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EsFCEx — Concurso de Admissão 2019 (CFO/QC e CFCM 2020) — Capelão Evangélico — Caderno Tipo A

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares)

EsFCEx2019Superior

41 questões nesta prova · página 1 de 3 · 40 com gabarito

Língua Portuguesa Tempos e Modos Verbais

EsFCEx 2019 Superior

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares) · Caderno Tipo A

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo. (linha 14)

Assinale a alternativa que apresente forma verbal que possa substituir, sem prejuízo de sentido quanto à temporalidade, o verbo decidira, no período acima.
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Substituto de 'decidira' (pretérito mais-que-perfeito).

'Decidira' está no pretérito mais-que-perfeito simples, ação passada anterior a outra passada. A forma composta equivalente, de uso corrente, é 'tinha decidido', que mantém a temporalidade.

Análise das alternativas

A) 'Tem decidido' é pretérito perfeito composto, ação que se prolonga até o presente. B) 'Houvera decidido' é a forma literária do mais-que-perfeito, rara, e não é a indicada pelo gabarito. D) 'Decidiu' é pretérito perfeito. E) 'Decidia' é pretérito imperfeito.

Referência: Tempos e modos verbais: pretérito mais-que-perfeito.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Análise Sintática

EsFCEx 2019 Superior

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares) · Caderno Tipo A

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

Antes de sua conversão radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a natureza. (linhas 10 a 12)

Em relação às funções sintáticas do período acima, assinale a alternativa correta.
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Funções sintáticas do período sobre a conversão de Francisco.

Há três complementos nominais: 'à fé cristã' (complementa 'conversão'), 'dos leprosos' (complementa 'nojo') e 'com a natureza' (complementa 'vínculo'). Todos completam substantivos abstratos de sentido transitivo.

Análise das alternativas

A) Há mais de um objeto direto: 'nojo', 'para os pobres' é indireto e 'vínculo' é objeto direto de 'tinha'. C) O número de adjuntos adnominais é menor. D) 'para os pobres' não é a quantidade apontada. E) Há mais de um adjunto adverbial ('Antes de sua conversão...', 'mal').

Referência: Sintaxe: complemento nominal.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Pontuação

EsFCEx 2019 Superior

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares) · Caderno Tipo A

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia, quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. (linhas 12 e 13)

Assinale a alternativa em que ocorra pontuação igualmente correta para o período acima.
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Pontuação do período sobre Francisco de Assis.

O aposto 'sonho comum a muitos jovens de seu tempo' pode ser isolado por travessões (par completo). Depois da oração adverbial 'Após querer ser um cruzado' vem a vírgula, e as demais partes ficam sem vírgulas desnecessárias. A alternativa D mantém a pontuação coerente e correta.

Análise das alternativas

A) Abre travessão sem fechar e usa vírgula antes de 'Francisco', que ficou sem separar a oração. B) Separa 'tradução' de 'da Bíblia' com vírgula indevida. C) Usa só um travessão e deixa vírgulas irregulares. E) Coloca vírgula antes do travessão de abertura ('cruzado –,') e vírgula desnecessária entre termos ligados.

Referência: Pontuação: aposto, travessão e vírgula.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Coesão e Coerência Textual

EsFCEx 2019 Superior

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares) · Caderno Tipo A

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

O último período do quinto parágrafo, em relação ao período imediatamente anterior, o
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Relação entre o último período do quinto parágrafo e o anterior: exemplificação.

O quinto parágrafo começa com o casamento entre altar e poder político, produzindo males, e traz o exemplo do 'O martelo das feiticeiras'. O último período ('Mulheres as mais diversas eram facilmente consideradas bruxas...') ilustra o que o manual defendia, funcionando como exemplo da maldade religiosa.

Análise das alternativas

A) Não explica causas. B) Não detalha um conteúdo anunciado entre dois-pontos. C) Não enumera. D) Não exclui nem faz exceção.

Referência: Coesão e relações lógico-semânticas entre períodos.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Período Composto

EsFCEx 2019 Superior

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares) · Caderno Tipo A

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã. (linhas 36 a 38)

A respeito do trecho acima, analise as afirmativas a seguir:

I. O período é composto por seis orações.

II. O período apresenta uma oração subordinada adverbial conformativa.

III. Há, no período, uma oração coordenada sindética aditiva.

Assinale
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Análise do período composto sobre a escravidão de africanos.

