← Voltar para a lista de provas Instituto Militar de Engenharia (IME) · Concurso de Admissão — Português e Inglês 42 questões nesta prova · página 1 de 3 · 40 com gabarito Gabarito disponível Achar a opção em desacordo com os trechos de Arendt sobre pluralidade e ação. Arendt usa "política" no sentido amplo de vida em comum entre os homens (ação e pluralidade), e não no de política partidária das sociedades ocidentais. Por isso a C) está em desacordo com os trechos. A) a pluralidade é central no texto. B) o texto diz que somos todos humanos, mas ninguém é igual a outro. D) os trechos tratam da ação e da relação com o outro. E) o trecho III coloca a natalidade, e não a mortalidade, como categoria central. Referência: Interpretação de texto (Hannah Arendt, A Condição Humana) Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Interpretação do trecho sobre trabalho, artefato e vida mortal. Só a I é correta: o trabalho e seus produtos dão permanência e durabilidade à vida mortal, o que é uma consequência positiva que traz sentido. A II inverte a relação (a vida é fútil e efêmera; o artefato é que dá durabilidade). A III exagera ao falar em "eterna" permanência e na solução para quaisquer dificuldades. B) a III é exagerada. C), D) e E) incluem a II, que está invertida, ou a III, que é exagerada. Referência: Interpretação de texto (Hannah Arendt) Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Por que Arendt dá ênfase à natalidade. Para Arendt, o recém-chegado tem a capacidade de iniciar algo novo, ou seja, de agir. A natalidade se liga assim à ação, à iniciativa e à novidade no mundo. A) o texto não trata do corpo feminino. C) a autoria feminina não justifica a ênfase. D) a oposição à metafísica da morte é consequência, não a justificativa central. E) não há apelo feminista. Referência: Interpretação de texto (Hannah Arendt) Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Referente do pronome "os" em "macho e fêmea Ele os criou". O pronome oblíquo "os" retoma "macho e fêmea", os seres criados por Deus, ou seja, o objeto direto da oração, no plural pela soma dos dois termos. A) adam é a outra versão, singular. B) "Deus" é o sujeito ("Ele") e não o referente de "os". C) Homem e adam são a versão singular. D) a pluralidade vem depois, como resultado, e não é o antecedente. Referência: Coesão referencial: pronomes oblíquos Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Valor do futuro do pretérito "seria" no trecho. "A ação seria um luxo desnecessário se os homens não passassem de repetições..." é um período hipotético: o futuro do pretérito exprime um fato que depende de uma condição (a oração com "se"). A) surpresa/indignação não é o caso. B) não se trata de fato incerto, mas condicionado. D) o uso de cortesia (pedido educado) não ocorre aqui. E) futuro em relação a um passado não se aplica. Referência: Modos e tempos verbais: futuro do pretérito Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Par de adjetivos que corresponde às definições do bobo no texto 2. As cinco definições mostram o bobo como alguém que acha saídas originais (I), é um gênio como Dostoievski (II), é criativo (III), ganha a vida (IV) e sabe sem que se perceba (V). Isso leva a "sábio" e "engenhoso". A), B), C) e D) trazem adjetivos como sagaz, atento, vigilante, astuto, ágil e enérgico, associados ao esperto, que vive atento, vigilante e preocupado com espertezas. O bobo tem a sabedoria e a criatividade, não a astúcia. Referência: Interpretação de texto (Clarice Lispector) Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Análise semântica dos conectivos no trecho do aparelho. "Enquanto" em "enquanto o esperto não dorme à noite" contrapõe/compara o bobo tranquilo ao esperto inquieto, ideia de comparação/contraste, conforme o gabarito. A) "porque" expressa causa (explicação), não consequência. B) "sequer" é advérbio de inclusão/reforço da negação, não de exceção. C) "tão... que" expressa consequência. D) "portanto" expressa conclusão, não finalidade. Referência: Conectivos e relações semânticas Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Uso de crase, "há"/"a" e "às"/"as" nos quatro claros. (i) "atentos às espertezas": atentos exige preposição "a", e o substantivo feminino plural leva artigo "as", dando "às". (ii) "Há desvantagem": verbo haver, sentido de existir. (iii) "para a compra": a preposição "para" já está presente; só cabe o artigo "a", sem crase. (iv) "facilitam mais as pessoas serem bobas": "facilitam" não pede preposição, então só o artigo "as", sem crase. A) erra em (iv) com "às". B) erra em (i), (ii) e (iii). D) erra em (ii) e (iv). E) erra em (i), (ii) e (iii). Referência: Crase; haver x a Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Natureza do saber dos bobos em "sabem sem que ninguém desconfie". A autora apresenta o bobo como naturalmente criativo e sábio, de um saber espontâneo que não se anuncia. Assim, o bobo possui a sabedoria necessária para "ganhar a vida", sem precisar de esperteza. A) e B) sugerem que os bobos "se fazem de bobos", mas o texto diz que os espertos é que fingem ser bobos e não conseguem. D) fala em esperteza dissimulada e estratégia, o que contraria a espontaneidade do bobo. E) o bobo não se torna esperto. Referência: Interpretação de texto (Clarice Lispector) Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Achar o par de análises que destoa do texto 2 sobre esperto x bobo. A autora não diz que os sentimentos do esperto são mais intensos nem que o coração do bobo é pouco acessível. Ao contrário, ela diz que o bobo é capaz de excesso de amor, que é simpático e que tem boa-fé. Por isso a D) destoa. A), B), C) e E) estão de acordo com o texto: os espertos buscam vencer pela esperteza, mas podem acabar com úlcera, e os bobos têm espontaneidade, podem ser ludibriados e se metem em complicações, como a compra do aparelho. Referência: Interpretação de texto (Clarice Lispector) Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Classe e valor semântico de "só" em "só o bobo é capaz de excesso de amor". "Só" equivale a "somente", "apenas": é um advérbio de exclusão/restrição que incide sobre "o bobo", restringindo a capacidade de excesso de amor ao conjunto dos bobos. A) não compara bobos e espertos e não é adjetivo. B) "solidão" corresponde ao adjetivo "só", não ao uso do texto. C) não modifica "amor", e sim "o bobo". D) não incide sobre "capaz" nem intensifica. Referência: Classes de palavras: advérbio de exclusão/restrição Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Sentido do verbo "quero" nos versos 1 e 5. O verbo "querer" inicia pedidos que levam ao descanso e a um estado anterior à vida, ao interior, à origem ("semente"). Expressa, assim, a busca do ser humano por um reencontro consigo mesmo e com sua essência, longe do cansaço do mundo. B) não há alegria exploradora. C) o desejo do poema não é vazio; é de repouso e origem. D) não há relação destrutiva com a natureza. E) não se trata de ser feliz sem depender de ninguém. Referência: Interpretação de poema (Adélia Prado, "Exausto") Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Com o que "raízes" se contrapõe no poema. No fim do poema, "Semente. / Muito mais que raízes." opõe a semente (origem, potência, estado inicial) às raízes (já desenvolvimento, fixação). A semente é valorizada como "muito mais" que as raízes. B), C), D) e E) são elementos do início do poema (pedido de descanso e sono sem sonho) e não estabelecem oposição direta com "raízes". Referência: Relações de sentido e oposição no poema Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Qual afirmação decorre estritamente da escolha lexical "licença" e "perdão". Pedir "licença" e "perdão" para dormir e descansar mostra que o repouso é tratado como algo que exige autorização ou desculpa, ou seja, não é algo de que se usufrui normalmente. A conclusão deriva diretamente do vocabulário escolhido pela autora. A), B), C) e E) são leituras temáticas gerais (excesso de trabalho, produtividade, importância do descanso, agitação) que podem ser inferidas do poema, mas não se baseiam estritamente nas palavras escolhidas. Só a D) trata especificamente de "licença" e "perdão". Referência: Semântica: escolha lexical e sentido Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Sentido dos versos "sem ao menos sonhar a leve palha de um pequeno sonho". O eu lírico pede um descanso tão profundo que dispensa até o sonho mais leve. Isso revela um cansaço extremo (título "Exausto"), e o sonhar não é o objetivo da pausa, mas sim o repouso total. A) o poema não fala de lugares afastados ou da natureza urbana. B) não há desejo de bens materiais. D) o sonhar não é apresentado como obrigação. E) o texto diz o oposto: quer o sono sem sonhos, e não afirma que o sonho é próprio do sono profundo das espécies. Referência: Interpretação de poema (Adélia Prado, "Exausto") Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Identificar o sinônimo que alteraria o sentido de "semente" no poema. Em "Semente", o poema evoca o estado inicial, o começo, o germe, aquilo que precede a vida e as raízes. Origem, grão, princípio e início mantêm essa ideia de estado germinal. "Vida" é mais amplo e já pressupõe o desenvolvimento, que o poema situa depois ("antes da vida"), então muda o sentido. A), C) e E) expressam a ideia de começo/origem, compatível com semente. B) "grão" é praticamente sinônimo de semente. D) "vida" contradiz o verso 5, "o que antes da vida", pois a semente é anterior à vida desenvolvida. Referência: Semântica: sinonímia e contexto Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Comparação entre os textos 1 (Arendt) e 2 (Lispector). Ambos os textos, apesar do estilo muito diferente (um filosófico/acadêmico, outro crônica poética), tratam da forma como os humanos se relacionam e vivem entre si: a pluralidade e a ação em Arendt, a relação bobo/esperto em Lispector. Isso remete à ética. B) o texto 2 não é meramente informativo e denotativo; é literário, com muita conotação. C) o texto 1 é dissertativo/expositivo e o 2 é predominantemente argumentativo/reflexivo, não narrativo. D) o texto 2 também tem profundidade filosófica; a alternativa o desvaloriza. E) o estilo de Lispector é literário e subjetivo, não acadêmico. Referência: Interpretação comparativa de textos Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Identificar a regra de vírgula do trecho: separação de elementos de uma enumeração (sujeito composto). No trecho "crescimento espontâneo, metabolismo e eventual declínio", as vírgulas separam termos de mesma função sintática enumerados, com o último ligado por "e". Regra idêntica em "labor, trabalho e ação", que é uma enumeração de substantivos. B) a vírgula isola um aposto explicativo ("existência esta..."). C) a vírgula separa orações coordenadas, e a seguinte vem sem conectivo, com valor explicativo. D) a vírgula isola uma oração subordinada adjetiva explicativa. E) a vírgula marca o vocativo "Brutus" (no original; no trecho citado não há vírgula), portanto a regra é outra. Referência: Emprego da vírgula: enumeração de termos de mesma função Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Análise de assertivas sobre intertextualidade entre os textos 1, 2 e 3. A assertiva I é verdadeira: a semente (texto 3) remete ao labor (texto 1), ligado ao ciclo vital e à continuidade da vida sem ação deliberada. A II é verdadeira: Lispector inverte a lógica de que o esperto vence, mostrando as vantagens do bobo. A III é falsa, pois a alteridade, o estar entre os outros, é central no texto 1 (pluralidade, ação entre os homens) e aparece no texto 2 (relação bobo/esperto). A) incompleta, pois a I também é verdadeira. B) a III é falsa, já que a alteridade diz respeito ao texto 1 e ao 2. D) inclui a III, que é falsa, e exclui a I. E) inclui a III, que é falsa. Referência: Interpretação e intertextualidade (Arendt, Lispector, Adélia Prado) Resolução comentada do VaiConcursos.IME — Concurso de Admissão (Vestibular 2017-2018) — Prova de Português e Inglês
Texto 1
A CONDIÇÃO HUMANA
A Vita Activa e a Condição Humana
1 Com a expressão vita activa, pretendo designar três atividades humanas fundamentais:
labor, trabalho e ação. Trata-se de atividades fundamentais porque a cada uma delas
corresponde uma das condições básicas mediante as quais a vida foi dada ao homem na
Terra.
