fantasia de que as únicas opções de profissão são aquelas oferecidas
36 pelas universidades.
37 Quando se pergunta a um jovem "O que é que você vai fazer?", o sentido dessa pergunta é "Quando
38 você for preencher os formulários do vestibular, qual das opções oferecidas você vai escolher?". E as
39 opções não oferecidas? Haverá alternativas de trabalho que não se encontram nos formulários de
40 vestibular?
41 Como todos os pais querem que seus filhos entrem na universidade e (quase) todos os jovens querem
42 entrar na universidade, configura-se um mercado imenso, mas imenso mesmo, de pessoas desejosas de
43 diplomas e prontas a pagar o preço. Enquanto houver jovens que não passam nos vestibulares das
44 universidades do Estado, haverá mercado para a criação de universidades particulares. É um bom negócio.
45 Alegria na entrada. Tristeza ao sair. Forma-se, então, a multidão de jovens com diploma na mão, mas
46 que não conseguem arranjar emprego. Por uma razão aritmética: o número de diplomados é muitas vezes
47 maior que o número de empregos.
48 Já sugeri que os jovens que entram na universidade deveriam aprender, junto com o curso "nobre"
49 que frequentam, um ofício: marceneiro, mecânico, cozinheiro, jardineiro, técnico de computador, eletricista,
50 encanador, descupinizador, motorista de trator... O rol de ofícios possíveis é imenso. Pena que, nas escolas,
51 as crianças e os jovens não sejam informados sobre essas alternativas, por vezes mais felizes e mais
52 rendosas.
53 Tive um amigo professor que foi guindado, contra a sua vontade, à posição de reitor de um grande
54 colégio americano no interior de Minas. Ele odiava essa posição porque era obrigado a fazer discursos. E ele
55 tremia de medo de fazer discursos. Um dia ele desapareceu sem explicações. Voltou com a família para o
56 seu país, os Estados Unidos. Tempos depois, encontrei um amigo comum e perguntei: "Como vai o
57 Fulano?". Respondeu-me: "Felicíssimo. É motorista de um caminhão gigantesco que cruza o país!".
(Rubem Alves. Diploma não é solução, Folha de S. Paulo, 25/05/2004.)
No trecho “Até os bispos tinham suas pedras.”, a palavra sublinhada expressa ideia de
![]()
Texto 1
1 Vou confessar um pecado: às vezes, faço maldades. Mas não faço por mal. Faço o que faziam os
2 mestres zen com seus "koans". "Koans" eram rasteiras que os mestres passavam no pensamento dos
3 discípulos. Eles sabiam que só se aprende o novo quando as certezas velhas caem. E acontece que eu
4 gosto de passar rasteiras em certezas de jovens e de velhos...
5 Pois o que eu faço é o seguinte. Lá estão os jovens nos semáforos, de cabeças raspadas e caras
6 pintadas, na maior alegria, celebrando o fato de haverem passado no vestibular. Estão pedindo dinheiro para
7 a festa! Eu paro o carro, abro a janela e na maior seriedade digo: "Não vou dar dinheiro. Mas vou dar um
8 conselho. Sou professor emérito da Unicamp. O conselho é este: salvem-se enquanto é tempo!". Aí o sinal
9 fica verde e eu continuo.
10 "Mas que desmancha-prazeres você é!", vocês me dirão. É verdade. Desmancha-prazeres. Prazeres
11 inocentes baseados no engano. Porque aquela alegria toda se deve precisamente a isto: eles estão
12 enganados.
13 Estão alegres porque acreditam que a universidade é a chave do mundo. Acabaram de chegar ao
14 último patamar. As celebrações têm o mesmo sentido que os eventos iniciáticos – nas culturas ditas
15 primitivas, as provas a que têm de se submeter os jovens que passaram pela puberdade. Passadas as
16 provas e os seus sofrimentos, os jovens deixaram de ser crianças. Agora são adultos, com todos os seus
17 direitos e deveres. Podem assentar-se na roda dos homens. Assim como os nossos jovens agora podem
18 dizer: "Deixei o cursinho. Estou na universidade".
