← Voltar para a lista de provas Colégio Militar de Belo Horizonte · Admissão ao 1º ano do Ensino Médio 41 questões nesta prova · página 2 de 3 · 40 com gabarito Gabarito disponível Infere-se que Camilo continuará jogando. Mesmo após o 'último lance', Camilo aconselha o menino a jogar na cobra, o que mostra que o vício persiste. A conclusão é que ele continuará jogando. A está errada: ele evitava somar a despesa e a receita, o que é o oposto de racional. B está errada: já tinha dívidas antes do jogo. C está errada: 'começou a vinténs e está em contos de réis' refere-se ao valor das apostas, não ao enriquecimento. D está errada: ele chega com apenas 38 mil-réis. Referência: Interpretação de texto: inferência. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível As compras revelam uma personagem iludida que tenta compensar-se. Camilo gasta parte do prêmio em um jantar festivo e em um broche, apesar das dívidas e do prejuízo. Isso revela ilusão e tentativa de compensar a si e à esposa, mascarando a irresponsabilidade financeira. A atribui fé religiosa, o que não se deduz das compras. B está errada: não há ostentação. C está errada: a ingenuidade não é o traço revelado. E está errada: a generosidade não é 'pura', pois o gasto vem da ilusão. Referência: Caracterização de personagem. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Escolher a citação que reflete o jogo como paixão cega e danosa. O conto mostra Camilo cegado pela paixão do jogo, que o arruína tanto ao perder quanto ao ganhar (ele gasta o que ganha). A citação de Camilo Castelo Branco, 'o jogo é a mais cega e despótica das paixões', que desonra quem perde e quem ganha, resume isso. A critica a corrupção administrativa, tema ausente do conto. B trata da antiguidade do jogo, sem relação com a mensagem. C trata de política econômica nacional. E condena o jogo de forma sentenciosa, mas sem a ideia de paixão cega que atinge ganhador e perdedor. Referência: Interpretação: tema central. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Julgar o sentido de trechos pela escolha lexical. 1ª (V): para o compadre, o leão 'esquivo' está mais próximo de dar. 2ª (V): o diálogo vago foi suficiente para eles. 3ª (F): 'um dia não são dias' significa que num dia especial se pode gastar além do normal. 4ª (F): 'rico pastelão' é apetitoso, não pequeno; encher os olhos é ser atraente. 5ª (V): a ideia lhe ocorreu subitamente ao estar no bonde. As demais sequências erram ao atribuir V à 3ª ou à 4ª, ou F à 1ª, 2ª ou 5ª. Referência: Semântica: sentido contextual. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível A ironia está em chamar o macaco de 'meio-homem' que falha. Ao chamar o animal de 'meio-homem' que 'falhou às esperanças', o narrador critica de forma velada a falibilidade humana, pois o homem é quem falha. Esse é um uso típico da ironia machadiana. B é uma leitura literal e não há crítica aos pesquisadores. C é uma crítica ao sentimento religioso que o trecho não faz. D está errada: o exagero também revela o interesse do confeiteiro em vender. E está errada: a ironia não está em comparar a alma aos embrulhos. Referência: Ironia no narrador machadiano. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível 'Posto que' é concessiva; a reescrita com 'visto que' (causal) altera o sentido. 'Posto que metódico' tem valor concessivo (embora fosse metódico). 'Ainda que', 'se bem que', 'apesar de' e 'embora' são concessivas e preservam o sentido. 'Visto que' é causal e alteraria a relação lógica. A, C, D e E são concessivas e mantêm o sentido. Só B muda a relação para causa. Referência: Conjunções: concessão e causa. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível A oração 'que não dera' é restritiva; 'que dera' é explicativa. 'O bicho que não dera' restringe o sentido de 'bicho', identificando qual bicho (o que não saiu), sem vírgula. 'Que dera', separada por vírgula, apenas acrescenta uma informação ao 'leão'. Assim, a oração restritiva nos limita a uma realidade entre outras possíveis. A está errada: 'que não dera' modifica a referência do antecedente. B está errada: tirar a vírgula de 'que dera' alteraria o sentido. C está errada: vírgula após 'bicho' tornaria a oração explicativa. E está errada: as duas orações têm relações distintas (restritiva e explicativa). Referência: Orações subordinadas adjetivas restritivas e explicativas. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Função do 'se' em 'deixou-se ir'. Camilo praticou a ação sobre si mesmo: deixou a si mesmo ir. Por isso o 'se' é pronome reflexivo, funcionando como objeto direto do verbo 'deixar'. A está errada: há sujeito determinado (Camilo). B está errada: não é partícula expletiva neste enunciado. D está errada: não há voz passiva sintética, pois o sujeito pratica a ação. E está errada: não há reciprocidade, pois só há um agente. Referência: Funções do 'se': pronome reflexivo. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível 'Cuja' é pronome relativo com valor possessivo e função de adjunto adnominal. Em 'o número do carro, cuja terminação correspondia ao carneiro', 'cuja' retoma 'carro' e indica posse (a terminação do carro). Sintaticamente liga-se ao substantivo 'terminação', funcionando como adjunto adnominal. A está errada: 'cuja' não é demonstrativo nem sujeito, pois o sujeito é 'terminação'. B está errada: não é complemento nominal. C está errada: não há comparação. D está errada: não é concessivo nem agente da passiva. Referência: Pronome relativo 'cujo': valor possessivo. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Grafia de 'déficit/deficit': latinismo incorporado. 'Deficit' é um latinismo incorporado ao vocabulário da língua e registrado sem acento, como no texto de Machado. Por isso a grafia sem acento é correta, pois estrangeirismos desse tipo mantêm a forma original. A está errada porque o argumento da proparoxítona não justifica o acento nesse caso, já que a palavra é um latinismo. B está errada: a palavra é paroxítona, não oxítona. D está errada: existem palavras terminadas em 't' em português. E está errada: 'déficite' não é forma da língua. Referência: Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa; Acordo Ortográfico. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Julgar o sentido conotativo ou denotativo de expressões da canção. 1ª (V): 'vendaval' é metáfora para o dinheiro que passa rápido e destrói. 2ª (F): 'cai da cama' é figurada e simboliza a perda das ilusões, não é sentido denotativo. 3ª (V): 'irmão desconhece irmão' é figurado e indica frieza nas relações. 4ª (V): 'solidão' é o estado de estar só, e a repetição reforça a consequência da busca pelo dinheiro. Sequência V–F–V–V. As demais alternativas consideram falsa a 1ª ou a 3ª, ou verdadeira a 2ª, o que contraria a análise acima. Referência: Denotação e conotação. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Relacionar 'vendaval' e 'solidão' da canção ao destino de Camilo. O dinheiro ganho some rapidamente em festejos e compras (vendaval). A 'solidão' remete ao vazio do autoengano e da desilusão que Camilo tenta esconder de si, fechando os olhos ao déficit. Essa é a correspondência mais precisa entre as obras. A generaliza que o dinheiro 'inevitavelmente' leva à ruína, o que é exagero. C atribui a Camilo um individualismo e uma ocultação da esposa que o texto não sustenta. D afirma que o jogo é 'a única maneira' e que a solidão final é o prejuízo, o que não corresponde ao texto. E diz que as obras defendem o dinheiro como base da felicidade, o que contraria a canção. Referência: Intertextualidade: Machado de Assis e Paulinho da Viola. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Associar o verso 'Na vida de um sonhador' a Camilo, que vive de ilusões. Camilo é movido por esperança infundada, pois acredita que vai recuperar o prejuízo. Isso aparece na fé nos bichos e no pudim com a inscrição 'Viva a esperança!'. Por isso ele se encaixa no 'sonhador' da canção. A está errada: ele não gasta quase tudo (sobram 38 mil-réis) e o prêmio veio do leão, não da cobra. B está errada: o texto não diz que o prêmio pagaria dívidas. D está errada: o esquecimento de agradecer é distração, não afastamento. E está errada: indicar a cobra foi confusão, não indiferença de 'irmão desconhece irmão'. Referência: Intertextualidade entre conto e canção. Resolução comentada do VaiConcursos. Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponível Gabarito disponívelCMBH — Processo Seletivo de Admissão 2025/2026 — 1º ano do Ensino Médio — Prova de Matemática, Língua Portuguesa e Produção Textual
TEXTO I
Jogo do bicho
Camilo – ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade – ocupava em um dos arsenais do
Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos
ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um
amigo no subúrbio do Rocha; lá viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Três meses
5 depois estavam casados. [...]
Já então tinha algumas dívidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, às
escondidas. Apesar dessa explicação, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordinária.
Ides ver. Que a posteridade me ouça. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. [...] Começou a vinténs e
dizem que está em contos de réis; mas, vamos ao nosso caso.
10 Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tostões, ganhou
não sei quantas vezes mais. Achou nisso tal despropósito que não quis crer, mas afinal foi obrigado a crer,
ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, três, quatro vezes, mas o animal, meio-
homem, falhou às esperanças do primeiro dia. Camilo recorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o
lucro inteiro tornou à gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas não há
15 descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia lá vem a mão do arqueólogo a pesquisar os ossos e as
idades.
Camilo tinha fé. A fé abala as montanhas. Tentou o gato, depois o cão, depois o avestruz; não
havendo jogado neles, podia ser que... Não pôde ser; a fortuna igualou os três animais em não lhes fazer dar
nada. [...]
20 — Acaba-se ganhando sempre, acudiu um; a questão é tenacidade, não afrouxar nunca.
Apesar disso, Camilo deixou-se ir com seus cálculos. [...]
— Diga-me cá: quantas vezes tem acertado?
— De cor, não posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.
— Pois veja, e há de descobrir que todo o seu mal está em não teimar algum tempo no mesmo bicho.
25 Olhe, um preto, que há três meses joga na borboleta, ganhou hoje e levou uma bolada...
Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas não as comparava para não conhecer a
diferença. Não queria saber do deficit. Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade,
para não a ver e aborrecer. Entretanto, a sugestão do compadre era aceitável; talvez a inquietação, a
impaciência, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a causa de não tirar nunca nada.
30 Ao chegar a casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. [...] Jantou triste, por ver a
mulher tão carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre também. Depois
do café, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus cálculos. Somou as vezes e os bichos,
tantas na cobra, tantas no galo, tantas no cão e no resto, uma fauna inteira, mas tão sem persistência, que
era fácil desacertar. Não queria somar a despesa e a receita para não receber de cara um grande golpe, e
35 fechou o caderno. Afinal não pôde, e somou lentamente, com cuidado para não errar; tinha gasto setecentos
e sete mil-réis, e tinha ganho oitenta e quatro mil-réis, um deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Ficou
assombrado.
— Não é possível!
[...] O meu plano está feito, saiu pensando no dia seguinte, vou até aos setecentos mil-réis. Se não
40 tirar quantia grossa que anime, não compro mais.
Firmou-se na cobra, por causa da astúcia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que
aceitara o seu conselho, e começava a teimar na cobra.
— A cobra é boa – disse o compadre.
Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar
45 mentalmente uma preferência, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel,
perdeu também; veio à surucucu, à jiboia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima
fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o
determinou a isso foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia,
o menino foi levado à farmácia, o cocheiro, ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro,
50 cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro.
[...] Um dia resolveu fixar-se no leão; o compadre, quando reconheceu que efetivamente não saía do
rei dos animais, deu graças a Deus.
— Ora, graças a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O leão tem andado esquivo, é provável
que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã.
55 — Esquivo? Mas então não quererá dizer...?
— Ao contrário.
Dizer quê? Ao contrário, quê? Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada
mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-réis; ou vencia
ou morria.
60 A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos, os trabalhos,
crescentes, as dívidas e os empréstimos, e até não raras, as fomes. Não lhe cabia culpa, mas tinha paciência.
Ele, em chegando aos setecentos mil-réis, trancaria a porta. O leão não queria dar. Camilo pensou em trocá-
lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com essa frouxidão, que ele acabaria entre os braços da
realeza. Faltava já pouco; enfim, pouquíssimo.
65 — Hoje respiro – disse Camilo à esposa –. Aqui está a nota última.
Cerca das duas horas, estando à mesa da repartição, a copiar um grave documento, Camilo ia
calculando os números e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por
causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no cérebro. [...]
De repente, entra na sala um contínuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o leão dera. Camilo deixou
70 cair a pena, e a tinta inutilizou a cópia quase acabada. [...]
— Ora, chegue-se, dê cá um abraço, disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu. Afinal a sorte
começa a protegê-lo.
— Quanto?
— Cento e cinco mil-réis.
75 Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-réis, e só na rua advertiu que não agradecera ao
compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-réis! Tinha ânsia de levar à mulher aquela notícia;
mas, assim... só...?
— Sim, é preciso festejar esse acontecimento. Um dia não são dias. Devo agradecer ao céu a fortuna
que me deu. Um pratinho melhor à mesa...
80 Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio
ajudá-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as coisas.
Começou por um pastelão, “um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago”.
A sobremesa foi “um rico pudim”, em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: “Viva
a esperança!”. A alegria de Camilo foi tanta e tão estrepitosa que o homem não teve remédio senão oferecer-
85 lhe vinho também, uma ou duas garrafas. Duas.
— Isto não vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. Não é longe?
Camilo aceitou [...] Pagou dezesseis mil-réis e saiu. Estava tão contente com o jantar que levava e o
espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma joia. Essa ideia só o assaltou no
bonde, andando; desceu e voltou a pé, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra
90 preciosa. Achou um broche nessas condições, tão modesto no preço, cinquenta mil-réis, que ficou admirado;
mas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.
Ao chegar, estava à porta o menino, com cara de o haver já descomposto e mandado ao diabo. Tirou-
lhe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.
