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Texto-base:
TEXTO 1
O som dos sentimentos
Babi Dewett
1 João Paulo tirou a mochila preta dos ombros e a colocou no chão, perto dos pés, e, ao lado dela,
apoiou a caixa dura e surrada de couro onde trazia seu violão. Respirou fundo, afastou os cabelos loiros
da testa, desgrudando-os um pouco do suor que escorria, e olhou para os lados analisando o lugar que
tinha escolhido para apresentar-se nos próximos meses. Era tão movimentado, que muita gente passava
5 sem notar o garoto de 19 anos alto, magro e desengonçado plantado no meio da calçada, já que não era o
único músico lá. Enquanto retirava seu instrumento da caixa, uma ou duas pessoas esbarravam na sua
mochila, mas João continuou focado em preparar-se, passando a correia do violão pelo ombro e afinando
as cordas.
Apesar de todo o barulho daquele espaço aberto e da quantidade de gente que passava apressada
10 por ali por causa do horário de almoço, sabia que seria um enorme desafio, mas seu plano era seguir em
frente. Não haveria público melhor que aquelas pessoas, que nem desconfiavam que eram consideradas
um público. Para João, aquele era um ritual de passagem, como havia sido para muitos outros estudantes
do Conservatório Musical, que ficava ali perto, na Avenida 9 de Julho.
Atrás e acima do garoto, imponente, erguia-se o Museu de Arte de São Paulo, o famoso MASP.
15 Bonito e moderno, estava situado na avenida que tinha feito João se apaixonar pela capital paulistana
desde o primeiro dia que chegou à cidade para estudar música, dois anos antes, vindo de Belo Horizonte.
A fachada do museu parecia cenário de filme, e o enorme vão que existia entre suas duas gigantescas
pilastras vermelhas estava sempre cheio de gente. Era um ótimo lugar para o rapaz passar suas tardes
tocando, quando saía do Conservatório, depois das aulas da manhã.
20 Ele achava triste ver que tantas pessoas corriam do metrô para os prédios comerciais, e dos
prédios para os ônibus ou para as ruas transversais, sem notar toda a beleza que a Avenida Paulista tinha
em seu concreto e seriedade. Mas João era apaixonado pelas pequenas coisas, pela beleza sutil dos
detalhes, e por isso mesmo gostava tanto de música. Os acordes, os sons, as notas e a maneira incrível
como a melodia exercia um poder imenso sobre as pessoas, não importando se músico ou ouvinte,
25 fascinavam o rapaz. Para ele, sons eram universais, e ele tinha certeza de que conseguiria mostrar isso ao
mundo, estudando muito e fazendo um ótimo trabalho no Conservatório.
Naquele início de tarde de um outono recém-chegado, no dia 22 de março, o primeiro acorde no
violão de madeira clara soou na grande avenida pelas mãos de João Paulo. Diante dele e de seu
instrumento, um pequeno pote para moedas era um convite para os passantes depositarem sua
30 contribuição. Ele estava decidido a arrecadar qualquer quantia em dinheiro, não para ele, mas para doar
para outras pessoas e, quem sabe, mudar suas vidas, por mais poético e impossível que isso pudesse
parecer.
Deixando-se levar por um sentimento maior de idealismo, pensando nas contribuições que viriam
e em sua paixão pela música, João Paulo começou a entoar “Blackbird”, dos Beatles. Sua voz não era
35 suave nem bonita, mas grave e até um pouco desafinada, porém ele conseguia emitir as notas e cantar
sem esforço. Ainda tentando se concentrar naquele novo “trabalho”, ficou mais calmo quando conseguiu
arrancar sorrisos de dois senhores engravatados que passavam e de uma moça que empurrava um
carrinho de bebê, e parou para ouvir. Foram poucos em sua plateia, mas quem sabe não seria mais fácil
depois de alguns dias?
(PIMENTA, Paula et al. Um ano inesquecível. 1ª edição. Belo Horizonte: Editora Gutenberg, 2015.)
QUESTÃO 4 – Algumas palavras são usadas fora de seu sentido usual, ou seja, em seu sentido figurado, conotativo. Marque a opção cujo trecho, retirado do Texto 1, apresenta a palavra destacada empregada em sentido figurado.
