← Voltar para a lista de provas Colégio Militar do Rio de Janeiro · Admissão ao 1º Ano do Ensino Médio — Prova de Português 21 questões nesta prova · página 1 de 2 · 20 com gabarito Gabarito disponível Trecho que relaciona memória e literatura. O texto compara a memória que os ancestrais deixam (casa, ferramentas, experiências) com a herança da leitura de obras valiosas acumuladas ao longo dos séculos. Só o trecho da alternativa D liga diretamente essa herança à leitura e à literatura. A, B e C falam da amnésia do descendente e da falta de experiência anterior, mas dentro da metáfora, sem citar a leitura ou a literatura. E trata do prazer da leitura, não da relação com a memória. Referência: Interpretação de texto: relação entre ideias e fragmentos do texto. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Valor do diminutivo em 'estradinha' e 'pertinho'. Em 'estradinha', o sufixo -inha indica tamanho: uma estrada pequena, simples, que liga as casas dos amigos. Em 'pertinho', o diminutivo não indica tamanho, e sim intensidade: o tesouro está muito perto, o que reforça a ironia de não ser aproveitado. A) Não há desprezo nem ironia em 'estradinha'. B) 'Pertinho' é advérbio e não designa tamanho. D) Nenhum dos dois expressa desprezo, e 'pertinho' não indica simplicidade. E) 'Estradinha' indica tamanho, não intensidade. Referência: Valores semânticos dos sufixos diminutivos (grau dos substantivos e advérbios). Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Os pronomes -lo e -lo retomam 'abrigo'. 'Trata de construí-lo e torná-lo mais confortável': o que se constrói e se torna confortável é o abrigo, mencionado na frase anterior. Os dois pronomes oblíquos retomam esse termo. 'Onde' (A), 'local' (B), 'certo' (C) e 'ponto' (D) são termos da oração anterior, mas não são o que se constrói, e 'certo' é adjetivo. Referência: Coesão referencial; pronomes oblíquos. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível 'Mas' é adversativo (oposição); 'mais' é adição. Em 'Mas há mais', os termos são homófonos. O primeiro é conjunção adversativa, que indica oposição à ideia anterior. O segundo é palavra que acrescenta algo, com sentido de adição. B, C, D e E trocam a classificação semântica dos termos. O primeiro não conclui, não acumula, não explica e não alterna, e o segundo não repete, não indica finalidade, não contradiz nem intensifica. Referência: Valor semântico de conectivos. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível 'Buracos' são as lacunas da trajetória e da memória. O verso 'como os buracos funcionam?' faz par com 'que vestígio deixamos do que não fizemos?'. Os buracos figuram as falhas e ausências na vida e na memória, ou seja, uma trajetória com suas lacunas. A, B, C e D atribuem aos buracos sentidos que não aparecem no poema, como negação da família, angústia da juventude, manutenção da história ou marca das fotos. Referência: Linguagem figurada. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível A repetição circular dos versos indica continuidade das referências formadas pelo tempo. Os mesmos versos abrem e fecham o poema, em ordem invertida na última estrofe ('de trás para frente'), o que forma um ciclo. Isso reforça que a memória reconstrói o passado de forma contínua, com as referências construídas ao longo do tempo. A, C e D enfatizam felicidade, prevalência do passado e frustração, o que a repetição não indica. B (infinitude da memória) extrapola o sentido, porque o poema fala de continuidade das referências, não de infinitude. Referência: Interpretação de texto poético. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível A dúvida da narradora mostra que a memória pode falhar. 'Acho que era assim, talvez esteja confundindo' revela insegurança sobre a lembrança. Isso sugere que a memória pode ser traiçoeira. B e E afirmam que a memória é firme e íntegra, o que a dúvida contradiz. C faz da confusão percepção fiel, o que é ilógico. D (depende do humor) não tem apoio no texto. Referência: Interpretação de texto. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Na alma, ela não envelhece. A narradora diz: 'na alma, a gente não envelhece'. Por isso a idade não a incomoda, já que a alma mantém a vitalidade. A não é mencionada. B contraria o foco do texto. D inverte a ideia, pois quem sente vergonha são os que fingem envelhecer. E diz que corpo e alma são indissociáveis, mas o texto os separa. Referência: Interpretação de texto. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível A palavra antiga evoca o vivido e ativa lembranças. Ao ouvir 'vetusta', a narradora recorda a casa antiga, com sombras e cortinados. A palavra a remete ao que foi vivido e traz as lembranças de volta. A, B e D atribuem à palavra efeitos negativos ou de desconstrução, mas a narradora a chama de 'linda'. C é incorreto, pois ela conhece o sentido da palavra. Referência: Interpretação de texto. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Os relatos do passado têm tom afetuoso e maduro. A narradora revisita a escola, as colegas e a casa com carinho, humor e reflexão sobre a vida. Isso mostra um passado revisitado com afeto e sabedoria. B exagera ('dói profundamente'). C não trata o presente como superação. D e E atribuem frustração e mudança da história que o texto não traz. Referência: Interpretação de texto. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Os travessões acrescentam alternativas que ampliam o sentido. 'Ou deixa de acontecer' e 'ou quase atravessaram' acrescentam possibilidades ao que foi dito: o que não acontece também conta. Assim, o autor amplia as leituras do texto, não as restringe. A é contrária ao efeito. B não traz voz do senso comum. C não desconstrói a tese, a reforça. D não apenas repete, pois acrescenta algo novo. Referência: Pontuação: travessão. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Vozes não 'atravessam' fisicamente; o uso é figurado. 'Rastro de todas as vozes que me atravessam' é conotativo, pois vozes não têm corpo para atravessar alguém. Esse sentido figurado expressa a afetação subjetiva. A, C, D e E trazem sentido literal: desejo obsessivo, algo precioso e único, o ato de dizer e a paráfrase 'em outras palavras'. Referência: Denotação e conotação. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível O dicionário vê a memória como depósito do vivido; Derrida a amplia, incluindo o desejo. Pelo dicionário, memória é reter e lembrar o que foi adquirido. Para Derrida, ela também guarda o que 'deixa de acontecer' e o 'desejo de que o que não acontece deva acontecer'. Logo, a memória é também espaço do desejo. A inventa a ideia de 'fim de esforços'. B é exagero, pois Derrida não exclui o vivido. C atribui 'lucidez' sem apoio no texto. E diz 'exclusivamente do sonho', o que é incorreto. Referência: Interpretação de texto. