Gabarito disponível
“(...)
O que estou é velho. Cinquenta anos pelo S. Pedro. Cinquenta anos perdidos, cinquenta anos gastos sem objetivo, a maltratar-me e a maltratar os outros. O resultado é que endureci, calejei, e não é um arranhão que penetra esta casca espessa e vem ferir cá dentro a sensibilidade embotada.
(...)
Cinquenta anos! Quantas horas inúteis! Consumir-se uma pessoa a vida inteira sem saber para quê! Comer e dormir como um porco! Levantar-se cedo todas as manhãs e sair correndo, procurando comida! E depois guardar comida para os filhos, para os netos, para muitas gerações. Que estupidez! Que porcaria! Não é bom vir o diabo e levar tudo?
(...)
Penso em Madalena com insistência. Se fosse possível recomeçarmos... Para que enganar-me? Se fosse possível recomeçarmos, aconteceria exatamente o que aconteceu. Não consigo modificar-me, é o que mais me aflige.
(...)
Foi este modo de vida que me inutilizou. Sou um aleijado. Devo ter um coração miúdo, lacunas no cérebro, nervos diferentes dos nervos dos outros homens. E um nariz enorme, uma boca enorme, dedos enormes.
(...)”
Quanto ao trecho lido, é correto afirmar que
Resolução comentada
Paulo Honório reconhece que não consegue mudar, o que revela determinismo.
O narrador afirma que, mesmo podendo recomeçar, tudo se repetiria e que o modo de vida o 'inutilizou'. Ele se vê moldado pelo meio e pela vida, como um 'aleijado' de coração miúdo e nervos diferentes, o que mostra traços deterministas (naturalistas). Por isso D está correta.
Análise das alternativas
A: não há ufanismo, e sim amargura e autocrítica. B: o intimismo, ao contrário, permite a autocrítica. C: o trecho é voltado à introspecção individual, e a alternativa não se sustenta como leitura do trecho. E: o narrador é em primeira pessoa (personagem), não externo.
Referência: Graciliano Ramos, São Bernardo; romance de 30.
Resolução comentada do VaiConcursos.