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IME — Concurso de Admissão ao Curso de Formação e Graduação 2020/2021 — Prova de Português e Inglês

Instituto Militar de Engenharia (IME) · Concurso de Admissão ao Curso de Formação e Graduação — Prova de Português e Inglês

Instituto Militar de Engenharia (IME)2020Médio

41 questões nesta prova · página 1 de 3 · 40 com gabarito

Língua Portuguesa Interpretação de Texto

Instituto Militar de Engenharia (IME) 2020 Médio

Instituto Militar de Engenharia (IME) · Concurso de Admissão ao Curso de Formação e Graduação — Prova de Português e Inglês

Gabarito disponível

Texto-base:
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.

Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões” aborda os acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados, para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa, gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.

Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS

1 Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes – e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais – guerreiros de cujas mãos
5 caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista – se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território – orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias –, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
10 aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
15 também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
20 em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
25 afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
30 outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
35 Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
40 invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
– e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. A
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
45 Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
50 um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
55 de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
60 pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; – enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
65 As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
70 A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
75 um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2ª ed. São Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186.

De acordo com o Texto 1, pode-se afirmar que a Guerra de Canudos foi:
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Segundo o texto, a guerra foi marcada pela audácia e pela simbiose do jagunço com a caatinga.

O texto mostra a caatinga como aliada incorruptível do sertanejo, que a conhece e nela se esconde, atacando de surpresa um exército desorientado. A natureza o protege ('Talha-o como Anteu'), configurando simbiose entre jagunço e ambiente.

Análise das alternativas

A) Não houve campo aberto: o combate foi em mata fechada. B) Os soldados não estavam adaptados ao terreno. C) Os sertanejos atiravam, não eram desarmados. D) O texto não trata de razões religiosas.

Referência: Euclides da Cunha, Os Sertões.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Interpretação de Texto

Instituto Militar de Engenharia (IME) 2020 Médio

Instituto Militar de Engenharia (IME) · Concurso de Admissão ao Curso de Formação e Graduação — Prova de Português e Inglês

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Texto-base:
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.

Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões” aborda os acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados, para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa, gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.

Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS

1 Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes – e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais – guerreiros de cujas mãos
5 caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista – se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território – orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias –, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
10 aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
15 também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
20 em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
25 afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
30 outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
35 Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
40 invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
– e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. A
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
45 Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
50 um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
55 de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
60 pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; – enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
65 As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
70 A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
75 um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2ª ed. São Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186.

Considere os trechos do Texto 1 a seguir:
I. “E ririam os sábios feldmarechais – guerreiros de cujas mãos caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista – se ouvissem a alguém que às caatingas pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens” (linhas 04 a 06).
II. “E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...” (linha 17).
III. “Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência, perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes - e formulam leis para a guerra, pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático precioso, de ofensiva ou defensiva” (linhas 01 a 04).

É correto afirmar que:
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

No trecho III, o autor critica a arrogância dos 'doutores na arte de matar' que invadem a ciência.

O trecho usa termos como 'invadem escandalosamente' e 'esporas insolentes', criticando a arrogância dos militares que querem tornar a guerra uma ciência de equações. Logo, afirma que a arrogância é inadequada para a ciência da guerra, o que confirma C.

Análise das alternativas

A) O período I é ironia dos feldmarechais; a comparação entre caatinga e floresta vem depois. B) 'Guerrilheiro-tugue, intangível' não trata de moral ilibada. D) Trata-se de dificuldade de atingi-lo e de sua condição de guerrilheiro, não de destemor. E) O trecho III trata do papel das florestas segundo os teóricos europeus, e não afirma que sejam aliados dos jagunços.

Referência: Euclides da Cunha, Os Sertões, 'A guerra das caatingas'.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Tipologia Textual

Instituto Militar de Engenharia (IME) 2020 Médio

Instituto Militar de Engenharia (IME) · Concurso de Admissão ao Curso de Formação e Graduação — Prova de Português e Inglês

Gabarito disponível

Texto-base:
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.

Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões” aborda os acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados, para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa, gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.

Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS

1 Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes – e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais – guerreiros de cujas mãos
5 caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista – se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território – orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias –, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
10 aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
15 também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
20 em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
25 afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
30 outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
35 Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
40 invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
– e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. A
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
45 Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
50 um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
55 de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
60 pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; – enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
65 As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
70 A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
75 um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2ª ed. São Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186.

O Texto 1 intercala os processos dissertativo-argumentativo e descritivo-narrativo. Isso se confirma, respectivamente, pelas seguintes características:
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

O texto combina elementos de texto científico e de reportagem jornalística com narrativa historiográfica.

A parte dissertativo-argumentativa se evidencia pelo uso de aspectos do texto científico (teorias da guerra, leis, determinismo) e da reportagem/artigo jornalístico, já que a obra nasceu de cobertura de guerra. A parte descritivo-narrativa se confirma pela narrativa historiográfica da marcha da coluna, da emboscada e do combate. Por isso D é a única que associa corretamente os dois processos.

Análise das alternativas

A) O texto é rico em adjetivação, não econômico. B) O gerúndio e as relações temporais não distinguem os dois processos. C) Não há relato biográfico. E) O texto não visa levar o leitor a agir, e a segunda parte não corresponde ao descritivo-narrativo.

Referência: Tipologia textual; Euclides da Cunha, Os Sertões.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Semântica — Significado de Palavras em Contexto

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Texto-base:
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.

Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões” aborda os acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados, para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa, gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.

Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS

1 Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes – e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais – guerreiros de cujas mãos
5 caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista – se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território – orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias –, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
10 aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
15 também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
20 em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
25 afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
30 outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
35 Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
40 invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
– e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. A
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
45 Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
50 um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
55 de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
60 pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; – enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
65 As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
70 A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
75 um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2ª ed. São Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186.

“Ouve-se uma voz de comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas ...” (Texto 1, linhas 37 e 38).
O valor semântico do vocábulo “estrugidoramente” no trecho acima se aproxima de:
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

'Estrugidoramente' significa com estrondo, ruidosamente.

O advérbio vem de 'estrugir', que significa produzir grande estrondo, ribombar. Assim, 'um turbilhão de balas rola estrugidoramente' indica rajada de tiros com grande barulho, o que se aproxima de 'ruidosamente'.

Análise das alternativas

A) Violência não é o sentido de estrugir. C) Velocidade também não. D) Pontaria certeira não está implicada. E) A ideia de morte não está no termo.

Referência: Léxico de Os Sertões; Semântica.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Figuras de Linguagem

Instituto Militar de Engenharia (IME) 2020 Médio

Instituto Militar de Engenharia (IME) · Concurso de Admissão ao Curso de Formação e Graduação — Prova de Português e Inglês

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Texto-base:
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.

Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões” aborda os acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados, para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa, gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.

Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS

1 Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes – e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais – guerreiros de cujas mãos
5 caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista – se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território – orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias –, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
10 aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
15 também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
20 em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
25 afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
30 outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
35 Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
40 invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
– e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. A
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
45 Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
50 um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
55 de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
60 pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; – enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
65 As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
70 A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
75 um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2ª ed. São Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186.

No intuito de manifestar, no plano linguístico, a ideia de uma natureza integrada à lógica antagônica do conflito armado, o autor atribui as características de um soldado à vegetação da caatinga.
A alternativa que corresponde a um trecho do Texto 1 que ilustra esse procedimento estilístico é:
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

A personificação da vegetação como soldado aparece em 'Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes arrebata das mãos as armas'.

O cipoal 'agrilhoa' (prende com grilhões) e 'arrebata as armas' dos soldados: age como combatente que captura e desarma o inimigo. Isso atribui à vegetação ações próprias de um soldado, ilustrando a natureza integrada ao conflito.

Análise das alternativas

B) Descreve a ação desordenada dos soldados no labirinto de galhos, não da vegetação. C) A vegetação 'se trança' e 'se abre', comportamento de aliado do sertanejo, mas sem atributos de soldado. D) Refere-se ao comandante e às tropas. E) Trata das florestas em geral, com função tática, não da caatinga como soldado.

Referência: Euclides da Cunha, Os Sertões; figuras de linguagem (personificação).

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Conectivos e Classes de Palavras

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Texto-base:
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.

Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões” aborda os acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados, para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa, gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.

Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS

1 Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes – e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais – guerreiros de cujas mãos
5 caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista – se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território – orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias –, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
10 aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
15 também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
20 em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
25 afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
30 outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
35 Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
40 invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
– e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. A
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
45 Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
50 um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
55 de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
60 pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; – enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
65 As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
70 A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
75 um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2ª ed. São Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186.

Considere as assertivas a seguir:
Assertivas I a III da questão. I. “(...) se ouvissem a alguém que às caatingas pobres cabe a função mais definida e grave que às grandes matas virgens.” (Texto 1, linhas 05 e 06). Os conectivos em destaque “se” e “que” estabelecem a relação de causa e de comparação, respectivamente. II. “Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta” (Texto 1, linha 14). A locução em destaque exprime a ideia de condição. III. “As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma barreira flexível, mas impenetrável, de juremas.” (Texto 1, linhas 47 e 48) Em destaque, ocorre o emprego de um pronome e de uma preposição, respectivamente. Em negrito: “se” e o segundo “que” no item I; “Ao passo que” no item II; “onde” e “ante” no item III.

Está(ão) correta(s) a(s) assertiva(s):
Selecione uma alternativa

Língua Portuguesa Colocação Pronominal

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Texto-base:
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.

Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões” aborda os acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados, para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa, gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.

Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS

1 Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes – e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais – guerreiros de cujas mãos
5 caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista – se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território – orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias –, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
10 aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
15 também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
20 em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
25 afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
30 outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
35 Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
40 invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
– e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. A
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
45 Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
50 um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
55 de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
60 pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; – enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
65 As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
70 A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
75 um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2ª ed. São Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186.