19 Houve um tempo em que as celebrações eram justas. Isso foi há muito tempo, quando eu era jovem.
20 Naqueles tempos, um diploma universitário era garantia de trabalho. Os pais se davam como prontos para
21 morrer quando uma destas coisas acontecia: 1) a filha se casava. Isso garantia o seu sustento pelo resto da
22 vida; 2) a filha tirava o diploma de normalista. Isso garantiria o seu sustento caso não casasse; 3) o filho
23 entrava para o Banco do Brasil; 4) o filho tirava diploma.
24 O diploma era mais que garantia de emprego. Era um atestado de nobreza. Quem tirava diploma não
25 precisava trabalhar com as mãos, como os mecânicos, pedreiros e carpinteiros, que tinham mãos rudes e
26 sujas.
27 Para provar para todo mundo que não trabalhavam com as mãos, os diplomados tratavam de pôr no
28 dedo um anel com pedra colorida. Havia pedras para todas as profissões: médicos, advogados, músicos,
29 engenheiros. Até os bispos tinham suas pedras.
30 (Ah! Ia me esquecendo: os pais também se davam como prontos para morrer quando o filho entrava
31 para o seminário para ser padre – aos 45 anos seria bispo – ou para o exército para ser oficial – aos 45 anos
32 seria general.)
33 Essa ilusão continua a morar na cabeça dos pais e é introduzida na cabeça dos filhos desde
34 pequenos. Profissão honrosa é profissão que tem diploma universitário. Profissão rendosa é a que tem
35 diploma universitário. Cria-se, então, a fantasia de que as únicas opções de profissão são aquelas oferecidas
36 pelas universidades.
37 Quando se pergunta a um jovem "O que é que você vai fazer?", o sentido dessa pergunta é "Quando
38 você for preencher os formulários do vestibular, qual das opções oferecidas você vai escolher?". E as
39 opções não oferecidas? Haverá alternativas de trabalho que não se encontram nos formulários de
40 vestibular?
41 Como todos os pais querem que seus filhos entrem na universidade e (quase) todos os jovens querem
42 entrar na universidade, configura-se um mercado imenso, mas imenso mesmo, de pessoas desejosas de
43 diplomas e prontas a pagar o preço. Enquanto houver jovens que não passam nos vestibulares das
44 universidades do Estado, haverá mercado para a criação de universidades particulares. É um bom negócio.
45 Alegria na entrada. Tristeza ao sair. Forma-se, então, a multidão de jovens com diploma na mão, mas
46 que não conseguem arranjar emprego. Por uma razão aritmética: o número de diplomados é muitas vezes
47 maior que o número de empregos.
48 Já sugeri que os jovens que entram na universidade deveriam aprender, junto com o curso "nobre"
49 que frequentam, um ofício: marceneiro, mecânico, cozinheiro, jardineiro, técnico de computador, eletricista,
50 encanador, descupinizador, motorista de trator... O rol de ofícios possíveis é imenso. Pena que, nas escolas,
51 as crianças e os jovens não sejam informados sobre essas alternativas, por vezes mais felizes e mais
52 rendosas.
53 Tive um amigo professor que foi guindado, contra a sua vontade, à posição de reitor de um grande
54 colégio americano no interior de Minas. Ele odiava essa posição porque era obrigado a fazer discursos. E ele
55 tremia de medo de fazer discursos. Um dia ele desapareceu sem explicações. Voltou com a família para o
56 seu país, os Estados Unidos. Tempos depois, encontrei um amigo comum e perguntei: "Como vai o
57 Fulano?". Respondeu-me: "Felicíssimo. É motorista de um caminhão gigantesco que cruza o país!".
(Rubem Alves. Diploma não é solução, Folha de S. Paulo, 25/05/2004.)
