← Voltar para a lista de provas Instituto Militar de Engenharia (IME) · Concurso de Formação e Graduação 41 questões nesta prova · página 1 de 3 · 40 com gabarito Gabarito disponível As soluções resultaram do aprendizado e da experiência obtida ao superar desafios. O parágrafo diz que o mérito dos britânicos veio da ampla experiência em organização e do senso crítico depois de enfrentar chances adversas em 1940. Foi a aprendizagem com as dificuldades que gerou as soluções ("a necessidade foi a mãe da invenção"). A) Não eram iniciativas espontâneas por familiaridade histórica, e o texto fala de experiência recente. B) O parágrafo não fala de confiança nos cientistas. C) Os tweakers aparecem só depois, em outro contexto. D) A Revolução Industrial é outro assunto, tratado mais adiante. Referência: Interpretação de texto (Paul Kennedy, Engenheiros da Vitória). Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível "Mas" contrapõe e especifica: não só interesse moderado, mas competência. Em "não com um interesse apenas moderado, mas da maneira mais competente possível", o "mas" apresenta outras qualidades do dirigente, o que corresponde à especificação descrita na E. A) "Na verdade" reforça o argumento, não o contesta. B) "Digamos" é só um modalizador de exemplo, e não questiona nada. C) "Em suma" resume, e não menciona aspectos de forma sucessiva. D) "Por sua vez" encadeia a ideia de que a organização exige dirigentes, sem contestar o papel deles. Referência: Coesão e operadores argumentativos. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Correta é a D: "sobre cujos feitos" tem regência e concordância adequadas. Na D, "sobre cujos feitos não há pesquisas" está correta: a preposição "sobre" antecede o "cujos", que concorda com "feitos". As demais violam a regência verbal ou a forma do relativo. A) Falta a preposição: o correto seria "de cujos equipamentos ainda se fala". B) "De quais" não é forma de relativo adequada, pois faltam o artigo e a concordância: "das quais". C) "Enfatizar" não rege "a", e o termo seria "as quais". E) "Planejamento e orquestração" é plural, e o relativo teria de ser "com os quais". Referência: Pronomes relativos: regência e concordância. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Líder: paroxítona terminada em r. Incluído: i tônico em hiato. Par equivalente: bíceps e ciúme. "Líder" é paroxítona terminada em -r e leva acento. "Incluído" tem o i tônico em hiato (u-í), também acentuado. "Bíceps" é paroxítona terminada em -ps, e "ciúme" leva acento no u tônico do hiato i-ú. As duas seguem a mesma ordem de regras. A) "Ânsia" é paroxítona terminada em ditongo, e "balaústre" é hiato com u tônico. C) "Líderes" é paroxítona terminada em -es, e "difícil" é terminada em -l, o que não coincide com "incluído". D) "País" é hiato com i tônico, mas "ciúme" não é paroxítona terminada em -r. E) "Fácil" é terminada em -l, e "fiéis" é oxítona terminada em ditongo aberto. Referência: Acentuação gráfica (hiato e paroxítonas). Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível "Que" introduz oração substantiva objetiva direta: conjunção subordinativa integrante. Em "argumentava que Jobs não era o inventor...", o "que" liga a oração subordinada, que funciona como objeto direto de "argumentava". Ele não retoma nenhum termo anterior e não pode ser trocado por "o qual", então é conjunção subordinativa integrante. A) Pronome relativo retomaria um antecedente, o que não ocorre. B) Não é preposição. D) Conjunção coordenativa liga orações independentes, e aqui há subordinação. E) Não retoma termo anterior, logo não é pronome anafórico. Referência: Classes de palavras: conjunção integrante. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Incorreta é a C: o eu lírico não demonstra temor, e sim fascínio e euforia. O eu lírico exalta as máquinas e deseja fundir-se a elas, com entusiasmo e êxtase típicos do Futurismo. Não há medo diante da tecnologia, por isso a C é a afirmação incorreta. As demais descrevem bem o poema. A) Correta: há despersonalização, com o eu fundido às máquinas. B) Correta: a "Minerva sem-alma" simboliza a razão impessoal das cidades modernas. D) Correta: a ode grega celebra algo ou alguém. E) Correta: "o Útil" e "o Progressivo" são adjetivos substantivados, e a maiúscula reforça o efeito. Referência: Álvaro de Campos, Ode Triunfal. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Só a I é aceita: a repetição cruzada dos versos reforça o sentido e produz sonoridade. Pelo gabarito, a I está correta: a retomada de "Escrevo" e de "para a beleza disto" nos versos 3 e 4 forma repetição em espelho, que enfatiza e produz assonâncias. A II está errada porque a "luz das lâmpadas da fábrica" descreve o ambiente, não os procedimentos de composição. A III está errada porque "fera" tem aqui sentido de fúria selvagem, e não de excelência. B) A II é falsa: a referência é ao ambiente fabril e à febre do poeta. C) A III é falsa: "fera" expressa ferocidade. D) e E) incluem a II ou a III, que são falsas. Referência: Álvaro de Campos, Ode Triunfal; figuras de linguagem. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Só a II está correta: "fora" é advérbio de lugar. Em "em fúria fora e dentro de mim", "fora" se opõe a "dentro" e indica lugar, ou seja, é um advérbio modificador. Na I, o trecho tem apóstrofe e onomatopeia, mas não antonomásia. Na III, as exclamações marcam entusiasmo e exaltação, e não o estado emocional de surpresa. A) A I está errada porque não há antonomásia. C) A III está errada porque o sentimento é de êxtase, e não de surpresa. D) e E) incluem a I ou a III, que são falsas. Referência: Figuras de linguagem e classes de palavras (advérbio). Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Ciciante = que sussurra; o antônimo seria tonitruante (estrondoso). "Ciciante" é o que produz som fraco e sibilante, um sussurro. "Tonitruante" significa ribombante, estrondoso. A troca inverteria o sentido de "quase-silêncio" que o poema constrói. B) Sussurrante é sinônimo de ciciante. C) Sibilante também designa som fraco, de assobio. D) e E) Discordante e dissonante falam de sons desarmônicos, não de intensidade, e não invertem o sentido de modo claro. A única que o inverte de fato é tonitruante. Referência: Semântica: sinonímia e antonímia. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Só a I está correta: fascínio e desejo de fusão com a máquina. Nos versos, o eu lírico quer ser completo como uma máquina, penetrar-se de tudo e abrir-se aos cheiros do ambiente fabril. Isso mostra fascínio e desejo de integração, como diz a I. A "flora" é metáfora do universo industrial ("negra, artificial"), sem nostalgia romântica da natureza. "Estupenda" significa admirável ou extraordinária, e não "abundante". II) Falsa: a flora é artificial e industrial, e o poema não propõe voltar à natureza. III) Falsa: "estupenda" é sinônimo de admirável ou prodigiosa, e não de "abundante". Portanto só a I está correta. Referência: Álvaro de Campos, Ode Triunfal (Futurismo). Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível Composição por justaposição: dois radicais unidos por hífen, sem alteração. "Parte-agente" e "quase-silêncio" juntam dois vocábulos com hífen, e nenhum deles perde ou altera elementos. Isso é composição por justaposição. A) Intensificação não é processo de formação desses termos. C) Reduplicação repete a mesma sílaba ou palavra (como "reco-reco"). D) Hibridismo mistura radicais de línguas diferentes. E) Abreviação encurta a palavra (como "foto"). Referência: Formação de palavras: composição por justaposição. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível O conto mostra o estranhamento místico e supersticioso da cidade diante do cientista. A população vê o forno na sala de jantar e os utensílios estranhos como coisa do diabo, ou como moeda falsa. Chico da Tirana se persigna ao passar pela casa. Isso caracteriza uma reação coletiva de estranhamento místico diante do químico e de seu trabalho. A) O texto não trata de conciliar humanismo e ciência. C) A ironia recai sobre o gramático Pelino, e o texto não pondera a importância do conhecimento gramatical. D) Não se discute coragem nem nobreza moral na ciência. E) Não se valoriza o papel social da ciência. A admiração vem do prestígio do "sábio", não do reconhecimento do seu papel social. Referência: Lima Barreto, A nova Califórnia (Pré-Modernismo). Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Metonímia: o autor (Sotero) no lugar da obra. Em "ler um pouco o Sotero", o nome do autor (Sotero dos Reis, gramático) designa a obra dele. Trocar a obra pelo autor é metonímia. Pelino lê gramáticas, não a pessoa. A) Anáfora é a repetição de palavra no início de versos ou frases, o que não ocorre. C) Paronomásia é o jogo de palavras parecidas na forma. D) Metáfora exigiria comparação implícita, e aqui há só troca por contiguidade. E) Não há atribuição de ações humanas a seres inanimados. Referência: Figuras de linguagem: metonímia (autor pela obra). Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível A expressão "bondade de Messias" marca o consenso favorável e a superioridade moral de Flamel em contraste com a cidade. A referência bíblica eleva Flamel e mostra o consenso que se forma na cidade em torno do sábio (II). Mostra também o contraste entre sua estatura moral e a mediocridade da vila (III), segundo o narrador. A alternativa I erra ao falar em formação religiosa exemplar, algo que o texto não afirma. A) Errada: só a I, que é falsa. B) Errada: omite a III. C) Errada: omite a II. D) Errada: inclui a I, que é falsa. E) Correta: II e III. Referência: Lima Barreto, A nova Califórnia; intertextualidade (Kristeva). Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Só a alternativa D reúne palavras todas oxítonas, diferentes da paroxítona "avaro". "Avaro" (a-VA-ro) é paroxítona. Em D, "nobel" (no-BEL), "mister" (mis-TER) e "ureter" (u-re-TER) são todas oxítonas, então nenhuma tem a mesma sílaba tônica de "avaro". A) Errada: "recorde" e "filantropo" são paroxítonas, como "avaro". B) Errada: "recorde" é paroxítona. C) Errada: "pudico", "recorde" e "ibero" são paroxítonas. E) Errada: "misantropo" é paroxítona. Referência: Ortoepia e prosódia: classificação das palavras quanto à sílaba tônica. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível "Caquexia dos trópicos" expressa um determinismo que vê o abatimento como traço inevitável de um grupo e de um clima. A expressão aplica o determinismo do meio: a debilidade seria característica inelutável de quem vive nos trópicos. O narrador usa a ideia com ironia, como crítica à visão determinista, e por isso B é a leitura certa. A) Errada: não exprime confiança no progresso do povo, mas fraqueza. C) Errada: não fala de ignorância ou tacanhez, e sim de debilidade física. D) Errada: o trecho inclui as crianças brancas, que também vivem na "caquexia". E) Errada: o texto não trata de condições de vida e educação idênticas. Referência: Lima Barreto, A nova Califórnia (1916); determinismo e Naturalismo. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível I e III estão corretas; a II erra ao dizer que os textos 2 e 3 derrubam a gramática normativa. O texto 1 trata de ciência, tecnologia e cultura do encorajamento, e o texto 3 trata do conhecimento científico e do prestígio do sábio, então I está correta. O texto 2 expressa o arrebatamento futurista diante das máquinas, e o texto 1 compara a guerra à organização de empresas, então III também está correta. Em II, só Pessoa inova a linguagem; Lima Barreto, em vez de derrubar a gramática, ironiza o purismo do capitão Pelino. A) Errada: omite a III. B) Errada: II é falsa. C) Errada: omite a I. D) Errada: inclui a II, que é falsa. E) Correta: I e III. Referência: Textos 1 (Paul Kennedy), 2 (Álvaro de Campos) e 3 (Lima Barreto). Resolução comentada do VaiConcursos.IME — Concurso de Admissão ao Curso de Formação e Graduação 2021/2022 — Português e Inglês (objetiva e produção de texto)
Texto 1
ENGENHEIROS DA VITÓRIA
Solução de problemas na história
1 [...] Quando se fala na eficiência em conseguir equipamentos de combate e transferir combatentes de A para
B, os britânicos são campeões; certamente isso não foi por causa de alguma inteligência especial, mas pela
ampla experiência em organização e senso crítico depois de enfrentar chances adversas em 1940, juntamente
com a perspectiva de derrota. Aqui a necessidade foi a mãe da invenção. Eles tinham que defender suas cidades,
5 transportar tropas até o Egito, apoiar os gregos, proteger as fronteiras da Índia, trazer os Estados Unidos para a
guerra e depois levar aquele imenso potencial americano para a área da Europa. Era mais um problema a ser
resolvido. Como foi possível fazer com que 2 milhões de soldados americanos, depois de chegar às bases de
Clyde, fossem para bases no sul da Inglaterra preparando-se para o ataque à Normandia, quando a maior parte
das ferrovias britânicas estava ocupada em transportar vagões de carvão para as fábricas de ferro e aço que
10 não podiam parar de produzir?
Como se viu, uma organização composta por pessoas que cresceram decorando os horários da estrada de
ferro de Bradshaw como passatempo pode fazer isso, enquanto os altos comandantes consideravam que tudo
estava garantido porque confiavam na capacidade de seus administradores de nível médio. Churchill acreditava
que o melhor era não se preocupar demais com os problemas, pois tudo se resolveria, isto é, uma maneira havia
15 de ser encontrada, passo a passo.
Há uma outra forma de pensar sobre essa história de soluções de problemas, e ela vem de um exemplo
bem contemporâneo. Em novembro de 2011, enquanto o genial líder da Apple, Steve Jobs, recebia inúmeras
homenagens póstumas, um artigo intrigante foi publicado na revista New Yorker. Nele o autor, Malcom Gladwell,
argumentava que Jobs não era o inventor de uma máquina ou de uma ideia que mudou o mundo; poucos
20 seres o são (exceto talvez Leonardo da Vinci e Thomas Edison). Na verdade, seu brilhantismo estava em
adotar invenções alheias que não deram certo, a partir das quais construía, modificava e fazia aperfeiçoamentos
constantes. Para usar uma linguagem atual, ele era um tweaker, e sua genialidade impulsionou como nunca o
aumento de eficiência dos produtos de sua companhia.