Texto 2
ESTADOS DE VIOLÊNCIA

1 A guerra, na longa história dos homens, terá tido seus atores e suas cenas, seus heróis e
seus espaços, seus personagens e seus teatros. Diversidade incrível das fardas, dos costumes,
enfeites, armaduras, equipamentos. Multiplicidade dos terrenos: barro espesso ou poeira
asfixiante, brejos viscosos, desfiladeiros rochosos, prados gordurentos ou planícies sombrias,
5 colinas acidentadas, montanhas dentadas, muros grossos das cidades fortificadas, portões e
fossos profundos. Sem mesmo falar das táticas de combate, da evolução técnica das armas.
Mas o que malgrado tudo ficaria e basearia a distinção entre guerras maiores e menores, grandes
e pequenas, verdadeiras e degradadas, era essa forma pura de dois exércitos engajando forças
representando entidades políticas identificáveis, afrontando-se em batalhas decisivas, terrestres
10 ou marítimas, que os colocavam em contato com seu princípio de encerramento: vitória ou
derrota. É ainda possível essa forma pura de guerra, depois que as grandes e principais
potências dispõem da arma absoluta (o fogo nuclear), depois ainda que um só possui uma
superioridade arrasadora das forças clássicas de destruição, tecnologias de reconhecimento,
técnicas de fundição de precisão, depois enfim que as democracias desenvolveram uma cultura
15 de negociação, de arbitragem em que o recurso à força nua é dado como inadequado, selvagem,
contraproducente? Imagina-se que no futuro ainda grandes potências mobilizem o conjunto de
suas forças vivas para se medirem?
Na trama visível, dilacerada das grandes guerras contemporâneas, reconhecem-se apenas
a paisagem cultural da guerra, as nervuras de sua representação dominante. Não se veem mais,
20 e tanto melhor, colunas de soldados em centenas de milhares chegando ao futuro campo de
batalha, dispondo-se em ordem para a batalha decisiva. Não se espera mais com um entusiasmo
ansioso a sanção das armas: duração da batalha, data da vitória ou da derrota (...) Os estados
de violência fazem aparecer uma multiplicidade de figuras novas: o terrorista, o chefe de facções,
o mercenário, o soldado profissional, o engenheiro de informática, o responsável da segurança
25 etc. Não exército disciplinado, mas redes dispersas, concorrentes, profissionais da violência.
Mudanças ainda no nível do teatro dos conflitos. Para a guerra: uma planície, espaços largos, às
vezes colinas ou rios, em todo caso campanhas (para não levar em conta aqui guerras de cerco).
E depois vem o espetáculo desolador após a batalha: os inimigos como que abraçados na morte,
corpos juncando o solo, fardas rasgadas, manchas de sangue. Um grande silêncio depois de
30 tantos gritos e de vaias. O novo teatro é hoje a cidade. Não a cidade fortificada, em torno da qual
se entrincheira, mas a cidade viva dos transeuntes. A dos espaços públicos: mercados,
garagens, terraços de café, metrôs... A das ruas que francos atiradores isolados transformam em
teatro de feira para divertimentos atrozes (...)
Tempos e espaços, personagens e cadáveres. Aqui se trata apenas do regime de imagens
35 de violência armada que se acha transformado. A aposta filosófica seria dizer que acontece outra
coisa, e não a guerra, que se poderia chamar provisoriamente de “estados de violência”, porque
eles se oporiam ao que os clássicos tinham definido como “estado de guerra” e também como
“estado de natureza” (...)
Diante da inquietante extravagância desses conflitos dificilmente identificáveis ou
40 codificáveis nos quadros da análise estratégica clássica, ouve-se mesmo: o pior estaria por vir.
É preciso dizer que a polemologia (estudo da guerra) não reconhece mais seus filhos: nem seus
chefes responsáveis, nem seus soldados dóceis, nem seus heróis esplêndidos, nem seus mortos
no campo de honra. Chega-se mesmo a se queixar. Neste ponto, contudo, a nostalgia é
dificilmente suportável. Sobretudo para lastimar guerras que às vezes nem mesmo foram vividas
45 pessoalmente. Estas boas velhas guerras, com bons velhos inimigos, fomentadas por Estados,
alegando “razões”, deve-se recordar que foram também o instrumento das mais baixas
ambições, das mais loucas pretensões, dos mais sórdidos cálculos? Que elas acarretaram sem
falhar o sacrifício de milhões de homens que não pediam senão para viver, que elas esgotaram
precocemente civilizações desenvolvidas, conduziram culturas prestigiosas ao suicídio?
50 Resta, além de um pensamento nostálgico, compreender o que causa os estados atuais
de violência. Então, antes que falar da “nova guerra”, de “guerra selvagem”, “guerra sem a
guerra”, de “guerra sem fim”, de “guerra assimétrica”, de “guerra civil generalizada”, de “guerra
ruiva”, é preciso elucidar, em lugar do jogo antigo da guerra e da paz, as estruturações destes
estados de violência (...) Como a filosofia clássica tinha conceituado o estado de guerra e de
55 natureza, seria preciso esboçar a análise filosófica dos estados de violência, como distribuição
contemporânea das forças de destruição.

GROS, Frédéric. Estados de violência: ensaio sobre o fim da guerra. Tradução de José Augusto da Silva. Aparecida, SP: Editora Ideias & Letras, 2009. p. 227-232 (texto adaptado).

Considere as assertivas a seguir:
Assertivas I a IV da questão. I. A ênclise apresentada em “(...), invadem escandalosamente a ciência, perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes (...)” (Texto 1, linhas 01 e 02) ocorre devido à presença do gerúndio sem palavra atrativa. II. Em “E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...” (Texto 1, linha 17), é possível reconstruir o segmento por meio de outro emprego pronominal, sem prejudicar a correção e o sentido original, já que há fator facultativo de ênclise; III. Na expressão “(...) que lhes arrebata das mãos as armas”. (Texto 1, linha 49), o pronome destacado está corretamente empregado. Há a ocorrência da próclise obrigatória. IV. Em “Chega-se mesmo a se queixar” (Texto 2, linha 43), o deslocamento do pronome “se”, em destaque, para imediatamente após a forma verbal “queixar”, prejudicaria a correção gramatical do texto. Em negrito: “lhe” no item I, “se” de “faz-se” no item II, “lhes” no item III e o segundo “se” no item IV.

No que tange à topologia pronominal, estão corretas as assertivas:
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Língua Portuguesa Pontuação — Dois-Pontos

Instituto Militar de Engenharia (IME) 2020 Médio

Instituto Militar de Engenharia (IME) · Concurso de Admissão ao Curso de Formação e Graduação — Prova de Português e Inglês

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Texto-base:
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.

Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões” aborda os acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados, para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa, gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.

Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS

1 Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes – e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais – guerreiros de cujas mãos
5 caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista – se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território – orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias –, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
10 aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
15 também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
20 em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
25 afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
30 outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
35 Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
40 invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
– e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. A
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
45 Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
50 um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
55 de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
60 pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; – enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
65 As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
70 A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
75 um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2ª ed. São Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186.

“E voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o doer infernal das folhas urticantes; frechadas de espinhos...” (Texto 1, linhas 65 a 68).
No trecho acima, os dois pontos servem para introduzir um(a)
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Os dois-pontos introduzem enumeração das condições em que as tropas voltam.

Depois dos dois-pontos vêm itens separados por ponto e vírgula (vestes em tiras; armas estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes etc.), que detalham como voltam os soldados. Trata-se, portanto, de uma enumeração.

Análise das alternativas

A) Não há síntese do que foi dito antes, mas uma sequência de itens. B) Não há fala ou texto de outrem. C) Embora haja detalhamento, a estrutura é de lista de elementos, que a banca classifica como enumeração. E) Não há diálogo, nem travessão ou fala de personagens.

Referência: Emprego dos dois-pontos; Gramática normativa.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Crase

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Gabarito disponível

Texto-base:
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.

Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões” aborda os acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados, para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa, gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.

Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS

1 Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes – e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais – guerreiros de cujas mãos
5 caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista – se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território – orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias –, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
10 aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
15 também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
20 em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
25 afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
30 outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
35 Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
40 invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
– e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. A
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
45 Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
50 um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
55 de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
60 pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; – enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
65 As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
70 A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
75 um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2ª ed. São Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186.

Considere as assertivas a seguir:
Assertivas I a III da questão. I. Na expressão “Reagindo à canícula e com o desalinho natural (...)” (Texto 1, linha 21), o emprego da crase se deve à presença da forma verbal “reagindo” e do artigo definido feminino que precede o substantivo. II. Em “Espalham-se, correm à toa, num labirinto de galhos” (Texto 1, linhas 54 e 55), o acento grave está adequado, visto que exemplifica o emprego facultativo da crase. III. Nos segmentos “Enredam-se no cipoal que as agrilhoa (...)” (Texto 1, linha 48) e “Atiram a esmo” (Texto 1, linha 59), os termos grifados são, respectivamente, pronome pessoal oblíquo e preposição. Em negrito: “à” nos itens I e II; “as” e “a” no item III.

Está(ão) correta(s) a(s) assertiva(s):
Selecione uma alternativa

Língua Portuguesa Interpretação de Texto

Instituto Militar de Engenharia (IME) 2020 Médio

Instituto Militar de Engenharia (IME) · Concurso de Admissão ao Curso de Formação e Graduação — Prova de Português e Inglês

Gabarito disponível

Texto-base:
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.

Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões” aborda os acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados, para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa, gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.

Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS

1 Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes – e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais – guerreiros de cujas mãos
5 caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista – se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território – orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias –, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
10 aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
15 também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
20 em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
25 afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
30 outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
35 Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
40 invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
– e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. A
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
45 Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
50 um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
55 de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
60 pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; – enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
65 As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
70 A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
75 um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2ª ed. São Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186.

“A luta é desigual. A força militar decai a um plano interior. Batem-na o homem e a terra. E quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória. Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo um seio carinhoso e amigo.” (Texto 1, linhas 70 a 75)
No trecho acima, o autor de “Os Sertões” usa um animal mitológico, o minotauro, para representar
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

O minotauro simboliza as tropas do Exército, bem armadas, mas impotentes na caatinga árida.

