← Voltar para a lista de provas Exército Brasileiro · Oficial do Quadro Complementar (CFO/QC) — Magistério Português 70 questões nesta prova · página 4 de 4 · 70 com gabarito Gabarito disponível Classificação de 'não é' em 'Parece fato pequeno, não é.' 'Não é' é uma oração justaposta, sem conectivo (assindética), que retifica/contrapõe de forma a confirmar a afirmação anterior, com valor adversativo no gabarito oficial. A e B: não há conjunção, logo não são sindéticas. C: não há ideia de adição. D: 'Parece fato pequeno' é a principal, e a oração em questão é a segunda, não principal. Referência: Orações coordenadas assindéticas. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Função dos parênteses no comentário da autora. O trecho entre parênteses é uma interferência da autora, um comentário que sai do fluxo da narrativa, com caráter extratextual. Só a afirmativa I descreve isso corretamente. II está errada: travessões não 'garantem' natureza extratextual, e a escolha dos parênteses é adequada. III erra ao dizer que o trecho mantém o nível textual da narrativa; ele quebra esse nível. Referência: Pontuação: parênteses e intromissão do autor. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Vírgula por elipse do verbo. No segundo período ('E no guidom da bicicleta, um pano escuro...') o verbo 'ponhamos' está omitido, por já constar no período anterior. A vírgula marca essa elipse (zeugma), separando o adjunto adverbial do termo seguinte. A: não há deslocamento que justifique sozinho. B: não se trata de termos de mesma função em sequência. C: não é paralelismo. E: não há ambiguidade a evitar. Referência: Pontuação: vírgula indicando elipse de verbo. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Registro de 'o cara deu mole'. 'Dar mole' e 'cara' são expressões típicas de gíria, vocabulário informal e característico de grupos/época, empregado na fala da mulher. A: não é culta. C: jargão é vocabulário técnico de uma profissão. D: popular inculta envolveria desvios gramaticais, não presentes. E: regional ligaria a uma região específica. Referência: Variação linguística: gíria. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Asserções sobre canga e o ladrão: II justifica I. O texto afirma que homens não usam canga e conclui que o ladrãozinho roubou, portanto, um objeto que não pode usar. Ambas são verdadeiras no contexto e II é a premissa que fundamenta I. A nega a relação de justificativa, que o texto estabelece com 'portanto'. B, C e D consideram alguma asserção falsa, mas ambas decorrem do texto. Referência: Relação causa-consequência / asserção e razão. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Relação lógica entre três segmentos do período. Os três segmentos são: 'Ainda deu dois passos' / 'nenhuma voz de dono fez-se ouvir' / 'ele voltou'. A relação adequada é 'Ainda deu dois passos, mas nenhuma voz de dono fez-se ouvir, portanto ele voltou': oposição entre o primeiro e o segundo, e conclusão no terceiro. A: 'pois' explicativo não cabe, e o 'e' não marca oposição. C: 'como' causal não faz sentido com o 1º segmento. D: 'já que' inverte a relação. E: 'embora' e 'já que' distorcem a lógica do texto. Referência: Conjunções coordenativas adversativas e conclusivas. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponívelEsFCEx — Concurso de Admissão 2019/2020 (CFO/QC) — Magistério Português — Caderno Tipo A
Texto V, para as questões 61 a 70.
Os primeiros passos
Aconteceu como vou contar. Parece fato
pequeno, não é.
Meio-dia, eu de pé na esquina da praça
esperando a mudança de sinal. A mesma praça de
5 Ipanema de que falei na semana passada. Hoje também
dia de feira (não é um dado pessoal, faz parte). Vinha do
lado oposto um grupo de jovens, seis, talvez, uma moça
com eles. Teriam cerca de 15 ou 16 anos. Jeito de quem
vem da praia ou para a praia vai, bermudão lá embaixo,
10 peito nu, descalços. Atravessaram antes mesmo que o
sinal abrisse. Um deles, na retaguarda.
Ponhamos agora na cena uma bicicleta velha,
presa com corrente no poste. E no quidom da bicicleta,
um pano escuro torcido e amarrado.
15 Eu ainda estou em pé ali ao lado. O garoto
passa, vê o pano, talvez pense ser uma camiseta.
Diminui a passada o quanto basta para conferir, apalpa
o pano, sacode. Não é camiseta. O jovem desiste, dá
dois passos à frente.
20 Não é camiseta, mas está disponível. O garotão
volta. Examina o produto. E começa a desamarrá-lo.
– Isso tem dono! – digo alto para ele. – Não é
seu!
O jovem gatuno mal me olha.
25 – Para com isso! – insisto.
As pessoas passam indiferentes. Dia de feira, a
esquina tem muito movimento.
O gatuno conseguiu desfazer o nó, que estava
apertado.
30 – Isso é roubo! – exclamo. E repito: – É roubo!
O ladrãozinho me olha mal encarado, mas está
mais interessado no exame daquilo que conseguiu. É
uma canga.
Ele me dirige algum insulto que intuo mas não
35 ouço, os colegas o estão chamando, ele sai correndo
agitando o seu troféu.
A cena, que aqui parece lenta, durou poucos
minutos.
Reparo que havia uma jovem mulher ao meu
40 lado, também esperando para atravessar a rua.
– Também, o cara deu mole! – comenta agora
em tom superior. – Larga a canga assim, solta na
bicicleta...
Esse tom, vindo de quem tudo viu e nada disse,
45 me toca os nervos.
– Quer dizer que as pessoas têm que se
comportar como se todo cidadão fosse ladrão?! –
respondo – Sinto muito, não concordo.