Contando orações: 'foi legitimada', 'que alimentou', 'contou', 'como aquela [é a teoria]' (verbo elíptico), 'a pessoa negra não tinha alma' e 'se fosse batizada', totalizam seis (I certa). 'Não somente... como também' é correlação aditiva entre orações coordenadas (III certa). Não há oração conformativa, pois 'segundo a qual' faz parte de uma relativa e não indica conformidade (II errada).

Análise das alternativas

B, C e E) Consideram certa a II, que está errada. D) Erra por negar I e III. A) Está correta.

Referência: Período composto: coordenação sindética aditiva, subordinadas adjetivas e adverbiais.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Crase

EsFCEx 2019 Superior

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares) · Caderno Tipo A

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. (linhas 73 e 74)

No trecho acima, empregou-se corretamente a regra para o sinal indicativo de crase.

Assinale a alternativa em que isso também tenha ocorrido.
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Uso correto do acento indicativo de crase.

Em 'de 8h a 10h' não há crase, porque 'a' é preposição diante de numeral de horas na estrutura 'de... a...'. As outras alternativas apresentam erros de crase.

Análise das alternativas

A) Em 'de segunda a sexta' não há artigo definido que justifique a crase na norma esperada. B) Topônimo sem artigo ('Salvador') não leva crase. C) Não há crase antes de palavra após 'perante', preposição. D) 'Terra' em oposição a mar ou bordo rejeita artigo, logo não haveria crase.

Referência: Crase: horas, locução 'de... a...', topônimos, palavras sem artigo.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Interpretação de Texto

EsFCEx 2019 Superior

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares) · Caderno Tipo A

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

A respeito das ideias do texto, assinale a afirmativa que NÃO seja alcançada pela compreensão ou interpretação, mas seja fruto de extrapolação.
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Qual afirmativa é extrapolação e não está apoiada no texto.

O texto afirma que a bondade é voltada ao outro e que a religião é boa quando faz o indivíduo abrir-se ao outro e fortalecê-lo, sem traço individualista. A alternativa A diz que a experiência religiosa ideal 'engrandece o indivíduo para o fortalecimento de seu estar-no-mundo', que é uma ideia centrada no indivíduo e não aparece no texto.

Análise das alternativas

B) Retoma que nos relacionamos com rótulos e não com o outro. C) Retoma a dificuldade de lidar com a alteridade radical. D) Contrapõe a bondade cooperativa à competitiva. E) Está dito: religião e bondade 'não são a mesma coisa' e podem ser opostas.

Referência: Interpretação de texto: compreensão, interpretação e extrapolação.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Tipologia Textual

EsFCEx 2019 Superior

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares) · Caderno Tipo A

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

O texto deve ser classificado como
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Tipologia: texto dissertativo-argumentativo.

O autor defende uma tese (religião e bondade não se confundem; a boa religião é a que promove o fortalecimento do outro) usando exemplos, perguntas retóricas, conceitos e conclusões. Há posicionamento e persuasão, o que caracteriza o dissertativo-argumentativo.

Análise das alternativas

A) Os relatos de Bergson e Francisco são apenas exemplos. B) Não há predominância de descrição. C) Um texto expositivo apenas informaria, sem defender ponto de vista. E) Não é instrucional.

Referência: Tipologia textual.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Coesão e Coerência Textual

EsFCEx 2019 Superior

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares) · Caderno Tipo A

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

Isso, talvez, nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. (linhas 81 a 83)

O segmento após os dois-pontos, no período acima, em relação ao segmento anterior, exerce papel de
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Função do segmento após os dois-pontos: explicitação.

Depois dos dois-pontos o autor detalha em que consiste o 'termômetro para a religiosidade': quanto mais uma religião favorece a abertura ao outro, melhor ela é. Trata-se de explicitar, ou seja, especificar um conteúdo já anunciado, e não de justificar uma afirmação.

Análise das alternativas

A) Explicação seria apresentar a causa ou o porquê. C) Não há exemplo. D) Não há uma lista. E) Não há exceção.