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível 'Fingir que ainda é gente' pressupõe que a memória já foi gente. O advérbio 'inda' (ainda) indica continuidade de um estado anterior. Fingir que ainda é gente pressupõe que a memória já foi gente e deixou de ser. Esse é o pressuposto, informação implícita mas necessária ao sentido. A (confiável) é o oposto do que o verso sugere, pois a memória finge. C, D e E não decorrem do termo 'inda' nem do verbo 'fingir'. Referência: Pressupostos e subentendidos. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível O 'nos' inclui todos os falantes, generalizando a experiência. No poema, 'nos' representa as pessoas em geral, e não um indivíduo específico. Ele diz que a memória conta a todos nós uma história de que ninguém participa. O efeito é de generalização. A pronome não conclui nada. B não idealiza. C não explicita um referente específico, ao contrário. E não problematiza, apenas inclui o leitor. Referência: Pronomes pessoais oblíquos; valor semântico. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível 'Dar algo a alguém' é verbo transitivo direto e indireto; equivale a 'ajudar alguém a fazer algo'. Em 'dão às pessoas a posse', o verbo tem objeto direto (a posse) e indireto (às pessoas). Em 'as ajudam a tomar posse', ajudar também liga um objeto direto (as) a um complemento preposicionado (a tomar posse). Assim, os dois verbos pedem dois complementos. A ('é'), B ('parecem') e E ('acham', no sentido de estar) são verbos de ligação. C ('constrói') é transitivo direto apenas. Referência: Regência verbal; transitividade. Resolução comentada do VaiConcursos.Colégio Militar do Rio de Janeiro — Concurso de Admissão ao 1º Ano do Ensino Médio 2019/2020 — Prova de Português
Texto I
1 Imaginemos uma situação. Há muitos e muitos anos. Alguém chega a uma terra estranha e
inexplorada. Trata de se situar, ver onde há água, de onde vem o vento, que animais e plantas existem
nas redondezas. Após algumas tentativas fracassadas, conclui que certo ponto é o local mais
adequado para providenciar um abrigo. Trata de construí-lo e torná-lo o mais confortável possível.
5 Depois encontra alguns vizinhos distantes, com outras vivências diferentes. Trocam experiências,
fazem amizade, incorporam mutuamente as descobertas um do outro. Em mais algum tempo,
constitui-se um novo núcleo familiar. A casa cresce, ganha uma plantação, um cercadinho para os
animais. Faz-se uma estradinha e uma ponte para facilitar o convívio com os amigos. Novas e
crescentes conquistas e aquisições. E assim por diante. Por várias gerações.
10 Alguns descendentes podem resolver explorar outros lugares. Mas levam a memória da casa,
da plantação, das comidas, da ponte. Levam as ferramentas inventadas, os utensílios desenvolvidos,
as lembranças acumuladas. E tudo se torna muito mais simples para eles graças a isso. Sua trajetória
parte do zero, mas de vitórias e realizações anteriores.
Se um desses descendentes sofrer de uma forma de amnésia total, não conseguirá aproveitar
15 nada do que seus ancestrais fizeram. Ele não terá a memória das outras experiências. Vai ter que
começar do nada. Chegando a uma terra estranha e inexplorada, pode nem ao menos tratar de se
situar, ver onde há água, de onde vem o vento, que animais e plantas existem nas redondezas... Talvez
procure um abrigo na areia onde a cheia do rio o carregue ou onde as feras vêm beber água. Não
aprendeu com quem viveu antes. Não tem uma experiência anterior que lhe informe nada. Não sabe
20 pescar nem cozinhar, não maneja uma ferramenta, desconhece armas e utensílios. Pior ainda, pode
estar em frente à casa que herdou e não saber para que serve aquilo. Pode ouvir o chamado de seus
vizinhos e não entender o que lhe dizem.
Reduzido ao instinto, o pobre desmemoriado terá sua própria sobrevivência ameaçada. Um
caso de trágico desperdício.
25 Ou então, pode-se imaginar alguém que deseja muito melhorar de vida e tem na sala uma arca
cheia de tesouros que os avós e os pais lhe deixaram. Mata-se de trabalhar, mas nunca supôs que
aquele baú fosse mais do que uma caixa vazia. Jamais teve o impulso de arrombá-lo ou a curiosidade
de procurar uma chave que o abrisse. Todo aquele patrimônio, ali pertinho, ao seu alcance, não lhe
serve para nada. Um monumento à inutilidade.
30 De alguma forma, toda a humanidade passa por riscos semelhantes. Temos de herança o
imenso patrimônio da leitura de obras valiosíssimas que vêm se acumulando pelos séculos afora. Mas
muitas vezes nem desconfiamos disso e nem nos interessamos pela possibilidade de abri-las, ao
menos para ver o que há lá dentro. É uma pena e um desperdício.
Talvez essa seja a primeira razão pela qual eu sempre quis explorar tudo o que eu pudesse
35 nessa arca e, mais tarde, aproximar meus filhos dos clássicos. Porque eu sei que é um legado
riquíssimo, que se trata de um tesouro inestimável que nós herdamos e ao qual temos direito. Seria
uma estupidez e um absurdo não exigir nossa parte ou simplesmente abrir mão da parte que nos
pertence e deixar que os outros se apoderem de tudo sem dividir conosco.
Ah, sim, porque esse risco também sempre esteve presente na história da humanidade.
40 Tradicionalmente, a leitura devia ser para poucos porque ela é sempre um elemento de poder e podia
ameaçar as minorias que controlavam os livros (e o conhecimento, o saber, a informação). Esses ideais
de alfabetização para todos e acesso amplo aos livros são muito recentes na História. Mas como
estão aí e não há mais jeito para conseguir manter a massa na ignorância total, até parece que surgiu
outra tática de propósito: distrair a maioria da população com outras coisas, para que ela nem
45 perceba que tem uma arca cheia de um rico tesouro bem à sua disposição, pertinho, ali no canto da
sala. (...)
Assim, à minha reivindicação de ler literatura (o que, evidentemente, inclui os clássicos),
porque é nosso direito, vem se somar uma determinação de ler porque é uma forma de resistência.
Esse patrimônio está sendo acumulado há milênios, está à minha disposição, uma parte é minha e
50 ninguém tasca. (...)
Direito e resistência são duas boas razões para a gente chegar perto dos clássicos. Mas há
mais. Talvez a principal seja o prazer que essa leitura nos dá.
(MACHADO. Ana Maria. Como e por que ler os clássicos universais desde cedo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. p. 16-19. Texto adaptado.)