– A senhora ainda foi se meter... tava se
50 arriscando.
– Prefiro me arriscar, que assistir calada. De
tanta gente que passou, ninguém fez nada.
O sinal abriu, avançamos ainda próximas rumo
ao outro lado. Ela aponta para a cabine da polícia.
55 – E bem na cara da polícia – diz, já se afastando.
Um fato de nada, que não é de nada e que me
trava a garganta.
Homens não usam canga. O ladrãozinho
roubou, portanto, um objeto que não pode usar.
60 Certamente não espera vender uma canga velha,
escura e usada. Roubou, pois, uma coisa que não lhe
dará dinheiro. Então, roubou por quê? Porque roubar
tornou-se um hábito nacional. Porque a canga "estava
dando mole", como disse a mulher. Porque era alguma
65 coisa – não importa o quê – desassistida, sem proteção
de vigilante ou de arame farpado, sem cerca eletrificada,
sem cão de guarda feroz, sem alarme. Alguma coisa que
se podia tomar de alguém, sem risco. O jovem ladrão
testou antes. Tocou a canga na passagem, pronto a
70 correr se fosse necessário. Ainda deu dois passos,
nenhuma voz de dono fez-se ouvir, ele voltou. Só o dono
reagiria, e por impulso irrefreável. Os outros estão sendo
diariamente doutrinados para não ver e não ouvir, para
não correr riscos, porque o risco é inútil.
75 Em dia de semana, aquele rapaz não estava
trabalhando, não estava estudando. Estava dando os
primeiros passos na sua futura profissão.
(Marina Colasanti)
Parece fato pequeno, não é. (linhas 1 e 2)
A segunda oração do período acima se classifica comoResolução comentada
Análise das alternativas
Texto V, para as questões 61 a 70.
Os primeiros passos
Aconteceu como vou contar. Parece fato
pequeno, não é.
Meio-dia, eu de pé na esquina da praça
esperando a mudança de sinal. A mesma praça de
5 Ipanema de que falei na semana passada. Hoje também
dia de feira (não é um dado pessoal, faz parte). Vinha do
lado oposto um grupo de jovens, seis, talvez, uma moça
com eles. Teriam cerca de 15 ou 16 anos. Jeito de quem
vem da praia ou para a praia vai, bermudão lá embaixo,
10 peito nu, descalços. Atravessaram antes mesmo que o
sinal abrisse. Um deles, na retaguarda.
Ponhamos agora na cena uma bicicleta velha,
presa com corrente no poste. E no quidom da bicicleta,
um pano escuro torcido e amarrado.
15 Eu ainda estou em pé ali ao lado. O garoto
passa, vê o pano, talvez pense ser uma camiseta.
Diminui a passada o quanto basta para conferir, apalpa
o pano, sacode. Não é camiseta. O jovem desiste, dá
dois passos à frente.
20 Não é camiseta, mas está disponível. O garotão
volta. Examina o produto. E começa a desamarrá-lo.
– Isso tem dono! – digo alto para ele. – Não é
seu!
O jovem gatuno mal me olha.
25 – Para com isso! – insisto.
As pessoas passam indiferentes. Dia de feira, a
esquina tem muito movimento.
O gatuno conseguiu desfazer o nó, que estava
apertado.
30 – Isso é roubo! – exclamo. E repito: – É roubo!
O ladrãozinho me olha mal encarado, mas está
mais interessado no exame daquilo que conseguiu. É
uma canga.
Ele me dirige algum insulto que intuo mas não
35 ouço, os colegas o estão chamando, ele sai correndo
agitando o seu troféu.
A cena, que aqui parece lenta, durou poucos
minutos.
Reparo que havia uma jovem mulher ao meu
40 lado, também esperando para atravessar a rua.
– Também, o cara deu mole! – comenta agora
em tom superior. – Larga a canga assim, solta na
bicicleta...
Esse tom, vindo de quem tudo viu e nada disse,
45 me toca os nervos.
– Quer dizer que as pessoas têm que se
comportar como se todo cidadão fosse ladrão?! –
respondo – Sinto muito, não concordo.
– A senhora ainda foi se meter... tava se
50 arriscando.
– Prefiro me arriscar, que assistir calada. De
tanta gente que passou, ninguém fez nada.
O sinal abriu, avançamos ainda próximas rumo
ao outro lado. Ela aponta para a cabine da polícia.
55 – E bem na cara da polícia – diz, já se afastando.
Um fato de nada, que não é de nada e que me
trava a garganta.
Homens não usam canga. O ladrãozinho
roubou, portanto, um objeto que não pode usar.
60 Certamente não espera vender uma canga velha,
escura e usada. Roubou, pois, uma coisa que não lhe
dará dinheiro. Então, roubou por quê? Porque roubar
tornou-se um hábito nacional. Porque a canga "estava
dando mole", como disse a mulher. Porque era alguma
65 coisa – não importa o quê – desassistida, sem proteção
de vigilante ou de arame farpado, sem cerca eletrificada,
sem cão de guarda feroz, sem alarme. Alguma coisa que
se podia tomar de alguém, sem risco. O jovem ladrão
testou antes. Tocou a canga na passagem, pronto a
70 correr se fosse necessário. Ainda deu dois passos,
nenhuma voz de dono fez-se ouvir, ele voltou. Só o dono
reagiria, e por impulso irrefreável. Os outros estão sendo
diariamente doutrinados para não ver e não ouvir, para
não correr riscos, porque o risco é inútil.
75 Em dia de semana, aquele rapaz não estava
trabalhando, não estava estudando. Estava dando os
primeiros passos na sua futura profissão.
