← Voltar para a lista de provas Exército Brasileiro · Capelão Católico (Curso de Formação de Capelães Militares) 41 questões nesta prova · página 1 de 3 · 40 com gabarito Gabarito disponível Substituição de 'decidira' por forma de mesmo valor temporal. 'Decidira' é pretérito mais-que-perfeito simples do indicativo. A forma composta equivalente é 'tinha decidido'. A) pretérito perfeito composto. B) 'houvera decidido' é mais-que-perfeito composto antigo e não é a forma usual equivalente na banca. D) pretérito perfeito. E) pretérito imperfeito. Referência: Tempos e modos verbais Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Funções sintáticas no período: três complementos nominais. Complementos nominais: 'à fé cristã' (completa 'conversão'), 'dos leprosos' (completa 'nojo') e 'com a natureza' (completa 'vínculo'), totalizando três. A) há mais de um objeto direto (ex.: 'os pobres', 'qualquer vínculo'). C) o número de adjuntos adnominais não é sete. D) 'dos leprosos' é complemento nominal, não objeto indireto. E) há mais de um adjunto adverbial (ex.: 'Antes de sua conversão'). Referência: Termos da oração; complemento nominal Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Pontuação equivalente: aposto com travessões e vírgula antes de adjunto. Em D, o aposto 'sonho comum a muitos jovens de seu tempo' é isolado por travessões, e há vírgula adequada antes de 'na Itália' (aposto local). Não há vírgulas indevidas entre verbo e complemento ou antes de oração adverbial restritiva. A) travessão simples no início do aposto, sem fechamento, e vírgula errada. B) vírgula separa 'tradução' de 'da Bíblia'. C) travessão abre sem fechar e falta vírgula antes de 'na Itália'. E) combina travessão e vírgula de forma incorreta ('cruzado –,'). Referência: Pontuação; aposto, travessões e vírgulas Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Relação entre os dois últimos períodos do quinto parágrafo: exemplificação. Após afirmar que o apartheid, a Ku Klux Klan e outros fundamentalismos mostram a persistência da maldade religiosa, o último período do parágrafo traz um caso concreto (apartheid, Malan), funcionando como exemplo do que foi afirmado antes. A e B não se aplicam: não há explicação ou explicitação de termo. C) não há enumeração. D) não há exceção. Referência: Relações lógico-semânticas entre períodos Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Análise do período composto: seis orações, adicionais coordenadas aditivas. O período tem seis orações: 'A escravidão... não somente foi legitimada...', 'que alimentou...', 'como também contou...', 'como aquela...', 'segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana' e 'salvo se fosse batizada...' (I correta). 'Como também contou' é sindética aditiva (par 'não somente... como também') (III correta). Não há oração adverbial conformativa: 'segundo a qual' é pronome relativo, não conjunção conformativa (II errada). B, C e E incluem a II, que é falsa. D está errada porque I e III são corretas. Referência: Período composto; orações coordenadas aditivas Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Crase: 'de 8h a 10h' sem crase. No trecho do texto, 'àquele' é a + aquele (crase correta). Em E, 'de 8h a 10h' deve ter apenas preposição 'a' diante de horas determinadas com 'de... a', sem artigo e sem crase conforme o gabarito. A) 'de segunda à sexta' pede crase só se for 'de segunda-feira à sexta-feira', mas aqui a forma é incorreta segundo a banca. B) 'Salvador do Pelourinho' não pede crase nessa construção. C) 'perante à' é errado: perante não leva crase. D) 'desceu à terra' é incorreto: 'terra' como solo firme não admite artigo. Referência: Crase Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Item que é extrapolação, não interpretação do texto. A afirma que a experiência religiosa ideal 'engrandece o indivíduo para o fortalecimento de seu estar-no-mundo', ideia centrada no indivíduo que o texto não sustenta. O texto defende a bondade como fortalecimento do outro, não do próprio indivíduo. B, C, D e E são compatíveis com o texto: relacionamos com rótulos do outro, o outro é radicalmente diferente, bondade como cooperação supera competição, e religião e bondade podem ser contrárias. Referência: Interpretação de texto; compreensão x extrapolação Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Tipologia: texto dissertativo-argumentativo. O autor defende uma tese (religião e bondade não são o mesmo, e a melhor religião é a que promove a bondade), com argumentos, exemplos históricos e conclusão, caracterizando texto dissertativo-argumentativo. A) não há sequência