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Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR) · Comando da Aeronáutica — Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR) 2013

Questão 13 — Língua Portuguesa: Interpretação de Texto

Língua Portuguesa Interpretação de Texto

Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR) 2013

Comando da Aeronáutica — Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR) · Aluno do 1º ano do Curso Preparatório de Cadetes do Ar (CPCAR) · Caderno Versão A

Gabarito disponível

Texto-base:
TEXTO I
DO FUNDO DO BAÚ

Eu tenho uma amiga que, todos os anos, me
enviava um belo cartão de Natal, às vezes desenhado
por ela. Este ano, em vez de cartão, chegou uma gentil
mensagem eletrônica. Eu entendo, ficou mais fácil. E
5 dessa maneira, você manda para quantas pessoas
quiser. Mas não há comparação entre um cartão (que
você custa a jogar fora) e uma mensagem eletrônica.
Isso ainda é mais verdade para essa
maravilhosa forma de comunicação que é a carta. É
10 difícil imaginar o que a carta representa na história da
humanidade. Primeiro, como laço afetivo. Certo, pode-se
pôr sentimento numa mensagem eletrônica. Mas ela tem
um caráter menos pessoal que uma carta. Recebendo a
carta, você sabia que era só para você. Que uma
15 determinada pessoa, num cantinho do universo, sentou-
se numa mesa, escolheu o papel, uma caneta, e
começou a escrever para você. A emoção podia
começar na caixa do correio – pelo formato do envelope,
pela letra que você conhecia.
20 Isso pelo lado afetivo. Havia outro, enorme: a
carta como documento histórico, ou literário, ou
sociológico. Aqui no Brasil, começou com a carta de
Pero Vaz, o primeiro documento da nacionalidade.
Pouquíssimo tempo depois, as cartas do padre Manoel
25 da Nóbrega prestam informações preciosas sobre um
país recém-nascido.
Não há nenhuma certeza de que as pessoas
vão guardar e-mails. É uma coisa mais precária e a
própria pressa da vida moderna conspira contra isso.
30 Assim, talvez deixem de se repetir coisas como:
1. As cartas de São Paulo, básicas para a
história do cristianismo.
2. Dois conjuntos de cartas romanas: as de
Cícero e as de Sêneca, que, sozinhas, garantiam um
35 conhecimento quase íntimo de uma época grandiosa. As
de Cícero, mais pictóricas, tecidas com as histórias do
dia a dia. As de Sêneca, o retrato de um filósofo que foi
o Montaigne dos romanos.
3. As cartas de Fénelon. Esse grande bispo
40 francês foi um incomparável diretor de consciências na
França de Luís XIV. Sua correspondência é uma
combinação única de beleza literária e finura espiritual.
4. As cartas de Flaubert, talvez sua obra-prima
(tenho uma preciosa edição francesa em sete volumes).
45 O caso de Flaubert é um bom exemplo. Como ele vivia
isolado, totalmente dedicado aos seus (poucos)
romances, a carta era o seu meio de comunicação com
o mundo. Sendo ele o escritor que era, surgiram
maravilhas literárias. Mas o tom é absolutamente íntimo.
50 Não vai muito bem com a eletrônica.
5. A correspondência entre Machado de Assis e
Joaquim Nabuco. Este é um tesouro bem nosso.
Nabuco era dez anos mais moço que Machado, e foi seu
parceiro na formação e consolidação da Academia
55 Brasileira de Letras. Para além do puramente literário, o
que essas cartas revelam é o encontro, o diálogo, entre
dois espíritos superiores. Tem o sabor de um velho
vinho do Porto.
A lista poderia ir longe. Na literatura romântica,
60 por exemplo, as cartas de amor entre Elizabeth Barret
Browing e seu futuro marido Robert Browing, todos dois
grandes poetas. No século XX, as cartas que tanto
enriquecem a estante kafkiana. Sem serem famosas, as
cartas de Thomas Mann são um dos melhores meios de
65 aprofundar o conhecimento desse grande romancista
alemão.
Isto não é para ser um exercício de
saudosismo. Cada época tem suas coisas boas – ou
más. Normalmente, nesses casos, ganha-se por um lado
70 e perde-se pelo outro. O ideal é quando se pode
conservar tudo – ou quase tudo. (...)
(HORTA, Luiz Paulo. O Globo. 28 de dezembro de 2012.)