De acordo com o texto, memória e literatura estão intimamente relacionadas. O fragmento textual que ratifica essa ideia éResolução comentada
Análise das alternativas
Texto I
1 Imaginemos uma situação. Há muitos e muitos anos. Alguém chega a uma terra estranha e
inexplorada. Trata de se situar, ver onde há água, de onde vem o vento, que animais e plantas existem
nas redondezas. Após algumas tentativas fracassadas, conclui que certo ponto é o local mais
adequado para providenciar um abrigo. Trata de construí-lo e torná-lo o mais confortável possível.
5 Depois encontra alguns vizinhos distantes, com outras vivências diferentes. Trocam experiências,
fazem amizade, incorporam mutuamente as descobertas um do outro. Em mais algum tempo,
constitui-se um novo núcleo familiar. A casa cresce, ganha uma plantação, um cercadinho para os
animais. Faz-se uma estradinha e uma ponte para facilitar o convívio com os amigos. Novas e
crescentes conquistas e aquisições. E assim por diante. Por várias gerações.
10 Alguns descendentes podem resolver explorar outros lugares. Mas levam a memória da casa,
da plantação, das comidas, da ponte. Levam as ferramentas inventadas, os utensílios desenvolvidos,
as lembranças acumuladas. E tudo se torna muito mais simples para eles graças a isso. Sua trajetória
parte do zero, mas de vitórias e realizações anteriores.
Se um desses descendentes sofrer de uma forma de amnésia total, não conseguirá aproveitar
15 nada do que seus ancestrais fizeram. Ele não terá a memória das outras experiências. Vai ter que
começar do nada. Chegando a uma terra estranha e inexplorada, pode nem ao menos tratar de se
situar, ver onde há água, de onde vem o vento, que animais e plantas existem nas redondezas... Talvez
procure um abrigo na areia onde a cheia do rio o carregue ou onde as feras vêm beber água. Não
aprendeu com quem viveu antes. Não tem uma experiência anterior que lhe informe nada. Não sabe
20 pescar nem cozinhar, não maneja uma ferramenta, desconhece armas e utensílios. Pior ainda, pode
estar em frente à casa que herdou e não saber para que serve aquilo. Pode ouvir o chamado de seus
vizinhos e não entender o que lhe dizem.
Reduzido ao instinto, o pobre desmemoriado terá sua própria sobrevivência ameaçada. Um
caso de trágico desperdício.
25 Ou então, pode-se imaginar alguém que deseja muito melhorar de vida e tem na sala uma arca
cheia de tesouros que os avós e os pais lhe deixaram. Mata-se de trabalhar, mas nunca supôs que
aquele baú fosse mais do que uma caixa vazia. Jamais teve o impulso de arrombá-lo ou a curiosidade
de procurar uma chave que o abrisse. Todo aquele patrimônio, ali pertinho, ao seu alcance, não lhe
serve para nada. Um monumento à inutilidade.
30 De alguma forma, toda a humanidade passa por riscos semelhantes. Temos de herança o
imenso patrimônio da leitura de obras valiosíssimas que vêm se acumulando pelos séculos afora. Mas
muitas vezes nem desconfiamos disso e nem nos interessamos pela possibilidade de abri-las, ao
menos para ver o que há lá dentro. É uma pena e um desperdício.
Talvez essa seja a primeira razão pela qual eu sempre quis explorar tudo o que eu pudesse
35 nessa arca e, mais tarde, aproximar meus filhos dos clássicos. Porque eu sei que é um legado
riquíssimo, que se trata de um tesouro inestimável que nós herdamos e ao qual temos direito. Seria
uma estupidez e um absurdo não exigir nossa parte ou simplesmente abrir mão da parte que nos
pertence e deixar que os outros se apoderem de tudo sem dividir conosco.
Ah, sim, porque esse risco também sempre esteve presente na história da humanidade.
40 Tradicionalmente, a leitura devia ser para poucos porque ela é sempre um elemento de poder e podia
ameaçar as minorias que controlavam os livros (e o conhecimento, o saber, a informação). Esses ideais
de alfabetização para todos e acesso amplo aos livros são muito recentes na História. Mas como
estão aí e não há mais jeito para conseguir manter a massa na ignorância total, até parece que surgiu
outra tática de propósito: distrair a maioria da população com outras coisas, para que ela nem
45 perceba que tem uma arca cheia de um rico tesouro bem à sua disposição, pertinho, ali no canto da
sala. (...)
Assim, à minha reivindicação de ler literatura (o que, evidentemente, inclui os clássicos),
porque é nosso direito, vem se somar uma determinação de ler porque é uma forma de resistência.
Esse patrimônio está sendo acumulado há milênios, está à minha disposição, uma parte é minha e
50 ninguém tasca. (...)
Direito e resistência são duas boas razões para a gente chegar perto dos clássicos. Mas há
mais. Talvez a principal seja o prazer que essa leitura nos dá.
(MACHADO. Ana Maria. Como e por que ler os clássicos universais desde cedo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. p. 16-19. Texto adaptado.)
No Texto I, as marcas de diminutivo contribuem para a ampliação de sentidos. Em “Faz-se uma estradinha” (ℓ. 8) e “todo aquele patrimônio ali pertinho” (ℓ. 28), os valores semânticos expressos pelo diminutivo equivalem, respectivamente, aResolução comentada
Análise das alternativas
Texto I
1 Imaginemos uma situação. Há muitos e muitos anos. Alguém chega a uma terra estranha e
inexplorada. Trata de se situar, ver onde há água, de onde vem o vento, que animais e plantas existem
nas redondezas. Após algumas tentativas fracassadas, conclui que certo ponto é o local mais
adequado para providenciar um abrigo. Trata de construí-lo e torná-lo o mais confortável possível.
5 Depois encontra alguns vizinhos distantes, com outras vivências diferentes. Trocam experiências,
fazem amizade, incorporam mutuamente as descobertas um do outro. Em mais algum tempo,
constitui-se um novo núcleo familiar. A casa cresce, ganha uma plantação, um cercadinho para os
animais. Faz-se uma estradinha e uma ponte para facilitar o convívio com os amigos. Novas e
crescentes conquistas e aquisições. E assim por diante. Por várias gerações.
10 Alguns descendentes podem resolver explorar outros lugares. Mas levam a memória da casa,
da plantação, das comidas, da ponte. Levam as ferramentas inventadas, os utensílios desenvolvidos,
as lembranças acumuladas. E tudo se torna muito mais simples para eles graças a isso. Sua trajetória
parte do zero, mas de vitórias e realizações anteriores.