narrativa predominante. B) não é descrição. C) expositivo apenas explicaria sem posicionamento. E) não há predomínio de comandos/instruções. Referência: Tipologia textual Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Relação entre os dois segmentos separados por dois-pontos: explicitação. O segmento após os dois-pontos detalha, torna explícito em que consiste o 'termômetro para a religiosidade': quanto mais a religião abre ao outro, melhor ela é. Trata-se de explicitação/especificação do termo anterior. A) a explicação traria causa ou justificativa, o que não ocorre. C) não há exemplos. D) não há lista. E) não há exceção. Referência: Relações lógico-semânticas; uso de dois-pontos Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Uso dos porquês: erro em 'Por que não se sentiu apto...'. Em C, 'porque' deveria ser conjunção causal/explicativa ('Porque não se sentiu apto...'), não 'por que'. Na construção, a oração dá uma causa e não pergunta. A) 'por que' introduz oração interrogativa indireta: correto. B) 'por quê' no fim de frase/tônico: correto. D) 'por que' = pelo qual (preposição + relativo): correto. E) 'por que' em oração interrogativa indireta: correto. Referência: Uso dos porquês Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Asserções sobre bondade desinteressada e melhor religião, sem relação causal. O texto afirma que a bondade só existe quando o indivíduo é fonte de favorecimento da vida do outro, em relações gratuitas (I verdadeira), e que a melhor religião é a que mais abre ao outro e fortalece o seu caminho (II verdadeira). Porém II não justifica I: o critério de avaliação da religião decorre do conceito de bondade, não o contrário. A erra ao ver II como justificativa de I (a relação é inversa). C, D e E consideram alguma das asserções falsa, mas ambas são sustentadas pelo texto. Referência: Interpretação de texto; asserção e razão Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Frase que se alinha à fala de Bergson: priorizar ser bom sobre ter razão/verdade. Bergson lamenta ter buscado a verdade (ter razão) em vez de ser bom. 'Queres ser feliz ou ter razão?' contrapõe a busca por razão ao bem-estar/bondade nas relações, ecoando essa ideia. A) trata de persistência. B) trata de aproveitar oportunidades. D) fala de quem se recusa a enxergar a realidade. E) diz que valor não depende do tamanho. Nenhuma contrapõe verdade/razão a bondade. Referência: Interpretação de texto; intertextualidade/paráfrase Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível Classificação gramatical: 'mesma' como pronome demonstrativo. Em 'a religião (a mesma...)', 'mesma' equivale a 'idêntica, a própria', sendo pronome demonstrativo, conforme o gabarito. A) 'Quantas' é pronome interrogativo/indefinido, não advérbio. B) 'judeu' em 'filósofo francês judeu' é adjetivo. C) 'presa' em 'quando não presa e morta' é particípio verbal na voz passiva, não adjetivo puro. D) 'Qual' em 'Qual a diferença...' é pronome interrogativo, não relativo. Referência: Classes de palavras; pronomes demonstrativos, interrogativos e indefinidos Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Passagem para o plural do período do texto. Verbo 'haver' no sentido de existir é impessoal e fica no singular: 'há'. O restante vai ao plural: 'outras bondades que não se referem às competitividades e nem podem gerar quaisquer perspectivas individualistas'. 'Gerar' fica no infinitivo, pois é verbo principal da locução com 'podem'. A, C e E usam 'hão' (erro: haver impessoal). A e C têm 'gerarem' (locução verbal exige infinitivo impessoal). C e D mantêm 'refere'/'pode' no singular com sujeito plural 'bondades', e C traz 'qualquer perspectivas'. Referência: Concordância verbal; verbo haver impessoal; locução verbal Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Plural de substantivos/adjetivos compostos: 'fitas azul-piscina'. Adjetivo composto formado de cor + substantivo (azul-piscina) permanece invariável. Por isso 'fitas azul-piscina' está correto. A) o correto é 'franco-hispânicos' (apenas o último elemento varia; 'franco' é forma reduzida). B) 'verde-claros' é incorreto: cor + adjetivo de cor fica invariável ('verde-claro'). C) 'amarela-claras' é errado; o correto é 'amarelo-claras'. E) 'operários-padrões' é incorreto, pois 'padrão' funciona como especificador, sendo aceito 'operários-padrão'. Referência: Plural dos adjetivos e substantivos compostos (Vocabulário Ortográfico) Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Palavra com função substantiva: 'contrário' em 'o que ocorre é o contrário'. Em 'é o contrário', o termo vem precedido de artigo e funciona como núcleo/predicativo, ou seja, adjetivo substantivado. Nas demais alternativas, a palavra acompanha ou determina um nome. A) 'seu' é pronome possessivo adjetivo, determinando 'leito'. B) 'qualquer' é pronome indefinido adjetivo de 'vínculo'. C) 'bondoso' é adjetivo, complemento nominal de 'capacidade' como predicativo de 'ser'. D) 'outro' em 'Por outro lado' é pronome adjetivo, modifica 'lado'. Referência: Classes de palavras; substantivação Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Predicativo do objeto, aspas de ironia e valor anafórico do pronome 'Isso'. 