← Voltar para a lista de provas Colégio Militar de Belo Horizonte · Admissão ao 1º ano do Ensino Médio 25 questões nesta prova · página 2 de 2 · 23 com gabarito Gabarito disponível Qual trecho não constrói tom lírico por meio da escolha lexical. 'Mas o bichinho comeu o salmão e morreu' é uma frase seca e objetiva, com tom narrativo e até irônico, sem recursos poéticos ou harmonia lexical. Os demais usam imagens e linguagem figurada, com tom lírico. A traz sonoridade e ritmo ('visível ou invisível... irresistível'). B usa a metáfora 'lançando fogo pelos olhos'. C usa vocabulário elaborado e figurado ('tributo da natureza feminina'). E usa comparações poéticas ('soneto', 'minueto'). Referência: Semântica – escolha lexical e função poética Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Identificar o uso incorreto do acento grave indicativo de crase. Na alternativa E, 'para às 11h' é incorreto: a preposição 'para' não se funde com o artigo, e antes de palavra masculina ou de expressão de horas depois de 'para' o correto é 'para as 11h'. Por isso há incorreção. A está correta, pois 'à direita' é locução adverbial feminina. B está correta: 'à custa de' é locução prepositiva feminina. C está correta: 'de... a' com 'planejamento à elaboração' pede crase. D é aceita: 'até às 16h' é admitida, pois 'até' pode ou não vir seguida de crase. Referência: Crase – regras gerais e casos especiais Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Relacionar o amor que dura 'a eternidade de um mês' com um texto clássico. O trecho trata o amor passageiro (um mês) como se fosse eterno. Isso dialoga com a ideia de Vieira: se o amor deixa de existir, é sinal de que nunca existiu. O fragmento B é o que melhor se relaciona com essa ideia, de acordo com o gabarito oficial. A define o amor como paradoxo (fogo que arde sem se ver). C trata o amor interesseiro de Marcela, sem a ideia de eternidade. D fala de fidelidade e zelo. E fala da perda do amor, sem tratar de duração. Referência: Paulo Mendes Campos, 'Ser brotinho'; intertextualidade Resolução comentada do VaiConcursos. Sem padrão de resposta — pratique a escrita ATENÇÃO ÀS SEGUINTES ORIENTAÇÕES:CMBH — Concurso de Admissão 2021/2022 — 1º ano do Ensino Médio — Matemática, Língua Portuguesa e Produção Textual (Redação)
Texto-base:
Texto III
Ser brotinho
Ser brotinho não é viver num píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.
Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.
É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar o dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. [...] É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.
Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento certo de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois reais com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.
É telefonar muito, estendida no chão. [...] Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. [...]
Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite [...]. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho engraçado e bacanérrimo.
É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema, mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. [...] É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.
Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão de festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado balé e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gato que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue jeans. Ter horror de gente morta, [...] fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. [...] Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. [...]
Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.
CAMPOS, Paulo Mendes. Ser brotinho. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos (Org.). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 91-3.
Glossário:
brotinho: jovem, especialmente do sexo feminino, no início da adolescência.
píncaro: o grau mais elevado, auge.
timbre: característica acústica de um som da fala.
vã: vazia, sem fundamento.
inflexão: determinada entonação na pronúncia de uma frase.
anacoluto: frase quebrada, sem sequência.
criptográfico: cifrado; oculto.
hermético: difícil de entender e/ou interpretar.
esparso: espalhado, solto.
dissonante: que destoa; desarmônico, discordante.
soneto: pequena composição poética composta de 14 versos.
minueto: dança da aristocracia francesa, leve, graciosa e solene.
Podem-se observar efeitos de sentido construídos por meio de escolha lexical feita pelo autor, que utiliza um tom lírico em algumas passagens, quando escolhe e organiza as palavras de forma harmônica no texto.
Todos os exemplos a seguir comprovam a afirmação acima, EXCETO:Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto-base:
Texto III
Ser brotinho
Ser brotinho não é viver num píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.
Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.
É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar o dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. [...] É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.
Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento certo de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois reais com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.
É telefonar muito, estendida no chão. [...] Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. [...]
Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite [...]. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho engraçado e bacanérrimo.
É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema, mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. [...] É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.
Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão de festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado balé e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gato que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue jeans. Ter horror de gente morta, [...] fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. [...] Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. [...]
Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.
CAMPOS, Paulo Mendes. Ser brotinho. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos (Org.). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 91-3.
Glossário:
brotinho: jovem, especialmente do sexo feminino, no início da adolescência.
píncaro: o grau mais elevado, auge.
timbre: característica acústica de um som da fala.
vã: vazia, sem fundamento.
inflexão: determinada entonação na pronúncia de uma frase.
anacoluto: frase quebrada, sem sequência.
criptográfico: cifrado; oculto.
hermético: difícil de entender e/ou interpretar.
esparso: espalhado, solto.
dissonante: que destoa; desarmônico, discordante.
soneto: pequena composição poética composta de 14 versos.
minueto: dança da aristocracia francesa, leve, graciosa e solene.
Releia o trecho: “É ficar eufórica à vista de uma cascata.” (6º parágrafo, linhas 21-22). No trecho transcrito, o acento grave indicativo de crase foi corretamente empregado. Em qual das alternativas a seguir o uso do acento de crase configura INCORREÇÃO gramatical?Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto-base:
Texto II
Conversa com jovens
Que conselhos dar aos jovens? Ou melhor, se lhe convidassem para fazer uma palestra para a meninada entre doze e dezessete anos a respeito da vida e do nosso tempo, o que você diria? Nelson Rodrigues, que gostava de fazer frases de efeito, dizia que devemos aconselhar ao jovem: “envelheça!” — como se isso fosse uma fórmula salvadora. Não é verdade. Muita gente envelhece e não cresce, cria casca e não amadurece.
Digo isto porque nesses dias fui falar para jovens em São Paulo e Minas. Primeiro, lembrei-me da célebre “Oração aos moços”, proferida por Ruy Barbosa em 1920 aos formandos de Direito. Fui ler o texto do “Águia de Haia”. Quase ilegível hoje. Se espremer sai pouca coisa, além da velha retórica. Lembrei-me também de peças de teatro e romances em que um velho dá conselhos a um jovem que parte para a guerra ou para a vida.
Esses textos não me socorrem. O mundo é outro. Venho do paleolítico, ou seja, do século XX, um período assaz estranho, tanto na história do homo sapiens quanto na do homem ignorante. E constato que o século XXI, em que essas moças e esses moços estão, é bem diferente. No meu tempo pensava-se que a história seguia um rumo determinado. Havia a “guerra fria”, não havia internet nem celular. Como dizia Rubem Braga, sou do tempo em que telefone era preto, e geladeira era branca.
Olho o mundo dos jovens, essa sociedade a que chamam pós-moderna, sociedade pós-industrial, aldeia global. [...] Se pudesse fazer alguns alertas ou deixar algumas sinalizações na estrada, eu diria aos jovens: cuidado com algumas palavras como interatividade, transgressão, relativismo...
Por exemplo:
1. A interatividade é formidável, possibilita intercâmbios, mas há o risco do discurso vazio, troca apenas de ruídos, um blá-blá-blá que bloqueia os fones da consciência.
2. A ideologia dominante abomina a hierarquia. Mas hierarquias podem ser perversas ou construtivas. Não existe sistema sem leis, normas, regras. A pregação da quebra de normas é simplesmente outra norma.
3. Cuidado com o pensamento relativista. As coisas não se equivalem. O carbono tem certas propriedades que não são a do fósforo, todo ser humano tem algo pessoal. O relativismo tenta convencer de que os sujeitos são objetos que podem ser trocados uns pelos outros.
4. Nossa cultura apaixonou-se pela transgressão. Já se transgrediu tanto, que se poderia fazer um “museu da transgressão” Hoje perversamente se diz: “Transgrida.”; desse modo, quem obedece à ordem de transgredir não está transgredindo, mas obedecendo a ordens.
