← Voltar para a lista de provas Instituto Militar de Engenharia (IME) · Concurso de Admissão — Prova de Português e Inglês 43 questões nesta prova · página 1 de 3 · 40 com gabarito Gabarito disponível A incorreção é dizer que os dois textos pertencem ao mesmo movimento. O Texto 1 é de Machado de Assis (Realismo) e o Texto 2 é de Bilac (Parnasianismo). Portanto, não pertencem ao mesmo movimento literário, e a afirmativa B é a incorreta. A) Correta: ambos tratam da fronteira entre sanidade e loucura. C) Correta: Machado critica o cientificismo e Bilac não se compromete com ele. D) Correta: leituras possíveis dos dois textos. E) Correta: forma fixa como ideal parnasiano e vaidade em Bacamarte. Referência: Realismo (Machado) e Parnasianismo (Bilac). Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Apenas I é correta. Os dois textos tratam de estados alterados de consciência (a loucura em Machado; o êxtase amoroso em Bilac) em oposição à experiência cotidiana. As demais afirmações não procedem. II: não há apologia à loucura em Machado, mas crítica. III: não há apologia da razão em Bilac, que valoriza o sentimento. IV: apenas o Texto 1 critica o cientificismo; o Texto 2 não. Referência: Machado de Assis e Olavo Bilac. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível O nome Bacamarte antecipa a pressa e o disparo de diagnósticos. Como arma de fogo de cano largo, o bacamarte sugere disparo amplo e precipitado, ou seja, a pressa em diagnosticar a loucura em larga escala. Isso gera a confusão entre ciência e cientificismo, verdade e vaidade, tema central da crítica machadiana. B) A obra mostra associação, e não dissociação, entre política, psiquiatria e poder. C) Não há referência à prevenção. D) e E) O alienista não se preocupa com o bem-estar dos pacientes; sua busca é por vaidade científica. Referência: Machado de Assis, O Alienista. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível I e II corretas; III incorreta. I: o travessão marca a fala de um interlocutor no diálogo. II: o aposto 'objeto dos meus estudos' pode ser isolado por vírgulas ou travessões. III: 'Sr. Soares' é vocativo, não termo explicativo (aposto); as vírgulas isolam o vocativo. A, B, D e E erram ao excluir I ou II, ou ao incluir III. Referência: Pontuação: vírgula, travessão, vocativo e aposto. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível A superioridade disfarçada aparece no riso de desdém e comiseração. O trecho do 'desdém casado à comiseração' e das 'egrégias entranhas' mostra o alienista com atitude de superioridade, sem palavras, tratando os outros com condescendência e ironia do narrador. Ele aparenta discrição e sabedoria, mas encobre a convicção de superioridade. A) Mostra dedicação e curiosidade, não superioridade. B) A fala de humildade ('não me atrevo') é a aparência, mas o trecho em si não revela a convicção de superioridade. C) Apenas narra a explicação da ideia. D) É uma sentença sobre a ferocidade, sem relação com a humildade fingida. Referência: Machado de Assis, O Alienista, cap. IV. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível 'Comiseração' se aproxima de 'indulgência'. Comiseração é a compaixão condescendente, piedade com superioridade. Entre as opções, 'indulgência' (tolerância benevolente, condescendência) é a mais próxima, adequada ao tom do alienista, que mistura desdém e piedade. A) 'Brandura' é suavidade de temperamento. B) 'Entusiasmo' não tem relação. D) 'Indiferença' é oposta à piedade. E) 'Solidariedade' implica identificação com o outro, o que não ocorre no desdém de Bacamarte. Referência: Semântica: sinonímia. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível As três afirmações estão corretas. I: o humor vem do absurdo (cascavéis dançando) aceito como verdade. II: a população confiava totalmente na matraca ('absoluta confiança no sistema'). III: ao dizer 'nem todas as instituições do antigo regime mereciam o desprezo', o narrador ironicamente concorda que a matraca era desprezível, valorizando-a só pela eficácia de divulgação, em sentido irônico. A, B, C e D omitem alguma das afirmações verdadeiras. Só E reúne as três. Referência: Machado de Assis, O Alienista; ironia. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível 'Visto insistirem nele os cronistas' indica que o narrador se baseia em crônicas de Itaguaí. A oração é causal: o narrador justifica a necessidade de definir o tópico porque os cronistas insistem nele. Isso mostra, na ficção do conto, que o narrador se apoia nas crônicas da vila para contar a história de Bacamarte. A) A referência a cronistas é recurso ficcional, não prova invenção total. B) Fala do narrador, não de Machado como autor real. C) Os cronistas insistem na afeição de Crispim, não abordam seus temores superficialmente. E) O conto não 'se encontra' nas crônicas, apenas se apoia nelas. Referência: Machado de Assis, O Alienista, cap. IV. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível 'Pois' tem valor explicativo/justificativo. Em 'Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido...', 'pois' funciona como conjunção explicativa, justificando a razão pela qual o amor é necessário para entender as estrelas. A) Não indica consequência de hábitos. C) Não é contraste (adversativa). D) Não expressa finalidade. E) Não é alternância (ou...ou). Referência: Conjunções coordenativas explicativas. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível A falsa é a que filia o soneto ao Romantismo. O soneto, com rigor formal e forma fixa, é associado ao Parnasianismo, como indica o texto-base, e não ao Romantismo. Portanto, a afirmação E é falsa, pois atribui o poema ao movimento romântico. A) Verdadeira: o eu lírico não se importa com a 'perda do senso' e abre as janelas. B) Verdadeira: há movimento argumentativo em diálogo com interlocutor hipotético. C) Verdadeira: o amanhecer o deixa 'saudoso e em pranto', valorizando o estado de enamoramento. D) Verdadeira: o amor é tema universal e atemporal. Referência: Olavo Bilac e o Parnasianismo. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível O discurso direto aqui marca o leitor como interlocutor do poeta. O gabarito oficial aponta que o trecho identifica o leitor ('direis') como interlocutor, para quem o encantamento poético parece extravagância ('Tresloucado amigo!'). A fala do interlocutor é reproduzida diretamente, com aspas, em diálogo hipotético com o eu lírico. A) Os verbos estão no presente ('conversas', 'dizem', 'tem'), não no pretérito imperfeito ou mais-que-perfeito. B) Não se trata de intenção de coloquialidade. C) O vocativo e a exclamação existem, mas o gabarito oficial privilegia a alternativa E. D) As aspas marcam a fala de outro, não narração em 3ª pessoa. Referência: Discurso direto; Bilac, soneto XIII. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível 'Espanto' tem afinidade semântica com 'admiração'. No contexto, 'pálido de espanto' expressa assombro e deslumbramento diante das estrelas. 'Admiração' é a palavra do mesmo campo semântico, pois indica surpresa e encantamento. A) 'Desequilíbrio' refere-se à perda de estabilidade, não ao assombro. B) 'Tristeza' é outro sentimento. C) 'Euforia' é alegria intensa, sem a ideia de surpresa. E) 'Distração' é falta de atenção, oposto do estado descrito. Referência: Semântica: campo semântico. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Ideia central: o amor permite a contemplação e o êxtase diante do universo. O eu lírico defende que só quem ama é capaz de 'ouvir e entender estrelas', ou seja, o sentimento amoroso permite uma percepção contemplativa e extasiada da realidade. Isso aparece no verso final: 'Amai para entendê-las'. A) A poesia não é apresentada como 'única' forma de compreensão; o foco é o amor. C) Não há experiência religiosa; o diálogo é recurso argumentativo. D) O poema não trata de sagacidade, mas de sensibilidade. E) O texto desvaloriza o bom senso cotidiano ('perdeste o senso'), em vez de valorizá-lo. Referência: Olavo Bilac, Via-Láctea, soneto XIII. Resolução comentada do VaiConcursos.IME — Concurso de Admissão 2019 (Vestibular 2019-2020) — Prova de Português e Inglês
Texto-base:
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1
Capítulo IV
UMA TEORIA NOVA
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
– Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
– Estou muito contente, disse ele.
– Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
– Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
– A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
da matriz; – ou por meio de matraca.
Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
– Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
insinuação do boticário.
E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
– Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
colossal que não merecia princípio de execução.
– Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
transpor a cerca?
Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
revolução.
ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1939>. Acesso em: 12/08/2019.
Texto-base:
O soneto XIII de Via-Láctea, coleção publicada em 1888 no livro Poesias, é o texto mais famoso da antologia, obra de estreia do poeta Olavo Bilac. O texto, cuidadosamente ritmado, suas rimas e a escolha da forma fixa revelam rigor formal e estilístico caros ao movimento parnasiano; o tema do poema, no entanto, entra em colisão com o tema da literatura típica do movimento, tal como concebido no continente europeu.
Texto 2
XIII
1 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…
5 E conversamos toda a noite, enquanto
A Via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
10 Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
BILAC, Olavo. Antologia: Poesias. Martin Claret, 2002. p. 37-55. Via-Láctea. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000289.pdf>. Acesso em: 19/08/2019.
Quanto aos textos apresentados, assinale a afirmativa que apresenta uma incorreção.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto-base:
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1
Capítulo IV
UMA TEORIA NOVA
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
– Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
– Estou muito contente, disse ele.
– Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
– Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
– A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
da matriz; – ou por meio de matraca.
Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
– Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
insinuação do boticário.
E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
– Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
colossal que não merecia princípio de execução.
– Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
transpor a cerca?
Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
revolução.
ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1939>. Acesso em: 12/08/2019.
Texto-base:
O soneto XIII de Via-Láctea, coleção publicada em 1888 no livro Poesias, é o texto mais famoso da antologia, obra de estreia do poeta Olavo Bilac. O texto, cuidadosamente ritmado, suas rimas e a escolha da forma fixa revelam rigor formal e estilístico caros ao movimento parnasiano; o tema do poema, no entanto, entra em colisão com o tema da literatura típica do movimento, tal como concebido no continente europeu.
Texto 2
XIII
1 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…
5 E conversamos toda a noite, enquanto
A Via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
10 Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
BILAC, Olavo. Antologia: Poesias. Martin Claret, 2002. p. 37-55. Via-Láctea. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000289.pdf>. Acesso em: 19/08/2019.
Sobre os Textos 1 e 2, analise as afirmações abaixo:
I. Os dois textos abordam tipos de estados alterados de consciência que se contrapõem à experiência da vida cotidiana.
II. Ambos os textos fazem uma apologia à loucura, segundo a qual a condição de insanidade pode revelar as mazelas morais da sociedade e da cultura.
III. Ambos estabelecem a apologia da razão compreendida como a faculdade superior do homem.
IV. Os dois textos realizam uma crítica ao cientificismo que considera a possibilidade de estabelecer uma linha de fronteira entre a sanidade e a loucura.
Em relação às afirmações, está(ão) correta(s):Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto-base:
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1
Capítulo IV
UMA TEORIA NOVA
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
– Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
– Estou muito contente, disse ele.
– Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
– Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
– A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
da matriz; – ou por meio de matraca.
Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
– Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
insinuação do boticário.
E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
– Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
colossal que não merecia princípio de execução.
– Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
transpor a cerca?
Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
revolução.
ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1939>. Acesso em: 12/08/2019.
Segundo o Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, bacamarte é uma “antiga arma de fogo de cano largo e capa campânula” (HOUAUISS, A. VILLAR, M. Dicionário Houaiss da língua portuguesa, 1.ed. - Rio de Janeiro: Objetiva, 2009). A escolha do nome da personagem central da trama do conto O Alienista antecipaResolução comentada
Análise das alternativas
Texto-base:
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1
Capítulo IV
UMA TEORIA NOVA
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
– Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
– Estou muito contente, disse ele.
– Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
– Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
– A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
da matriz; – ou por meio de matraca.
Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
– Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
insinuação do boticário.
E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
– Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
colossal que não merecia princípio de execução.
– Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
transpor a cerca?
Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
revolução.
ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1939>. Acesso em: 12/08/2019.
“– Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência, porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma experiência que vai mudar a face da Terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.” (Texto 1, linhas 24 a 28)
À luz da gramática normativa, considere as seguintes afirmações:
I. O travessão utilizado em “– Trata-se de coisa mais alta [...]” especifica a mudança de interlocutor no diálogo.
II. As vírgulas empregadas em “A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora [...]” podem ser substituídas por travessões, sem prejuízo para a correção.
III. No trecho “[...] nem a ciência é outra coisa, Sr. Soares, senão uma investigação constante.”, as vírgulas são empregadas com a finalidade de isolar o termo de valor explicativo.
Em relação às afirmações, está(ão) correta(s):Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto-base:
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1
Capítulo IV
UMA TEORIA NOVA
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
– Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
– Estou muito contente, disse ele.
– Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
– Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
– A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
da matriz; – ou por meio de matraca.
Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
– Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
insinuação do boticário.
E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
– Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
colossal que não merecia princípio de execução.
– Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
transpor a cerca?
Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
revolução.
ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1939>. Acesso em: 12/08/2019.
Com a finalidade de preservar a coerência e a correção gramatical do texto, constata-se, no trecho abaixo, o uso de um elemento coesivo cuja função é anafórica.
![]()
Podemos afirmar que o vocábulo “te” em negrito faz referência ao(à)
Texto-base:
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1
Capítulo IV
UMA TEORIA NOVA
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
– Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
– Estou muito contente, disse ele.
– Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
– Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
– A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
da matriz; – ou por meio de matraca.
Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
– Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
insinuação do boticário.
E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
– Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
colossal que não merecia princípio de execução.
– Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
transpor a cerca?
Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
revolução.
ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1939>. Acesso em: 12/08/2019.
No Texto 1, o alienista Simão Bacamarte é descrito como um estudioso que disfarça, sob a aparência de humildade diante dos desafios do saber científico, a convicção da superioridade do cientista em relação às outras pessoas. Assinale o trecho que condiz com essa afirmativa.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto-base:
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1
Capítulo IV
UMA TEORIA NOVA
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
– Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
– Estou muito contente, disse ele.
– Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
– Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
– A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
da matriz; – ou por meio de matraca.
Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
– Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
insinuação do boticário.
E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
– Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
colossal que não merecia princípio de execução.
– Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
transpor a cerca?
Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
revolução.
ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1939>. Acesso em: 12/08/2019.
O vocábulo comiseração (Texto 1, linha 78) se aproxima semanticamente deResolução comentada
Análise das alternativas
Texto-base:
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1
Capítulo IV
UMA TEORIA NOVA
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
– Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
– Estou muito contente, disse ele.
– Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
– Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
– A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
da matriz; – ou por meio de matraca.
Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
– Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
insinuação do boticário.
E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
– Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
colossal que não merecia princípio de execução.
– Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
transpor a cerca?
Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
revolução.
ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1939>. Acesso em: 12/08/2019.
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Assinale a alternativa na qual o(s) vocábulo(s) acentuado(s) recebe(m) o acento gráfico com base na mesma justificativa gramatical utilizada na palavra em destaque:
Texto-base:
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1
Capítulo IV
UMA TEORIA NOVA
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
– Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
– Estou muito contente, disse ele.
– Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
– Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
– A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
da matriz; – ou por meio de matraca.
Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
– Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
insinuação do boticário.
E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
– Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
colossal que não merecia princípio de execução.
– Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
transpor a cerca?
Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
revolução.
ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1939>. Acesso em: 12/08/2019.
