← Voltar para a lista de provas Colégio Militar de Brasília · Admissão ao 1º Ano do Ensino Médio 40 questões nesta prova · página 2 de 2 · 40 com gabarito Gabarito disponível A narradora vive uma experiência marcante que a leva a refletir sobre a fé. A narradora começa isolada e cética, perturba-se ao responder sobre Deus e entende o segredo da calma da mulher. No fim, vê a criança de olhos abertos, o que a deixa sem palavras e a leva a pensar sobre a fé. B) O estado de espírito dela muda. C) O tempo (Natal, noite) e o espaço (barca, rio) estão indicados. D) "Imodéstia" não é atributo dos personagens. E) A ressurreição não é de "filhos"; só o segundo filho acorda, e o primeiro já havia morrido. A) está correta. Referência: Interpretação do conto "Natal na barca", de Lygia Fagundes Telles. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível O diálogo expôs os sofrimentos da mulher e inquietou a narradora. A narradora queria ficar só e evitar laços, mas a mulher relata a morte do primeiro filho, do marido e a doença do segundo. Isso inquieta a narradora, que acaba envolvida, apesar da resistência inicial. A) Só a mulher partilha detalhes da vida, pois a narradora não conta os seus. C) Não há amizade nem rompimento de barreiras sociais. D) O diálogo surge por acaso, não pelo espírito natalino. E) Os laços humanos não ampliam a tensão entre elas. B) está correta. Referência: Interpretação de texto narrativo: compreensão global. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Em E, "lhe", "-a" e "ela" retomam a mulher. Em "Apertei-lhe a mão", "acompanhei-a" e "ela desapareceu", todos os pronomes se referem à mulher da barca. A) "Me" é a narradora, enquanto "que" retoma a mulher. B) "-los" retoma os laços, mas o "Eu" é a narradora. C) "Que" retoma a pobreza, o outro "que" retoma o filho, e "sua" retoma a mulher. D) "-a" é a mulher, "que" é a sacola e "lhe" é a mulher, então são referentes diferentes. E) está correta. Referência: Coesão referencial: pronomes pessoais e relativos. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível O período II mistura coordenação e subordinação; o III tem só subordinação. No período II há a oração principal "A mulher estava sentada entre nós", a reduzida de gerúndio "apertando nos braços a criança" e a adjetiva "que estava enrolada em panos". O período III tem a principal "O longo manto escuro dava-lhe o aspecto" e a adjetiva "que lhe cobria a cabeça". Assim, o III é só subordinação e o II, segundo o gabarito, combina os dois processos. A) As orações de I são coordenadas, não subordinadas. B) Em I há também a aditiva "e agora dormia", que é sindética. C) Em III há subordinação (oração adjetiva). E) A primeira oração de II é a principal e não é subordinada às demais. D) está correta. Referência: Período composto: coordenação e subordinação. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível "Até" expressa limite nos dois trechos. Em "mergulhar as pontas dos dedos" e em "até que ela desapareceu", "até" marca o limite de uma ação (espacial na primeira, temporal na segunda). B) "Aí" é um dêitico que aponta para a criança e não liga orações. C) "Agora" é advérbio de tempo e não introduz conclusão de juízo de valor. D) "Como se" expressa comparação hipotética, não causa. E) "Tal" tem tom de ênfase ou ironia nos dois casos, e não só no primeiro. A) está correta. Referência: Operadores textuais: conjunções, preposições e advérbios e seu valor semântico. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Para a Filosofia, a solidariedade supera o instinto de preservação da vida. Almeida diz que a solidariedade "transpõe o instinto de sobrevivência" e que há humanos capazes de se privar de um benefício vital pela vida do outro a quem amam. Ou seja, ela supera o impulso inato de preservar a própria vida. A) Contraria o texto, pois a solidariedade vai além do instinto. B) O texto não diz que seja mais elaborada nos animais selvagens. C) O texto não a descreve como determinante para garantir a vida. E) O texto distingue os humanos da lógica dos animais. D) está correta. Referência: Interpretação de texto: compreensão de trecho específico. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível "Precisa" = exata; "inata" = congênita. Em "a resposta não é fácil e nem precisa", "precisa" é adjetivo e significa exata ou definida. "Inata" é o que nasce com a pessoa, ou seja, congênito. Por isso, "exata" e "congênita" são os substitutos adequados. A) "Necessita" é verbo, e "precisa" aqui é adjetivo. B) "Importa" é verbo. D) "Simples" e "indispensável" mudam o sentido. E) "Existe" é verbo, e "abstrata" não é sinônimo de inata. C) está correta. Referência: Semântica: sinonímia e classe gramatical em contexto. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Reescrita fiel: atribuir as atitudes de solidariedade à influência social. No original, a Psicologia partilha a perspectiva e credita (atribui) as atitudes de solidariedade à influência social. A alternativa C mantém essa relação e a autoria da explicação à psicóloga. A) Inverte a relação: dá crédito às atitudes como influência social. B) "Divide" altera o sentido de "compartilhada". D) Inverte a causa: diz que as atitudes promovem a influência social. E) Diz que a Psicologia contradiz a perspectiva, o oposto do texto. C) está correta. Referência: Reescrita de frases: manutenção do sentido e voz passiva. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Única frase com regência correta: "transcende o instinto". "Transcender" é transitivo direto, então "transcende o instinto de sobrevivência" está correto. A) "Conduzir" pede objeto direto ("conduz as pessoas"), sem a preposição "a". C) Não há crase antes de artigo indefinido ("a uma"). D) "Desejo por" e "busca com" não são regências adequadas, pois seria "busca de/por". E) "Alicerçar" não é intransitivo com "em" nesse uso, e o sentido ficou desfeito. B) está correta. Referência: Regência verbal: verbo transcender e crase. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Os temas recusados afastariam a poesia da realidade e do presente. Os versos 8 a 11 listam temas de evasão ou sentimentalismo (suspiros, janela, ilhas, serafins). Em seguida, o eu lírico afirma que sua matéria é "o tempo presente, os homens presentes, a vida presente". Logo, tais temas o distanciariam da realidade. A) O texto não fala em futilidade para o leitor. B) Não se trata de falta de afinidade, mas de uma escolha de compromisso. C) Não há angústia existencial no trecho. D) A poesia pode retratar vários temas, e o eu lírico recusa apenas os que se afastam do presente. E) está correta. Referência: Interpretação de texto poético: compromisso social em Drummond. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível O imperativo/subjuntivo exortativo expressa convite à ação coletiva. "Não nos afastemos" e "vamos de mãos dadas" são formas exortativas na 1ª pessoa do plural, que incluem o eu lírico e o convite ao outro. Elas expressam a proposta de agir em conjunto. B) As negações de futuro recusam temas e não expressam desesperança. C) Não há crise existencial, e o presente é valorizado. D) O futuro não é idealizado, pois o poeta também não o cantará. E) O eu lírico se inclui no grupo e não busca liderar. A) está correta. Referência: Verbos: modos e tempos verbais e seus efeitos de sentido. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível O eu lírico é solidário e traz a realidade social para a poesia. O eu lírico diz estar "preso à vida", olha os companheiros e propõe "vamos de mãos dadas", assumindo o tempo presente e os homens presentes como matéria da poesia. Isso mostra solidariedade e compromisso com a realidade social. A) Prioriza o coletivo, não o individual. B) "Mundo caduco" é a recusa de cantar um mundo ultrapassado, não desilusão. D) Não há indiferença nem refúgio na poesia. E) Não há ironia, e o poeta quer retratar a realidade. C) está correta. Referência: Interpretação do poema "Mãos Dadas", de Drummond (poesia social). Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível "Compor", no sentido de criar versos, equivale a "versejar". Em "Ao que eu pudesse compor", o verbo significa criar a canção ou os versos, ou seja, produzir poesia. O sinônimo adequado é "versejar". A) Depor é testemunhar ou destituir. B) Antepor é colocar antes. C) Antecipar é fazer antes do tempo. E) Pospor é colocar depois. Nenhum deles tem o sentido de criar. D) está correta. Referência: Semântica: sinonímia contextual. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível No título, "solidário" qualifica o interlocutor ideal e "solitário" o eu lírico. O poema pergunta se o interlocutor será solidário e acompanhará o eu lírico na poesia, ou se este irá sozinho. Assim, "solidário" se associa ao interlocutor que se espera e "solitário" ao eu lírico, caso fique sem companhia. B) Os termos não qualificam objetivamente ambos. C) Têm sentidos opostos, e o título os contrasta. D) Inverte a atribuição. E) A terceira estrofe, com a dúvida entre ir sozinho e ser acompanhado, também se relaciona com o contraste. A) está correta. Referência: Interpretação de texto poético: relação entre título e conteúdo. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Aproximação entre os textos: eu lírico busca a participação do interlocutor. No Texto 3, o eu lírico convida à união ("vamos de mãos dadas"). No Texto 4, ele pergunta ao interlocutor se o acompanharia ("cantarias comigo?"). Nos dois, o eu lírico quer a participação do outro. A) O Texto 3 usa 1ª pessoa (singular e plural), não 3ª. C) Os títulos se aproximam pela ideia de companhia e solidariedade, mesmo com formas diferentes. D) Também há interlocução no Texto 3 ("não nos afastemos"). E) O uso de "apenas" e "unicamente" é exagerado, pois o Texto 3 também trata do fazer poético. B) está correta. Referência: Intertextualidade e comparação de textos poéticos. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponívelColégio Militar de Brasília — Concurso de Admissão 2024/2025 — 1º Ano do Ensino Médio — Prova de Matemática e Língua Portuguesa
TEXTO 1
Natal na barca
Lígia Fagundes Telles
1 Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor
tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca,
apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher
com uma criança e eu.
5 O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um
vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que
estava enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça
dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.
Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e
10 até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca
tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. [...]
Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro,
silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos
vivos. E era Natal.
15 A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-
la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na
água.
— Tão gelada — estranhei, enxugando a mão.
— Mas de manhã é quente. [...]
20 Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-
me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. [...]
— De manhã esse rio é quente — insistiu ela, me encarando.
— Quente?
— Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a
25 roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?
Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com outra pergunta:
— Mas a senhora mora aqui perto?
— Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...
— Seu filho?
30 — É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um
médico hoje mesmo. Ainda ontem estava bem, mas piorou de repente. [...]
— É o caçula? [...]
— É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico
quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto; caiu,
35 contudo, de um tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos. [...]
Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade, mas os laços (os
tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Eu conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não
tinha forças para rompê-los. [...]
Ela contava as sucessivas desgraças na sua vida com tamanha calma, num tom de quem relata
40 fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos
da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos
braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles
olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.
— A senhora é conformada.
45 — Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.
— Deus — repeti vagamente.
— A senhora não acredita em Deus?
— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê,
perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que
50 removia montanhas...[...]
E começou com voz quente de paixão:
— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua
afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do
jardim onde toda tarde ele ia brincar. [...] Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não
55 sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava a minha
mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Era
tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.
Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa,
levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o
60 rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto.
[...]
— Estamos chegando — anunciou a mulher, que se agitou atrás de mim.
Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr
para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. [...]
65 Aproximei-me evitando encará-la.
— Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão.
Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a
sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-
lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.
70 — Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. [...]
— Acordou?!
Ela sorriu:
— Veja...
Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente.
75 [...] Fiquei olhando sem conseguir falar.
— Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço.
Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a
mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. [...] Saí por último da barca.
Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente.
80 Verde e quente.
Natal na barca. Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/natal-na-barca-conto-de-lygia-fagundes-telles/. Acesso em: 19 jun. 2024.
(Com adaptações)
Após leitura atenta do texto “Natal na barca”, é correto afirmar queResolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 1
Natal na barca
Lígia Fagundes Telles
1 Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor
tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca,
apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher
com uma criança e eu.
5 O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um
vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que
estava enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça
dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.
Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e
10 até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca
tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. [...]
Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro,
silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos
vivos. E era Natal.