Texto-base:
As questões 30 a 33 referem-se ao texto seguinte, extraído do livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, cuja primeira edição é de 1936.
Texto 2
1 Com o declínio da velha lavoura e a quase concomitante ascensão dos centros urbanos, precipitada
2 grandemente pela vinda, em 1808, da Corte Portuguesa e depois pela Independência, os senhorios rurais
3 principiam a perder muito de sua posição privilegiada e singular. Outras ocupações reclamam agora igual
4 eminência, ocupações nitidamente citadinas, como a atividade política, a burocracia, as profissões liberais.
5 É bem compreensível que semelhantes ocupações venham a caber, em primeiro lugar, à gente
6 principal do país, toda ela constituída de lavradores e donos de engenhos. E que, transportada de súbito
7 para as cidades, essa gente carregue consigo a mentalidade, os preconceitos e, tanto quanto possível, o
8 teor de vida que tinham sido atributos específicos de sua primitiva condição.
9 Não parece absurdo relacionar a tal circunstância um traço constante de nossa vida social: a posição
10 suprema que nela detêm, de ordinário, certas qualidades de imaginação e “inteligência”, em prejuízo das
11 manifestações do espírito prático ou positivo. O prestígio universal do “talento”, com o timbre particular que
12 recebe essa palavra nas regiões, sobretudo, onde deixou vinco mais forte a lavoura colonial e escravocrata,
13 como o são eminentemente as do Nordeste do Brasil, provém sem dúvida do maior decoro que parece
14 conferir a qualquer indivíduo o simples exercício da inteligência, em contraste com as atividades que
15 requerem algum esforço físico.
16 O trabalho mental, que não suja as mãos e não fatiga o corpo, pode constituir, com efeito, ocupação
17 em todos os sentidos digna de antigos senhores de escravos e dos seus herdeiros. Não significa
18 forçosamente, neste caso, amor ao pensamento especulativo, – a verdade é que, embora presumindo o
19 contrário, dedicamos, de modo geral, pouca estima às especulações intelectuais – mas amor à frase sonora,
20 ao verbo espontâneo e abundante, à erudição ostentosa, à expressão rara. E que para bem corresponder ao
21 papel que, mesmo sem o saber, lhe conferimos, inteligência há de ser ornamento e prenda, não instrumento
22 de conhecimento e de ação.
23 Numa sociedade como a nossa, em que certas virtudes senhoriais ainda merecem largo crédito, as
24 qualidades do espírito substituem, não raro, os títulos honoríficos, e alguns dos seus distintivos materiais,
25 como o anel de grau e a carta de bacharel, podem equivaler a autênticos brasões de nobreza. Aliás, o
26 exercício dessas qualidades que ocupam a inteligência sem ocupar os braços, tinha sido expressamente
27 considerado, já em outras épocas, como pertinente aos homens nobres e livres, de onde, segundo parece, o
28 nome de liberais dado a determinadas artes, em oposição às mecânicas que pertencem às classes servis.
(Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1984, p. 50-51)
Assinale a opção que expressa o que há de comum nos Textos 1 e 2.Resolução comentada
Análise das alternativas
As questões 30 a 33 referem-se ao texto seguinte, extraído do livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, cuja primeira edição é de 1936.
Texto 2
1 Com o declínio da velha lavoura e a quase concomitante ascensão dos centros urbanos, precipitada
2 grandemente pela vinda, em 1808, da Corte Portuguesa e depois pela Independência, os senhorios rurais
3 principiam a perder muito de sua posição privilegiada e singular. Outras ocupações reclamam agora igual
4 eminência, ocupações nitidamente citadinas, como a atividade política, a burocracia, as profissões liberais.