5 O labor é a atividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano, cujos
crescimento espontâneo, metabolismo e eventual declínio têm a ver com as necessidades
vitais produzidas e introduzidas pelo labor no processo da vida. A condição humana do labor
é a própria vida.
O trabalho é a atividade correspondente ao artificialismo da existência humana,
10 existência esta não necessariamente contida no eterno ciclo vital da espécie, e cuja
mortalidade não é compensada por este último. O trabalho produz um mundo “artificial” de
coisas, nitidamente diferente de qualquer ambiente natural. Dentro de suas fronteiras habita
cada vida individual, embora esse mundo se destine a sobreviver e a transcender todas as
vidas individuais. A condição humana do trabalho é a mundanidade.
15 A ação, única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das
coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade, ao fato de que
homens, e não o Homem, vivem na Terra e habitam o mundo. Todos os aspectos da
condição humana têm alguma relação com a política; mas esta pluralidade é especificamente
a condição – não apenas a conditio sine qua non, mas a conditio per quam – de toda a vida
20 política. Assim, o idioma dos romanos – talvez o povo mais político que conhecemos –
empregava como sinônimas as expressões “viver” e “estar entre os homens” (inter homines
esse), ou “morrer” e “deixar de estar entre os homens” (inter homines esse desinere). Mas,
em sua forma mais elementar, a condição humana da ação está implícita até mesmo em
Gênesis (macho e fêmea Ele os criou), se entendermos que esta versão da criação do
25 homem diverge, em princípio, da outra segundo a qual Deus originalmente criou o Homem
(adam) – a ele, e não a eles, de sorte que a pluralidade dos seres humanos vem a ser o
resultado da multiplicação¹. A ação seria um luxo desnecessário, uma caprichosa
interferência com as leis gerais do comportamento, se os homens não passassem de
repetições interminavelmente reproduzíveis do mesmo modelo, todas dotadas da mesma
30 natureza e essência, tão previsíveis quanto a natureza e a essência de qualquer outra coisa.
A pluralidade é a condição da ação humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é,
humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido,
exista ou venha a existir.
As três atividades e suas respectivas condições têm íntima relação com as condições
35 mais gerais da existência humana: o nascimento e a morte, a natalidade e a mortalidade. O
labor assegura não apenas a sobrevivência do indivíduo, mas a vida da espécie. O trabalho e
seu produto, o artefato humano, emprestam certa permanência e durabilidade à futilidade da
vida mortal e ao caráter efêmero do corpo humano. A ação, na medida em que se empenha
em fundar e preservar corpos políticos, cria a condição para a lembrança, ou seja, para a
40 história. O labor e o trabalho, bem como a ação, têm também raízes na natalidade, na
medida em que sua tarefa é produzir e preservar o mundo para o constante influxo de recém-
chegados que vêm a este mundo na qualidade de estranhos, além de prevê-los e levá-los em
conta. Não obstante, das três atividades, a ação é a mais intimamente relacionada com a
condição humana da natalidade; o novo começo inerente a cada nascimento pode fazer-se
45 sentir no mundo somente porque o recém-chegado possui a capacidade de iniciar algo novo,
isto é, de agir. Neste sentido de iniciativa, todas as atividades humanas possuem um
elemento de ação e, portanto, de natalidade. Além disto, como a ação é a atividade política
por excelência, a natalidade, e não a mortalidade, pode constituir a categoria central do
pensamento político, em contraposição ao pensamento metafísico.
50 A condição humana compreende algo mais que as condições nas quais a vida foi dada
ao homem. Os homens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual eles entram em
contato torna-se imediatamente uma condição de sua existência. O mundo no qual transcorre
a vita activa consiste em coisas produzidas pelas atividades humanas; mas, constantemente,
as coisas que devem sua existência exclusivamente aos homens também condicionam os
55 seus autores humanos. Além das condições nas quais a vida é dada ao homem na Terra e,
até certo ponto, a partir delas, os homens constantemente criam as suas próprias condições
que, a despeito de sua variabilidade e sua origem humana, possuem a mesma força
condicionante das coisas naturais. O que quer que toque a vida humana ou entre em
duradoura relação com ela, assume imediatamente o caráter de condição da existência
60 humana. É por isso que os homens, independentemente do que façam, são sempre seres
condicionados. Tudo o que espontaneamente adentra o mundo humano, ou para ele é trazido
pelo esforço humano, torna-se parte da condição humana. O impacto da realidade do mundo
sobre a existência humana é sentido e recebido como força condicionante. A objetividade do
mundo – o seu caráter de coisa ou objeto – e a condição humana complementam-se uma à
65 outra; por ser uma existência condicionada, a existência humana seria impossível sem as
coisas, e estas seriam um amontoado de artigos incoerentes, um não mundo, se esses
artigos não fossem condicionantes da existência humana.
ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Tradução de Roberto Raposo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981. pp. 15-17 (texto adaptado).
¹ Quando se analisa o pensamento político pós-clássico, muito se pode aprender verificando-se qual das duas versões bíblicas da criação é citada. Assim, é típico da diferença entre os ensinamentos de Jesus de Nazareth e de Paulo o fato de que Jesus, discutindo a relação entre marido e mulher, refere-se a Gênesis 1:27 “Não tendes lido que quem criou o homem desde o princípio fê-los macho e fêmea” (Mateus 19:4), enquanto Paulo, em ocasião semelhante, insiste em que a mulher foi criada “do homem” e, portanto, “para o homem”, embora em seguida atenue um pouco a dependência: “nem o varão é sem mulher, nem a mulher sem o varão” (1 Cor.11:8-12). A diferença indica muito mais que uma atitude diferente em relação ao papel da mulher. Para Jesus, a fé era intimamente relacionada com a ação; para Paulo, a fé relacionava-se, antes de mais nada, com a salvação. Especialmente interessante a este respeito é Agostinho (De civitate Dei xii.21), que não só desconsidera inteiramente o que é dito em Gênesis 1:27, mas vê a diferença entre o homem e o animal no fato de ter sido o homem criado unum ac singulum, enquanto se ordenou aos animais que “passassem a existir vários de uma só vez” (plura simul iussit existere). Para Agostinho, a história da criação constitui boa oportunidade para salientar-se o caráter de espécie da vida animal, em oposição à singularidade da existência humana.
Leia atentamente os trechos do texto 1 que foram recortados abaixo:
I. A ação, única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade, ao fato de que homens, e não o Homem, vivem na Terra e habitam o mundo (linhas 15 a 17);
II. A pluralidade é a condição da ação humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é, humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido, exista ou venha a existir (linhas 31 a 33);
III. Além disto, como a ação é a atividade política por excelência, a natalidade, e não a mortalidade, pode constituir a categoria central do pensamento político, em contraposição ao pensamento metafísico (linhas 47 a 49).
Dentre as opções abaixo, uma está em desacordo com as ideias destacadas acima. Aponte-a.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 1
A CONDIÇÃO HUMANA
A Vita Activa e a Condição Humana
1 Com a expressão vita activa, pretendo designar três atividades humanas fundamentais:
labor, trabalho e ação. Trata-se de atividades fundamentais porque a cada uma delas
corresponde uma das condições básicas mediante as quais a vida foi dada ao homem na
Terra.
5 O labor é a atividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano, cujos
crescimento espontâneo, metabolismo e eventual declínio têm a ver com as necessidades
vitais produzidas e introduzidas pelo labor no processo da vida. A condição humana do labor
é a própria vida.
O trabalho é a atividade correspondente ao artificialismo da existência humana,
10 existência esta não necessariamente contida no eterno ciclo vital da espécie, e cuja
mortalidade não é compensada por este último. O trabalho produz um mundo “artificial” de
coisas, nitidamente diferente de qualquer ambiente natural. Dentro de suas fronteiras habita
cada vida individual, embora esse mundo se destine a sobreviver e a transcender todas as
vidas individuais. A condição humana do trabalho é a mundanidade.
15 A ação, única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das
coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade, ao fato de que
homens, e não o Homem, vivem na Terra e habitam o mundo. Todos os aspectos da
condição humana têm alguma relação com a política; mas esta pluralidade é especificamente
a condição – não apenas a conditio sine qua non, mas a conditio per quam – de toda a vida
20 política. Assim, o idioma dos romanos – talvez o povo mais político que conhecemos –
empregava como sinônimas as expressões “viver” e “estar entre os homens” (inter homines
esse), ou “morrer” e “deixar de estar entre os homens” (inter homines esse desinere). Mas,
em sua forma mais elementar, a condição humana da ação está implícita até mesmo em
Gênesis (macho e fêmea Ele os criou), se entendermos que esta versão da criação do
25 homem diverge, em princípio, da outra segundo a qual Deus originalmente criou o Homem
(adam) – a ele, e não a eles, de sorte que a pluralidade dos seres humanos vem a ser o
resultado da multiplicação¹. A ação seria um luxo desnecessário, uma caprichosa
interferência com as leis gerais do comportamento, se os homens não passassem de
repetições interminavelmente reproduzíveis do mesmo modelo, todas dotadas da mesma
30 natureza e essência, tão previsíveis quanto a natureza e a essência de qualquer outra coisa.
A pluralidade é a condição da ação humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é,
humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido,
exista ou venha a existir.
As três atividades e suas respectivas condições têm íntima relação com as condições
35 mais gerais da existência humana: o nascimento e a morte, a natalidade e a mortalidade. O
labor assegura não apenas a sobrevivência do indivíduo, mas a vida da espécie. O trabalho e
seu produto, o artefato humano, emprestam certa permanência e durabilidade à futilidade da
vida mortal e ao caráter efêmero do corpo humano. A ação, na medida em que se empenha
em fundar e preservar corpos políticos, cria a condição para a lembrança, ou seja, para a
40 história. O labor e o trabalho, bem como a ação, têm também raízes na natalidade, na
medida em que sua tarefa é produzir e preservar o mundo para o constante influxo de recém-
chegados que vêm a este mundo na qualidade de estranhos, além de prevê-los e levá-los em
conta. Não obstante, das três atividades, a ação é a mais intimamente relacionada com a
condição humana da natalidade; o novo começo inerente a cada nascimento pode fazer-se
45 sentir no mundo somente porque o recém-chegado possui a capacidade de iniciar algo novo,
isto é, de agir. Neste sentido de iniciativa, todas as atividades humanas possuem um
elemento de ação e, portanto, de natalidade. Além disto, como a ação é a atividade política
por excelência, a natalidade, e não a mortalidade, pode constituir a categoria central do
pensamento político, em contraposição ao pensamento metafísico.
