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Colégio Militar de Fortaleza

Questão 07 — Língua Portuguesa: Interpretação de Texto

Língua Portuguesa Interpretação de Texto

Fundamental

Colégio Militar de Fortaleza · Admissão ao 6º ano do Ensino Fundamental

Gabarito disponível

Texto-base:
TEXTO 1
Os estranhos seres humanos

01 No século I do terceiro milênio, a Terra recebeu um visitante proveniente de Gênus, planeta
02 do qual se originaram todos os seres inteligentes conhecidos do Universo.
03 Em cada planeta, esses seres se desenvolveram de modo diferente, ainda que mantivessem
04 semelhanças próprias da origem. Na Terra, acabaram se transformando no homem.
05 Gênus já tinha mandado vários disconautas ou genautas pesquisar a espécie humana, até por
06 duvidar que ela fosse realmente dotada de inteligência. Os primeiros genautas a realizar tais
07 pesquisas eram espiões. Recolheram do homem uma imagem exclusivamente negativa, de um ser
08 quase irracional, que vivia guerreando, destruindo a sua e outras espécies animais e toda a natureza
09 do planeta. Entretanto, sobre as observações escritas e filmadas pelos espiões, pesava a suspeita de
10 serem tendenciosas.
11 O governo de Gênus resolveu, então, enviar à Terra cientistas, que descobriram que o homem
12 é um ser paradoxal, feito de contradições. Guerra e paz, amor e ódio, egoísmo e altruísmo,
13 concórdia e discórdia, destruição e criação conviviam na alma da confusa espécie terrestre. No
14 entrelaçamento de coisas tão opostas havia, porém, fendas por onde a realidade escoava, como água
15 das mãos dos cientistas. Como seria realmente o homem?
16 Foi, então, que Eugênio, o Primus Inter Pares III, orientador-mor do Núcleo Especial de
17 Pesquisas Espaciais (NEPE), depois de longa noite de insônia, teve uma ideia que lhe pareceu
18 efetivamente genial. Por que não mandar para a Terra um poeta, de preferência, jovem? Os poetas
19 de todos os planetas são observadores sutis, capazes de captar as mais fugazes características dos
20 seres. Afinal, a poesia, em qualquer lugar do Universo, é um exercício de ver o invisível, de
21 descobrir o que se encobre enigmaticamente. Se o poeta fosse jovem, melhor ainda. Teria ousadia
22 para a aventura e disposição para o novo.
23 No dia seguinte, foi escolhido um jovem poeta, para ser treinado sobre o que se sabia sobre a
24 Terra. Tornou-se capaz de adquirir a forma e as linguagens do homem. E, numa manhã fria, algum
25 tempo depois, viajou para o planeta terrestre, onde passou a registrar observações - que se seguem -
26 necessárias a quem queira estudar a Terra e os estranhos seres humanos.
27 A Terra é uma pequena esfera com cerca de 12.760 quilômetros de diâmetro. Gira em torno do
28 Sol e tem um satélite, a Lua. Vista de fora de sua atmosfera, a Terra é azul. O primeiro homem a
29 constatar isso foi o astronauta humano Gagárin, no longínquo ano de 1961, segundo o calendário
30 terrestre. Do alto, acima da atmosfera, são visíveis os oceanos Glacial Ártico e Antárctico, o
31 Pacífico, o Atlântico e o Índico. Nos oceanos, olhando bem, veem-se bandos de sereias nadando
32 alegremente. Há também mares, como o Mediterrâneo, o Cáspio, o Vermelho, o Amarelo e o Mar
33 Negro. Surgem saliências que parecem nervuras. São montanhas e cordilheiras como os Andes, os
34 Alpes, o Himalaia. Nas montanhas Rochosas, dormem famílias de dragões, aguardando o início do
35 quarto milênio para sair em busca de caça.
36 Eram seis horas da tarde. O sol poente ia desaparecendo, a rua começava a ficar triste, com
37 uma penumbra que caía sobre a cidade, sobre o campo e sobre a minha cabeça. Eu ia pensando
38 distraidamente. Nem percebi quando meu transmissor cósmico se desprendeu do cinto e caiu no
39 chão. Ele era o único meio que eu tinha para me comunicar com Gênus. Se fosse manipulado de
40 forma errada, provocaria uma explosão capaz de destruir toda a cidade. Comecei a procurá-lo,