15 A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-
la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na
água.
— Tão gelada — estranhei, enxugando a mão.
— Mas de manhã é quente. [...]
20 Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-
me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. [...]
— De manhã esse rio é quente — insistiu ela, me encarando.
— Quente?
— Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a
25 roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?
Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com outra pergunta:
— Mas a senhora mora aqui perto?
— Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...
— Seu filho?
30 — É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um
médico hoje mesmo. Ainda ontem estava bem, mas piorou de repente. [...]
— É o caçula? [...]
— É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico
quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto; caiu,
35 contudo, de um tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos. [...]
Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade, mas os laços (os
tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Eu conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não
tinha forças para rompê-los. [...]
Ela contava as sucessivas desgraças na sua vida com tamanha calma, num tom de quem relata
40 fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos
da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos
braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles
olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.
— A senhora é conformada.
45 — Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.
— Deus — repeti vagamente.
— A senhora não acredita em Deus?
— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê,
perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que
50 removia montanhas...[...]
E começou com voz quente de paixão:
— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua
afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do
jardim onde toda tarde ele ia brincar. [...] Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não
55 sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava a minha
mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Era
tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.
Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa,
levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o
60 rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto.
[...]
— Estamos chegando — anunciou a mulher, que se agitou atrás de mim.
Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr
para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. [...]
65 Aproximei-me evitando encará-la.
— Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão.
Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a
sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-
lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.
70 — Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. [...]
— Acordou?!
Ela sorriu:
— Veja...
Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente.
75 [...] Fiquei olhando sem conseguir falar.
— Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço.
Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a
mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. [...] Saí por último da barca.
Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente.
80 Verde e quente.
Natal na barca. Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/natal-na-barca-conto-de-lygia-fagundes-telles/. Acesso em: 19 jun. 2024.
(Com adaptações)
A respeito do diálogo que se estabelece entre a narradora e sua interlocutora, é possível concluir que:Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 1
Natal na barca
Lígia Fagundes Telles
1 Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor
tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca,
apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher
com uma criança e eu.
5 O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um
vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que
estava enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça
dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.
Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e
10 até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca
tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. [...]
Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro,
silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos
vivos. E era Natal.
15 A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-
la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na
água.
— Tão gelada — estranhei, enxugando a mão.
— Mas de manhã é quente. [...]
20 Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-
me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. [...]
— De manhã esse rio é quente — insistiu ela, me encarando.
— Quente?
— Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a
25 roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?
Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com outra pergunta:
— Mas a senhora mora aqui perto?
— Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...
— Seu filho?
30 — É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um
médico hoje mesmo. Ainda ontem estava bem, mas piorou de repente. [...]
— É o caçula? [...]
— É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico
quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto; caiu,
35 contudo, de um tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos. [...]
Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade, mas os laços (os
tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Eu conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não
tinha forças para rompê-los. [...]
Ela contava as sucessivas desgraças na sua vida com tamanha calma, num tom de quem relata
40 fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos
da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos
braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles
olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.
— A senhora é conformada.
45 — Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.
— Deus — repeti vagamente.
— A senhora não acredita em Deus?
— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê,
perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que
50 removia montanhas...[...]
E começou com voz quente de paixão:
— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua
afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do
jardim onde toda tarde ele ia brincar. [...] Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não
55 sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava a minha
mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Era
tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.
Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa,
levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o
60 rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto.
[...]
— Estamos chegando — anunciou a mulher, que se agitou atrás de mim.
Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr
para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. [...]
65 Aproximei-me evitando encará-la.
— Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão.
Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a
sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-
lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.
70 — Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. [...]
— Acordou?!
Ela sorriu:
— Veja...
Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente.
75 [...] Fiquei olhando sem conseguir falar.
— Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço.
Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a
mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. [...] Saí por último da barca.
Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente.
80 Verde e quente.
Natal na barca. Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/natal-na-barca-conto-de-lygia-fagundes-telles/. Acesso em: 19 jun. 2024.
(Com adaptações)
Nas alternativas a seguir, todas as palavras em destaque estão sendo usadas como articuladores semântico-discursivos. A alternativa que estabelece corretamente a relação indicada é:
TEXTO 1
Natal na barca
Lígia Fagundes Telles
1 Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor
tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca,
apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher
com uma criança e eu.
5 O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um
vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que
estava enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça
dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.
Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e
10 até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca
tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. [...]
Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro,
silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos
vivos. E era Natal.
15 A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-
la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na
água.
— Tão gelada — estranhei, enxugando a mão.
— Mas de manhã é quente. [...]
20 Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-
me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. [...]
— De manhã esse rio é quente — insistiu ela, me encarando.
— Quente?
— Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a
25 roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?
Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com outra pergunta:
— Mas a senhora mora aqui perto?
— Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...
— Seu filho?
30 — É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um
médico hoje mesmo. Ainda ontem estava bem, mas piorou de repente. [...]
— É o caçula? [...]
— É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico
quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto; caiu,
35 contudo, de um tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos. [...]
Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade, mas os laços (os
tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Eu conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não
tinha forças para rompê-los. [...]
Ela contava as sucessivas desgraças na sua vida com tamanha calma, num tom de quem relata
40 fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos
da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos
braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles
olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.
— A senhora é conformada.
45 — Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.
— Deus — repeti vagamente.
— A senhora não acredita em Deus?
— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê,
perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que
50 removia montanhas...[...]
E começou com voz quente de paixão:
— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua
afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do
jardim onde toda tarde ele ia brincar. [...] Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não
55 sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava a minha
mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Era
tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.
Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa,
levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o
60 rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto.
[...]
— Estamos chegando — anunciou a mulher, que se agitou atrás de mim.
Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr
para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. [...]
65 Aproximei-me evitando encará-la.
— Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão.
Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a
sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-
lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.
70 — Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. [...]
— Acordou?!
Ela sorriu:
— Veja...
Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente.
75 [...] Fiquei olhando sem conseguir falar.
— Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço.
Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a
mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. [...] Saí por último da barca.
Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente.