5. Nos globalizaram. Foi ótimo por um lado. Por outro lado, desnorteador. Ganhamos em aproximação com o “outro”, o longínquo ficou próximo. Mas o “outro” virou um invasor de nosso espaço econômico, social e subjetivo. Indivíduos e culturas estão se sentindo, de certo modo, desenraizados, uma universalidade aérea, vazia.
6. A natureza está cobrando dívidas. Gerações anteriores assinaram cheques em branco sobre o futuro, as riquezas pareciam inesgotáveis. A “mãe natureza” não cobrava nada. Não era verdade: vulcões, tsunâmis, secas, degelos e fome nos espreitam.
7. A sociedade atual é uma sociedade “matrix”. Mistura o falso e o verdadeiro, o real e o virtual. Cultiva o “fake”. Pior: toma o lixo por luxo. Com isso, narciso vive num jogo confuso diante do próprio espelho.
Ser jovem nunca foi fácil. E, desde que nos anos 1960 instituiu-se o “poder jovem”, tornou-se mais complexo. Estar no poder exige muita responsabilidade. Rimbaud dizia: “não se é sério aos dezessete anos”. Será?
Cabe a vocês demonstrar se ele tinha ou não razão.
18 de maio de 2010.
SANT’ANNA, Affonso Romano de. Conversa com jovens. In: _____. Como andar no labirinto. Porto Alegre: LP&M, 2012. Coleção LP&M Pocket, v. 1073. p. 75-8. Adaptado.
Glossário:
Nelson Rodrigues: (1912-1980) escritor e jornalista brasileiro.
Ruy Barbosa: (1849-1923) jurista, escritor e orador brasileiro, conhecido como “Águia de Haia”.
assaz: muito, demais.
Rubem Braga: (1913-1990), escritor brasileiro.
transgredir: agir de forma a desrespeitar padrões, leis, regras preestabelecidos.
espreitar: espionar.
“matrix”: referência ao filme de ficção científica “Matrix” (1999), no qual um sistema artificial inteligente manipula a mente das pessoas, criando a ilusão de um mundo real.
“fake”: [Inglês] falso.
Narciso: personagem da mitologia grega que se apaixona pela própria imagem.
Rimbaud: Arthur Rimbaud (1854-1891), poeta francês.
Leia o Texto III e responda às questões de números 18 a 24.
Texto-base:
Texto III
Ser brotinho
Ser brotinho não é viver num píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.
Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.
É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar o dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. [...] É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.
Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento certo de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois reais com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.
É telefonar muito, estendida no chão. [...] Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. [...]
Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite [...]. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho engraçado e bacanérrimo.
É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema, mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. [...] É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.
Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão de festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado balé e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gato que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue jeans. Ter horror de gente morta, [...] fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. [...] Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. [...]
Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.
CAMPOS, Paulo Mendes. Ser brotinho. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos (Org.). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 91-3.
Glossário:
brotinho: jovem, especialmente do sexo feminino, no início da adolescência.
píncaro: o grau mais elevado, auge.
timbre: característica acústica de um som da fala.
vã: vazia, sem fundamento.
inflexão: determinada entonação na pronúncia de uma frase.
anacoluto: frase quebrada, sem sequência.
criptográfico: cifrado; oculto.
hermético: difícil de entender e/ou interpretar.
esparso: espalhado, solto.
dissonante: que destoa; desarmônico, discordante.
soneto: pequena composição poética composta de 14 versos.
minueto: dança da aristocracia francesa, leve, graciosa e solene.
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Nas alternativas a seguir, são transcritos cinco períodos do Texto III. Assinale a alternativa que apresenta a oração em destaque com a mesma classificação morfossintática da oração do Texto II sublinhada acima.
Texto-base:
Texto III
Ser brotinho
Ser brotinho não é viver num píncaro azulado: é muito mais! Ser brotinho é sorrir bastante dos homens e rir interminavelmente das mulheres, rir como se o ridículo, visível ou invisível, provocasse uma tosse de riso irresistível.
Ser brotinho é não usar pintura alguma, às vezes, e ficar de cara lambida, os cabelos desarrumados como se ventasse forte, o corpo todo apagado dentro de um vestido tão de propósito sem graça, mas lançando fogo pelos olhos. Ser brotinho é lançar fogo pelos olhos.