— Não, senhor, o patrão não quer.
95 — Pois não diga ao patrão; pegue lá dez tostões; servem para comprar na cobra, compre na cobra.
Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade;
foi talvez confusão. O menino recebeu os dez tostões, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas
mãos e trinta e oito mil-réis na algibeira.
ASSIS, Machado de. Jogo do bicho. In: Contos na imprensa.
Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/jogo-do-bicho/60679. Acesso em: 08 set 2025. Adaptado.
Assinale a alternativa correta.Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO I
Jogo do bicho
Camilo – ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade – ocupava em um dos arsenais do
Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos
ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um
amigo no subúrbio do Rocha; lá viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Três meses
5 depois estavam casados. [...]
Já então tinha algumas dívidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, às
escondidas. Apesar dessa explicação, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordinária.
Ides ver. Que a posteridade me ouça. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. [...] Começou a vinténs e
dizem que está em contos de réis; mas, vamos ao nosso caso.
10 Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tostões, ganhou
não sei quantas vezes mais. Achou nisso tal despropósito que não quis crer, mas afinal foi obrigado a crer,
ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, três, quatro vezes, mas o animal, meio-
homem, falhou às esperanças do primeiro dia. Camilo recorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o
lucro inteiro tornou à gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas não há
15 descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia lá vem a mão do arqueólogo a pesquisar os ossos e as
idades.
Camilo tinha fé. A fé abala as montanhas. Tentou o gato, depois o cão, depois o avestruz; não
havendo jogado neles, podia ser que... Não pôde ser; a fortuna igualou os três animais em não lhes fazer dar
nada. [...]
20 — Acaba-se ganhando sempre, acudiu um; a questão é tenacidade, não afrouxar nunca.
Apesar disso, Camilo deixou-se ir com seus cálculos. [...]
— Diga-me cá: quantas vezes tem acertado?
— De cor, não posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.
— Pois veja, e há de descobrir que todo o seu mal está em não teimar algum tempo no mesmo bicho.
25 Olhe, um preto, que há três meses joga na borboleta, ganhou hoje e levou uma bolada...
Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas não as comparava para não conhecer a
diferença. Não queria saber do deficit. Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade,
para não a ver e aborrecer. Entretanto, a sugestão do compadre era aceitável; talvez a inquietação, a
impaciência, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a causa de não tirar nunca nada.
30 Ao chegar a casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. [...] Jantou triste, por ver a
mulher tão carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre também. Depois
do café, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus cálculos. Somou as vezes e os bichos,
tantas na cobra, tantas no galo, tantas no cão e no resto, uma fauna inteira, mas tão sem persistência, que
era fácil desacertar. Não queria somar a despesa e a receita para não receber de cara um grande golpe, e
35 fechou o caderno. Afinal não pôde, e somou lentamente, com cuidado para não errar; tinha gasto setecentos
e sete mil-réis, e tinha ganho oitenta e quatro mil-réis, um deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Ficou
assombrado.
— Não é possível!
[...] O meu plano está feito, saiu pensando no dia seguinte, vou até aos setecentos mil-réis. Se não
40 tirar quantia grossa que anime, não compro mais.
Firmou-se na cobra, por causa da astúcia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que
aceitara o seu conselho, e começava a teimar na cobra.
— A cobra é boa – disse o compadre.
Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar
45 mentalmente uma preferência, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel,
perdeu também; veio à surucucu, à jiboia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima
fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o
determinou a isso foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia,
o menino foi levado à farmácia, o cocheiro, ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro,
50 cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro.
[...] Um dia resolveu fixar-se no leão; o compadre, quando reconheceu que efetivamente não saía do
rei dos animais, deu graças a Deus.
— Ora, graças a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O leão tem andado esquivo, é provável
que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã.
55 — Esquivo? Mas então não quererá dizer...?
— Ao contrário.
Dizer quê? Ao contrário, quê? Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada
mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-réis; ou vencia
ou morria.
60 A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos, os trabalhos,
crescentes, as dívidas e os empréstimos, e até não raras, as fomes. Não lhe cabia culpa, mas tinha paciência.
Ele, em chegando aos setecentos mil-réis, trancaria a porta. O leão não queria dar. Camilo pensou em trocá-
lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com essa frouxidão, que ele acabaria entre os braços da
realeza. Faltava já pouco; enfim, pouquíssimo.
65 — Hoje respiro – disse Camilo à esposa –. Aqui está a nota última.
Cerca das duas horas, estando à mesa da repartição, a copiar um grave documento, Camilo ia
calculando os números e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por
causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no cérebro. [...]
De repente, entra na sala um contínuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o leão dera. Camilo deixou
70 cair a pena, e a tinta inutilizou a cópia quase acabada. [...]
— Ora, chegue-se, dê cá um abraço, disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu. Afinal a sorte
começa a protegê-lo.
— Quanto?
— Cento e cinco mil-réis.
75 Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-réis, e só na rua advertiu que não agradecera ao
compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-réis! Tinha ânsia de levar à mulher aquela notícia;
mas, assim... só...?
— Sim, é preciso festejar esse acontecimento. Um dia não são dias. Devo agradecer ao céu a fortuna
que me deu. Um pratinho melhor à mesa...
80 Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio
ajudá-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as coisas.
Começou por um pastelão, “um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago”.
A sobremesa foi “um rico pudim”, em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: “Viva
a esperança!”. A alegria de Camilo foi tanta e tão estrepitosa que o homem não teve remédio senão oferecer-
85 lhe vinho também, uma ou duas garrafas. Duas.
— Isto não vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. Não é longe?
Camilo aceitou [...] Pagou dezesseis mil-réis e saiu. Estava tão contente com o jantar que levava e o
espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma joia. Essa ideia só o assaltou no
bonde, andando; desceu e voltou a pé, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra
90 preciosa. Achou um broche nessas condições, tão modesto no preço, cinquenta mil-réis, que ficou admirado;
mas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.
Ao chegar, estava à porta o menino, com cara de o haver já descomposto e mandado ao diabo. Tirou-
lhe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.
— Não, senhor, o patrão não quer.
95 — Pois não diga ao patrão; pegue lá dez tostões; servem para comprar na cobra, compre na cobra.
Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade;
foi talvez confusão. O menino recebeu os dez tostões, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas
mãos e trinta e oito mil-réis na algibeira.
ASSIS, Machado de. Jogo do bicho. In: Contos na imprensa.
Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/jogo-do-bicho/60679. Acesso em: 08 set 2025. Adaptado.
A atitude de comprar um pastelão, pudim, vinho e, depois, um broche para a esposa, revela, de forma implícita, traços psicológicos de Camilo que o caracterizam como uma personagemResolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO I
Jogo do bicho
Camilo – ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade – ocupava em um dos arsenais do
Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos
ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um
amigo no subúrbio do Rocha; lá viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Três meses
5 depois estavam casados. [...]
Já então tinha algumas dívidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, às
escondidas. Apesar dessa explicação, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordinária.
Ides ver. Que a posteridade me ouça. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. [...] Começou a vinténs e
dizem que está em contos de réis; mas, vamos ao nosso caso.
10 Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tostões, ganhou
não sei quantas vezes mais. Achou nisso tal despropósito que não quis crer, mas afinal foi obrigado a crer,
ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, três, quatro vezes, mas o animal, meio-
homem, falhou às esperanças do primeiro dia. Camilo recorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o
lucro inteiro tornou à gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas não há
15 descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia lá vem a mão do arqueólogo a pesquisar os ossos e as
idades.
Camilo tinha fé. A fé abala as montanhas. Tentou o gato, depois o cão, depois o avestruz; não
havendo jogado neles, podia ser que... Não pôde ser; a fortuna igualou os três animais em não lhes fazer dar
nada. [...]
20 — Acaba-se ganhando sempre, acudiu um; a questão é tenacidade, não afrouxar nunca.
Apesar disso, Camilo deixou-se ir com seus cálculos. [...]
— Diga-me cá: quantas vezes tem acertado?
— De cor, não posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.
— Pois veja, e há de descobrir que todo o seu mal está em não teimar algum tempo no mesmo bicho.
25 Olhe, um preto, que há três meses joga na borboleta, ganhou hoje e levou uma bolada...
Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas não as comparava para não conhecer a
diferença. Não queria saber do deficit. Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade,
para não a ver e aborrecer. Entretanto, a sugestão do compadre era aceitável; talvez a inquietação, a
impaciência, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a causa de não tirar nunca nada.
30 Ao chegar a casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. [...] Jantou triste, por ver a
mulher tão carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre também. Depois
do café, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus cálculos. Somou as vezes e os bichos,
tantas na cobra, tantas no galo, tantas no cão e no resto, uma fauna inteira, mas tão sem persistência, que
era fácil desacertar. Não queria somar a despesa e a receita para não receber de cara um grande golpe, e
35 fechou o caderno. Afinal não pôde, e somou lentamente, com cuidado para não errar; tinha gasto setecentos
e sete mil-réis, e tinha ganho oitenta e quatro mil-réis, um deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Ficou
assombrado.
— Não é possível!
[...] O meu plano está feito, saiu pensando no dia seguinte, vou até aos setecentos mil-réis. Se não
40 tirar quantia grossa que anime, não compro mais.
Firmou-se na cobra, por causa da astúcia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que
aceitara o seu conselho, e começava a teimar na cobra.
— A cobra é boa – disse o compadre.
Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar
45 mentalmente uma preferência, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel,
perdeu também; veio à surucucu, à jiboia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima
fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o
determinou a isso foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia,
o menino foi levado à farmácia, o cocheiro, ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro,
50 cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro.
[...] Um dia resolveu fixar-se no leão; o compadre, quando reconheceu que efetivamente não saía do
rei dos animais, deu graças a Deus.
— Ora, graças a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O leão tem andado esquivo, é provável
que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã.
55 — Esquivo? Mas então não quererá dizer...?
— Ao contrário.
Dizer quê? Ao contrário, quê? Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada
mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-réis; ou vencia
ou morria.
60 A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos, os trabalhos,
crescentes, as dívidas e os empréstimos, e até não raras, as fomes. Não lhe cabia culpa, mas tinha paciência.
Ele, em chegando aos setecentos mil-réis, trancaria a porta. O leão não queria dar. Camilo pensou em trocá-
lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com essa frouxidão, que ele acabaria entre os braços da
realeza. Faltava já pouco; enfim, pouquíssimo.
65 — Hoje respiro – disse Camilo à esposa –. Aqui está a nota última.
Cerca das duas horas, estando à mesa da repartição, a copiar um grave documento, Camilo ia
calculando os números e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por
causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no cérebro. [...]
De repente, entra na sala um contínuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o leão dera. Camilo deixou
70 cair a pena, e a tinta inutilizou a cópia quase acabada. [...]
— Ora, chegue-se, dê cá um abraço, disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu. Afinal a sorte
começa a protegê-lo.
— Quanto?
— Cento e cinco mil-réis.
75 Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-réis, e só na rua advertiu que não agradecera ao
compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-réis! Tinha ânsia de levar à mulher aquela notícia;
mas, assim... só...?
— Sim, é preciso festejar esse acontecimento. Um dia não são dias. Devo agradecer ao céu a fortuna
que me deu. Um pratinho melhor à mesa...
80 Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio
ajudá-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as coisas.
Começou por um pastelão, “um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago”.
A sobremesa foi “um rico pudim”, em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: “Viva
a esperança!”. A alegria de Camilo foi tanta e tão estrepitosa que o homem não teve remédio senão oferecer-
85 lhe vinho também, uma ou duas garrafas. Duas.
— Isto não vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. Não é longe?
Camilo aceitou [...] Pagou dezesseis mil-réis e saiu. Estava tão contente com o jantar que levava e o
espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma joia. Essa ideia só o assaltou no
bonde, andando; desceu e voltou a pé, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra
90 preciosa. Achou um broche nessas condições, tão modesto no preço, cinquenta mil-réis, que ficou admirado;
mas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.
Ao chegar, estava à porta o menino, com cara de o haver já descomposto e mandado ao diabo. Tirou-
lhe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.
— Não, senhor, o patrão não quer.
95 — Pois não diga ao patrão; pegue lá dez tostões; servem para comprar na cobra, compre na cobra.
Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade;
foi talvez confusão. O menino recebeu os dez tostões, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas
mãos e trinta e oito mil-réis na algibeira.
ASSIS, Machado de. Jogo do bicho. In: Contos na imprensa.
Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/jogo-do-bicho/60679. Acesso em: 08 set 2025. Adaptado.
Assinale a citação que melhor reflete a mensagem apresentada no Texto I, Jogo do bicho.Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO I
Jogo do bicho
Camilo – ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade – ocupava em um dos arsenais do
Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos
ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um
amigo no subúrbio do Rocha; lá viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Três meses
5 depois estavam casados. [...]
Já então tinha algumas dívidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, às
escondidas. Apesar dessa explicação, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordinária.
Ides ver. Que a posteridade me ouça. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. [...] Começou a vinténs e
dizem que está em contos de réis; mas, vamos ao nosso caso.
10 Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tostões, ganhou
não sei quantas vezes mais. Achou nisso tal despropósito que não quis crer, mas afinal foi obrigado a crer,
ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, três, quatro vezes, mas o animal, meio-
homem, falhou às esperanças do primeiro dia. Camilo recorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o
lucro inteiro tornou à gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas não há
15 descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia lá vem a mão do arqueólogo a pesquisar os ossos e as
idades.
Camilo tinha fé. A fé abala as montanhas. Tentou o gato, depois o cão, depois o avestruz; não
havendo jogado neles, podia ser que... Não pôde ser; a fortuna igualou os três animais em não lhes fazer dar
nada. [...]