50 A condição humana compreende algo mais que as condições nas quais a vida foi dada
ao homem. Os homens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual eles entram em
contato torna-se imediatamente uma condição de sua existência. O mundo no qual transcorre
a vita activa consiste em coisas produzidas pelas atividades humanas; mas, constantemente,
as coisas que devem sua existência exclusivamente aos homens também condicionam os
55 seus autores humanos. Além das condições nas quais a vida é dada ao homem na Terra e,
até certo ponto, a partir delas, os homens constantemente criam as suas próprias condições
que, a despeito de sua variabilidade e sua origem humana, possuem a mesma força
condicionante das coisas naturais. O que quer que toque a vida humana ou entre em
duradoura relação com ela, assume imediatamente o caráter de condição da existência
60 humana. É por isso que os homens, independentemente do que façam, são sempre seres
condicionados. Tudo o que espontaneamente adentra o mundo humano, ou para ele é trazido
pelo esforço humano, torna-se parte da condição humana. O impacto da realidade do mundo
sobre a existência humana é sentido e recebido como força condicionante. A objetividade do
mundo – o seu caráter de coisa ou objeto – e a condição humana complementam-se uma à
65 outra; por ser uma existência condicionada, a existência humana seria impossível sem as
coisas, e estas seriam um amontoado de artigos incoerentes, um não mundo, se esses
artigos não fossem condicionantes da existência humana.
ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Tradução de Roberto Raposo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981. pp. 15-17 (texto adaptado).
¹ Quando se analisa o pensamento político pós-clássico, muito se pode aprender verificando-se qual das duas versões bíblicas da criação é citada. Assim, é típico da diferença entre os ensinamentos de Jesus de Nazareth e de Paulo o fato de que Jesus, discutindo a relação entre marido e mulher, refere-se a Gênesis 1:27 “Não tendes lido que quem criou o homem desde o princípio fê-los macho e fêmea” (Mateus 19:4), enquanto Paulo, em ocasião semelhante, insiste em que a mulher foi criada “do homem” e, portanto, “para o homem”, embora em seguida atenue um pouco a dependência: “nem o varão é sem mulher, nem a mulher sem o varão” (1 Cor.11:8-12). A diferença indica muito mais que uma atitude diferente em relação ao papel da mulher. Para Jesus, a fé era intimamente relacionada com a ação; para Paulo, a fé relacionava-se, antes de mais nada, com a salvação. Especialmente interessante a este respeito é Agostinho (De civitate Dei xii.21), que não só desconsidera inteiramente o que é dito em Gênesis 1:27, mas vê a diferença entre o homem e o animal no fato de ter sido o homem criado unum ac singulum, enquanto se ordenou aos animais que “passassem a existir vários de uma só vez” (plura simul iussit existere). Para Agostinho, a história da criação constitui boa oportunidade para salientar-se o caráter de espécie da vida animal, em oposição à singularidade da existência humana.
Marque a opção, dentre os trechos a seguir retirados do texto 1, em que o conectivo destacado em negrito é um recurso coesivo sequencial, ou seja, promove progressão argumentativa.
Texto 1
A CONDIÇÃO HUMANA
A Vita Activa e a Condição Humana
1 Com a expressão vita activa, pretendo designar três atividades humanas fundamentais:
labor, trabalho e ação. Trata-se de atividades fundamentais porque a cada uma delas
corresponde uma das condições básicas mediante as quais a vida foi dada ao homem na
Terra.
5 O labor é a atividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano, cujos
crescimento espontâneo, metabolismo e eventual declínio têm a ver com as necessidades
vitais produzidas e introduzidas pelo labor no processo da vida. A condição humana do labor
é a própria vida.
O trabalho é a atividade correspondente ao artificialismo da existência humana,
10 existência esta não necessariamente contida no eterno ciclo vital da espécie, e cuja
mortalidade não é compensada por este último. O trabalho produz um mundo “artificial” de
coisas, nitidamente diferente de qualquer ambiente natural. Dentro de suas fronteiras habita
cada vida individual, embora esse mundo se destine a sobreviver e a transcender todas as
vidas individuais. A condição humana do trabalho é a mundanidade.
15 A ação, única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das
coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade, ao fato de que
homens, e não o Homem, vivem na Terra e habitam o mundo. Todos os aspectos da
condição humana têm alguma relação com a política; mas esta pluralidade é especificamente
a condição – não apenas a conditio sine qua non, mas a conditio per quam – de toda a vida
20 política. Assim, o idioma dos romanos – talvez o povo mais político que conhecemos –
empregava como sinônimas as expressões “viver” e “estar entre os homens” (inter homines
esse), ou “morrer” e “deixar de estar entre os homens” (inter homines esse desinere). Mas,
em sua forma mais elementar, a condição humana da ação está implícita até mesmo em
Gênesis (macho e fêmea Ele os criou), se entendermos que esta versão da criação do
25 homem diverge, em princípio, da outra segundo a qual Deus originalmente criou o Homem
(adam) – a ele, e não a eles, de sorte que a pluralidade dos seres humanos vem a ser o
resultado da multiplicação¹. A ação seria um luxo desnecessário, uma caprichosa
interferência com as leis gerais do comportamento, se os homens não passassem de
repetições interminavelmente reproduzíveis do mesmo modelo, todas dotadas da mesma
30 natureza e essência, tão previsíveis quanto a natureza e a essência de qualquer outra coisa.
A pluralidade é a condição da ação humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é,
humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido,
exista ou venha a existir.
As três atividades e suas respectivas condições têm íntima relação com as condições
35 mais gerais da existência humana: o nascimento e a morte, a natalidade e a mortalidade. O
labor assegura não apenas a sobrevivência do indivíduo, mas a vida da espécie. O trabalho e
seu produto, o artefato humano, emprestam certa permanência e durabilidade à futilidade da
vida mortal e ao caráter efêmero do corpo humano. A ação, na medida em que se empenha
em fundar e preservar corpos políticos, cria a condição para a lembrança, ou seja, para a
40 história. O labor e o trabalho, bem como a ação, têm também raízes na natalidade, na
medida em que sua tarefa é produzir e preservar o mundo para o constante influxo de recém-
chegados que vêm a este mundo na qualidade de estranhos, além de prevê-los e levá-los em
conta. Não obstante, das três atividades, a ação é a mais intimamente relacionada com a
condição humana da natalidade; o novo começo inerente a cada nascimento pode fazer-se
45 sentir no mundo somente porque o recém-chegado possui a capacidade de iniciar algo novo,
isto é, de agir. Neste sentido de iniciativa, todas as atividades humanas possuem um
elemento de ação e, portanto, de natalidade. Além disto, como a ação é a atividade política
por excelência, a natalidade, e não a mortalidade, pode constituir a categoria central do
pensamento político, em contraposição ao pensamento metafísico.
50 A condição humana compreende algo mais que as condições nas quais a vida foi dada
ao homem. Os homens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual eles entram em
contato torna-se imediatamente uma condição de sua existência. O mundo no qual transcorre
a vita activa consiste em coisas produzidas pelas atividades humanas; mas, constantemente,
as coisas que devem sua existência exclusivamente aos homens também condicionam os
55 seus autores humanos. Além das condições nas quais a vida é dada ao homem na Terra e,
até certo ponto, a partir delas, os homens constantemente criam as suas próprias condições
que, a despeito de sua variabilidade e sua origem humana, possuem a mesma força
condicionante das coisas naturais. O que quer que toque a vida humana ou entre em
duradoura relação com ela, assume imediatamente o caráter de condição da existência
60 humana. É por isso que os homens, independentemente do que façam, são sempre seres
condicionados. Tudo o que espontaneamente adentra o mundo humano, ou para ele é trazido
pelo esforço humano, torna-se parte da condição humana. O impacto da realidade do mundo
sobre a existência humana é sentido e recebido como força condicionante. A objetividade do
mundo – o seu caráter de coisa ou objeto – e a condição humana complementam-se uma à
65 outra; por ser uma existência condicionada, a existência humana seria impossível sem as
coisas, e estas seriam um amontoado de artigos incoerentes, um não mundo, se esses
artigos não fossem condicionantes da existência humana.
ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Tradução de Roberto Raposo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981. pp. 15-17 (texto adaptado).
¹ Quando se analisa o pensamento político pós-clássico, muito se pode aprender verificando-se qual das duas versões bíblicas da criação é citada. Assim, é típico da diferença entre os ensinamentos de Jesus de Nazareth e de Paulo o fato de que Jesus, discutindo a relação entre marido e mulher, refere-se a Gênesis 1:27 “Não tendes lido que quem criou o homem desde o princípio fê-los macho e fêmea” (Mateus 19:4), enquanto Paulo, em ocasião semelhante, insiste em que a mulher foi criada “do homem” e, portanto, “para o homem”, embora em seguida atenue um pouco a dependência: “nem o varão é sem mulher, nem a mulher sem o varão” (1 Cor.11:8-12). A diferença indica muito mais que uma atitude diferente em relação ao papel da mulher. Para Jesus, a fé era intimamente relacionada com a ação; para Paulo, a fé relacionava-se, antes de mais nada, com a salvação. Especialmente interessante a este respeito é Agostinho (De civitate Dei xii.21), que não só desconsidera inteiramente o que é dito em Gênesis 1:27, mas vê a diferença entre o homem e o animal no fato de ter sido o homem criado unum ac singulum, enquanto se ordenou aos animais que “passassem a existir vários de uma só vez” (plura simul iussit existere). Para Agostinho, a história da criação constitui boa oportunidade para salientar-se o caráter de espécie da vida animal, em oposição à singularidade da existência humana.
Considere o trecho do texto 1 abaixo, leia as assertivas e marque a alternativa correta:
O trabalho e seu produto, o artefato humano, emprestam certa permanência e durabilidade à futilidade da vida mortal e ao caráter efêmero do corpo humano (linhas 36 a 38).
I. ...“emprestam certa permanência e durabilidade à futilidade da vida mortal” (linhas 37 e 38) é consequência positiva do trabalho humano, uma vez que confere sentido e significado à sua efêmera vida na Terra.
II. A autora afirma que a vida humana é fútil devido ao fato de o produto do trabalho humano ser efêmero.
III. A autora afirma que a efemeridade da vida humana na Terra é aliviada pela eterna e durável permanência do artefato humano, o qual traz sentido e solução a quaisquer dificuldades que os homens possam enfrentar em sua existência.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 1
A CONDIÇÃO HUMANA
A Vita Activa e a Condição Humana
1 Com a expressão vita activa, pretendo designar três atividades humanas fundamentais:
labor, trabalho e ação. Trata-se de atividades fundamentais porque a cada uma delas
corresponde uma das condições básicas mediante as quais a vida foi dada ao homem na
Terra.