5 É bem compreensível que semelhantes ocupações venham a caber, em primeiro lugar, à gente
6 principal do país, toda ela constituída de lavradores e donos de engenhos. E que, transportada de súbito
7 para as cidades, essa gente carregue consigo a mentalidade, os preconceitos e, tanto quanto possível, o
8 teor de vida que tinham sido atributos específicos de sua primitiva condição.
9 Não parece absurdo relacionar a tal circunstância um traço constante de nossa vida social: a posição
10 suprema que nela detêm, de ordinário, certas qualidades de imaginação e “inteligência”, em prejuízo das
11 manifestações do espírito prático ou positivo. O prestígio universal do “talento”, com o timbre particular que
12 recebe essa palavra nas regiões, sobretudo, onde deixou vinco mais forte a lavoura colonial e escravocrata,
13 como o são eminentemente as do Nordeste do Brasil, provém sem dúvida do maior decoro que parece
14 conferir a qualquer indivíduo o simples exercício da inteligência, em contraste com as atividades que
15 requerem algum esforço físico.
16 O trabalho mental, que não suja as mãos e não fatiga o corpo, pode constituir, com efeito, ocupação
17 em todos os sentidos digna de antigos senhores de escravos e dos seus herdeiros. Não significa
18 forçosamente, neste caso, amor ao pensamento especulativo, – a verdade é que, embora presumindo o
19 contrário, dedicamos, de modo geral, pouca estima às especulações intelectuais – mas amor à frase sonora,
20 ao verbo espontâneo e abundante, à erudição ostentosa, à expressão rara. E que para bem corresponder ao
21 papel que, mesmo sem o saber, lhe conferimos, inteligência há de ser ornamento e prenda, não instrumento
22 de conhecimento e de ação.
23 Numa sociedade como a nossa, em que certas virtudes senhoriais ainda merecem largo crédito, as
24 qualidades do espírito substituem, não raro, os títulos honoríficos, e alguns dos seus distintivos materiais,
25 como o anel de grau e a carta de bacharel, podem equivaler a autênticos brasões de nobreza. Aliás, o
26 exercício dessas qualidades que ocupam a inteligência sem ocupar os braços, tinha sido expressamente
27 considerado, já em outras épocas, como pertinente aos homens nobres e livres, de onde, segundo parece, o
28 nome de liberais dado a determinadas artes, em oposição às mecânicas que pertencem às classes servis.
(Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1984, p. 50-51)
No Texto 2, há predominância do tomResolução comentada
Análise das alternativas
As questões 30 a 33 referem-se ao texto seguinte, extraído do livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, cuja primeira edição é de 1936.
Texto 2
1 Com o declínio da velha lavoura e a quase concomitante ascensão dos centros urbanos, precipitada
2 grandemente pela vinda, em 1808, da Corte Portuguesa e depois pela Independência, os senhorios rurais
3 principiam a perder muito de sua posição privilegiada e singular. Outras ocupações reclamam agora igual
4 eminência, ocupações nitidamente citadinas, como a atividade política, a burocracia, as profissões liberais.
5 É bem compreensível que semelhantes ocupações venham a caber, em primeiro lugar, à gente
6 principal do país, toda ela constituída de lavradores e donos de engenhos. E que, transportada de súbito
7 para as cidades, essa gente carregue consigo a mentalidade, os preconceitos e, tanto quanto possível, o
8 teor de vida que tinham sido atributos específicos de sua primitiva condição.
9 Não parece absurdo relacionar a tal circunstância um traço constante de nossa vida social: a posição
10 suprema que nela detêm, de ordinário, certas qualidades de imaginação e “inteligência”, em prejuízo das
11 manifestações do espírito prático ou positivo. O prestígio universal do “talento”, com o timbre particular que
12 recebe essa palavra nas regiões, sobretudo, onde deixou vinco mais forte a lavoura colonial e escravocrata,
13 como o são eminentemente as do Nordeste do Brasil, provém sem dúvida do maior decoro que parece
14 conferir a qualquer indivíduo o simples exercício da inteligência, em contraste com as atividades que
15 requerem algum esforço físico.