(Marina Colasanti)
Hoje também dia de feira (não é um dado pessoal, faz parte). (linhas 5 e 6)
O trecho entre parênteses se justifica por estar apresentado dessa forma.
A esse respeito, analise as afirmativas a seguir:
I. A opção do conteúdo entre parênteses se dá por ser uma interferência da autora na narrativa, atribuindo-lhe caráter extratextual.
II. Se o trecho viesse entre travessões, garantiria sua natureza extratextual, mas não entre parênteses.
III. O trecho mantém o nível textual; o motivo de vir entre parênteses é porque se trata de comentário da autora.
AssinaleResolução comentada
Análise das alternativas
Texto V, para as questões 61 a 70.
Os primeiros passos
Aconteceu como vou contar. Parece fato
pequeno, não é.
Meio-dia, eu de pé na esquina da praça
esperando a mudança de sinal. A mesma praça de
5 Ipanema de que falei na semana passada. Hoje também
dia de feira (não é um dado pessoal, faz parte). Vinha do
lado oposto um grupo de jovens, seis, talvez, uma moça
com eles. Teriam cerca de 15 ou 16 anos. Jeito de quem
vem da praia ou para a praia vai, bermudão lá embaixo,
10 peito nu, descalços. Atravessaram antes mesmo que o
sinal abrisse. Um deles, na retaguarda.
Ponhamos agora na cena uma bicicleta velha,
presa com corrente no poste. E no quidom da bicicleta,
um pano escuro torcido e amarrado.
15 Eu ainda estou em pé ali ao lado. O garoto
passa, vê o pano, talvez pense ser uma camiseta.
Diminui a passada o quanto basta para conferir, apalpa
o pano, sacode. Não é camiseta. O jovem desiste, dá
dois passos à frente.
20 Não é camiseta, mas está disponível. O garotão
volta. Examina o produto. E começa a desamarrá-lo.
– Isso tem dono! – digo alto para ele. – Não é
seu!
O jovem gatuno mal me olha.
25 – Para com isso! – insisto.
As pessoas passam indiferentes. Dia de feira, a
esquina tem muito movimento.
O gatuno conseguiu desfazer o nó, que estava
apertado.
30 – Isso é roubo! – exclamo. E repito: – É roubo!
O ladrãozinho me olha mal encarado, mas está
mais interessado no exame daquilo que conseguiu. É
uma canga.
Ele me dirige algum insulto que intuo mas não
35 ouço, os colegas o estão chamando, ele sai correndo
agitando o seu troféu.
A cena, que aqui parece lenta, durou poucos
minutos.
Reparo que havia uma jovem mulher ao meu
40 lado, também esperando para atravessar a rua.
– Também, o cara deu mole! – comenta agora
em tom superior. – Larga a canga assim, solta na
bicicleta...
Esse tom, vindo de quem tudo viu e nada disse,
45 me toca os nervos.
– Quer dizer que as pessoas têm que se
comportar como se todo cidadão fosse ladrão?! –
respondo – Sinto muito, não concordo.
– A senhora ainda foi se meter... tava se
50 arriscando.
– Prefiro me arriscar, que assistir calada. De
tanta gente que passou, ninguém fez nada.
O sinal abriu, avançamos ainda próximas rumo
ao outro lado. Ela aponta para a cabine da polícia.
55 – E bem na cara da polícia – diz, já se afastando.
Um fato de nada, que não é de nada e que me
trava a garganta.
Homens não usam canga. O ladrãozinho
roubou, portanto, um objeto que não pode usar.
60 Certamente não espera vender uma canga velha,
escura e usada. Roubou, pois, uma coisa que não lhe
dará dinheiro. Então, roubou por quê? Porque roubar
tornou-se um hábito nacional. Porque a canga "estava
dando mole", como disse a mulher. Porque era alguma
65 coisa – não importa o quê – desassistida, sem proteção
de vigilante ou de arame farpado, sem cerca eletrificada,
sem cão de guarda feroz, sem alarme. Alguma coisa que
se podia tomar de alguém, sem risco. O jovem ladrão
testou antes. Tocou a canga na passagem, pronto a
70 correr se fosse necessário. Ainda deu dois passos,
nenhuma voz de dono fez-se ouvir, ele voltou. Só o dono
reagiria, e por impulso irrefreável. Os outros estão sendo
diariamente doutrinados para não ver e não ouvir, para
não correr riscos, porque o risco é inútil.
75 Em dia de semana, aquele rapaz não estava
trabalhando, não estava estudando. Estava dando os
primeiros passos na sua futura profissão.
(Marina Colasanti)
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O termo sublinhado permite inferir que
Texto V, para as questões 61 a 70.
Os primeiros passos
Aconteceu como vou contar. Parece fato
pequeno, não é.
Meio-dia, eu de pé na esquina da praça
esperando a mudança de sinal. A mesma praça de
5 Ipanema de que falei na semana passada. Hoje também
dia de feira (não é um dado pessoal, faz parte). Vinha do
lado oposto um grupo de jovens, seis, talvez, uma moça
com eles. Teriam cerca de 15 ou 16 anos. Jeito de quem
vem da praia ou para a praia vai, bermudão lá embaixo,
10 peito nu, descalços. Atravessaram antes mesmo que o
sinal abrisse. Um deles, na retaguarda.
Ponhamos agora na cena uma bicicleta velha,
presa com corrente no poste. E no quidom da bicicleta,
um pano escuro torcido e amarrado.
15 Eu ainda estou em pé ali ao lado. O garoto
passa, vê o pano, talvez pense ser uma camiseta.