'Isso transformou senhores de engenho em benfeitores': 'benfeitores' é predicativo do objeto 'senhores de engenho' (I correta). 'Isso' retoma o que foi dito antes (a teoria religiosa), logo é anafórico (III correta). As aspas em 'humanizarem' marcam ironia/distanciamento crítico do autor, não citação de fala dos senhores (II errada). A e B erradas por incluírem a II. D e E incorretas porque I e III são corretas e II é falsa. Resta C. Referência: Predicativo do objeto; pronomes demonstrativos e anáfora; uso de aspas Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Análise do último período do texto: apositivo, finalidade e valor de 'pois'. O segmento 'ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados' é oração reduzida de infinitivo que explica 'a grandeza de qualquer divindade', após dois-pontos, com valor de aposto (I correta). 'Para ficar com a bondade humana' indica finalidade (II correta). Já 'pois' vem antes do verbo ('pois é esta que nos permite...'), com valor explicativo, não conclusivo (III errada). A conclusiva exige 'pois' posposto ao verbo, entre vírgulas; aqui ele introduz justificativa (explicativa). Logo, as alternativas que incluem a III (B, C, E) estão erradas, e D está errada porque I e II são corretas. Referência: Análise sintática; orações subordinadas reduzidas; conjunções coordenativas explicativas e conclusivas Resolução comentada do VaiConcursos.EsFCEx — Concurso de Admissão 2019 (CFO/QC e CFCM 2019/2020) — Capelão Católico — Caderno Tipo A
Texto para as questões 1 a 20.
Religião e Bondade
Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
[5] ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.
[10] Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
[15] Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.
Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
[20] vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.
O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
[25] consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.
Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.
[30] A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
[35] generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
[40] “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.
Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
[45] judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?
Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
[50] lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.
[55] De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
[60] profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?
O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
[65] não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.
Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
[70] alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.
[75] Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
[80] gratuitas se estabelecem. (...)
Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.
[85] Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
[90] Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.
(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)
Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo. (linha 14)
Assinale a alternativa que apresente forma verbal que possa substituir, sem prejuízo de sentido quanto à temporalidade, o verbo decidira, no período acima.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto para as questões 1 a 20.
Religião e Bondade
Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
[5] ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.
[10] Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
[15] Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.
Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
[20] vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.
O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
[25] consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.
Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.