20 — Acaba-se ganhando sempre, acudiu um; a questão é tenacidade, não afrouxar nunca.
Apesar disso, Camilo deixou-se ir com seus cálculos. [...]
— Diga-me cá: quantas vezes tem acertado?
— De cor, não posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.
— Pois veja, e há de descobrir que todo o seu mal está em não teimar algum tempo no mesmo bicho.
25 Olhe, um preto, que há três meses joga na borboleta, ganhou hoje e levou uma bolada...
Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas não as comparava para não conhecer a
diferença. Não queria saber do deficit. Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade,
para não a ver e aborrecer. Entretanto, a sugestão do compadre era aceitável; talvez a inquietação, a
impaciência, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a causa de não tirar nunca nada.
30 Ao chegar a casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. [...] Jantou triste, por ver a
mulher tão carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre também. Depois
do café, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus cálculos. Somou as vezes e os bichos,
tantas na cobra, tantas no galo, tantas no cão e no resto, uma fauna inteira, mas tão sem persistência, que
era fácil desacertar. Não queria somar a despesa e a receita para não receber de cara um grande golpe, e
35 fechou o caderno. Afinal não pôde, e somou lentamente, com cuidado para não errar; tinha gasto setecentos
e sete mil-réis, e tinha ganho oitenta e quatro mil-réis, um deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Ficou
assombrado.
— Não é possível!
[...] O meu plano está feito, saiu pensando no dia seguinte, vou até aos setecentos mil-réis. Se não
40 tirar quantia grossa que anime, não compro mais.
Firmou-se na cobra, por causa da astúcia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que
aceitara o seu conselho, e começava a teimar na cobra.
— A cobra é boa – disse o compadre.
Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar
45 mentalmente uma preferência, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel,
perdeu também; veio à surucucu, à jiboia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima
fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o
determinou a isso foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia,
o menino foi levado à farmácia, o cocheiro, ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro,
50 cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro.
[...] Um dia resolveu fixar-se no leão; o compadre, quando reconheceu que efetivamente não saía do
rei dos animais, deu graças a Deus.
— Ora, graças a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O leão tem andado esquivo, é provável
que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã.
55 — Esquivo? Mas então não quererá dizer...?
— Ao contrário.
Dizer quê? Ao contrário, quê? Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada
mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-réis; ou vencia
ou morria.
60 A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos, os trabalhos,
crescentes, as dívidas e os empréstimos, e até não raras, as fomes. Não lhe cabia culpa, mas tinha paciência.
Ele, em chegando aos setecentos mil-réis, trancaria a porta. O leão não queria dar. Camilo pensou em trocá-
lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com essa frouxidão, que ele acabaria entre os braços da
realeza. Faltava já pouco; enfim, pouquíssimo.
65 — Hoje respiro – disse Camilo à esposa –. Aqui está a nota última.
Cerca das duas horas, estando à mesa da repartição, a copiar um grave documento, Camilo ia
calculando os números e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por
causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no cérebro. [...]
De repente, entra na sala um contínuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o leão dera. Camilo deixou
70 cair a pena, e a tinta inutilizou a cópia quase acabada. [...]
— Ora, chegue-se, dê cá um abraço, disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu. Afinal a sorte
começa a protegê-lo.
— Quanto?
— Cento e cinco mil-réis.
75 Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-réis, e só na rua advertiu que não agradecera ao
compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-réis! Tinha ânsia de levar à mulher aquela notícia;
mas, assim... só...?
— Sim, é preciso festejar esse acontecimento. Um dia não são dias. Devo agradecer ao céu a fortuna
que me deu. Um pratinho melhor à mesa...
80 Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio
ajudá-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as coisas.
Começou por um pastelão, “um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago”.
A sobremesa foi “um rico pudim”, em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: “Viva
a esperança!”. A alegria de Camilo foi tanta e tão estrepitosa que o homem não teve remédio senão oferecer-
85 lhe vinho também, uma ou duas garrafas. Duas.
— Isto não vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. Não é longe?
Camilo aceitou [...] Pagou dezesseis mil-réis e saiu. Estava tão contente com o jantar que levava e o
espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma joia. Essa ideia só o assaltou no
bonde, andando; desceu e voltou a pé, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra
90 preciosa. Achou um broche nessas condições, tão modesto no preço, cinquenta mil-réis, que ficou admirado;
mas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.
Ao chegar, estava à porta o menino, com cara de o haver já descomposto e mandado ao diabo. Tirou-
lhe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.
— Não, senhor, o patrão não quer.
95 — Pois não diga ao patrão; pegue lá dez tostões; servem para comprar na cobra, compre na cobra.
Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade;
foi talvez confusão. O menino recebeu os dez tostões, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas
mãos e trinta e oito mil-réis na algibeira.
ASSIS, Machado de. Jogo do bicho. In: Contos na imprensa.
Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/jogo-do-bicho/60679. Acesso em: 08 set 2025. Adaptado.
Considerando a construção do sentido a partir das escolhas lexicais feitas pelo autor, julgue as afirmativas abaixo utilizando (V) para as verdadeiras e (F) para as falsas.
( ) O leão tem andado esquivo, é provável que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã. (l. 53-54) O trecho indica que para as personagens a probabilidade de o leão aparecer aumenta por ele andar esquivo.
( ) Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada mais claro. (l. 57-58) O trecho indica que, para as personagens envolvidas, o vago diálogo foi suficientemente preciso.
( ) Um dia não são dias. (l. 78) O trecho significa que um dia jamais se repete, portanto a personagem deve comemorar a sorte gastando nesse mesmo dia o recurso recebido.
( ) [...]"um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago" (l. 82). O trecho indica que o pastelão era caro, bonito e pequeno, bastando para encher os olhos apenas.
( ) Essa ideia só o assaltou no bonde, andando; [...] (l. 88-89) O trecho indica que apenas quando já estava no bonde ocorreu abruptamente à personagem a ideia de presentear a esposa.
Assinale a alternativa correta.Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO I
Jogo do bicho
Camilo – ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade – ocupava em um dos arsenais do
Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos
ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um
amigo no subúrbio do Rocha; lá viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Três meses
5 depois estavam casados. [...]
Já então tinha algumas dívidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, às
escondidas. Apesar dessa explicação, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordinária.
Ides ver. Que a posteridade me ouça. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. [...] Começou a vinténs e
dizem que está em contos de réis; mas, vamos ao nosso caso.
10 Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tostões, ganhou
não sei quantas vezes mais. Achou nisso tal despropósito que não quis crer, mas afinal foi obrigado a crer,
ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, três, quatro vezes, mas o animal, meio-
homem, falhou às esperanças do primeiro dia. Camilo recorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o
lucro inteiro tornou à gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas não há
15 descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia lá vem a mão do arqueólogo a pesquisar os ossos e as
idades.
Camilo tinha fé. A fé abala as montanhas. Tentou o gato, depois o cão, depois o avestruz; não
havendo jogado neles, podia ser que... Não pôde ser; a fortuna igualou os três animais em não lhes fazer dar
nada. [...]
20 — Acaba-se ganhando sempre, acudiu um; a questão é tenacidade, não afrouxar nunca.
Apesar disso, Camilo deixou-se ir com seus cálculos. [...]
— Diga-me cá: quantas vezes tem acertado?
— De cor, não posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.
— Pois veja, e há de descobrir que todo o seu mal está em não teimar algum tempo no mesmo bicho.
25 Olhe, um preto, que há três meses joga na borboleta, ganhou hoje e levou uma bolada...
Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas não as comparava para não conhecer a
diferença. Não queria saber do deficit. Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade,
para não a ver e aborrecer. Entretanto, a sugestão do compadre era aceitável; talvez a inquietação, a
impaciência, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a causa de não tirar nunca nada.
30 Ao chegar a casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. [...] Jantou triste, por ver a
mulher tão carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre também. Depois
do café, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus cálculos. Somou as vezes e os bichos,
tantas na cobra, tantas no galo, tantas no cão e no resto, uma fauna inteira, mas tão sem persistência, que
era fácil desacertar. Não queria somar a despesa e a receita para não receber de cara um grande golpe, e
35 fechou o caderno. Afinal não pôde, e somou lentamente, com cuidado para não errar; tinha gasto setecentos
e sete mil-réis, e tinha ganho oitenta e quatro mil-réis, um deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Ficou
assombrado.
— Não é possível!
[...] O meu plano está feito, saiu pensando no dia seguinte, vou até aos setecentos mil-réis. Se não
40 tirar quantia grossa que anime, não compro mais.
Firmou-se na cobra, por causa da astúcia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que
aceitara o seu conselho, e começava a teimar na cobra.
— A cobra é boa – disse o compadre.
Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar
45 mentalmente uma preferência, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel,
perdeu também; veio à surucucu, à jiboia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima
fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o
determinou a isso foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia,
o menino foi levado à farmácia, o cocheiro, ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro,
50 cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro.
[...] Um dia resolveu fixar-se no leão; o compadre, quando reconheceu que efetivamente não saía do
rei dos animais, deu graças a Deus.
— Ora, graças a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O leão tem andado esquivo, é provável
que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã.
55 — Esquivo? Mas então não quererá dizer...?
— Ao contrário.
Dizer quê? Ao contrário, quê? Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada
mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-réis; ou vencia
ou morria.
60 A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos, os trabalhos,
crescentes, as dívidas e os empréstimos, e até não raras, as fomes. Não lhe cabia culpa, mas tinha paciência.
Ele, em chegando aos setecentos mil-réis, trancaria a porta. O leão não queria dar. Camilo pensou em trocá-
lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com essa frouxidão, que ele acabaria entre os braços da
realeza. Faltava já pouco; enfim, pouquíssimo.
65 — Hoje respiro – disse Camilo à esposa –. Aqui está a nota última.
Cerca das duas horas, estando à mesa da repartição, a copiar um grave documento, Camilo ia
calculando os números e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por
causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no cérebro. [...]
De repente, entra na sala um contínuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o leão dera. Camilo deixou
70 cair a pena, e a tinta inutilizou a cópia quase acabada. [...]
— Ora, chegue-se, dê cá um abraço, disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu. Afinal a sorte
começa a protegê-lo.
— Quanto?
— Cento e cinco mil-réis.
75 Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-réis, e só na rua advertiu que não agradecera ao
compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-réis! Tinha ânsia de levar à mulher aquela notícia;
mas, assim... só...?
— Sim, é preciso festejar esse acontecimento. Um dia não são dias. Devo agradecer ao céu a fortuna
que me deu. Um pratinho melhor à mesa...
80 Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio
ajudá-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as coisas.
Começou por um pastelão, “um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago”.
A sobremesa foi “um rico pudim”, em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: “Viva
a esperança!”. A alegria de Camilo foi tanta e tão estrepitosa que o homem não teve remédio senão oferecer-
85 lhe vinho também, uma ou duas garrafas. Duas.
— Isto não vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. Não é longe?
Camilo aceitou [...] Pagou dezesseis mil-réis e saiu. Estava tão contente com o jantar que levava e o
espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma joia. Essa ideia só o assaltou no
bonde, andando; desceu e voltou a pé, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra
90 preciosa. Achou um broche nessas condições, tão modesto no preço, cinquenta mil-réis, que ficou admirado;
mas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.
Ao chegar, estava à porta o menino, com cara de o haver já descomposto e mandado ao diabo. Tirou-
lhe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.
— Não, senhor, o patrão não quer.
95 — Pois não diga ao patrão; pegue lá dez tostões; servem para comprar na cobra, compre na cobra.
Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade;
foi talvez confusão. O menino recebeu os dez tostões, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas
mãos e trinta e oito mil-réis na algibeira.
ASSIS, Machado de. Jogo do bicho. In: Contos na imprensa.
Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/jogo-do-bicho/60679. Acesso em: 08 set 2025. Adaptado.
A ironia e o humor são recursos muito característicos do tradicional narrador machadiano. Assinale a alternativa que traz uma correta explicação do emprego desses recursos no texto lido.Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO I
Jogo do bicho
Camilo – ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade – ocupava em um dos arsenais do
Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos
ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um
amigo no subúrbio do Rocha; lá viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Três meses
5 depois estavam casados. [...]
Já então tinha algumas dívidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, às
escondidas. Apesar dessa explicação, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordinária.
Ides ver. Que a posteridade me ouça. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. [...] Começou a vinténs e
dizem que está em contos de réis; mas, vamos ao nosso caso.
10 Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tostões, ganhou
não sei quantas vezes mais. Achou nisso tal despropósito que não quis crer, mas afinal foi obrigado a crer,
ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, três, quatro vezes, mas o animal, meio-
homem, falhou às esperanças do primeiro dia. Camilo recorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o
lucro inteiro tornou à gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas não há
15 descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia lá vem a mão do arqueólogo a pesquisar os ossos e as
idades.
Camilo tinha fé. A fé abala as montanhas. Tentou o gato, depois o cão, depois o avestruz; não
havendo jogado neles, podia ser que... Não pôde ser; a fortuna igualou os três animais em não lhes fazer dar
nada. [...]
20 — Acaba-se ganhando sempre, acudiu um; a questão é tenacidade, não afrouxar nunca.
Apesar disso, Camilo deixou-se ir com seus cálculos. [...]
— Diga-me cá: quantas vezes tem acertado?
— De cor, não posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.
— Pois veja, e há de descobrir que todo o seu mal está em não teimar algum tempo no mesmo bicho.
25 Olhe, um preto, que há três meses joga na borboleta, ganhou hoje e levou uma bolada...
Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas não as comparava para não conhecer a
diferença. Não queria saber do deficit. Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade,
para não a ver e aborrecer. Entretanto, a sugestão do compadre era aceitável; talvez a inquietação, a
impaciência, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a causa de não tirar nunca nada.
