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Texto-base:
Leia o texto a seguir, para responder aos itens de 01 a 10.
Texto I: UMA NOITE DE CÃO
1 — Ramalho! Vá entrando. Eh? Que pacote é esse?
2 — Não sente o cheiro? Passei n’O Rei do Frango Assado. É o melhor que se faz em São Paulo. Eu não
3 ia chegar de mãos abanando.
4 Ramalho, um amigo do Rio, ao passar por São Paulo sempre aparecia em meu apartamento com
5 grandes notícias e pequenos pacotes. Como chegava habitualmente tarde e faminto, comprava no caminho
6 qualquer coisa para comer: pizza, quibe, bauru. No entanto, jamais era bem-vindo por mim e minha
7 mulher devido à hora imprópria das visitas, quando já íamos dormir.
8 Virgínia Woolf não parava de balançar o rabo e de saltar sobre o Ramalho. Embora já quase o mordera
9 certa vez, aquela noite nossa encantadora dálmata deu de lhe fazer festa. Minha mulher levou o frango
10 para a cozinha. Desembrulhado sobre a mesa, era uma tentação.
11 Sentamo-nos no living. Ramalho acomodou-se numa poltrona, de costas para a cozinha, a contar
12 novidades sombrias do Rio.
13 [...]
14 Levei um choque. E não era para menos. Virgínia entrava no living e postava-se elegantemente sobre
15 as patas dianteiras ao lado do Ramalho. Com o frango na boca. Isso mesmo: com o frango na boca. Olhei
16 para minha mulher, que deixou escapar um:
17 — Meu Deus!
18 [...]
19 Se Ramalho olhasse para baixo veria a cadela segurando a peça entre os dentes, certamente à espera de
20 autorização para iniciar a ceia. Ergui-me, forçando o visitante a olhar para o alto. Conversaria de pé.
21 Sentindo a presença da dálmata na vizinhança, ele estendeu o braço e começou a acariciar-lhe a cabeça. A
22 centímetros da coxa esquerda do bípede assado... Pensei nas consequências. Se ele descobrisse onde
23 estava o seu jantar, eu teria de me vestir, descer à garagem, toda lotada naquele horário, tirar o carro da
24 vaga e sair pela madrugada à procura talvez dramática de outro frango.
25 [...]
26 Puxei um pufe para bem perto do Ramalho. Diminuindo seu ângulo de visão, ele teria menos
27 probabilidade de focar Virgínia. Já trabalhei na TV e entendo desses lances.
28 [...]
29 Ramalho recuou na poltrona, ficando na mesma linha que o cão. A cara consorte empalideceu.
30 Olhei para o teto.
31 — Aquilo não é um inseto? — apontei.
32 Ramalho e ela olharam para cima. E a dálmata também, com aquele bruta frango na boca.
33 — É apenas uma mancha — ele observou.
34 — Detesto insetos andando pela casa.
35 O expediente deu resultado. Minha mulher aproveitou o momento e atraiu Virgínia para o corredor.
36 Ouvi o cão rosnar. Não querendo entregar a presa, fugiu com ela para o terraço iluminado, em frente ao
37 living. Vi Virgínia, perseguida, passar com o frango.
38 — Gosto desse terraço — disse Ramalho levantando-se e encaminhando-se para as portas de vidro.
39 Num salto, apaguei a luz.
40 — Ele fica mais bonito no escuro, observe.
41 Apesar da escuridão, vi a cachorra escondendo-se entre as floreiras.
42 — Vamos ao frango — ele decidiu. — O cheirinho tomou conta do apartamento.
43 — Primeiro sirvo um uísque.
44 Ouvimos ganidos que assustaram o Ramalho. Ele seguiu pelo corredor.
45 — A cachorra deve ter se machucado.
46 Agarrei-lhe o braço.
47 — Tome o uísque. [...]
48 Minha mulher apareceu afinal com um sorriso. Para a cozinha!
49 Ramalho sentou-se diante do frango desossado. Só para ele!
50 — O Rei do Frango Assado está com tudo — disse Ramalho no final. — Este estava demais! — E
51 generoso: — Deixei um pedaço de peito pra cadela. Será que ela gosta?
52 — Sei lá!
REY, Marcos. O coração roubado e outras crônicas. São Paulo. Ática, 1996. p. 25-8.