5 O labor é a atividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano, cujos
crescimento espontâneo, metabolismo e eventual declínio têm a ver com as necessidades
vitais produzidas e introduzidas pelo labor no processo da vida. A condição humana do labor
é a própria vida.
O trabalho é a atividade correspondente ao artificialismo da existência humana,
10 existência esta não necessariamente contida no eterno ciclo vital da espécie, e cuja
mortalidade não é compensada por este último. O trabalho produz um mundo “artificial” de
coisas, nitidamente diferente de qualquer ambiente natural. Dentro de suas fronteiras habita
cada vida individual, embora esse mundo se destine a sobreviver e a transcender todas as
vidas individuais. A condição humana do trabalho é a mundanidade.
15 A ação, única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das
coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade, ao fato de que
homens, e não o Homem, vivem na Terra e habitam o mundo. Todos os aspectos da
condição humana têm alguma relação com a política; mas esta pluralidade é especificamente
a condição – não apenas a conditio sine qua non, mas a conditio per quam – de toda a vida
20 política. Assim, o idioma dos romanos – talvez o povo mais político que conhecemos –
empregava como sinônimas as expressões “viver” e “estar entre os homens” (inter homines
esse), ou “morrer” e “deixar de estar entre os homens” (inter homines esse desinere). Mas,
em sua forma mais elementar, a condição humana da ação está implícita até mesmo em
Gênesis (macho e fêmea Ele os criou), se entendermos que esta versão da criação do
25 homem diverge, em princípio, da outra segundo a qual Deus originalmente criou o Homem
(adam) – a ele, e não a eles, de sorte que a pluralidade dos seres humanos vem a ser o
resultado da multiplicação¹. A ação seria um luxo desnecessário, uma caprichosa
interferência com as leis gerais do comportamento, se os homens não passassem de
repetições interminavelmente reproduzíveis do mesmo modelo, todas dotadas da mesma
30 natureza e essência, tão previsíveis quanto a natureza e a essência de qualquer outra coisa.
A pluralidade é a condição da ação humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é,
humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido,
exista ou venha a existir.
As três atividades e suas respectivas condições têm íntima relação com as condições
35 mais gerais da existência humana: o nascimento e a morte, a natalidade e a mortalidade. O
labor assegura não apenas a sobrevivência do indivíduo, mas a vida da espécie. O trabalho e
seu produto, o artefato humano, emprestam certa permanência e durabilidade à futilidade da
vida mortal e ao caráter efêmero do corpo humano. A ação, na medida em que se empenha
em fundar e preservar corpos políticos, cria a condição para a lembrança, ou seja, para a
40 história. O labor e o trabalho, bem como a ação, têm também raízes na natalidade, na
medida em que sua tarefa é produzir e preservar o mundo para o constante influxo de recém-
chegados que vêm a este mundo na qualidade de estranhos, além de prevê-los e levá-los em
conta. Não obstante, das três atividades, a ação é a mais intimamente relacionada com a
condição humana da natalidade; o novo começo inerente a cada nascimento pode fazer-se
45 sentir no mundo somente porque o recém-chegado possui a capacidade de iniciar algo novo,
isto é, de agir. Neste sentido de iniciativa, todas as atividades humanas possuem um
elemento de ação e, portanto, de natalidade. Além disto, como a ação é a atividade política
por excelência, a natalidade, e não a mortalidade, pode constituir a categoria central do
pensamento político, em contraposição ao pensamento metafísico.
50 A condição humana compreende algo mais que as condições nas quais a vida foi dada
ao homem. Os homens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual eles entram em
contato torna-se imediatamente uma condição de sua existência. O mundo no qual transcorre
a vita activa consiste em coisas produzidas pelas atividades humanas; mas, constantemente,
as coisas que devem sua existência exclusivamente aos homens também condicionam os
55 seus autores humanos. Além das condições nas quais a vida é dada ao homem na Terra e,
até certo ponto, a partir delas, os homens constantemente criam as suas próprias condições
que, a despeito de sua variabilidade e sua origem humana, possuem a mesma força
condicionante das coisas naturais. O que quer que toque a vida humana ou entre em
duradoura relação com ela, assume imediatamente o caráter de condição da existência
60 humana. É por isso que os homens, independentemente do que façam, são sempre seres
condicionados. Tudo o que espontaneamente adentra o mundo humano, ou para ele é trazido
pelo esforço humano, torna-se parte da condição humana. O impacto da realidade do mundo
sobre a existência humana é sentido e recebido como força condicionante. A objetividade do
mundo – o seu caráter de coisa ou objeto – e a condição humana complementam-se uma à
65 outra; por ser uma existência condicionada, a existência humana seria impossível sem as
coisas, e estas seriam um amontoado de artigos incoerentes, um não mundo, se esses
artigos não fossem condicionantes da existência humana.
ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Tradução de Roberto Raposo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981. pp. 15-17 (texto adaptado).
¹ Quando se analisa o pensamento político pós-clássico, muito se pode aprender verificando-se qual das duas versões bíblicas da criação é citada. Assim, é típico da diferença entre os ensinamentos de Jesus de Nazareth e de Paulo o fato de que Jesus, discutindo a relação entre marido e mulher, refere-se a Gênesis 1:27 “Não tendes lido que quem criou o homem desde o princípio fê-los macho e fêmea” (Mateus 19:4), enquanto Paulo, em ocasião semelhante, insiste em que a mulher foi criada “do homem” e, portanto, “para o homem”, embora em seguida atenue um pouco a dependência: “nem o varão é sem mulher, nem a mulher sem o varão” (1 Cor.11:8-12). A diferença indica muito mais que uma atitude diferente em relação ao papel da mulher. Para Jesus, a fé era intimamente relacionada com a ação; para Paulo, a fé relacionava-se, antes de mais nada, com a salvação. Especialmente interessante a este respeito é Agostinho (De civitate Dei xii.21), que não só desconsidera inteiramente o que é dito em Gênesis 1:27, mas vê a diferença entre o homem e o animal no fato de ter sido o homem criado unum ac singulum, enquanto se ordenou aos animais que “passassem a existir vários de uma só vez” (plura simul iussit existere). Para Agostinho, a história da criação constitui boa oportunidade para salientar-se o caráter de espécie da vida animal, em oposição à singularidade da existência humana.
Observe o trecho do texto 1 abaixo destacado:
Não obstante, das três atividades, a ação é a mais intimamente relacionada com a condição humana da natalidade; o novo começo inerente a cada nascimento pode fazer-se sentir no mundo somente porque o recém-chegado possui a capacidade de iniciar algo novo, isto é, de agir. Neste sentido de iniciativa, todas as atividades humanas possuem um elemento de ação e, portanto, de natalidade (linhas 43 a 47).
A ênfase na “condição humana da natalidade” justifica-seResolução comentada
Análise das alternativas
Texto 1
A CONDIÇÃO HUMANA
A Vita Activa e a Condição Humana
1 Com a expressão vita activa, pretendo designar três atividades humanas fundamentais:
labor, trabalho e ação. Trata-se de atividades fundamentais porque a cada uma delas
corresponde uma das condições básicas mediante as quais a vida foi dada ao homem na
Terra.
5 O labor é a atividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano, cujos
crescimento espontâneo, metabolismo e eventual declínio têm a ver com as necessidades
vitais produzidas e introduzidas pelo labor no processo da vida. A condição humana do labor
é a própria vida.
O trabalho é a atividade correspondente ao artificialismo da existência humana,
10 existência esta não necessariamente contida no eterno ciclo vital da espécie, e cuja
mortalidade não é compensada por este último. O trabalho produz um mundo “artificial” de
coisas, nitidamente diferente de qualquer ambiente natural. Dentro de suas fronteiras habita
cada vida individual, embora esse mundo se destine a sobreviver e a transcender todas as
vidas individuais. A condição humana do trabalho é a mundanidade.
15 A ação, única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das
coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade, ao fato de que
homens, e não o Homem, vivem na Terra e habitam o mundo. Todos os aspectos da
condição humana têm alguma relação com a política; mas esta pluralidade é especificamente
a condição – não apenas a conditio sine qua non, mas a conditio per quam – de toda a vida
20 política. Assim, o idioma dos romanos – talvez o povo mais político que conhecemos –
empregava como sinônimas as expressões “viver” e “estar entre os homens” (inter homines
esse), ou “morrer” e “deixar de estar entre os homens” (inter homines esse desinere). Mas,
em sua forma mais elementar, a condição humana da ação está implícita até mesmo em
Gênesis (macho e fêmea Ele os criou), se entendermos que esta versão da criação do
25 homem diverge, em princípio, da outra segundo a qual Deus originalmente criou o Homem
(adam) – a ele, e não a eles, de sorte que a pluralidade dos seres humanos vem a ser o
resultado da multiplicação¹. A ação seria um luxo desnecessário, uma caprichosa
interferência com as leis gerais do comportamento, se os homens não passassem de
repetições interminavelmente reproduzíveis do mesmo modelo, todas dotadas da mesma
30 natureza e essência, tão previsíveis quanto a natureza e a essência de qualquer outra coisa.
A pluralidade é a condição da ação humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é,
humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido,
exista ou venha a existir.
As três atividades e suas respectivas condições têm íntima relação com as condições
35 mais gerais da existência humana: o nascimento e a morte, a natalidade e a mortalidade. O
labor assegura não apenas a sobrevivência do indivíduo, mas a vida da espécie. O trabalho e
seu produto, o artefato humano, emprestam certa permanência e durabilidade à futilidade da
vida mortal e ao caráter efêmero do corpo humano. A ação, na medida em que se empenha
em fundar e preservar corpos políticos, cria a condição para a lembrança, ou seja, para a
40 história. O labor e o trabalho, bem como a ação, têm também raízes na natalidade, na
medida em que sua tarefa é produzir e preservar o mundo para o constante influxo de recém-
chegados que vêm a este mundo na qualidade de estranhos, além de prevê-los e levá-los em
conta. Não obstante, das três atividades, a ação é a mais intimamente relacionada com a
condição humana da natalidade; o novo começo inerente a cada nascimento pode fazer-se
45 sentir no mundo somente porque o recém-chegado possui a capacidade de iniciar algo novo,
isto é, de agir. Neste sentido de iniciativa, todas as atividades humanas possuem um
elemento de ação e, portanto, de natalidade. Além disto, como a ação é a atividade política
por excelência, a natalidade, e não a mortalidade, pode constituir a categoria central do
pensamento político, em contraposição ao pensamento metafísico.