30 Ao chegar a casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. [...] Jantou triste, por ver a
mulher tão carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre também. Depois
do café, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus cálculos. Somou as vezes e os bichos,
tantas na cobra, tantas no galo, tantas no cão e no resto, uma fauna inteira, mas tão sem persistência, que
era fácil desacertar. Não queria somar a despesa e a receita para não receber de cara um grande golpe, e
35 fechou o caderno. Afinal não pôde, e somou lentamente, com cuidado para não errar; tinha gasto setecentos
e sete mil-réis, e tinha ganho oitenta e quatro mil-réis, um deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Ficou
assombrado.
— Não é possível!
[...] O meu plano está feito, saiu pensando no dia seguinte, vou até aos setecentos mil-réis. Se não
40 tirar quantia grossa que anime, não compro mais.
Firmou-se na cobra, por causa da astúcia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que
aceitara o seu conselho, e começava a teimar na cobra.
— A cobra é boa – disse o compadre.
Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar
45 mentalmente uma preferência, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel,
perdeu também; veio à surucucu, à jiboia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima
fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o
determinou a isso foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia,
o menino foi levado à farmácia, o cocheiro, ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro,
50 cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro.
[...] Um dia resolveu fixar-se no leão; o compadre, quando reconheceu que efetivamente não saía do
rei dos animais, deu graças a Deus.
— Ora, graças a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O leão tem andado esquivo, é provável
que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã.
55 — Esquivo? Mas então não quererá dizer...?
— Ao contrário.
Dizer quê? Ao contrário, quê? Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada
mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-réis; ou vencia
ou morria.
60 A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos, os trabalhos,
crescentes, as dívidas e os empréstimos, e até não raras, as fomes. Não lhe cabia culpa, mas tinha paciência.
Ele, em chegando aos setecentos mil-réis, trancaria a porta. O leão não queria dar. Camilo pensou em trocá-
lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com essa frouxidão, que ele acabaria entre os braços da
realeza. Faltava já pouco; enfim, pouquíssimo.
65 — Hoje respiro – disse Camilo à esposa –. Aqui está a nota última.
Cerca das duas horas, estando à mesa da repartição, a copiar um grave documento, Camilo ia
calculando os números e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por
causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no cérebro. [...]
De repente, entra na sala um contínuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o leão dera. Camilo deixou
70 cair a pena, e a tinta inutilizou a cópia quase acabada. [...]
— Ora, chegue-se, dê cá um abraço, disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu. Afinal a sorte
começa a protegê-lo.
— Quanto?
— Cento e cinco mil-réis.
75 Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-réis, e só na rua advertiu que não agradecera ao
compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-réis! Tinha ânsia de levar à mulher aquela notícia;
mas, assim... só...?
— Sim, é preciso festejar esse acontecimento. Um dia não são dias. Devo agradecer ao céu a fortuna
que me deu. Um pratinho melhor à mesa...
80 Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio
ajudá-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as coisas.
Começou por um pastelão, “um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago”.
A sobremesa foi “um rico pudim”, em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: “Viva
a esperança!”. A alegria de Camilo foi tanta e tão estrepitosa que o homem não teve remédio senão oferecer-
85 lhe vinho também, uma ou duas garrafas. Duas.
— Isto não vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. Não é longe?
Camilo aceitou [...] Pagou dezesseis mil-réis e saiu. Estava tão contente com o jantar que levava e o
espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma joia. Essa ideia só o assaltou no
bonde, andando; desceu e voltou a pé, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra
90 preciosa. Achou um broche nessas condições, tão modesto no preço, cinquenta mil-réis, que ficou admirado;
mas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.
Ao chegar, estava à porta o menino, com cara de o haver já descomposto e mandado ao diabo. Tirou-
lhe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.
— Não, senhor, o patrão não quer.
95 — Pois não diga ao patrão; pegue lá dez tostões; servem para comprar na cobra, compre na cobra.
Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade;
foi talvez confusão. O menino recebeu os dez tostões, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas
mãos e trinta e oito mil-réis na algibeira.
ASSIS, Machado de. Jogo do bicho. In: Contos na imprensa.
Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/jogo-do-bicho/60679. Acesso em: 08 set 2025. Adaptado.
Assinale a alternativa em que a reescrita provoca alteração de sentido no enunciado “Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade, para não a ver e aborrecer.” (l. 27-28).Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO I
Jogo do bicho
Camilo – ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade – ocupava em um dos arsenais do
Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos
ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um
amigo no subúrbio do Rocha; lá viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Três meses
5 depois estavam casados. [...]
Já então tinha algumas dívidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, às
escondidas. Apesar dessa explicação, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordinária.
Ides ver. Que a posteridade me ouça. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. [...] Começou a vinténs e
dizem que está em contos de réis; mas, vamos ao nosso caso.
10 Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tostões, ganhou
não sei quantas vezes mais. Achou nisso tal despropósito que não quis crer, mas afinal foi obrigado a crer,
ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, três, quatro vezes, mas o animal, meio-
homem, falhou às esperanças do primeiro dia. Camilo recorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o
lucro inteiro tornou à gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas não há
15 descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia lá vem a mão do arqueólogo a pesquisar os ossos e as
idades.
Camilo tinha fé. A fé abala as montanhas. Tentou o gato, depois o cão, depois o avestruz; não
havendo jogado neles, podia ser que... Não pôde ser; a fortuna igualou os três animais em não lhes fazer dar
nada. [...]
20 — Acaba-se ganhando sempre, acudiu um; a questão é tenacidade, não afrouxar nunca.
Apesar disso, Camilo deixou-se ir com seus cálculos. [...]
— Diga-me cá: quantas vezes tem acertado?
— De cor, não posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.
— Pois veja, e há de descobrir que todo o seu mal está em não teimar algum tempo no mesmo bicho.
25 Olhe, um preto, que há três meses joga na borboleta, ganhou hoje e levou uma bolada...
Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas não as comparava para não conhecer a
diferença. Não queria saber do deficit. Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade,
para não a ver e aborrecer. Entretanto, a sugestão do compadre era aceitável; talvez a inquietação, a
impaciência, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a causa de não tirar nunca nada.
30 Ao chegar a casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. [...] Jantou triste, por ver a
mulher tão carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre também. Depois
do café, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus cálculos. Somou as vezes e os bichos,
tantas na cobra, tantas no galo, tantas no cão e no resto, uma fauna inteira, mas tão sem persistência, que
era fácil desacertar. Não queria somar a despesa e a receita para não receber de cara um grande golpe, e
35 fechou o caderno. Afinal não pôde, e somou lentamente, com cuidado para não errar; tinha gasto setecentos
e sete mil-réis, e tinha ganho oitenta e quatro mil-réis, um deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Ficou
assombrado.
— Não é possível!
[...] O meu plano está feito, saiu pensando no dia seguinte, vou até aos setecentos mil-réis. Se não
40 tirar quantia grossa que anime, não compro mais.
Firmou-se na cobra, por causa da astúcia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que
aceitara o seu conselho, e começava a teimar na cobra.
— A cobra é boa – disse o compadre.
Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar
45 mentalmente uma preferência, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel,
perdeu também; veio à surucucu, à jiboia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima
fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o
determinou a isso foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia,
o menino foi levado à farmácia, o cocheiro, ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro,
50 cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro.
[...] Um dia resolveu fixar-se no leão; o compadre, quando reconheceu que efetivamente não saía do
rei dos animais, deu graças a Deus.
— Ora, graças a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O leão tem andado esquivo, é provável
que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã.
55 — Esquivo? Mas então não quererá dizer...?
— Ao contrário.
Dizer quê? Ao contrário, quê? Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada
mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-réis; ou vencia
ou morria.
60 A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos, os trabalhos,
crescentes, as dívidas e os empréstimos, e até não raras, as fomes. Não lhe cabia culpa, mas tinha paciência.
Ele, em chegando aos setecentos mil-réis, trancaria a porta. O leão não queria dar. Camilo pensou em trocá-
lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com essa frouxidão, que ele acabaria entre os braços da
realeza. Faltava já pouco; enfim, pouquíssimo.
65 — Hoje respiro – disse Camilo à esposa –. Aqui está a nota última.
Cerca das duas horas, estando à mesa da repartição, a copiar um grave documento, Camilo ia
calculando os números e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por
causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no cérebro. [...]
De repente, entra na sala um contínuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o leão dera. Camilo deixou
70 cair a pena, e a tinta inutilizou a cópia quase acabada. [...]
— Ora, chegue-se, dê cá um abraço, disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu. Afinal a sorte
começa a protegê-lo.
— Quanto?
— Cento e cinco mil-réis.
75 Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-réis, e só na rua advertiu que não agradecera ao
compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-réis! Tinha ânsia de levar à mulher aquela notícia;
mas, assim... só...?
— Sim, é preciso festejar esse acontecimento. Um dia não são dias. Devo agradecer ao céu a fortuna
que me deu. Um pratinho melhor à mesa...
80 Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio
ajudá-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as coisas.
Começou por um pastelão, “um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago”.
A sobremesa foi “um rico pudim”, em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: “Viva
a esperança!”. A alegria de Camilo foi tanta e tão estrepitosa que o homem não teve remédio senão oferecer-
85 lhe vinho também, uma ou duas garrafas. Duas.
— Isto não vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. Não é longe?
Camilo aceitou [...] Pagou dezesseis mil-réis e saiu. Estava tão contente com o jantar que levava e o
espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma joia. Essa ideia só o assaltou no
bonde, andando; desceu e voltou a pé, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra
90 preciosa. Achou um broche nessas condições, tão modesto no preço, cinquenta mil-réis, que ficou admirado;
mas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.
Ao chegar, estava à porta o menino, com cara de o haver já descomposto e mandado ao diabo. Tirou-
lhe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.
— Não, senhor, o patrão não quer.
95 — Pois não diga ao patrão; pegue lá dez tostões; servem para comprar na cobra, compre na cobra.
Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade;
foi talvez confusão. O menino recebeu os dez tostões, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas
mãos e trinta e oito mil-réis na algibeira.
ASSIS, Machado de. Jogo do bicho. In: Contos na imprensa.
Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/jogo-do-bicho/60679. Acesso em: 08 set 2025. Adaptado.
Considere a seguinte oração, retirada do Texto I:
![]()
A oração destacada é um exemplo de oração subordinada reduzida de infinitivo. Ao transformá-la em uma oração desenvolvida, mantendo-se a relação lógico-semântica original estabelecida pelo uso da preposição "por", marque a opção a qual apresenta a forma desenvolvida mais adequada e a correta classificação.
TEXTO I
Jogo do bicho
Camilo – ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade – ocupava em um dos arsenais do
Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos
ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um
amigo no subúrbio do Rocha; lá viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Três meses
5 depois estavam casados. [...]
Já então tinha algumas dívidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, às
escondidas. Apesar dessa explicação, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordinária.
Ides ver. Que a posteridade me ouça. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. [...] Começou a vinténs e
dizem que está em contos de réis; mas, vamos ao nosso caso.
10 Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tostões, ganhou
não sei quantas vezes mais. Achou nisso tal despropósito que não quis crer, mas afinal foi obrigado a crer,
ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, três, quatro vezes, mas o animal, meio-
homem, falhou às esperanças do primeiro dia. Camilo recorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o
lucro inteiro tornou à gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas não há
15 descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia lá vem a mão do arqueólogo a pesquisar os ossos e as
idades.
Camilo tinha fé. A fé abala as montanhas. Tentou o gato, depois o cão, depois o avestruz; não
havendo jogado neles, podia ser que... Não pôde ser; a fortuna igualou os três animais em não lhes fazer dar
nada. [...]
20 — Acaba-se ganhando sempre, acudiu um; a questão é tenacidade, não afrouxar nunca.
Apesar disso, Camilo deixou-se ir com seus cálculos. [...]
— Diga-me cá: quantas vezes tem acertado?
— De cor, não posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.
— Pois veja, e há de descobrir que todo o seu mal está em não teimar algum tempo no mesmo bicho.
25 Olhe, um preto, que há três meses joga na borboleta, ganhou hoje e levou uma bolada...
Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas não as comparava para não conhecer a
diferença. Não queria saber do deficit. Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade,
para não a ver e aborrecer. Entretanto, a sugestão do compadre era aceitável; talvez a inquietação, a
impaciência, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a causa de não tirar nunca nada.
30 Ao chegar a casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. [...] Jantou triste, por ver a
mulher tão carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre também. Depois
do café, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus cálculos. Somou as vezes e os bichos,
tantas na cobra, tantas no galo, tantas no cão e no resto, uma fauna inteira, mas tão sem persistência, que
era fácil desacertar. Não queria somar a despesa e a receita para não receber de cara um grande golpe, e
35 fechou o caderno. Afinal não pôde, e somou lentamente, com cuidado para não errar; tinha gasto setecentos
e sete mil-réis, e tinha ganho oitenta e quatro mil-réis, um deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Ficou
assombrado.
— Não é possível!
[...] O meu plano está feito, saiu pensando no dia seguinte, vou até aos setecentos mil-réis. Se não
40 tirar quantia grossa que anime, não compro mais.
Firmou-se na cobra, por causa da astúcia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que
aceitara o seu conselho, e começava a teimar na cobra.
— A cobra é boa – disse o compadre.
Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar
45 mentalmente uma preferência, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel,
perdeu também; veio à surucucu, à jiboia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima
fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o
determinou a isso foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia,
o menino foi levado à farmácia, o cocheiro, ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro,
50 cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro.