TEXTO 1
O som dos sentimentos
Babi Dewett
1 João Paulo tirou a mochila preta dos ombros e a colocou no chão, perto dos pés, e, ao lado dela,
apoiou a caixa dura e surrada de couro onde trazia seu violão. Respirou fundo, afastou os cabelos loiros
da testa, desgrudando-os um pouco do suor que escorria, e olhou para os lados analisando o lugar que
tinha escolhido para apresentar-se nos próximos meses. Era tão movimentado, que muita gente passava
5 sem notar o garoto de 19 anos alto, magro e desengonçado plantado no meio da calçada, já que não era o
único músico lá. Enquanto retirava seu instrumento da caixa, uma ou duas pessoas esbarravam na sua
mochila, mas João continuou focado em preparar-se, passando a correia do violão pelo ombro e afinando
as cordas.
Apesar de todo o barulho daquele espaço aberto e da quantidade de gente que passava apressada
10 por ali por causa do horário de almoço, sabia que seria um enorme desafio, mas seu plano era seguir em
frente. Não haveria público melhor que aquelas pessoas, que nem desconfiavam que eram consideradas
um público. Para João, aquele era um ritual de passagem, como havia sido para muitos outros estudantes
do Conservatório Musical, que ficava ali perto, na Avenida 9 de Julho.
Atrás e acima do garoto, imponente, erguia-se o Museu de Arte de São Paulo, o famoso MASP.
15 Bonito e moderno, estava situado na avenida que tinha feito João se apaixonar pela capital paulistana
desde o primeiro dia que chegou à cidade para estudar música, dois anos antes, vindo de Belo Horizonte.
A fachada do museu parecia cenário de filme, e o enorme vão que existia entre suas duas gigantescas
pilastras vermelhas estava sempre cheio de gente. Era um ótimo lugar para o rapaz passar suas tardes
tocando, quando saía do Conservatório, depois das aulas da manhã.
20 Ele achava triste ver que tantas pessoas corriam do metrô para os prédios comerciais, e dos
prédios para os ônibus ou para as ruas transversais, sem notar toda a beleza que a Avenida Paulista tinha
em seu concreto e seriedade. Mas João era apaixonado pelas pequenas coisas, pela beleza sutil dos
detalhes, e por isso mesmo gostava tanto de música. Os acordes, os sons, as notas e a maneira incrível
como a melodia exercia um poder imenso sobre as pessoas, não importando se músico ou ouvinte,
25 fascinavam o rapaz. Para ele, sons eram universais, e ele tinha certeza de que conseguiria mostrar isso ao
mundo, estudando muito e fazendo um ótimo trabalho no Conservatório.
Naquele início de tarde de um outono recém-chegado, no dia 22 de março, o primeiro acorde no
violão de madeira clara soou na grande avenida pelas mãos de João Paulo. Diante dele e de seu
instrumento, um pequeno pote para moedas era um convite para os passantes depositarem sua
30 contribuição. Ele estava decidido a arrecadar qualquer quantia em dinheiro, não para ele, mas para doar
para outras pessoas e, quem sabe, mudar suas vidas, por mais poético e impossível que isso pudesse
parecer.
Deixando-se levar por um sentimento maior de idealismo, pensando nas contribuições que viriam
e em sua paixão pela música, João Paulo começou a entoar “Blackbird”, dos Beatles. Sua voz não era
35 suave nem bonita, mas grave e até um pouco desafinada, porém ele conseguia emitir as notas e cantar
sem esforço. Ainda tentando se concentrar naquele novo “trabalho”, ficou mais calmo quando conseguiu
arrancar sorrisos de dois senhores engravatados que passavam e de uma moça que empurrava um
carrinho de bebê, e parou para ouvir. Foram poucos em sua plateia, mas quem sabe não seria mais fácil
depois de alguns dias?
(PIMENTA, Paula et al. Um ano inesquecível. 1ª edição. Belo Horizonte: Editora Gutenberg, 2015.)
QUESTÃO 4 – Algumas palavras são usadas fora de seu sentido usual, ou seja, em seu sentido figurado, conotativo. Marque a opção cujo trecho, retirado do Texto 1, apresenta a palavra destacada empregada em sentido figurado.