“Contratava-se um homem, por um ou mais dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
[...] um dos vereadores [...] desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e aliás, nunca domesticara um desses bichos; mas tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devido à absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime mereciam o desprezo do nosso século.” (Texto 1, linhas 48 a 60)
Considerando o trecho acima, analise as seguintes afirmações:
I. O trecho “E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador;’’ (linhas 57 e 58) produz o efeito do humor por descrever uma situação absurda, que, no entanto, foi considerada pelas pessoas como verdadeira.
II. No texto, a matraca foi retratada como uma forma segura e confiável de comunicação segundo a percepção da população da cidade de Itaguaí.
III. A frase “Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime mereciam o desprezo do nosso século.’’ (linhas 59 e 60) exprime a concordância implícita do narrador com o menosprezo pelo uso da matraca.
Em relação às afirmações, está(ão) correta(s):Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto-base:
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1
Capítulo IV
UMA TEORIA NOVA
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
– Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
– Estou muito contente, disse ele.
– Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
– Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
– A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
da matriz; – ou por meio de matraca.
Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
– Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
insinuação do boticário.
E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
– Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
colossal que não merecia princípio de execução.
– Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
transpor a cerca?
Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
revolução.
ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1939>. Acesso em: 12/08/2019.
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Acerca da etimologia dos vocábulos em negrito, é sabido que são cognatos. Considerando essa afirmativa, assinale a alternativa em que uma das palavras tem origem distinta das demais.
Texto-base:
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1
Capítulo IV
UMA TEORIA NOVA
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
– Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
– Estou muito contente, disse ele.
– Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
– Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
– A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
da matriz; – ou por meio de matraca.
Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
– Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
insinuação do boticário.
E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
– Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
colossal que não merecia princípio de execução.
– Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
transpor a cerca?
Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
revolução.
ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1939>. Acesso em: 12/08/2019.
Atente para as afirmações referentes ao Texto 1:
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Em relação às afirmações, está(ão) correta(s):
Texto-base:
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1
Capítulo IV
UMA TEORIA NOVA
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
– Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
– Estou muito contente, disse ele.
– Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
– Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
– A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
da matriz; – ou por meio de matraca.
Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
– Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
insinuação do boticário.
E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
– Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
colossal que não merecia princípio de execução.
– Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
transpor a cerca?
Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
revolução.
ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1939>. Acesso em: 12/08/2019.
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Assinale a opção em que o vocábulo em negrito nos fragmentos a seguir exerce a mesma função sintática das palavras destacadas no trecho acima:
Texto-base:
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1
Capítulo IV
UMA TEORIA NOVA
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
– Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
– Estou muito contente, disse ele.
– Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
– Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
– A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
da matriz; – ou por meio de matraca.
Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
– Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
insinuação do boticário.
E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
– Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
colossal que não merecia princípio de execução.
– Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
transpor a cerca?
Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
revolução.
ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1939>. Acesso em: 12/08/2019.
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O adjetivo “raro”, destacado no texto acima,
Texto-base:
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1
Capítulo IV
UMA TEORIA NOVA
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
– Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
– Estou muito contente, disse ele.
– Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
– Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
– A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
da matriz; – ou por meio de matraca.
Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
– Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
insinuação do boticário.
E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
– Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
colossal que não merecia princípio de execução.
– Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
transpor a cerca?
Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
revolução.
ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1939>. Acesso em: 12/08/2019.
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A figura de linguagem construída no trecho em negrito é a(o)
Texto-base:
A primeira publicação do conto O Alienista, de Machado de Assis, ocorreu como folhetim na revista carioca A Estação, entre os anos de 1881 e 1882. Nessa mesma época, uma grande reforma educacional efetuou-se no Brasil, criando, dentre outras, a cadeira de Clínica Psiquiátrica. É nesse contexto de uma psiquiatria ainda embrionária que Machado propõe sua crítica ácida, reveladora da escassez de conhecimento científico e da abundância de vaidades, concomitantemente. A obra deixa ver as relações promíscuas entre o poder médico que se pretendia baluarte da ciência e o poder político tal como era exercido em Itaguaí, então uma vila, distante apenas alguns quilômetros da capital Rio de Janeiro. O conto se desenvolve em treze breves capítulos, ao longo dos quais o alienista vai fazendo suas experimentações cientificistas até que ele mesmo conclua pela necessidade de seu isolamento, visto que reconhece em si mesmo a única pessoa cujas faculdades mentais encontram-se equilibradas, sendo ele, portanto, aquele que destoa dos demais, devendo, por isso, alienar-se.