Diminui a passada o quanto basta para conferir, apalpa
o pano, sacode. Não é camiseta. O jovem desiste, dá
dois passos à frente.
20 Não é camiseta, mas está disponível. O garotão
volta. Examina o produto. E começa a desamarrá-lo.
– Isso tem dono! – digo alto para ele. – Não é
seu!
O jovem gatuno mal me olha.
25 – Para com isso! – insisto.
As pessoas passam indiferentes. Dia de feira, a
esquina tem muito movimento.
O gatuno conseguiu desfazer o nó, que estava
apertado.
30 – Isso é roubo! – exclamo. E repito: – É roubo!
O ladrãozinho me olha mal encarado, mas está
mais interessado no exame daquilo que conseguiu. É
uma canga.
Ele me dirige algum insulto que intuo mas não
35 ouço, os colegas o estão chamando, ele sai correndo
agitando o seu troféu.
A cena, que aqui parece lenta, durou poucos
minutos.
Reparo que havia uma jovem mulher ao meu
40 lado, também esperando para atravessar a rua.
– Também, o cara deu mole! – comenta agora
em tom superior. – Larga a canga assim, solta na
bicicleta...
Esse tom, vindo de quem tudo viu e nada disse,
45 me toca os nervos.
– Quer dizer que as pessoas têm que se
comportar como se todo cidadão fosse ladrão?! –
respondo – Sinto muito, não concordo.
– A senhora ainda foi se meter... tava se
50 arriscando.
– Prefiro me arriscar, que assistir calada. De
tanta gente que passou, ninguém fez nada.
O sinal abriu, avançamos ainda próximas rumo
ao outro lado. Ela aponta para a cabine da polícia.
55 – E bem na cara da polícia – diz, já se afastando.
Um fato de nada, que não é de nada e que me
trava a garganta.
Homens não usam canga. O ladrãozinho
roubou, portanto, um objeto que não pode usar.
60 Certamente não espera vender uma canga velha,
escura e usada. Roubou, pois, uma coisa que não lhe
dará dinheiro. Então, roubou por quê? Porque roubar
tornou-se um hábito nacional. Porque a canga "estava
dando mole", como disse a mulher. Porque era alguma
65 coisa – não importa o quê – desassistida, sem proteção
de vigilante ou de arame farpado, sem cerca eletrificada,
sem cão de guarda feroz, sem alarme. Alguma coisa que
se podia tomar de alguém, sem risco. O jovem ladrão
testou antes. Tocou a canga na passagem, pronto a
70 correr se fosse necessário. Ainda deu dois passos,
nenhuma voz de dono fez-se ouvir, ele voltou. Só o dono
reagiria, e por impulso irrefreável. Os outros estão sendo
diariamente doutrinados para não ver e não ouvir, para
não correr riscos, porque o risco é inútil.
75 Em dia de semana, aquele rapaz não estava
trabalhando, não estava estudando. Estava dando os
primeiros passos na sua futura profissão.
(Marina Colasanti)
Ponhamos agora na cena uma bicicleta velha, presa com corrente no poste. E no quidom da bicicleta, um pano escuro torcido e amarrado. (linhas 12 a 14)
A presença da vírgula no segundo período se justifica porResolução comentada
Análise das alternativas
Texto V, para as questões 61 a 70.
Os primeiros passos
Aconteceu como vou contar. Parece fato
pequeno, não é.
Meio-dia, eu de pé na esquina da praça
esperando a mudança de sinal. A mesma praça de
5 Ipanema de que falei na semana passada. Hoje também
dia de feira (não é um dado pessoal, faz parte). Vinha do
lado oposto um grupo de jovens, seis, talvez, uma moça
com eles. Teriam cerca de 15 ou 16 anos. Jeito de quem
vem da praia ou para a praia vai, bermudão lá embaixo,
10 peito nu, descalços. Atravessaram antes mesmo que o
sinal abrisse. Um deles, na retaguarda.
Ponhamos agora na cena uma bicicleta velha,
presa com corrente no poste. E no quidom da bicicleta,
um pano escuro torcido e amarrado.
15 Eu ainda estou em pé ali ao lado. O garoto
passa, vê o pano, talvez pense ser uma camiseta.
Diminui a passada o quanto basta para conferir, apalpa
o pano, sacode. Não é camiseta. O jovem desiste, dá
dois passos à frente.
20 Não é camiseta, mas está disponível. O garotão
volta. Examina o produto. E começa a desamarrá-lo.
– Isso tem dono! – digo alto para ele. – Não é
seu!
O jovem gatuno mal me olha.
25 – Para com isso! – insisto.
As pessoas passam indiferentes. Dia de feira, a
esquina tem muito movimento.
O gatuno conseguiu desfazer o nó, que estava
apertado.
30 – Isso é roubo! – exclamo. E repito: – É roubo!
O ladrãozinho me olha mal encarado, mas está
mais interessado no exame daquilo que conseguiu. É
uma canga.
Ele me dirige algum insulto que intuo mas não
35 ouço, os colegas o estão chamando, ele sai correndo
agitando o seu troféu.
A cena, que aqui parece lenta, durou poucos
minutos.
Reparo que havia uma jovem mulher ao meu
40 lado, também esperando para atravessar a rua.
– Também, o cara deu mole! – comenta agora
em tom superior. – Larga a canga assim, solta na
bicicleta...
Esse tom, vindo de quem tudo viu e nada disse,
45 me toca os nervos.
– Quer dizer que as pessoas têm que se
comportar como se todo cidadão fosse ladrão?! –
respondo – Sinto muito, não concordo.