Se um desses descendentes sofrer de uma forma de amnésia total, não conseguirá aproveitar
15 nada do que seus ancestrais fizeram. Ele não terá a memória das outras experiências. Vai ter que
começar do nada. Chegando a uma terra estranha e inexplorada, pode nem ao menos tratar de se
situar, ver onde há água, de onde vem o vento, que animais e plantas existem nas redondezas... Talvez
procure um abrigo na areia onde a cheia do rio o carregue ou onde as feras vêm beber água. Não
aprendeu com quem viveu antes. Não tem uma experiência anterior que lhe informe nada. Não sabe
20 pescar nem cozinhar, não maneja uma ferramenta, desconhece armas e utensílios. Pior ainda, pode
estar em frente à casa que herdou e não saber para que serve aquilo. Pode ouvir o chamado de seus
vizinhos e não entender o que lhe dizem.
Reduzido ao instinto, o pobre desmemoriado terá sua própria sobrevivência ameaçada. Um
caso de trágico desperdício.
25 Ou então, pode-se imaginar alguém que deseja muito melhorar de vida e tem na sala uma arca
cheia de tesouros que os avós e os pais lhe deixaram. Mata-se de trabalhar, mas nunca supôs que
aquele baú fosse mais do que uma caixa vazia. Jamais teve o impulso de arrombá-lo ou a curiosidade
de procurar uma chave que o abrisse. Todo aquele patrimônio, ali pertinho, ao seu alcance, não lhe
serve para nada. Um monumento à inutilidade.
30 De alguma forma, toda a humanidade passa por riscos semelhantes. Temos de herança o
imenso patrimônio da leitura de obras valiosíssimas que vêm se acumulando pelos séculos afora. Mas
muitas vezes nem desconfiamos disso e nem nos interessamos pela possibilidade de abri-las, ao
menos para ver o que há lá dentro. É uma pena e um desperdício.
Talvez essa seja a primeira razão pela qual eu sempre quis explorar tudo o que eu pudesse
35 nessa arca e, mais tarde, aproximar meus filhos dos clássicos. Porque eu sei que é um legado
riquíssimo, que se trata de um tesouro inestimável que nós herdamos e ao qual temos direito. Seria
uma estupidez e um absurdo não exigir nossa parte ou simplesmente abrir mão da parte que nos
pertence e deixar que os outros se apoderem de tudo sem dividir conosco.
Ah, sim, porque esse risco também sempre esteve presente na história da humanidade.
40 Tradicionalmente, a leitura devia ser para poucos porque ela é sempre um elemento de poder e podia
ameaçar as minorias que controlavam os livros (e o conhecimento, o saber, a informação). Esses ideais
de alfabetização para todos e acesso amplo aos livros são muito recentes na História. Mas como
estão aí e não há mais jeito para conseguir manter a massa na ignorância total, até parece que surgiu
outra tática de propósito: distrair a maioria da população com outras coisas, para que ela nem
45 perceba que tem uma arca cheia de um rico tesouro bem à sua disposição, pertinho, ali no canto da
sala. (...)
Assim, à minha reivindicação de ler literatura (o que, evidentemente, inclui os clássicos),
porque é nosso direito, vem se somar uma determinação de ler porque é uma forma de resistência.
Esse patrimônio está sendo acumulado há milênios, está à minha disposição, uma parte é minha e
50 ninguém tasca. (...)
Direito e resistência são duas boas razões para a gente chegar perto dos clássicos. Mas há
mais. Talvez a principal seja o prazer que essa leitura nos dá.
(MACHADO. Ana Maria. Como e por que ler os clássicos universais desde cedo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. p. 16-19. Texto adaptado.)
“Trata de construí-lo e torná-lo o mais confortável possível”. (ℓ. 4)
O emprego do pronome pessoal oblíquo é um dos recursos coesivos na construção do texto. Nesse trecho, as duas ocorrências do pronome fazem referência ao vocábuloResolução comentada
Análise das alternativas
Texto I
1 Imaginemos uma situação. Há muitos e muitos anos. Alguém chega a uma terra estranha e
inexplorada. Trata de se situar, ver onde há água, de onde vem o vento, que animais e plantas existem
nas redondezas. Após algumas tentativas fracassadas, conclui que certo ponto é o local mais
adequado para providenciar um abrigo. Trata de construí-lo e torná-lo o mais confortável possível.
5 Depois encontra alguns vizinhos distantes, com outras vivências diferentes. Trocam experiências,
fazem amizade, incorporam mutuamente as descobertas um do outro. Em mais algum tempo,
constitui-se um novo núcleo familiar. A casa cresce, ganha uma plantação, um cercadinho para os
animais. Faz-se uma estradinha e uma ponte para facilitar o convívio com os amigos. Novas e
crescentes conquistas e aquisições. E assim por diante. Por várias gerações.
10 Alguns descendentes podem resolver explorar outros lugares. Mas levam a memória da casa,
da plantação, das comidas, da ponte. Levam as ferramentas inventadas, os utensílios desenvolvidos,
as lembranças acumuladas. E tudo se torna muito mais simples para eles graças a isso. Sua trajetória
parte do zero, mas de vitórias e realizações anteriores.
Se um desses descendentes sofrer de uma forma de amnésia total, não conseguirá aproveitar
15 nada do que seus ancestrais fizeram. Ele não terá a memória das outras experiências. Vai ter que
começar do nada. Chegando a uma terra estranha e inexplorada, pode nem ao menos tratar de se
situar, ver onde há água, de onde vem o vento, que animais e plantas existem nas redondezas... Talvez
procure um abrigo na areia onde a cheia do rio o carregue ou onde as feras vêm beber água. Não
aprendeu com quem viveu antes. Não tem uma experiência anterior que lhe informe nada. Não sabe
20 pescar nem cozinhar, não maneja uma ferramenta, desconhece armas e utensílios. Pior ainda, pode
estar em frente à casa que herdou e não saber para que serve aquilo. Pode ouvir o chamado de seus
vizinhos e não entender o que lhe dizem.
Reduzido ao instinto, o pobre desmemoriado terá sua própria sobrevivência ameaçada. Um
caso de trágico desperdício.
25 Ou então, pode-se imaginar alguém que deseja muito melhorar de vida e tem na sala uma arca
cheia de tesouros que os avós e os pais lhe deixaram. Mata-se de trabalhar, mas nunca supôs que
aquele baú fosse mais do que uma caixa vazia. Jamais teve o impulso de arrombá-lo ou a curiosidade
de procurar uma chave que o abrisse. Todo aquele patrimônio, ali pertinho, ao seu alcance, não lhe
serve para nada. Um monumento à inutilidade.