[30] A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
[35] generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
[40] “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.
Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
[45] judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?
Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
[50] lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.
[55] De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
[60] profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?
O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
[65] não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.
Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
[70] alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.
[75] Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
[80] gratuitas se estabelecem. (...)
Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.
[85] Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
[90] Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.
(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)
Antes de sua conversão radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a natureza. (linhas 10 a 12)
Em relação às funções sintáticas do período acima, assinale a alternativa correta.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto para as questões 1 a 20.
Religião e Bondade
Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
[5] ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.
[10] Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
[15] Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.
Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
[20] vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.
O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
[25] consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.
Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.
[30] A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
[35] generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
[40] “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.
Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
[45] judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?
Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
[50] lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.
[55] De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
[60] profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?
O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
[65] não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.
Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
[70] alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.
[75] Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
[80] gratuitas se estabelecem. (...)
Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.
[85] Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
[90] Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.
(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)
Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia, quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. (linhas 12 e 13)
Assinale a alternativa em que ocorra pontuação igualmente correta para o período acima.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto para as questões 1 a 20.
Religião e Bondade
Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
[5] ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.
[10] Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
[15] Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.
Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
[20] vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.
O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
[25] consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.
Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.
[30] A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
[35] generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
[40] “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.
Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
[45] judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?
Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
[50] lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.
[55] De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
[60] profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?
O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
[65] não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.
Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
[70] alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.
[75] Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
[80] gratuitas se estabelecem. (...)
Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.
[85] Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
[90] Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.
(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)
O último período do quinto parágrafo, em relação ao período imediatamente anterior, oResolução comentada
Análise das alternativas
Texto para as questões 1 a 20.
Religião e Bondade
Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
[5] ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.
[10] Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
[15] Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.
Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
[20] vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.
O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
[25] consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.
Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.
[30] A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
[35] generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
[40] “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.
Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
[45] judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?
Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
[50] lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.
[55] De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
[60] profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?
O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
[65] não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.
Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
[70] alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.
[75] Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
[80] gratuitas se estabelecem. (...)
Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.
[85] Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
[90] Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.
(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã. (linhas 36 a 38)
A respeito do trecho acima, analise as afirmativas a seguir:
I. O período é composto por seis orações.
II. O período apresenta uma oração subordinada adverbial conformativa.
III. Há, no período, uma oração coordenada sindética aditiva.
AssinaleResolução comentada
Análise das alternativas
Texto para as questões 1 a 20.
Religião e Bondade
Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
[5] ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.
[10] Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
[15] Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.
Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
[20] vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.
O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
[25] consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.
Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.
[30] A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
[35] generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
[40] “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.
Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
[45] judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?
Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
[50] lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.
[55] De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
[60] profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?
O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
[65] não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.
Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
[70] alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.
[75] Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
[80] gratuitas se estabelecem. (...)
Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.
[85] Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
[90] Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.
(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)
Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. (linhas 73 e 74)
No trecho acima, empregou-se corretamente a regra para o sinal indicativo de crase.
Assinale a alternativa em que isso também tenha ocorrido.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto para as questões 1 a 20.
Religião e Bondade
Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
[5] ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.
[10] Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
[15] Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.
Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
[20] vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.
O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
[25] consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.
Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.
[30] A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
[35] generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
[40] “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.
Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
[45] judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?
Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
[50] lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.
[55] De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
[60] profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?
O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
[65] não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.
Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
[70] alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.
[75] Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
[80] gratuitas se estabelecem. (...)
Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.
[85] Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
[90] Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.
(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)
A respeito das ideias do texto, assinale a afirmativa que NÃO seja alcançada pela compreensão ou interpretação, mas seja fruto de extrapolação.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto para as questões 1 a 20.
Religião e Bondade
Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
[5] ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.
[10] Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
[15] Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.
Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
[20] vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.
O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
[25] consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.
Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.
[30] A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
[35] generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
[40] “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.
Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
[45] judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?
Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
[50] lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.
[55] De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
[60] profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?
O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
[65] não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.
Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
[70] alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.
[75] Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
[80] gratuitas se estabelecem. (...)
Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.
[85] Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
[90] Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.
(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)
O texto deve ser classificado comoResolução comentada
Análise das alternativas
Texto para as questões 1 a 20.
Religião e Bondade
Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
[5] ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.
[10] Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
[15] Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.
Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
[20] vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.
O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
[25] consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.
Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.
[30] A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
[35] generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
[40] “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.
Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
[45] judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?
Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
[50] lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.
[55] De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
[60] profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?
O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
[65] não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.
Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
[70] alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.
[75] Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
[80] gratuitas se estabelecem. (...)
Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.
[85] Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
[90] Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.
(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)
Isso, talvez, nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. (linhas 81 a 83)
O segmento após os dois-pontos, no período acima, em relação ao segmento anterior, exerce papel deResolução comentada
Análise das alternativas
Texto para as questões 1 a 20.
Religião e Bondade
Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
[5] ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.
[10] Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
[15] Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.
Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
[20] vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.
O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
[25] consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.
Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.
[30] A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
[35] generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
[40] “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.
Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
[45] judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?
Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
[50] lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.
[55] De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
[60] profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?
O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
[65] não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.
Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
[70] alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.
[75] Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
[80] gratuitas se estabelecem. (...)
Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.
[85] Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
[90] Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.
(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)
Por que discursos tão cheios de reverência ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de exclusão? (linhas 55 a 57)
No trecho acima, grafou-se corretamente POR QUE.
Assinale a alternativa em que isso NÃO tenha ocorrido.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto para as questões 1 a 20.
Religião e Bondade
Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
[5] ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.
[10] Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
[15] Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.
Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
[20] vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.
O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
[25] consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.
Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.
[30] A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
[35] generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
[40] “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.
Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
[45] judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?
Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
[50] lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.
[55] De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
[60] profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?
O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
[65] não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.
Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
[70] alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.
[75] Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
[80] gratuitas se estabelecem. (...)
Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.
[85] Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
[90] Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.
(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)
Considerando o texto, avalie as seguintes asserções e a relação proposta entre elas.
I. A bondade somente existe se alcançar o fortalecimento desinteressado do outro.
PORQUE
II. A melhor religião é a que mais possibilita meios de fortalecimento desinteressado do outro.
A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto para as questões 1 a 20.
Religião e Bondade
Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
[5] ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.
[10] Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
[15] Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.
Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
[20] vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.
O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
[25] consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.
Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.
[30] A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
[35] generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
[40] “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.
Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
[45] judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?
Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
[50] lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.
[55] De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
[60] profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?
O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
[65] não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.
Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
[70] alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.
[75] Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
[80] gratuitas se estabelecem. (...)
Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.
[85] Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
[90] Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.
(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. (linhas 4 e 5)
A fala do filósofo citada no trecho acima encontra eco em uma das frases listadas nas alternativas a seguir. Assinale-a.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto para as questões 1 a 20.
Religião e Bondade
Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
[5] ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.
[10] Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
[15] Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.
Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
[20] vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.
O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
[25] consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.
Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.
[30] A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
[35] generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
[40] “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.
Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
[45] judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?
Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
[50] lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.
[55] De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
[60] profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?
O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
[65] não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.
Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
[70] alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.
[75] Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
[80] gratuitas se estabelecem. (...)
Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.
[85] Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
[90] Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.
(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)
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No período acima, a palavra grifada classifica-se como
Texto para as questões 1 a 20.
Religião e Bondade
Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
[5] ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.
[10] Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
[15] Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.
Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
[20] vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.
O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
[25] consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.
Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.
[30] A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
[35] generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
[40] “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.
Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
[45] judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?
Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
[50] lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.
[55] De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
[60] profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?
O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
[65] não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.
Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
[70] alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.
[75] Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
[80] gratuitas se estabelecem. (...)
Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.
[85] Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
[90] Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.
(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)
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No trecho acima, há correção gramatical quanto às regras de regência.
Assinale a alternativa em que, alterando-se o segmento sublinhado, manteve-se a correção gramatical segundo a norma culta. Desconsidere inevitáveis alterações de sentido.