41 ansiosamente. Foi quando eu vi um cachorro vira-lata abocanhá-lo e correr. Saí correndo atrás
42 dele.
43 Ele entrou numa casa térrea, com um jardim na frente, muro baixo e um portão de ferro. Lá
44 deveria viver uma família. Tornei-me invisível e incorpóreo e entrei na casa daquela família, atrás
45 do maldito cão.
46 Fiquei na sala, olhando para um homem que lia um jornal. Era o pai, segundo os humanos,
47 é o chefe da família. Mas, até onde pude observar, quem manda mesmo é a mãe, a dona de casa. O
48 pai é facilmente identificável: é o mais velho da casa, que chega do trabalho cansado e espera o
49 jantar lendo um jornal ou vendo o noticiário da televisão. Gosta de dizer que é liberal com os
50 filhos. Isso quer dizer que ele dá liberdade. Entretanto está sempre dizendo "tudo tem seus limites",
51 "assim não é possível"," agora chega e faça o que estou mandando".
52 Gosta também de dizer que, quando era criança, obedecia a seu pai, fazia as lições, tinha
53 hora para voltar para casa. Porém seu pai (avô dos filhos) diz que o pai foi um moleque muito
54 peralta que vivia fazendo traquinagens. O avô usa essas palavras antigas. "Moleque" parece que é
55 nome de um doce, "peralta" é como pernalta, vive pulando, e "traquinagem" deve ser estragar
56 máquinas. O pai era um doce que vivia pulando e estragando as máquinas. Não faz muito sentido,
57 mas não é a única coisa dos humanos que não faz sentido.
58 Em um outro compartimento da casa, avistei uma mulher. Era a mãe. Mãe é aquela que
59 grita. Os primeiros genusianos a observar os humanos chegaram a achar que os filhos eram
60 deficientes auditivos. Mas não é bem assim. Depois de muito gritar, a mãe diz:
61 - Não vou mais repetir. Chega. Já falei mais de mil vezes.
62 De manhã, acorda cedo, faz café, chama os filhos, despede-se do marido que vai para o
63 trabalho. E, se além de trabalhar em casa tem um emprego fora, arruma-se para ir ao trabalho
64 não doméstico. Costuma queixar-se, todo dia, que "serviço de casa não aparece", que "mal a gente
65 termina de arrumar a cozinha e já tem alguma coisa em cima da pia para lavar". Verifiquei. É
66 verdade.
67 Avistei uma pessoa falando com a mãe. Era a filha. Filha é uma mulher que, quando é
68 criança, é uma gracinha. Em pequena veste-se cor-de-rosa, usa roupinhas bonitas, fitinhas e flores
69 no cabelo. Brinca de boneca e de casinha.
70 Chega uma fase, lá pelos doze anos em diante, em que a filha começa a deixar de ser criança,
71 porém não chega a ser uma moça. Não sei como dizer. Os humanos usam uma palavra para a fase
72 em que ela vai entrar, “menina-moça”.
73 A filha tem olhos da mãe e o sorriso do pai. Tem um profundo amor pelos dois.
74 Tão grande que nem sabe como dizer. Nem é preciso. Dá para sentir.
75 E, lá dentro, em um quarto, estava o cão. Embora os cães não sejam exatamente da espécie
76 humana, acabam se tornando membros da família por serem animais caseiros, domésticos. Seu
77 nome científico é Canis familiaris, o que já indica a familiaridade deles com os humanos.
78 Outros bichos convivem com o homem, ainda que não dentro de suas casas. Os homens criam
79 vacas, galinhas, patos, porcos, cabras, carneiros e até abelhas para obter alimentos. Do couro de
80 alguns animais fazem sapatos, bolsas e cintos. E exploram o trabalho de cavalos, de bois, de
81 camelos e até de elefantes. Há cerca de um milhão e duzentas mil espécies de animais na Terra.
82 Diante de um número tão grande, é um enigma saber por que o homem escolheu logo o cão,
83 rosnento, fedido e ladrão, para seu aconchego.
84 Parece que o cão é escolhido pelo trabalho que pode prestar, como pastorear, caçar e guardar
85 as casas. Alguns o são por servirem de companhia.
86 Cada dia eu odiava mais os cães por causa daquele irresponsável vira-lata, que havia roubado
87 meu transmissor cósmico, colocando em risco a vida de toda sua cidade.
(...)
88 Depois de alguns dias, uma grande surpresa: o transmissor estava ali, na mesinha ao lado da