30 De alguma forma, toda a humanidade passa por riscos semelhantes. Temos de herança o
imenso patrimônio da leitura de obras valiosíssimas que vêm se acumulando pelos séculos afora. Mas
muitas vezes nem desconfiamos disso e nem nos interessamos pela possibilidade de abri-las, ao
menos para ver o que há lá dentro. É uma pena e um desperdício.
Talvez essa seja a primeira razão pela qual eu sempre quis explorar tudo o que eu pudesse
35 nessa arca e, mais tarde, aproximar meus filhos dos clássicos. Porque eu sei que é um legado
riquíssimo, que se trata de um tesouro inestimável que nós herdamos e ao qual temos direito. Seria
uma estupidez e um absurdo não exigir nossa parte ou simplesmente abrir mão da parte que nos
pertence e deixar que os outros se apoderem de tudo sem dividir conosco.
Ah, sim, porque esse risco também sempre esteve presente na história da humanidade.
40 Tradicionalmente, a leitura devia ser para poucos porque ela é sempre um elemento de poder e podia
ameaçar as minorias que controlavam os livros (e o conhecimento, o saber, a informação). Esses ideais
de alfabetização para todos e acesso amplo aos livros são muito recentes na História. Mas como
estão aí e não há mais jeito para conseguir manter a massa na ignorância total, até parece que surgiu
outra tática de propósito: distrair a maioria da população com outras coisas, para que ela nem
45 perceba que tem uma arca cheia de um rico tesouro bem à sua disposição, pertinho, ali no canto da
sala. (...)
Assim, à minha reivindicação de ler literatura (o que, evidentemente, inclui os clássicos),
porque é nosso direito, vem se somar uma determinação de ler porque é uma forma de resistência.
Esse patrimônio está sendo acumulado há milênios, está à minha disposição, uma parte é minha e
50 ninguém tasca. (...)
Direito e resistência são duas boas razões para a gente chegar perto dos clássicos. Mas há
mais. Talvez a principal seja o prazer que essa leitura nos dá.
(MACHADO. Ana Maria. Como e por que ler os clássicos universais desde cedo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. p. 16-19. Texto adaptado.)
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Os trechos sublinhados apresentam, respectivamente, os sentidos de
Texto I
1 Imaginemos uma situação. Há muitos e muitos anos. Alguém chega a uma terra estranha e
inexplorada. Trata de se situar, ver onde há água, de onde vem o vento, que animais e plantas existem
nas redondezas. Após algumas tentativas fracassadas, conclui que certo ponto é o local mais
adequado para providenciar um abrigo. Trata de construí-lo e torná-lo o mais confortável possível.
5 Depois encontra alguns vizinhos distantes, com outras vivências diferentes. Trocam experiências,
fazem amizade, incorporam mutuamente as descobertas um do outro. Em mais algum tempo,
constitui-se um novo núcleo familiar. A casa cresce, ganha uma plantação, um cercadinho para os
animais. Faz-se uma estradinha e uma ponte para facilitar o convívio com os amigos. Novas e
crescentes conquistas e aquisições. E assim por diante. Por várias gerações.
10 Alguns descendentes podem resolver explorar outros lugares. Mas levam a memória da casa,
da plantação, das comidas, da ponte. Levam as ferramentas inventadas, os utensílios desenvolvidos,
as lembranças acumuladas. E tudo se torna muito mais simples para eles graças a isso. Sua trajetória
parte do zero, mas de vitórias e realizações anteriores.
Se um desses descendentes sofrer de uma forma de amnésia total, não conseguirá aproveitar
15 nada do que seus ancestrais fizeram. Ele não terá a memória das outras experiências. Vai ter que
começar do nada. Chegando a uma terra estranha e inexplorada, pode nem ao menos tratar de se
situar, ver onde há água, de onde vem o vento, que animais e plantas existem nas redondezas... Talvez
procure um abrigo na areia onde a cheia do rio o carregue ou onde as feras vêm beber água. Não
aprendeu com quem viveu antes. Não tem uma experiência anterior que lhe informe nada. Não sabe
20 pescar nem cozinhar, não maneja uma ferramenta, desconhece armas e utensílios. Pior ainda, pode
estar em frente à casa que herdou e não saber para que serve aquilo. Pode ouvir o chamado de seus
vizinhos e não entender o que lhe dizem.
Reduzido ao instinto, o pobre desmemoriado terá sua própria sobrevivência ameaçada. Um
caso de trágico desperdício.
25 Ou então, pode-se imaginar alguém que deseja muito melhorar de vida e tem na sala uma arca
cheia de tesouros que os avós e os pais lhe deixaram. Mata-se de trabalhar, mas nunca supôs que
aquele baú fosse mais do que uma caixa vazia. Jamais teve o impulso de arrombá-lo ou a curiosidade
de procurar uma chave que o abrisse. Todo aquele patrimônio, ali pertinho, ao seu alcance, não lhe
serve para nada. Um monumento à inutilidade.
30 De alguma forma, toda a humanidade passa por riscos semelhantes. Temos de herança o
imenso patrimônio da leitura de obras valiosíssimas que vêm se acumulando pelos séculos afora. Mas
muitas vezes nem desconfiamos disso e nem nos interessamos pela possibilidade de abri-las, ao
menos para ver o que há lá dentro. É uma pena e um desperdício.
Talvez essa seja a primeira razão pela qual eu sempre quis explorar tudo o que eu pudesse
35 nessa arca e, mais tarde, aproximar meus filhos dos clássicos. Porque eu sei que é um legado
riquíssimo, que se trata de um tesouro inestimável que nós herdamos e ao qual temos direito. Seria
uma estupidez e um absurdo não exigir nossa parte ou simplesmente abrir mão da parte que nos
pertence e deixar que os outros se apoderem de tudo sem dividir conosco.
Ah, sim, porque esse risco também sempre esteve presente na história da humanidade.
40 Tradicionalmente, a leitura devia ser para poucos porque ela é sempre um elemento de poder e podia
ameaçar as minorias que controlavam os livros (e o conhecimento, o saber, a informação). Esses ideais
de alfabetização para todos e acesso amplo aos livros são muito recentes na História. Mas como
estão aí e não há mais jeito para conseguir manter a massa na ignorância total, até parece que surgiu
outra tática de propósito: distrair a maioria da população com outras coisas, para que ela nem
45 perceba que tem uma arca cheia de um rico tesouro bem à sua disposição, pertinho, ali no canto da
sala. (...)