Texto 1
Capítulo IV
UMA TEORIA NOVA
1 Ao passo que D. Evarista, em lágrimas, vinha buscando o Rio de Janeiro, Simão
Bacamarte estudava por todos os lados uma certa ideia arrojada e nova, própria a alargar as
bases da psicologia. Todo o tempo que lhe sobrava dos cuidados da Casa Verde era pouco
para andar na rua, ou de casa em casa, conversando as gentes, sobre trinta mil assuntos, e
5 virgulando as falas de um olhar que metia medo aos mais heroicos.
Um dia de manhã, – eram passadas três semanas, – estando Crispim Soares ocupado
em temperar um medicamento, vieram dizer-lhe que o alienista o mandava chamar.
– Tratava-se de negócio importante, segundo ele me disse, acrescentou o portador.
Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da
10 comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto
insistirem nele os cronistas; Crispim amava a mulher, e, desde trinta anos, nunca estiveram
separados um só dia. Assim se explicam os monólogos que fazia agora, e que os fâmulos lhe
ouviam muita vez: – “Anda, bem feito, quem te mandou consentir na viagem de Cesária?
Bajulador, torpe bajulador! Só para adular ao Dr Bacamarte. Pois agora aguenta-te; anda;
15 aguenta-te, alma de lacaio, fracalhão, vil, miserável. Dizes amém a tudo, não é? Aí tens o
lucro, biltre!”. – E muitos outros nomes feios, que um homem não deve dizer aos outros,
quanto mais a si mesmo. Daqui a imaginar o efeito do recado é um nada. Tão depressa ele o
recebeu como abriu mão das drogas e voou à Casa Verde.
Simão Bacamarte recebeu-o com a alegria própria de um sábio, uma alegria abotoada
20 de circunspeção até o pescoço.
– Estou muito contente, disse ele.
– Notícias do nosso povo?, perguntou o boticário com a voz trêmula.
O alienista fez um gesto magnífico, e respondeu:
– Trata-se de coisa mais alta, trata-se de uma experiência científica. Digo experiência,
25 porque não me atrevo a assegurar desde já a minha ideia; nem a ciência é outra coisa, Sr.
Soares, senão uma investigação constante. Trata-se, pois, de uma experiência, mas uma
experiência que vai mudar a face da terra. A loucura, objeto dos meus estudos, era até agora
uma ilha perdida no oceano da razão; começo a suspeitar que é um continente.
Disse isto, e calou-se, para ruminar o pasmo do boticário. Depois explicou
30 compridamente a sua ideia. No conceito dele a insânia abrangia uma vasta superfície de
cérebros; e desenvolveu isto com grande cópia de raciocínios, de textos, de exemplos. Os
exemplos achou-os na história e em Itaguaí mas, como um raro espírito que era, reconheceu o
perigo de citar todos os casos de Itaguaí e refugiou-se na história. Assim, apontou com
especialidade alguns célebres, Sócrates, que tinha um demônio familiar, Pascal, que via um
35 abismo à esquerda, Maomé, Caracala, Domiciano, Calígula etc., uma enfiada de casos e
pessoas, em que de mistura vinham entidades odiosas, e entidades ridículas. E porque o
boticário se admirasse de uma tal promiscuidade, o alienista disse-lhe que era tudo a mesma
coisa, e até acrescentou sentenciosamente:
– A ferocidade, Sr. Soares, é o grotesco a sério.