80 Verde e quente.
Natal na barca. Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/natal-na-barca-conto-de-lygia-fagundes-telles/. Acesso em: 19 jun. 2024.
(Com adaptações)
Assinale a única alternativa em que todos os pronomes retomam um mesmo e único referente.Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 1
Natal na barca
Lígia Fagundes Telles
1 Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor
tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca,
apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher
com uma criança e eu.
5 O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um
vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que
estava enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça
dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.
Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e
10 até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca
tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. [...]
Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro,
silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos
vivos. E era Natal.
15 A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-
la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na
água.
— Tão gelada — estranhei, enxugando a mão.
— Mas de manhã é quente. [...]
20 Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-
me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. [...]
— De manhã esse rio é quente — insistiu ela, me encarando.
— Quente?
— Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a
25 roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?
Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com outra pergunta:
— Mas a senhora mora aqui perto?
— Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...
— Seu filho?
30 — É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um
médico hoje mesmo. Ainda ontem estava bem, mas piorou de repente. [...]
— É o caçula? [...]
— É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico
quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto; caiu,
35 contudo, de um tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos. [...]
Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade, mas os laços (os
tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Eu conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não
tinha forças para rompê-los. [...]
Ela contava as sucessivas desgraças na sua vida com tamanha calma, num tom de quem relata
40 fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos
da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos
braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles
olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.
— A senhora é conformada.
45 — Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.
— Deus — repeti vagamente.
— A senhora não acredita em Deus?
— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê,
perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que
50 removia montanhas...[...]
E começou com voz quente de paixão:
— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua
afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do
jardim onde toda tarde ele ia brincar. [...] Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não
55 sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava a minha
mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Era
tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.
Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa,
levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o
60 rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto.
[...]
— Estamos chegando — anunciou a mulher, que se agitou atrás de mim.
Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr
para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. [...]
65 Aproximei-me evitando encará-la.
— Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão.
Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a
sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-
lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.
70 — Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. [...]
— Acordou?!
Ela sorriu:
— Veja...
Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente.
75 [...] Fiquei olhando sem conseguir falar.
— Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço.
Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a
mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. [...] Saí por último da barca.
Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente.
80 Verde e quente.
Natal na barca. Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/natal-na-barca-conto-de-lygia-fagundes-telles/. Acesso em: 19 jun. 2024.
(Com adaptações)
Considerando todo o Texto 1, a explicação da função sintática do termo destacado está correta na afirmativa:
TEXTO 1
Natal na barca
Lígia Fagundes Telles
1 Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor
tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca,
apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher
com uma criança e eu.
5 O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um
vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que
estava enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça
dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.
Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e
10 até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca
tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. [...]
Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro,
silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos
vivos. E era Natal.
15 A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-
la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na
água.
— Tão gelada — estranhei, enxugando a mão.
— Mas de manhã é quente. [...]
20 Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-
me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. [...]
— De manhã esse rio é quente — insistiu ela, me encarando.
— Quente?
— Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a
25 roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?
Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com outra pergunta:
— Mas a senhora mora aqui perto?
— Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...
— Seu filho?
30 — É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um
médico hoje mesmo. Ainda ontem estava bem, mas piorou de repente. [...]
— É o caçula? [...]
— É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico
quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto; caiu,
35 contudo, de um tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos. [...]
Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade, mas os laços (os
tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Eu conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não
tinha forças para rompê-los. [...]
Ela contava as sucessivas desgraças na sua vida com tamanha calma, num tom de quem relata
40 fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos
da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos
braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles
olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.
— A senhora é conformada.
45 — Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.
— Deus — repeti vagamente.
— A senhora não acredita em Deus?
— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê,
perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que
50 removia montanhas...[...]
E começou com voz quente de paixão:
— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua
afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do
jardim onde toda tarde ele ia brincar. [...] Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não
55 sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava a minha
mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Era
tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.
Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa,
levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o
60 rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto.
[...]
— Estamos chegando — anunciou a mulher, que se agitou atrás de mim.
Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr
para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. [...]
65 Aproximei-me evitando encará-la.
— Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão.
Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a
sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-
lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.
70 — Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. [...]
— Acordou?!
Ela sorriu:
— Veja...
Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente.
75 [...] Fiquei olhando sem conseguir falar.
— Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço.
Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a
mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. [...] Saí por último da barca.
Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente.
80 Verde e quente.
Natal na barca. Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/natal-na-barca-conto-de-lygia-fagundes-telles/. Acesso em: 19 jun. 2024.
(Com adaptações)
Analise os períodos a seguir, retirados do segundo parágrafo do Texto 1. Em seguida, marque a alternativa correta.
I. “O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um vizinho invisível e agora dormia.” (linhas 5 e 6)
II. “A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que estava enrolada em panos.” (linhas 6 e 7)
III. “O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.” (linhas 7 e 8)Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 1
Natal na barca
Lígia Fagundes Telles
1 Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor
tudo era silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca,
apenas quatro passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher
com uma criança e eu.
5 O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um
vizinho invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança, que
estava enrolada em panos. Era uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça
dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.
Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e
10 até aquele instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca
tão despojada, tão sem artifícios, a ociosidade de um diálogo. [...]
Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro,
silenciosos como mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos
vivos. E era Natal.
15 A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-
la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na
água.
— Tão gelada — estranhei, enxugando a mão.
— Mas de manhã é quente. [...]
20 Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-
me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. [...]
— De manhã esse rio é quente — insistiu ela, me encarando.
— Quente?
— Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a
25 roupa fosse sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?
Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com outra pergunta:
— Mas a senhora mora aqui perto?
— Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...
— Seu filho?
30 — É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um
médico hoje mesmo. Ainda ontem estava bem, mas piorou de repente. [...]
— É o caçula? [...]
— É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico
quando de repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto; caiu,
35 contudo, de um tal jeito... Tinha pouco mais de quatro anos. [...]
Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade, mas os laços (os
tais laços humanos) já ameaçavam me envolver. Eu conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não
tinha forças para rompê-los. [...]
Ela contava as sucessivas desgraças na sua vida com tamanha calma, num tom de quem relata
40 fatos sem ter realmente participado deles. Como se não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos
da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos
braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles
olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez andar.