Assim, à minha reivindicação de ler literatura (o que, evidentemente, inclui os clássicos),
porque é nosso direito, vem se somar uma determinação de ler porque é uma forma de resistência.
Esse patrimônio está sendo acumulado há milênios, está à minha disposição, uma parte é minha e
50 ninguém tasca. (...)
Direito e resistência são duas boas razões para a gente chegar perto dos clássicos. Mas há
mais. Talvez a principal seja o prazer que essa leitura nos dá.
(MACHADO. Ana Maria. Como e por que ler os clássicos universais desde cedo. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. p. 16-19. Texto adaptado.)
Ana Maria Machado utiliza a construção “Mas há mais” (ℓ. 51-52) para concluir sua lista de “boas razões para a gente chegar perto dos clássicos”. Os termos destacados têm semelhança sonora e diferença de sentido, e correspondem, respectivamente, aResolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO II
Poema de trás para frente
1 A memória lê o dia
de trás para frente
acendo um poema em outro poema
4 como quem acende um cigarro no outro
que vestígio deixamos
do que não fizemos?
7 como os buracos funcionam?
somos cada vez mais jovens
nas fotografias
10 de trás para frente
a memória lê o dia
(MARQUES, Ana Martins. O livro das semelhanças. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. p. 108)
No poema, “buracos” (v. 7) é uma palavra usada em sentido figurado, que representa aResolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO II
Poema de trás para frente
1 A memória lê o dia
de trás para frente
acendo um poema em outro poema
4 como quem acende um cigarro no outro
que vestígio deixamos
do que não fizemos?
7 como os buracos funcionam?
somos cada vez mais jovens
nas fotografias
10 de trás para frente
a memória lê o dia
(MARQUES, Ana Martins. O livro das semelhanças. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. p. 108)
Empregando os mesmos versos na primeira e na última estrofe, o eu lírico justifica o título do poema e reforça a concepção deResolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO III
1 Naquela época, os colégios eram menores, havia menos gente no mundo. Por um lado era bom,
porque tudo era mais íntimo. Por outro, ficávamos expostos, não tínhamos como escapar, em termos
de anonimato.
Andávamos de bonde, e eu lia os “reclames”, depois chamados de publicidades ou outdoors.
5 No bonde, era “in-bondes”:
Veja, ilustre passageiro,
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem ao seu lado.
10 E no entretanto, acredite,
Quase morreu de bronquite,
Salvou-o o Rhum Creosothado!
Naquele tempo, as minhas colegas de turma, eu as vejo ainda como eram: todas nós com
15 aquelas saias de uniforme pregueadíssimas, sentadas naquelas carteiras de madeira escura...
Denise tocava piano. Quando garotinha, usava tranças grossas e escuras. Morava num casarão,
na rua Marquês de Olinda, junto com um primo, também colega nosso: Guerrino. Denise perdera a
mãe e era criada pela tia, mãe de Guerrino. Acho que era assim, talvez esteja confundindo. Lembro
da casa, com a escada lateral, era uma casa vetusta. Ai, “vetusta”... há quanto tempo eu não ouço esta
20 palavra! Palavra linda, cheia de sombras e cortinados, portas que gemem, sons misteriosos. Lembro
de um salão, com o piano, e Denise tocando Chopin...
Tem gente que acha a vida curta. Pensei que a velhice só acontecesse num futuro eterno, que
nunca chegasse. Ela chegou e não me pegou. Quer dizer: na alma, a gente não envelhece. Tem até
gente que finge que envelhece, só de vergonha de mostrar a alma.
25 (...)
(ORTHOF, Sylvia. Se a memória não me falha. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012. p. 17-18.)
Vocabulário
Rhum Creosothado: remédio da época para tosse, gripe, bronquite e resfriado.
Vetusto: antigo.
“Denise perdera a mãe e era criada pela tia, mãe de Guerrino. Acho que era assim, talvez esteja confundindo”. (ℓ. 17-18)
Nessa passagem, o comentário da narradora sugere queResolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO III
1 Naquela época, os colégios eram menores, havia menos gente no mundo. Por um lado era bom,
porque tudo era mais íntimo. Por outro, ficávamos expostos, não tínhamos como escapar, em termos
de anonimato.
Andávamos de bonde, e eu lia os “reclames”, depois chamados de publicidades ou outdoors.
5 No bonde, era “in-bondes”:
Veja, ilustre passageiro,
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem ao seu lado.
10 E no entretanto, acredite,
Quase morreu de bronquite,
Salvou-o o Rhum Creosothado!
Naquele tempo, as minhas colegas de turma, eu as vejo ainda como eram: todas nós com
15 aquelas saias de uniforme pregueadíssimas, sentadas naquelas carteiras de madeira escura...
Denise tocava piano. Quando garotinha, usava tranças grossas e escuras. Morava num casarão,
na rua Marquês de Olinda, junto com um primo, também colega nosso: Guerrino. Denise perdera a
mãe e era criada pela tia, mãe de Guerrino. Acho que era assim, talvez esteja confundindo. Lembro
da casa, com a escada lateral, era uma casa vetusta. Ai, “vetusta”... há quanto tempo eu não ouço esta
20 palavra! Palavra linda, cheia de sombras e cortinados, portas que gemem, sons misteriosos. Lembro
de um salão, com o piano, e Denise tocando Chopin...
Tem gente que acha a vida curta. Pensei que a velhice só acontecesse num futuro eterno, que
nunca chegasse. Ela chegou e não me pegou. Quer dizer: na alma, a gente não envelhece. Tem até
gente que finge que envelhece, só de vergonha de mostrar a alma.
25 (...)
(ORTHOF, Sylvia. Se a memória não me falha. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012. p. 17-18.)
Vocabulário
Rhum Creosothado: remédio da época para tosse, gripe, bronquite e resfriado.
Vetusto: antigo.
Embora pensasse que “a velhice só acontecesse num futuro eterno” (ℓ. 22), a narradora constata que, para ela, a idade chegou. No entanto, os efeitos do envelhecimento não a incomodam, uma vez queResolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO III
1 Naquela época, os colégios eram menores, havia menos gente no mundo. Por um lado era bom,
porque tudo era mais íntimo. Por outro, ficávamos expostos, não tínhamos como escapar, em termos
de anonimato.
Andávamos de bonde, e eu lia os “reclames”, depois chamados de publicidades ou outdoors.
5 No bonde, era “in-bondes”:
Veja, ilustre passageiro,
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem ao seu lado.
10 E no entretanto, acredite,
Quase morreu de bronquite,
Salvou-o o Rhum Creosothado!