Referência: Coesão e valores semânticos dos dois-pontos.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Uso dos Porquês

EsFCEx 2019 Superior

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares) · Caderno Tipo A

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

Por que discursos tão cheios de reverência ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de exclusão? (linhas 55 a 57)

No trecho acima, grafou-se corretamente POR QUE.

Assinale a alternativa em que isso NÃO tenha ocorrido.
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Emprego correto dos porquês; a alternativa C deveria usar 'porque'.

Em 'Por que não se sentiu apto..., deve deixar de tentar?', a oração é causal e responde a por quê, logo o correto seria 'Porque' (conjunção, junto). Nas demais, o uso está certo.

Análise das alternativas

A) 'por que' introduz interrogativa indireta, está certo. B) 'por quê' vem em fim de segmento, tônico, e está certo. D) 'por que' = 'pela qual' (preposição + pronome relativo), está certo. E) 'por que' introduz interrogativa indireta, está certo.

Referência: Uso dos porquês.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Interpretação de Texto

EsFCEx 2019 Superior

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares) · Caderno Tipo A

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

Considerando o texto, avalie as seguintes asserções e a relação proposta entre elas.

I. A bondade somente existe se alcançar o fortalecimento desinteressado do outro.

PORQUE

II. A melhor religião é a que mais possibilita meios de fortalecimento desinteressado do outro.

A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta.
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Asserções sobre bondade desinteressada e melhor religião, sem relação de causa.

A asserção I é verdadeira: o texto diz que a bondade só existe quando o indivíduo é fonte de favorecimento da vida do outro e que as relações com o outro são 'gratuitas'. A II também é verdadeira, pois a melhor religião é a que torna a pessoa mais capaz de fortalecer os outros. Mas a II não explica a I, já que o texto parte da definição de bondade para só depois avaliar as religiões.

Análise das alternativas

A) Erra ao ligar as duas por causa e consequência (a II não justifica a I). C, D e E) Erram ao considerar falsa alguma das asserções.

Referência: Interpretação de texto: relação entre asserções (asserção-razão).

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Interpretação de Texto

EsFCEx 2019 Superior

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares) · Caderno Tipo A

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. (linhas 4 e 5)

A fala do filósofo citada no trecho acima encontra eco em uma das frases listadas nas alternativas a seguir. Assinale-a.
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Frase que ecoa a fala de Bergson sobre procurar ser bom, não a verdade.

Bergson lamenta ter buscado a verdade, quando deveria ter buscado ser bom. A pergunta 'Queres ser feliz ou ter razão?' tem a mesma estrutura de escolha: abrir mão de ter razão (a verdade) para viver bem com o outro e consigo.

Análise das alternativas

A) Fala de persistência. B) Fala de aproveitar oportunidades. D) Trata da cegueira voluntária, ou seja, de não querer enxergar. E) Valoriza o que é pequeno. Nenhuma contrapõe verdade e bondade.

Referência: Interpretação de texto: paralelismo de ideias.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Classes de Palavras

EsFCEx 2019 Superior

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares) · Caderno Tipo A

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

Trecho “Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal. (linha 16)”, com a palavra “que” destacada em negrito.

No período acima, a palavra grifada classifica-se como
Selecione uma alternativa

Língua Portuguesa Regência Verbal

EsFCEx 2019 Superior

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares) · Caderno Tipo A

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

Trecho “Em outras palavras, negou a religião à qual gostaria de aderir, para ser bom. (linhas 7 e 8)”, com o segmento “negou a religião à qual gostaria de aderir,” sublinhado.

No trecho acima, há correção gramatical quanto às regras de regência.

Assinale a alternativa em que, alterando-se o segmento sublinhado, manteve-se a correção gramatical segundo a norma culta. Desconsidere inevitáveis alterações de sentido.
Selecione uma alternativa

Língua Portuguesa Classes de Palavras

EsFCEx 2019 Superior

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares) · Caderno Tipo A

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

Assinale a alternativa que indique corretamente a classificação gramatical do termo apresentado, conforme seu papel no texto.
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Classificação gramatical de 'mesma' em 'a mesma religião'.

Em 'a religião (a mesma, diga-se de passagem)', 'mesma' equivale a 'idêntica' e aparece como termo demonstrativo que retoma 'religião'. Esse é o enquadramento adotado pelo gabarito para a alternativa E.