40 – Gracioso, muito gracioso!, exclamou Crispim Soares levantando as mãos ao céu.
Quanto à ideia de ampliar o território da loucura, achou-a o boticário extravagante; mas
a modéstia, principal adorno de seu espírito, não lhe sofreu confessar outra coisa além de um
nobre entusiasmo; declarou-a sublime e verdadeira, e acrescentou que era “caso de matraca”.
Esta expressão não tem equivalente no estilo moderno. Naquele tempo, Itaguaí, que como as
45 demais vilas, arraiais e povoações da colônia, não dispunha de imprensa, tinha dois modos de
divulgar uma notícia: ou por meio de cartazes manuscritos e pregados na porta da Câmara, e
da matriz; – ou por meio de matraca.
Eis em que consistia este segundo uso. Contratava-se um homem, por um ou mais
dias, para andar as ruas do povoado, com uma matraca na mão.
50 De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe
incumbiam, – um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo
eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano etc. O sistema tinha
inconvenientes para a paz pública; mas era conservado pela grande energia de divulgação
que possuía. Por exemplo, um dos vereadores, – aquele justamente que mais se opusera à
55 criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação de perfeito educador de cobras e macacos, e
aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a
matraca todos os meses. E dizem as crônicas que algumas pessoas afirmavam ter visto
cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devida à
absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade, nem todas as instituições do antigo regime
60 mereciam o desprezo do nosso século.
– Há melhor do que anunciar a minha ideia, é praticá-la, respondeu o alienista à
insinuação do boticário.
E o boticário, não divergindo sensivelmente deste modo de ver, disse-lhe que sim, que
era melhor começar pela execução.
65 – Sempre haverá tempo de a dar à matraca, concluiu ele.
Simão Bacamarte refletiu ainda um instante, e disse:
– Suponho o espírito humano uma vasta concha, o meu fim, Sr. Soares, é ver se posso
extrair a pérola, que é a razão; por outros termos, demarquemos definitivamente os limites da
razão e da loucura. A razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia,
70 insânia e só insânia.
O Vigário Lopes, a quem ele confiou a nova teoria, declarou lisamente que não
chegava a entendê-la, que era uma obra absurda, e, se não era absurda, era de tal modo
colossal que não merecia princípio de execução.
– Com a definição atual, que é a de todos os tempos, acrescentou, a loucura e a razão
75 estão perfeitamente delimitadas. Sabe-se onde uma acaba e onde a outra começa. Para que
transpor a cerca?
Sobre o lábio fino e discreto do alienista roçou a vaga sombra de uma intenção de riso,
em que o desdém vinha casado à comiseração; mas nenhuma palavra saiu de suas egrégias
entranhas.
80 A ciência contentou-se em estender a mão à teologia, – com tal segurança, que a
teologia não soube enfim se devia crer em si ou na outra. Itaguaí e o universo à beira de uma
revolução.
ASSIS, Machado de. O Alienista. Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro / USP. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1939>. Acesso em: 12/08/2019.
“Crispim empalideceu. Que negócio importante podia ser, se não alguma notícia da comitiva, e especialmente da mulher? Porque este tópico deve ficar claramente definido, visto insistirem nele os cronistas;” (Texto 1, linhas 9 a 11)
A oração “visto insistirem nele os cronistas’’Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto-base:
O soneto XIII de Via-Láctea, coleção publicada em 1888 no livro Poesias, é o texto mais famoso da antologia, obra de estreia do poeta Olavo Bilac. O texto, cuidadosamente ritmado, suas rimas e a escolha da forma fixa revelam rigor formal e estilístico caros ao movimento parnasiano; o tema do poema, no entanto, entra em colisão com o tema da literatura típica do movimento, tal como concebido no continente europeu.