Naquele tempo, as minhas colegas de turma, eu as vejo ainda como eram: todas nós com
15 aquelas saias de uniforme pregueadíssimas, sentadas naquelas carteiras de madeira escura...
Denise tocava piano. Quando garotinha, usava tranças grossas e escuras. Morava num casarão,
na rua Marquês de Olinda, junto com um primo, também colega nosso: Guerrino. Denise perdera a
mãe e era criada pela tia, mãe de Guerrino. Acho que era assim, talvez esteja confundindo. Lembro
da casa, com a escada lateral, era uma casa vetusta. Ai, “vetusta”... há quanto tempo eu não ouço esta
20 palavra! Palavra linda, cheia de sombras e cortinados, portas que gemem, sons misteriosos. Lembro
de um salão, com o piano, e Denise tocando Chopin...
Tem gente que acha a vida curta. Pensei que a velhice só acontecesse num futuro eterno, que
nunca chegasse. Ela chegou e não me pegou. Quer dizer: na alma, a gente não envelhece. Tem até
gente que finge que envelhece, só de vergonha de mostrar a alma.
25 (...)
(ORTHOF, Sylvia. Se a memória não me falha. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012. p. 17-18.)
Vocabulário
Rhum Creosothado: remédio da época para tosse, gripe, bronquite e resfriado.
Vetusto: antigo.
“Lembro da casa, com a escada lateral, era uma casa vetusta. Ai, ‘vetusta’... há quanto tempo eu não ouço esta palavra! Palavra linda, cheia de sombras e cortinados, portas que gemem, sons misteriosos”. (ℓ. 18-20)
Nesse fragmento, “vetusta” é uma palavra que inspira emoções à narradora, poisResolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO III
1 Naquela época, os colégios eram menores, havia menos gente no mundo. Por um lado era bom,
porque tudo era mais íntimo. Por outro, ficávamos expostos, não tínhamos como escapar, em termos
de anonimato.
Andávamos de bonde, e eu lia os “reclames”, depois chamados de publicidades ou outdoors.
5 No bonde, era “in-bondes”:
Veja, ilustre passageiro,
O belo tipo faceiro
Que o senhor tem ao seu lado.
10 E no entretanto, acredite,
Quase morreu de bronquite,
Salvou-o o Rhum Creosothado!
Naquele tempo, as minhas colegas de turma, eu as vejo ainda como eram: todas nós com
15 aquelas saias de uniforme pregueadíssimas, sentadas naquelas carteiras de madeira escura...
Denise tocava piano. Quando garotinha, usava tranças grossas e escuras. Morava num casarão,
na rua Marquês de Olinda, junto com um primo, também colega nosso: Guerrino. Denise perdera a
mãe e era criada pela tia, mãe de Guerrino. Acho que era assim, talvez esteja confundindo. Lembro
da casa, com a escada lateral, era uma casa vetusta. Ai, “vetusta”... há quanto tempo eu não ouço esta
20 palavra! Palavra linda, cheia de sombras e cortinados, portas que gemem, sons misteriosos. Lembro
de um salão, com o piano, e Denise tocando Chopin...
Tem gente que acha a vida curta. Pensei que a velhice só acontecesse num futuro eterno, que
nunca chegasse. Ela chegou e não me pegou. Quer dizer: na alma, a gente não envelhece. Tem até
gente que finge que envelhece, só de vergonha de mostrar a alma.
25 (...)
(ORTHOF, Sylvia. Se a memória não me falha. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012. p. 17-18.)
Vocabulário
Rhum Creosothado: remédio da época para tosse, gripe, bronquite e resfriado.
Vetusto: antigo.
As expressões “Naquela época” (ℓ. 1) e “Naquele tempo” (ℓ. 14) introduzem relatos sobre o passado. Nesses relatos, percebe-se queResolução comentada
Análise das alternativas
Texto IV
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Essa história em quadrinhos se comunica com o leitor por meio de palavras e imagens. Observando a fala de Calvin no primeiro e no último quadrinho, é correto perceber que ele expressa, respectivamente,
TEXTO V
1 Ainda hoje, permanece em mim um desejo obsessivo de salvar o que acontece — ou deixa de
acontecer — na inscrição ininterrupta, sob a forma de memória. Aquele sonho adolescente de
conservar o rastro de todas as vozes que me atravessavam — ou quase atravessavam —, o que devia
ser tão precioso e único, a um só tempo especular e especulativo. Acabei de dizer “deixa de
5 acontecer” e “quase atravessaram” para marcar o fato de que o que acontece — em outras palavras,
o acontecimento único cujo rastro gostaríamos de conservar — é também o próprio desejo de que o
que não acontece deva acontecer.
(DERRIDA, Jacques. Essa estranha instituição chamada literatura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2014. p. 46-47. Texto adaptado.)
Vocabulário
Especular: 1 estudar com atenção, pesquisar, investigar; 2 referente a espelho, que reflete, que tem as propriedades de um espelho.
Especulativo: 1 relativo à especulação, que se caracteriza por investigar teoricamente, que busca o conhecimento, curioso; 2 contemplativo.
Em dois momentos, o autor utiliza travessões para introduzir “ou deixa de acontecer” (ℓ. 1-2) e “ou quase atravessaram” (ℓ. 3). Essas expressões separadas pelos travessões assumem, no texto, o papel deResolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO V
1 Ainda hoje, permanece em mim um desejo obsessivo de salvar o que acontece — ou deixa de
acontecer — na inscrição ininterrupta, sob a forma de memória. Aquele sonho adolescente de
conservar o rastro de todas as vozes que me atravessavam — ou quase atravessavam —, o que devia
ser tão precioso e único, a um só tempo especular e especulativo. Acabei de dizer “deixa de
5 acontecer” e “quase atravessaram” para marcar o fato de que o que acontece — em outras palavras,
o acontecimento único cujo rastro gostaríamos de conservar — é também o próprio desejo de que o
que não acontece deva acontecer.
(DERRIDA, Jacques. Essa estranha instituição chamada literatura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2014. p. 46-47. Texto adaptado.)
Vocabulário
Especular: 1 estudar com atenção, pesquisar, investigar; 2 referente a espelho, que reflete, que tem as propriedades de um espelho.
Especulativo: 1 relativo à especulação, que se caracteriza por investigar teoricamente, que busca o conhecimento, curioso; 2 contemplativo.