50 A condição humana compreende algo mais que as condições nas quais a vida foi dada
ao homem. Os homens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual eles entram em
contato torna-se imediatamente uma condição de sua existência. O mundo no qual transcorre
a vita activa consiste em coisas produzidas pelas atividades humanas; mas, constantemente,
as coisas que devem sua existência exclusivamente aos homens também condicionam os
55 seus autores humanos. Além das condições nas quais a vida é dada ao homem na Terra e,
até certo ponto, a partir delas, os homens constantemente criam as suas próprias condições
que, a despeito de sua variabilidade e sua origem humana, possuem a mesma força
condicionante das coisas naturais. O que quer que toque a vida humana ou entre em
duradoura relação com ela, assume imediatamente o caráter de condição da existência
60 humana. É por isso que os homens, independentemente do que façam, são sempre seres
condicionados. Tudo o que espontaneamente adentra o mundo humano, ou para ele é trazido
pelo esforço humano, torna-se parte da condição humana. O impacto da realidade do mundo
sobre a existência humana é sentido e recebido como força condicionante. A objetividade do
mundo – o seu caráter de coisa ou objeto – e a condição humana complementam-se uma à
65 outra; por ser uma existência condicionada, a existência humana seria impossível sem as
coisas, e estas seriam um amontoado de artigos incoerentes, um não mundo, se esses
artigos não fossem condicionantes da existência humana.
ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Tradução de Roberto Raposo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981. pp. 15-17 (texto adaptado).
¹ Quando se analisa o pensamento político pós-clássico, muito se pode aprender verificando-se qual das duas versões bíblicas da criação é citada. Assim, é típico da diferença entre os ensinamentos de Jesus de Nazareth e de Paulo o fato de que Jesus, discutindo a relação entre marido e mulher, refere-se a Gênesis 1:27 “Não tendes lido que quem criou o homem desde o princípio fê-los macho e fêmea” (Mateus 19:4), enquanto Paulo, em ocasião semelhante, insiste em que a mulher foi criada “do homem” e, portanto, “para o homem”, embora em seguida atenue um pouco a dependência: “nem o varão é sem mulher, nem a mulher sem o varão” (1 Cor.11:8-12). A diferença indica muito mais que uma atitude diferente em relação ao papel da mulher. Para Jesus, a fé era intimamente relacionada com a ação; para Paulo, a fé relacionava-se, antes de mais nada, com a salvação. Especialmente interessante a este respeito é Agostinho (De civitate Dei xii.21), que não só desconsidera inteiramente o que é dito em Gênesis 1:27, mas vê a diferença entre o homem e o animal no fato de ter sido o homem criado unum ac singulum, enquanto se ordenou aos animais que “passassem a existir vários de uma só vez” (plura simul iussit existere). Para Agostinho, a história da criação constitui boa oportunidade para salientar-se o caráter de espécie da vida animal, em oposição à singularidade da existência humana.
Leia atentamente o trecho abaixo destacado, retirado do texto 1.
Mas, em sua forma mais elementar, a condição humana da ação está implícita até mesmo em Gênesis (macho e fêmea Ele os criou), se entendermos que esta versão da criação do homem diverge, em princípio, da outra segundo a qual Deus originalmente criou o Homem (adam) – a ele, e não a eles, de sorte que a pluralidade dos seres humanos vem a ser o resultado da multiplicação (linhas 22 a 27).
Em (macho e fêmea Ele os criou) a forma pronominal os refere-seResolução comentada
Análise das alternativas
Texto 1
A CONDIÇÃO HUMANA
A Vita Activa e a Condição Humana
1 Com a expressão vita activa, pretendo designar três atividades humanas fundamentais:
labor, trabalho e ação. Trata-se de atividades fundamentais porque a cada uma delas
corresponde uma das condições básicas mediante as quais a vida foi dada ao homem na
Terra.
5 O labor é a atividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano, cujos
crescimento espontâneo, metabolismo e eventual declínio têm a ver com as necessidades
vitais produzidas e introduzidas pelo labor no processo da vida. A condição humana do labor
é a própria vida.
O trabalho é a atividade correspondente ao artificialismo da existência humana,
10 existência esta não necessariamente contida no eterno ciclo vital da espécie, e cuja
mortalidade não é compensada por este último. O trabalho produz um mundo “artificial” de
coisas, nitidamente diferente de qualquer ambiente natural. Dentro de suas fronteiras habita
cada vida individual, embora esse mundo se destine a sobreviver e a transcender todas as
vidas individuais. A condição humana do trabalho é a mundanidade.
15 A ação, única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das
coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade, ao fato de que
homens, e não o Homem, vivem na Terra e habitam o mundo. Todos os aspectos da
condição humana têm alguma relação com a política; mas esta pluralidade é especificamente
a condição – não apenas a conditio sine qua non, mas a conditio per quam – de toda a vida
20 política. Assim, o idioma dos romanos – talvez o povo mais político que conhecemos –
empregava como sinônimas as expressões “viver” e “estar entre os homens” (inter homines
esse), ou “morrer” e “deixar de estar entre os homens” (inter homines esse desinere). Mas,
em sua forma mais elementar, a condição humana da ação está implícita até mesmo em
Gênesis (macho e fêmea Ele os criou), se entendermos que esta versão da criação do
25 homem diverge, em princípio, da outra segundo a qual Deus originalmente criou o Homem
(adam) – a ele, e não a eles, de sorte que a pluralidade dos seres humanos vem a ser o
resultado da multiplicação¹. A ação seria um luxo desnecessário, uma caprichosa
interferência com as leis gerais do comportamento, se os homens não passassem de
repetições interminavelmente reproduzíveis do mesmo modelo, todas dotadas da mesma
30 natureza e essência, tão previsíveis quanto a natureza e a essência de qualquer outra coisa.
A pluralidade é a condição da ação humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é,
humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido,
exista ou venha a existir.
As três atividades e suas respectivas condições têm íntima relação com as condições
35 mais gerais da existência humana: o nascimento e a morte, a natalidade e a mortalidade. O
labor assegura não apenas a sobrevivência do indivíduo, mas a vida da espécie. O trabalho e
seu produto, o artefato humano, emprestam certa permanência e durabilidade à futilidade da
vida mortal e ao caráter efêmero do corpo humano. A ação, na medida em que se empenha
em fundar e preservar corpos políticos, cria a condição para a lembrança, ou seja, para a
40 história. O labor e o trabalho, bem como a ação, têm também raízes na natalidade, na
medida em que sua tarefa é produzir e preservar o mundo para o constante influxo de recém-
chegados que vêm a este mundo na qualidade de estranhos, além de prevê-los e levá-los em
conta. Não obstante, das três atividades, a ação é a mais intimamente relacionada com a
condição humana da natalidade; o novo começo inerente a cada nascimento pode fazer-se
45 sentir no mundo somente porque o recém-chegado possui a capacidade de iniciar algo novo,
isto é, de agir. Neste sentido de iniciativa, todas as atividades humanas possuem um
elemento de ação e, portanto, de natalidade. Além disto, como a ação é a atividade política
por excelência, a natalidade, e não a mortalidade, pode constituir a categoria central do
pensamento político, em contraposição ao pensamento metafísico.
50 A condição humana compreende algo mais que as condições nas quais a vida foi dada
ao homem. Os homens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual eles entram em
contato torna-se imediatamente uma condição de sua existência. O mundo no qual transcorre
a vita activa consiste em coisas produzidas pelas atividades humanas; mas, constantemente,
as coisas que devem sua existência exclusivamente aos homens também condicionam os
55 seus autores humanos. Além das condições nas quais a vida é dada ao homem na Terra e,
até certo ponto, a partir delas, os homens constantemente criam as suas próprias condições
que, a despeito de sua variabilidade e sua origem humana, possuem a mesma força
condicionante das coisas naturais. O que quer que toque a vida humana ou entre em
duradoura relação com ela, assume imediatamente o caráter de condição da existência
60 humana. É por isso que os homens, independentemente do que façam, são sempre seres
condicionados. Tudo o que espontaneamente adentra o mundo humano, ou para ele é trazido
pelo esforço humano, torna-se parte da condição humana. O impacto da realidade do mundo
sobre a existência humana é sentido e recebido como força condicionante. A objetividade do
mundo – o seu caráter de coisa ou objeto – e a condição humana complementam-se uma à
65 outra; por ser uma existência condicionada, a existência humana seria impossível sem as
coisas, e estas seriam um amontoado de artigos incoerentes, um não mundo, se esses
artigos não fossem condicionantes da existência humana.
ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Tradução de Roberto Raposo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981. pp. 15-17 (texto adaptado).
¹ Quando se analisa o pensamento político pós-clássico, muito se pode aprender verificando-se qual das duas versões bíblicas da criação é citada. Assim, é típico da diferença entre os ensinamentos de Jesus de Nazareth e de Paulo o fato de que Jesus, discutindo a relação entre marido e mulher, refere-se a Gênesis 1:27 “Não tendes lido que quem criou o homem desde o princípio fê-los macho e fêmea” (Mateus 19:4), enquanto Paulo, em ocasião semelhante, insiste em que a mulher foi criada “do homem” e, portanto, “para o homem”, embora em seguida atenue um pouco a dependência: “nem o varão é sem mulher, nem a mulher sem o varão” (1 Cor.11:8-12). A diferença indica muito mais que uma atitude diferente em relação ao papel da mulher. Para Jesus, a fé era intimamente relacionada com a ação; para Paulo, a fé relacionava-se, antes de mais nada, com a salvação. Especialmente interessante a este respeito é Agostinho (De civitate Dei xii.21), que não só desconsidera inteiramente o que é dito em Gênesis 1:27, mas vê a diferença entre o homem e o animal no fato de ter sido o homem criado unum ac singulum, enquanto se ordenou aos animais que “passassem a existir vários de uma só vez” (plura simul iussit existere). Para Agostinho, a história da criação constitui boa oportunidade para salientar-se o caráter de espécie da vida animal, em oposição à singularidade da existência humana.
Observe o trecho do texto 1 abaixo destacado:
(…) A ação seria um luxo desnecessário, uma caprichosa interferência com as leis gerais do comportamento, se os homens não passassem de repetições interminavelmente reproduzíveis do mesmo modelo, todas dotadas da mesma natureza e essência, tão previsíveis quanto a natureza e a essência de qualquer outra coisa. (linhas 27 a 30).
A forma verbal seria, destacada no trecho acima,Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 2
DAS VANTAGENS DE SER BOBO
1 O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O
bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não
faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando.".
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair
5 por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem. Os espertos estão
sempre tão atentos ____(i) espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os
veem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo
nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
10 ____(ii) desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um
desconhecido para ____(iii) compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o
aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a
boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a
opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais
15 valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não
desconfiar, e portanto estar tranquilo, enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser
ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de
quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a
20 célebre frase: "Até tu, Brutus?".
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse
sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser
25 bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não
conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos
ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás
não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais ____(iv) pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro,
30 com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não
nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase
impossível evitar o excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso
de amor. E só o amor faz o bobo.