16 O trabalho mental, que não suja as mãos e não fatiga o corpo, pode constituir, com efeito, ocupação
17 em todos os sentidos digna de antigos senhores de escravos e dos seus herdeiros. Não significa
18 forçosamente, neste caso, amor ao pensamento especulativo, – a verdade é que, embora presumindo o
19 contrário, dedicamos, de modo geral, pouca estima às especulações intelectuais – mas amor à frase sonora,
20 ao verbo espontâneo e abundante, à erudição ostentosa, à expressão rara. E que para bem corresponder ao
21 papel que, mesmo sem o saber, lhe conferimos, inteligência há de ser ornamento e prenda, não instrumento
22 de conhecimento e de ação.
23 Numa sociedade como a nossa, em que certas virtudes senhoriais ainda merecem largo crédito, as
24 qualidades do espírito substituem, não raro, os títulos honoríficos, e alguns dos seus distintivos materiais,
25 como o anel de grau e a carta de bacharel, podem equivaler a autênticos brasões de nobreza. Aliás, o
26 exercício dessas qualidades que ocupam a inteligência sem ocupar os braços, tinha sido expressamente
27 considerado, já em outras épocas, como pertinente aos homens nobres e livres, de onde, segundo parece, o
28 nome de liberais dado a determinadas artes, em oposição às mecânicas que pertencem às classes servis.
(Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1984, p. 50-51)
Conforme a norma padrão da Língua Portuguesa, o emprego de vírgulas é opcional emResolução comentada
Análise das alternativas
As questões 30 a 33 referem-se ao texto seguinte, extraído do livro Raízes do Brasil, de Sérgio Buarque de Holanda, cuja primeira edição é de 1936.
Texto 2
1 Com o declínio da velha lavoura e a quase concomitante ascensão dos centros urbanos, precipitada
2 grandemente pela vinda, em 1808, da Corte Portuguesa e depois pela Independência, os senhorios rurais
3 principiam a perder muito de sua posição privilegiada e singular. Outras ocupações reclamam agora igual
4 eminência, ocupações nitidamente citadinas, como a atividade política, a burocracia, as profissões liberais.
5 É bem compreensível que semelhantes ocupações venham a caber, em primeiro lugar, à gente
6 principal do país, toda ela constituída de lavradores e donos de engenhos. E que, transportada de súbito
7 para as cidades, essa gente carregue consigo a mentalidade, os preconceitos e, tanto quanto possível, o
8 teor de vida que tinham sido atributos específicos de sua primitiva condição.
9 Não parece absurdo relacionar a tal circunstância um traço constante de nossa vida social: a posição
10 suprema que nela detêm, de ordinário, certas qualidades de imaginação e “inteligência”, em prejuízo das
11 manifestações do espírito prático ou positivo. O prestígio universal do “talento”, com o timbre particular que
12 recebe essa palavra nas regiões, sobretudo, onde deixou vinco mais forte a lavoura colonial e escravocrata,
13 como o são eminentemente as do Nordeste do Brasil, provém sem dúvida do maior decoro que parece
14 conferir a qualquer indivíduo o simples exercício da inteligência, em contraste com as atividades que
15 requerem algum esforço físico.
16 O trabalho mental, que não suja as mãos e não fatiga o corpo, pode constituir, com efeito, ocupação
17 em todos os sentidos digna de antigos senhores de escravos e dos seus herdeiros. Não significa
18 forçosamente, neste caso, amor ao pensamento especulativo, – a verdade é que, embora presumindo o
19 contrário, dedicamos, de modo geral, pouca estima às especulações intelectuais – mas amor à frase sonora,
20 ao verbo espontâneo e abundante, à erudição ostentosa, à expressão rara. E que para bem corresponder ao
21 papel que, mesmo sem o saber, lhe conferimos, inteligência há de ser ornamento e prenda, não instrumento
22 de conhecimento e de ação.