Texto para as questões 1 a 20.
Religião e Bondade
Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
[5] ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.
[10] Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
[15] Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.
Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
[20] vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.
O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
[25] consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.
Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.
[30] A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
[35] generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
[40] “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.
Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
[45] judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?
Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
[50] lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.
[55] De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
[60] profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?
O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
[65] não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.
Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
[70] alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.
[75] Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
[80] gratuitas se estabelecem. (...)
Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.
[85] Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
[90] Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.
(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)
Assinale a alternativa que indique corretamente a classificação gramatical do termo apresentado, conforme seu papel no texto.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto para as questões 1 a 20.
Religião e Bondade
Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
[5] ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.
[10] Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
[15] Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.
Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
[20] vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.
O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
[25] consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.
Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.
[30] A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
[35] generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
[40] “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.
Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
[45] judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?
Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
[50] lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.
[55] De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
[60] profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?
O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
[65] não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.
Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
[70] alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.
[75] Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
[80] gratuitas se estabelecem. (...)
Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.
[85] Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
[90] Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.
(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)
Mas há uma outra bondade que não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. (linhas 64 e 65)
Assinale a alternativa que indique a correta passagem para o plural do período acima.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto para as questões 1 a 20.
Religião e Bondade
Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
[5] ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.
[10] Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
[15] Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.
Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
[20] vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.
O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
[25] consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.
Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.
[30] A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
[35] generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
[40] “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.
Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
[45] judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?
Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
[50] lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.
[55] De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
[60] profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?
O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
[65] não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.
Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
[70] alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.
[75] Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
[80] gratuitas se estabelecem. (...)
Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.
[85] Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
[90] Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.
(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)
A exemplo de mulheres-bomba (linha 31), em que a flexão para o plural se deu corretamente, assinale a alternativa em que também se tenha correção gramatical na composição do plural.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto para as questões 1 a 20.
Religião e Bondade
Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
[5] ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.
[10] Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
[15] Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.
Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
[20] vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.
O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
[25] consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.
Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.
[30] A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
[35] generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
[40] “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.
Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
[45] judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?
Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
[50] lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.
[55] De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
[60] profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?
O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
[65] não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.
Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
[70] alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.
[75] Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
[80] gratuitas se estabelecem. (...)
Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.
[85] Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
[90] Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.
(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)
Assinale a alternativa em que o termo indicado exerça, no texto, função substantiva.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto para as questões 1 a 20.
Religião e Bondade
Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
[5] ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.
[10] Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
[15] Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.
Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
[20] vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.
O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
[25] consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.
Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.
[30] A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
[35] generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
[40] “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.
Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
[45] judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?
Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
[50] lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.
[55] De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
[60] profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?
O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
[65] não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.
Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
[70] alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.
[75] Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
[80] gratuitas se estabelecem. (...)
Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.
[85] Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
[90] Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.
(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. (linhas 39 e 40)
A respeito do período acima, analise as afirmativas a seguir:
I. O termo benfeitores exerce função de predicativo do objeto.
II. A palavra “humanizarem” se colocou entre aspas por referir a expressão que os senhores de engenho empregavam, o que a coloca no âmbito de citação.
III. O pronome Isso apresenta função anafórica.
AssinaleResolução comentada
Análise das alternativas
Texto para as questões 1 a 20.
Religião e Bondade
Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.
No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
[5] ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.
[10] Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
[15] Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.
Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
[20] vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.
O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
[25] consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.
Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.
[30] A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
[35] generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.
A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.
Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
[40] “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.
Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
[45] judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?
Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
[50] lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.
[55] De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
[60] profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?
O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
[65] não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.
Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
[70] alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.
[75] Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
[80] gratuitas se estabelecem. (...)
Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.
[85] Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
[90] Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.
(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)
Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados. (linhas 91 e 92)
A respeito do período acima, analise as afirmativas a seguir:
I. O segmento ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados exerce função apositiva.
II. O segmento para ficar com a bondade humana exerce papel final.
III. A conjunção pois exerce papel conclusivo.
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