LISPECTOR, Clarice. Das vantagens de ser bobo. Disponível em: http://www.revistapazes.com/das-vantagens-de-ser-bobo/. Acesso em 10 de maio de 2017. Originalmente publicado no Jornal do Brasil em 12 de setembro de 1970.
Considere as seguintes definições do “bobo” em comparação ao “esperto”, apontadas no texto 2:
I. Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída (linha 4).
II. o bobo é um Dostoievski (linha 9).
III. Ser bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil (linhas 24 e 25).
IV. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos ganham a vida (linhas 26 e 27).
V. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie (linha 27).
Dentre os pares de adjetivos abaixo listados, qual está em acordo com as definições do “bobo” elencadas acima?Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 2
DAS VANTAGENS DE SER BOBO
1 O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O
bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não
faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando.".
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair
5 por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem. Os espertos estão
sempre tão atentos ____(i) espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os
veem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo
nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
10 ____(ii) desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um
desconhecido para ____(iii) compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o
aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a
boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a
opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais
15 valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não
desconfiar, e portanto estar tranquilo, enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser
ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de
quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a
20 célebre frase: "Até tu, Brutus?".
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse
sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser
25 bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não
conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos
ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás
não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais ____(iv) pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro,
30 com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não
nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase
impossível evitar o excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso
de amor. E só o amor faz o bobo.
LISPECTOR, Clarice. Das vantagens de ser bobo. Disponível em: http://www.revistapazes.com/das-vantagens-de-ser-bobo/. Acesso em 10 de maio de 2017. Originalmente publicado no Jornal do Brasil em 12 de setembro de 1970.
Observe os conectivos destacados no trecho abaixo, retirado do texto 2. Assinale a opção em que a análise semântica está de acordo com a que foi estabelecida no texto.
(…) ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e portanto estar tranquilo, enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu (linhas 11 a 17).Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 2
DAS VANTAGENS DE SER BOBO
1 O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O
bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não
faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando.".
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair
5 por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem. Os espertos estão
sempre tão atentos ____(i) espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os
veem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo
nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
10 ____(ii) desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um
desconhecido para ____(iii) compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o
aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a
boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a
opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais
15 valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não
desconfiar, e portanto estar tranquilo, enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser
ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de
quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a
20 célebre frase: "Até tu, Brutus?".
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse
sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser
25 bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não
conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos
ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás
não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais ____(iv) pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro,
30 com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não
nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase
impossível evitar o excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso
de amor. E só o amor faz o bobo.
LISPECTOR, Clarice. Das vantagens de ser bobo. Disponível em: http://www.revistapazes.com/das-vantagens-de-ser-bobo/. Acesso em 10 de maio de 2017. Originalmente publicado no Jornal do Brasil em 12 de setembro de 1970.
Marque a opção que completa corretamente os claros encontrados no texto 2, abaixo destacados:
Os espertos estão sempre tão atentos ____(i) espertezas alheias (linhas 6 e 7);
____(ii) desvantagem, obviamente (linha 10);
confiou na palavra de um desconhecido para ____(iii) compra de um ar refrigerado de segunda mão (linhas 10 e 11);
Há lugares que facilitam mais ____(iv) pessoas serem bobas (linha 29).Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 2
DAS VANTAGENS DE SER BOBO
1 O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O
bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não
faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando.".
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair
5 por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem. Os espertos estão
sempre tão atentos ____(i) espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os
veem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo
nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
10 ____(ii) desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um
desconhecido para ____(iii) compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o
aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a
boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a
opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais
15 valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não
desconfiar, e portanto estar tranquilo, enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser
ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de
quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a
20 célebre frase: "Até tu, Brutus?".
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse
sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser
25 bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não
conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos
ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás
não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais ____(iv) pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro,
30 com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não
nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase
impossível evitar o excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso
de amor. E só o amor faz o bobo.
LISPECTOR, Clarice. Das vantagens de ser bobo. Disponível em: http://www.revistapazes.com/das-vantagens-de-ser-bobo/. Acesso em 10 de maio de 2017. Originalmente publicado no Jornal do Brasil em 12 de setembro de 1970.
Considere o trecho abaixo, retirado do texto 2:
Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás não se importam que saibam que eles sabem (linhas 27 e 28).
A autora discorre sobre a posse de um saber. A respeito desse saber, podemos afirmar queResolução comentada
Análise das alternativas
Texto 2
DAS VANTAGENS DE SER BOBO
1 O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O
bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não
faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando.".
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair
5 por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem. Os espertos estão
sempre tão atentos ____(i) espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os
veem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo
nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
10 ____(ii) desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um
desconhecido para ____(iii) compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o
aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a
boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a
opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais
15 valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não
desconfiar, e portanto estar tranquilo, enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser
ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de
quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a
20 célebre frase: "Até tu, Brutus?".
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse
sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser
25 bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não
conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos
ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás
não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais ____(iv) pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro,
30 com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não
nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase
impossível evitar o excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso
de amor. E só o amor faz o bobo.
LISPECTOR, Clarice. Das vantagens de ser bobo. Disponível em: http://www.revistapazes.com/das-vantagens-de-ser-bobo/. Acesso em 10 de maio de 2017. Originalmente publicado no Jornal do Brasil em 12 de setembro de 1970.
Sobre as considerações a respeito de ser esperto vs. ser bobo encontradas no texto 2, assinale o par de análises que destoa das considerações feitas pela autora.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 2
DAS VANTAGENS DE SER BOBO
1 O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O
bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não
faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando.".
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair
5 por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem. Os espertos estão
sempre tão atentos ____(i) espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os
veem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo
nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
10 ____(ii) desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um
desconhecido para ____(iii) compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o
aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a
boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a
opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais
15 valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não
desconfiar, e portanto estar tranquilo, enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser
ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de
quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a
20 célebre frase: "Até tu, Brutus?".
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse
sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser
25 bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não
conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos
ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás
não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais ____(iv) pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro,
30 com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não
nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase
impossível evitar o excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso
de amor. E só o amor faz o bobo.
LISPECTOR, Clarice. Das vantagens de ser bobo. Disponível em: http://www.revistapazes.com/das-vantagens-de-ser-bobo/. Acesso em 10 de maio de 2017. Originalmente publicado no Jornal do Brasil em 12 de setembro de 1970.
Na frase “só o bobo é capaz de excesso de amor” (texto 2, linhas 33 e 34), a semântica da palavra só, nesse contexto,Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 3
EXAUSTO
1 Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
5 Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
PRADO, Adelia. Exausto. Disponível em <http://byluleoa-tecendopalavras.blogspot.com.br/>. Acesso em 31/07/17.
A respeito da forma verbal quero (texto 3, versos 1 e 5), podemos afirmar queResolução comentada
Análise das alternativas
Texto 3
EXAUSTO
1 Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
5 Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
PRADO, Adelia. Exausto. Disponível em <http://byluleoa-tecendopalavras.blogspot.com.br/>. Acesso em 31/07/17.
O vocábulo raízes (texto 3, verso 9) se contrapõe aResolução comentada
Análise das alternativas
Texto 3
EXAUSTO
1 Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
5 Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
PRADO, Adelia. Exausto. Disponível em <http://byluleoa-tecendopalavras.blogspot.com.br/>. Acesso em 31/07/17.
Nas opções abaixo, encontram-se cinco afirmações sobre o texto 3. Qual delas está estritamente relacionada à escolha lexical feita pela autora?Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 3
EXAUSTO
1 Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
5 Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
PRADO, Adelia. Exausto. Disponível em <http://byluleoa-tecendopalavras.blogspot.com.br/>. Acesso em 31/07/17.
A respeito dos versos abaixo (texto 3, versos 3 e 4),
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
podemos afirmar queResolução comentada
Análise das alternativas
Texto 3
EXAUSTO
1 Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
5 Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
PRADO, Adelia. Exausto. Disponível em <http://byluleoa-tecendopalavras.blogspot.com.br/>. Acesso em 31/07/17.
Qual das palavras a seguir substituindo a palavra semente no texto 3, verso 8, acarretaria mudança de sentido?Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 1
A CONDIÇÃO HUMANA
A Vita Activa e a Condição Humana
1 Com a expressão vita activa, pretendo designar três atividades humanas fundamentais:
labor, trabalho e ação. Trata-se de atividades fundamentais porque a cada uma delas
corresponde uma das condições básicas mediante as quais a vida foi dada ao homem na
Terra.
5 O labor é a atividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano, cujos
crescimento espontâneo, metabolismo e eventual declínio têm a ver com as necessidades
vitais produzidas e introduzidas pelo labor no processo da vida. A condição humana do labor
é a própria vida.
O trabalho é a atividade correspondente ao artificialismo da existência humana,
10 existência esta não necessariamente contida no eterno ciclo vital da espécie, e cuja
mortalidade não é compensada por este último. O trabalho produz um mundo “artificial” de
coisas, nitidamente diferente de qualquer ambiente natural. Dentro de suas fronteiras habita
cada vida individual, embora esse mundo se destine a sobreviver e a transcender todas as
vidas individuais. A condição humana do trabalho é a mundanidade.
15 A ação, única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das
coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade, ao fato de que
homens, e não o Homem, vivem na Terra e habitam o mundo. Todos os aspectos da
condição humana têm alguma relação com a política; mas esta pluralidade é especificamente
a condição – não apenas a conditio sine qua non, mas a conditio per quam – de toda a vida
20 política. Assim, o idioma dos romanos – talvez o povo mais político que conhecemos –
empregava como sinônimas as expressões “viver” e “estar entre os homens” (inter homines
esse), ou “morrer” e “deixar de estar entre os homens” (inter homines esse desinere). Mas,
em sua forma mais elementar, a condição humana da ação está implícita até mesmo em
Gênesis (macho e fêmea Ele os criou), se entendermos que esta versão da criação do
25 homem diverge, em princípio, da outra segundo a qual Deus originalmente criou o Homem
(adam) – a ele, e não a eles, de sorte que a pluralidade dos seres humanos vem a ser o
resultado da multiplicação¹. A ação seria um luxo desnecessário, uma caprichosa
interferência com as leis gerais do comportamento, se os homens não passassem de
repetições interminavelmente reproduzíveis do mesmo modelo, todas dotadas da mesma
30 natureza e essência, tão previsíveis quanto a natureza e a essência de qualquer outra coisa.
A pluralidade é a condição da ação humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é,
humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido,
exista ou venha a existir.