[...] Um dia resolveu fixar-se no leão; o compadre, quando reconheceu que efetivamente não saía do
rei dos animais, deu graças a Deus.
— Ora, graças a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O leão tem andado esquivo, é provável
que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã.
55 — Esquivo? Mas então não quererá dizer...?
— Ao contrário.
Dizer quê? Ao contrário, quê? Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada
mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-réis; ou vencia
ou morria.
60 A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos, os trabalhos,
crescentes, as dívidas e os empréstimos, e até não raras, as fomes. Não lhe cabia culpa, mas tinha paciência.
Ele, em chegando aos setecentos mil-réis, trancaria a porta. O leão não queria dar. Camilo pensou em trocá-
lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com essa frouxidão, que ele acabaria entre os braços da
realeza. Faltava já pouco; enfim, pouquíssimo.
65 — Hoje respiro – disse Camilo à esposa –. Aqui está a nota última.
Cerca das duas horas, estando à mesa da repartição, a copiar um grave documento, Camilo ia
calculando os números e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por
causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no cérebro. [...]
De repente, entra na sala um contínuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o leão dera. Camilo deixou
70 cair a pena, e a tinta inutilizou a cópia quase acabada. [...]
— Ora, chegue-se, dê cá um abraço, disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu. Afinal a sorte
começa a protegê-lo.
— Quanto?
— Cento e cinco mil-réis.
75 Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-réis, e só na rua advertiu que não agradecera ao
compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-réis! Tinha ânsia de levar à mulher aquela notícia;
mas, assim... só...?
— Sim, é preciso festejar esse acontecimento. Um dia não são dias. Devo agradecer ao céu a fortuna
que me deu. Um pratinho melhor à mesa...
80 Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio
ajudá-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as coisas.
Começou por um pastelão, “um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago”.
A sobremesa foi “um rico pudim”, em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: “Viva
a esperança!”. A alegria de Camilo foi tanta e tão estrepitosa que o homem não teve remédio senão oferecer-
85 lhe vinho também, uma ou duas garrafas. Duas.
— Isto não vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. Não é longe?
Camilo aceitou [...] Pagou dezesseis mil-réis e saiu. Estava tão contente com o jantar que levava e o
espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma joia. Essa ideia só o assaltou no
bonde, andando; desceu e voltou a pé, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra
90 preciosa. Achou um broche nessas condições, tão modesto no preço, cinquenta mil-réis, que ficou admirado;
mas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.
Ao chegar, estava à porta o menino, com cara de o haver já descomposto e mandado ao diabo. Tirou-
lhe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.
— Não, senhor, o patrão não quer.
95 — Pois não diga ao patrão; pegue lá dez tostões; servem para comprar na cobra, compre na cobra.
Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade;
foi talvez confusão. O menino recebeu os dez tostões, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas
mãos e trinta e oito mil-réis na algibeira.
ASSIS, Machado de. Jogo do bicho. In: Contos na imprensa.
Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/jogo-do-bicho/60679. Acesso em: 08 set 2025. Adaptado.
Analise o trecho a seguir e marque a alternativa correta.
“Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade;” (l. 96)Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO I
Jogo do bicho
Camilo – ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade – ocupava em um dos arsenais do
Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos
ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um
amigo no subúrbio do Rocha; lá viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Três meses
5 depois estavam casados. [...]
Já então tinha algumas dívidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, às
escondidas. Apesar dessa explicação, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordinária.
Ides ver. Que a posteridade me ouça. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. [...] Começou a vinténs e
dizem que está em contos de réis; mas, vamos ao nosso caso.
10 Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tostões, ganhou
não sei quantas vezes mais. Achou nisso tal despropósito que não quis crer, mas afinal foi obrigado a crer,
ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, três, quatro vezes, mas o animal, meio-
homem, falhou às esperanças do primeiro dia. Camilo recorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o
lucro inteiro tornou à gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas não há
15 descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia lá vem a mão do arqueólogo a pesquisar os ossos e as
idades.
Camilo tinha fé. A fé abala as montanhas. Tentou o gato, depois o cão, depois o avestruz; não
havendo jogado neles, podia ser que... Não pôde ser; a fortuna igualou os três animais em não lhes fazer dar
nada. [...]
20 — Acaba-se ganhando sempre, acudiu um; a questão é tenacidade, não afrouxar nunca.
Apesar disso, Camilo deixou-se ir com seus cálculos. [...]
— Diga-me cá: quantas vezes tem acertado?
— De cor, não posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.
— Pois veja, e há de descobrir que todo o seu mal está em não teimar algum tempo no mesmo bicho.
25 Olhe, um preto, que há três meses joga na borboleta, ganhou hoje e levou uma bolada...
Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas não as comparava para não conhecer a
diferença. Não queria saber do deficit. Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade,
para não a ver e aborrecer. Entretanto, a sugestão do compadre era aceitável; talvez a inquietação, a
impaciência, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a causa de não tirar nunca nada.
30 Ao chegar a casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. [...] Jantou triste, por ver a
mulher tão carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre também. Depois
do café, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus cálculos. Somou as vezes e os bichos,
tantas na cobra, tantas no galo, tantas no cão e no resto, uma fauna inteira, mas tão sem persistência, que
era fácil desacertar. Não queria somar a despesa e a receita para não receber de cara um grande golpe, e
35 fechou o caderno. Afinal não pôde, e somou lentamente, com cuidado para não errar; tinha gasto setecentos
e sete mil-réis, e tinha ganho oitenta e quatro mil-réis, um deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Ficou
assombrado.
— Não é possível!
[...] O meu plano está feito, saiu pensando no dia seguinte, vou até aos setecentos mil-réis. Se não
40 tirar quantia grossa que anime, não compro mais.
Firmou-se na cobra, por causa da astúcia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que
aceitara o seu conselho, e começava a teimar na cobra.
— A cobra é boa – disse o compadre.
Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar
45 mentalmente uma preferência, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel,
perdeu também; veio à surucucu, à jiboia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima
fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o
determinou a isso foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia,
o menino foi levado à farmácia, o cocheiro, ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro,
50 cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro.
[...] Um dia resolveu fixar-se no leão; o compadre, quando reconheceu que efetivamente não saía do
rei dos animais, deu graças a Deus.
— Ora, graças a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O leão tem andado esquivo, é provável
que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã.
55 — Esquivo? Mas então não quererá dizer...?
— Ao contrário.
Dizer quê? Ao contrário, quê? Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada
mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-réis; ou vencia
ou morria.
60 A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos, os trabalhos,
crescentes, as dívidas e os empréstimos, e até não raras, as fomes. Não lhe cabia culpa, mas tinha paciência.
Ele, em chegando aos setecentos mil-réis, trancaria a porta. O leão não queria dar. Camilo pensou em trocá-
lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com essa frouxidão, que ele acabaria entre os braços da
realeza. Faltava já pouco; enfim, pouquíssimo.
65 — Hoje respiro – disse Camilo à esposa –. Aqui está a nota última.
Cerca das duas horas, estando à mesa da repartição, a copiar um grave documento, Camilo ia
calculando os números e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por
causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no cérebro. [...]
De repente, entra na sala um contínuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o leão dera. Camilo deixou
70 cair a pena, e a tinta inutilizou a cópia quase acabada. [...]
— Ora, chegue-se, dê cá um abraço, disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu. Afinal a sorte
começa a protegê-lo.
— Quanto?
— Cento e cinco mil-réis.
75 Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-réis, e só na rua advertiu que não agradecera ao
compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-réis! Tinha ânsia de levar à mulher aquela notícia;
mas, assim... só...?
— Sim, é preciso festejar esse acontecimento. Um dia não são dias. Devo agradecer ao céu a fortuna
que me deu. Um pratinho melhor à mesa...
80 Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio
ajudá-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as coisas.
Começou por um pastelão, “um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago”.
A sobremesa foi “um rico pudim”, em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: “Viva
a esperança!”. A alegria de Camilo foi tanta e tão estrepitosa que o homem não teve remédio senão oferecer-
85 lhe vinho também, uma ou duas garrafas. Duas.
— Isto não vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. Não é longe?
Camilo aceitou [...] Pagou dezesseis mil-réis e saiu. Estava tão contente com o jantar que levava e o
espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma joia. Essa ideia só o assaltou no
bonde, andando; desceu e voltou a pé, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra
90 preciosa. Achou um broche nessas condições, tão modesto no preço, cinquenta mil-réis, que ficou admirado;
mas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.
Ao chegar, estava à porta o menino, com cara de o haver já descomposto e mandado ao diabo. Tirou-
lhe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.
— Não, senhor, o patrão não quer.
95 — Pois não diga ao patrão; pegue lá dez tostões; servem para comprar na cobra, compre na cobra.
Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade;
foi talvez confusão. O menino recebeu os dez tostões, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas
mãos e trinta e oito mil-réis na algibeira.
ASSIS, Machado de. Jogo do bicho. In: Contos na imprensa.
Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/jogo-do-bicho/60679. Acesso em: 08 set 2025. Adaptado.
Considere a oração "Apesar disso, Camilo deixou-se ir com os seus cálculos." (l. 21).
Assinale a alternativa que apresenta a classificação e a análise corretas a respeito da função do pronome oblíquo "se".Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO I
Jogo do bicho
Camilo – ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade – ocupava em um dos arsenais do
Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos
ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um
amigo no subúrbio do Rocha; lá viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Três meses
5 depois estavam casados. [...]
Já então tinha algumas dívidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, às
escondidas. Apesar dessa explicação, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordinária.
Ides ver. Que a posteridade me ouça. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. [...] Começou a vinténs e
dizem que está em contos de réis; mas, vamos ao nosso caso.
10 Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tostões, ganhou
não sei quantas vezes mais. Achou nisso tal despropósito que não quis crer, mas afinal foi obrigado a crer,
ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, três, quatro vezes, mas o animal, meio-
homem, falhou às esperanças do primeiro dia. Camilo recorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o
lucro inteiro tornou à gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas não há
15 descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia lá vem a mão do arqueólogo a pesquisar os ossos e as
idades.
Camilo tinha fé. A fé abala as montanhas. Tentou o gato, depois o cão, depois o avestruz; não
havendo jogado neles, podia ser que... Não pôde ser; a fortuna igualou os três animais em não lhes fazer dar
nada. [...]
20 — Acaba-se ganhando sempre, acudiu um; a questão é tenacidade, não afrouxar nunca.
Apesar disso, Camilo deixou-se ir com seus cálculos. [...]
— Diga-me cá: quantas vezes tem acertado?
— De cor, não posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.
— Pois veja, e há de descobrir que todo o seu mal está em não teimar algum tempo no mesmo bicho.
25 Olhe, um preto, que há três meses joga na borboleta, ganhou hoje e levou uma bolada...
Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas não as comparava para não conhecer a
diferença. Não queria saber do deficit. Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade,
para não a ver e aborrecer. Entretanto, a sugestão do compadre era aceitável; talvez a inquietação, a
impaciência, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a causa de não tirar nunca nada.
30 Ao chegar a casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. [...] Jantou triste, por ver a
mulher tão carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre também. Depois
do café, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus cálculos. Somou as vezes e os bichos,
tantas na cobra, tantas no galo, tantas no cão e no resto, uma fauna inteira, mas tão sem persistência, que
era fácil desacertar. Não queria somar a despesa e a receita para não receber de cara um grande golpe, e
35 fechou o caderno. Afinal não pôde, e somou lentamente, com cuidado para não errar; tinha gasto setecentos
e sete mil-réis, e tinha ganho oitenta e quatro mil-réis, um deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Ficou
assombrado.
— Não é possível!
[...] O meu plano está feito, saiu pensando no dia seguinte, vou até aos setecentos mil-réis. Se não
40 tirar quantia grossa que anime, não compro mais.
Firmou-se na cobra, por causa da astúcia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que
aceitara o seu conselho, e começava a teimar na cobra.
— A cobra é boa – disse o compadre.
Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar
45 mentalmente uma preferência, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel,
perdeu também; veio à surucucu, à jiboia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima
fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o
determinou a isso foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia,
o menino foi levado à farmácia, o cocheiro, ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro,
50 cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro.
[...] Um dia resolveu fixar-se no leão; o compadre, quando reconheceu que efetivamente não saía do
rei dos animais, deu graças a Deus.
— Ora, graças a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O leão tem andado esquivo, é provável
que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã.
55 — Esquivo? Mas então não quererá dizer...?
— Ao contrário.
Dizer quê? Ao contrário, quê? Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada
mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-réis; ou vencia
ou morria.
60 A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos, os trabalhos,
crescentes, as dívidas e os empréstimos, e até não raras, as fomes. Não lhe cabia culpa, mas tinha paciência.
Ele, em chegando aos setecentos mil-réis, trancaria a porta. O leão não queria dar. Camilo pensou em trocá-
lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com essa frouxidão, que ele acabaria entre os braços da
realeza. Faltava já pouco; enfim, pouquíssimo.
65 — Hoje respiro – disse Camilo à esposa –. Aqui está a nota última.
Cerca das duas horas, estando à mesa da repartição, a copiar um grave documento, Camilo ia
calculando os números e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por
causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no cérebro. [...]
De repente, entra na sala um contínuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o leão dera. Camilo deixou
70 cair a pena, e a tinta inutilizou a cópia quase acabada. [...]
— Ora, chegue-se, dê cá um abraço, disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu. Afinal a sorte
começa a protegê-lo.
— Quanto?
— Cento e cinco mil-réis.
75 Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-réis, e só na rua advertiu que não agradecera ao
compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-réis! Tinha ânsia de levar à mulher aquela notícia;
mas, assim... só...?
— Sim, é preciso festejar esse acontecimento. Um dia não são dias. Devo agradecer ao céu a fortuna
que me deu. Um pratinho melhor à mesa...
