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Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA)

Questão 30 — Língua Portuguesa: Estratégias Argumentativas

Língua Portuguesa Estratégias Argumentativas

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) Médio

Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) · Vestibular 2015 — Prova de Português · Caderno Português (questões 21 a 40) e Redação

Gabarito disponível

Texto-base:
As questões de 21 a 28 referem-se ao Texto 1, de Rubem Braga, publicado pela primeira vez em 1952, no jornal Correio da Manhã, do Rio.

TEXTO 1
1 José Leal fez uma reportagem na Ilha das Flores, onde ficam os imigrantes logo que chegam. E
falou dos equívocos de nossa política imigratória. As pessoas que ele encontrou não eram agricultores e
técnicos, gente capaz de ser útil. Viu músicos profissionais, bailarinas austríacas, cabeleireiras lituanas.
Paul Balt toca acordeão, Ivan Donef faz coquetéis, Galar Bedrich é vendedor, Serof Nedko é ex-oficial,
5 Luigi Tonizo é jogador de futebol, Ibolya Pohl é costureira. Tudo gente para o asfalto, “para entulhar as
grandes cidades”, como diz o repórter.
O repórter tem razão. Mas eu peço licença para ficar imaginando uma porção de coisas vagas, ao
olhar essas belas fotografias que ilustram a reportagem. Essa linda costureirinha morena de Badajoz,
essa Ingeborg que faz fotografias e essa Irgard que não faz coisa alguma, esse Stefan Cromick cuja
10 única experiência na vida parece ter sido vender bombons – não, essa gente não vai aumentar a
produção de batatinhas e quiabos nem plantar cidades no Brasil Central.
É insensato importar gente assim. Mas o destino das pessoas e dos países também é, muitas
vezes, insensato: principalmente da gente nova e países novos. A humanidade não vive apenas de
carne, alface e motores. Quem eram os pais de Einstein, eu pergunto; e se o jovem Chaplin quisesse
15 hoje entrar no Brasil acaso poderia? Ninguém sabe que destino terão no Brasil essas mulheres louras,
esses homens de profissões vagas. Eles estão procurando alguma coisa: emigraram. Trazem pelo
menos o patrimônio de sua inquietação e de seu apetite de vida. Muitos se perderão, sem futuro, na
vagabundagem inconsequente das cidades; uma mulher dessas talvez se suicide melancolicamente
dentro de alguns anos, em algum quarto de pensão. Mas é preciso de tudo para fazer um mundo; e cada
20 pessoa humana é um mistério de heranças e de taras. Acaso importamos o pintor Portinari, o arquiteto
Niemeyer, o físico Lattes? E os construtores de nossa indústria, como vieram eles ou seus pais? Quem
pergunta hoje, e que interessa saber, se esses homens ou seus pais ou seus avós vieram para o Brasil
como agricultores, comerciantes, barbeiros ou capitalistas, aventureiros ou vendedores de gravata? Sem
o tráfico de escravos não teríamos tido Machado de Assis, e Carlos Drummond seria impossível sem
25 uma gota de sangue (ou uísque) escocês nas veias, e quem nos garante que uma legislação exemplar
de imigração não teria feito Roberto Burle Marx nascer uruguaio, Vila Lobos mexicano, ou Pancetti
chileno, o general Rondon canadense ou Noel Rosa em Moçambique? Sejamos humildes diante da
pessoa humana: o grande homem do Brasil de amanhã pode descender de um clandestino que neste
momento está saltando assustado na praça Mauá, e não sabe aonde ir, nem o que fazer. Façamos uma
30 política de imigração sábia, perfeita, materialista; mas deixemos uma pequena margem aos inúteis e aos
vagabundos, às aventureiras e aos tontos porque dentro de algum deles, como sorte grande da
fantástica loteria humana, pode vir a nossa redenção e a nossa glória.

(BRAGA, R. Imigração. In: A borboleta amarela. Rio de Janeiro, Editora do Autor, 1963)

As questões de 29 a 32 referem-se ao Texto 2, do psicanalista uruguaio Marcelo Viñar, ou aos Textos 1 e 2.

TEXTO 2
1 Nos estudos de antropologia política de Pierre Clastres*, estudioso francês que conviveu durante
muito tempo com tribos indígenas sul-americanas, menciona-se o fato de frequentemente os membros
dessas tribos designarem a si mesmos com um vocábulo que em sua língua era sinônimo de “os
homens” e reservavam para seus congêneres de tribos vizinhas termos como “ovos de piolho”, “sub-
5 homens” ou equivalentes com valor pejorativo.
Trago esta referência – que Clastres denomina etnocentrismo – eloquente de uma xenofobia em
sociedades primitivas, porque ela é tentadora para propor origens precoces, quem sabe constitucionais
ou genéticas, no ódio ou recusa das diferenças.
A mesma precocidade, dizem alguns, encontra-se nas crianças. Uma criança uruguaia, com clara
10 ascendência europeia, como é comum em nosso país, resultado do genocídio indígena, denuncia, entre
indignada e temerosa, sua repulsa a uma criança japonesa que entrou em sua classe (fato raro em
nosso meio) e argumenta que sua linguagem lhe é incompreensível e seus traços são diferentes e
incomuns.
Se as crianças e os primitivos reagem deste modo, poder-se-ia concluir – precipitadamente – que
15 o que manifestam, de maneira tão primária e transparente, é algo que os desenvolvimentos posteriores
da civilização tornarão evidente de forma mais complexa e sofisticada, mas com a mesma contundência
elementar.
Por esse caminho, e com a tendência humana a buscar causalidades simples e lineares, estamos
a um passo de “encontrar” explicações instintivas do ódio e da violência, em uma hierarquização em que
20 a natureza precede a cultura, território de escolha das argumentações racistas. A “natureza” – o
“biológico” como “a” origem ou “a” causa – operam como explicação segura e tranquilizadora ante
questões que nos encurralam na ignorância e na insegurança de um saber parcial. [...]

(*) Pierre Clastres (1934-1977)

(VIÑAR, M. O reconhecimento do próximo. Notas para pensar o ódio ao estrangeiro. In: Caterina Koltai (org.) O estrangeiro. São Paulo: Escuta; Fapesp, 1998)

Em relação às estratégias argumentativas, os Textos 1 e 2 igualmente apresentam
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Os dois textos usam referências externas para discutir seus temas.

O Texto 1 recorre à reportagem de José Leal, a Einstein, Chaplin, Portinari e outros nomes para argumentar sobre imigração. O Texto 2 recorre aos estudos de Pierre Clastres e ao exemplo da criança uruguaia para discutir a xenofobia. Os dois textos têm, portanto, referências externas como estratégia argumentativa.

Análise das alternativas

A) a ordem do geral para o específico não é comum aos dois. C) a comparação de comportamento de grupos sociais não aparece nos dois. D) o testemunho de autoridade não está presente nos dois. E) definições de palavras não são estratégia dos dois textos.

Referência: Estratégias argumentativas; intertextualidade e exemplificação.

Resolução comentada do VaiConcursos.

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Gabarito: B

Fonte: Gabarito preliminar: Gabarito ITA Vestibular 2015 — Português