– A senhora ainda foi se meter... tava se
50 arriscando.
– Prefiro me arriscar, que assistir calada. De
tanta gente que passou, ninguém fez nada.
O sinal abriu, avançamos ainda próximas rumo
ao outro lado. Ela aponta para a cabine da polícia.
55 – E bem na cara da polícia – diz, já se afastando.
Um fato de nada, que não é de nada e que me
trava a garganta.
Homens não usam canga. O ladrãozinho
roubou, portanto, um objeto que não pode usar.
60 Certamente não espera vender uma canga velha,
escura e usada. Roubou, pois, uma coisa que não lhe
dará dinheiro. Então, roubou por quê? Porque roubar
tornou-se um hábito nacional. Porque a canga "estava
dando mole", como disse a mulher. Porque era alguma
65 coisa – não importa o quê – desassistida, sem proteção
de vigilante ou de arame farpado, sem cerca eletrificada,
sem cão de guarda feroz, sem alarme. Alguma coisa que
se podia tomar de alguém, sem risco. O jovem ladrão
testou antes. Tocou a canga na passagem, pronto a
70 correr se fosse necessário. Ainda deu dois passos,
nenhuma voz de dono fez-se ouvir, ele voltou. Só o dono
reagiria, e por impulso irrefreável. Os outros estão sendo
diariamente doutrinados para não ver e não ouvir, para
não correr riscos, porque o risco é inútil.
75 Em dia de semana, aquele rapaz não estava
trabalhando, não estava estudando. Estava dando os
primeiros passos na sua futura profissão.
(Marina Colasanti)
– Também, o cara deu mole! (linha 41)
O registro de linguagem empregado na fala acima se encaixa na modalidadeResolução comentada
Análise das alternativas
Texto V, para as questões 61 a 70.
Os primeiros passos
Aconteceu como vou contar. Parece fato
pequeno, não é.
Meio-dia, eu de pé na esquina da praça
esperando a mudança de sinal. A mesma praça de
5 Ipanema de que falei na semana passada. Hoje também
dia de feira (não é um dado pessoal, faz parte). Vinha do
lado oposto um grupo de jovens, seis, talvez, uma moça
com eles. Teriam cerca de 15 ou 16 anos. Jeito de quem
vem da praia ou para a praia vai, bermudão lá embaixo,
10 peito nu, descalços. Atravessaram antes mesmo que o
sinal abrisse. Um deles, na retaguarda.
Ponhamos agora na cena uma bicicleta velha,
presa com corrente no poste. E no quidom da bicicleta,
um pano escuro torcido e amarrado.
15 Eu ainda estou em pé ali ao lado. O garoto
passa, vê o pano, talvez pense ser uma camiseta.
Diminui a passada o quanto basta para conferir, apalpa
o pano, sacode. Não é camiseta. O jovem desiste, dá
dois passos à frente.
20 Não é camiseta, mas está disponível. O garotão
volta. Examina o produto. E começa a desamarrá-lo.
– Isso tem dono! – digo alto para ele. – Não é
seu!
O jovem gatuno mal me olha.
25 – Para com isso! – insisto.
As pessoas passam indiferentes. Dia de feira, a
esquina tem muito movimento.
O gatuno conseguiu desfazer o nó, que estava
apertado.
30 – Isso é roubo! – exclamo. E repito: – É roubo!
O ladrãozinho me olha mal encarado, mas está
mais interessado no exame daquilo que conseguiu. É
uma canga.
Ele me dirige algum insulto que intuo mas não
35 ouço, os colegas o estão chamando, ele sai correndo
agitando o seu troféu.
A cena, que aqui parece lenta, durou poucos
minutos.
Reparo que havia uma jovem mulher ao meu
40 lado, também esperando para atravessar a rua.
– Também, o cara deu mole! – comenta agora
em tom superior. – Larga a canga assim, solta na
bicicleta...
Esse tom, vindo de quem tudo viu e nada disse,
45 me toca os nervos.
– Quer dizer que as pessoas têm que se
comportar como se todo cidadão fosse ladrão?! –
respondo – Sinto muito, não concordo.
– A senhora ainda foi se meter... tava se
50 arriscando.
– Prefiro me arriscar, que assistir calada. De
tanta gente que passou, ninguém fez nada.
O sinal abriu, avançamos ainda próximas rumo
ao outro lado. Ela aponta para a cabine da polícia.
55 – E bem na cara da polícia – diz, já se afastando.
Um fato de nada, que não é de nada e que me
trava a garganta.
Homens não usam canga. O ladrãozinho
roubou, portanto, um objeto que não pode usar.
60 Certamente não espera vender uma canga velha,
escura e usada. Roubou, pois, uma coisa que não lhe
dará dinheiro. Então, roubou por quê? Porque roubar
tornou-se um hábito nacional. Porque a canga "estava
dando mole", como disse a mulher. Porque era alguma
65 coisa – não importa o quê – desassistida, sem proteção
de vigilante ou de arame farpado, sem cerca eletrificada,
sem cão de guarda feroz, sem alarme. Alguma coisa que
se podia tomar de alguém, sem risco. O jovem ladrão
testou antes. Tocou a canga na passagem, pronto a
70 correr se fosse necessário. Ainda deu dois passos,
nenhuma voz de dono fez-se ouvir, ele voltou. Só o dono
reagiria, e por impulso irrefreável. Os outros estão sendo
diariamente doutrinados para não ver e não ouvir, para
não correr riscos, porque o risco é inútil.