80 Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio
ajudá-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as coisas.
Começou por um pastelão, “um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago”.
A sobremesa foi “um rico pudim”, em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: “Viva
a esperança!”. A alegria de Camilo foi tanta e tão estrepitosa que o homem não teve remédio senão oferecer-
85 lhe vinho também, uma ou duas garrafas. Duas.
— Isto não vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. Não é longe?
Camilo aceitou [...] Pagou dezesseis mil-réis e saiu. Estava tão contente com o jantar que levava e o
espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma joia. Essa ideia só o assaltou no
bonde, andando; desceu e voltou a pé, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra
90 preciosa. Achou um broche nessas condições, tão modesto no preço, cinquenta mil-réis, que ficou admirado;
mas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.
Ao chegar, estava à porta o menino, com cara de o haver já descomposto e mandado ao diabo. Tirou-
lhe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.
— Não, senhor, o patrão não quer.
95 — Pois não diga ao patrão; pegue lá dez tostões; servem para comprar na cobra, compre na cobra.
Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade;
foi talvez confusão. O menino recebeu os dez tostões, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas
mãos e trinta e oito mil-réis na algibeira.
ASSIS, Machado de. Jogo do bicho. In: Contos na imprensa.
Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/jogo-do-bicho/60679. Acesso em: 08 set 2025. Adaptado.
Leia a oração abaixo:
"Camilo só reparou bem no número do carro, cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro." (l. 49-50)
Assinale a alternativa a seguir que apresenta a análise correta sobre o valor semântico do termo "cuja" e a sua função sintática interna dentro da oração que ele introduz.Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO I
Jogo do bicho
Camilo – ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade – ocupava em um dos arsenais do
Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos
ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um
amigo no subúrbio do Rocha; lá viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Três meses
5 depois estavam casados. [...]
Já então tinha algumas dívidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, às
escondidas. Apesar dessa explicação, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordinária.
Ides ver. Que a posteridade me ouça. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. [...] Começou a vinténs e
dizem que está em contos de réis; mas, vamos ao nosso caso.
10 Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tostões, ganhou
não sei quantas vezes mais. Achou nisso tal despropósito que não quis crer, mas afinal foi obrigado a crer,
ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, três, quatro vezes, mas o animal, meio-
homem, falhou às esperanças do primeiro dia. Camilo recorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o
lucro inteiro tornou à gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas não há
15 descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia lá vem a mão do arqueólogo a pesquisar os ossos e as
idades.
Camilo tinha fé. A fé abala as montanhas. Tentou o gato, depois o cão, depois o avestruz; não
havendo jogado neles, podia ser que... Não pôde ser; a fortuna igualou os três animais em não lhes fazer dar
nada. [...]
20 — Acaba-se ganhando sempre, acudiu um; a questão é tenacidade, não afrouxar nunca.
Apesar disso, Camilo deixou-se ir com seus cálculos. [...]
— Diga-me cá: quantas vezes tem acertado?
— De cor, não posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.
— Pois veja, e há de descobrir que todo o seu mal está em não teimar algum tempo no mesmo bicho.
25 Olhe, um preto, que há três meses joga na borboleta, ganhou hoje e levou uma bolada...
Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas não as comparava para não conhecer a
diferença. Não queria saber do deficit. Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade,
para não a ver e aborrecer. Entretanto, a sugestão do compadre era aceitável; talvez a inquietação, a
impaciência, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a causa de não tirar nunca nada.
30 Ao chegar a casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. [...] Jantou triste, por ver a
mulher tão carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre também. Depois
do café, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus cálculos. Somou as vezes e os bichos,
tantas na cobra, tantas no galo, tantas no cão e no resto, uma fauna inteira, mas tão sem persistência, que
era fácil desacertar. Não queria somar a despesa e a receita para não receber de cara um grande golpe, e
35 fechou o caderno. Afinal não pôde, e somou lentamente, com cuidado para não errar; tinha gasto setecentos
e sete mil-réis, e tinha ganho oitenta e quatro mil-réis, um deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Ficou
assombrado.
— Não é possível!
[...] O meu plano está feito, saiu pensando no dia seguinte, vou até aos setecentos mil-réis. Se não
40 tirar quantia grossa que anime, não compro mais.
Firmou-se na cobra, por causa da astúcia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que
aceitara o seu conselho, e começava a teimar na cobra.
— A cobra é boa – disse o compadre.
Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar
45 mentalmente uma preferência, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel,
perdeu também; veio à surucucu, à jiboia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima
fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o
determinou a isso foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia,
o menino foi levado à farmácia, o cocheiro, ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro,
50 cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro.
[...] Um dia resolveu fixar-se no leão; o compadre, quando reconheceu que efetivamente não saía do
rei dos animais, deu graças a Deus.
— Ora, graças a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O leão tem andado esquivo, é provável
que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã.
55 — Esquivo? Mas então não quererá dizer...?
— Ao contrário.
Dizer quê? Ao contrário, quê? Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada
mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-réis; ou vencia
ou morria.
60 A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos, os trabalhos,
crescentes, as dívidas e os empréstimos, e até não raras, as fomes. Não lhe cabia culpa, mas tinha paciência.
Ele, em chegando aos setecentos mil-réis, trancaria a porta. O leão não queria dar. Camilo pensou em trocá-
lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com essa frouxidão, que ele acabaria entre os braços da
realeza. Faltava já pouco; enfim, pouquíssimo.
65 — Hoje respiro – disse Camilo à esposa –. Aqui está a nota última.
Cerca das duas horas, estando à mesa da repartição, a copiar um grave documento, Camilo ia
calculando os números e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por
causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no cérebro. [...]
De repente, entra na sala um contínuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o leão dera. Camilo deixou
70 cair a pena, e a tinta inutilizou a cópia quase acabada. [...]
— Ora, chegue-se, dê cá um abraço, disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu. Afinal a sorte
começa a protegê-lo.
— Quanto?
— Cento e cinco mil-réis.
75 Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-réis, e só na rua advertiu que não agradecera ao
compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-réis! Tinha ânsia de levar à mulher aquela notícia;
mas, assim... só...?
— Sim, é preciso festejar esse acontecimento. Um dia não são dias. Devo agradecer ao céu a fortuna
que me deu. Um pratinho melhor à mesa...
80 Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio
ajudá-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as coisas.
Começou por um pastelão, “um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago”.
A sobremesa foi “um rico pudim”, em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: “Viva
a esperança!”. A alegria de Camilo foi tanta e tão estrepitosa que o homem não teve remédio senão oferecer-
85 lhe vinho também, uma ou duas garrafas. Duas.
— Isto não vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. Não é longe?
Camilo aceitou [...] Pagou dezesseis mil-réis e saiu. Estava tão contente com o jantar que levava e o
espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma joia. Essa ideia só o assaltou no
bonde, andando; desceu e voltou a pé, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra
90 preciosa. Achou um broche nessas condições, tão modesto no preço, cinquenta mil-réis, que ficou admirado;
mas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.
Ao chegar, estava à porta o menino, com cara de o haver já descomposto e mandado ao diabo. Tirou-
lhe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.
— Não, senhor, o patrão não quer.
95 — Pois não diga ao patrão; pegue lá dez tostões; servem para comprar na cobra, compre na cobra.
Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade;
foi talvez confusão. O menino recebeu os dez tostões, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas
mãos e trinta e oito mil-réis na algibeira.
ASSIS, Machado de. Jogo do bicho. In: Contos na imprensa.
Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/jogo-do-bicho/60679. Acesso em: 08 set 2025. Adaptado.
Considerando o trecho do Texto I:
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Assinale a alternativa que apresenta a conversão correta da oração em destaque para a voz passiva analítica.
TEXTO I
Jogo do bicho
Camilo – ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade – ocupava em um dos arsenais do
Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos
ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um
amigo no subúrbio do Rocha; lá viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Três meses
5 depois estavam casados. [...]
Já então tinha algumas dívidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, às
escondidas. Apesar dessa explicação, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordinária.
Ides ver. Que a posteridade me ouça. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. [...] Começou a vinténs e
dizem que está em contos de réis; mas, vamos ao nosso caso.
10 Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tostões, ganhou
não sei quantas vezes mais. Achou nisso tal despropósito que não quis crer, mas afinal foi obrigado a crer,
ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, três, quatro vezes, mas o animal, meio-
homem, falhou às esperanças do primeiro dia. Camilo recorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o
lucro inteiro tornou à gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas não há
15 descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia lá vem a mão do arqueólogo a pesquisar os ossos e as
idades.
Camilo tinha fé. A fé abala as montanhas. Tentou o gato, depois o cão, depois o avestruz; não
havendo jogado neles, podia ser que... Não pôde ser; a fortuna igualou os três animais em não lhes fazer dar
nada. [...]
20 — Acaba-se ganhando sempre, acudiu um; a questão é tenacidade, não afrouxar nunca.
Apesar disso, Camilo deixou-se ir com seus cálculos. [...]
— Diga-me cá: quantas vezes tem acertado?
— De cor, não posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.
— Pois veja, e há de descobrir que todo o seu mal está em não teimar algum tempo no mesmo bicho.
25 Olhe, um preto, que há três meses joga na borboleta, ganhou hoje e levou uma bolada...
Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas não as comparava para não conhecer a
diferença. Não queria saber do deficit. Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade,
para não a ver e aborrecer. Entretanto, a sugestão do compadre era aceitável; talvez a inquietação, a
impaciência, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a causa de não tirar nunca nada.
30 Ao chegar a casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. [...] Jantou triste, por ver a
mulher tão carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre também. Depois
do café, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus cálculos. Somou as vezes e os bichos,
tantas na cobra, tantas no galo, tantas no cão e no resto, uma fauna inteira, mas tão sem persistência, que
era fácil desacertar. Não queria somar a despesa e a receita para não receber de cara um grande golpe, e
35 fechou o caderno. Afinal não pôde, e somou lentamente, com cuidado para não errar; tinha gasto setecentos
e sete mil-réis, e tinha ganho oitenta e quatro mil-réis, um deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Ficou
assombrado.
— Não é possível!
[...] O meu plano está feito, saiu pensando no dia seguinte, vou até aos setecentos mil-réis. Se não
40 tirar quantia grossa que anime, não compro mais.
Firmou-se na cobra, por causa da astúcia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que
aceitara o seu conselho, e começava a teimar na cobra.
— A cobra é boa – disse o compadre.
Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar
45 mentalmente uma preferência, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel,
perdeu também; veio à surucucu, à jiboia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima
fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o
determinou a isso foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia,
o menino foi levado à farmácia, o cocheiro, ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro,
50 cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro.
[...] Um dia resolveu fixar-se no leão; o compadre, quando reconheceu que efetivamente não saía do
rei dos animais, deu graças a Deus.
— Ora, graças a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O leão tem andado esquivo, é provável
que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã.
55 — Esquivo? Mas então não quererá dizer...?
— Ao contrário.
Dizer quê? Ao contrário, quê? Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada
mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-réis; ou vencia
ou morria.
60 A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos, os trabalhos,
crescentes, as dívidas e os empréstimos, e até não raras, as fomes. Não lhe cabia culpa, mas tinha paciência.
Ele, em chegando aos setecentos mil-réis, trancaria a porta. O leão não queria dar. Camilo pensou em trocá-
lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com essa frouxidão, que ele acabaria entre os braços da
realeza. Faltava já pouco; enfim, pouquíssimo.
65 — Hoje respiro – disse Camilo à esposa –. Aqui está a nota última.
Cerca das duas horas, estando à mesa da repartição, a copiar um grave documento, Camilo ia
calculando os números e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por
causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no cérebro. [...]
De repente, entra na sala um contínuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o leão dera. Camilo deixou
70 cair a pena, e a tinta inutilizou a cópia quase acabada. [...]
— Ora, chegue-se, dê cá um abraço, disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu. Afinal a sorte
começa a protegê-lo.
— Quanto?
— Cento e cinco mil-réis.
75 Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-réis, e só na rua advertiu que não agradecera ao
compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-réis! Tinha ânsia de levar à mulher aquela notícia;
mas, assim... só...?
— Sim, é preciso festejar esse acontecimento. Um dia não são dias. Devo agradecer ao céu a fortuna
que me deu. Um pratinho melhor à mesa...
80 Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio
ajudá-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as coisas.
Começou por um pastelão, “um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago”.
A sobremesa foi “um rico pudim”, em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: “Viva
a esperança!”. A alegria de Camilo foi tanta e tão estrepitosa que o homem não teve remédio senão oferecer-
85 lhe vinho também, uma ou duas garrafas. Duas.
— Isto não vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. Não é longe?
Camilo aceitou [...] Pagou dezesseis mil-réis e saiu. Estava tão contente com o jantar que levava e o
espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma joia. Essa ideia só o assaltou no
bonde, andando; desceu e voltou a pé, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra
90 preciosa. Achou um broche nessas condições, tão modesto no preço, cinquenta mil-réis, que ficou admirado;
mas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.
Ao chegar, estava à porta o menino, com cara de o haver já descomposto e mandado ao diabo. Tirou-
lhe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.
— Não, senhor, o patrão não quer.
95 — Pois não diga ao patrão; pegue lá dez tostões; servem para comprar na cobra, compre na cobra.
Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade;
foi talvez confusão. O menino recebeu os dez tostões, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas
mãos e trinta e oito mil-réis na algibeira.
ASSIS, Machado de. Jogo do bicho. In: Contos na imprensa.
Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/jogo-do-bicho/60679. Acesso em: 08 set 2025. Adaptado.