— A senhora é conformada.
45 — Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.
— Deus — repeti vagamente.
— A senhora não acredita em Deus?
— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê,
perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que
50 removia montanhas...[...]
E começou com voz quente de paixão:
— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua
afora, enfiei um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do
jardim onde toda tarde ele ia brincar. [...] Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não
55 sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava a minha
mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Era
tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.
Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa,
levantei a ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o
60 rio. O menino estava morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto.
[...]
— Estamos chegando — anunciou a mulher, que se agitou atrás de mim.
Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr
para longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. [...]
65 Aproximei-me evitando encará-la.
— Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão.
Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a
sacola. Ajudei-a, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-
lo, afastou o xale que cobria a cabeça do filho.
70 — Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre. [...]
— Acordou?!
Ela sorriu:
— Veja...
Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente.
75 [...] Fiquei olhando sem conseguir falar.
— Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço.
Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a
mão vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. [...] Saí por último da barca.
Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente.
80 Verde e quente.
Natal na barca. Disponível em: https://contobrasileiro.com.br/natal-na-barca-conto-de-lygia-fagundes-telles/. Acesso em: 19 jun. 2024.
(Com adaptações)
A respeito do emprego dos operadores textuais e seus valores semântico-discursivos, é correto afirmar queResolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 2
De onde vem a solidariedade humana?
1 Histórias de solidariedade que surgem em momentos difíceis como se mostra o atual parecem
lampejos de esperança em meio ao turbilhão de informações duras, frias e, muitas vezes, tristes. Mas o
que leva as pessoas a terem atitudes solidárias? A resposta não é fácil e nem precisa (1). Para entender
um pouco sobre o assunto, dois pontos de vista são necessários: o filosófico e o psicológico.
5 O professor de Filosofia do IFPB, Emmanoel de Almeida, esclarece que na filosofia ocidental
há duas perspectivas: uma de que a solidariedade é inata (2) e a outra de que é um princípio criado pela
própria sociedade. Essa última perspectiva também é compartilhada pela Psicologia, que credita à
influência social as atitudes de solidariedade, como explica a psicóloga Dayse Ayres. “No que se refere
à solidariedade, há na natureza humana uma necessidade de ser bem visto pelos outros, de pertencimento
10 a grupo ou sociedade, de conexão e busca por aceitação externa”.
De forma geral, entendemos que o primeiro passo para a solidariedade é a empatia, que, segundo
Ayres, é o ato de “tentar ‘experimentar’ de forma objetiva e racional como o outro se sente. Em outras
palavras, tentar “se colocar” no lugar do outro de maneira a se sensibilizar com sua dor (se este for o
caso)”. A psicóloga reforça que a empatia sempre vai estar relacionada a percepções subjetivas como
15 visão de mundo, experiências de vida e traços de personalidade de cada pessoa.
Esse movimento interno de se colocar no lugar do outro provoca a solidariedade, que se
concretiza na ação de tentar ajudar, amenizar ou diminuir a dor ou necessidade de alguém. A atitude
solidária é a “doação de si e um desprendimento, seja de ordem afetiva/emocional ou material. É uma
forma de exercitar a empatia e tentar manter o olhar de afeto sobre as necessidades de outras pessoas”,
20 reforça Ayres.
Já do ponto de vista filosófico, Almeida destaca que a solidariedade transpõe o instinto de
sobrevivência. “A história acumula muitos exemplos de ações humanas que desafiam e transcendem a
lógica do instinto animal, que também possuímos. Diferente da lógica comum à natureza selvagem dos
animais, há seres humanos que conseguem privar-se de um benefício vital para garantir a vida do outro
25 a quem ama”.
Na perspectiva que acredita na solidariedade como parte da essência humana, as ações solidárias
são a concretização daquilo que constitui a própria humanidade. Em ambos os casos, revela-se uma
questão ética, cuja base está no pensamento de Immanuel Kant e expressa uma famosa máxima atribuída
a Jesus: fazer para os outros o mesmo que gostaria de ver os outros fazerem para si. Esse pode ser um
30 bom farol reflexivo para nos guiar no mar revolto destes tempos que atravessamos. É o que conclui o
professor Emmanoel de Almeida.
De onde vem a solidariedade humana? Disponível em: https://www.ifpb.edu.br/joaopessoa. Acesso em: 23 mai. 2024. (Com adaptações)
Do ponto de vista filosófico, o professor Emmanoel de Almeida esclarece, no penúltimo parágrafo do texto, que a solidariedade:Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 2
De onde vem a solidariedade humana?
1 Histórias de solidariedade que surgem em momentos difíceis como se mostra o atual parecem
lampejos de esperança em meio ao turbilhão de informações duras, frias e, muitas vezes, tristes. Mas o
que leva as pessoas a terem atitudes solidárias? A resposta não é fácil e nem precisa (1). Para entender
um pouco sobre o assunto, dois pontos de vista são necessários: o filosófico e o psicológico.
5 O professor de Filosofia do IFPB, Emmanoel de Almeida, esclarece que na filosofia ocidental
há duas perspectivas: uma de que a solidariedade é inata (2) e a outra de que é um princípio criado pela
própria sociedade. Essa última perspectiva também é compartilhada pela Psicologia, que credita à
influência social as atitudes de solidariedade, como explica a psicóloga Dayse Ayres. “No que se refere
à solidariedade, há na natureza humana uma necessidade de ser bem visto pelos outros, de pertencimento
10 a grupo ou sociedade, de conexão e busca por aceitação externa”.
De forma geral, entendemos que o primeiro passo para a solidariedade é a empatia, que, segundo
Ayres, é o ato de “tentar ‘experimentar’ de forma objetiva e racional como o outro se sente. Em outras
palavras, tentar “se colocar” no lugar do outro de maneira a se sensibilizar com sua dor (se este for o
caso)”. A psicóloga reforça que a empatia sempre vai estar relacionada a percepções subjetivas como
15 visão de mundo, experiências de vida e traços de personalidade de cada pessoa.