Análise das alternativas

A) 'Quantas' é pronome interrogativo/indefinido, não advérbio. B) 'judeu' acompanha 'filósofo' e é adjetivo. C) 'presa' é particípio que atribui estado a 'mulher', não um adjetivo no sentido pedido. D) 'Qual' em 'Qual a diferença' é pronome interrogativo, não relativo.

Referência: Classes de palavras: pronomes demonstrativos, interrogativos e relativos.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Concordância Verbal

EsFCEx 2019 Superior

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares) · Caderno Tipo A

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

Mas há uma outra bondade que não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. (linhas 64 e 65)

Assinale a alternativa que indique a correta passagem para o plural do período acima.
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Passagem do período para o plural com 'há' impessoal.

O verbo 'haver' no sentido de existir é impessoal e permanece 'há'. Plurais corretos: 'outras bondades', 'se referem' (concorda com 'bondades'), 'podem gerar' (só o verbo auxiliar flexiona) e 'quaisquer perspectivas'.

Análise das alternativas

A) 'hão' e 'podem gerarem' estão errados. C) 'hão', 'se refere', 'pode gerarem' e 'qualquer perspectivas' estão errados. D) 'se refere', 'pode' e 'gerarem' estão errados. E) 'hão' está errado, pois 'haver' impessoal não vai ao plural.

Referência: Concordância verbal: verbo haver impessoal, locuções verbais.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Flexão de Substantivos e Adjetivos Compostos

EsFCEx 2019 Superior

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares) · Caderno Tipo A

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

A exemplo de mulheres-bomba (linha 31), em que a flexão para o plural se deu corretamente, assinale a alternativa em que também se tenha correção gramatical na composição do plural.
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Plural correto de palavras compostas, como 'mulheres-bomba'.

Cores formadas por substantivo (azul-piscina) ficam invariáveis, e 'fitas azul-piscina' está correto. Na composição, só o primeiro elemento varia quando o segundo funciona como especificador ('mulheres-bomba').

Análise das alternativas

A) Nos adjetivos pátrios compostos só o último varia e o primeiro fica reduzido: 'franco-hispânicos'. B) Em adjetivos compostos só o último elemento varia: 'verde-claros'. C) Deveria ser 'amarelo-claras', com o primeiro elemento em forma masculina invariável. E) Quando o segundo elemento indica modelo ou tipo ('padrão'), ele não varia: 'operários-padrão'.

Referência: Plural de substantivos e adjetivos compostos.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Classes de Palavras

EsFCEx 2019 Superior

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares) · Caderno Tipo A

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

Assinale a alternativa em que o termo indicado exerça, no texto, função substantiva.
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Palavra com função de substantivo no texto: 'contrário'.

Em 'o que ocorre é o contrário', o adjetivo 'contrário' vem precedido de artigo e funciona como substantivo (substantivação). Os demais termos mantêm sua classe original.

Análise das alternativas

A) 'seu' é pronome possessivo. B) 'qualquer' é pronome indefinido, adjunto adnominal de 'vínculo'. C) 'bondoso' é adjetivo, predicativo de 'ser'. D) 'outro' em 'por outro lado' é pronome indefinido adjetivo, que acompanha 'lado'.

Referência: Classes de palavras: substantivação.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Análise Sintática

EsFCEx 2019 Superior

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares) · Caderno Tipo A

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. (linhas 39 e 40)

A respeito do período acima, analise as afirmativas a seguir:

I. O termo benfeitores exerce função de predicativo do objeto.

II. A palavra “humanizarem” se colocou entre aspas por referir a expressão que os senhores de engenho empregavam, o que a coloca no âmbito de citação.

III. O pronome Isso apresenta função anafórica.

Assinale
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Predicativo do objeto, aspas e função anafórica de 'Isso' no trecho sobre os senhores de engenho.

Em 'transformou senhores de engenho em benfeitores', 'em benfeitores' é predicativo do objeto direto, e a preposição não impede essa função (I certa). 'Isso' retoma a teoria religiosa citada antes, logo é anafórico (III certa). As aspas em 'humanizarem' marcam um sentido irônico ou ressalvado: o autor sinaliza que a 'humanização' pelo batismo era um pretexto. Por isso a afirmativa II não está correta.