Acerca da grafia da palavra “déficit”, a partir de seus conhecimentos sobre o sistema ortográfico da Língua Portuguesa, analise as afirmativas a seguir e assinale a correta.Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO II
Pecado capital
Dinheiro na mão é vendaval
É vendaval
Na vida de um sonhador
Quanta gente aí se engana
E cai da cama
Com toda a ilusão que sonhou
E a grandeza se desfaz
Quando a solidão é mais
Alguém já falou
Mas é preciso viver
E viver não é brincadeira não
Quando o jeito é se virar
Cada um trata de si
Irmão desconhece irmão
E aí dinheiro na mão é vendaval
Dinheiro na mão é solução
E solidão
Dinheiro na mão é vendaval
Dinheiro na mão é solução
E solidão
E solidão! E solidão!
E solidão! E solidão!
Paulinho da Viola, Pecado capital. In: Paulinho da Viola - 1975. EMI, 1975.
Disponível em www.letras.mus.br/paulinho-da-viola/496804/. Acesso em 08 set 25.
Analise as proposições a seguir, que abordam a relação entre os termos da canção e seus sentidos, e julgue as afirmativas abaixo utilizando (V) para as verdadeiras e (F) para as falsas.
( ) Na expressão "Dinheiro na mão é vendaval", o termo "vendaval" é empregado em sentido conotativo para metaforizar a fugacidade e a inconstância do dinheiro na vida do sonhador, distanciando-se de seu significado denotativo de vento forte.
( ) O verso "e cai da cama", em "Quanta gente aí se engana / E cai da cama / Com toda a ilusão que sonhou", utiliza a expressão em seu sentido denotativo de despertar abrupto, simbolizando o momento em que o sonhador perde suas ilusões de riqueza.
( ) Quando Paulinho da Viola canta "Irmão desconhece irmão", a frase assume um sentido predominantemente conotativo, indicando a alteração dos laços afetivos e familiares que se tornam superficiais e indiferentes devido ao individualismo e à busca por recursos materiais.
( ) Ao final da canção é empregada a expressão “E solidão” em seu sentido denotativo, estado de quem está sozinho, mas sua repetição enfática reforça conotativamente a consequência final da busca desenfreada pelo dinheiro.
Assinale a alternativa correta.Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO I
Jogo do bicho
Camilo – ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade – ocupava em um dos arsenais do
Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos
ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um
amigo no subúrbio do Rocha; lá viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Três meses
5 depois estavam casados. [...]
Já então tinha algumas dívidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, às
escondidas. Apesar dessa explicação, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordinária.
Ides ver. Que a posteridade me ouça. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. [...] Começou a vinténs e
dizem que está em contos de réis; mas, vamos ao nosso caso.
10 Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tostões, ganhou
não sei quantas vezes mais. Achou nisso tal despropósito que não quis crer, mas afinal foi obrigado a crer,
ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, três, quatro vezes, mas o animal, meio-
homem, falhou às esperanças do primeiro dia. Camilo recorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o
lucro inteiro tornou à gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas não há
15 descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia lá vem a mão do arqueólogo a pesquisar os ossos e as
idades.
Camilo tinha fé. A fé abala as montanhas. Tentou o gato, depois o cão, depois o avestruz; não
havendo jogado neles, podia ser que... Não pôde ser; a fortuna igualou os três animais em não lhes fazer dar
nada. [...]
20 — Acaba-se ganhando sempre, acudiu um; a questão é tenacidade, não afrouxar nunca.
Apesar disso, Camilo deixou-se ir com seus cálculos. [...]
— Diga-me cá: quantas vezes tem acertado?
— De cor, não posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.
— Pois veja, e há de descobrir que todo o seu mal está em não teimar algum tempo no mesmo bicho.
25 Olhe, um preto, que há três meses joga na borboleta, ganhou hoje e levou uma bolada...
Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas não as comparava para não conhecer a
diferença. Não queria saber do deficit. Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade,
para não a ver e aborrecer. Entretanto, a sugestão do compadre era aceitável; talvez a inquietação, a
impaciência, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a causa de não tirar nunca nada.
30 Ao chegar a casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. [...] Jantou triste, por ver a
mulher tão carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre também. Depois
do café, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus cálculos. Somou as vezes e os bichos,
tantas na cobra, tantas no galo, tantas no cão e no resto, uma fauna inteira, mas tão sem persistência, que
era fácil desacertar. Não queria somar a despesa e a receita para não receber de cara um grande golpe, e
35 fechou o caderno. Afinal não pôde, e somou lentamente, com cuidado para não errar; tinha gasto setecentos
e sete mil-réis, e tinha ganho oitenta e quatro mil-réis, um deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Ficou
assombrado.
— Não é possível!
[...] O meu plano está feito, saiu pensando no dia seguinte, vou até aos setecentos mil-réis. Se não
40 tirar quantia grossa que anime, não compro mais.
Firmou-se na cobra, por causa da astúcia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que
aceitara o seu conselho, e começava a teimar na cobra.
— A cobra é boa – disse o compadre.
Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar
45 mentalmente uma preferência, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel,
perdeu também; veio à surucucu, à jiboia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima
fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o
determinou a isso foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia,
o menino foi levado à farmácia, o cocheiro, ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro,
50 cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro.
[...] Um dia resolveu fixar-se no leão; o compadre, quando reconheceu que efetivamente não saía do
rei dos animais, deu graças a Deus.
— Ora, graças a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O leão tem andado esquivo, é provável
que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã.
55 — Esquivo? Mas então não quererá dizer...?
— Ao contrário.
Dizer quê? Ao contrário, quê? Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada
mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-réis; ou vencia
ou morria.
60 A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos, os trabalhos,
crescentes, as dívidas e os empréstimos, e até não raras, as fomes. Não lhe cabia culpa, mas tinha paciência.
Ele, em chegando aos setecentos mil-réis, trancaria a porta. O leão não queria dar. Camilo pensou em trocá-
lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com essa frouxidão, que ele acabaria entre os braços da
realeza. Faltava já pouco; enfim, pouquíssimo.
65 — Hoje respiro – disse Camilo à esposa –. Aqui está a nota última.
Cerca das duas horas, estando à mesa da repartição, a copiar um grave documento, Camilo ia
calculando os números e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por
causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no cérebro. [...]
De repente, entra na sala um contínuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o leão dera. Camilo deixou
70 cair a pena, e a tinta inutilizou a cópia quase acabada. [...]
— Ora, chegue-se, dê cá um abraço, disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu. Afinal a sorte
começa a protegê-lo.
— Quanto?
— Cento e cinco mil-réis.
75 Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-réis, e só na rua advertiu que não agradecera ao
compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-réis! Tinha ânsia de levar à mulher aquela notícia;
mas, assim... só...?
— Sim, é preciso festejar esse acontecimento. Um dia não são dias. Devo agradecer ao céu a fortuna
que me deu. Um pratinho melhor à mesa...
80 Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio
ajudá-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as coisas.
Começou por um pastelão, “um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago”.
A sobremesa foi “um rico pudim”, em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: “Viva
a esperança!”. A alegria de Camilo foi tanta e tão estrepitosa que o homem não teve remédio senão oferecer-
85 lhe vinho também, uma ou duas garrafas. Duas.
— Isto não vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. Não é longe?
Camilo aceitou [...] Pagou dezesseis mil-réis e saiu. Estava tão contente com o jantar que levava e o
espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma joia. Essa ideia só o assaltou no
bonde, andando; desceu e voltou a pé, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra
90 preciosa. Achou um broche nessas condições, tão modesto no preço, cinquenta mil-réis, que ficou admirado;
mas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.
Ao chegar, estava à porta o menino, com cara de o haver já descomposto e mandado ao diabo. Tirou-
lhe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.
— Não, senhor, o patrão não quer.
95 — Pois não diga ao patrão; pegue lá dez tostões; servem para comprar na cobra, compre na cobra.
Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade;
foi talvez confusão. O menino recebeu os dez tostões, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas
mãos e trinta e oito mil-réis na algibeira.
ASSIS, Machado de. Jogo do bicho. In: Contos na imprensa.
Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/jogo-do-bicho/60679. Acesso em: 08 set 2025. Adaptado.
Texto-base:
TEXTO II
Pecado capital
Dinheiro na mão é vendaval
É vendaval
Na vida de um sonhador
Quanta gente aí se engana
E cai da cama
Com toda a ilusão que sonhou
E a grandeza se desfaz
Quando a solidão é mais
Alguém já falou
Mas é preciso viver
E viver não é brincadeira não
Quando o jeito é se virar
Cada um trata de si
Irmão desconhece irmão
E aí dinheiro na mão é vendaval
Dinheiro na mão é solução
E solidão
Dinheiro na mão é vendaval
Dinheiro na mão é solução
E solidão
E solidão! E solidão!
E solidão! E solidão!
Paulinho da Viola, Pecado capital. In: Paulinho da Viola - 1975. EMI, 1975.
Disponível em www.letras.mus.br/paulinho-da-viola/496804/. Acesso em 08 set 25.
O conto “Jogo do Bicho”, publicado originalmente em 1904, aborda a temática do jogo do bicho para explorar a natureza humana e a busca de soluções fáceis para problemas financeiros, levando a pessoa a ignorar a realidade de suas finanças e a se fixar em crenças e superstições. Por sua vez, a canção “Pecado Capital”, composta em 1975, é um samba que reflete sobre o papel do dinheiro na sociedade e na vida das pessoas e explora a dualidade do dinheiro, “solução” e “vendaval”.
Tanto o conto quanto a canção abordam a relação ambígua entre o ser humano e o dinheiro.
Considerando a intertextualidade entre as duas obras, assinale a alternativa a seguir que expressa, de forma mais precisa, a similaridade entre a experiência de Camilo no conto e a mensagem principal da canção.Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO I
Jogo do bicho
Camilo – ou Camilinho, como lhe chamavam alguns por amizade – ocupava em um dos arsenais do
Rio de Janeiro (Marinha ou Guerra) um emprego de escrita. Ganhava duzentos mil-réis por mês, sujeitos
ao desconto de taxa e montepio. Era solteiro, mas um dia, pelas férias, foi passar a noite de Natal com um
amigo no subúrbio do Rocha; lá viu uma criaturinha modesta, vestido azul, olhos pedintes. Três meses
5 depois estavam casados. [...]
Já então tinha algumas dívidas, descontava os ordenados, buscava trabalhos particulares, às
escondidas. Apesar dessa explicação, houve uma semana em que a alegria de Camilo foi extraordinária.
Ides ver. Que a posteridade me ouça. Camilo, pela primeira vez, jogou no bicho. [...] Começou a vinténs e
dizem que está em contos de réis; mas, vamos ao nosso caso.
10 Pela primeira vez Camilo jogou no bicho, escolheu o macaco, e, entrando com cinco tostões, ganhou
não sei quantas vezes mais. Achou nisso tal despropósito que não quis crer, mas afinal foi obrigado a crer,
ver e receber o dinheiro. Naturalmente tornou ao macaco, duas, três, quatro vezes, mas o animal, meio-
homem, falhou às esperanças do primeiro dia. Camilo recorreu a outros bichos, sem melhor fortuna, e o
lucro inteiro tornou à gaveta do bicheiro. Entendeu que era melhor descansar algum tempo; mas não há
15 descanso eterno, nem ainda o das sepulturas. Um dia lá vem a mão do arqueólogo a pesquisar os ossos e as
idades.
Camilo tinha fé. A fé abala as montanhas. Tentou o gato, depois o cão, depois o avestruz; não
havendo jogado neles, podia ser que... Não pôde ser; a fortuna igualou os três animais em não lhes fazer dar
nada. [...]
20 — Acaba-se ganhando sempre, acudiu um; a questão é tenacidade, não afrouxar nunca.
Apesar disso, Camilo deixou-se ir com seus cálculos. [...]
— Diga-me cá: quantas vezes tem acertado?
— De cor, não posso dizer, mas trago tudo muito bem escrito no meu caderno.
— Pois veja, e há de descobrir que todo o seu mal está em não teimar algum tempo no mesmo bicho.
25 Olhe, um preto, que há três meses joga na borboleta, ganhou hoje e levou uma bolada...
Camilo escrevia efetivamente a despesa e a receita, mas não as comparava para não conhecer a
diferença. Não queria saber do deficit. Posto que metódico, tinha o instinto de fechar os olhos à verdade,
para não a ver e aborrecer. Entretanto, a sugestão do compadre era aceitável; talvez a inquietação, a
impaciência, a falta de fixidez nos mesmos bichos fosse a causa de não tirar nunca nada.
30 Ao chegar a casa achou a mulher dividida entre a cozinha e a costura. [...] Jantou triste, por ver a
mulher tão carregada de trabalho, mas a alegria dela era tal, apesar de tudo, que o fez alegre também. Depois
do café, foi ao caderno que trazia fechado na gaveta e fez os seus cálculos. Somou as vezes e os bichos,
tantas na cobra, tantas no galo, tantas no cão e no resto, uma fauna inteira, mas tão sem persistência, que
era fácil desacertar. Não queria somar a despesa e a receita para não receber de cara um grande golpe, e
35 fechou o caderno. Afinal não pôde, e somou lentamente, com cuidado para não errar; tinha gasto setecentos
e sete mil-réis, e tinha ganho oitenta e quatro mil-réis, um deficit de seiscentos e vinte e três mil-réis. Ficou
assombrado.
— Não é possível!
[...] O meu plano está feito, saiu pensando no dia seguinte, vou até aos setecentos mil-réis. Se não
40 tirar quantia grossa que anime, não compro mais.
Firmou-se na cobra, por causa da astúcia, e caminhou para a casa do compadre. Confessou-lhe que
aceitara o seu conselho, e começava a teimar na cobra.