No trecho, o minotauro é 'impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de baionetas': é a força militar bem equipada, que se perde no sertão, sofre com sede e fome e recua diante do 'deserto ameaçador e estéril'. Assim, representa as tropas bem armadas diante de região árida e hostil, em que não se orientam.

Análise das alternativas

B) As tropas não são 'indefesas': o texto destaca seu aparato de aço e baionetas. C) O sertanejo é comparado a Anteu e a um titã, não ao minotauro. D) As tropas foram derrotadas pelo terreno, pois não o conheciam. E) A caatinga é a 'flora agressiva' que acolhe o sertanejo, não o minotauro.

Referência: Euclides da Cunha, Os Sertões, 'A guerra das caatingas'.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Literatura Pré-Modernismo — Os Sertões (Euclides da Cunha)

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Texto-base:
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.

Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões” aborda os acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados, para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa, gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.

Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS

1 Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes – e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais – guerreiros de cujas mãos
5 caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista – se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território – orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias –, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
10 aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
15 também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
20 em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
25 afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
30 outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
35 Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
40 invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
– e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. A
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
45 Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
50 um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
55 de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
60 pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; – enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
65 As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
70 A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
75 um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2ª ed. São Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186.

Considere as assertivas a seguir:
I. Na obra euclidiana, integram-se o esmero na linguagem, a idealização romântica do sertanejo e o propósito jornalístico de cobertura do conflito.
II. Utilizando uma linguagem oriunda das ciências humanas, físicas e naturais, a obra retrata um “Brasil profundo”, desconhecido pela civilização do litoral, em suas misérias e grandezas.
III. O objetivo maior da obra é a apresentação lírica da sociedade e da cultura sertaneja, apesar do endosso de uma visão determinista da Guerra de Canudos, em conformidade com o pensamento positivista da época.

Está(ão) correta(s) a(s) assertiva(s):
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Os Sertões une linguagem científica estetizada e retrato do 'Brasil profundo'; apenas a assertiva II está correta.

A assertiva II descreve corretamente a obra: usa vocabulário das ciências (geologia, botânica, antropologia) para retratar o sertão e o sertanejo, com suas misérias e grandezas, desconhecidos do litoral. A I erra ao falar em 'idealização romântica' do sertanejo, pois Euclides é pré-modernista e de base cientificista, e não idealiza o sertanejo nos moldes românticos. A III erra ao atribuir à obra um objetivo 'lírico': o propósito é analítico-científico e denunciador.

Análise das alternativas

A) I: a idealização romântica não condiz com o enfoque científico-determinista do autor. C) III: o objetivo maior não é lírico, e sim interpretar e denunciar a realidade. D) e E) incluem I e/ou III, que estão incorretas.

Referência: Euclides da Cunha, Os Sertões (1902); Pré-Modernismo.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Figuras de Linguagem

Instituto Militar de Engenharia (IME) 2020 Médio

Instituto Militar de Engenharia (IME) · Concurso de Admissão ao Curso de Formação e Graduação — Prova de Português e Inglês

Gabarito disponível

Texto-base:
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.

Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões” aborda os acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados, para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa, gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.

Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS

1 Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes – e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais – guerreiros de cujas mãos
5 caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista – se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território – orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias –, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
10 aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
15 também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
20 em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
25 afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
30 outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
35 Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
40 invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
– e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. A
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
45 Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
50 um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
55 de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
60 pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; – enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
65 As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
70 A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
75 um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2ª ed. São Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186.

No Texto 1, o autor utiliza figuras de linguagem relacionando o sertão ao mar. A opção que evidencia o uso desse recurso expressivo é:
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

'Orla' e 'distende-se' remetem ao vocabulário do mar.

'Distende-se pela orla da caatinga' trata a caatinga como se fosse o mar, cuja margem é a orla. Esse é o uso metafórico que relaciona sertão e mar.

Análise das alternativas

A: 'penumbra' é imagem de luz. B: 'raios do sol joeirados' remete a peneirar. C: 'garras felinas' compara a animais. E: 'estua' sugere calor intenso (ferver), não o mar.

Referência: Figuras de linguagem: metáfora.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Coesão Referencial — Pronomes

Instituto Militar de Engenharia (IME) 2020 Médio

Instituto Militar de Engenharia (IME) · Concurso de Admissão ao Curso de Formação e Graduação — Prova de Português e Inglês

Gabarito disponível

Texto-base:
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.

Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões” aborda os acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados, para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa, gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.

Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS

1 Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes – e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais – guerreiros de cujas mãos
5 caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista – se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território – orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias –, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
10 aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
15 também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
20 em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
25 afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
30 outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
35 Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
40 invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
– e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. A
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
45 Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
50 um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
55 de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
60 pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; – enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
65 As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
70 A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
75 um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2ª ed. São Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186.

Considere os elementos coesivos do Texto 1 destacados nos trechos a seguir:
Três trechos: “Ao avistá-las, no verão, (...)” (linha 19). “Enredam-se no cipoal que as agrilhoa (...)” (linha 48). “Batem-na o homem e a terra”. (linha 70). Em negrito: “las”, “as” e “na”.

Tais elementos recuperam, respectivamente, as palavras
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Língua Portuguesa Formação de Palavras

Instituto Militar de Engenharia (IME) 2020 Médio

Instituto Militar de Engenharia (IME) · Concurso de Admissão ao Curso de Formação e Graduação — Prova de Português e Inglês

Gabarito disponível

Texto-base:
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.

Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões” aborda os acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados, para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa, gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.

Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS

1 Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes – e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais – guerreiros de cujas mãos
5 caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista – se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território – orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias –, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
10 aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
15 também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
20 em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
25 afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
30 outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
35 Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
40 invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
– e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. A
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
45 Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
50 um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
55 de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
60 pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; – enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
65 As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
70 A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
75 um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2ª ed. São Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186.

Texto 2
ESTADOS DE VIOLÊNCIA

1 A guerra, na longa história dos homens, terá tido seus atores e suas cenas, seus heróis e
seus espaços, seus personagens e seus teatros. Diversidade incrível das fardas, dos costumes,
enfeites, armaduras, equipamentos. Multiplicidade dos terrenos: barro espesso ou poeira
asfixiante, brejos viscosos, desfiladeiros rochosos, prados gordurentos ou planícies sombrias,
5 colinas acidentadas, montanhas dentadas, muros grossos das cidades fortificadas, portões e
fossos profundos. Sem mesmo falar das táticas de combate, da evolução técnica das armas.
Mas o que malgrado tudo ficaria e basearia a distinção entre guerras maiores e menores, grandes
e pequenas, verdadeiras e degradadas, era essa forma pura de dois exércitos engajando forças
representando entidades políticas identificáveis, afrontando-se em batalhas decisivas, terrestres
10 ou marítimas, que os colocavam em contato com seu princípio de encerramento: vitória ou
derrota. É ainda possível essa forma pura de guerra, depois que as grandes e principais
potências dispõem da arma absoluta (o fogo nuclear), depois ainda que um só possui uma
superioridade arrasadora das forças clássicas de destruição, tecnologias de reconhecimento,
técnicas de fundição de precisão, depois enfim que as democracias desenvolveram uma cultura
15 de negociação, de arbitragem em que o recurso à força nua é dado como inadequado, selvagem,
contraproducente? Imagina-se que no futuro ainda grandes potências mobilizem o conjunto de
suas forças vivas para se medirem?
Na trama visível, dilacerada das grandes guerras contemporâneas, reconhecem-se apenas
a paisagem cultural da guerra, as nervuras de sua representação dominante. Não se veem mais,
20 e tanto melhor, colunas de soldados em centenas de milhares chegando ao futuro campo de
batalha, dispondo-se em ordem para a batalha decisiva. Não se espera mais com um entusiasmo
ansioso a sanção das armas: duração da batalha, data da vitória ou da derrota (...) Os estados
de violência fazem aparecer uma multiplicidade de figuras novas: o terrorista, o chefe de facções,
o mercenário, o soldado profissional, o engenheiro de informática, o responsável da segurança
25 etc. Não exército disciplinado, mas redes dispersas, concorrentes, profissionais da violência.
Mudanças ainda no nível do teatro dos conflitos. Para a guerra: uma planície, espaços largos, às
vezes colinas ou rios, em todo caso campanhas (para não levar em conta aqui guerras de cerco).
E depois vem o espetáculo desolador após a batalha: os inimigos como que abraçados na morte,
corpos juncando o solo, fardas rasgadas, manchas de sangue. Um grande silêncio depois de
30 tantos gritos e de vaias. O novo teatro é hoje a cidade. Não a cidade fortificada, em torno da qual
se entrincheira, mas a cidade viva dos transeuntes. A dos espaços públicos: mercados,
garagens, terraços de café, metrôs... A das ruas que francos atiradores isolados transformam em
teatro de feira para divertimentos atrozes (...)
Tempos e espaços, personagens e cadáveres. Aqui se trata apenas do regime de imagens
35 de violência armada que se acha transformado. A aposta filosófica seria dizer que acontece outra
coisa, e não a guerra, que se poderia chamar provisoriamente de “estados de violência”, porque
eles se oporiam ao que os clássicos tinham definido como “estado de guerra” e também como
“estado de natureza” (...)
Diante da inquietante extravagância desses conflitos dificilmente identificáveis ou
40 codificáveis nos quadros da análise estratégica clássica, ouve-se mesmo: o pior estaria por vir.
É preciso dizer que a polemologia (estudo da guerra) não reconhece mais seus filhos: nem seus
chefes responsáveis, nem seus soldados dóceis, nem seus heróis esplêndidos, nem seus mortos
no campo de honra. Chega-se mesmo a se queixar. Neste ponto, contudo, a nostalgia é
dificilmente suportável. Sobretudo para lastimar guerras que às vezes nem mesmo foram vividas
45 pessoalmente. Estas boas velhas guerras, com bons velhos inimigos, fomentadas por Estados,
alegando “razões”, deve-se recordar que foram também o instrumento das mais baixas
ambições, das mais loucas pretensões, dos mais sórdidos cálculos? Que elas acarretaram sem
falhar o sacrifício de milhões de homens que não pediam senão para viver, que elas esgotaram
precocemente civilizações desenvolvidas, conduziram culturas prestigiosas ao suicídio?
50 Resta, além de um pensamento nostálgico, compreender o que causa os estados atuais
de violência. Então, antes que falar da “nova guerra”, de “guerra selvagem”, “guerra sem a
guerra”, de “guerra sem fim”, de “guerra assimétrica”, de “guerra civil generalizada”, de “guerra
ruiva”, é preciso elucidar, em lugar do jogo antigo da guerra e da paz, as estruturações destes
estados de violência (...) Como a filosofia clássica tinha conceituado o estado de guerra e de
55 natureza, seria preciso esboçar a análise filosófica dos estados de violência, como distribuição
contemporânea das forças de destruição.