75 Em dia de semana, aquele rapaz não estava
trabalhando, não estava estudando. Estava dando os
primeiros passos na sua futura profissão.
(Marina Colasanti)
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A respeito do trecho acima, analise as afirmativas a seguir:
I. O termo sublinhado pode ser entendido com função sintática de predicativo do sujeito ou de adjunto adverbial.
II. Há falta de hífen separando mal e encarado.
III. Caso a palavra após mal não começasse por vogal, haveria junção de mal à palavra seguinte, sem hífen.
Assinale
Texto V, para as questões 61 a 70.
Os primeiros passos
Aconteceu como vou contar. Parece fato
pequeno, não é.
Meio-dia, eu de pé na esquina da praça
esperando a mudança de sinal. A mesma praça de
5 Ipanema de que falei na semana passada. Hoje também
dia de feira (não é um dado pessoal, faz parte). Vinha do
lado oposto um grupo de jovens, seis, talvez, uma moça
com eles. Teriam cerca de 15 ou 16 anos. Jeito de quem
vem da praia ou para a praia vai, bermudão lá embaixo,
10 peito nu, descalços. Atravessaram antes mesmo que o
sinal abrisse. Um deles, na retaguarda.
Ponhamos agora na cena uma bicicleta velha,
presa com corrente no poste. E no quidom da bicicleta,
um pano escuro torcido e amarrado.
15 Eu ainda estou em pé ali ao lado. O garoto
passa, vê o pano, talvez pense ser uma camiseta.
Diminui a passada o quanto basta para conferir, apalpa
o pano, sacode. Não é camiseta. O jovem desiste, dá
dois passos à frente.
20 Não é camiseta, mas está disponível. O garotão
volta. Examina o produto. E começa a desamarrá-lo.
– Isso tem dono! – digo alto para ele. – Não é
seu!
O jovem gatuno mal me olha.
25 – Para com isso! – insisto.
As pessoas passam indiferentes. Dia de feira, a
esquina tem muito movimento.
O gatuno conseguiu desfazer o nó, que estava
apertado.
30 – Isso é roubo! – exclamo. E repito: – É roubo!
O ladrãozinho me olha mal encarado, mas está
mais interessado no exame daquilo que conseguiu. É
uma canga.
Ele me dirige algum insulto que intuo mas não
35 ouço, os colegas o estão chamando, ele sai correndo
agitando o seu troféu.
A cena, que aqui parece lenta, durou poucos
minutos.
Reparo que havia uma jovem mulher ao meu
40 lado, também esperando para atravessar a rua.
– Também, o cara deu mole! – comenta agora
em tom superior. – Larga a canga assim, solta na
bicicleta...
Esse tom, vindo de quem tudo viu e nada disse,
45 me toca os nervos.
– Quer dizer que as pessoas têm que se
comportar como se todo cidadão fosse ladrão?! –
respondo – Sinto muito, não concordo.
– A senhora ainda foi se meter... tava se
50 arriscando.
– Prefiro me arriscar, que assistir calada. De
tanta gente que passou, ninguém fez nada.
O sinal abriu, avançamos ainda próximas rumo
ao outro lado. Ela aponta para a cabine da polícia.
55 – E bem na cara da polícia – diz, já se afastando.
Um fato de nada, que não é de nada e que me
trava a garganta.
Homens não usam canga. O ladrãozinho
roubou, portanto, um objeto que não pode usar.
60 Certamente não espera vender uma canga velha,
escura e usada. Roubou, pois, uma coisa que não lhe
dará dinheiro. Então, roubou por quê? Porque roubar
tornou-se um hábito nacional. Porque a canga "estava
dando mole", como disse a mulher. Porque era alguma
65 coisa – não importa o quê – desassistida, sem proteção
de vigilante ou de arame farpado, sem cerca eletrificada,
sem cão de guarda feroz, sem alarme. Alguma coisa que
se podia tomar de alguém, sem risco. O jovem ladrão
testou antes. Tocou a canga na passagem, pronto a
70 correr se fosse necessário. Ainda deu dois passos,
nenhuma voz de dono fez-se ouvir, ele voltou. Só o dono
reagiria, e por impulso irrefreável. Os outros estão sendo
diariamente doutrinados para não ver e não ouvir, para
não correr riscos, porque o risco é inútil.
75 Em dia de semana, aquele rapaz não estava
trabalhando, não estava estudando. Estava dando os
primeiros passos na sua futura profissão.
(Marina Colasanti)
Considerando o texto, avalie as seguintes asserções e a relação proposta entre elas.
I. O ladrãozinho roubou um objeto que não pode usar.
PORQUE
II. Homens não usam canga.
A respeito dessas asserções, assinale a alternativa correta.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto V, para as questões 61 a 70.
Os primeiros passos
Aconteceu como vou contar. Parece fato
pequeno, não é.
Meio-dia, eu de pé na esquina da praça
esperando a mudança de sinal. A mesma praça de
5 Ipanema de que falei na semana passada. Hoje também
dia de feira (não é um dado pessoal, faz parte). Vinha do
lado oposto um grupo de jovens, seis, talvez, uma moça
com eles. Teriam cerca de 15 ou 16 anos. Jeito de quem
vem da praia ou para a praia vai, bermudão lá embaixo,
10 peito nu, descalços. Atravessaram antes mesmo que o
sinal abrisse. Um deles, na retaguarda.
Ponhamos agora na cena uma bicicleta velha,
presa com corrente no poste. E no quidom da bicicleta,
um pano escuro torcido e amarrado.
15 Eu ainda estou em pé ali ao lado. O garoto
passa, vê o pano, talvez pense ser uma camiseta.