A memória é apresentada no texto V sob a ótica do afeto, da subjetividade, e isso se reflete no discurso que, mesmo se propondo teórico, contém traços de conotação. A alternativa com linguagem conotativa é:Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO V
1 Ainda hoje, permanece em mim um desejo obsessivo de salvar o que acontece — ou deixa de
acontecer — na inscrição ininterrupta, sob a forma de memória. Aquele sonho adolescente de
conservar o rastro de todas as vozes que me atravessavam — ou quase atravessavam —, o que devia
ser tão precioso e único, a um só tempo especular e especulativo. Acabei de dizer “deixa de
5 acontecer” e “quase atravessaram” para marcar o fato de que o que acontece — em outras palavras,
o acontecimento único cujo rastro gostaríamos de conservar — é também o próprio desejo de que o
que não acontece deva acontecer.
(DERRIDA, Jacques. Essa estranha instituição chamada literatura. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2014. p. 46-47. Texto adaptado.)
Vocabulário
Especular: 1 estudar com atenção, pesquisar, investigar; 2 referente a espelho, que reflete, que tem as propriedades de um espelho.
Especulativo: 1 relativo à especulação, que se caracteriza por investigar teoricamente, que busca o conhecimento, curioso; 2 contemplativo.
De acordo com o Dicionário da Língua Portuguesa (Aurélio), memória significa “faculdade de reter ideias, sensações, impressões, adquiridas anteriormente. Efeito da faculdade de lembrar; lembrança”. Quando Derrida declara “permanece em mim um desejo obsessivo de salvar o que acontece — ou deixa de acontecer — “ (ℓ. 1-2), é possível perceber, no seu discurso, uma ampliação do conceito de memória. Entre a ideia presente no dicionário e a expressa por Derrida, observa-se queResolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO VI
Quantas vezes a memória
Para fingir que inda é gente,
Nos conta uma grande história
Em que ninguém está presente.
(PESSOA, Fernando. Quadras ao Gosto Popular. Lisboa: Ática. 1973. p. 57.)
No verso “Para fingir que inda é gente”, há uma pressuposição. Esse pressuposto consiste em a memóriaResolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO VI
Quantas vezes a memória
Para fingir que inda é gente,
Nos conta uma grande história
Em que ninguém está presente.
(PESSOA, Fernando. Quadras ao Gosto Popular. Lisboa: Ática. 1973. p. 57.)
No terceiro verso do texto VI, o eu lírico emprega o termo nos, que gera, no poema, o sentido deResolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO VII
1 Colecionar fotos é colecionar o mundo. As fotos são, de fato, experiência capturada, e a
câmera é o braço ideal da consciência, em sua disposição aquisitiva. Imagens fotografadas não
parecem manifestações a respeito do mundo, mas sim pedaços dele, miniaturas da realidade que
qualquer um pode fazer ou adquirir.
5 Fotos, que enfeixam o mundo, parecem solicitar que as enfeixemos também. São afixadas em
álbuns, emolduradas e expostas em mesas, pregadas em paredes, projetadas como diapositivos.
Por meio de fotos, cada família constrói uma crônica visual de si mesma — um conjunto
portátil de imagens que dá testemunho de sua coesão. Um álbum de fotos de família é, em geral, um
álbum sobre a família ampliada — e, muitas vezes, o que dela resta.
10 Assim como as fotos dão às pessoas a posse imaginária de um passado irreal, também as
ajudam a tomar posse de um espaço em que se acham inseguras.
(SONTAG, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 14-5 e 19. Texto adaptado.)
Vocabulário
Diapositivo: imagem positiva, estática e translúcida, de modo geral em película, e que se pode projetar; imagem fotográfica.
Enfeixar: amarrar ou prender em feixe; colocar junto; ajuntar; reunir.
O uso de palavras que se referem a outras já enunciadas evita sua repetição exaustiva e confere fluidez ao texto. No texto de Susan Sontag, a palavra empregada com esse objetivo e o termo ao qual ela se refere estão corretamente associados em
TEXTO VII
1 Colecionar fotos é colecionar o mundo. As fotos são, de fato, experiência capturada, e a
câmera é o braço ideal da consciência, em sua disposição aquisitiva. Imagens fotografadas não
parecem manifestações a respeito do mundo, mas sim pedaços dele, miniaturas da realidade que
qualquer um pode fazer ou adquirir.
5 Fotos, que enfeixam o mundo, parecem solicitar que as enfeixemos também. São afixadas em
álbuns, emolduradas e expostas em mesas, pregadas em paredes, projetadas como diapositivos.
Por meio de fotos, cada família constrói uma crônica visual de si mesma — um conjunto
portátil de imagens que dá testemunho de sua coesão. Um álbum de fotos de família é, em geral, um
álbum sobre a família ampliada — e, muitas vezes, o que dela resta.
10 Assim como as fotos dão às pessoas a posse imaginária de um passado irreal, também as
ajudam a tomar posse de um espaço em que se acham inseguras.
(SONTAG, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 14-5 e 19. Texto adaptado.)
Vocabulário
Diapositivo: imagem positiva, estática e translúcida, de modo geral em película, e que se pode projetar; imagem fotográfica.
Enfeixar: amarrar ou prender em feixe; colocar junto; ajuntar; reunir.
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Nessa passagem, o trecho sublinhado apresenta o valor de
TEXTO VII
1 Colecionar fotos é colecionar o mundo. As fotos são, de fato, experiência capturada, e a
câmera é o braço ideal da consciência, em sua disposição aquisitiva. Imagens fotografadas não
parecem manifestações a respeito do mundo, mas sim pedaços dele, miniaturas da realidade que
qualquer um pode fazer ou adquirir.
5 Fotos, que enfeixam o mundo, parecem solicitar que as enfeixemos também. São afixadas em
álbuns, emolduradas e expostas em mesas, pregadas em paredes, projetadas como diapositivos.
Por meio de fotos, cada família constrói uma crônica visual de si mesma — um conjunto
portátil de imagens que dá testemunho de sua coesão. Um álbum de fotos de família é, em geral, um
álbum sobre a família ampliada — e, muitas vezes, o que dela resta.
10 Assim como as fotos dão às pessoas a posse imaginária de um passado irreal, também as
ajudam a tomar posse de um espaço em que se acham inseguras.
(SONTAG, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. p. 14-5 e 19. Texto adaptado.)
Vocabulário
Diapositivo: imagem positiva, estática e translúcida, de modo geral em película, e que se pode projetar; imagem fotográfica.
Enfeixar: amarrar ou prender em feixe; colocar junto; ajuntar; reunir.
Na oração “as fotos dão às pessoas a posse imaginária de um passado irreal” (ℓ. 10), o verbo apresenta uma regência equivalente à que ocorre emResolução comentada
Análise das alternativas
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