Leia o texto a seguir, para responder aos itens de 01 a 10.
Texto I: UMA NOITE DE CÃO
1 — Ramalho! Vá entrando. Eh? Que pacote é esse?
2 — Não sente o cheiro? Passei n’O Rei do Frango Assado. É o melhor que se faz em São Paulo. Eu não
3 ia chegar de mãos abanando.
4 Ramalho, um amigo do Rio, ao passar por São Paulo sempre aparecia em meu apartamento com
5 grandes notícias e pequenos pacotes. Como chegava habitualmente tarde e faminto, comprava no caminho
6 qualquer coisa para comer: pizza, quibe, bauru. No entanto, jamais era bem-vindo por mim e minha
7 mulher devido à hora imprópria das visitas, quando já íamos dormir.
8 Virgínia Woolf não parava de balançar o rabo e de saltar sobre o Ramalho. Embora já quase o mordera
9 certa vez, aquela noite nossa encantadora dálmata deu de lhe fazer festa. Minha mulher levou o frango
10 para a cozinha. Desembrulhado sobre a mesa, era uma tentação.
11 Sentamo-nos no living. Ramalho acomodou-se numa poltrona, de costas para a cozinha, a contar
12 novidades sombrias do Rio.
13 [...]
14 Levei um choque. E não era para menos. Virgínia entrava no living e postava-se elegantemente sobre
15 as patas dianteiras ao lado do Ramalho. Com o frango na boca. Isso mesmo: com o frango na boca. Olhei
16 para minha mulher, que deixou escapar um:
17 — Meu Deus!
18 [...]
19 Se Ramalho olhasse para baixo veria a cadela segurando a peça entre os dentes, certamente à espera de
20 autorização para iniciar a ceia. Ergui-me, forçando o visitante a olhar para o alto. Conversaria de pé.
21 Sentindo a presença da dálmata na vizinhança, ele estendeu o braço e começou a acariciar-lhe a cabeça. A
22 centímetros da coxa esquerda do bípede assado... Pensei nas consequências. Se ele descobrisse onde
23 estava o seu jantar, eu teria de me vestir, descer à garagem, toda lotada naquele horário, tirar o carro da
24 vaga e sair pela madrugada à procura talvez dramática de outro frango.
25 [...]
26 Puxei um pufe para bem perto do Ramalho. Diminuindo seu ângulo de visão, ele teria menos
27 probabilidade de focar Virgínia. Já trabalhei na TV e entendo desses lances.
28 [...]
29 Ramalho recuou na poltrona, ficando na mesma linha que o cão. A cara consorte empalideceu.
30 Olhei para o teto.
31 — Aquilo não é um inseto? — apontei.
32 Ramalho e ela olharam para cima. E a dálmata também, com aquele bruta frango na boca.
33 — É apenas uma mancha — ele observou.
34 — Detesto insetos andando pela casa.
35 O expediente deu resultado. Minha mulher aproveitou o momento e atraiu Virgínia para o corredor.
36 Ouvi o cão rosnar. Não querendo entregar a presa, fugiu com ela para o terraço iluminado, em frente ao
37 living. Vi Virgínia, perseguida, passar com o frango.
38 — Gosto desse terraço — disse Ramalho levantando-se e encaminhando-se para as portas de vidro.
39 Num salto, apaguei a luz.
40 — Ele fica mais bonito no escuro, observe.
41 Apesar da escuridão, vi a cachorra escondendo-se entre as floreiras.
42 — Vamos ao frango — ele decidiu. — O cheirinho tomou conta do apartamento.
43 — Primeiro sirvo um uísque.
44 Ouvimos ganidos que assustaram o Ramalho. Ele seguiu pelo corredor.
45 — A cachorra deve ter se machucado.
46 Agarrei-lhe o braço.
47 — Tome o uísque. [...]
48 Minha mulher apareceu afinal com um sorriso. Para a cozinha!
49 Ramalho sentou-se diante do frango desossado. Só para ele!
50 — O Rei do Frango Assado está com tudo — disse Ramalho no final. — Este estava demais! — E
51 generoso: — Deixei um pedaço de peito pra cadela. Será que ela gosta?
52 — Sei lá!
REY, Marcos. O coração roubado e outras crônicas. São Paulo. Ática, 1996. p. 25-8.