89 cama do pai. Este dormia. E o inconsequente vira-lata vigiava o transmissor, como se ele fosse
90 propriedade sua. Quando o grudento cão saiu do quarto, me corporifiquei e peguei o transmissor.
91 Nem acreditava que fosse verdade. Sem fazer barulho, fui até a porta e saí. Já na calçada,
92 aproveitei para ligar o transmissor e me comunicar com Gênus. Depois de me comunicar, fiquei
93 pensando no meu relatório final. Final, mas não definitivo: talvez tivesse que voltar um dia à Terra
94 para observar melhor muita coisa que ainda faltava.
95 Os humanos não me parecem nem mais nem menos inteligentes do que os cientistas que me
96 antecedem descreveram. Trata-se efetivamente de seres primitivos, toscos, sem uma consciência
97 do Universo. Não têm uma consciência da própria Terra e de sua espécie animal. O homem é
98 marcado por um egocentrismo deplorável. Seu “ego” ou “eu” é o centro de tudo.
99 Vendo a si mesmo como o centro, cada homem tem dificuldade em ver o outro, em ver o
100 “alter”. Várias vezes me distraí e deixei visíveis minhas características de extraterrestre. Mas não
101 teve o perigo de me verem porque eu sou um “alter” um outro muito distante para ser visto. A
102 família é o primeiro grupo social em que o homem dá alguns sinais de “alteridade”, da
103 capacidade de ver o outro. Espelhando-se uns nos outros, cada membro do grupo familiar se
104 assusta em ver semelhanças e diferenças.
105 Também foi fácil de registrar o quanto os homens ainda estão longe da consciência cósmica
106 social. Cada cidade se acha superior à outra. Seus habitantes não se dão conta do desconforto em
107 que vivem, cheirando fumaça, empurrando-se nas ruas, cansando-se em filas para tudo. Trancam-
108 se em casa com medo da violência. De quem? De animais selvagens, como leões, chacais, onças,
109 lobos maus? Não. O homem tem medo do homem. Ele é o mais violento dos animais. Mata e fere
110 por ambição, por rivalidade, por sede do poder e até por prazer. A maior estupidez que vi nos
111 noticiários dos jornais e das televisões são as guerras.
112 Os humanos se acham os seres mais belos do universo, a obra-prima do Grande Criador.
113 Por outro lado, imaginam os extraterrestres como monstrinhos verdes e orelhudos, sempre
114 dispostos a invadir a Terra. Como se não tivessem nada de mais interessante para fazer.
115 Ao mesmo tempo em que temem uma invasão de extraterrestres, esperam que um dia desça
116 dos céus um disco-voador e nele venham seres de outros planetas para salvar o homem do próprio
117 homem. Creio que este ano é o momento exato para a vinda da Missão Genusiana Intergaláctica.
118 O tempo da salvação.
119 Enquanto fazia esses registros, entre as nuvens, um disco voador apareceu. Como de
120 hábito, ia em direção ao Oriente. Pousou suavemente. Abriu-se uma porta e foi projetada uma
121 escada. Subi. Do último degrau lancei um olhar para a Terra. Era um último degrau, mas não
122 seria o último olhar.

(MISERANI, S. Os estranhos seres humanos. São Paulo: FTD, 1998. Adaptação.)

O enviado de Gênus se refere à visão que o homem tem dos extraterrestres com
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Atitude do enviado de Gênus quanto à imagem humana dos extraterrestres.

Ao tratar da visão humana dos extraterrestres, o narrador diz que os imaginam como "monstrinhos verdes e orelhudos" sempre prontos a invadir a Terra, e comenta ironicamente: "Como se não tivessem nada de mais interessante para fazer". O tom é de desprezo.

Análise das alternativas

A) Orgulho não aparece na descrição. C) A esperança de salvação é dos humanos, não do narrador. D) Quem teme a invasão são os humanos. E) Não há paciência, e sim ironia e desdém.

Referência: Interpretação de texto – tom do narrador.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Ver gabarito

Gabarito: B

Fonte: Gabarito preliminar: Gabarito de Língua Portuguesa — página 2