23 Numa sociedade como a nossa, em que certas virtudes senhoriais ainda merecem largo crédito, as
24 qualidades do espírito substituem, não raro, os títulos honoríficos, e alguns dos seus distintivos materiais,
25 como o anel de grau e a carta de bacharel, podem equivaler a autênticos brasões de nobreza. Aliás, o
26 exercício dessas qualidades que ocupam a inteligência sem ocupar os braços, tinha sido expressamente
27 considerado, já em outras épocas, como pertinente aos homens nobres e livres, de onde, segundo parece, o
28 nome de liberais dado a determinadas artes, em oposição às mecânicas que pertencem às classes servis.
(Sérgio Buarque de Holanda. Raízes do Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio, 1984, p. 50-51)
O emprego das aspas em “inteligência” (linha 10) e “talento” (linha 11) tem a função de
![]()
I. realçar ironicamente essas palavras.
II. retomar uma explicação dada anteriormente.
III. destacar que essas palavras não são peculiares ao estilo do autor.
Está(ão) correta(s) apenas:
![]()
Resolução comentada
Análise das alternativas
Resolução comentada
Análise das alternativas
Bucólica
O camponês sem terra
Detém a charrua
E pensa em colheitas
Que nunca serão suas.
(Em: Um por todos – poesia reunida. São Paulo: Brasiliense, 1986.)
O texto apresentaResolução comentada
Análise das alternativas
Resolução comentada
Análise das alternativas
Flor amarela
Atrás daquela montanha
tem uma flor amarela;
dentro da flor amarela,
o menino que você era.
Porém, se atrás daquela
montanha não houver
a tal flor amarela,
o importante é acreditar
que atrás de outra montanha
tenha uma flor amarela
com o menino que você era
guardado dentro dela.
(Em: Poemas reunidos. Rio de Janeiro: Record, 1999.)
O texto,
I. na 1ª estrofe, trata da infância por meio de metáforas construídas com elementos naturais (“montanha” e “flor amarela”).
II. na 2ª estrofe, por meio da conjunção “porém”, rompe com a representação metafórica presente na 1ª estrofe.
III. na sequência da 1ª para a 2ª estrofe, faz com que as metáforas apontem mais para a interioridade do sujeito que para a exterioridade da natureza.
Está(ão) correta(s) apenasResolução comentada
Análise das alternativas
Adivinha
O que é impalpável
mas
pesa
o que é sem rosto
mas
fere
o que é invisível
mas
dói.
(Em: Teia. São Paulo: Geração Editorial, 1996.)
Considere as seguintes afirmações:
I. O poema mantém alguns traços formais da adivinha popular.
II. Como a adivinha popular, a do poema possui uma única resposta, que é um elemento concreto.
III. A adivinha do poema é uma reinvenção da adivinha popular.
Está(ão) correta(s) apenas:Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto-base:
Texto-base:
Texto-base:
Texto-base:
Texto-base:
Texto-base:
Texto-base:
Texto-base:
Texto-base:
Texto-base:
Texto-base:
Texto-base:
Texto-base:
O efeito de humor da tirinha abaixo se deve
Sobre Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, é INCORRETO afirmar que o protagonista
Acerca das personagens femininas de O cortiço, de Aluísio Azevedo, podemos dizer que
O poema abaixo é de José Paulo Paes:
No romance São Bernardo, de Graciliano Ramos, o desenlace trágico decorre sobretudo
O poema ao lado é de Ivan Junqueira.
A adivinha é um gênero da oralidade popular que formula construções como: “O que é, o que é: tem escamas mas não é peixe, tem coroa mas não é rei? O abacaxi!. Ela consiste num jogo enigmático de perguntas que, por conter dualidades e oposições, leva o ouvinte a pensar. Considerando essa definição, leia o poema abaixo de Orides Fontela.