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Colégio Militar do Rio de Janeiro · Colégio Militar do Rio de Janeiro (Exército Brasileiro) 2014

Questão 9 — Língua Portuguesa: Interpretação de Texto

Língua Portuguesa Interpretação de Texto

Colégio Militar do Rio de Janeiro 2014 Fundamental

Colégio Militar do Rio de Janeiro (Exército Brasileiro) · Admissão ao 1º ano do Ensino Médio

Gabarito disponível

Texto-base:
Comida é pasto

Mostrando que com comida não se brinca, o jornalista norte-americano Michael Pollan vem à Flip* defender que voltar à cozinha é um ato político

A geladeira de Michael Pollan não tem Coca-Cola, margarina nem leite de
amêndoas, nova mania das dietas americanas. Tem saquinhos de plástico com
verduras e frutas, potes com feijão e restos do jantar anterior, além de iogurte e
leite de caixinha.
5 Algumas coisas vêm da própria horta, montada na frente de sua casa em
Berkeley, na Califórnia. No centro da pequena plantação, rodeada por pés de
tomate, abóbora e manjericão, há uma grelha onde ele costuma preparar um porco
inteiro uma vez por ano.
[...]
Michael Pollan é um jornalista americano de 59 anos que virou guru da vida
10 saudável ao passar os últimos 15 anos escrevendo reportagens e livros sobre os
exageros da indústria alimentícia e alertando sobre nossos excessos à mesa. “Coma
comida, não muita, sobretudo vegetais”, diz seu mantra, explicado no livro “Em
Defesa da Comida” (2008), que critica as dietas ocidentais focadas em nutrientes e
não em alimentos de verdade.
15 Ele também lançou o manual “Regras da Comida” (2009), com 64 dicas
bem práticas e cheias de bom senso como: “Não coma nada que sua avó não
reconheceria como comida” ou “Compre pratos e copos menores”.
No livro mais recente, “Cozinhar –Uma História Natural da
Transformação” (ed. Intrínseca), lançado em 2013 nos EUA e agora no Brasil, ele
20 vai além e pede um comprometimento maior em nome da saúde. Diz que devemos
todos voltar à cozinha. Para quem cresceu longe do fogão, parece ser seu conselho
mais difícil.
“Cozinhar sua própria comida é um ato político muito importante”, diz
Michael, um homem alto e charmoso, de fala mansa e risada fácil. “Tem a ver com
25 independência e autonomia. Abrimos mão de muito poder ao deixar as grandes
corporações cozinharem para nós porque elas decidem quais fazendas vão apoiar e,
normalmente, são bem aquelas que fazem um tipo de agricultura que certamente
você desaprovaria”, diz, fazendo referência a práticas como confinamento cruel de
30 animais e monoculturas gigantescas.

Ovos, um bom começo

Digo a ele que eu não cozinho, nem minha mãe, e ele quer saber como fui
30 alimentada. Empregadas domésticas que também fazem comida são comuns no
Brasil, afirmo. “Pelo menos, era um humano cozinhando para você, isso é bom.
Pena que nem todos têm esse privilégio”, diz. “Ovos são um bom começo”, ele
elogia, quando conto que sei fazer omelete.
Um dos problemas de cozinhar, acredita o jornalista, é a lembrança dos
35 velhos arranjos sexistas de poder dentro de casa. Para ele, foi justamente quando
homem e mulher começavam a pensar em negociar a divisão de tarefas domésticas
que a indústria do fast-food apareceu para resolver o embate. A “liberação
feminina” virou tema de propaganda de frango frito nos EUA.
“Se vamos reviver a cultura da cozinha, não podemos voltar ao passado.
40 Precisa ser uma cultura diferente, algo a ser compartilhado por homens, mulheres e
crianças”, diz o autor de “O Dilema do Onívoro” (2006), seu primeiro livro sobre a
indústria alimentícia, que o lançou como um novo pensador dos hábitos
alimentares.
O livro veio depois de uma série de artigos sobre agricultura, como um
45 publicado pelo “New York Times”, no final dos anos 1990, sobre sua visita a uma
plantação de batatas geneticamente modificadas. Tudo era controlado por
computador porque um dos elementos químicos usados para combater manchas
escuras era tão tóxico que o fazendeiro precisava ficar longe do campo por três
dias.
50 As manchas só apareciam nas batatas daquela variedade, a única que a rede
McDonald's aceitava comprar, já que as batatas fritas da rede precisam ser iguais
no mundo todo. “É fácil culpar o fazendeiro, mas nós demandamos um certo tipo
de produto. Somos cúmplices.”
[...]
Quando nos encontramos, ele estava animado com sua primeira viagem ao
55 Brasil. Pretendia passar alguns dias em Salvador antes de ir ao Rio e a Paraty para a
Flip. Estava feliz com o encontro que tinha marcado com o médico brasileiro
Carlos Augusto Monteiro, professor titular da Faculdade de Saúde Pública da USP
que desenvolve pesquisas comparando comidas pelo seu grau de processamento e
não apenas pelos nutrientes.
60 Está curioso para conhecer as churrascarias: “O gado ainda pasta ao ar
livre?”, indaga. Michael é daqueles que, antes de pedir, quer saber a origem da
carne. “Comer é complicado.”

*Flip – Feira Literária Internacional de Paraty

Revista Serafina / Folha de São Paulo, agosto/2014. Comida é pasto, por Fernanda Ezabella. (fragmentos).Disponível em <http://folha.uol.com.br/fsp/ilustrada>

Analisando as circunstâncias que resultaram no advento das redes de fast-food, o autor de Em defesa da comida assume um discurso que
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Pollan denuncia o oportunismo da indústria do fast-food diante das mudanças sociais.

O texto diz que o fast-food surgiu 'para resolver o embate' entre homem e mulher na divisão doméstica, e que a 'liberação feminina' virou tema de propaganda de frango frito. Isso denuncia o oportunismo da indústria.

Análise das alternativas

A: ele não discute hierarquia familiar em si. B: não ironiza o movimento, e sim o uso comercial dele. D: não elogia o mercado. E: não minimiza o trabalho masculino.

Referência: Interpretação de texto

Resolução comentada do VaiConcursos.

Ver gabarito

Gabarito: C

Fonte: Gabarito preliminar: Gabarito – Língua Portuguesa — página 2