GROS, Frédéric. Estados de violência: ensaio sobre o fim da guerra. Tradução de José Augusto da Silva. Aparecida, SP: Editora Ideias & Letras, 2009. p. 227-232 (texto adaptado).

Considere os vocábulos dos Textos 1 e 2 destacados nos trechos a seguir:
Três trechos: “Armam-se para o combate (...)” (Texto 1, linha 15). “(...) aquela flora agressiva abre ao sertanejo um seio carinhoso e amigo.” (Texto 1, linhas 74 e 75). “A dos espaços públicos: mercados, garagens, terraços de café, metrôs... (Texto 2, linhas 31 e 32). Em negrito: “combate”, “amigo” e “metrôs”.

Tais vocábulos são formados, respectivamente, a partir de processos de
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Língua Portuguesa Pontuação — Vírgula

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Instituto Militar de Engenharia (IME) · Concurso de Admissão ao Curso de Formação e Graduação — Prova de Português e Inglês

Gabarito disponível

Texto-base:
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.

Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões” aborda os acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados, para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa, gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.

Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS

1 Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes – e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais – guerreiros de cujas mãos
5 caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista – se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território – orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias –, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
10 aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
15 também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
20 em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
25 afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
30 outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
35 Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
40 invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
– e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. A
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
45 Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
50 um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
55 de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
60 pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; – enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
65 As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
70 A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
75 um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2ª ed. São Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186.

Texto 2
ESTADOS DE VIOLÊNCIA

1 A guerra, na longa história dos homens, terá tido seus atores e suas cenas, seus heróis e
seus espaços, seus personagens e seus teatros. Diversidade incrível das fardas, dos costumes,
enfeites, armaduras, equipamentos. Multiplicidade dos terrenos: barro espesso ou poeira
asfixiante, brejos viscosos, desfiladeiros rochosos, prados gordurentos ou planícies sombrias,
5 colinas acidentadas, montanhas dentadas, muros grossos das cidades fortificadas, portões e
fossos profundos. Sem mesmo falar das táticas de combate, da evolução técnica das armas.
Mas o que malgrado tudo ficaria e basearia a distinção entre guerras maiores e menores, grandes
e pequenas, verdadeiras e degradadas, era essa forma pura de dois exércitos engajando forças
representando entidades políticas identificáveis, afrontando-se em batalhas decisivas, terrestres
10 ou marítimas, que os colocavam em contato com seu princípio de encerramento: vitória ou
derrota. É ainda possível essa forma pura de guerra, depois que as grandes e principais
potências dispõem da arma absoluta (o fogo nuclear), depois ainda que um só possui uma
superioridade arrasadora das forças clássicas de destruição, tecnologias de reconhecimento,
técnicas de fundição de precisão, depois enfim que as democracias desenvolveram uma cultura
15 de negociação, de arbitragem em que o recurso à força nua é dado como inadequado, selvagem,
contraproducente? Imagina-se que no futuro ainda grandes potências mobilizem o conjunto de
suas forças vivas para se medirem?
Na trama visível, dilacerada das grandes guerras contemporâneas, reconhecem-se apenas
a paisagem cultural da guerra, as nervuras de sua representação dominante. Não se veem mais,
20 e tanto melhor, colunas de soldados em centenas de milhares chegando ao futuro campo de
batalha, dispondo-se em ordem para a batalha decisiva. Não se espera mais com um entusiasmo
ansioso a sanção das armas: duração da batalha, data da vitória ou da derrota (...) Os estados
de violência fazem aparecer uma multiplicidade de figuras novas: o terrorista, o chefe de facções,
o mercenário, o soldado profissional, o engenheiro de informática, o responsável da segurança
25 etc. Não exército disciplinado, mas redes dispersas, concorrentes, profissionais da violência.
Mudanças ainda no nível do teatro dos conflitos. Para a guerra: uma planície, espaços largos, às
vezes colinas ou rios, em todo caso campanhas (para não levar em conta aqui guerras de cerco).
E depois vem o espetáculo desolador após a batalha: os inimigos como que abraçados na morte,
corpos juncando o solo, fardas rasgadas, manchas de sangue. Um grande silêncio depois de
30 tantos gritos e de vaias. O novo teatro é hoje a cidade. Não a cidade fortificada, em torno da qual
se entrincheira, mas a cidade viva dos transeuntes. A dos espaços públicos: mercados,
garagens, terraços de café, metrôs... A das ruas que francos atiradores isolados transformam em
teatro de feira para divertimentos atrozes (...)
Tempos e espaços, personagens e cadáveres. Aqui se trata apenas do regime de imagens
35 de violência armada que se acha transformado. A aposta filosófica seria dizer que acontece outra
coisa, e não a guerra, que se poderia chamar provisoriamente de “estados de violência”, porque
eles se oporiam ao que os clássicos tinham definido como “estado de guerra” e também como
“estado de natureza” (...)
Diante da inquietante extravagância desses conflitos dificilmente identificáveis ou
40 codificáveis nos quadros da análise estratégica clássica, ouve-se mesmo: o pior estaria por vir.
É preciso dizer que a polemologia (estudo da guerra) não reconhece mais seus filhos: nem seus
chefes responsáveis, nem seus soldados dóceis, nem seus heróis esplêndidos, nem seus mortos
no campo de honra. Chega-se mesmo a se queixar. Neste ponto, contudo, a nostalgia é
dificilmente suportável. Sobretudo para lastimar guerras que às vezes nem mesmo foram vividas
45 pessoalmente. Estas boas velhas guerras, com bons velhos inimigos, fomentadas por Estados,
alegando “razões”, deve-se recordar que foram também o instrumento das mais baixas
ambições, das mais loucas pretensões, dos mais sórdidos cálculos? Que elas acarretaram sem
falhar o sacrifício de milhões de homens que não pediam senão para viver, que elas esgotaram
precocemente civilizações desenvolvidas, conduziram culturas prestigiosas ao suicídio?
50 Resta, além de um pensamento nostálgico, compreender o que causa os estados atuais
de violência. Então, antes que falar da “nova guerra”, de “guerra selvagem”, “guerra sem a
guerra”, de “guerra sem fim”, de “guerra assimétrica”, de “guerra civil generalizada”, de “guerra
ruiva”, é preciso elucidar, em lugar do jogo antigo da guerra e da paz, as estruturações destes
estados de violência (...) Como a filosofia clássica tinha conceituado o estado de guerra e de
55 natureza, seria preciso esboçar a análise filosófica dos estados de violência, como distribuição
contemporânea das forças de destruição.

GROS, Frédéric. Estados de violência: ensaio sobre o fim da guerra. Tradução de José Augusto da Silva. Aparecida, SP: Editora Ideias & Letras, 2009. p. 227-232 (texto adaptado).

Considere a regra usada para a colocação das vírgulas no trecho destacado do Texto 2 a seguir:
Trecho: “(...) é preciso elucidar, em lugar do jogo antigo da guerra e da paz, as estruturações destes estados de violência” (linhas 53 e 54), com “em lugar do jogo antigo da guerra e da paz” em negrito.

A alternativa que utiliza a mesma regra é:
Selecione uma alternativa

Língua Portuguesa Interpretação de Texto

Instituto Militar de Engenharia (IME) 2020 Médio

Instituto Militar de Engenharia (IME) · Concurso de Admissão ao Curso de Formação e Graduação — Prova de Português e Inglês

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Texto-base:
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.

Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões” aborda os acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados, para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa, gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.

Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS

1 Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes – e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais – guerreiros de cujas mãos
5 caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista – se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território – orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias –, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
10 aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
15 também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
20 em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
25 afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
30 outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
35 Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
40 invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
– e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. A
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
45 Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
50 um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
55 de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
60 pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; – enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
65 As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
70 A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
75 um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2ª ed. São Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186.