Texto 2
XIII
1 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…
5 E conversamos toda a noite, enquanto
A Via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
10 Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
BILAC, Olavo. Antologia: Poesias. Martin Claret, 2002. p. 37-55. Via-Láctea. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000289.pdf>. Acesso em: 19/08/2019.
A palavra “pois”, usada em “Pois só quem ama pode ter ouvido” (Texto 2, verso 13),Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto-base:
O soneto XIII de Via-Láctea, coleção publicada em 1888 no livro Poesias, é o texto mais famoso da antologia, obra de estreia do poeta Olavo Bilac. O texto, cuidadosamente ritmado, suas rimas e a escolha da forma fixa revelam rigor formal e estilístico caros ao movimento parnasiano; o tema do poema, no entanto, entra em colisão com o tema da literatura típica do movimento, tal como concebido no continente europeu.
Texto 2
XIII
1 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…
5 E conversamos toda a noite, enquanto
A Via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
10 Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
BILAC, Olavo. Antologia: Poesias. Martin Claret, 2002. p. 37-55. Via-Láctea. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000289.pdf>. Acesso em: 19/08/2019.
Dentre as afirmações abaixo, assinale a que é falsa em relação ao Texto 2.Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto-base:
O soneto XIII de Via-Láctea, coleção publicada em 1888 no livro Poesias, é o texto mais famoso da antologia, obra de estreia do poeta Olavo Bilac. O texto, cuidadosamente ritmado, suas rimas e a escolha da forma fixa revelam rigor formal e estilístico caros ao movimento parnasiano; o tema do poema, no entanto, entra em colisão com o tema da literatura típica do movimento, tal como concebido no continente europeu.
Texto 2
XIII
1 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…
5 E conversamos toda a noite, enquanto
A Via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
10 Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
BILAC, Olavo. Antologia: Poesias. Martin Claret, 2002. p. 37-55. Via-Láctea. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000289.pdf>. Acesso em: 19/08/2019.
“Direis agora: ‘Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?’” (Texto 2, versos 9 a 11)
No trecho acima é empregado o chamado discurso direto. Isso se confirma pelo(a)Resolução comentada
Análise das alternativas
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O soneto XIII de Via-Láctea, coleção publicada em 1888 no livro Poesias, é o texto mais famoso da antologia, obra de estreia do poeta Olavo Bilac. O texto, cuidadosamente ritmado, suas rimas e a escolha da forma fixa revelam rigor formal e estilístico caros ao movimento parnasiano; o tema do poema, no entanto, entra em colisão com o tema da literatura típica do movimento, tal como concebido no continente europeu.
Texto 2
XIII
1 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…
5 E conversamos toda a noite, enquanto
A Via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
10 Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
BILAC, Olavo. Antologia: Poesias. Martin Claret, 2002. p. 37-55. Via-Láctea. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000289.pdf>. Acesso em: 19/08/2019.
O vocábulo afim ao campo semântico da palavra “espanto”, empregada em “E abro as janelas, pálido de espanto…” (Texto 2, verso 4), éResolução comentada
Análise das alternativas
Texto-base:
O soneto XIII de Via-Láctea, coleção publicada em 1888 no livro Poesias, é o texto mais famoso da antologia, obra de estreia do poeta Olavo Bilac. O texto, cuidadosamente ritmado, suas rimas e a escolha da forma fixa revelam rigor formal e estilístico caros ao movimento parnasiano; o tema do poema, no entanto, entra em colisão com o tema da literatura típica do movimento, tal como concebido no continente europeu.
Texto 2
XIII
1 “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!" E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto…
5 E conversamos toda a noite, enquanto
A Via-láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.
Direis agora: "Tresloucado amigo!
10 Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"
E eu vos direi: "Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
BILAC, Olavo. Antologia: Poesias. Martin Claret, 2002. p. 37-55. Via-Láctea. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000289.pdf>. Acesso em: 19/08/2019.
É correto afirmar que a ideia principal do Texto 2Resolução comentada
Análise das alternativas
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.
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