A história do sucesso de Steve Jobs, contudo, não era nova. A chegada da Revolução Industrial do século
25 XVIII na Grã-Bretanha – muito provavelmente a maior revolução para explicar a ascensão do Ocidente – ocorreu
porque o país possuía uma imensa coleção de tweakers em sua cultura que encorajaram o progresso [...]
A história da evolução do tanque T-34 soviético, de um grande pedaço de metal mal projetado e fraco para
uma arma de guerra mortífera, segura e de grande mobilidade, não foi uma história contínua de tweaking? Não
foi esse também o caso do grande bombardeiro americano, o B-29, que no início estava tão mergulhado em
30 dificuldades que chegou a se propor seu cancelamento até que as equipes da Boeing resolveram os problemas?
E as miraculosas histórias do P-51 Mustang, dos tanques de Percy Hobart e de um poderoso sistema de radar
tão pequeno que poderia ser inserido no nariz de um avião patrulha de longa distância e virar a maré na Batalha
do Atlântico? Depois que se unem os diversos pedaços espalhados, tudo se encaixa. Mas todos esses projetos
exigiram tempo e apoio.
35 Na verdade, os administradores de grandes companhias mundiais provavelmente se surpreendam diante,
digamos, do planejamento e orquestração do almirante Ramsay nos cincos desembarques simultâneos no Dia
D e gostariam de poder realizar um décimo do que ele fez.
Em suma, a vitória em grandes guerras sempre requer organização superior, o que, por sua vez, exige
pessoas que possam dirigir essas organizações, não com um interesse apenas moderado, mas da maneira
40 mais competente possível e com estilo que permitirá às pessoas de fora propor ideias novas na busca da vitória.
Os chefes não podem fazer isso tudo sozinhos, por mais que sejam criativos e dotados de energia. É necessário
haver um sistema de apoio, uma cultura de encorajamento, feedbacks eficientes, uma capacidade de aprender
com os revezes, uma habilidade de fazer as coisas acontecerem. E tudo isto tem de ser feito de uma maneira
que seja melhor do que aquela do inimigo. É assim que as guerras são vencidas. [...]
45 O mesmo reconhecimento merecem, por certo, os militares de nível médio que mudaram a Segunda Guerra
Mundial, transformando as agressões do Eixo em 1942 em avanços irreversíveis dos Aliados em 1943-44, e
finalmente destruindo a Alemanha e o Japão. É verdade, alguns desses indivíduos, armamentos e organizações
são reconhecidos, mas em geral de uma forma fragmentada e popularizada. É raro que esses fios isolados sejam
tecidos em conjunto para mostrar como os avanços afetaram as muitas campanhas, fazendo a balança pender
50 para o lado dos Aliados durante o conflito global. Mais raro ainda é a compreensão de como o trabalho desses
vários solucionadores de problemas também precisa ser incluído numa importante “cultura do encorajamento”
para garantir que simples declarações e intenções estratégicas de grandes líderes se tornem realidade e não
murchem nas tempestades da guerra. Se isso é o que acontece, então vivemos com uma grande lacuna em
nossa compreensão de como a Segunda Guerra Mundial foi vencida em seus anos cruciais.
KENNEDY, Paul. Engenheiros da Vitória: Os responsáveis pela reviravolta na Segunda Guerra Mundial. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 407- 428 (texto adaptado).
Com base no primeiro parágrafo do texto 1, o qual apresenta várias soluções de problemas práticos realizadas pelos britânicos na Segunda Guerra Mundial, pode-se afirmar que:Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 1
ENGENHEIROS DA VITÓRIA
Solução de problemas na história
1 [...] Quando se fala na eficiência em conseguir equipamentos de combate e transferir combatentes de A para
B, os britânicos são campeões; certamente isso não foi por causa de alguma inteligência especial, mas pela
ampla experiência em organização e senso crítico depois de enfrentar chances adversas em 1940, juntamente
com a perspectiva de derrota. Aqui a necessidade foi a mãe da invenção. Eles tinham que defender suas cidades,
5 transportar tropas até o Egito, apoiar os gregos, proteger as fronteiras da Índia, trazer os Estados Unidos para a
guerra e depois levar aquele imenso potencial americano para a área da Europa. Era mais um problema a ser
resolvido. Como foi possível fazer com que 2 milhões de soldados americanos, depois de chegar às bases de
Clyde, fossem para bases no sul da Inglaterra preparando-se para o ataque à Normandia, quando a maior parte
das ferrovias britânicas estava ocupada em transportar vagões de carvão para as fábricas de ferro e aço que
10 não podiam parar de produzir?
Como se viu, uma organização composta por pessoas que cresceram decorando os horários da estrada de
ferro de Bradshaw como passatempo pode fazer isso, enquanto os altos comandantes consideravam que tudo
estava garantido porque confiavam na capacidade de seus administradores de nível médio. Churchill acreditava
que o melhor era não se preocupar demais com os problemas, pois tudo se resolveria, isto é, uma maneira havia
15 de ser encontrada, passo a passo.
Há uma outra forma de pensar sobre essa história de soluções de problemas, e ela vem de um exemplo
bem contemporâneo. Em novembro de 2011, enquanto o genial líder da Apple, Steve Jobs, recebia inúmeras
homenagens póstumas, um artigo intrigante foi publicado na revista New Yorker. Nele o autor, Malcom Gladwell,
argumentava que Jobs não era o inventor de uma máquina ou de uma ideia que mudou o mundo; poucos
20 seres o são (exceto talvez Leonardo da Vinci e Thomas Edison). Na verdade, seu brilhantismo estava em
adotar invenções alheias que não deram certo, a partir das quais construía, modificava e fazia aperfeiçoamentos
constantes. Para usar uma linguagem atual, ele era um tweaker, e sua genialidade impulsionou como nunca o
aumento de eficiência dos produtos de sua companhia.
A história do sucesso de Steve Jobs, contudo, não era nova. A chegada da Revolução Industrial do século
25 XVIII na Grã-Bretanha – muito provavelmente a maior revolução para explicar a ascensão do Ocidente – ocorreu
porque o país possuía uma imensa coleção de tweakers em sua cultura que encorajaram o progresso [...]
A história da evolução do tanque T-34 soviético, de um grande pedaço de metal mal projetado e fraco para
uma arma de guerra mortífera, segura e de grande mobilidade, não foi uma história contínua de tweaking? Não
foi esse também o caso do grande bombardeiro americano, o B-29, que no início estava tão mergulhado em
30 dificuldades que chegou a se propor seu cancelamento até que as equipes da Boeing resolveram os problemas?
E as miraculosas histórias do P-51 Mustang, dos tanques de Percy Hobart e de um poderoso sistema de radar
tão pequeno que poderia ser inserido no nariz de um avião patrulha de longa distância e virar a maré na Batalha
do Atlântico? Depois que se unem os diversos pedaços espalhados, tudo se encaixa. Mas todos esses projetos
exigiram tempo e apoio.
35 Na verdade, os administradores de grandes companhias mundiais provavelmente se surpreendam diante,
digamos, do planejamento e orquestração do almirante Ramsay nos cincos desembarques simultâneos no Dia
D e gostariam de poder realizar um décimo do que ele fez.
Em suma, a vitória em grandes guerras sempre requer organização superior, o que, por sua vez, exige
pessoas que possam dirigir essas organizações, não com um interesse apenas moderado, mas da maneira
40 mais competente possível e com estilo que permitirá às pessoas de fora propor ideias novas na busca da vitória.
Os chefes não podem fazer isso tudo sozinhos, por mais que sejam criativos e dotados de energia. É necessário
haver um sistema de apoio, uma cultura de encorajamento, feedbacks eficientes, uma capacidade de aprender
com os revezes, uma habilidade de fazer as coisas acontecerem. E tudo isto tem de ser feito de uma maneira
que seja melhor do que aquela do inimigo. É assim que as guerras são vencidas. [...]
45 O mesmo reconhecimento merecem, por certo, os militares de nível médio que mudaram a Segunda Guerra
Mundial, transformando as agressões do Eixo em 1942 em avanços irreversíveis dos Aliados em 1943-44, e
finalmente destruindo a Alemanha e o Japão. É verdade, alguns desses indivíduos, armamentos e organizações
são reconhecidos, mas em geral de uma forma fragmentada e popularizada. É raro que esses fios isolados sejam
tecidos em conjunto para mostrar como os avanços afetaram as muitas campanhas, fazendo a balança pender
50 para o lado dos Aliados durante o conflito global. Mais raro ainda é a compreensão de como o trabalho desses
vários solucionadores de problemas também precisa ser incluído numa importante “cultura do encorajamento”
para garantir que simples declarações e intenções estratégicas de grandes líderes se tornem realidade e não
murchem nas tempestades da guerra. Se isso é o que acontece, então vivemos com uma grande lacuna em
nossa compreensão de como a Segunda Guerra Mundial foi vencida em seus anos cruciais.
KENNEDY, Paul. Engenheiros da Vitória: Os responsáveis pela reviravolta na Segunda Guerra Mundial. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 407- 428 (texto adaptado).
Leia atentamente o excerto abaixo do texto 1:
“Na verdade, os administradores de grandes companhias mundiais provavelmente apenas fiquem maravilhados diante, digamos, do planejamento e orquestração do almirante Ramsay nos cincos desembarques simultâneos no Dia D e gostariam de poder realizar um décimo do que ele fez.
Em suma, a vitória em grandes guerras sempre requer organização superior, o que, por sua vez, exige pessoas que possam dirigir essas organizações, não com um interesse apenas moderado, mas da maneira mais competente possível e com estilo que permitirá às pessoas de fora propor ideias novas na busca da vitória”. (linhas 35 a 40)
A coesão refere-se aos mecanismos de encadeamento lógico-semântico do conteúdo apresentado, que criam relações entre o que é dito, de modo a orientar o leitor na construção do significado geral de um texto. Ela inclui os operadores argumentativos. Isso posto, considera-se que a análise desses elementos em negrito no texto mostra que o operador:Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 1
ENGENHEIROS DA VITÓRIA
Solução de problemas na história
1 [...] Quando se fala na eficiência em conseguir equipamentos de combate e transferir combatentes de A para
B, os britânicos são campeões; certamente isso não foi por causa de alguma inteligência especial, mas pela
ampla experiência em organização e senso crítico depois de enfrentar chances adversas em 1940, juntamente
com a perspectiva de derrota. Aqui a necessidade foi a mãe da invenção. Eles tinham que defender suas cidades,
5 transportar tropas até o Egito, apoiar os gregos, proteger as fronteiras da Índia, trazer os Estados Unidos para a
guerra e depois levar aquele imenso potencial americano para a área da Europa. Era mais um problema a ser
resolvido. Como foi possível fazer com que 2 milhões de soldados americanos, depois de chegar às bases de
Clyde, fossem para bases no sul da Inglaterra preparando-se para o ataque à Normandia, quando a maior parte
das ferrovias britânicas estava ocupada em transportar vagões de carvão para as fábricas de ferro e aço que
10 não podiam parar de produzir?
Como se viu, uma organização composta por pessoas que cresceram decorando os horários da estrada de
ferro de Bradshaw como passatempo pode fazer isso, enquanto os altos comandantes consideravam que tudo
estava garantido porque confiavam na capacidade de seus administradores de nível médio. Churchill acreditava
que o melhor era não se preocupar demais com os problemas, pois tudo se resolveria, isto é, uma maneira havia
15 de ser encontrada, passo a passo.
Há uma outra forma de pensar sobre essa história de soluções de problemas, e ela vem de um exemplo
bem contemporâneo. Em novembro de 2011, enquanto o genial líder da Apple, Steve Jobs, recebia inúmeras
homenagens póstumas, um artigo intrigante foi publicado na revista New Yorker. Nele o autor, Malcom Gladwell,
argumentava que Jobs não era o inventor de uma máquina ou de uma ideia que mudou o mundo; poucos
20 seres o são (exceto talvez Leonardo da Vinci e Thomas Edison). Na verdade, seu brilhantismo estava em
adotar invenções alheias que não deram certo, a partir das quais construía, modificava e fazia aperfeiçoamentos
constantes. Para usar uma linguagem atual, ele era um tweaker, e sua genialidade impulsionou como nunca o
aumento de eficiência dos produtos de sua companhia.
A história do sucesso de Steve Jobs, contudo, não era nova. A chegada da Revolução Industrial do século
25 XVIII na Grã-Bretanha – muito provavelmente a maior revolução para explicar a ascensão do Ocidente – ocorreu
porque o país possuía uma imensa coleção de tweakers em sua cultura que encorajaram o progresso [...]
A história da evolução do tanque T-34 soviético, de um grande pedaço de metal mal projetado e fraco para
uma arma de guerra mortífera, segura e de grande mobilidade, não foi uma história contínua de tweaking? Não
foi esse também o caso do grande bombardeiro americano, o B-29, que no início estava tão mergulhado em
30 dificuldades que chegou a se propor seu cancelamento até que as equipes da Boeing resolveram os problemas?
E as miraculosas histórias do P-51 Mustang, dos tanques de Percy Hobart e de um poderoso sistema de radar
tão pequeno que poderia ser inserido no nariz de um avião patrulha de longa distância e virar a maré na Batalha
do Atlântico? Depois que se unem os diversos pedaços espalhados, tudo se encaixa. Mas todos esses projetos
exigiram tempo e apoio.
35 Na verdade, os administradores de grandes companhias mundiais provavelmente se surpreendam diante,
digamos, do planejamento e orquestração do almirante Ramsay nos cincos desembarques simultâneos no Dia
D e gostariam de poder realizar um décimo do que ele fez.
Em suma, a vitória em grandes guerras sempre requer organização superior, o que, por sua vez, exige
pessoas que possam dirigir essas organizações, não com um interesse apenas moderado, mas da maneira
40 mais competente possível e com estilo que permitirá às pessoas de fora propor ideias novas na busca da vitória.
