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TEXTO II
O coelhinho de orelhas azuis
1 Era uma vez um coelhinho que tinha as orelhas azuis da cor do céu. Quando reparou que os
outros coelhos não tinham as orelhas da mesma cor, ficou muito envergonhado. Deixou de brincar
com eles e preferiu estar sozinho.
O único amigo que tinha era a lua que aparecia no céu à noite. O coelhinho contou-lhe toda a
5 sua tristeza, mas a lua nunca lhe respondia.
O coelhinho decidiu sair dali e procurar um sítio onde ninguém o conhecesse.
Contudo, para onde quer que fosse, todos ficavam admirados com as suas orelhas azuis e
riam-se dele.
“O meu lugar não é aqui, e a culpa é das minhas orelhas azuis.”
10 Um dia, ao passar em frente a uma casa, encontrou no chão o chapéu de um limpa-chaminés.
“É exatamente disso que estou precisando!”, pensou o coelhinho. E escondeu as orelhas por
baixo do chapéu.
Aprendeu a subir às chaminés, a trabalhar com a vassoura e a limpar os fogões.
— Agora pertenço à corporação dos limpa-chaminés — disse o coelhinho.
15 Mas, certo dia, o chapéu ficou-lhe preso na chaminé e os outros limpa-chaminés viram as suas
orelhas azuis. Começaram imediatamente a rir e a gritar:
— Você não é um limpa-chaminés de verdade!
O coelhinho, cheio de vergonha, fugiu dali correndo e só a lua o acompanhou.
Depois, encontrou um chapéu de cozinheiro em frente a um restaurante.
20 “É exatamente disso que estou precisando!”, pensou o coelhinho. E escondeu as orelhas por
baixo do chapéu de cozinheiro.
Aprendeu a manusear uma frigideira, a cozinhar legumes e a assar carne.
— Agora faço parte da corporação dos cozinheiros — disse o coelhinho.
Mas, certo dia, o chapéu voou-lhe para a sopa e os outros cozinheiros viram as suas orelhas
25 azuis. Começaram então a rir e a gritar:
— Você não é um cozinheiro de verdade!
O coelhinho, cheio de vergonha, fugiu dali correndo e só a lua o acompanhou.
Em frente a uma casa, encontrou um chapéu de jardineiro.
“É exatamente disso que estou precisando!”, pensou o coelhinho. E escondeu as orelhas por
30 baixo do chapéu de jardineiro.
Aprendeu a cavar, a plantar árvores e a cuidar de flores.
— Agora pertenço à corporação dos jardineiros — disse o coelhinho.
Mas, num certo dia, uma forte rajada de vento arrancou-lhe o chapéu da cabeça e os outros
jardineiros viram as suas orelhas azuis. Começaram imediatamente a rir e a gritar:
35 — Você não é um jardineiro de verdade!
O coelhinho, cheio de vergonha, fugiu dali correndo e só a lua o acompanhou.
Ao passar diante de um circo, encontrou o chapéu de um palhaço.
“É exatamente disso que estou precisando!”, pensou o coelhinho. E escondeu as suas orelhas
por baixo do chapéu de palhaço.
40 No circo, aprendeu a tropeçar nos próprios pés e a fazer caretas.
— Agora pertenço à corporação dos palhaços — disse o coelhinho.
Até que um dia, um macaco lhe roubou o chapéu da cabeça e os outros palhaços viram as
suas orelhas azuis. Começaram a rir e a gritar:
— Você não é um palhaço de verdade!
45 O coelhinho, cheio de vergonha, fugiu dali correndo e só a lua o acompanhou.
Certa vez, encontrou, debaixo de uma ponte, o chapéu de um andarilho.
“É exatamente disso que estou precisando!”, pensou o coelhinho. E escondeu as orelhas por
baixo do chapéu de andarilho.
Aprendeu a ser preguiçoso, a deitar-se à sombra, e a sonhar durante o dia.
50 — Agora faço parte da corporação dos andarilhos.
Mas, certo dia, o rio levou-lhe o chapéu e os outros andarilhos viram as suas orelhas azuis.
— Você não é um andarilho de verdade!
Então o coelhinho não quis fugir nem usar mais nenhum chapéu. Sentou-se à beira de um
regato no meio de um bosque.
55 — Não sou um limpa-chaminés a sério, nem um cozinheiro, nem um jardineiro, nem um
palhaço, e também não sou um andarilho. Afinal, o que sou eu?
Nesse momento, a lua apareceu no céu e transformou o regato num espelho. Aí, o coelhinho
descobriu outro coelhinho, ele mesmo. E o coelho tinha orelhas azuis. Quanto mais olhava para si à
luz da lua, mais gostava daquelas orelhas, das suas orelhas.
60 Até que, de repente, descobriu: a culpa da sua infelicidade não eram as orelhas, mas sim o
fato de ter sentido vergonha delas.
O coelhinho desatou a correr, e só a lua o acompanhava. Pelo caminho, encontrou os
andarilhos, os palhaços, os jardineiros, os cozinheiros e os limpa-chaminés. A todos mostrou, com
orgulho, as suas orelhas azuis e ninguém pensou em rir-se delas.
65 O coelhinho ficou contente com tudo o que tinha aprendido: a subir à chaminé, a trabalhar com
a vassoura, a limpar fogões, a segurar uma frigideira, a cozinhar legumes, a assar carne, a cavar a
terra, a plantar árvores, a cuidar de flores, a tocar trompete, a tropeçar nos próprios pés, a fazer
caretas, a preguiçar, a deitar-se à sombra e a sonhar.
Max BolligerS RisefäschtAarau, AT Verlag, 1990
Disponível em: <http://contadoresdestorias.wordpress.com/historias-2/>
Acesso em 26 ago. 2014.
Texto readaptado.
Vocabulário do texto II
manusear: pegar ou mexer com as mãos.
corporação: grupo de pessoas que exercem uma mesma profissão.
andarilho: indivíduo que anda muito, que gosta de andar.
regato: curso de água de pouca profundidade, riacho, córrego.
desatar: começar a fazer algo, iniciar uma ação.
trompete: instrumento musical.
Em se tratando das características do texto II, O coelhinho de orelhas azuis, assinale a alternativa correta:
Resolução comentada
A narrativa apresenta encadeamento de fatos.
O texto traz uma sequência de acontecimentos (os chapéus, a descoberta das orelhas, a fuga, o espelho no regato e a aceitação) que se sucedem e dão sentido à história.
Análise das alternativas
A) Errada: o narrador é de 3ª pessoa. B) Errada: o tempo predominante é o pretérito. D) Errada: há vários espaços, como a casa, o restaurante, o circo, a ponte e o bosque.
Referência: Elementos da narrativa: enredo, foco narrativo, tempo e espaço.
Resolução comentada do VaiConcursos.