É viver a tarde inteira, em uma atitude esquemática, a contemplar o teto, só para poder contar depois que ficou a tarde inteira olhando para cima, sem pensar em nada. É passar o dia todo descalça no apartamento da amiga comendo comida de lata e cortar o dedo. [...] É também falar legal e bárbaro com um timbre tão por cima das vãs agitações humanas, uma inflexão tão certa de que tudo neste mundo passa depressa e não tem a menor importância.
Ser brotinho é poder usar óculos como se fosse enfeite, como um adjetivo para o rosto e para o espírito. É esvaziar o sentido das coisas que transbordam de sentido, mas é também dar sentido de repente ao vácuo absoluto. É aguardar com paciência e frieza o momento certo de vingar-se da má amiga. É ter a bolsa cheia de pedacinhos de papel, recados que os anacolutos tornam misteriosos, anotações criptográficas sobre o tributo da natureza feminina, uma cédula de dois reais com uma sentença hermética escrita a batom, toda uma biografia esparsa que pode ser atirada de súbito ao vento que passa. Ser brotinho é a inclinação do momento.
É telefonar muito, estendida no chão. [...] Achar muito bonito um homem muito feio; achar tão simpática uma senhora tão antipática. [...]
Ser brotinho é comparar o amigo do pai a um pincel de barba, e a gente vai ver está certo: o amigo do pai parece um pincel de barba. É sentir uma vontade doida de tomar banho de mar de noite [...]. É ficar eufórica à vista de uma cascata. Falar inglês sem saber verbos irregulares. É ter comprado na feira um vestidinho engraçado e bacanérrimo.
É ainda ser brotinho chegar em casa ensopada de chuva, úmida camélia, e dizer para a mãe que veio andando devagar para molhar-se mais. É ter saído um dia com uma rosa vermelha na mão, e todo mundo pensou com piedade que ela era uma louca varrida. É ir sempre ao cinema, mas com um jeito de quem não espera mais nada desta vida. [...] É o dom de falar sobre futebol e política como se o presente fosse passado, e vice-versa.
Ser brotinho é atravessar de ponta a ponta o salão de festa com uma indiferença mortal pelas mulheres presentes e ausentes. Ter estudado balé e desistido, apesar de tantos telefonemas de Madame Saint-Quentin. Ter trazido para casa um gato que miava de fome e ter aberto uma lata de salmão para o coitado. Mas o bichinho comeu o salmão e morreu. É ficar pasmada no escuro da varanda sem contar para ninguém a miserável traição. Amanhecer chorando, anoitecer dançando. É manter o ritmo na melodia dissonante. Usar o mais caro perfume de blusa grossa e blue jeans. Ter horror de gente morta, [...] fantasmas e baratas. Ter compaixão de um só mendigo entre todos os outros mendigos da Terra. Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro de quinta ordem. [...] Tomar uma pose, ora de soneto moderno, ora de minueto, sem que se dissipe a unidade essencial. [...]
Ser brotinho é adorar. Adorar o impossível. Ser brotinho é detestar. Detestar o possível. É acordar ao meio-dia com uma cara horrível, comer somente e lentamente uma fruta meio verde, e ficar de pijama telefonando até a hora do jantar, e não jantar, e ir devorar um sanduíche americano na esquina, tão estranha é a vida sobre a Terra.
CAMPOS, Paulo Mendes. Ser brotinho. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos (Org.). As cem melhores crônicas brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007, p. 91-3.
Glossário:
brotinho: jovem, especialmente do sexo feminino, no início da adolescência.
píncaro: o grau mais elevado, auge.
timbre: característica acústica de um som da fala.
vã: vazia, sem fundamento.
inflexão: determinada entonação na pronúncia de uma frase.
anacoluto: frase quebrada, sem sequência.
criptográfico: cifrado; oculto.
hermético: difícil de entender e/ou interpretar.
esparso: espalhado, solto.
dissonante: que destoa; desarmônico, discordante.
soneto: pequena composição poética composta de 14 versos.
minueto: dança da aristocracia francesa, leve, graciosa e solene.