Os chefes não podem fazer isso tudo sozinhos, por mais que sejam criativos e dotados de energia. É necessário
haver um sistema de apoio, uma cultura de encorajamento, feedbacks eficientes, uma capacidade de aprender
com os revezes, uma habilidade de fazer as coisas acontecerem. E tudo isto tem de ser feito de uma maneira
que seja melhor do que aquela do inimigo. É assim que as guerras são vencidas. [...]
45 O mesmo reconhecimento merecem, por certo, os militares de nível médio que mudaram a Segunda Guerra
Mundial, transformando as agressões do Eixo em 1942 em avanços irreversíveis dos Aliados em 1943-44, e
finalmente destruindo a Alemanha e o Japão. É verdade, alguns desses indivíduos, armamentos e organizações
são reconhecidos, mas em geral de uma forma fragmentada e popularizada. É raro que esses fios isolados sejam
tecidos em conjunto para mostrar como os avanços afetaram as muitas campanhas, fazendo a balança pender
50 para o lado dos Aliados durante o conflito global. Mais raro ainda é a compreensão de como o trabalho desses
vários solucionadores de problemas também precisa ser incluído numa importante “cultura do encorajamento”
para garantir que simples declarações e intenções estratégicas de grandes líderes se tornem realidade e não
murchem nas tempestades da guerra. Se isso é o que acontece, então vivemos com uma grande lacuna em
nossa compreensão de como a Segunda Guerra Mundial foi vencida em seus anos cruciais.
KENNEDY, Paul. Engenheiros da Vitória: Os responsáveis pela reviravolta na Segunda Guerra Mundial. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 407- 428 (texto adaptado).
Em relação ao uso dos pronomes relativos, marque a alternativa correta:Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 1
ENGENHEIROS DA VITÓRIA
Solução de problemas na história
1 [...] Quando se fala na eficiência em conseguir equipamentos de combate e transferir combatentes de A para
B, os britânicos são campeões; certamente isso não foi por causa de alguma inteligência especial, mas pela
ampla experiência em organização e senso crítico depois de enfrentar chances adversas em 1940, juntamente
com a perspectiva de derrota. Aqui a necessidade foi a mãe da invenção. Eles tinham que defender suas cidades,
5 transportar tropas até o Egito, apoiar os gregos, proteger as fronteiras da Índia, trazer os Estados Unidos para a
guerra e depois levar aquele imenso potencial americano para a área da Europa. Era mais um problema a ser
resolvido. Como foi possível fazer com que 2 milhões de soldados americanos, depois de chegar às bases de
Clyde, fossem para bases no sul da Inglaterra preparando-se para o ataque à Normandia, quando a maior parte
das ferrovias britânicas estava ocupada em transportar vagões de carvão para as fábricas de ferro e aço que
10 não podiam parar de produzir?
Como se viu, uma organização composta por pessoas que cresceram decorando os horários da estrada de
ferro de Bradshaw como passatempo pode fazer isso, enquanto os altos comandantes consideravam que tudo
estava garantido porque confiavam na capacidade de seus administradores de nível médio. Churchill acreditava
que o melhor era não se preocupar demais com os problemas, pois tudo se resolveria, isto é, uma maneira havia
15 de ser encontrada, passo a passo.
Há uma outra forma de pensar sobre essa história de soluções de problemas, e ela vem de um exemplo
bem contemporâneo. Em novembro de 2011, enquanto o genial líder da Apple, Steve Jobs, recebia inúmeras
homenagens póstumas, um artigo intrigante foi publicado na revista New Yorker. Nele o autor, Malcom Gladwell,
argumentava que Jobs não era o inventor de uma máquina ou de uma ideia que mudou o mundo; poucos
20 seres o são (exceto talvez Leonardo da Vinci e Thomas Edison). Na verdade, seu brilhantismo estava em
adotar invenções alheias que não deram certo, a partir das quais construía, modificava e fazia aperfeiçoamentos
constantes. Para usar uma linguagem atual, ele era um tweaker, e sua genialidade impulsionou como nunca o
aumento de eficiência dos produtos de sua companhia.
A história do sucesso de Steve Jobs, contudo, não era nova. A chegada da Revolução Industrial do século
25 XVIII na Grã-Bretanha – muito provavelmente a maior revolução para explicar a ascensão do Ocidente – ocorreu
porque o país possuía uma imensa coleção de tweakers em sua cultura que encorajaram o progresso [...]
A história da evolução do tanque T-34 soviético, de um grande pedaço de metal mal projetado e fraco para
uma arma de guerra mortífera, segura e de grande mobilidade, não foi uma história contínua de tweaking? Não
foi esse também o caso do grande bombardeiro americano, o B-29, que no início estava tão mergulhado em
30 dificuldades que chegou a se propor seu cancelamento até que as equipes da Boeing resolveram os problemas?
E as miraculosas histórias do P-51 Mustang, dos tanques de Percy Hobart e de um poderoso sistema de radar
tão pequeno que poderia ser inserido no nariz de um avião patrulha de longa distância e virar a maré na Batalha
do Atlântico? Depois que se unem os diversos pedaços espalhados, tudo se encaixa. Mas todos esses projetos
exigiram tempo e apoio.
35 Na verdade, os administradores de grandes companhias mundiais provavelmente se surpreendam diante,
digamos, do planejamento e orquestração do almirante Ramsay nos cincos desembarques simultâneos no Dia
D e gostariam de poder realizar um décimo do que ele fez.
Em suma, a vitória em grandes guerras sempre requer organização superior, o que, por sua vez, exige
pessoas que possam dirigir essas organizações, não com um interesse apenas moderado, mas da maneira
40 mais competente possível e com estilo que permitirá às pessoas de fora propor ideias novas na busca da vitória.
Os chefes não podem fazer isso tudo sozinhos, por mais que sejam criativos e dotados de energia. É necessário
haver um sistema de apoio, uma cultura de encorajamento, feedbacks eficientes, uma capacidade de aprender
com os revezes, uma habilidade de fazer as coisas acontecerem. E tudo isto tem de ser feito de uma maneira
que seja melhor do que aquela do inimigo. É assim que as guerras são vencidas. [...]
45 O mesmo reconhecimento merecem, por certo, os militares de nível médio que mudaram a Segunda Guerra
Mundial, transformando as agressões do Eixo em 1942 em avanços irreversíveis dos Aliados em 1943-44, e
finalmente destruindo a Alemanha e o Japão. É verdade, alguns desses indivíduos, armamentos e organizações
são reconhecidos, mas em geral de uma forma fragmentada e popularizada. É raro que esses fios isolados sejam
tecidos em conjunto para mostrar como os avanços afetaram as muitas campanhas, fazendo a balança pender
50 para o lado dos Aliados durante o conflito global. Mais raro ainda é a compreensão de como o trabalho desses
vários solucionadores de problemas também precisa ser incluído numa importante “cultura do encorajamento”
para garantir que simples declarações e intenções estratégicas de grandes líderes se tornem realidade e não
murchem nas tempestades da guerra. Se isso é o que acontece, então vivemos com uma grande lacuna em
nossa compreensão de como a Segunda Guerra Mundial foi vencida em seus anos cruciais.
KENNEDY, Paul. Engenheiros da Vitória: Os responsáveis pela reviravolta na Segunda Guerra Mundial. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 407- 428 (texto adaptado).
Assinale a alternativa em que as palavras recebem o acento gráfico de acordo com as mesmas regras de acentuação das palavras abaixo transcritas, respectivamente:
LÍDER (texto 1, linha 17), INCLUÍDO (texto 1, linha 51)Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 1
ENGENHEIROS DA VITÓRIA
Solução de problemas na história
1 [...] Quando se fala na eficiência em conseguir equipamentos de combate e transferir combatentes de A para
B, os britânicos são campeões; certamente isso não foi por causa de alguma inteligência especial, mas pela
ampla experiência em organização e senso crítico depois de enfrentar chances adversas em 1940, juntamente
com a perspectiva de derrota. Aqui a necessidade foi a mãe da invenção. Eles tinham que defender suas cidades,
5 transportar tropas até o Egito, apoiar os gregos, proteger as fronteiras da Índia, trazer os Estados Unidos para a
guerra e depois levar aquele imenso potencial americano para a área da Europa. Era mais um problema a ser
resolvido. Como foi possível fazer com que 2 milhões de soldados americanos, depois de chegar às bases de
Clyde, fossem para bases no sul da Inglaterra preparando-se para o ataque à Normandia, quando a maior parte
das ferrovias britânicas estava ocupada em transportar vagões de carvão para as fábricas de ferro e aço que
10 não podiam parar de produzir?
Como se viu, uma organização composta por pessoas que cresceram decorando os horários da estrada de
ferro de Bradshaw como passatempo pode fazer isso, enquanto os altos comandantes consideravam que tudo
estava garantido porque confiavam na capacidade de seus administradores de nível médio. Churchill acreditava
que o melhor era não se preocupar demais com os problemas, pois tudo se resolveria, isto é, uma maneira havia
15 de ser encontrada, passo a passo.
Há uma outra forma de pensar sobre essa história de soluções de problemas, e ela vem de um exemplo
bem contemporâneo. Em novembro de 2011, enquanto o genial líder da Apple, Steve Jobs, recebia inúmeras
homenagens póstumas, um artigo intrigante foi publicado na revista New Yorker. Nele o autor, Malcom Gladwell,
argumentava que Jobs não era o inventor de uma máquina ou de uma ideia que mudou o mundo; poucos
20 seres o são (exceto talvez Leonardo da Vinci e Thomas Edison). Na verdade, seu brilhantismo estava em
adotar invenções alheias que não deram certo, a partir das quais construía, modificava e fazia aperfeiçoamentos
constantes. Para usar uma linguagem atual, ele era um tweaker, e sua genialidade impulsionou como nunca o
aumento de eficiência dos produtos de sua companhia.
A história do sucesso de Steve Jobs, contudo, não era nova. A chegada da Revolução Industrial do século
25 XVIII na Grã-Bretanha – muito provavelmente a maior revolução para explicar a ascensão do Ocidente – ocorreu
porque o país possuía uma imensa coleção de tweakers em sua cultura que encorajaram o progresso [...]
A história da evolução do tanque T-34 soviético, de um grande pedaço de metal mal projetado e fraco para
uma arma de guerra mortífera, segura e de grande mobilidade, não foi uma história contínua de tweaking? Não
foi esse também o caso do grande bombardeiro americano, o B-29, que no início estava tão mergulhado em
30 dificuldades que chegou a se propor seu cancelamento até que as equipes da Boeing resolveram os problemas?
E as miraculosas histórias do P-51 Mustang, dos tanques de Percy Hobart e de um poderoso sistema de radar
tão pequeno que poderia ser inserido no nariz de um avião patrulha de longa distância e virar a maré na Batalha
do Atlântico? Depois que se unem os diversos pedaços espalhados, tudo se encaixa. Mas todos esses projetos
exigiram tempo e apoio.
35 Na verdade, os administradores de grandes companhias mundiais provavelmente se surpreendam diante,
digamos, do planejamento e orquestração do almirante Ramsay nos cincos desembarques simultâneos no Dia
D e gostariam de poder realizar um décimo do que ele fez.
Em suma, a vitória em grandes guerras sempre requer organização superior, o que, por sua vez, exige
pessoas que possam dirigir essas organizações, não com um interesse apenas moderado, mas da maneira
40 mais competente possível e com estilo que permitirá às pessoas de fora propor ideias novas na busca da vitória.
Os chefes não podem fazer isso tudo sozinhos, por mais que sejam criativos e dotados de energia. É necessário
haver um sistema de apoio, uma cultura de encorajamento, feedbacks eficientes, uma capacidade de aprender
com os revezes, uma habilidade de fazer as coisas acontecerem. E tudo isto tem de ser feito de uma maneira
que seja melhor do que aquela do inimigo. É assim que as guerras são vencidas. [...]
45 O mesmo reconhecimento merecem, por certo, os militares de nível médio que mudaram a Segunda Guerra
Mundial, transformando as agressões do Eixo em 1942 em avanços irreversíveis dos Aliados em 1943-44, e
finalmente destruindo a Alemanha e o Japão. É verdade, alguns desses indivíduos, armamentos e organizações
são reconhecidos, mas em geral de uma forma fragmentada e popularizada. É raro que esses fios isolados sejam
tecidos em conjunto para mostrar como os avanços afetaram as muitas campanhas, fazendo a balança pender
50 para o lado dos Aliados durante o conflito global. Mais raro ainda é a compreensão de como o trabalho desses
vários solucionadores de problemas também precisa ser incluído numa importante “cultura do encorajamento”
para garantir que simples declarações e intenções estratégicas de grandes líderes se tornem realidade e não
murchem nas tempestades da guerra. Se isso é o que acontece, então vivemos com uma grande lacuna em
nossa compreensão de como a Segunda Guerra Mundial foi vencida em seus anos cruciais.
KENNEDY, Paul. Engenheiros da Vitória: Os responsáveis pela reviravolta na Segunda Guerra Mundial. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 407- 428 (texto adaptado).
O conectivo “QUE”, utilizado em “Nele, o autor, Malcon Gladwel argumentava que Jobs não era o inventor de uma máquina ou de uma ideia [...]” (texto 1, linhas 18 e 19), é correto afirmar que:Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 2
Fernando Pessoa (1888-1935) foi um dos mais importantes poetas da literatura portuguesa. Criou uma obra de natureza filosófica sobre a consciência e as suas mais profundas inquietações existenciais. Expressou uma personalidade estética multifacetada por meio dos heterônimos, os quais consistiam em várias identidades que detinham biografia e características psicológicas distintas: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares e Álvaro de Campos, um engenheiro naval, a quem se deve a “Ode triunfal”. Esse heterônimo apresenta uma personalidade estética marcada pelas concepções futuristas e pela intenção de assimilar ao eu lírico a realidade exterior, considerada em suas manifestações mais prosaicas, ao mesmo tempo em que aquele se projeta no mundo.