Análise das alternativas

A e E incluem a II, que está errada. B também inclui a II e exclui a I. D erra porque I e III estão corretas. C está correta.

Referência: Predicativo do objeto; pronomes anafóricos; uso de aspas.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Análise Sintática

EsFCEx 2019 Superior

Exército Brasileiro · Capelão Militar Evangélico (Curso de Formação de Capelães Militares) · Caderno Tipo A

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto para as questões 1 a 20.

Religião e Bondade

Quantas maldades as religiões fizeram e ainda fazem em nome da bondade? Da inquisição na Idade Média, passando
pela escravidão, pelo apartheid, pelos fundamentalismos contemporâneos e também pela intolerância religiosa no Brasil, resulta
uma análise histórico-filosófica da relação entre religião e bondade.

No seu leito de morte, o filósofo francês judeu Henri Bergson (1859-1941) disse a um amigo, também filósofo, que na
5 ocasião o visitava: “Passei a vida inteira procurando a verdade; deveria ter passado procurando ser bom”. Anos antes, esse
grande e conhecido pensador quis se converter ao catolicismo, mas não o fez. Abriu mão da conversão, para ser solidário com
seus irmãos e irmãs judeus, que foram dizimados durante a Segunda Guerra Mundial. Em outras palavras, negou a religião à
qual gostaria de aderir, para ser bom. Exatamente ao abandonar a adesão à religião de que tanto gostava, ele tornou-se bom.
Isso, contudo, não quer dizer que somente abandonando a religião alguém consegue ser bom.

10 Pensemos em São Francisco de Assis (1182-1226), conhecido como “pobrezinho de Assis”. Antes de sua conversão
radical à fé cristã, sentia nojo dos “leprosos”, mal olhava para os pobres e não tinha qualquer vínculo afetivo profundo com a
natureza. Após querer ser um cruzado, sonho comum a muitos jovens de seu tempo, Francisco conheceu uma tradução da Bíblia,
quando estivera preso por causa de sua participação em um combate em Perúgia, na Itália. Acometido por algumas doenças,
depois de um ano no cárcere, Francisco retorna ao lar transfigurado. Decidira abandonar tudo e seguir os passos de Cristo.
15 Rapidamente, “converteu-se” aos pobres, aos leprosos e à natureza como um todo, passando a amá-los e protegê-los até a sua
morte. Foi na religião que Francisco potencializou sua bondade universal.

Esses dois exemplos já nos deixam perceber a complexidade da relação entre religião e bondade. Podemos abandonar
uma religião para exercer a bondade e podemos aderir a uma religião e, assim, fortalecer nossa capacidade de ser bondoso. Por
outro lado, muitos exemplos históricos já nos fazem duvidar de que o simples fato de alguém ser religioso o leva a ser bom. Às
20 vezes, como sabido, o que ocorre é o contrário.

O casamento entre altar religioso e poder político, na Idade Média, e também em outros momentos da história, nos
mostra quando e como a religião, em nome da bondade, produz assassinatos, perseguições e outros diversos males. Quem lê o
manual medieval de caça às bruxas, chamado O martelo das feiticeiras, de Heinrich Kraemer e James Sprenger, publicado
originalmente em 1486, fica perplexo com a relação entre religião e maldade. Mulheres as mais diversas eram facilmente
25 consideradas bruxas e deveriam ser perseguidas, silenciadas e mortas pelo fato de serem dotadas de “poderes demoníacos”.

Quantas mulheres foram assassinadas por não corresponderem aos ideais morais e religiosos da Igreja cristã? Em uma
parte extremamente preconceituosa do referido livro, seus autores dizem que toda mulher é naturalmente torta, porque segue a
primeira mulher, Eva, que nasceu da costela de Adão e a costela é torta. Por isso, toda mulher deveria ser corrigida, retificada,
regulada, quando não presa e morta, caso não fosse corrigida.