— A cobra é boa – disse o compadre.
Camilo jogou uma semana inteira na cobra, sem tirar nada. Ao sétimo dia, lembrou-se de fixar
45 mentalmente uma preferência, e escolheu a cobra-coral, perdeu; no dia seguinte, chamou-lhe cascavel,
perdeu também; veio à surucucu, à jiboia, à jararaca, e nenhuma variedade saiu da mesma tristíssima
fortuna. Mudou de rumo. Mudaria sem razão, apesar da promessa feita; mas o que propriamente o
determinou a isso foi o encontro de um carro que ia matando um pobre menino. Correu gente, correu polícia,
o menino foi levado à farmácia, o cocheiro, ao posto da guarda. Camilo só reparou bem no número do carro,
50 cuja terminação correspondia ao carneiro; adotou o carneiro.
[...] Um dia resolveu fixar-se no leão; o compadre, quando reconheceu que efetivamente não saía do
rei dos animais, deu graças a Deus.
— Ora, graças a Deus que o vejo capaz de dar o grande bote. O leão tem andado esquivo, é provável
que derrube tudo, mais hoje, mais amanhã.
55 — Esquivo? Mas então não quererá dizer...?
— Ao contrário.
Dizer quê? Ao contrário, quê? Palavras escuras, mas para quem tem fé e lida com números, nada
mais claro. Camilo elevou ainda mais a soma da aposta. Faltava pouco para os setecentos mil-réis; ou vencia
ou morria.
60 A jovem consorte mantinha a alegria da casa, por mais dura que fosse a vida, grossos, os trabalhos,
crescentes, as dívidas e os empréstimos, e até não raras, as fomes. Não lhe cabia culpa, mas tinha paciência.
Ele, em chegando aos setecentos mil-réis, trancaria a porta. O leão não queria dar. Camilo pensou em trocá-
lo por outro bicho, mas o compadre afligia-se tanto com essa frouxidão, que ele acabaria entre os braços da
realeza. Faltava já pouco; enfim, pouquíssimo.
65 — Hoje respiro – disse Camilo à esposa –. Aqui está a nota última.
Cerca das duas horas, estando à mesa da repartição, a copiar um grave documento, Camilo ia
calculando os números e descrendo da sorte. O documento tinha algarismos; ele errou-os muita vez, por
causa do atropelo em que uns e outros lhe andavam no cérebro. [...]
De repente, entra na sala um contínuo, chega-se-lhe ao ouvido, e diz que o leão dera. Camilo deixou
70 cair a pena, e a tinta inutilizou a cópia quase acabada. [...]
— Ora, chegue-se, dê cá um abraço, disse-lhe o compadre, quando ele ali apareceu. Afinal a sorte
começa a protegê-lo.
— Quanto?
— Cento e cinco mil-réis.
75 Camilo pegou em si e nos cento e cinco mil-réis, e só na rua advertiu que não agradecera ao
compadre; parou, hesitou, continuou. Cento e cinco mil-réis! Tinha ânsia de levar à mulher aquela notícia;
mas, assim... só...?
— Sim, é preciso festejar esse acontecimento. Um dia não são dias. Devo agradecer ao céu a fortuna
que me deu. Um pratinho melhor à mesa...
80 Viu perto uma confeitaria; entrou por ela e espraiou os olhos, sem escolher nada. O confeiteiro veio
ajudá-lo, e, notando a incerteza de Camilo entre mesa e sobremesa, resolveu vender-lhe ambas as coisas.
Começou por um pastelão, “um rico pastelão, que enchia os olhos, antes de encher a boca e o estômago”.
A sobremesa foi “um rico pudim”, em que havia escrito, com letras de massa branca este viva eterno: “Viva
a esperança!”. A alegria de Camilo foi tanta e tão estrepitosa que o homem não teve remédio senão oferecer-
85 lhe vinho também, uma ou duas garrafas. Duas.
— Isto não vai sem Porto; eu lhe mando tudo por um menino. Não é longe?
Camilo aceitou [...] Pagou dezesseis mil-réis e saiu. Estava tão contente com o jantar que levava e o
espanto da mulher, nem se lembrou de presentear Joaninha com alguma joia. Essa ideia só o assaltou no
bonde, andando; desceu e voltou a pé, a buscar um mimo de ouro, um broche que fosse, com uma pedra
90 preciosa. Achou um broche nessas condições, tão modesto no preço, cinquenta mil-réis, que ficou admirado;
mas comprou-o assim mesmo, e voou para casa.
Ao chegar, estava à porta o menino, com cara de o haver já descomposto e mandado ao diabo. Tirou-
lhe os embrulhos e ofereceu-lhe uma gorjeta.
— Não, senhor, o patrão não quer.
95 — Pois não diga ao patrão; pegue lá dez tostões; servem para comprar na cobra, compre na cobra.
Isto de lhe indicar o bicho que não dera, em vez do leão, que dera, não foi cálculo nem perversidade;
foi talvez confusão. O menino recebeu os dez tostões, ele entrou para casa com os embrulhos e a alma nas
mãos e trinta e oito mil-réis na algibeira.
ASSIS, Machado de. Jogo do bicho. In: Contos na imprensa.
Disponível em: https://machadodeassis.net/texto/jogo-do-bicho/60679. Acesso em: 08 set 2025. Adaptado.
Texto-base:
TEXTO II
Pecado capital
Dinheiro na mão é vendaval
É vendaval
Na vida de um sonhador
Quanta gente aí se engana
E cai da cama
Com toda a ilusão que sonhou
E a grandeza se desfaz
Quando a solidão é mais
Alguém já falou
Mas é preciso viver
E viver não é brincadeira não
Quando o jeito é se virar
Cada um trata de si
Irmão desconhece irmão
E aí dinheiro na mão é vendaval
Dinheiro na mão é solução
E solidão
Dinheiro na mão é vendaval
Dinheiro na mão é solução
E solidão
E solidão! E solidão!
E solidão! E solidão!
Paulinho da Viola, Pecado capital. In: Paulinho da Viola - 1975. EMI, 1975.
Disponível em www.letras.mus.br/paulinho-da-viola/496804/. Acesso em 08 set 25.
A partir da leitura comparativa dos Textos I e II, marque a alternativa que apresenta uma correta associação entre eles.Resolução comentada
Análise das alternativas
TEXTO III
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Disponível em: https://blogdoaftm.com.br/charge-beneficiarios-do-bolsa-familia-e-apostas/. Acesso em: 13 ago 2025.
Leia a charge abaixo e responda à questão de número 36.
A charge apresentada faz uma releitura do conto popular da Chapeuzinho Vermelho, substituindo o “Lobo Mau” pelo “Tigrinho Mau”, numa referência ao jogo de azar online “Jogo do Tigrinho”.
Sobre os recursos expressivos utilizados, assinale a alternativa correta:
TEXTO IV
Tirinhas Apostas
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Disponível em: https://gaming365.com.br/blog/2025/04/17/moralismo-charge/. Acesso em: 13 ago. 2025.
Leia a charge abaixo e responda à questão de número 37.
É possível observar na tirinha, em seu primeiro quadrinho, uma ocorrência de concordância nominal. Assinale a alternativa abaixo que substitui a ocorrência sem prejuízo semântico e gramatical.
TEXTO V
Jogos de azar já são questão de saúde pública
Quase 11 milhões de brasileiros enfrentam problemas por causa da jogatina. Com o boom das apostas online, o vício em jogos já rivaliza com o álcool e o cigarro — e desafia a saúde pública do país.
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1 Solta a carta! Quase 11 milhões de pessoas devem cravar essa todo dia por aqui. Esse é o número de
brasileiros com mais de 14 anos cuja jogatina causa problemas emocionais, familiares, financeiros ou
profissionais. São os chamados "jogadores de risco". Apresentados recentemente num evento da Unifesp,
esses números foram calculados com base num levantamento feito com uma amostra representativa da
5 população brasileira. E dão uma visão mais clara de quem e como se aposta no Brasil desde a disseminação
e a legalização dos jogos de azar online.
Até porque os últimos dados nacionais coletados com metodologia científica eram de quase 20 anos
atrás. As apostas em jogos de azar cresceram tanto no Brasil que viraram questão de saúde pública. A ponto
de alguns especialistas considerarem o vício em bets ou no Jogo do Tigrinho tão grave quanto a dependência
10 de álcool ou cigarro. A boa notícia é que a maioria dos brasileiros não joga. A má notícia é que um em cada
oito daqueles "jogadores de risco" tem o chamado "transtorno do jogo". Uma doença caracterizada pelo
desejo incontrolável de jogar mesmo frente aos inúmeros prejuízos. E a maior parte deles está no Nordeste.
Segundo o psiquiatra Hermano Tavares, da USP, o vício em jogos é o terceiro mais comum no país,
ficando atrás apenas do álcool e do tabaco. Um problema que se intensificou na pandemia — e para o qual
15 a rede pública de saúde não está preparada. Mas, apesar do avanço desse tipo de aposta, a modalidade com
maior adesão no Brasil segue sendo a loteria. Quem já viveu as filas das lotéricas em dia de sorteio da Mega
da Virada sabe, né? E você? É ou conhece alguém que tem problema com jogos de azar?
Disponível em: https://g1.globo.com/saude/noticia/2025/04/30/jogos-de-azar-ja-sao-questao-de-saude-publica.ghtml.
Acesso em: 08 set. 2025. Adaptado.
Observe o seguinte trecho e responda:
“A boa notícia é que a maioria dos brasileiros não joga. A má notícia é que um em cada oito daqueles 'jogadores de risco' tem o chamado 'transtorno do jogo'. Uma doença caracterizada pelo desejo incontrolável de jogar mesmo frente aos inúmeros prejuízos." (l. 10-12)
Assinale a alternativa que indica os termos que, nesse segmento do texto, desempenham a mesma função sintática.
TEXTO V
Jogos de azar já são questão de saúde pública
Quase 11 milhões de brasileiros enfrentam problemas por causa da jogatina. Com o boom das apostas online, o vício em jogos já rivaliza com o álcool e o cigarro — e desafia a saúde pública do país.
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1 Solta a carta! Quase 11 milhões de pessoas devem cravar essa todo dia por aqui. Esse é o número de
brasileiros com mais de 14 anos cuja jogatina causa problemas emocionais, familiares, financeiros ou
profissionais. São os chamados "jogadores de risco". Apresentados recentemente num evento da Unifesp,
esses números foram calculados com base num levantamento feito com uma amostra representativa da
5 população brasileira. E dão uma visão mais clara de quem e como se aposta no Brasil desde a disseminação
e a legalização dos jogos de azar online.
Até porque os últimos dados nacionais coletados com metodologia científica eram de quase 20 anos
atrás. As apostas em jogos de azar cresceram tanto no Brasil que viraram questão de saúde pública. A ponto
de alguns especialistas considerarem o vício em bets ou no Jogo do Tigrinho tão grave quanto a dependência
10 de álcool ou cigarro. A boa notícia é que a maioria dos brasileiros não joga. A má notícia é que um em cada
oito daqueles "jogadores de risco" tem o chamado "transtorno do jogo". Uma doença caracterizada pelo
desejo incontrolável de jogar mesmo frente aos inúmeros prejuízos. E a maior parte deles está no Nordeste.
Segundo o psiquiatra Hermano Tavares, da USP, o vício em jogos é o terceiro mais comum no país,
ficando atrás apenas do álcool e do tabaco. Um problema que se intensificou na pandemia — e para o qual
15 a rede pública de saúde não está preparada. Mas, apesar do avanço desse tipo de aposta, a modalidade com
maior adesão no Brasil segue sendo a loteria. Quem já viveu as filas das lotéricas em dia de sorteio da Mega
da Virada sabe, né? E você? É ou conhece alguém que tem problema com jogos de azar?
Disponível em: https://g1.globo.com/saude/noticia/2025/04/30/jogos-de-azar-ja-sao-questao-de-saude-publica.ghtml.
Acesso em: 08 set. 2025. Adaptado.
Analise os trechos a seguir, retirados do Texto V, e a relação entre os termos destacados e suas respectivas retomadas.
I. "Apresentados recentemente num evento da Unifesp, esses números foram calculados com base num levantamento feito com uma amostra representativa da população brasileira. E dão uma visão mais clara de quem e como se aposta no Brasil [...]" (l. 3-5)
A expressão "esses números" retoma o total de "quase 11 milhões de pessoas" e, na sequência, faz referência a "jogadores de risco”.
II. "A boa notícia é que a maioria dos brasileiros não joga. A má notícia é que um em cada oito daqueles ‘jogadores de risco’ tem o chamado ‘transtorno do jogo’. Uma doença caracterizada pelo desejo incontrolável de jogar mesmo frente aos inúmeros prejuízos. E a maior parte deles está no Nordeste." (l. 10-12)
O pronome "deles" retoma "inúmeros prejuízos", indicando que a maior parte dos prejuízos está no Nordeste.
III. "Segundo o psiquiatra Hermano Tavares, da USP, o vício em jogos é o terceiro mais comum no país, ficando atrás apenas do álcool e do tabaco. Um problema que se intensificou na pandemia — e para o qual a rede pública de saúde não está preparada." (l. 13-15)
A expressão "Um problema" retoma e sintetiza a ideia de "o vício em jogos ser o terceiro mais comum".
Estão corretas as análises das retomadas em:
TEXTO VI
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Disponível em: https://blogdoaftm.com.br/charge-beneficiarios-do-bolsa-familia-e-apostas/. Acesso em: 13 ago. 2025.
Leia a charge abaixo e responda:
Assinale a alternativa que identifica corretamente o elemento linguístico que, na situação comunicativa da charge, indica que a mulher se dirige ao homem, evocando sua presença e responsabilidade.
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