ODE TRIUNFAL
1 À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
5 Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
10 Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
15 Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
20 Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
25 Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
30 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
35 Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrênuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
40 E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
45 Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993), p. 144 (texto adaptado).
Sobre o texto 2, é incorreto afirmar que:Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 2
Fernando Pessoa (1888-1935) foi um dos mais importantes poetas da literatura portuguesa. Criou uma obra de natureza filosófica sobre a consciência e as suas mais profundas inquietações existenciais. Expressou uma personalidade estética multifacetada por meio dos heterônimos, os quais consistiam em várias identidades que detinham biografia e características psicológicas distintas: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares e Álvaro de Campos, um engenheiro naval, a quem se deve a “Ode triunfal”. Esse heterônimo apresenta uma personalidade estética marcada pelas concepções futuristas e pela intenção de assimilar ao eu lírico a realidade exterior, considerada em suas manifestações mais prosaicas, ao mesmo tempo em que aquele se projeta no mundo.
ODE TRIUNFAL
1 À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
5 Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
10 Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
15 Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
20 Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
25 Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
30 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
35 Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrênuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
40 E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
45 Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993), p. 144 (texto adaptado).
Considere o excerto abaixo do texto 2:
“À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.” (linhas 1 a 4)
I. Nos versos acima, constata-se a utilização recorrente da figura de linguagem do quiasmo, no intuito de enfatizar sentidos e de obter assonâncias.
II. No verso “À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica...” o poeta se refere aos procedimentos usados para elaborar seus versos.
III. O vocábulo “fera” (linha 3) é um substantivo que exprime a ideia de eficiência e excelência no desempenho de uma atividade.
Está(ão) correta(s) a(s) assertiva(s):Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 2
Fernando Pessoa (1888-1935) foi um dos mais importantes poetas da literatura portuguesa. Criou uma obra de natureza filosófica sobre a consciência e as suas mais profundas inquietações existenciais. Expressou uma personalidade estética multifacetada por meio dos heterônimos, os quais consistiam em várias identidades que detinham biografia e características psicológicas distintas: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares e Álvaro de Campos, um engenheiro naval, a quem se deve a “Ode triunfal”. Esse heterônimo apresenta uma personalidade estética marcada pelas concepções futuristas e pela intenção de assimilar ao eu lírico a realidade exterior, considerada em suas manifestações mais prosaicas, ao mesmo tempo em que aquele se projeta no mundo.
ODE TRIUNFAL
1 À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
5 Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
10 Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
15 Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
20 Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
25 Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
30 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
35 Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrênuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
40 E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
45 Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993), p. 144 (texto adaptado).
Considere o excerto abaixo do texto 2:
“Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!” (linhas 5 a 9)
À luz da gramática normativa, considere as seguintes afirmações:
I. No trecho “Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!”, são usadas a antonomásia e a onomatopeia, para sugerir a ideia de uma comunicação do eu lírico com as máquinas.
II. O vocábulo “fora (linha 7) é uma expressão modificadora que denota uma circunstância de lugar.
III. Os pontos de exclamação são empregados com a finalidade de exprimir o estado emocional de surpresa do poeta.
Está(ão) correta(s) a(s) assertiva(s):Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 2
Fernando Pessoa (1888-1935) foi um dos mais importantes poetas da literatura portuguesa. Criou uma obra de natureza filosófica sobre a consciência e as suas mais profundas inquietações existenciais. Expressou uma personalidade estética multifacetada por meio dos heterônimos, os quais consistiam em várias identidades que detinham biografia e características psicológicas distintas: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares e Álvaro de Campos, um engenheiro naval, a quem se deve a “Ode triunfal”. Esse heterônimo apresenta uma personalidade estética marcada pelas concepções futuristas e pela intenção de assimilar ao eu lírico a realidade exterior, considerada em suas manifestações mais prosaicas, ao mesmo tempo em que aquele se projeta no mundo.
ODE TRIUNFAL
1 À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
5 Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
10 Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
15 Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
20 Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
25 Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
30 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
35 Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrênuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
40 E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
45 Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993), p. 144 (texto adaptado).
Assinale a alternativa em que a substituição da palavra ciciante (texto 2, linha 40) acarretaria uma inversão de sentido:Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 2
Fernando Pessoa (1888-1935) foi um dos mais importantes poetas da literatura portuguesa. Criou uma obra de natureza filosófica sobre a consciência e as suas mais profundas inquietações existenciais. Expressou uma personalidade estética multifacetada por meio dos heterônimos, os quais consistiam em várias identidades que detinham biografia e características psicológicas distintas: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares e Álvaro de Campos, um engenheiro naval, a quem se deve a “Ode triunfal”. Esse heterônimo apresenta uma personalidade estética marcada pelas concepções futuristas e pela intenção de assimilar ao eu lírico a realidade exterior, considerada em suas manifestações mais prosaicas, ao mesmo tempo em que aquele se projeta no mundo.
ODE TRIUNFAL
1 À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
5 Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
10 Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
15 Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
20 Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
25 Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
30 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
35 Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrênuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
40 E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
45 Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993), p. 144 (texto adaptado).
Em relação ao texto 2, considere as expressões em negrito e assinale a alternativa que evidencia a construção de analogias entre as máquinas e os entes da natureza:
Texto 2
Fernando Pessoa (1888-1935) foi um dos mais importantes poetas da literatura portuguesa. Criou uma obra de natureza filosófica sobre a consciência e as suas mais profundas inquietações existenciais. Expressou uma personalidade estética multifacetada por meio dos heterônimos, os quais consistiam em várias identidades que detinham biografia e características psicológicas distintas: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares e Álvaro de Campos, um engenheiro naval, a quem se deve a “Ode triunfal”. Esse heterônimo apresenta uma personalidade estética marcada pelas concepções futuristas e pela intenção de assimilar ao eu lírico a realidade exterior, considerada em suas manifestações mais prosaicas, ao mesmo tempo em que aquele se projeta no mundo.
ODE TRIUNFAL
1 À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
5 Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
10 Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
15 Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
20 Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
25 Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
30 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
35 Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrênuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
40 E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
45 Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993), p. 144 (texto adaptado).
“Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!” (texto 2, linhas 27 a 32)
Quanto ao segmento do texto 2 apresentado, considere as seguintes afirmações:
I. No segmento em destaque, tomado por sensações vertiginosas, o poeta modernista evidencia um sentimento de fascínio pelas máquinas, assim como o seu desejo de fusão e integração.
II. Em consonância com uma estética romântica tardia, o vocábulo “flora” foi empregado no intuito de postular uma possível reconversão do mundo das máquinas a uma natureza pujante, então vilipendiada.
III. No verso “Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável” (linha 32), a palavra “estupenda” apresenta uma relação de sinonímia com o vocábulo “abundante”.
Está(ão) correta(s) a(s) assertiva(s):Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 1
ENGENHEIROS DA VITÓRIA
Solução de problemas na história
1 [...] Quando se fala na eficiência em conseguir equipamentos de combate e transferir combatentes de A para
B, os britânicos são campeões; certamente isso não foi por causa de alguma inteligência especial, mas pela
ampla experiência em organização e senso crítico depois de enfrentar chances adversas em 1940, juntamente
com a perspectiva de derrota. Aqui a necessidade foi a mãe da invenção. Eles tinham que defender suas cidades,
5 transportar tropas até o Egito, apoiar os gregos, proteger as fronteiras da Índia, trazer os Estados Unidos para a
guerra e depois levar aquele imenso potencial americano para a área da Europa. Era mais um problema a ser
resolvido. Como foi possível fazer com que 2 milhões de soldados americanos, depois de chegar às bases de
Clyde, fossem para bases no sul da Inglaterra preparando-se para o ataque à Normandia, quando a maior parte
das ferrovias britânicas estava ocupada em transportar vagões de carvão para as fábricas de ferro e aço que
10 não podiam parar de produzir?
Como se viu, uma organização composta por pessoas que cresceram decorando os horários da estrada de
ferro de Bradshaw como passatempo pode fazer isso, enquanto os altos comandantes consideravam que tudo
estava garantido porque confiavam na capacidade de seus administradores de nível médio. Churchill acreditava
que o melhor era não se preocupar demais com os problemas, pois tudo se resolveria, isto é, uma maneira havia
15 de ser encontrada, passo a passo.
Há uma outra forma de pensar sobre essa história de soluções de problemas, e ela vem de um exemplo
bem contemporâneo. Em novembro de 2011, enquanto o genial líder da Apple, Steve Jobs, recebia inúmeras
homenagens póstumas, um artigo intrigante foi publicado na revista New Yorker. Nele o autor, Malcom Gladwell,
argumentava que Jobs não era o inventor de uma máquina ou de uma ideia que mudou o mundo; poucos
20 seres o são (exceto talvez Leonardo da Vinci e Thomas Edison). Na verdade, seu brilhantismo estava em
adotar invenções alheias que não deram certo, a partir das quais construía, modificava e fazia aperfeiçoamentos
constantes. Para usar uma linguagem atual, ele era um tweaker, e sua genialidade impulsionou como nunca o
aumento de eficiência dos produtos de sua companhia.
A história do sucesso de Steve Jobs, contudo, não era nova. A chegada da Revolução Industrial do século
25 XVIII na Grã-Bretanha – muito provavelmente a maior revolução para explicar a ascensão do Ocidente – ocorreu
porque o país possuía uma imensa coleção de tweakers em sua cultura que encorajaram o progresso [...]
A história da evolução do tanque T-34 soviético, de um grande pedaço de metal mal projetado e fraco para
uma arma de guerra mortífera, segura e de grande mobilidade, não foi uma história contínua de tweaking? Não
foi esse também o caso do grande bombardeiro americano, o B-29, que no início estava tão mergulhado em
30 dificuldades que chegou a se propor seu cancelamento até que as equipes da Boeing resolveram os problemas?
E as miraculosas histórias do P-51 Mustang, dos tanques de Percy Hobart e de um poderoso sistema de radar
tão pequeno que poderia ser inserido no nariz de um avião patrulha de longa distância e virar a maré na Batalha
do Atlântico? Depois que se unem os diversos pedaços espalhados, tudo se encaixa. Mas todos esses projetos
exigiram tempo e apoio.
35 Na verdade, os administradores de grandes companhias mundiais provavelmente se surpreendam diante,
digamos, do planejamento e orquestração do almirante Ramsay nos cincos desembarques simultâneos no Dia
D e gostariam de poder realizar um décimo do que ele fez.
Em suma, a vitória em grandes guerras sempre requer organização superior, o que, por sua vez, exige
pessoas que possam dirigir essas organizações, não com um interesse apenas moderado, mas da maneira
40 mais competente possível e com estilo que permitirá às pessoas de fora propor ideias novas na busca da vitória.
Os chefes não podem fazer isso tudo sozinhos, por mais que sejam criativos e dotados de energia. É necessário
haver um sistema de apoio, uma cultura de encorajamento, feedbacks eficientes, uma capacidade de aprender
com os revezes, uma habilidade de fazer as coisas acontecerem. E tudo isto tem de ser feito de uma maneira
que seja melhor do que aquela do inimigo. É assim que as guerras são vencidas. [...]
45 O mesmo reconhecimento merecem, por certo, os militares de nível médio que mudaram a Segunda Guerra
Mundial, transformando as agressões do Eixo em 1942 em avanços irreversíveis dos Aliados em 1943-44, e
finalmente destruindo a Alemanha e o Japão. É verdade, alguns desses indivíduos, armamentos e organizações
são reconhecidos, mas em geral de uma forma fragmentada e popularizada. É raro que esses fios isolados sejam
tecidos em conjunto para mostrar como os avanços afetaram as muitas campanhas, fazendo a balança pender
50 para o lado dos Aliados durante o conflito global. Mais raro ainda é a compreensão de como o trabalho desses
vários solucionadores de problemas também precisa ser incluído numa importante “cultura do encorajamento”
para garantir que simples declarações e intenções estratégicas de grandes líderes se tornem realidade e não
murchem nas tempestades da guerra. Se isso é o que acontece, então vivemos com uma grande lacuna em
nossa compreensão de como a Segunda Guerra Mundial foi vencida em seus anos cruciais.
KENNEDY, Paul. Engenheiros da Vitória: Os responsáveis pela reviravolta na Segunda Guerra Mundial. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 407- 428 (texto adaptado).
Texto 2
Fernando Pessoa (1888-1935) foi um dos mais importantes poetas da literatura portuguesa. Criou uma obra de natureza filosófica sobre a consciência e as suas mais profundas inquietações existenciais. Expressou uma personalidade estética multifacetada por meio dos heterônimos, os quais consistiam em várias identidades que detinham biografia e características psicológicas distintas: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares e Álvaro de Campos, um engenheiro naval, a quem se deve a “Ode triunfal”. Esse heterônimo apresenta uma personalidade estética marcada pelas concepções futuristas e pela intenção de assimilar ao eu lírico a realidade exterior, considerada em suas manifestações mais prosaicas, ao mesmo tempo em que aquele se projeta no mundo.
ODE TRIUNFAL
1 À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
5 Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
10 Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
15 Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
20 Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
25 Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
30 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
35 Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrênuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
40 E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
45 Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993), p. 144 (texto adaptado).
Leia atentamente o texto abaixo:
![]()
Nos excertos dos Textos 1 e 2, o par de palavras destacadas estabelece, respectivamente, as relações semânticas de:
Texto 2
Fernando Pessoa (1888-1935) foi um dos mais importantes poetas da literatura portuguesa. Criou uma obra de natureza filosófica sobre a consciência e as suas mais profundas inquietações existenciais. Expressou uma personalidade estética multifacetada por meio dos heterônimos, os quais consistiam em várias identidades que detinham biografia e características psicológicas distintas: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares e Álvaro de Campos, um engenheiro naval, a quem se deve a “Ode triunfal”. Esse heterônimo apresenta uma personalidade estética marcada pelas concepções futuristas e pela intenção de assimilar ao eu lírico a realidade exterior, considerada em suas manifestações mais prosaicas, ao mesmo tempo em que aquele se projeta no mundo.