As três atividades e suas respectivas condições têm íntima relação com as condições
35 mais gerais da existência humana: o nascimento e a morte, a natalidade e a mortalidade. O
labor assegura não apenas a sobrevivência do indivíduo, mas a vida da espécie. O trabalho e
seu produto, o artefato humano, emprestam certa permanência e durabilidade à futilidade da
vida mortal e ao caráter efêmero do corpo humano. A ação, na medida em que se empenha
em fundar e preservar corpos políticos, cria a condição para a lembrança, ou seja, para a
40 história. O labor e o trabalho, bem como a ação, têm também raízes na natalidade, na
medida em que sua tarefa é produzir e preservar o mundo para o constante influxo de recém-
chegados que vêm a este mundo na qualidade de estranhos, além de prevê-los e levá-los em
conta. Não obstante, das três atividades, a ação é a mais intimamente relacionada com a
condição humana da natalidade; o novo começo inerente a cada nascimento pode fazer-se
45 sentir no mundo somente porque o recém-chegado possui a capacidade de iniciar algo novo,
isto é, de agir. Neste sentido de iniciativa, todas as atividades humanas possuem um
elemento de ação e, portanto, de natalidade. Além disto, como a ação é a atividade política
por excelência, a natalidade, e não a mortalidade, pode constituir a categoria central do
pensamento político, em contraposição ao pensamento metafísico.
50 A condição humana compreende algo mais que as condições nas quais a vida foi dada
ao homem. Os homens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual eles entram em
contato torna-se imediatamente uma condição de sua existência. O mundo no qual transcorre
a vita activa consiste em coisas produzidas pelas atividades humanas; mas, constantemente,
as coisas que devem sua existência exclusivamente aos homens também condicionam os
55 seus autores humanos. Além das condições nas quais a vida é dada ao homem na Terra e,
até certo ponto, a partir delas, os homens constantemente criam as suas próprias condições
que, a despeito de sua variabilidade e sua origem humana, possuem a mesma força
condicionante das coisas naturais. O que quer que toque a vida humana ou entre em
duradoura relação com ela, assume imediatamente o caráter de condição da existência
60 humana. É por isso que os homens, independentemente do que façam, são sempre seres
condicionados. Tudo o que espontaneamente adentra o mundo humano, ou para ele é trazido
pelo esforço humano, torna-se parte da condição humana. O impacto da realidade do mundo
sobre a existência humana é sentido e recebido como força condicionante. A objetividade do
mundo – o seu caráter de coisa ou objeto – e a condição humana complementam-se uma à
65 outra; por ser uma existência condicionada, a existência humana seria impossível sem as
coisas, e estas seriam um amontoado de artigos incoerentes, um não mundo, se esses
artigos não fossem condicionantes da existência humana.
ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Tradução de Roberto Raposo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981. pp. 15-17 (texto adaptado).
¹ Quando se analisa o pensamento político pós-clássico, muito se pode aprender verificando-se qual das duas versões bíblicas da criação é citada. Assim, é típico da diferença entre os ensinamentos de Jesus de Nazareth e de Paulo o fato de que Jesus, discutindo a relação entre marido e mulher, refere-se a Gênesis 1:27 “Não tendes lido que quem criou o homem desde o princípio fê-los macho e fêmea” (Mateus 19:4), enquanto Paulo, em ocasião semelhante, insiste em que a mulher foi criada “do homem” e, portanto, “para o homem”, embora em seguida atenue um pouco a dependência: “nem o varão é sem mulher, nem a mulher sem o varão” (1 Cor.11:8-12). A diferença indica muito mais que uma atitude diferente em relação ao papel da mulher. Para Jesus, a fé era intimamente relacionada com a ação; para Paulo, a fé relacionava-se, antes de mais nada, com a salvação. Especialmente interessante a este respeito é Agostinho (De civitate Dei xii.21), que não só desconsidera inteiramente o que é dito em Gênesis 1:27, mas vê a diferença entre o homem e o animal no fato de ter sido o homem criado unum ac singulum, enquanto se ordenou aos animais que “passassem a existir vários de uma só vez” (plura simul iussit existere). Para Agostinho, a história da criação constitui boa oportunidade para salientar-se o caráter de espécie da vida animal, em oposição à singularidade da existência humana.
Texto-base:
Texto 2
DAS VANTAGENS DE SER BOBO
1 O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O
bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não
faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando.".
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair
5 por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem. Os espertos estão
sempre tão atentos ____(i) espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os
veem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo
nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
10 ____(ii) desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um
desconhecido para ____(iii) compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o
aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a
boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a
opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais
15 valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não
desconfiar, e portanto estar tranquilo, enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser
ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de
quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a
20 célebre frase: "Até tu, Brutus?".
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse
sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser
25 bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não
conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos
ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás
não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais ____(iv) pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro,
30 com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não
nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase
impossível evitar o excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso
de amor. E só o amor faz o bobo.
LISPECTOR, Clarice. Das vantagens de ser bobo. Disponível em: http://www.revistapazes.com/das-vantagens-de-ser-bobo/. Acesso em 10 de maio de 2017. Originalmente publicado no Jornal do Brasil em 12 de setembro de 1970.
Comparando-se os textos 1 e 2, é possível dizer queResolução comentada
Análise das alternativas
Texto 1
A CONDIÇÃO HUMANA
A Vita Activa e a Condição Humana
1 Com a expressão vita activa, pretendo designar três atividades humanas fundamentais:
labor, trabalho e ação. Trata-se de atividades fundamentais porque a cada uma delas
corresponde uma das condições básicas mediante as quais a vida foi dada ao homem na
Terra.
5 O labor é a atividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano, cujos
crescimento espontâneo, metabolismo e eventual declínio têm a ver com as necessidades
vitais produzidas e introduzidas pelo labor no processo da vida. A condição humana do labor
é a própria vida.
O trabalho é a atividade correspondente ao artificialismo da existência humana,
10 existência esta não necessariamente contida no eterno ciclo vital da espécie, e cuja
mortalidade não é compensada por este último. O trabalho produz um mundo “artificial” de
coisas, nitidamente diferente de qualquer ambiente natural. Dentro de suas fronteiras habita
cada vida individual, embora esse mundo se destine a sobreviver e a transcender todas as
vidas individuais. A condição humana do trabalho é a mundanidade.
15 A ação, única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das
coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade, ao fato de que
homens, e não o Homem, vivem na Terra e habitam o mundo. Todos os aspectos da
condição humana têm alguma relação com a política; mas esta pluralidade é especificamente
a condição – não apenas a conditio sine qua non, mas a conditio per quam – de toda a vida
20 política. Assim, o idioma dos romanos – talvez o povo mais político que conhecemos –
empregava como sinônimas as expressões “viver” e “estar entre os homens” (inter homines
esse), ou “morrer” e “deixar de estar entre os homens” (inter homines esse desinere). Mas,
em sua forma mais elementar, a condição humana da ação está implícita até mesmo em
Gênesis (macho e fêmea Ele os criou), se entendermos que esta versão da criação do
25 homem diverge, em princípio, da outra segundo a qual Deus originalmente criou o Homem
(adam) – a ele, e não a eles, de sorte que a pluralidade dos seres humanos vem a ser o
resultado da multiplicação¹. A ação seria um luxo desnecessário, uma caprichosa
interferência com as leis gerais do comportamento, se os homens não passassem de
repetições interminavelmente reproduzíveis do mesmo modelo, todas dotadas da mesma
30 natureza e essência, tão previsíveis quanto a natureza e a essência de qualquer outra coisa.
A pluralidade é a condição da ação humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é,
humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido,
exista ou venha a existir.
As três atividades e suas respectivas condições têm íntima relação com as condições
35 mais gerais da existência humana: o nascimento e a morte, a natalidade e a mortalidade. O
labor assegura não apenas a sobrevivência do indivíduo, mas a vida da espécie. O trabalho e
seu produto, o artefato humano, emprestam certa permanência e durabilidade à futilidade da
vida mortal e ao caráter efêmero do corpo humano. A ação, na medida em que se empenha
em fundar e preservar corpos políticos, cria a condição para a lembrança, ou seja, para a
40 história. O labor e o trabalho, bem como a ação, têm também raízes na natalidade, na
medida em que sua tarefa é produzir e preservar o mundo para o constante influxo de recém-
chegados que vêm a este mundo na qualidade de estranhos, além de prevê-los e levá-los em
conta. Não obstante, das três atividades, a ação é a mais intimamente relacionada com a
condição humana da natalidade; o novo começo inerente a cada nascimento pode fazer-se
45 sentir no mundo somente porque o recém-chegado possui a capacidade de iniciar algo novo,
isto é, de agir. Neste sentido de iniciativa, todas as atividades humanas possuem um
elemento de ação e, portanto, de natalidade. Além disto, como a ação é a atividade política
por excelência, a natalidade, e não a mortalidade, pode constituir a categoria central do
pensamento político, em contraposição ao pensamento metafísico.
50 A condição humana compreende algo mais que as condições nas quais a vida foi dada
ao homem. Os homens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual eles entram em
contato torna-se imediatamente uma condição de sua existência. O mundo no qual transcorre
a vita activa consiste em coisas produzidas pelas atividades humanas; mas, constantemente,
as coisas que devem sua existência exclusivamente aos homens também condicionam os
55 seus autores humanos. Além das condições nas quais a vida é dada ao homem na Terra e,
até certo ponto, a partir delas, os homens constantemente criam as suas próprias condições
que, a despeito de sua variabilidade e sua origem humana, possuem a mesma força
condicionante das coisas naturais. O que quer que toque a vida humana ou entre em
duradoura relação com ela, assume imediatamente o caráter de condição da existência
60 humana. É por isso que os homens, independentemente do que façam, são sempre seres
condicionados. Tudo o que espontaneamente adentra o mundo humano, ou para ele é trazido
pelo esforço humano, torna-se parte da condição humana. O impacto da realidade do mundo
sobre a existência humana é sentido e recebido como força condicionante. A objetividade do
mundo – o seu caráter de coisa ou objeto – e a condição humana complementam-se uma à
65 outra; por ser uma existência condicionada, a existência humana seria impossível sem as
coisas, e estas seriam um amontoado de artigos incoerentes, um não mundo, se esses
artigos não fossem condicionantes da existência humana.
ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Tradução de Roberto Raposo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981. pp. 15-17 (texto adaptado).
¹ Quando se analisa o pensamento político pós-clássico, muito se pode aprender verificando-se qual das duas versões bíblicas da criação é citada. Assim, é típico da diferença entre os ensinamentos de Jesus de Nazareth e de Paulo o fato de que Jesus, discutindo a relação entre marido e mulher, refere-se a Gênesis 1:27 “Não tendes lido que quem criou o homem desde o princípio fê-los macho e fêmea” (Mateus 19:4), enquanto Paulo, em ocasião semelhante, insiste em que a mulher foi criada “do homem” e, portanto, “para o homem”, embora em seguida atenue um pouco a dependência: “nem o varão é sem mulher, nem a mulher sem o varão” (1 Cor.11:8-12). A diferença indica muito mais que uma atitude diferente em relação ao papel da mulher. Para Jesus, a fé era intimamente relacionada com a ação; para Paulo, a fé relacionava-se, antes de mais nada, com a salvação. Especialmente interessante a este respeito é Agostinho (De civitate Dei xii.21), que não só desconsidera inteiramente o que é dito em Gênesis 1:27, mas vê a diferença entre o homem e o animal no fato de ter sido o homem criado unum ac singulum, enquanto se ordenou aos animais que “passassem a existir vários de uma só vez” (plura simul iussit existere). Para Agostinho, a história da criação constitui boa oportunidade para salientar-se o caráter de espécie da vida animal, em oposição à singularidade da existência humana.