Esse movimento interno de se colocar no lugar do outro provoca a solidariedade, que se
concretiza na ação de tentar ajudar, amenizar ou diminuir a dor ou necessidade de alguém. A atitude
solidária é a “doação de si e um desprendimento, seja de ordem afetiva/emocional ou material. É uma
forma de exercitar a empatia e tentar manter o olhar de afeto sobre as necessidades de outras pessoas”,
20 reforça Ayres.
Já do ponto de vista filosófico, Almeida destaca que a solidariedade transpõe o instinto de
sobrevivência. “A história acumula muitos exemplos de ações humanas que desafiam e transcendem a
lógica do instinto animal, que também possuímos. Diferente da lógica comum à natureza selvagem dos
animais, há seres humanos que conseguem privar-se de um benefício vital para garantir a vida do outro
25 a quem ama”.
Na perspectiva que acredita na solidariedade como parte da essência humana, as ações solidárias
são a concretização daquilo que constitui a própria humanidade. Em ambos os casos, revela-se uma
questão ética, cuja base está no pensamento de Immanuel Kant e expressa uma famosa máxima atribuída
a Jesus: fazer para os outros o mesmo que gostaria de ver os outros fazerem para si. Esse pode ser um
30 bom farol reflexivo para nos guiar no mar revolto destes tempos que atravessamos. É o que conclui o
professor Emmanoel de Almeida.
De onde vem a solidariedade humana? Disponível em: https://www.ifpb.edu.br/joaopessoa. Acesso em: 23 mai. 2024. (Com adaptações)
Dois vocábulos foram destacados no primeiro e segundo parágrafos: “precisa”, destacado com o número 1, e “inata”, destacado com o número 2. Sem alterar o sentido no contexto em que estão inseridos, esses vocábulos podem ser substituídos, respectivamente, porResolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 2
De onde vem a solidariedade humana?
1 Histórias de solidariedade que surgem em momentos difíceis como se mostra o atual parecem
lampejos de esperança em meio ao turbilhão de informações duras, frias e, muitas vezes, tristes. Mas o
que leva as pessoas a terem atitudes solidárias? A resposta não é fácil e nem precisa (1). Para entender
um pouco sobre o assunto, dois pontos de vista são necessários: o filosófico e o psicológico.
5 O professor de Filosofia do IFPB, Emmanoel de Almeida, esclarece que na filosofia ocidental
há duas perspectivas: uma de que a solidariedade é inata (2) e a outra de que é um princípio criado pela
própria sociedade. Essa última perspectiva também é compartilhada pela Psicologia, que credita à
influência social as atitudes de solidariedade, como explica a psicóloga Dayse Ayres. “No que se refere
à solidariedade, há na natureza humana uma necessidade de ser bem visto pelos outros, de pertencimento
10 a grupo ou sociedade, de conexão e busca por aceitação externa”.
De forma geral, entendemos que o primeiro passo para a solidariedade é a empatia, que, segundo
Ayres, é o ato de “tentar ‘experimentar’ de forma objetiva e racional como o outro se sente. Em outras
palavras, tentar “se colocar” no lugar do outro de maneira a se sensibilizar com sua dor (se este for o
caso)”. A psicóloga reforça que a empatia sempre vai estar relacionada a percepções subjetivas como
15 visão de mundo, experiências de vida e traços de personalidade de cada pessoa.
Esse movimento interno de se colocar no lugar do outro provoca a solidariedade, que se
concretiza na ação de tentar ajudar, amenizar ou diminuir a dor ou necessidade de alguém. A atitude
solidária é a “doação de si e um desprendimento, seja de ordem afetiva/emocional ou material. É uma
forma de exercitar a empatia e tentar manter o olhar de afeto sobre as necessidades de outras pessoas”,
20 reforça Ayres.
Já do ponto de vista filosófico, Almeida destaca que a solidariedade transpõe o instinto de
sobrevivência. “A história acumula muitos exemplos de ações humanas que desafiam e transcendem a
lógica do instinto animal, que também possuímos. Diferente da lógica comum à natureza selvagem dos
animais, há seres humanos que conseguem privar-se de um benefício vital para garantir a vida do outro
25 a quem ama”.
Na perspectiva que acredita na solidariedade como parte da essência humana, as ações solidárias
são a concretização daquilo que constitui a própria humanidade. Em ambos os casos, revela-se uma
questão ética, cuja base está no pensamento de Immanuel Kant e expressa uma famosa máxima atribuída
a Jesus: fazer para os outros o mesmo que gostaria de ver os outros fazerem para si. Esse pode ser um
30 bom farol reflexivo para nos guiar no mar revolto destes tempos que atravessamos. É o que conclui o
professor Emmanoel de Almeida.
De onde vem a solidariedade humana? Disponível em: https://www.ifpb.edu.br/joaopessoa. Acesso em: 23 mai. 2024. (Com adaptações)
Assinale a única alternativa em que a reescrita do excerto do Texto 2 está correta e coerente com o sentido original.
“Essa última perspectiva também é compartilhada pela Psicologia, que credita à influência social as atitudes de solidariedade, como explica a psicóloga Dayse Ayres.” (linhas 07 e 08).Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 2
De onde vem a solidariedade humana?
1 Histórias de solidariedade que surgem em momentos difíceis como se mostra o atual parecem
lampejos de esperança em meio ao turbilhão de informações duras, frias e, muitas vezes, tristes. Mas o
que leva as pessoas a terem atitudes solidárias? A resposta não é fácil e nem precisa (1). Para entender
um pouco sobre o assunto, dois pontos de vista são necessários: o filosófico e o psicológico.
5 O professor de Filosofia do IFPB, Emmanoel de Almeida, esclarece que na filosofia ocidental
há duas perspectivas: uma de que a solidariedade é inata (2) e a outra de que é um princípio criado pela
própria sociedade. Essa última perspectiva também é compartilhada pela Psicologia, que credita à
influência social as atitudes de solidariedade, como explica a psicóloga Dayse Ayres. “No que se refere
à solidariedade, há na natureza humana uma necessidade de ser bem visto pelos outros, de pertencimento
10 a grupo ou sociedade, de conexão e busca por aceitação externa”.