ODE TRIUNFAL
1 À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
5 Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
10 Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
15 Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
20 Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
25 Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
30 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
35 Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrênuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
40 E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
45 Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993), p. 144 (texto adaptado).
“Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.” (Texto 2, linhas 23 a 25)
À luz da gramática normativa, considere as seguintes afirmações:
![]()
II. Em “Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando”, o emprego das vírgulas se justifica pela enumeração de informações na oração.
III. Em “Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma”, os termos em destaque “de carícias” e “ao corpo” exercem, respectivamente, as funções de: complemento nominal e adjunto adnominal.
Está(ão) correta(s) a(s) assertiva(s):
Texto 2
Fernando Pessoa (1888-1935) foi um dos mais importantes poetas da literatura portuguesa. Criou uma obra de natureza filosófica sobre a consciência e as suas mais profundas inquietações existenciais. Expressou uma personalidade estética multifacetada por meio dos heterônimos, os quais consistiam em várias identidades que detinham biografia e características psicológicas distintas: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares e Álvaro de Campos, um engenheiro naval, a quem se deve a “Ode triunfal”. Esse heterônimo apresenta uma personalidade estética marcada pelas concepções futuristas e pela intenção de assimilar ao eu lírico a realidade exterior, considerada em suas manifestações mais prosaicas, ao mesmo tempo em que aquele se projeta no mundo.
ODE TRIUNFAL
1 À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
5 Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
10 Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
15 Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
20 Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
25 Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
30 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
35 Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrênuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
40 E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
45 Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993), p. 144 (texto adaptado).
Leia atentamente o trecho abaixo do texto 2:
Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrênuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
As palavras em destaque “parte-agente” e “quase-silêncio” são neologismos criados pelo poeta, construídos a partir de:Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 3
Lima Barreto (1881-1922) viveu em um período de intensas transformações sociais no País, marcado pela abolição da escravatura (1888), advento da ordem republicana (1889) e urbanização crescente. Filho de pais negros (o pai era tipógrafo e a mãe, professora), Lima Barreto abordou principalmente os temas e os personagens típicos dos subúrbios cariocas, cruzando os limites da realidade e da ficção. Nessa perspectiva, o conto A nova Califórnia, publicado em 1916, faz uma alusão à Corrida do ouro, nos Estados Unidos, da primeira metade do século XIX, para condenar ironicamente a ganância e a busca do enriquecimento fácil.
Sinopse do conto
Raimundo Flamel, um químico, chega à pequena cidade de Tubiacanga, no Rio de Janeiro. Anos depois, ele encontra uma fórmula secreta capaz de transformar ossos humanos em ouro, o que transformaria profundamente a cidade, até então, ordeira e tranquila. Depois de revelar a sua descoberta, Flamel some misteriosamente. A partir daí, o cemitério é profanado, ocorrendo vários roubos de cadáveres.
A NOVA CALIFÓRNIA
1 Ninguém sabia donde viera aquele homem. O agente do Correio pudera apenas informar que acudia ao
nome de Raimundo Flamel, pois assim era subscrita a correspondência que recebia. E era grande. Quase
diariamente, o carteiro lá ia a um dos extremos da cidade, onde morava o desconhecido, sopesando um maço
alentado de cartas vindas do mundo inteiro, grossas revistas em línguas arrevesadas, livros, pacotes...
5 Quando Fabrício, o pedreiro, voltou de um serviço em casa do novo habitante, todos na venda perguntaram-
lhe que trabalho lhe tinha sido determinado.
– Vou fazer um forno, disse o preto, na sala de jantar.
Imaginem o espanto da pequena cidade de Tubiacanga, ao saber de tão extravagante construção: um forno
na sala de jantar! E, pelos dias seguintes, Fabrício pôde contar que vira balões de vidros, facas sem corte, copos
10 como os da farmácia – um rol de coisas esquisitas a se mostrarem pelas mesas e prateleiras como utensílios
de uma bateria de cozinha em que o próprio diabo cozinhasse. O alarme se fez na vila. Para uns, os mais
adiantados, era um fabricante de moeda falsa; para outros, os crentes e simples, um tipo que tinha parte com o
tinhoso.
Chico da Tirana, o carreiro, quando passava em frente da casa do homem misterioso, ao lado do carro a
15 chiar, e olhava a chaminé da sala de jantar a fumegar, não deixava de persignar-se e rezar um “credo” em voz
baixa; e, não fora a intervenção do farmacêutico, o subdelegado teria ido dar um cerco à casa daquele indivíduo
suspeito, que inquietava a imaginação de toda uma população.
Tomando em consideração as informações de Fabrício, o boticário Bastos concluíra que o desconhecido
devia ser um sábio, um grande químico, refugiado ali para mais sossegadamente levar avante os seus trabalhos
20 científicos.
Homem formado e respeitado na cidade, vereador, médico também, porque o doutor Jerônimo não gostava
de receitar e se fizera sócio da farmácia para mais em paz viver, a opinião de Bastos levou tranquilidade a todas
as consciências e fez com que a população cercasse de uma silenciosa admiração a pessoa do grande químico,
que viera habitar a cidade.
25 De tarde, se o viam a passear pela margem do Tubiacanga, sentando-se aqui e ali, olhando perdidamente
as águas claras do riacho, cismando diante da penetrante melancolia do crepúsculo, todos se descobriam e não
era raro que às “boas noites” acrescentassem “doutor”. E tocava muito o coração daquela gente a profunda
simpatia com que ele tratava as crianças, a maneira pela qual as contemplava, parecendo apiedar-se de que
elas tivessem nascido para sofrer e morrer.
30 Na verdade, era de ver-se, sob a doçura suave da tarde, a bondade de Messias com que ele afagava
aquelas crianças pretas, tão lisas de pele e tão tristes de modos, mergulhadas no seu cativeiro moral, e também
as brancas, de pele baça, gretada e áspera, vivendo amparadas na necessária caquexia dos trópicos.
Por vezes, vinha-lhe vontade de pensar qual a razão de ter Bernardin de Saint-Pierre gasto toda a sua
ternura com Paulo e Virgínia e esquecer-se dos escravos que os cercavam...
35 Em poucos dias a admiração pelo sábio era quase geral, e não o era unicamente porque havia alguém que
não tinha em grande conta os méritos do novo habitante. Capitão Pelino, mestre-escola e redator da Gazeta de
Tubiacanga, órgão local e filiado ao partido situacionista, embirrava com o sábio. “Vocês hão de ver, dizia ele,
quem é esse tipo... Um caloteiro, um aventureiro ou talvez um ladrão fugido do Rio.”
A sua opinião em nada se baseava, ou antes, baseava-se no seu oculto despeito vendo na terra um rival
40 para a fama de sábio de que gozava. Não que Pelino fosse químico, longe disso; mas era sábio, era gramático.
Ninguém escrevia em Tubiacanga que não levasse bordoada do capitão Pelino, e mesmo quando se falava em
algum homem notável lá no Rio, ele não deixava de dizer: “Não há dúvida! O homem tem talento, mas escreve:
‘um outro’, ‘de resto’...”. E contraía os lábios como se tivesse engolido alguma coisa amarga.
Toda a vila de Tubiacanga acostumou-se a respeitar o solene Pelino, que corrigia e emendava as maiores
45 glórias nacionais. Um sábio...
Ao entardecer, depois de ler um pouco o Sotero, o Cândido de Figueiredo ou o Castro Lopes, e de ter
passado mais uma vez a tintura nos cabelos, o velho mestre-escola saía vagarosamente de casa, muito abotoado
no seu paletó de brim mineiro, e encaminhava-se para a botica do Bastos a dar dois dedos de prosa. Conversar
é um modo de dizer, porque era Pelino avaro de palavras, limitando-se tão somente a ouvir. Quando, porém,
50 dos lábios de alguém escapava a menor incorreção de linguagem, intervinha e emendava. “Eu asseguro, dizia o
agente do Correio, que...” Por aí, o mestre-escola intervinha com mansuetude evangélica: “Não diga ‘asseguro’,
senhor Bernardes; em português é garanto”.
E a conversa continuava depois da emenda, para ser de novo interrompida por uma outra. Por essas e outras,
houve muitos palestradores que se afastaram, mas Pelino, indiferente, seguro dos seus deveres, continuava o
55 seu apostolado de vernaculismo. A chegada do sábio veio distraí-lo um pouco da sua missão. Todo o seu esforço
voltava-se agora para combater aquele rival, que surgia tão inopinadamente.
Foram vãs as suas palavras e a sua eloquência: não só Raimundo Flamel pagava em dia as suas contas,
como era generoso – pai da pobreza – e o farmacêutico vira numa revista de específicos seu nome citado como
químico de valor.
BARRETO, Lima. A nova Califórnia e outros contos. São Paulo: Unesp, 2012, p. 11-23 (texto adaptado).
É correto afirmar que o Texto 3:Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 3
Lima Barreto (1881-1922) viveu em um período de intensas transformações sociais no País, marcado pela abolição da escravatura (1888), advento da ordem republicana (1889) e urbanização crescente. Filho de pais negros (o pai era tipógrafo e a mãe, professora), Lima Barreto abordou principalmente os temas e os personagens típicos dos subúrbios cariocas, cruzando os limites da realidade e da ficção. Nessa perspectiva, o conto A nova Califórnia, publicado em 1916, faz uma alusão à Corrida do ouro, nos Estados Unidos, da primeira metade do século XIX, para condenar ironicamente a ganância e a busca do enriquecimento fácil.
Sinopse do conto
Raimundo Flamel, um químico, chega à pequena cidade de Tubiacanga, no Rio de Janeiro. Anos depois, ele encontra uma fórmula secreta capaz de transformar ossos humanos em ouro, o que transformaria profundamente a cidade, até então, ordeira e tranquila. Depois de revelar a sua descoberta, Flamel some misteriosamente. A partir daí, o cemitério é profanado, ocorrendo vários roubos de cadáveres.
A NOVA CALIFÓRNIA
1 Ninguém sabia donde viera aquele homem. O agente do Correio pudera apenas informar que acudia ao
nome de Raimundo Flamel, pois assim era subscrita a correspondência que recebia. E era grande. Quase
diariamente, o carteiro lá ia a um dos extremos da cidade, onde morava o desconhecido, sopesando um maço
alentado de cartas vindas do mundo inteiro, grossas revistas em línguas arrevesadas, livros, pacotes...
5 Quando Fabrício, o pedreiro, voltou de um serviço em casa do novo habitante, todos na venda perguntaram-
lhe que trabalho lhe tinha sido determinado.
– Vou fazer um forno, disse o preto, na sala de jantar.
Imaginem o espanto da pequena cidade de Tubiacanga, ao saber de tão extravagante construção: um forno
na sala de jantar! E, pelos dias seguintes, Fabrício pôde contar que vira balões de vidros, facas sem corte, copos
10 como os da farmácia – um rol de coisas esquisitas a se mostrarem pelas mesas e prateleiras como utensílios
de uma bateria de cozinha em que o próprio diabo cozinhasse. O alarme se fez na vila. Para uns, os mais
adiantados, era um fabricante de moeda falsa; para outros, os crentes e simples, um tipo que tinha parte com o
tinhoso.
Chico da Tirana, o carreiro, quando passava em frente da casa do homem misterioso, ao lado do carro a
15 chiar, e olhava a chaminé da sala de jantar a fumegar, não deixava de persignar-se e rezar um “credo” em voz
baixa; e, não fora a intervenção do farmacêutico, o subdelegado teria ido dar um cerco à casa daquele indivíduo
suspeito, que inquietava a imaginação de toda uma população.
Tomando em consideração as informações de Fabrício, o boticário Bastos concluíra que o desconhecido
devia ser um sábio, um grande químico, refugiado ali para mais sossegadamente levar avante os seus trabalhos
20 científicos.
Homem formado e respeitado na cidade, vereador, médico também, porque o doutor Jerônimo não gostava
de receitar e se fizera sócio da farmácia para mais em paz viver, a opinião de Bastos levou tranquilidade a todas
as consciências e fez com que a população cercasse de uma silenciosa admiração a pessoa do grande químico,
que viera habitar a cidade.
25 De tarde, se o viam a passear pela margem do Tubiacanga, sentando-se aqui e ali, olhando perdidamente
as águas claras do riacho, cismando diante da penetrante melancolia do crepúsculo, todos se descobriam e não
era raro que às “boas noites” acrescentassem “doutor”. E tocava muito o coração daquela gente a profunda
simpatia com que ele tratava as crianças, a maneira pela qual as contemplava, parecendo apiedar-se de que
elas tivessem nascido para sofrer e morrer.
30 Na verdade, era de ver-se, sob a doçura suave da tarde, a bondade de Messias com que ele afagava
aquelas crianças pretas, tão lisas de pele e tão tristes de modos, mergulhadas no seu cativeiro moral, e também
as brancas, de pele baça, gretada e áspera, vivendo amparadas na necessária caquexia dos trópicos.
Por vezes, vinha-lhe vontade de pensar qual a razão de ter Bernardin de Saint-Pierre gasto toda a sua
ternura com Paulo e Virgínia e esquecer-se dos escravos que os cercavam...
35 Em poucos dias a admiração pelo sábio era quase geral, e não o era unicamente porque havia alguém que
não tinha em grande conta os méritos do novo habitante. Capitão Pelino, mestre-escola e redator da Gazeta de
Tubiacanga, órgão local e filiado ao partido situacionista, embirrava com o sábio. “Vocês hão de ver, dizia ele,
quem é esse tipo... Um caloteiro, um aventureiro ou talvez um ladrão fugido do Rio.”
A sua opinião em nada se baseava, ou antes, baseava-se no seu oculto despeito vendo na terra um rival
40 para a fama de sábio de que gozava. Não que Pelino fosse químico, longe disso; mas era sábio, era gramático.
Ninguém escrevia em Tubiacanga que não levasse bordoada do capitão Pelino, e mesmo quando se falava em
algum homem notável lá no Rio, ele não deixava de dizer: “Não há dúvida! O homem tem talento, mas escreve:
‘um outro’, ‘de resto’...”. E contraía os lábios como se tivesse engolido alguma coisa amarga.