Texto 2
ESTADOS DE VIOLÊNCIA

1 A guerra, na longa história dos homens, terá tido seus atores e suas cenas, seus heróis e
seus espaços, seus personagens e seus teatros. Diversidade incrível das fardas, dos costumes,
enfeites, armaduras, equipamentos. Multiplicidade dos terrenos: barro espesso ou poeira
asfixiante, brejos viscosos, desfiladeiros rochosos, prados gordurentos ou planícies sombrias,
5 colinas acidentadas, montanhas dentadas, muros grossos das cidades fortificadas, portões e
fossos profundos. Sem mesmo falar das táticas de combate, da evolução técnica das armas.
Mas o que malgrado tudo ficaria e basearia a distinção entre guerras maiores e menores, grandes
e pequenas, verdadeiras e degradadas, era essa forma pura de dois exércitos engajando forças
representando entidades políticas identificáveis, afrontando-se em batalhas decisivas, terrestres
10 ou marítimas, que os colocavam em contato com seu princípio de encerramento: vitória ou
derrota. É ainda possível essa forma pura de guerra, depois que as grandes e principais
potências dispõem da arma absoluta (o fogo nuclear), depois ainda que um só possui uma
superioridade arrasadora das forças clássicas de destruição, tecnologias de reconhecimento,
técnicas de fundição de precisão, depois enfim que as democracias desenvolveram uma cultura
15 de negociação, de arbitragem em que o recurso à força nua é dado como inadequado, selvagem,
contraproducente? Imagina-se que no futuro ainda grandes potências mobilizem o conjunto de
suas forças vivas para se medirem?
Na trama visível, dilacerada das grandes guerras contemporâneas, reconhecem-se apenas
a paisagem cultural da guerra, as nervuras de sua representação dominante. Não se veem mais,
20 e tanto melhor, colunas de soldados em centenas de milhares chegando ao futuro campo de
batalha, dispondo-se em ordem para a batalha decisiva. Não se espera mais com um entusiasmo
ansioso a sanção das armas: duração da batalha, data da vitória ou da derrota (...) Os estados
de violência fazem aparecer uma multiplicidade de figuras novas: o terrorista, o chefe de facções,
o mercenário, o soldado profissional, o engenheiro de informática, o responsável da segurança
25 etc. Não exército disciplinado, mas redes dispersas, concorrentes, profissionais da violência.
Mudanças ainda no nível do teatro dos conflitos. Para a guerra: uma planície, espaços largos, às
vezes colinas ou rios, em todo caso campanhas (para não levar em conta aqui guerras de cerco).
E depois vem o espetáculo desolador após a batalha: os inimigos como que abraçados na morte,
corpos juncando o solo, fardas rasgadas, manchas de sangue. Um grande silêncio depois de
30 tantos gritos e de vaias. O novo teatro é hoje a cidade. Não a cidade fortificada, em torno da qual
se entrincheira, mas a cidade viva dos transeuntes. A dos espaços públicos: mercados,
garagens, terraços de café, metrôs... A das ruas que francos atiradores isolados transformam em
teatro de feira para divertimentos atrozes (...)
Tempos e espaços, personagens e cadáveres. Aqui se trata apenas do regime de imagens
35 de violência armada que se acha transformado. A aposta filosófica seria dizer que acontece outra
coisa, e não a guerra, que se poderia chamar provisoriamente de “estados de violência”, porque
eles se oporiam ao que os clássicos tinham definido como “estado de guerra” e também como
“estado de natureza” (...)
Diante da inquietante extravagância desses conflitos dificilmente identificáveis ou
40 codificáveis nos quadros da análise estratégica clássica, ouve-se mesmo: o pior estaria por vir.
É preciso dizer que a polemologia (estudo da guerra) não reconhece mais seus filhos: nem seus
chefes responsáveis, nem seus soldados dóceis, nem seus heróis esplêndidos, nem seus mortos
no campo de honra. Chega-se mesmo a se queixar. Neste ponto, contudo, a nostalgia é
dificilmente suportável. Sobretudo para lastimar guerras que às vezes nem mesmo foram vividas
45 pessoalmente. Estas boas velhas guerras, com bons velhos inimigos, fomentadas por Estados,
alegando “razões”, deve-se recordar que foram também o instrumento das mais baixas
ambições, das mais loucas pretensões, dos mais sórdidos cálculos? Que elas acarretaram sem
falhar o sacrifício de milhões de homens que não pediam senão para viver, que elas esgotaram
precocemente civilizações desenvolvidas, conduziram culturas prestigiosas ao suicídio?
50 Resta, além de um pensamento nostálgico, compreender o que causa os estados atuais
de violência. Então, antes que falar da “nova guerra”, de “guerra selvagem”, “guerra sem a
guerra”, de “guerra sem fim”, de “guerra assimétrica”, de “guerra civil generalizada”, de “guerra
ruiva”, é preciso elucidar, em lugar do jogo antigo da guerra e da paz, as estruturações destes
estados de violência (...) Como a filosofia clássica tinha conceituado o estado de guerra e de
55 natureza, seria preciso esboçar a análise filosófica dos estados de violência, como distribuição
contemporânea das forças de destruição.

GROS, Frédéric. Estados de violência: ensaio sobre o fim da guerra. Tradução de José Augusto da Silva. Aparecida, SP: Editora Ideias & Letras, 2009. p. 227-232 (texto adaptado).

Considere as assertivas a seguir:
I. O Texto 1 estabelece uma relação entre a tática de combate e a caatinga que era ignorada pelos estudos clássicos da guerra.
II. No Texto 1, o narrador demonstra uma admiração pelo jagunço devido à sua astúcia e adaptabilidade no combate.
III. O Texto 2 afirma que a violência armada atual não pode ser considerada como guerra.
IV. No Texto 1 e 2, manifesta-se um ponto de vista de repúdio aos conflitos armados.

está(ão) correta(s) a(s) assertiva(s):
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

I, II e III estão corretas; IV é falsa.

I: o Texto 1 afirma que a caatinga tem função tática que os doutores da guerra ignoram. II: o narrador exalta o jagunço como guerrilheiro intangível e protegido pela natureza. III: o Texto 2 diz que acontece outra coisa, e não a guerra.

Análise das alternativas

IV está errada: o Texto 2 critica a nostalgia das velhas guerras, mas não manifesta repúdio genérico aos conflitos, e o Texto 1 exalta a resistência do sertanejo, não repudia o conflito em si.

Referência: Interpretação comparada dos Textos 1 e 2.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Tipologia Textual

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Instituto Militar de Engenharia (IME) · Concurso de Admissão ao Curso de Formação e Graduação — Prova de Português e Inglês

Gabarito disponível

Texto-base:
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.

Publicada em 1902, a partir de um trabalho de correspondente de guerra encomendado pelo jornal “A Província de São Paulo” ao engenheiro militar Euclides da Cunha, oriundo da Escola Militar da Praia Vermelha (atualmente, Instituto Militar de Engenharia), a obra “Os Sertões” aborda os acontecimentos da chamada guerra de Canudos, que foi o confronto entre um movimento popular messiânico e o Exército Nacional, de 1896 a 1897, no interior do estado da Bahia. Uma leitura obrigatória para a compreensão da sociedade e da cultura brasileira, a obra reflete a descoberta pelo autor de um “Brasil profundo”, desconhecido pela elite intelectual e política do litoral, e se tornou obra canônica de expressão dos problemas e temas da nacionalidade. Em tom erudito, “Os Sertões” se caracteriza pelo encontro do estilo com os conceitos científicos, que são estetizados e transfigurados, para estabelecer um novo plano de realidade humana, por meio de uma escrita tortuosa, gramaticalmente rebuscada, marcada pela rica adjetivação e reinvenção lexical.