TEXTO II
UMA CARTA DE MACHADO DE ASSIS

Machado de Assis tinha 65 anos quando Carolina, sua mulher, morreu em 1904; viveria ainda quatro anos. Joaquim Nabuco, um de seus melhores amigos, era dez anos mais moço, e correspondia-se com Machado, desde a adolescência.

Rio de Janeiro, 20 de novembro de 1904.

Meu caro Nabuco,

Tão longe, e em outro meio, chegou-lhe a
notícia da minha grande desgraça, e você expressou a
sua simpatia por um telegrama. A única palavra com que
lhe agradeci é a mesma que ora lhe mando, não
5 sabendo outra que possa dizer tudo o que sinto e me
acabrunha. Foi-se a melhor parte da minha vida e aqui
estou só no mundo. Note que a solidão não me é
enfadonha, antes me é grata, porque é um modo de
viver com ela, ouvi-la, assistir aos mil cuidados que essa
10 companheira de 35 anos de casados tinha comigo; mas
não há imaginação que não acorde, e a vigília aumenta
a falta da pessoa amada. Éramos velhos, e eu contava
morrer antes dela, o que seria um grande favor; primeiro,
porque não acharia a ninguém que melhor me ajudasse
15 a morrer; segundo, porque ela deixa alguns parentes
que a consolariam das saudades, e eu não tenho
nenhum. Os meus são amigos, e verdadeiramente são
os melhores; mas a vida os dispersa, no espaço, nas
preocupações do espírito e na própria carreira que a
20 cada um cabe. Aqui me fico, por ora na mesma casa, no
mesmo aposento, com os mesmos adornos seus. Tudo
me lembra a minha meiga Carolina.
Como estou à beira do eterno aposento, não
gastarei muito tempo em recorda-la. Irei vê-la, ela me
25 esperará.
Não posso, caro amigo, responder agora à sua
carta de 8 de outubro; recebi-a dias depois do
falecimento de minha mulher, e você compreende que
apenas posso falar deste fundo golpe.
30 Até outra e breve; então lhe direi o que convém
ao assunto daquela carta que, pelo afeto e sinceridade,
chegou à hora dos melhores remédios. Aceite este
abraço do triste amigo velho
35 Machado de Assis
http://rosebud-rose-bud.blogspot.com/2007/02/uma-carta-de-machado-de-assis.html, acessado em 04/05/2013.

Comparando o texto I ao texto II, só NÃO se pode concluir que
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

A D não pode ser concluída: nenhum dos textos afirma que no século XXI as cartas são sempre informais e só por e-mail.

A questão pede o que NÃO se conclui. A alternativa D faz uma generalização sem apoio nos textos. O texto I só lamenta que o e-mail possa substituir a carta, e não diz que as cartas atuais são todas informais nem que existem apenas por meio eletrônico.

Análise das alternativas

A) Pode-se concluir: a carta de Machado exemplifica o valor documental e literário. B) Pode-se concluir, segundo o gabarito: a carta de Machado seria o tipo de documento que se guarda, em contraste com o e-mail descartável. C) Pode-se concluir: a correspondência de longa data entre Nabuco e Machado reforça o caráter pessoal da carta.

Referência: Interpretação de texto — comparação entre textos

Resolução comentada do VaiConcursos.

Ver gabarito

Gabarito: D

Fonte: Gabarito preliminar: Gabarito Oficial — Versão A