Toda a vila de Tubiacanga acostumou-se a respeitar o solene Pelino, que corrigia e emendava as maiores
45 glórias nacionais. Um sábio...
Ao entardecer, depois de ler um pouco o Sotero, o Cândido de Figueiredo ou o Castro Lopes, e de ter
passado mais uma vez a tintura nos cabelos, o velho mestre-escola saía vagarosamente de casa, muito abotoado
no seu paletó de brim mineiro, e encaminhava-se para a botica do Bastos a dar dois dedos de prosa. Conversar
é um modo de dizer, porque era Pelino avaro de palavras, limitando-se tão somente a ouvir. Quando, porém,
50 dos lábios de alguém escapava a menor incorreção de linguagem, intervinha e emendava. “Eu asseguro, dizia o
agente do Correio, que...” Por aí, o mestre-escola intervinha com mansuetude evangélica: “Não diga ‘asseguro’,
senhor Bernardes; em português é garanto”.
E a conversa continuava depois da emenda, para ser de novo interrompida por uma outra. Por essas e outras,
houve muitos palestradores que se afastaram, mas Pelino, indiferente, seguro dos seus deveres, continuava o
55 seu apostolado de vernaculismo. A chegada do sábio veio distraí-lo um pouco da sua missão. Todo o seu esforço
voltava-se agora para combater aquele rival, que surgia tão inopinadamente.
Foram vãs as suas palavras e a sua eloquência: não só Raimundo Flamel pagava em dia as suas contas,
como era generoso – pai da pobreza – e o farmacêutico vira numa revista de específicos seu nome citado como
químico de valor.
BARRETO, Lima. A nova Califórnia e outros contos. São Paulo: Unesp, 2012, p. 11-23 (texto adaptado).
Entre os recursos semânticos utilizados no texto 3 para a obtenção de diferentes efeitos de sentidos, assinale a opção correta relacionada à classificação da figura de linguagem encontrada no trecho abaixo:
“[...] Ao entardecer, depois de ler um pouco o Sotero”. (texto 3, linha 46)Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 3
Lima Barreto (1881-1922) viveu em um período de intensas transformações sociais no País, marcado pela abolição da escravatura (1888), advento da ordem republicana (1889) e urbanização crescente. Filho de pais negros (o pai era tipógrafo e a mãe, professora), Lima Barreto abordou principalmente os temas e os personagens típicos dos subúrbios cariocas, cruzando os limites da realidade e da ficção. Nessa perspectiva, o conto A nova Califórnia, publicado em 1916, faz uma alusão à Corrida do ouro, nos Estados Unidos, da primeira metade do século XIX, para condenar ironicamente a ganância e a busca do enriquecimento fácil.
Sinopse do conto
Raimundo Flamel, um químico, chega à pequena cidade de Tubiacanga, no Rio de Janeiro. Anos depois, ele encontra uma fórmula secreta capaz de transformar ossos humanos em ouro, o que transformaria profundamente a cidade, até então, ordeira e tranquila. Depois de revelar a sua descoberta, Flamel some misteriosamente. A partir daí, o cemitério é profanado, ocorrendo vários roubos de cadáveres.
A NOVA CALIFÓRNIA
1 Ninguém sabia donde viera aquele homem. O agente do Correio pudera apenas informar que acudia ao
nome de Raimundo Flamel, pois assim era subscrita a correspondência que recebia. E era grande. Quase
diariamente, o carteiro lá ia a um dos extremos da cidade, onde morava o desconhecido, sopesando um maço
alentado de cartas vindas do mundo inteiro, grossas revistas em línguas arrevesadas, livros, pacotes...
5 Quando Fabrício, o pedreiro, voltou de um serviço em casa do novo habitante, todos na venda perguntaram-
lhe que trabalho lhe tinha sido determinado.
– Vou fazer um forno, disse o preto, na sala de jantar.
Imaginem o espanto da pequena cidade de Tubiacanga, ao saber de tão extravagante construção: um forno
na sala de jantar! E, pelos dias seguintes, Fabrício pôde contar que vira balões de vidros, facas sem corte, copos
10 como os da farmácia – um rol de coisas esquisitas a se mostrarem pelas mesas e prateleiras como utensílios
de uma bateria de cozinha em que o próprio diabo cozinhasse. O alarme se fez na vila. Para uns, os mais
adiantados, era um fabricante de moeda falsa; para outros, os crentes e simples, um tipo que tinha parte com o
tinhoso.
Chico da Tirana, o carreiro, quando passava em frente da casa do homem misterioso, ao lado do carro a
15 chiar, e olhava a chaminé da sala de jantar a fumegar, não deixava de persignar-se e rezar um “credo” em voz
baixa; e, não fora a intervenção do farmacêutico, o subdelegado teria ido dar um cerco à casa daquele indivíduo
suspeito, que inquietava a imaginação de toda uma população.
Tomando em consideração as informações de Fabrício, o boticário Bastos concluíra que o desconhecido
devia ser um sábio, um grande químico, refugiado ali para mais sossegadamente levar avante os seus trabalhos
20 científicos.
Homem formado e respeitado na cidade, vereador, médico também, porque o doutor Jerônimo não gostava
de receitar e se fizera sócio da farmácia para mais em paz viver, a opinião de Bastos levou tranquilidade a todas
as consciências e fez com que a população cercasse de uma silenciosa admiração a pessoa do grande químico,
que viera habitar a cidade.
25 De tarde, se o viam a passear pela margem do Tubiacanga, sentando-se aqui e ali, olhando perdidamente
as águas claras do riacho, cismando diante da penetrante melancolia do crepúsculo, todos se descobriam e não
era raro que às “boas noites” acrescentassem “doutor”. E tocava muito o coração daquela gente a profunda
simpatia com que ele tratava as crianças, a maneira pela qual as contemplava, parecendo apiedar-se de que
elas tivessem nascido para sofrer e morrer.
30 Na verdade, era de ver-se, sob a doçura suave da tarde, a bondade de Messias com que ele afagava
aquelas crianças pretas, tão lisas de pele e tão tristes de modos, mergulhadas no seu cativeiro moral, e também
as brancas, de pele baça, gretada e áspera, vivendo amparadas na necessária caquexia dos trópicos.
Por vezes, vinha-lhe vontade de pensar qual a razão de ter Bernardin de Saint-Pierre gasto toda a sua
ternura com Paulo e Virgínia e esquecer-se dos escravos que os cercavam...
35 Em poucos dias a admiração pelo sábio era quase geral, e não o era unicamente porque havia alguém que
não tinha em grande conta os méritos do novo habitante. Capitão Pelino, mestre-escola e redator da Gazeta de
Tubiacanga, órgão local e filiado ao partido situacionista, embirrava com o sábio. “Vocês hão de ver, dizia ele,
quem é esse tipo... Um caloteiro, um aventureiro ou talvez um ladrão fugido do Rio.”
A sua opinião em nada se baseava, ou antes, baseava-se no seu oculto despeito vendo na terra um rival
40 para a fama de sábio de que gozava. Não que Pelino fosse químico, longe disso; mas era sábio, era gramático.
Ninguém escrevia em Tubiacanga que não levasse bordoada do capitão Pelino, e mesmo quando se falava em
algum homem notável lá no Rio, ele não deixava de dizer: “Não há dúvida! O homem tem talento, mas escreve:
‘um outro’, ‘de resto’...”. E contraía os lábios como se tivesse engolido alguma coisa amarga.
Toda a vila de Tubiacanga acostumou-se a respeitar o solene Pelino, que corrigia e emendava as maiores
45 glórias nacionais. Um sábio...
Ao entardecer, depois de ler um pouco o Sotero, o Cândido de Figueiredo ou o Castro Lopes, e de ter
passado mais uma vez a tintura nos cabelos, o velho mestre-escola saía vagarosamente de casa, muito abotoado
no seu paletó de brim mineiro, e encaminhava-se para a botica do Bastos a dar dois dedos de prosa. Conversar
é um modo de dizer, porque era Pelino avaro de palavras, limitando-se tão somente a ouvir. Quando, porém,
50 dos lábios de alguém escapava a menor incorreção de linguagem, intervinha e emendava. “Eu asseguro, dizia o
agente do Correio, que...” Por aí, o mestre-escola intervinha com mansuetude evangélica: “Não diga ‘asseguro’,
senhor Bernardes; em português é garanto”.
E a conversa continuava depois da emenda, para ser de novo interrompida por uma outra. Por essas e outras,
houve muitos palestradores que se afastaram, mas Pelino, indiferente, seguro dos seus deveres, continuava o
55 seu apostolado de vernaculismo. A chegada do sábio veio distraí-lo um pouco da sua missão. Todo o seu esforço
voltava-se agora para combater aquele rival, que surgia tão inopinadamente.
Foram vãs as suas palavras e a sua eloquência: não só Raimundo Flamel pagava em dia as suas contas,
como era generoso – pai da pobreza – e o farmacêutico vira numa revista de específicos seu nome citado como
químico de valor.
BARRETO, Lima. A nova Califórnia e outros contos. São Paulo: Unesp, 2012, p. 11-23 (texto adaptado).
“A palavra literária não é um ponto, um sentido fixo, mas um cruzamento de superfícies textuais” (KRISTEVA, Júlia. Introdução à Seminálise. São Paulo: Debates, 1969).
A esse respeito, no texto 3, pode-se dizer que o procedimento intertextual empregado no uso da expressão de referência religiosa “bondade de Messias”, relativa à pessoa de Raimundo Flamel, serviu, do ponto de vista da construção da narrativa, para
I. demonstrar a formação religiosa exemplar do forasteiro, que passou a ser reconhecida por todos, de acordo com o narrador.
II. evidenciar o consenso favorável construído pelos habitantes de Tubiacanga sobre o sábio, depois de algum tempo, na perspectiva do narrador.
III. marcar o confronto entre a mediocridade da cidade e a alta estatura moral de Raimundo Flamel, segundo o narrador.
Está(ão) correta(s) a(s) assertiva(s):Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 3
Lima Barreto (1881-1922) viveu em um período de intensas transformações sociais no País, marcado pela abolição da escravatura (1888), advento da ordem republicana (1889) e urbanização crescente. Filho de pais negros (o pai era tipógrafo e a mãe, professora), Lima Barreto abordou principalmente os temas e os personagens típicos dos subúrbios cariocas, cruzando os limites da realidade e da ficção. Nessa perspectiva, o conto A nova Califórnia, publicado em 1916, faz uma alusão à Corrida do ouro, nos Estados Unidos, da primeira metade do século XIX, para condenar ironicamente a ganância e a busca do enriquecimento fácil.
Sinopse do conto
Raimundo Flamel, um químico, chega à pequena cidade de Tubiacanga, no Rio de Janeiro. Anos depois, ele encontra uma fórmula secreta capaz de transformar ossos humanos em ouro, o que transformaria profundamente a cidade, até então, ordeira e tranquila. Depois de revelar a sua descoberta, Flamel some misteriosamente. A partir daí, o cemitério é profanado, ocorrendo vários roubos de cadáveres.
A NOVA CALIFÓRNIA
1 Ninguém sabia donde viera aquele homem. O agente do Correio pudera apenas informar que acudia ao
nome de Raimundo Flamel, pois assim era subscrita a correspondência que recebia. E era grande. Quase
diariamente, o carteiro lá ia a um dos extremos da cidade, onde morava o desconhecido, sopesando um maço
alentado de cartas vindas do mundo inteiro, grossas revistas em línguas arrevesadas, livros, pacotes...
5 Quando Fabrício, o pedreiro, voltou de um serviço em casa do novo habitante, todos na venda perguntaram-
lhe que trabalho lhe tinha sido determinado.
– Vou fazer um forno, disse o preto, na sala de jantar.
Imaginem o espanto da pequena cidade de Tubiacanga, ao saber de tão extravagante construção: um forno
na sala de jantar! E, pelos dias seguintes, Fabrício pôde contar que vira balões de vidros, facas sem corte, copos
10 como os da farmácia – um rol de coisas esquisitas a se mostrarem pelas mesas e prateleiras como utensílios
de uma bateria de cozinha em que o próprio diabo cozinhasse. O alarme se fez na vila. Para uns, os mais
adiantados, era um fabricante de moeda falsa; para outros, os crentes e simples, um tipo que tinha parte com o
tinhoso.
Chico da Tirana, o carreiro, quando passava em frente da casa do homem misterioso, ao lado do carro a
15 chiar, e olhava a chaminé da sala de jantar a fumegar, não deixava de persignar-se e rezar um “credo” em voz
baixa; e, não fora a intervenção do farmacêutico, o subdelegado teria ido dar um cerco à casa daquele indivíduo
suspeito, que inquietava a imaginação de toda uma população.
Tomando em consideração as informações de Fabrício, o boticário Bastos concluíra que o desconhecido
devia ser um sábio, um grande químico, refugiado ali para mais sossegadamente levar avante os seus trabalhos
20 científicos.
Homem formado e respeitado na cidade, vereador, médico também, porque o doutor Jerônimo não gostava
de receitar e se fizera sócio da farmácia para mais em paz viver, a opinião de Bastos levou tranquilidade a todas
as consciências e fez com que a população cercasse de uma silenciosa admiração a pessoa do grande químico,
que viera habitar a cidade.
25 De tarde, se o viam a passear pela margem do Tubiacanga, sentando-se aqui e ali, olhando perdidamente
as águas claras do riacho, cismando diante da penetrante melancolia do crepúsculo, todos se descobriam e não
era raro que às “boas noites” acrescentassem “doutor”. E tocava muito o coração daquela gente a profunda
simpatia com que ele tratava as crianças, a maneira pela qual as contemplava, parecendo apiedar-se de que
elas tivessem nascido para sofrer e morrer.
30 Na verdade, era de ver-se, sob a doçura suave da tarde, a bondade de Messias com que ele afagava
aquelas crianças pretas, tão lisas de pele e tão tristes de modos, mergulhadas no seu cativeiro moral, e também
as brancas, de pele baça, gretada e áspera, vivendo amparadas na necessária caquexia dos trópicos.