Releia o trecho: “Permanecer apaixonada a eternidade de um mês por um violinista estrangeiro [...].” (Texto III, 8º parágrafo, linhas 35-36).
Qual dos fragmentos a seguir, retirados de obras clássicas da literatura em Língua Portuguesa, ilustra a ideia que se apresenta no trecho transcrito acima?Resolução comentada
Análise das alternativas
Leia os textos de apoio a seguir (Textos IV a VI), que servirão de ponto de partida para a sua produção textual.
Texto-base:
Texto IV
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Entenda quem são os millennials, a geração que mudou a forma de consumir. Extra, 16 set. 2018. Disponível em: <https://extra.globo.com/economia/entenda-quem-sao-os-millennials-geracao-que-mudou-forma-de-consumir-23070015.html>. Acesso em: 21 ago. 2021.
Texto-base:
Texto V
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PAES, Wash. Pinterest. Disponível em: <https://br.pinterest.com/pin/573786808751352834/>. Acesso em: 23 set. 2021.
Texto-base:
Texto VI
Oceano
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KUCZYNSKIEGO, Pawel. Oceano. Bored Panda. Disponível em: <https://www.boredpanda.com/satirical-illustrations-polish-pawel-kuczynski/?utm_source=google&utm_medium=organic&utm_campaign=organic>. Acesso em: 29 set. 2021.
PROPOSTA DE PRODUÇÃO TEXTUAL: DISSERTAÇÃO ARGUMENTATIVA
Com base nos textos motivadores desta prova e nos conhecimentos adquiridos ao longo de sua formação, redija um texto dissertativo-argumentativo de 15 (quinze) a 30 (trinta) linhas, no qual você discuta A COMUNICAÇÃO ESCRITA DOS JOVENS HOJE.
1. Estruture seu texto em introdução, desenvolvimento e conclusão.
2. Escreva sua dissertação em 3ª pessoa, sem marcas de pessoalidade.
3. Redija seu texto obedecendo à norma-padrão da Língua Portuguesa.
4. Elabore seu texto em prosa com, no mínimo, 15 (quinze) e, no máximo, 30 (trinta) linhas.
5. Dê um título coerente ao texto produzido.
6. Considere a temática desta prova, mas não copie parte(s) dos textos que a compõem.
7. Utilize a folha de rascunho (que não será avaliada) para escrever o seu texto. Somente o rascunho poderá ser escrito a lápis.
8. Transcreva o texto definitivo para a FOLHA PARA PRODUÇÃO TEXTUAL, utilizando caneta esferográfica de tinta azul ou preta.
9. Na FOLHA DE PRODUÇÃO TEXTUAL, não faça marcas, sinais ou quaisquer tipos de rasura que possam identificar você como autor(a).
10. Faça letra legível. Em caso de erro, risque a palavra errada com um traço simples, coloque-a entre parênteses e escreva a forma correta à frente. Ex.: (marjem) margem.
11. Será atribuído o grau 0,0 (zero vírgula zero) à redação que apresentar texto com uma ou mais das seguintes características:
a. fuga total ao tema proposto;
b. modalidade (tipologia) textual diferente da solicitada;
c. cópia de trechos dos textos apresentados nesta prova;
d. ilegível;
e. linguagem e/ou texto incompreensível;
f. em forma de poema ou outra que não em prosa;
g. com marcas de identificação pelo(a) candidato(a);
h. com menos de 15 (quinze) ou mais de 30 (trinta) linhas;
i. não utilização de caneta esferográfica de tinta azul ou preta; e/ou
j. redigido fora das linhas a ele destinadas.
NÃO SE ESQUEÇA DE TRANSCREVER SEU TEXTO PARA A FOLHA DE REDAÇÃO
Leia o Texto III e responda às questões de números 18 a 24.
Leia o Texto III e responda às questões de números 18 a 24.
Leia o Texto II e responda às questões de números 16, 17 e 23.
Leia o Texto III e responda às questões de números 18 a 24.
PRODUÇÃO TEXTUAL (REDAÇÃO)