Texto 1
CAPÍTULO 3
A GUERRA DAS CAATINGAS

1 Os doutores na arte de matar que hoje, na Europa, invadem escandalosamente a ciência,
perturbando-lhe o remanso com um retinir de esporas insolentes – e formulam leis para a guerra,
pondo em equação as batalhas, têm definido bem o papel das florestas como agente tático
precioso, de ofensiva ou defensiva. E ririam os sábios feldmarechais – guerreiros de cujas mãos
5 caiu o franquisque heroico trocado pelo lápis calculista – se ouvissem a alguém que às caatingas
pobres cabe função mais definida e grave que às grandes matas virgens. Porque estas, malgrado
a sua importância para a defesa do território – orlando as fronteiras e quebrando o embate às
invasões, impedindo mobilizações rápidas e impossibilitando a translação das artilharias –, se
tornam de algum modo neutras no curso das campanhas. Podem favorecer, indiferentemente,
10 aos dois beligerantes oferecendo a ambos a mesma penumbra às emboscadas, dificultando-lhes
por igual as manobras ou todos os desdobramentos em que a estratégia desencadeia os
exércitos. São uma variável nas fórmulas do problema tenebroso da guerra, capaz dos mais
opostos valores.
Ao passo que as caatingas são um aliado incorruptível do sertanejo em revolta. Entram
15 também de certo modo na luta. Armam-se para o combate; agridem. Trançam-se, impenetráveis,
ante o forasteiro, mas abrem-se em trilhas multívias, para o matuto que ali nasceu e cresceu.
E o jagunço faz-se o guerrilheiro-tugue, intangível...
As caatingas não o escondem apenas, amparam-no.
Ao avistá-las, no verão, uma coluna em marcha não se surpreende. Segue pelos caminhos
20 em torcicolos, aforradamente. E os soldados, devassando com as vistas o matagal sem folhas,
nem pensam no inimigo. Reagindo à canícula e com o desalinho natural às marchas,
prosseguem envoltos no vozear confuso das conversas travadas em toda a linha, virguladas de
tinidos de armas, cindidas de risos joviais mal sofreados.
É que nada pode assustá-los. Certo, se os adversários imprudentes com eles se
25 afrontarem, serão varridos em momentos. Aqueles esgalhos far-se-ão em estilhas a um breve
choque de espadas e não é crível que os gravetos finos quebrem o arranco das manobras
prontas. E lá se vão, marchando, tranquilamente heroicos...
De repente, pelos seus flancos, estoura, perto, um tiro...
A bala passa, rechinante, ou estende, morto, em terra, um homem. Sucedem-se, pausadas,
30 outras, passando sobre as tropas, em sibilos longos. Cem, duzentos olhos, mil olhos
perscrutadores, volvem-se, impacientes, em roda. Nada veem.
Há a primeira surpresa. Um fluxo de espanto corre de uma a outra ponta das fileiras.
E os tiros continuam raros, mas insistentes e compassados, pela esquerda, pela direita,
pela frente agora, irrompendo de toda a banda...
35 Então estranha ansiedade invade os mais provados valentes, ante o antagonista que vê e
não é visto. Forma-se celeremente em atiradores uma companhia, mal destacada da massa de
batalhões constritos na vereda estreita. Distende-se pela orla da caatinga. Ouve-se uma voz de
comando; e um turbilhão de balas rola estrugidoramente dentro das galhadas...
Mas constantes, longamente intervalados sempre, zunem os projéteis dos atiradores
40 invisíveis batendo em cheio nas fileiras.
A situação rapidamente engravesce, exigindo resoluções enérgicas. Destacam-se outras
unidades combatentes, escalonando-se por toda a extensão do caminho, prontas à primeira voz;
– e o comandante resolve carregar contra o desconhecido. Carrega-se contra os duendes. A
força, de baionetas caladas, rompe, impetuosa, o matagal numa expansão irradiante de cargas.
45 Avança com rapidez. Os adversários parecem recuar apenas. Nesse momento surge o
antagonismo formidável da caatinga.
As seções precipitam-se para os pontos onde estalam os estampidos e estacam ante uma
barreira flexível, mas impenetrável, de juremas. Enredam-se no cipoal que as agrilhoa, que lhes
arrebata das mãos as armas, e não vingam transpô-lo. Contornam-no. Volvem aos lados. Vê-se
50 um como rastilho de queimada: uma linha de baionetas enfiando pelos gravetos secos. Lampeja
por momentos entre os raios do sol joeirados pelas árvores sem folhas; e parte-se, faiscando,
adiante, dispersa, batendo contra espessos renques de xiquexiques, unidos como quadrados
cheios, de falanges, intransponíveis, fervilhando espinhos...
Circuitam-nos, estonteadamente, os soldados. Espalham-se, correm à toa, num labirinto
55 de galhos. Caem, presos pelos laços corredios dos quipás reptantes; ou estacam, pernas
imobilizadas por fortíssimos tentáculos. Debatem-se desesperadamente até deixarem em
pedaços as fardas, entre as garras felinas de acúleos recurvos das macambiras...
Impotentes estadeiam, imprecando, o desapontamento e a raiva, agitando-se furiosos e
inúteis. Por fim a ordem dispersa do combate faz-se a dispersão do tumulto. Atiram a esmo, sem
60 pontaria, numa indisciplina de fogo que vitima os próprios companheiros. Seguem reforços. Os
mesmos transes reproduzem-se maiores, acrescidas a confusão e a desordem; – enquanto em
torno, circulando-os, rítmicos, fulminantes, seguros, terríveis, bem apontados, caem
inflexivelmente os projetis do adversário.
De repente cessam. Desaparece o inimigo que ninguém viu.
65 As seções voltam desfalcadas para a coluna, depois de inúteis pesquisas nas macegas. E
voltam como se saíssem de recontro braço a braço, com selvagens: vestes em tiras; armas
estrondadas ou perdidas; golpeados de gilvazes; claudicando, estropiados; mal reprimindo o
doer infernal das folhas urticantes; frechados de espinhos...
(...)
70 A luta é desigual. A força militar decai a um plano inferior. Batem-na o homem e a terra. E
quando o sertão estua nos bochornos dos estios longos não é difícil prever a quem cabe a vitória.
Enquanto o minotauro, impotente e possante, inerme com a sua envergadura de aço e grifos de
baionetas, sente a garganta exsicar-se-lhe de sede e, aos primeiros sintomas da fome, reflui à
retaguarda, fugindo ante o deserto ameaçador e estéril, aquela flora agressiva abre ao sertanejo
75 um seio carinhoso e amigo.
(...)
A natureza toda protege o sertanejo. Talha-o como Anteu, indomável. É um titã bronzeado
fazendo vacilar a marcha dos exércitos.

CUNHA, Euclides da. Os Sertões (Campanha de Canudos). 2ª ed. São Paulo: Editora Ciranda Cultural, 2018. p. 181-186.

Texto 2
ESTADOS DE VIOLÊNCIA

1 A guerra, na longa história dos homens, terá tido seus atores e suas cenas, seus heróis e
seus espaços, seus personagens e seus teatros. Diversidade incrível das fardas, dos costumes,
enfeites, armaduras, equipamentos. Multiplicidade dos terrenos: barro espesso ou poeira
asfixiante, brejos viscosos, desfiladeiros rochosos, prados gordurentos ou planícies sombrias,
5 colinas acidentadas, montanhas dentadas, muros grossos das cidades fortificadas, portões e
fossos profundos. Sem mesmo falar das táticas de combate, da evolução técnica das armas.
Mas o que malgrado tudo ficaria e basearia a distinção entre guerras maiores e menores, grandes
e pequenas, verdadeiras e degradadas, era essa forma pura de dois exércitos engajando forças
representando entidades políticas identificáveis, afrontando-se em batalhas decisivas, terrestres
10 ou marítimas, que os colocavam em contato com seu princípio de encerramento: vitória ou
derrota. É ainda possível essa forma pura de guerra, depois que as grandes e principais
potências dispõem da arma absoluta (o fogo nuclear), depois ainda que um só possui uma
superioridade arrasadora das forças clássicas de destruição, tecnologias de reconhecimento,
técnicas de fundição de precisão, depois enfim que as democracias desenvolveram uma cultura
15 de negociação, de arbitragem em que o recurso à força nua é dado como inadequado, selvagem,
contraproducente? Imagina-se que no futuro ainda grandes potências mobilizem o conjunto de
suas forças vivas para se medirem?
Na trama visível, dilacerada das grandes guerras contemporâneas, reconhecem-se apenas
a paisagem cultural da guerra, as nervuras de sua representação dominante. Não se veem mais,
20 e tanto melhor, colunas de soldados em centenas de milhares chegando ao futuro campo de
batalha, dispondo-se em ordem para a batalha decisiva. Não se espera mais com um entusiasmo
ansioso a sanção das armas: duração da batalha, data da vitória ou da derrota (...) Os estados
de violência fazem aparecer uma multiplicidade de figuras novas: o terrorista, o chefe de facções,
o mercenário, o soldado profissional, o engenheiro de informática, o responsável da segurança
25 etc. Não exército disciplinado, mas redes dispersas, concorrentes, profissionais da violência.
Mudanças ainda no nível do teatro dos conflitos. Para a guerra: uma planície, espaços largos, às
vezes colinas ou rios, em todo caso campanhas (para não levar em conta aqui guerras de cerco).
E depois vem o espetáculo desolador após a batalha: os inimigos como que abraçados na morte,
corpos juncando o solo, fardas rasgadas, manchas de sangue. Um grande silêncio depois de
30 tantos gritos e de vaias. O novo teatro é hoje a cidade. Não a cidade fortificada, em torno da qual
se entrincheira, mas a cidade viva dos transeuntes. A dos espaços públicos: mercados,
garagens, terraços de café, metrôs... A das ruas que francos atiradores isolados transformam em
teatro de feira para divertimentos atrozes (...)
Tempos e espaços, personagens e cadáveres. Aqui se trata apenas do regime de imagens
35 de violência armada que se acha transformado. A aposta filosófica seria dizer que acontece outra
coisa, e não a guerra, que se poderia chamar provisoriamente de “estados de violência”, porque
eles se oporiam ao que os clássicos tinham definido como “estado de guerra” e também como
“estado de natureza” (...)
Diante da inquietante extravagância desses conflitos dificilmente identificáveis ou
40 codificáveis nos quadros da análise estratégica clássica, ouve-se mesmo: o pior estaria por vir.
É preciso dizer que a polemologia (estudo da guerra) não reconhece mais seus filhos: nem seus
chefes responsáveis, nem seus soldados dóceis, nem seus heróis esplêndidos, nem seus mortos
no campo de honra. Chega-se mesmo a se queixar. Neste ponto, contudo, a nostalgia é
dificilmente suportável. Sobretudo para lastimar guerras que às vezes nem mesmo foram vividas
45 pessoalmente. Estas boas velhas guerras, com bons velhos inimigos, fomentadas por Estados,
alegando “razões”, deve-se recordar que foram também o instrumento das mais baixas
ambições, das mais loucas pretensões, dos mais sórdidos cálculos? Que elas acarretaram sem
falhar o sacrifício de milhões de homens que não pediam senão para viver, que elas esgotaram
precocemente civilizações desenvolvidas, conduziram culturas prestigiosas ao suicídio?
50 Resta, além de um pensamento nostálgico, compreender o que causa os estados atuais
de violência. Então, antes que falar da “nova guerra”, de “guerra selvagem”, “guerra sem a
guerra”, de “guerra sem fim”, de “guerra assimétrica”, de “guerra civil generalizada”, de “guerra
ruiva”, é preciso elucidar, em lugar do jogo antigo da guerra e da paz, as estruturações destes
estados de violência (...) Como a filosofia clássica tinha conceituado o estado de guerra e de
55 natureza, seria preciso esboçar a análise filosófica dos estados de violência, como distribuição
contemporânea das forças de destruição.

GROS, Frédéric. Estados de violência: ensaio sobre o fim da guerra. Tradução de José Augusto da Silva. Aparecida, SP: Editora Ideias & Letras, 2009. p. 227-232 (texto adaptado).

Comparando os Textos 1 e 2 em relação aos tipos textuais, é correto afirmar que
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Texto 1 narra; Texto 2 argumenta de modo opinativo.

O Texto 1 narra a emboscada na caatinga, com verbos no presente narrativo. O Texto 2 defende a tese de que o que vemos hoje são 'estados de violência' e não a guerra clássica, o que é argumentativo-opinativo.

Análise das alternativas

A: o Texto 1 é narrativo-descritivo, e o Texto 2 não é diálogo. C: o Texto 2 não é injuntivo. D: o Texto 1 não é injuntivo. E: o Texto 1 não é dissertativo, e o Texto 2 é predominantemente argumentativo, não descritivo.

Referência: Tipologia textual.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Coesão Textual — Conectivos

Instituto Militar de Engenharia (IME) 2020 Médio

Instituto Militar de Engenharia (IME) · Concurso de Admissão ao Curso de Formação e Graduação — Prova de Português e Inglês

Gabarito disponível

Texto-base:
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.