Por vezes, vinha-lhe vontade de pensar qual a razão de ter Bernardin de Saint-Pierre gasto toda a sua
ternura com Paulo e Virgínia e esquecer-se dos escravos que os cercavam...
35 Em poucos dias a admiração pelo sábio era quase geral, e não o era unicamente porque havia alguém que
não tinha em grande conta os méritos do novo habitante. Capitão Pelino, mestre-escola e redator da Gazeta de
Tubiacanga, órgão local e filiado ao partido situacionista, embirrava com o sábio. “Vocês hão de ver, dizia ele,
quem é esse tipo... Um caloteiro, um aventureiro ou talvez um ladrão fugido do Rio.”
A sua opinião em nada se baseava, ou antes, baseava-se no seu oculto despeito vendo na terra um rival
40 para a fama de sábio de que gozava. Não que Pelino fosse químico, longe disso; mas era sábio, era gramático.
Ninguém escrevia em Tubiacanga que não levasse bordoada do capitão Pelino, e mesmo quando se falava em
algum homem notável lá no Rio, ele não deixava de dizer: “Não há dúvida! O homem tem talento, mas escreve:
‘um outro’, ‘de resto’...”. E contraía os lábios como se tivesse engolido alguma coisa amarga.
Toda a vila de Tubiacanga acostumou-se a respeitar o solene Pelino, que corrigia e emendava as maiores
45 glórias nacionais. Um sábio...
Ao entardecer, depois de ler um pouco o Sotero, o Cândido de Figueiredo ou o Castro Lopes, e de ter
passado mais uma vez a tintura nos cabelos, o velho mestre-escola saía vagarosamente de casa, muito abotoado
no seu paletó de brim mineiro, e encaminhava-se para a botica do Bastos a dar dois dedos de prosa. Conversar
é um modo de dizer, porque era Pelino avaro de palavras, limitando-se tão somente a ouvir. Quando, porém,
50 dos lábios de alguém escapava a menor incorreção de linguagem, intervinha e emendava. “Eu asseguro, dizia o
agente do Correio, que...” Por aí, o mestre-escola intervinha com mansuetude evangélica: “Não diga ‘asseguro’,
senhor Bernardes; em português é garanto”.
E a conversa continuava depois da emenda, para ser de novo interrompida por uma outra. Por essas e outras,
houve muitos palestradores que se afastaram, mas Pelino, indiferente, seguro dos seus deveres, continuava o
55 seu apostolado de vernaculismo. A chegada do sábio veio distraí-lo um pouco da sua missão. Todo o seu esforço
voltava-se agora para combater aquele rival, que surgia tão inopinadamente.
Foram vãs as suas palavras e a sua eloquência: não só Raimundo Flamel pagava em dia as suas contas,
como era generoso – pai da pobreza – e o farmacêutico vira numa revista de específicos seu nome citado como
químico de valor.
BARRETO, Lima. A nova Califórnia e outros contos. São Paulo: Unesp, 2012, p. 11-23 (texto adaptado).
“Conversar é um modo de dizer, porque era Pelino avaro de palavras, limitando-se tão somente a ouvir.” (texto 3, linhas 48 e 49)
Segundo os preceitos da gramática normativa, a única alternativa, dentre as citadas abaixo, em que todos os vocábulos possuem o acento prosódico diferente do encontrado na palavra em destaque “avaro” é:Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 3
Lima Barreto (1881-1922) viveu em um período de intensas transformações sociais no País, marcado pela abolição da escravatura (1888), advento da ordem republicana (1889) e urbanização crescente. Filho de pais negros (o pai era tipógrafo e a mãe, professora), Lima Barreto abordou principalmente os temas e os personagens típicos dos subúrbios cariocas, cruzando os limites da realidade e da ficção. Nessa perspectiva, o conto A nova Califórnia, publicado em 1916, faz uma alusão à Corrida do ouro, nos Estados Unidos, da primeira metade do século XIX, para condenar ironicamente a ganância e a busca do enriquecimento fácil.
Sinopse do conto
Raimundo Flamel, um químico, chega à pequena cidade de Tubiacanga, no Rio de Janeiro. Anos depois, ele encontra uma fórmula secreta capaz de transformar ossos humanos em ouro, o que transformaria profundamente a cidade, até então, ordeira e tranquila. Depois de revelar a sua descoberta, Flamel some misteriosamente. A partir daí, o cemitério é profanado, ocorrendo vários roubos de cadáveres.
A NOVA CALIFÓRNIA
1 Ninguém sabia donde viera aquele homem. O agente do Correio pudera apenas informar que acudia ao
nome de Raimundo Flamel, pois assim era subscrita a correspondência que recebia. E era grande. Quase
diariamente, o carteiro lá ia a um dos extremos da cidade, onde morava o desconhecido, sopesando um maço
alentado de cartas vindas do mundo inteiro, grossas revistas em línguas arrevesadas, livros, pacotes...
5 Quando Fabrício, o pedreiro, voltou de um serviço em casa do novo habitante, todos na venda perguntaram-
lhe que trabalho lhe tinha sido determinado.
– Vou fazer um forno, disse o preto, na sala de jantar.
Imaginem o espanto da pequena cidade de Tubiacanga, ao saber de tão extravagante construção: um forno
na sala de jantar! E, pelos dias seguintes, Fabrício pôde contar que vira balões de vidros, facas sem corte, copos
10 como os da farmácia – um rol de coisas esquisitas a se mostrarem pelas mesas e prateleiras como utensílios
de uma bateria de cozinha em que o próprio diabo cozinhasse. O alarme se fez na vila. Para uns, os mais
adiantados, era um fabricante de moeda falsa; para outros, os crentes e simples, um tipo que tinha parte com o
tinhoso.
Chico da Tirana, o carreiro, quando passava em frente da casa do homem misterioso, ao lado do carro a
15 chiar, e olhava a chaminé da sala de jantar a fumegar, não deixava de persignar-se e rezar um “credo” em voz
baixa; e, não fora a intervenção do farmacêutico, o subdelegado teria ido dar um cerco à casa daquele indivíduo
suspeito, que inquietava a imaginação de toda uma população.
Tomando em consideração as informações de Fabrício, o boticário Bastos concluíra que o desconhecido
devia ser um sábio, um grande químico, refugiado ali para mais sossegadamente levar avante os seus trabalhos
20 científicos.
Homem formado e respeitado na cidade, vereador, médico também, porque o doutor Jerônimo não gostava
de receitar e se fizera sócio da farmácia para mais em paz viver, a opinião de Bastos levou tranquilidade a todas
as consciências e fez com que a população cercasse de uma silenciosa admiração a pessoa do grande químico,
que viera habitar a cidade.
25 De tarde, se o viam a passear pela margem do Tubiacanga, sentando-se aqui e ali, olhando perdidamente
as águas claras do riacho, cismando diante da penetrante melancolia do crepúsculo, todos se descobriam e não
era raro que às “boas noites” acrescentassem “doutor”. E tocava muito o coração daquela gente a profunda
simpatia com que ele tratava as crianças, a maneira pela qual as contemplava, parecendo apiedar-se de que
elas tivessem nascido para sofrer e morrer.
30 Na verdade, era de ver-se, sob a doçura suave da tarde, a bondade de Messias com que ele afagava
aquelas crianças pretas, tão lisas de pele e tão tristes de modos, mergulhadas no seu cativeiro moral, e também
as brancas, de pele baça, gretada e áspera, vivendo amparadas na necessária caquexia dos trópicos.
Por vezes, vinha-lhe vontade de pensar qual a razão de ter Bernardin de Saint-Pierre gasto toda a sua
ternura com Paulo e Virgínia e esquecer-se dos escravos que os cercavam...
35 Em poucos dias a admiração pelo sábio era quase geral, e não o era unicamente porque havia alguém que
não tinha em grande conta os méritos do novo habitante. Capitão Pelino, mestre-escola e redator da Gazeta de
Tubiacanga, órgão local e filiado ao partido situacionista, embirrava com o sábio. “Vocês hão de ver, dizia ele,
quem é esse tipo... Um caloteiro, um aventureiro ou talvez um ladrão fugido do Rio.”
A sua opinião em nada se baseava, ou antes, baseava-se no seu oculto despeito vendo na terra um rival
40 para a fama de sábio de que gozava. Não que Pelino fosse químico, longe disso; mas era sábio, era gramático.
Ninguém escrevia em Tubiacanga que não levasse bordoada do capitão Pelino, e mesmo quando se falava em
algum homem notável lá no Rio, ele não deixava de dizer: “Não há dúvida! O homem tem talento, mas escreve:
‘um outro’, ‘de resto’...”. E contraía os lábios como se tivesse engolido alguma coisa amarga.
Toda a vila de Tubiacanga acostumou-se a respeitar o solene Pelino, que corrigia e emendava as maiores
45 glórias nacionais. Um sábio...
Ao entardecer, depois de ler um pouco o Sotero, o Cândido de Figueiredo ou o Castro Lopes, e de ter
passado mais uma vez a tintura nos cabelos, o velho mestre-escola saía vagarosamente de casa, muito abotoado
no seu paletó de brim mineiro, e encaminhava-se para a botica do Bastos a dar dois dedos de prosa. Conversar
é um modo de dizer, porque era Pelino avaro de palavras, limitando-se tão somente a ouvir. Quando, porém,
50 dos lábios de alguém escapava a menor incorreção de linguagem, intervinha e emendava. “Eu asseguro, dizia o
agente do Correio, que...” Por aí, o mestre-escola intervinha com mansuetude evangélica: “Não diga ‘asseguro’,
senhor Bernardes; em português é garanto”.
E a conversa continuava depois da emenda, para ser de novo interrompida por uma outra. Por essas e outras,
houve muitos palestradores que se afastaram, mas Pelino, indiferente, seguro dos seus deveres, continuava o
55 seu apostolado de vernaculismo. A chegada do sábio veio distraí-lo um pouco da sua missão. Todo o seu esforço
voltava-se agora para combater aquele rival, que surgia tão inopinadamente.
Foram vãs as suas palavras e a sua eloquência: não só Raimundo Flamel pagava em dia as suas contas,
como era generoso – pai da pobreza – e o farmacêutico vira numa revista de específicos seu nome citado como
químico de valor.
BARRETO, Lima. A nova Califórnia e outros contos. São Paulo: Unesp, 2012, p. 11-23 (texto adaptado).
Leia atentamente o excerto do texto 3:
“Na verdade, era de ver-se, sob a doçura suave da tarde, a bondade de Messias com que ele afagava aquelas crianças pretas, tão lisas de pele e tão tristes de modos, mergulhadas no seu cativeiro moral, e também as brancas, de pele baça, gretada e áspera, vivendo amparadas na necessária caquexia dos trópicos.”
No texto, a expressão “caquexia dos trópicos”, típica de uma visão determinista e evolucionista,Resolução comentada
Análise das alternativas
Texto 1
ENGENHEIROS DA VITÓRIA
Solução de problemas na história
1 [...] Quando se fala na eficiência em conseguir equipamentos de combate e transferir combatentes de A para
B, os britânicos são campeões; certamente isso não foi por causa de alguma inteligência especial, mas pela
ampla experiência em organização e senso crítico depois de enfrentar chances adversas em 1940, juntamente
com a perspectiva de derrota. Aqui a necessidade foi a mãe da invenção. Eles tinham que defender suas cidades,
5 transportar tropas até o Egito, apoiar os gregos, proteger as fronteiras da Índia, trazer os Estados Unidos para a
guerra e depois levar aquele imenso potencial americano para a área da Europa. Era mais um problema a ser
resolvido. Como foi possível fazer com que 2 milhões de soldados americanos, depois de chegar às bases de
Clyde, fossem para bases no sul da Inglaterra preparando-se para o ataque à Normandia, quando a maior parte
das ferrovias britânicas estava ocupada em transportar vagões de carvão para as fábricas de ferro e aço que
10 não podiam parar de produzir?
Como se viu, uma organização composta por pessoas que cresceram decorando os horários da estrada de
ferro de Bradshaw como passatempo pode fazer isso, enquanto os altos comandantes consideravam que tudo
estava garantido porque confiavam na capacidade de seus administradores de nível médio. Churchill acreditava
que o melhor era não se preocupar demais com os problemas, pois tudo se resolveria, isto é, uma maneira havia
15 de ser encontrada, passo a passo.
Há uma outra forma de pensar sobre essa história de soluções de problemas, e ela vem de um exemplo
bem contemporâneo. Em novembro de 2011, enquanto o genial líder da Apple, Steve Jobs, recebia inúmeras
homenagens póstumas, um artigo intrigante foi publicado na revista New Yorker. Nele o autor, Malcom Gladwell,
argumentava que Jobs não era o inventor de uma máquina ou de uma ideia que mudou o mundo; poucos
20 seres o são (exceto talvez Leonardo da Vinci e Thomas Edison). Na verdade, seu brilhantismo estava em
adotar invenções alheias que não deram certo, a partir das quais construía, modificava e fazia aperfeiçoamentos
constantes. Para usar uma linguagem atual, ele era um tweaker, e sua genialidade impulsionou como nunca o
aumento de eficiência dos produtos de sua companhia.
A história do sucesso de Steve Jobs, contudo, não era nova. A chegada da Revolução Industrial do século
25 XVIII na Grã-Bretanha – muito provavelmente a maior revolução para explicar a ascensão do Ocidente – ocorreu
porque o país possuía uma imensa coleção de tweakers em sua cultura que encorajaram o progresso [...]
A história da evolução do tanque T-34 soviético, de um grande pedaço de metal mal projetado e fraco para
uma arma de guerra mortífera, segura e de grande mobilidade, não foi uma história contínua de tweaking? Não
foi esse também o caso do grande bombardeiro americano, o B-29, que no início estava tão mergulhado em
30 dificuldades que chegou a se propor seu cancelamento até que as equipes da Boeing resolveram os problemas?