30 A inquisição medieval não é a palavra final da maldade religiosa. Que se pense, agora, nos fundamentalismos religiosos
contemporâneos. Homens-bomba, mulheres-bomba islâmicos, mas também Ku Klux Klan, movimento que se legitimava pela fé
cristã, são sinais de que a maldade religiosa não morreu com o fim da Idade Média. O apartheid, por exemplo, foi institucionalizado
pelo político e pastor protestante sul-africano Daniel François Malan (1874-1959), em 1948. Essa política segregacionista, que
vinha se construindo por meio de medidas legais desde o início do século 20, produzindo a exclusão dos negros e a violência
35 generalizada na África do Sul, durou até 1994. E isso ainda é pouco.

A escravidão de africanos e seus descendentes, que alimentou o desejo europeu de expansão econômica pela via da
colonização, não somente foi legitimada pelas Igrejas católica e protestante, como também contou com teorias religiosas
abomináveis, como aquela segundo a qual a pessoa negra não tinha alma humana, salvo se fosse batizada na fé cristã.

Isso transformou senhores de engenho no Brasil em benfeitores, uma vez que eles seriam responsáveis por
40 “humanizarem” os escravos e as escravas, ao levá-los para as águas do batismo. A cruz descia goela abaixo, enquanto a chibata
cortava corpos negros na América como um todo.

Também vale a pena lembrar da intolerância religiosa no Brasil. Cristãos falam que Deus é amor, porém alguns deles
invadem terreiros de candomblé e de umbanda, destroem seus espaços e acreditam que estão promovendo a vontade de Deus.
E a homofobia cristã? E a inferiorização da mulher em diversas religiões, sobretudo nas conhecidas religiões monoteístas –
45 judaísmo, cristianismo e islamismo? Quem consegue enxergar bondade em práticas e teorias religiosas que promovem exclusão
e diminuição do outro, ainda quando assim o fazem em nome do amor?

Isso tudo serve para mostrar que bondade e religião não são a mesma coisa. Como mostrado acima, a religião pode
incentivar a maldade, a crueldade justamente em nome da bondade. Talvez seja esse o sentido do famoso ditado popular: “De
boa intenção o inferno está cheio”. Os inquisidores medievais, por exemplo, não deveriam inquirir um “herege” querendo destruí-
50 lo, mas só poderiam abordá-lo com misericórdia no coração. Aliás, deve-se lembrar que o tribunal da inquisição católica (também
existiu inquisição protestante) era conhecido como “tribunal da misericórdia”. Quando o corpo de um herege queimava nas
chamas por ordem do “braço secular”, que efetivamente enviava para o fogo aqueles e aquelas que a Igreja anteriormente havia
julgado e condenado, os padres que participavam do processo deveriam ter o coração repleto de amor, pois estavam orando pela
misericórdia divina e pela salvação de suas almas.

55 De fato, religião e bondade não são a mesma coisa. Mas, por que é assim? Por que discursos tão cheios de reverência
ao sagrado, ao ser humano e à natureza muitas vezes produzem genocídio, ódio à diferença, ressentimento e práticas de
exclusão? Qual a diferença da religião na vida de São Francisco de Assis para a religião (a mesma, diga-se de passagem) na
vida dos inquisidores? Todas essas questões dependem diretamente do que chamamos de bondade. É a bondade que nos
permite entender por que ora a religião condiciona práticas de destruição, ora a mesma religião pode possibilitar a bondade
60 profunda das pessoas. Por isso, devemos perguntar: quando exercemos a bondade?

O que entendemos por bondade não possui qualquer traço individualista. É claro que muitas vezes falamos que alguém
é bom individualmente, quando, por exemplo, possui um bom desempenho em um esporte coletivo ou mesmo individual. Falamos
que alguém é um bom corredor e assim o dizemos pensando no indivíduo, que compete com os outros e os vence em uma
competição. Portanto, é possível falar que alguém é bom justamente porque derrota os outros. Mas há uma outra bondade que
65 não se refere à competitividade e nem pode gerar qualquer perspectiva individualista. Trata-se da bondade que se expressa nas
relações de cooperação e solidariedade com os outros. Nessa bondade, o indivíduo é tanto melhor, quanto mais consegue
fortalecer o outro. Por isso, nesse sentido, a bondade só existe quando o indivíduo se coloca como fonte de favorecimento da
vida do outro. Em outras palavras, alteridade e bondade são termos que se interpenetram de ponta a ponta.