Texto 2
ESTADOS DE VIOLÊNCIA

1 A guerra, na longa história dos homens, terá tido seus atores e suas cenas, seus heróis e
seus espaços, seus personagens e seus teatros. Diversidade incrível das fardas, dos costumes,
enfeites, armaduras, equipamentos. Multiplicidade dos terrenos: barro espesso ou poeira
asfixiante, brejos viscosos, desfiladeiros rochosos, prados gordurentos ou planícies sombrias,
5 colinas acidentadas, montanhas dentadas, muros grossos das cidades fortificadas, portões e
fossos profundos. Sem mesmo falar das táticas de combate, da evolução técnica das armas.
Mas o que malgrado tudo ficaria e basearia a distinção entre guerras maiores e menores, grandes
e pequenas, verdadeiras e degradadas, era essa forma pura de dois exércitos engajando forças
representando entidades políticas identificáveis, afrontando-se em batalhas decisivas, terrestres
10 ou marítimas, que os colocavam em contato com seu princípio de encerramento: vitória ou
derrota. É ainda possível essa forma pura de guerra, depois que as grandes e principais
potências dispõem da arma absoluta (o fogo nuclear), depois ainda que um só possui uma
superioridade arrasadora das forças clássicas de destruição, tecnologias de reconhecimento,
técnicas de fundição de precisão, depois enfim que as democracias desenvolveram uma cultura
15 de negociação, de arbitragem em que o recurso à força nua é dado como inadequado, selvagem,
contraproducente? Imagina-se que no futuro ainda grandes potências mobilizem o conjunto de
suas forças vivas para se medirem?
Na trama visível, dilacerada das grandes guerras contemporâneas, reconhecem-se apenas
a paisagem cultural da guerra, as nervuras de sua representação dominante. Não se veem mais,
20 e tanto melhor, colunas de soldados em centenas de milhares chegando ao futuro campo de
batalha, dispondo-se em ordem para a batalha decisiva. Não se espera mais com um entusiasmo
ansioso a sanção das armas: duração da batalha, data da vitória ou da derrota (...) Os estados
de violência fazem aparecer uma multiplicidade de figuras novas: o terrorista, o chefe de facções,
o mercenário, o soldado profissional, o engenheiro de informática, o responsável da segurança
25 etc. Não exército disciplinado, mas redes dispersas, concorrentes, profissionais da violência.
Mudanças ainda no nível do teatro dos conflitos. Para a guerra: uma planície, espaços largos, às
vezes colinas ou rios, em todo caso campanhas (para não levar em conta aqui guerras de cerco).
E depois vem o espetáculo desolador após a batalha: os inimigos como que abraçados na morte,
corpos juncando o solo, fardas rasgadas, manchas de sangue. Um grande silêncio depois de
30 tantos gritos e de vaias. O novo teatro é hoje a cidade. Não a cidade fortificada, em torno da qual
se entrincheira, mas a cidade viva dos transeuntes. A dos espaços públicos: mercados,
garagens, terraços de café, metrôs... A das ruas que francos atiradores isolados transformam em
teatro de feira para divertimentos atrozes (...)
Tempos e espaços, personagens e cadáveres. Aqui se trata apenas do regime de imagens
35 de violência armada que se acha transformado. A aposta filosófica seria dizer que acontece outra
coisa, e não a guerra, que se poderia chamar provisoriamente de “estados de violência”, porque
eles se oporiam ao que os clássicos tinham definido como “estado de guerra” e também como
“estado de natureza” (...)
Diante da inquietante extravagância desses conflitos dificilmente identificáveis ou
40 codificáveis nos quadros da análise estratégica clássica, ouve-se mesmo: o pior estaria por vir.
É preciso dizer que a polemologia (estudo da guerra) não reconhece mais seus filhos: nem seus
chefes responsáveis, nem seus soldados dóceis, nem seus heróis esplêndidos, nem seus mortos
no campo de honra. Chega-se mesmo a se queixar. Neste ponto, contudo, a nostalgia é
dificilmente suportável. Sobretudo para lastimar guerras que às vezes nem mesmo foram vividas
45 pessoalmente. Estas boas velhas guerras, com bons velhos inimigos, fomentadas por Estados,
alegando “razões”, deve-se recordar que foram também o instrumento das mais baixas
ambições, das mais loucas pretensões, dos mais sórdidos cálculos? Que elas acarretaram sem
falhar o sacrifício de milhões de homens que não pediam senão para viver, que elas esgotaram
precocemente civilizações desenvolvidas, conduziram culturas prestigiosas ao suicídio?
50 Resta, além de um pensamento nostálgico, compreender o que causa os estados atuais
de violência. Então, antes que falar da “nova guerra”, de “guerra selvagem”, “guerra sem a
guerra”, de “guerra sem fim”, de “guerra assimétrica”, de “guerra civil generalizada”, de “guerra
ruiva”, é preciso elucidar, em lugar do jogo antigo da guerra e da paz, as estruturações destes
estados de violência (...) Como a filosofia clássica tinha conceituado o estado de guerra e de
55 natureza, seria preciso esboçar a análise filosófica dos estados de violência, como distribuição
contemporânea das forças de destruição.

GROS, Frédéric. Estados de violência: ensaio sobre o fim da guerra. Tradução de José Augusto da Silva. Aparecida, SP: Editora Ideias & Letras, 2009. p. 227-232 (texto adaptado).

Trecho: “Resta, além de um pensamento nostálgico, compreender o que causa os estados atuais de violência. Então antes que falar da “nova guerra”, de “guerra selvagem”, de “guerra sem a guerra”, de “guerra sem fim”, de “guerra assimétrica”, de “guerra civil generalizada”, de “guerra ruiva”, é preciso elucidar, em lugar do jogo antigo da guerra e da paz, as estruturações destes estados de violência (...) Como a filosofia clássica tinha conceituado o estado de guerra e de natureza, seria preciso esboçar a análise filosófica dos estados de violência, como distribuição contemporânea das forças de destruição” (Texto 2, linhas 50 a 56). Em negrito: “Então”, “em lugar do” e “Como” (o primeiro “Como”, no início do período).

As expressões que podem substituir os termos destacados em negrito no trecho acima, sem que o sentido do texto seja alterado, são respectivamente:
Selecione uma alternativa

Língua Portuguesa Interpretação de Texto

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Texto 2
ESTADOS DE VIOLÊNCIA

1 A guerra, na longa história dos homens, terá tido seus atores e suas cenas, seus heróis e
seus espaços, seus personagens e seus teatros. Diversidade incrível das fardas, dos costumes,
enfeites, armaduras, equipamentos. Multiplicidade dos terrenos: barro espesso ou poeira
asfixiante, brejos viscosos, desfiladeiros rochosos, prados gordurentos ou planícies sombrias,
5 colinas acidentadas, montanhas dentadas, muros grossos das cidades fortificadas, portões e
fossos profundos. Sem mesmo falar das táticas de combate, da evolução técnica das armas.
Mas o que malgrado tudo ficaria e basearia a distinção entre guerras maiores e menores, grandes
e pequenas, verdadeiras e degradadas, era essa forma pura de dois exércitos engajando forças
representando entidades políticas identificáveis, afrontando-se em batalhas decisivas, terrestres
10 ou marítimas, que os colocavam em contato com seu princípio de encerramento: vitória ou
derrota. É ainda possível essa forma pura de guerra, depois que as grandes e principais
potências dispõem da arma absoluta (o fogo nuclear), depois ainda que um só possui uma
superioridade arrasadora das forças clássicas de destruição, tecnologias de reconhecimento,
técnicas de fundição de precisão, depois enfim que as democracias desenvolveram uma cultura
15 de negociação, de arbitragem em que o recurso à força nua é dado como inadequado, selvagem,
contraproducente? Imagina-se que no futuro ainda grandes potências mobilizem o conjunto de
suas forças vivas para se medirem?
Na trama visível, dilacerada das grandes guerras contemporâneas, reconhecem-se apenas
a paisagem cultural da guerra, as nervuras de sua representação dominante. Não se veem mais,
20 e tanto melhor, colunas de soldados em centenas de milhares chegando ao futuro campo de
batalha, dispondo-se em ordem para a batalha decisiva. Não se espera mais com um entusiasmo
ansioso a sanção das armas: duração da batalha, data da vitória ou da derrota (...) Os estados
de violência fazem aparecer uma multiplicidade de figuras novas: o terrorista, o chefe de facções,
o mercenário, o soldado profissional, o engenheiro de informática, o responsável da segurança
25 etc. Não exército disciplinado, mas redes dispersas, concorrentes, profissionais da violência.
Mudanças ainda no nível do teatro dos conflitos. Para a guerra: uma planície, espaços largos, às
vezes colinas ou rios, em todo caso campanhas (para não levar em conta aqui guerras de cerco).
E depois vem o espetáculo desolador após a batalha: os inimigos como que abraçados na morte,
corpos juncando o solo, fardas rasgadas, manchas de sangue. Um grande silêncio depois de
30 tantos gritos e de vaias. O novo teatro é hoje a cidade. Não a cidade fortificada, em torno da qual
se entrincheira, mas a cidade viva dos transeuntes. A dos espaços públicos: mercados,
garagens, terraços de café, metrôs... A das ruas que francos atiradores isolados transformam em
teatro de feira para divertimentos atrozes (...)
Tempos e espaços, personagens e cadáveres. Aqui se trata apenas do regime de imagens
35 de violência armada que se acha transformado. A aposta filosófica seria dizer que acontece outra
coisa, e não a guerra, que se poderia chamar provisoriamente de “estados de violência”, porque
eles se oporiam ao que os clássicos tinham definido como “estado de guerra” e também como
“estado de natureza” (...)
Diante da inquietante extravagância desses conflitos dificilmente identificáveis ou
40 codificáveis nos quadros da análise estratégica clássica, ouve-se mesmo: o pior estaria por vir.
É preciso dizer que a polemologia (estudo da guerra) não reconhece mais seus filhos: nem seus
chefes responsáveis, nem seus soldados dóceis, nem seus heróis esplêndidos, nem seus mortos
no campo de honra. Chega-se mesmo a se queixar. Neste ponto, contudo, a nostalgia é
dificilmente suportável. Sobretudo para lastimar guerras que às vezes nem mesmo foram vividas
45 pessoalmente. Estas boas velhas guerras, com bons velhos inimigos, fomentadas por Estados,
alegando “razões”, deve-se recordar que foram também o instrumento das mais baixas
ambições, das mais loucas pretensões, dos mais sórdidos cálculos? Que elas acarretaram sem
falhar o sacrifício de milhões de homens que não pediam senão para viver, que elas esgotaram
precocemente civilizações desenvolvidas, conduziram culturas prestigiosas ao suicídio?
50 Resta, além de um pensamento nostálgico, compreender o que causa os estados atuais
de violência. Então, antes que falar da “nova guerra”, de “guerra selvagem”, “guerra sem a
guerra”, de “guerra sem fim”, de “guerra assimétrica”, de “guerra civil generalizada”, de “guerra
ruiva”, é preciso elucidar, em lugar do jogo antigo da guerra e da paz, as estruturações destes
estados de violência (...) Como a filosofia clássica tinha conceituado o estado de guerra e de
55 natureza, seria preciso esboçar a análise filosófica dos estados de violência, como distribuição
contemporânea das forças de destruição.