E as miraculosas histórias do P-51 Mustang, dos tanques de Percy Hobart e de um poderoso sistema de radar
tão pequeno que poderia ser inserido no nariz de um avião patrulha de longa distância e virar a maré na Batalha
do Atlântico? Depois que se unem os diversos pedaços espalhados, tudo se encaixa. Mas todos esses projetos
exigiram tempo e apoio.
35 Na verdade, os administradores de grandes companhias mundiais provavelmente se surpreendam diante,
digamos, do planejamento e orquestração do almirante Ramsay nos cincos desembarques simultâneos no Dia
D e gostariam de poder realizar um décimo do que ele fez.
Em suma, a vitória em grandes guerras sempre requer organização superior, o que, por sua vez, exige
pessoas que possam dirigir essas organizações, não com um interesse apenas moderado, mas da maneira
40 mais competente possível e com estilo que permitirá às pessoas de fora propor ideias novas na busca da vitória.
Os chefes não podem fazer isso tudo sozinhos, por mais que sejam criativos e dotados de energia. É necessário
haver um sistema de apoio, uma cultura de encorajamento, feedbacks eficientes, uma capacidade de aprender
com os revezes, uma habilidade de fazer as coisas acontecerem. E tudo isto tem de ser feito de uma maneira
que seja melhor do que aquela do inimigo. É assim que as guerras são vencidas. [...]
45 O mesmo reconhecimento merecem, por certo, os militares de nível médio que mudaram a Segunda Guerra
Mundial, transformando as agressões do Eixo em 1942 em avanços irreversíveis dos Aliados em 1943-44, e
finalmente destruindo a Alemanha e o Japão. É verdade, alguns desses indivíduos, armamentos e organizações
são reconhecidos, mas em geral de uma forma fragmentada e popularizada. É raro que esses fios isolados sejam
tecidos em conjunto para mostrar como os avanços afetaram as muitas campanhas, fazendo a balança pender
50 para o lado dos Aliados durante o conflito global. Mais raro ainda é a compreensão de como o trabalho desses
vários solucionadores de problemas também precisa ser incluído numa importante “cultura do encorajamento”
para garantir que simples declarações e intenções estratégicas de grandes líderes se tornem realidade e não
murchem nas tempestades da guerra. Se isso é o que acontece, então vivemos com uma grande lacuna em
nossa compreensão de como a Segunda Guerra Mundial foi vencida em seus anos cruciais.
KENNEDY, Paul. Engenheiros da Vitória: Os responsáveis pela reviravolta na Segunda Guerra Mundial. 1ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, p. 407- 428 (texto adaptado).
Texto 2
Fernando Pessoa (1888-1935) foi um dos mais importantes poetas da literatura portuguesa. Criou uma obra de natureza filosófica sobre a consciência e as suas mais profundas inquietações existenciais. Expressou uma personalidade estética multifacetada por meio dos heterônimos, os quais consistiam em várias identidades que detinham biografia e características psicológicas distintas: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Bernardo Soares e Álvaro de Campos, um engenheiro naval, a quem se deve a “Ode triunfal”. Esse heterônimo apresenta uma personalidade estética marcada pelas concepções futuristas e pela intenção de assimilar ao eu lírico a realidade exterior, considerada em suas manifestações mais prosaicas, ao mesmo tempo em que aquele se projeta no mundo.
ODE TRIUNFAL
1 À dolorosa luz das grandes lâmpadas eléctricas da fábrica
Tenho febre e escrevo.
Escrevo rangendo os dentes, fera para a beleza disto,
Para a beleza disto totalmente desconhecida dos antigos.
5 Ó rodas, ó engrenagens, r-r-r-r-r-r-r eterno!
Forte espasmo retido dos maquinismos em fúria!
Em fúria fora e dentro de mim,
Por todos os meus nervos dissecados fora,
Por todas as papilas fora de tudo com que eu sinto!
10 Tenho os lábios secos, ó grandes ruídos modernos,
De vos ouvir demasiadamente de perto,
E arde-me a cabeça de vos querer cantar com um excesso
De expressão de todas as minhas sensações,
Com um excesso contemporâneo de vós, ó máquinas!
15 Em febre e olhando os motores como a uma Natureza tropical —
Grandes trópicos humanos de ferro e fogo e força —
Canto, e canto o presente, e também o passado e o futuro,
Porque o presente é todo o passado e todo o futuro
E há Platão e Virgílio dentro das máquinas e das luzes eléctricas
20 Só porque houve outrora e foram humanos Virgílio e Platão,
E pedaços do Alexandre Magno do século talvez cinquenta,
Átomos que hão-de ir ter febre para o cérebro do Ésquilo do século cem,
Andam por estas correias de transmissão e por estes êmbolos e por estes volantes,
Rugindo, rangendo, ciciando, estrugindo, ferreando,
25 Fazendo-me um acesso de carícias ao corpo numa só carícia à alma.
Ah, poder exprimir-me todo como um motor se exprime!
Ser completo como uma máquina!
Poder ir na vida triunfante como um automóvel último-modelo!
Poder ao menos penetrar-me fisicamente de tudo isto,
30 Rasgar-me todo, abrir-me completamente, tornar-me passento
A todos os perfumes de óleos e calores e carvões
Desta flora estupenda, negra, artificial e insaciável!
Fraternidade com todas as dinâmicas!
Promíscua fúria de ser parte-agente
35 Do rodar férreo e cosmopolita
Dos comboios estrênuos,
Da faina transportadora-de-cargas dos navios,
Do giro lúbrico e lento dos guindastes,
Do tumulto disciplinado das fábricas,
40 E do quase-silêncio ciciante e monótono das correias de transmissão!
Horas europeias, produtoras, entaladas
Entre maquinismos e afazeres úteis!
Grandes cidades paradas nos cafés,
Nos cafés — oásis de inutilidades ruidosas
45 Onde se cristalizam e se precipitam
Os rumores e os gestos do Útil
E as rodas, e as rodas-dentadas e as chumaceiras do Progressivo!
Nova Minerva sem-alma dos cais e das gares!
Novos entusiasmos de estatura do Momento!
PESSOA, Fernando. Poesias de Álvaro de Campos. Lisboa: Ática, 1944 (imp. 1993), p. 144 (texto adaptado).
Texto 3
Lima Barreto (1881-1922) viveu em um período de intensas transformações sociais no País, marcado pela abolição da escravatura (1888), advento da ordem republicana (1889) e urbanização crescente. Filho de pais negros (o pai era tipógrafo e a mãe, professora), Lima Barreto abordou principalmente os temas e os personagens típicos dos subúrbios cariocas, cruzando os limites da realidade e da ficção. Nessa perspectiva, o conto A nova Califórnia, publicado em 1916, faz uma alusão à Corrida do ouro, nos Estados Unidos, da primeira metade do século XIX, para condenar ironicamente a ganância e a busca do enriquecimento fácil.
Sinopse do conto
Raimundo Flamel, um químico, chega à pequena cidade de Tubiacanga, no Rio de Janeiro. Anos depois, ele encontra uma fórmula secreta capaz de transformar ossos humanos em ouro, o que transformaria profundamente a cidade, até então, ordeira e tranquila. Depois de revelar a sua descoberta, Flamel some misteriosamente. A partir daí, o cemitério é profanado, ocorrendo vários roubos de cadáveres.
A NOVA CALIFÓRNIA
1 Ninguém sabia donde viera aquele homem. O agente do Correio pudera apenas informar que acudia ao
nome de Raimundo Flamel, pois assim era subscrita a correspondência que recebia. E era grande. Quase
diariamente, o carteiro lá ia a um dos extremos da cidade, onde morava o desconhecido, sopesando um maço
alentado de cartas vindas do mundo inteiro, grossas revistas em línguas arrevesadas, livros, pacotes...
5 Quando Fabrício, o pedreiro, voltou de um serviço em casa do novo habitante, todos na venda perguntaram-
lhe que trabalho lhe tinha sido determinado.
– Vou fazer um forno, disse o preto, na sala de jantar.
Imaginem o espanto da pequena cidade de Tubiacanga, ao saber de tão extravagante construção: um forno
na sala de jantar! E, pelos dias seguintes, Fabrício pôde contar que vira balões de vidros, facas sem corte, copos
10 como os da farmácia – um rol de coisas esquisitas a se mostrarem pelas mesas e prateleiras como utensílios
de uma bateria de cozinha em que o próprio diabo cozinhasse. O alarme se fez na vila. Para uns, os mais
adiantados, era um fabricante de moeda falsa; para outros, os crentes e simples, um tipo que tinha parte com o
tinhoso.
Chico da Tirana, o carreiro, quando passava em frente da casa do homem misterioso, ao lado do carro a
15 chiar, e olhava a chaminé da sala de jantar a fumegar, não deixava de persignar-se e rezar um “credo” em voz
baixa; e, não fora a intervenção do farmacêutico, o subdelegado teria ido dar um cerco à casa daquele indivíduo
suspeito, que inquietava a imaginação de toda uma população.
Tomando em consideração as informações de Fabrício, o boticário Bastos concluíra que o desconhecido
devia ser um sábio, um grande químico, refugiado ali para mais sossegadamente levar avante os seus trabalhos
20 científicos.
Homem formado e respeitado na cidade, vereador, médico também, porque o doutor Jerônimo não gostava
de receitar e se fizera sócio da farmácia para mais em paz viver, a opinião de Bastos levou tranquilidade a todas
as consciências e fez com que a população cercasse de uma silenciosa admiração a pessoa do grande químico,
que viera habitar a cidade.
25 De tarde, se o viam a passear pela margem do Tubiacanga, sentando-se aqui e ali, olhando perdidamente
as águas claras do riacho, cismando diante da penetrante melancolia do crepúsculo, todos se descobriam e não
era raro que às “boas noites” acrescentassem “doutor”. E tocava muito o coração daquela gente a profunda
simpatia com que ele tratava as crianças, a maneira pela qual as contemplava, parecendo apiedar-se de que
elas tivessem nascido para sofrer e morrer.
30 Na verdade, era de ver-se, sob a doçura suave da tarde, a bondade de Messias com que ele afagava
aquelas crianças pretas, tão lisas de pele e tão tristes de modos, mergulhadas no seu cativeiro moral, e também
as brancas, de pele baça, gretada e áspera, vivendo amparadas na necessária caquexia dos trópicos.
Por vezes, vinha-lhe vontade de pensar qual a razão de ter Bernardin de Saint-Pierre gasto toda a sua
ternura com Paulo e Virgínia e esquecer-se dos escravos que os cercavam...
35 Em poucos dias a admiração pelo sábio era quase geral, e não o era unicamente porque havia alguém que
não tinha em grande conta os méritos do novo habitante. Capitão Pelino, mestre-escola e redator da Gazeta de
Tubiacanga, órgão local e filiado ao partido situacionista, embirrava com o sábio. “Vocês hão de ver, dizia ele,
quem é esse tipo... Um caloteiro, um aventureiro ou talvez um ladrão fugido do Rio.”
A sua opinião em nada se baseava, ou antes, baseava-se no seu oculto despeito vendo na terra um rival
40 para a fama de sábio de que gozava. Não que Pelino fosse químico, longe disso; mas era sábio, era gramático.
Ninguém escrevia em Tubiacanga que não levasse bordoada do capitão Pelino, e mesmo quando se falava em
algum homem notável lá no Rio, ele não deixava de dizer: “Não há dúvida! O homem tem talento, mas escreve:
‘um outro’, ‘de resto’...”. E contraía os lábios como se tivesse engolido alguma coisa amarga.
Toda a vila de Tubiacanga acostumou-se a respeitar o solene Pelino, que corrigia e emendava as maiores
45 glórias nacionais. Um sábio...
Ao entardecer, depois de ler um pouco o Sotero, o Cândido de Figueiredo ou o Castro Lopes, e de ter
passado mais uma vez a tintura nos cabelos, o velho mestre-escola saía vagarosamente de casa, muito abotoado
no seu paletó de brim mineiro, e encaminhava-se para a botica do Bastos a dar dois dedos de prosa. Conversar
é um modo de dizer, porque era Pelino avaro de palavras, limitando-se tão somente a ouvir. Quando, porém,
50 dos lábios de alguém escapava a menor incorreção de linguagem, intervinha e emendava. “Eu asseguro, dizia o
agente do Correio, que...” Por aí, o mestre-escola intervinha com mansuetude evangélica: “Não diga ‘asseguro’,
senhor Bernardes; em português é garanto”.
E a conversa continuava depois da emenda, para ser de novo interrompida por uma outra. Por essas e outras,
houve muitos palestradores que se afastaram, mas Pelino, indiferente, seguro dos seus deveres, continuava o
55 seu apostolado de vernaculismo. A chegada do sábio veio distraí-lo um pouco da sua missão. Todo o seu esforço
voltava-se agora para combater aquele rival, que surgia tão inopinadamente.
Foram vãs as suas palavras e a sua eloquência: não só Raimundo Flamel pagava em dia as suas contas,
como era generoso – pai da pobreza – e o farmacêutico vira numa revista de específicos seu nome citado como
químico de valor.
BARRETO, Lima. A nova Califórnia e outros contos. São Paulo: Unesp, 2012, p. 11-23 (texto adaptado).
Quanto aos textos 1, 2 e 3, considere as seguintes afirmações:
I. O texto 1 e o texto 3 abordam, de forma direta ou indireta, o tema da ciência e da tecnologia como um sistema de cultura e pensamento.
II. O texto 2 e o texto 3 realizam um trabalho similar no campo da linguagem, caracterizado pelo uso de formas linguísticas inspiradas na oralidade e pela derrubada das regras e sistemas da gramática normativa.
III. Uma interpretação pertinente do texto 2 realça a expressão de um arrebatamento estético em face do industrialismo enquanto o texto 1 realiza uma abordagem comparativa que relaciona a guerra ao empreendedorismo.
Está(ão) correta(s) a(s) assertiva(s):Resolução comentada
Análise das alternativas
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