De forma geral, entendemos que o primeiro passo para a solidariedade é a empatia, que, segundo
Ayres, é o ato de “tentar ‘experimentar’ de forma objetiva e racional como o outro se sente. Em outras
palavras, tentar “se colocar” no lugar do outro de maneira a se sensibilizar com sua dor (se este for o
caso)”. A psicóloga reforça que a empatia sempre vai estar relacionada a percepções subjetivas como
15 visão de mundo, experiências de vida e traços de personalidade de cada pessoa.
Esse movimento interno de se colocar no lugar do outro provoca a solidariedade, que se
concretiza na ação de tentar ajudar, amenizar ou diminuir a dor ou necessidade de alguém. A atitude
solidária é a “doação de si e um desprendimento, seja de ordem afetiva/emocional ou material. É uma
forma de exercitar a empatia e tentar manter o olhar de afeto sobre as necessidades de outras pessoas”,
20 reforça Ayres.
Já do ponto de vista filosófico, Almeida destaca que a solidariedade transpõe o instinto de
sobrevivência. “A história acumula muitos exemplos de ações humanas que desafiam e transcendem a
lógica do instinto animal, que também possuímos. Diferente da lógica comum à natureza selvagem dos
animais, há seres humanos que conseguem privar-se de um benefício vital para garantir a vida do outro
25 a quem ama”.
Na perspectiva que acredita na solidariedade como parte da essência humana, as ações solidárias
são a concretização daquilo que constitui a própria humanidade. Em ambos os casos, revela-se uma
questão ética, cuja base está no pensamento de Immanuel Kant e expressa uma famosa máxima atribuída
a Jesus: fazer para os outros o mesmo que gostaria de ver os outros fazerem para si. Esse pode ser um
30 bom farol reflexivo para nos guiar no mar revolto destes tempos que atravessamos. É o que conclui o
professor Emmanoel de Almeida.
De onde vem a solidariedade humana? Disponível em: https://www.ifpb.edu.br/joaopessoa. Acesso em: 23 mai. 2024. (Com adaptações)
Todas as alternativas a seguir contêm reformulações de trechos do Texto 2. Marque a única delas que está em consonância com o que dita a sintaxe de regência na modalidade escrita formal da Língua Portuguesa.Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 3
Mãos Dadas
Carlos Drummond de Andrade
1 Não serei o poeta de um mundo caduco.
2 Também não cantarei o mundo futuro.
3 Estou preso à vida e olho meus companheiros.
4 Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
5 Entre eles, considero a enorme realidade.
6 O presente é tão grande, não nos afastemos.
7 Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
8 Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
9 Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela.
10 Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
11 Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
12 O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
13 A vida presente.
Sentimento do mundo. Disponível em https://umprofessorle.com.br/2018/03/31/maos-dadas/. Acesso em 8 jul. 24.
Nos versos 8 a 11, o eu lírico se nega a cantar a temática da mulher; de uma história; de suspiros ao anoitecer; a paisagem vista da janela; não distribuirá entorpecentes nem cartas de suicida; não fugirá para ilhas e nem será raptado por serafins. Articulando esses versos com os demais do poema, fica plausível interpretar que o eu lírico:Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 3
Mãos Dadas
Carlos Drummond de Andrade
1 Não serei o poeta de um mundo caduco.
2 Também não cantarei o mundo futuro.
3 Estou preso à vida e olho meus companheiros.
4 Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
5 Entre eles, considero a enorme realidade.
6 O presente é tão grande, não nos afastemos.
7 Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
8 Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
9 Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela.
10 Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
11 Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
12 O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
13 A vida presente.
Sentimento do mundo. Disponível em https://umprofessorle.com.br/2018/03/31/maos-dadas/. Acesso em 8 jul. 24.
Em relação aos efeitos dos recursos verbais empregados pelo eu lírico no poema Mãos Dadas, é correto afirmar que:Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 3
Mãos Dadas
Carlos Drummond de Andrade
1 Não serei o poeta de um mundo caduco.
2 Também não cantarei o mundo futuro.
3 Estou preso à vida e olho meus companheiros.
4 Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
5 Entre eles, considero a enorme realidade.
6 O presente é tão grande, não nos afastemos.
7 Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
8 Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
9 Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela.
10 Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
11 Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
12 O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
13 A vida presente.
Sentimento do mundo. Disponível em https://umprofessorle.com.br/2018/03/31/maos-dadas/. Acesso em 8 jul. 24.
No que se refere à interpretação dos versos, é coerente afirmar que:Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 4
Solidário ou Solitário?
Ederson Peka
1 Se eu fizesse uma canção
2 Cantando o abraço do amigo,
3 Me estenderias tua mão
4 E cantarias comigo?
5 Se eu abrisse o coração
6 Num elogio ao amor,
7 Somarias tua visão
8 Ao que eu pudesse compor?
9 Se eu escolhesse o caminho
10 Sem retorno da poesia,
11 Será que iria sozinho?
12 E o mundo ignoraria
13 Os meus versos de carinho?
14 Ou tu me acompanharias?
Solidário ou solitário. Disponível em: https://sitedepoesias.com/poesias/22028-solidario-ou-solitario. Acesso em: 8 Jul 24.
O vocábulo “compor”, do 8º verso do poema “Solidário ou solitário?”, pode ser substituído, sem alterar o sentido do verso, pela palavra:Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 4
Solidário ou Solitário?
Ederson Peka
1 Se eu fizesse uma canção
2 Cantando o abraço do amigo,
3 Me estenderias tua mão
4 E cantarias comigo?
5 Se eu abrisse o coração
6 Num elogio ao amor,
7 Somarias tua visão
8 Ao que eu pudesse compor?
9 Se eu escolhesse o caminho
10 Sem retorno da poesia,
11 Será que iria sozinho?
12 E o mundo ignoraria
13 Os meus versos de carinho?
14 Ou tu me acompanharias?
Solidário ou solitário. Disponível em: https://sitedepoesias.com/poesias/22028-solidario-ou-solitario. Acesso em: 8 Jul 24.