GROS, Frédéric. Estados de violência: ensaio sobre o fim da guerra. Tradução de José Augusto da Silva. Aparecida, SP: Editora Ideias & Letras, 2009. p. 227-232 (texto adaptado).

Considere o trecho do Texto 2 e as assertivas a seguir:
“(...) Mas o que malgrado tudo ficaria e basearia a distinção entre guerras maiores e menores, grandes e pequenas, verdadeiras e degradadas, era essa forma pura de dois exércitos engajando forças representando entidades políticas identificáveis, afrontando-se em batalhas decisivas, terrestres ou marítimas, que os colocavam em contato com seu princípio de encerramento: vitória ou derrota” (linha 07 a 11).
I. O aspecto fundamental da guerra seria a manifestação dos chamados “estados de violência”, envolvendo a população civil e os militares na forma de uma guerra total.
II. Apesar da grande diversidade de conflitos armados, o que poderia definir a guerra seria o embate entre instâncias políticas reconhecíveis, para além das ideologias e ódios entre os indivíduos.
III. A dimensão universal da guerra era ligada ao fato de ser travada para ganhar ou perder, em um enfrentamento militar considerado decisivo.

está(ão) correta(s) a(s) assertiva(s):
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

A guerra clássica se define pelo embate entre entidades políticas e pela vitória ou derrota.

O trecho afirma que a distinção entre guerras se baseava na forma pura de dois exércitos, representando entidades políticas identificáveis, em batalhas decisivas que terminavam em vitória ou derrota. Isso sustenta II e III.

Análise das alternativas

I está errada: os 'estados de violência' são justamente o que se opõe à guerra clássica, e o trecho não trata de guerra total envolvendo civis.

Referência: Texto 2, linhas 7 a 11.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Língua Portuguesa Operadores Argumentativos

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Texto-base:
APÓS A LEITURA DOS TEXTOS A SEGUIR APRESENTADOS, RESPONDA ÀS QUESTÕES PROPOSTAS.

Texto 2
ESTADOS DE VIOLÊNCIA

1 A guerra, na longa história dos homens, terá tido seus atores e suas cenas, seus heróis e
seus espaços, seus personagens e seus teatros. Diversidade incrível das fardas, dos costumes,
enfeites, armaduras, equipamentos. Multiplicidade dos terrenos: barro espesso ou poeira
asfixiante, brejos viscosos, desfiladeiros rochosos, prados gordurentos ou planícies sombrias,
5 colinas acidentadas, montanhas dentadas, muros grossos das cidades fortificadas, portões e
fossos profundos. Sem mesmo falar das táticas de combate, da evolução técnica das armas.
Mas o que malgrado tudo ficaria e basearia a distinção entre guerras maiores e menores, grandes
e pequenas, verdadeiras e degradadas, era essa forma pura de dois exércitos engajando forças
representando entidades políticas identificáveis, afrontando-se em batalhas decisivas, terrestres
10 ou marítimas, que os colocavam em contato com seu princípio de encerramento: vitória ou
derrota. É ainda possível essa forma pura de guerra, depois que as grandes e principais
potências dispõem da arma absoluta (o fogo nuclear), depois ainda que um só possui uma
superioridade arrasadora das forças clássicas de destruição, tecnologias de reconhecimento,
técnicas de fundição de precisão, depois enfim que as democracias desenvolveram uma cultura
15 de negociação, de arbitragem em que o recurso à força nua é dado como inadequado, selvagem,
contraproducente? Imagina-se que no futuro ainda grandes potências mobilizem o conjunto de
suas forças vivas para se medirem?
Na trama visível, dilacerada das grandes guerras contemporâneas, reconhecem-se apenas
a paisagem cultural da guerra, as nervuras de sua representação dominante. Não se veem mais,
20 e tanto melhor, colunas de soldados em centenas de milhares chegando ao futuro campo de
batalha, dispondo-se em ordem para a batalha decisiva. Não se espera mais com um entusiasmo
ansioso a sanção das armas: duração da batalha, data da vitória ou da derrota (...) Os estados
de violência fazem aparecer uma multiplicidade de figuras novas: o terrorista, o chefe de facções,
o mercenário, o soldado profissional, o engenheiro de informática, o responsável da segurança
25 etc. Não exército disciplinado, mas redes dispersas, concorrentes, profissionais da violência.
Mudanças ainda no nível do teatro dos conflitos. Para a guerra: uma planície, espaços largos, às
vezes colinas ou rios, em todo caso campanhas (para não levar em conta aqui guerras de cerco).
E depois vem o espetáculo desolador após a batalha: os inimigos como que abraçados na morte,
corpos juncando o solo, fardas rasgadas, manchas de sangue. Um grande silêncio depois de
30 tantos gritos e de vaias. O novo teatro é hoje a cidade. Não a cidade fortificada, em torno da qual
se entrincheira, mas a cidade viva dos transeuntes. A dos espaços públicos: mercados,
garagens, terraços de café, metrôs... A das ruas que francos atiradores isolados transformam em
teatro de feira para divertimentos atrozes (...)
Tempos e espaços, personagens e cadáveres. Aqui se trata apenas do regime de imagens
35 de violência armada que se acha transformado. A aposta filosófica seria dizer que acontece outra
coisa, e não a guerra, que se poderia chamar provisoriamente de “estados de violência”, porque
eles se oporiam ao que os clássicos tinham definido como “estado de guerra” e também como
“estado de natureza” (...)
Diante da inquietante extravagância desses conflitos dificilmente identificáveis ou
40 codificáveis nos quadros da análise estratégica clássica, ouve-se mesmo: o pior estaria por vir.
É preciso dizer que a polemologia (estudo da guerra) não reconhece mais seus filhos: nem seus
chefes responsáveis, nem seus soldados dóceis, nem seus heróis esplêndidos, nem seus mortos
no campo de honra. Chega-se mesmo a se queixar. Neste ponto, contudo, a nostalgia é
dificilmente suportável. Sobretudo para lastimar guerras que às vezes nem mesmo foram vividas
45 pessoalmente. Estas boas velhas guerras, com bons velhos inimigos, fomentadas por Estados,
alegando “razões”, deve-se recordar que foram também o instrumento das mais baixas
ambições, das mais loucas pretensões, dos mais sórdidos cálculos? Que elas acarretaram sem
falhar o sacrifício de milhões de homens que não pediam senão para viver, que elas esgotaram
precocemente civilizações desenvolvidas, conduziram culturas prestigiosas ao suicídio?
50 Resta, além de um pensamento nostálgico, compreender o que causa os estados atuais
de violência. Então, antes que falar da “nova guerra”, de “guerra selvagem”, “guerra sem a
guerra”, de “guerra sem fim”, de “guerra assimétrica”, de “guerra civil generalizada”, de “guerra
ruiva”, é preciso elucidar, em lugar do jogo antigo da guerra e da paz, as estruturações destes
estados de violência (...) Como a filosofia clássica tinha conceituado o estado de guerra e de
55 natureza, seria preciso esboçar a análise filosófica dos estados de violência, como distribuição
contemporânea das forças de destruição.

GROS, Frédéric. Estados de violência: ensaio sobre o fim da guerra. Tradução de José Augusto da Silva. Aparecida, SP: Editora Ideias & Letras, 2009. p. 227-232 (texto adaptado).

Considere os vocábulos do Texto 2 destacados no trecho a seguir:

“Os estados de violência fazem aparecer uma multiplicidade de figuras novas: o terrorista, o chefe de facções, o mercenário, o soldado profissional, o engenheiro de informática, o responsável da segurança etc. Não exército disciplinado, mas redes dispersas, concorrentes, profissionais da violência. Mudanças ainda no nível do teatro dos conflitos. Para a guerra: uma planície, espaços largos, às vezes colinas ou rios, em todo caso campanhas (para não levar em conta aqui guerras de cerco). E depois vem o espetáculo desolador após a batalha: os inimigos como que abraçados na morte, corpos juncando o solo, fardas rasgadas, manchas de sangue. Um grande silêncio depois de tantos gritos e de vaias. O novo teatro é hoje a cidade.” (linhas 22 a 30)

A análise dos elementos em negrito no texto mostra que o operador
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

'Ainda' acrescenta outros aspectos às mudanças dos estados de violência.

Em 'Mudanças ainda no nível do teatro dos conflitos', 'ainda' funciona como operador de adição: além das novas figuras, há mudanças no cenário. Sugere, portanto, outros aspectos ligados aos estados de violência.

Análise das alternativas

A: 'não' nega o exército disciplinado, não o inclui. B: 'mas' opõe o exército disciplinado às redes dispersas. D: 'às vezes' indica ocorrência eventual, não unidade. E: 'hoje' marca contraste temporal com o passado, não semelhança.

Referência: Operadores argumentativos.

Resolução comentada do VaiConcursos.