Diminui a passada o quanto basta para conferir, apalpa
o pano, sacode. Não é camiseta. O jovem desiste, dá
dois passos à frente.
20 Não é camiseta, mas está disponível. O garotão
volta. Examina o produto. E começa a desamarrá-lo.
– Isso tem dono! – digo alto para ele. – Não é
seu!
O jovem gatuno mal me olha.
25 – Para com isso! – insisto.
As pessoas passam indiferentes. Dia de feira, a
esquina tem muito movimento.
O gatuno conseguiu desfazer o nó, que estava
apertado.
30 – Isso é roubo! – exclamo. E repito: – É roubo!
O ladrãozinho me olha mal encarado, mas está
mais interessado no exame daquilo que conseguiu. É
uma canga.
Ele me dirige algum insulto que intuo mas não
35 ouço, os colegas o estão chamando, ele sai correndo
agitando o seu troféu.
A cena, que aqui parece lenta, durou poucos
minutos.
Reparo que havia uma jovem mulher ao meu
40 lado, também esperando para atravessar a rua.
– Também, o cara deu mole! – comenta agora
em tom superior. – Larga a canga assim, solta na
bicicleta...
Esse tom, vindo de quem tudo viu e nada disse,
45 me toca os nervos.
– Quer dizer que as pessoas têm que se
comportar como se todo cidadão fosse ladrão?! –
respondo – Sinto muito, não concordo.
– A senhora ainda foi se meter... tava se
50 arriscando.
– Prefiro me arriscar, que assistir calada. De
tanta gente que passou, ninguém fez nada.
O sinal abriu, avançamos ainda próximas rumo
ao outro lado. Ela aponta para a cabine da polícia.
55 – E bem na cara da polícia – diz, já se afastando.
Um fato de nada, que não é de nada e que me
trava a garganta.
Homens não usam canga. O ladrãozinho
roubou, portanto, um objeto que não pode usar.
60 Certamente não espera vender uma canga velha,
escura e usada. Roubou, pois, uma coisa que não lhe
dará dinheiro. Então, roubou por quê? Porque roubar
tornou-se um hábito nacional. Porque a canga "estava
dando mole", como disse a mulher. Porque era alguma
65 coisa – não importa o quê – desassistida, sem proteção
de vigilante ou de arame farpado, sem cerca eletrificada,
sem cão de guarda feroz, sem alarme. Alguma coisa que
se podia tomar de alguém, sem risco. O jovem ladrão
testou antes. Tocou a canga na passagem, pronto a
70 correr se fosse necessário. Ainda deu dois passos,
nenhuma voz de dono fez-se ouvir, ele voltou. Só o dono
reagiria, e por impulso irrefreável. Os outros estão sendo
diariamente doutrinados para não ver e não ouvir, para
não correr riscos, porque o risco é inútil.
75 Em dia de semana, aquele rapaz não estava
trabalhando, não estava estudando. Estava dando os
primeiros passos na sua futura profissão.
(Marina Colasanti)
Ainda deu dois passos, nenhuma voz de dono fez-se ouvir, ele voltou. (linhas 70 e 71)
Assinale a alternativa em que a relação entre os três segmentos esteja corretamente representada.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto V, para as questões 61 a 70.
Os primeiros passos
Aconteceu como vou contar. Parece fato
pequeno, não é.
Meio-dia, eu de pé na esquina da praça
esperando a mudança de sinal. A mesma praça de
5 Ipanema de que falei na semana passada. Hoje também
dia de feira (não é um dado pessoal, faz parte). Vinha do
lado oposto um grupo de jovens, seis, talvez, uma moça
com eles. Teriam cerca de 15 ou 16 anos. Jeito de quem
vem da praia ou para a praia vai, bermudão lá embaixo,
10 peito nu, descalços. Atravessaram antes mesmo que o
sinal abrisse. Um deles, na retaguarda.
Ponhamos agora na cena uma bicicleta velha,
presa com corrente no poste. E no quidom da bicicleta,
um pano escuro torcido e amarrado.
15 Eu ainda estou em pé ali ao lado. O garoto
passa, vê o pano, talvez pense ser uma camiseta.
Diminui a passada o quanto basta para conferir, apalpa
o pano, sacode. Não é camiseta. O jovem desiste, dá
dois passos à frente.
20 Não é camiseta, mas está disponível. O garotão
volta. Examina o produto. E começa a desamarrá-lo.
– Isso tem dono! – digo alto para ele. – Não é
seu!
O jovem gatuno mal me olha.
25 – Para com isso! – insisto.
As pessoas passam indiferentes. Dia de feira, a
esquina tem muito movimento.
O gatuno conseguiu desfazer o nó, que estava
apertado.
30 – Isso é roubo! – exclamo. E repito: – É roubo!
O ladrãozinho me olha mal encarado, mas está
mais interessado no exame daquilo que conseguiu. É
uma canga.
Ele me dirige algum insulto que intuo mas não
35 ouço, os colegas o estão chamando, ele sai correndo
agitando o seu troféu.
A cena, que aqui parece lenta, durou poucos
minutos.
Reparo que havia uma jovem mulher ao meu
40 lado, também esperando para atravessar a rua.
– Também, o cara deu mole! – comenta agora
em tom superior. – Larga a canga assim, solta na
bicicleta...
Esse tom, vindo de quem tudo viu e nada disse,
45 me toca os nervos.
– Quer dizer que as pessoas têm que se
comportar como se todo cidadão fosse ladrão?! –
respondo – Sinto muito, não concordo.