O título do soneto de Ederson Peka apresenta dois vocábulos com sonoridades muito próximas, obtendo, assim, um contraste entre duas palavras parecidas. Ao articular o título com o conteúdo do poema é possível inferir que:Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 3
Mãos Dadas
Carlos Drummond de Andrade
1 Não serei o poeta de um mundo caduco.
2 Também não cantarei o mundo futuro.
3 Estou preso à vida e olho meus companheiros.
4 Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
5 Entre eles, considero a enorme realidade.
6 O presente é tão grande, não nos afastemos.
7 Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
8 Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
9 Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela.
10 Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
11 Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
12 O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
13 A vida presente.
Sentimento do mundo. Disponível em https://umprofessorle.com.br/2018/03/31/maos-dadas/. Acesso em 8 jul. 24.
TEXTO 4
Solidário ou Solitário?
Ederson Peka
1 Se eu fizesse uma canção
2 Cantando o abraço do amigo,
3 Me estenderias tua mão
4 E cantarias comigo?
5 Se eu abrisse o coração
6 Num elogio ao amor,
7 Somarias tua visão
8 Ao que eu pudesse compor?
9 Se eu escolhesse o caminho
10 Sem retorno da poesia,
11 Será que iria sozinho?
12 E o mundo ignoraria
13 Os meus versos de carinho?
14 Ou tu me acompanharias?
Solidário ou solitário. Disponível em: https://sitedepoesias.com/poesias/22028-solidario-ou-solitario. Acesso em: 8 Jul 24.
Quando comparamos o Texto 4 (Solidário ou Solitário?) com o Texto 3 (Mãos Dadas), observamos algumas aproximações e distanciamentos entre eles. É correto, portanto, sustentar que:Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO 5
![]()
Transcrição do texto do infográfico:
DOAÇÃO PARA ORGANIZAÇÕES SOCIAIS CORRESPONDE A R$ 12,8 BILHÕES
A maturidade da cultura de doação em um país está diretamente relacionada ao investimento social privado. Em países onde as pessoas têm como prática fazer doações para organizações sociais e entendem isso como um ato que transforma realidades, elas tendem também a cobrar mais essa atitude de empresas e indivíduos com alto poder aquisitivo. Quando ocupam posições de liderança, também tendem a promover a prática. É um círculo virtuoso ao qual temos nos dedicado a estudar.
Esta foi a motivação para o desenvolvimento da primeira Pesquisa Doação Brasil, em 2015. Até hoje, é a única que apresenta um retrato abrangente do comportamento do doador individual do país.
A edição lançada em 2023, revelou que 36% dos brasileiros fizeram uma doação em dinheiro para organizações sociais ao longo do ano anterior, o equivalente a R$ 12,8 bilhões. Trouxe ainda um capítulo especial sobre a Geração Z, que tende a ser mais influenciada pelas mídias sociais, em especial, o Instagram.
PESQUISA DOAÇÃO BRASIL 2022
QUANTOS BRASILEIROS DOARAM EM 2022
Realizou alguma doação: 84%
Doação de dinheiro: 48%
Doação institucional de dinheiro*: 36%
Doação de bens/materiais/alimentos: 75%
Doação de trabalho voluntário: 26%
* Doação institucional é aquela feita para ONGs e/ou projetos socioambientais. Não considera doações de esmola, dízimo ou dinheiro para conhecidos.
RELATÓRIO DE ATIVIDADES 2023 IDIS
Relatório de Atividades 2023. Disponível em: https://www.idis.org.br/tag/wgi/. Acesso em: 25 jun. 2024.
Considerando a sintaxe de regência e as regras de ocorrência da crase, marque a única alternativa em que a substituição do trecho destacado por outro entre parênteses exige o emprego obrigatório de acento indicativo de crase.
TEXTO 6
![]()
Tiras de Armandinho. Disponível em: https://www.tumblr.com/tirasarmandinho. Acesso em: 23 maio 2024.
Considerando o sentido geral e o emprego das linguagens verbal e não-verbal, pode-se afirmar que a principal finalidade do texto 6 é
TEXTO 5
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Transcrição do texto do infográfico:
DOAÇÃO PARA ORGANIZAÇÕES SOCIAIS CORRESPONDE A R$ 12,8 BILHÕES
A maturidade da cultura de doação em um país está diretamente relacionada ao investimento social privado. Em países onde as pessoas têm como prática fazer doações para organizações sociais e entendem isso como um ato que transforma realidades, elas tendem também a cobrar mais essa atitude de empresas e indivíduos com alto poder aquisitivo. Quando ocupam posições de liderança, também tendem a promover a prática. É um círculo virtuoso ao qual temos nos dedicado a estudar.
Esta foi a motivação para o desenvolvimento da primeira Pesquisa Doação Brasil, em 2015. Até hoje, é a única que apresenta um retrato abrangente do comportamento do doador individual do país.
A edição lançada em 2023, revelou que 36% dos brasileiros fizeram uma doação em dinheiro para organizações sociais ao longo do ano anterior, o equivalente a R$ 12,8 bilhões. Trouxe ainda um capítulo especial sobre a Geração Z, que tende a ser mais influenciada pelas mídias sociais, em especial, o Instagram.
PESQUISA DOAÇÃO BRASIL 2022
QUANTOS BRASILEIROS DOARAM EM 2022
Realizou alguma doação: 84%
Doação de dinheiro: 48%
Doação institucional de dinheiro*: 36%
Doação de bens/materiais/alimentos: 75%
Doação de trabalho voluntário: 26%
* Doação institucional é aquela feita para ONGs e/ou projetos socioambientais. Não considera doações de esmola, dízimo ou dinheiro para conhecidos.
RELATÓRIO DE ATIVIDADES 2023 IDIS
Relatório de Atividades 2023. Disponível em: https://www.idis.org.br/tag/wgi/. Acesso em: 25 jun. 2024.
TEXTO 6
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Tiras de Armandinho. Disponível em: https://www.tumblr.com/tirasarmandinho. Acesso em: 23 maio 2024.
Relacionando os Textos 5 e 6, é correto afirmar que
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