Texto-base:
Texto 2
DAS VANTAGENS DE SER BOBO
1 O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O
bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não
faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando.".
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair
5 por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem. Os espertos estão
sempre tão atentos ____(i) espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os
veem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo
nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
10 ____(ii) desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um
desconhecido para ____(iii) compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o
aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a
boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a
opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais
15 valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não
desconfiar, e portanto estar tranquilo, enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser
ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de
quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a
20 célebre frase: "Até tu, Brutus?".
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse
sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser
25 bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não
conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos
ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás
não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais ____(iv) pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro,
30 com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não
nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase
impossível evitar o excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso
de amor. E só o amor faz o bobo.
LISPECTOR, Clarice. Das vantagens de ser bobo. Disponível em: http://www.revistapazes.com/das-vantagens-de-ser-bobo/. Acesso em 10 de maio de 2017. Originalmente publicado no Jornal do Brasil em 12 de setembro de 1970.
Marque a opção em que a regra usada para a colocação das vírgulas é a mesma encontrada no trecho abaixo destacado:
(…) cujos crescimento espontâneo, metabolismo e eventual declínio têm a ver com as necessidades vitais produzidas e introduzidas pelo labor no processo da vida (texto 1, linhas 5 a 7).Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 1
A CONDIÇÃO HUMANA
A Vita Activa e a Condição Humana
1 Com a expressão vita activa, pretendo designar três atividades humanas fundamentais:
labor, trabalho e ação. Trata-se de atividades fundamentais porque a cada uma delas
corresponde uma das condições básicas mediante as quais a vida foi dada ao homem na
Terra.
5 O labor é a atividade que corresponde ao processo biológico do corpo humano, cujos
crescimento espontâneo, metabolismo e eventual declínio têm a ver com as necessidades
vitais produzidas e introduzidas pelo labor no processo da vida. A condição humana do labor
é a própria vida.
O trabalho é a atividade correspondente ao artificialismo da existência humana,
10 existência esta não necessariamente contida no eterno ciclo vital da espécie, e cuja
mortalidade não é compensada por este último. O trabalho produz um mundo “artificial” de
coisas, nitidamente diferente de qualquer ambiente natural. Dentro de suas fronteiras habita
cada vida individual, embora esse mundo se destine a sobreviver e a transcender todas as
vidas individuais. A condição humana do trabalho é a mundanidade.
15 A ação, única atividade que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das
coisas ou da matéria, corresponde à condição humana da pluralidade, ao fato de que
homens, e não o Homem, vivem na Terra e habitam o mundo. Todos os aspectos da
condição humana têm alguma relação com a política; mas esta pluralidade é especificamente
a condição – não apenas a conditio sine qua non, mas a conditio per quam – de toda a vida
20 política. Assim, o idioma dos romanos – talvez o povo mais político que conhecemos –
empregava como sinônimas as expressões “viver” e “estar entre os homens” (inter homines
esse), ou “morrer” e “deixar de estar entre os homens” (inter homines esse desinere). Mas,
em sua forma mais elementar, a condição humana da ação está implícita até mesmo em
Gênesis (macho e fêmea Ele os criou), se entendermos que esta versão da criação do
25 homem diverge, em princípio, da outra segundo a qual Deus originalmente criou o Homem
(adam) – a ele, e não a eles, de sorte que a pluralidade dos seres humanos vem a ser o
resultado da multiplicação¹. A ação seria um luxo desnecessário, uma caprichosa
interferência com as leis gerais do comportamento, se os homens não passassem de
repetições interminavelmente reproduzíveis do mesmo modelo, todas dotadas da mesma
30 natureza e essência, tão previsíveis quanto a natureza e a essência de qualquer outra coisa.
A pluralidade é a condição da ação humana pelo fato de sermos todos os mesmos, isto é,
humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido,
exista ou venha a existir.
As três atividades e suas respectivas condições têm íntima relação com as condições
35 mais gerais da existência humana: o nascimento e a morte, a natalidade e a mortalidade. O
labor assegura não apenas a sobrevivência do indivíduo, mas a vida da espécie. O trabalho e
seu produto, o artefato humano, emprestam certa permanência e durabilidade à futilidade da
vida mortal e ao caráter efêmero do corpo humano. A ação, na medida em que se empenha
em fundar e preservar corpos políticos, cria a condição para a lembrança, ou seja, para a
40 história. O labor e o trabalho, bem como a ação, têm também raízes na natalidade, na
medida em que sua tarefa é produzir e preservar o mundo para o constante influxo de recém-
chegados que vêm a este mundo na qualidade de estranhos, além de prevê-los e levá-los em
conta. Não obstante, das três atividades, a ação é a mais intimamente relacionada com a
condição humana da natalidade; o novo começo inerente a cada nascimento pode fazer-se
45 sentir no mundo somente porque o recém-chegado possui a capacidade de iniciar algo novo,
isto é, de agir. Neste sentido de iniciativa, todas as atividades humanas possuem um
elemento de ação e, portanto, de natalidade. Além disto, como a ação é a atividade política
por excelência, a natalidade, e não a mortalidade, pode constituir a categoria central do
pensamento político, em contraposição ao pensamento metafísico.
50 A condição humana compreende algo mais que as condições nas quais a vida foi dada
ao homem. Os homens são seres condicionados: tudo aquilo com o qual eles entram em
contato torna-se imediatamente uma condição de sua existência. O mundo no qual transcorre
a vita activa consiste em coisas produzidas pelas atividades humanas; mas, constantemente,
as coisas que devem sua existência exclusivamente aos homens também condicionam os
55 seus autores humanos. Além das condições nas quais a vida é dada ao homem na Terra e,
até certo ponto, a partir delas, os homens constantemente criam as suas próprias condições
que, a despeito de sua variabilidade e sua origem humana, possuem a mesma força
condicionante das coisas naturais. O que quer que toque a vida humana ou entre em
duradoura relação com ela, assume imediatamente o caráter de condição da existência
60 humana. É por isso que os homens, independentemente do que façam, são sempre seres
condicionados. Tudo o que espontaneamente adentra o mundo humano, ou para ele é trazido
pelo esforço humano, torna-se parte da condição humana. O impacto da realidade do mundo
sobre a existência humana é sentido e recebido como força condicionante. A objetividade do
mundo – o seu caráter de coisa ou objeto – e a condição humana complementam-se uma à
65 outra; por ser uma existência condicionada, a existência humana seria impossível sem as
coisas, e estas seriam um amontoado de artigos incoerentes, um não mundo, se esses
artigos não fossem condicionantes da existência humana.
ARENDT, Hannah. A Condição Humana. Tradução de Roberto Raposo: Editora da Universidade de São Paulo, 1981. pp. 15-17 (texto adaptado).
¹ Quando se analisa o pensamento político pós-clássico, muito se pode aprender verificando-se qual das duas versões bíblicas da criação é citada. Assim, é típico da diferença entre os ensinamentos de Jesus de Nazareth e de Paulo o fato de que Jesus, discutindo a relação entre marido e mulher, refere-se a Gênesis 1:27 “Não tendes lido que quem criou o homem desde o princípio fê-los macho e fêmea” (Mateus 19:4), enquanto Paulo, em ocasião semelhante, insiste em que a mulher foi criada “do homem” e, portanto, “para o homem”, embora em seguida atenue um pouco a dependência: “nem o varão é sem mulher, nem a mulher sem o varão” (1 Cor.11:8-12). A diferença indica muito mais que uma atitude diferente em relação ao papel da mulher. Para Jesus, a fé era intimamente relacionada com a ação; para Paulo, a fé relacionava-se, antes de mais nada, com a salvação. Especialmente interessante a este respeito é Agostinho (De civitate Dei xii.21), que não só desconsidera inteiramente o que é dito em Gênesis 1:27, mas vê a diferença entre o homem e o animal no fato de ter sido o homem criado unum ac singulum, enquanto se ordenou aos animais que “passassem a existir vários de uma só vez” (plura simul iussit existere). Para Agostinho, a história da criação constitui boa oportunidade para salientar-se o caráter de espécie da vida animal, em oposição à singularidade da existência humana.
Texto-base:
Texto 2
DAS VANTAGENS DE SER BOBO
1 O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir e tocar o mundo. O
bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não
faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo. Estou pensando.".
Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair
5 por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a ideia.
O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não veem. Os espertos estão
sempre tão atentos ____(i) espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os
veem como simples pessoas humanas. O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver. O bobo
nunca parece ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.
10 ____(ii) desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um
desconhecido para ____(iii) compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o
aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a
boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer. Resultado: não funciona. Chamado um técnico, a
opinião deste era de que o aparelho estava tão estragado que o conserto seria caríssimo: mais
15 valia comprar outro. Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não
desconfiar, e portanto estar tranquilo, enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser
ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.
Aviso: não confundir bobos com burros. Desvantagem: pode receber uma punhalada de
quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a
20 célebre frase: "Até tu, Brutus?".
Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!
Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu. Se Cristo tivesse
sido esperto não teria morrido na cruz.
O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos. Ser
25 bobo é uma criatividade e, como toda criação, é difícil. Por isso é que os espertos não
conseguem passar por bobos. Os espertos ganham dos outros. Em compensação os bobos
ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás
não se importam que saibam que eles sabem.
Há lugares que facilitam mais ____(iv) pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro,
30 com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não
nascer em Minas!
Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas. É quase
impossível evitar o excesso de amor que o bobo provoca. É que só o bobo é capaz de excesso
de amor. E só o amor faz o bobo.
LISPECTOR, Clarice. Das vantagens de ser bobo. Disponível em: http://www.revistapazes.com/das-vantagens-de-ser-bobo/. Acesso em 10 de maio de 2017. Originalmente publicado no Jornal do Brasil em 12 de setembro de 1970.
Texto-base:
Texto 3
EXAUSTO
1 Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
5 Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
PRADO, Adelia. Exausto. Disponível em <http://byluleoa-tecendopalavras.blogspot.com.br/>. Acesso em 31/07/17.
Considere os três textos desta prova para analisar as assertivas abaixo.
I. O desejo de ser semente (texto 3, verso 8) pode ser comparado ao labor explanado no texto 1, ou seja, aquilo que dá permanência e continuidade à vida sem que haja, necessariamente, uma ação para que essa continuidade e permanência aconteçam.
II. O texto 2 desconstrói a ideia de que “o mundo é dos espertos”.
III. As implicações de que estar no mundo é estar em constante relação com o outro são questões relativas à alteridade e não dizem respeito a nenhum dos três textos.
Assinale a opção correta:Resolução comentada
Análise das alternativas
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