– A senhora ainda foi se meter... tava se
50 arriscando.
– Prefiro me arriscar, que assistir calada. De
tanta gente que passou, ninguém fez nada.
O sinal abriu, avançamos ainda próximas rumo
ao outro lado. Ela aponta para a cabine da polícia.
55 – E bem na cara da polícia – diz, já se afastando.
Um fato de nada, que não é de nada e que me
trava a garganta.
Homens não usam canga. O ladrãozinho
roubou, portanto, um objeto que não pode usar.
60 Certamente não espera vender uma canga velha,
escura e usada. Roubou, pois, uma coisa que não lhe
dará dinheiro. Então, roubou por quê? Porque roubar
tornou-se um hábito nacional. Porque a canga "estava
dando mole", como disse a mulher. Porque era alguma
65 coisa – não importa o quê – desassistida, sem proteção
de vigilante ou de arame farpado, sem cerca eletrificada,
sem cão de guarda feroz, sem alarme. Alguma coisa que
se podia tomar de alguém, sem risco. O jovem ladrão
testou antes. Tocou a canga na passagem, pronto a
70 correr se fosse necessário. Ainda deu dois passos,
nenhuma voz de dono fez-se ouvir, ele voltou. Só o dono
reagiria, e por impulso irrefreável. Os outros estão sendo
diariamente doutrinados para não ver e não ouvir, para
não correr riscos, porque o risco é inútil.
75 Em dia de semana, aquele rapaz não estava
trabalhando, não estava estudando. Estava dando os
primeiros passos na sua futura profissão.
(Marina Colasanti)
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A expressão sublinhada acima faz referência
Texto V, para as questões 61 a 70.
Os primeiros passos
Aconteceu como vou contar. Parece fato
pequeno, não é.
Meio-dia, eu de pé na esquina da praça
esperando a mudança de sinal. A mesma praça de
5 Ipanema de que falei na semana passada. Hoje também
dia de feira (não é um dado pessoal, faz parte). Vinha do
lado oposto um grupo de jovens, seis, talvez, uma moça
com eles. Teriam cerca de 15 ou 16 anos. Jeito de quem
vem da praia ou para a praia vai, bermudão lá embaixo,
10 peito nu, descalços. Atravessaram antes mesmo que o
sinal abrisse. Um deles, na retaguarda.
Ponhamos agora na cena uma bicicleta velha,
presa com corrente no poste. E no quidom da bicicleta,
um pano escuro torcido e amarrado.
15 Eu ainda estou em pé ali ao lado. O garoto
passa, vê o pano, talvez pense ser uma camiseta.
Diminui a passada o quanto basta para conferir, apalpa
o pano, sacode. Não é camiseta. O jovem desiste, dá
dois passos à frente.
20 Não é camiseta, mas está disponível. O garotão
volta. Examina o produto. E começa a desamarrá-lo.
– Isso tem dono! – digo alto para ele. – Não é
seu!
O jovem gatuno mal me olha.
25 – Para com isso! – insisto.
As pessoas passam indiferentes. Dia de feira, a
esquina tem muito movimento.
O gatuno conseguiu desfazer o nó, que estava
apertado.
30 – Isso é roubo! – exclamo. E repito: – É roubo!
O ladrãozinho me olha mal encarado, mas está
mais interessado no exame daquilo que conseguiu. É
uma canga.
Ele me dirige algum insulto que intuo mas não
35 ouço, os colegas o estão chamando, ele sai correndo
agitando o seu troféu.
A cena, que aqui parece lenta, durou poucos
minutos.
Reparo que havia uma jovem mulher ao meu
40 lado, também esperando para atravessar a rua.
– Também, o cara deu mole! – comenta agora
em tom superior. – Larga a canga assim, solta na
bicicleta...
Esse tom, vindo de quem tudo viu e nada disse,
45 me toca os nervos.
– Quer dizer que as pessoas têm que se
comportar como se todo cidadão fosse ladrão?! –
respondo – Sinto muito, não concordo.
– A senhora ainda foi se meter... tava se
50 arriscando.
– Prefiro me arriscar, que assistir calada. De
tanta gente que passou, ninguém fez nada.
O sinal abriu, avançamos ainda próximas rumo
ao outro lado. Ela aponta para a cabine da polícia.
55 – E bem na cara da polícia – diz, já se afastando.
Um fato de nada, que não é de nada e que me
trava a garganta.
Homens não usam canga. O ladrãozinho
roubou, portanto, um objeto que não pode usar.
60 Certamente não espera vender uma canga velha,
escura e usada. Roubou, pois, uma coisa que não lhe
dará dinheiro. Então, roubou por quê? Porque roubar
tornou-se um hábito nacional. Porque a canga "estava
dando mole", como disse a mulher. Porque era alguma
65 coisa – não importa o quê – desassistida, sem proteção
de vigilante ou de arame farpado, sem cerca eletrificada,
sem cão de guarda feroz, sem alarme. Alguma coisa que
se podia tomar de alguém, sem risco. O jovem ladrão
testou antes. Tocou a canga na passagem, pronto a
70 correr se fosse necessário. Ainda deu dois passos,
nenhuma voz de dono fez-se ouvir, ele voltou. Só o dono
reagiria, e por impulso irrefreável. Os outros estão sendo
diariamente doutrinados para não ver e não ouvir, para
não correr riscos, porque o risco é inútil.
75 Em dia de semana, aquele rapaz não estava
trabalhando, não estava estudando. Estava dando os
primeiros passos na sua futura profissão.
(Marina Colasanti)
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O termo sublinhado no período acima se classifica como
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