Toda a questão recai em saber o que significa a alteridade, o outro, que é o alvo da minha bondade. Ser outro não é ser
70 alguém que eu não sou. Ser outro é ser irredutível a mim, é ser o radicalmente diferente, o que jamais pode ser assimilado ao
meu modo de pensar, sentir e querer. Por isso, quando me relaciono com o outro, me relaciono com o inadequado, com o indizível,
com aquele ou aquela que jamais pode ser enquadrado nos limites do meu conhecimento ou mesmo dos meus sentimentos.
Relacionar-se com o outro é abrir mão de formas narcisistas de viver. Em outros termos, só nos relacionamos com o outro quando
nos abrimos àquele ou àquela que jamais se identifica comigo por inteiro. Isso é extremamente difícil.

75 Quase sempre não nos relacionamos com o outro, mas com o que o outro pensa, com a cor da pele do outro, com a
profissão que desempenha, com o time de futebol de alguém, com as crenças religiosas que ele ou ela tem. Quando rotulamos
alguém, quando o enquadramos nos referenciais de nossa religião, quando o reduzimos à nossa moralidade, então, não mais
nos relacionamos com o outro, mas com um objeto que pode ser usado, manipulado e, por vezes, descartado. Por isso, onde
usamos e funcionalizamos alguém, matamos sua alteridade, destruímos seu modo de ser outro. Onde o outro aparece, relações
80 gratuitas se estabelecem. (...)

Por vezes, a religião é um espaço de potencialização da bondade; outras vezes, é o contrário que acontece. Isso, talvez,
nos possibilite pensar em um termômetro para a religiosidade humana: quanto mais uma religião me favorece a me abrir ao outro
para fortalecer o seu caminho, melhor ela é. Quanto mais ela me fecha em mim mesmo, promovendo a ditadura do individualismo
e do egocentrismo, por mais que fale de Deus, de amor ou de qualquer outra realidade sagrada, pior ela é.

85 Em outras palavras, a qualidade da experiência religiosa pode ser medida pela sua capacidade de promover a bondade
humana. Foi exatamente isso que Dalai Lama falou para o teólogo brasileiro Leonardo Boff, no intervalo de um encontro
promovido pela ONU, após ser perguntado por este qual seria a melhor religião. Sua resposta foi: “Aquela que te faz melhor”.
Para explicar sua resposta, continuou: “Aquela que te faz mais compassivo é a melhor religião”. Não seria o mesmo que afirmar
que a melhor religião é aquela que faz alguém mais bondoso? Se for assim, então, todos os ritos, mitos, dogmas, conceitos de
90 Deus etc. só têm sentido se tornam o ser humano mais capaz de fortalecer outros humanos (sem contar a natureza como um
todo). Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é
esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados.

(Alexandre Marques Cabral. Departamento de Filosofia, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Ciência Hoje, texto publicado em 12/9/2019. Disponível em cienciahoje.org.br)

Por isso, quando a religião fortalece a maldade humana, melhor é abandoná-la para ficar com a bondade humana, pois é esta que nos permite entender a grandeza de qualquer divindade: ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados. (linhas 91 e 92)

A respeito do período acima, analise as afirmativas a seguir:

I. O segmento ser capaz de tornar os seres humanos mais humanizados exerce função apositiva.

II. O segmento para ficar com a bondade humana exerce papel final.

III. A conjunção pois exerce papel conclusivo.

Assinale
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Análise sintática do período final do texto: oração apositiva, final e conjunção 'pois'.

A oração reduzida de infinitivo 'ser capaz de tornar...' esclarece 'a grandeza de qualquer divindade', portanto é apositiva (I certa). 'Para ficar com a bondade humana' indica a finalidade de abandonar a religião (II certa). Já 'pois' introduz a justificativa de por que abandonar a religião é melhor, então é explicativo, não conclusivo (III errada).

Análise das alternativas

A está correta. B e E erram por considerar a afirmativa III certa, pois 'pois' vem antes da explicação e não indica conclusão. C erra por incluir a III e excluir a I. D erra porque I e II estão corretas.

Referência: Sintaxe do período composto: orações subordinadas apositivas e adverbiais finais; conjunções coordenativas explicativas.

Resolução comentada do VaiConcursos.