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Texto-base:
TEXTO V: As intermitências da morte
No dia seguinte ninguém morreu. O fato, por absolutamente contrário às normas da vida,
causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta
que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem
ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenômeno semelhante, passar-se
[5] um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e
noturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma
queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem sequer um
daqueles acidentes de automóvel tão frequentes em ocasiões festivas, quando a alegre
irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir
[10] sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar. [...] Sangue, porém, houve-o, e
não pouco. Desvairados, confusos, aflitos, dominando a custo as náuseas, os bombeiros
extraíam da amálgama dos destroços míseros corpos humanos que, de acordo com a lógica
matemática das colisões, deveriam estar mortos e bem mortos, mas que, apesar da gravidade
dos ferimentos e dos traumatismos sofridos, se mantinham vivos e assim eram transportados
[15] aos hospitais, ao som das dilacerantes sereias das ambulâncias. Nenhuma dessas pessoas
morreria no caminho e todas iriam desmentir os mais pessimistas prognósticos médicos, Esse
pobre diabo não tem remédio possível, nem valia a pena perder tempo a operá-lo, dizia o
cirurgião à enfermeira enquanto esta lhe ajustava a máscara à cara. Realmente, talvez não
houvesse salvação para o coitado no dia anterior, mas o que estava claro é que a vítima se
[20] recusava a morrer neste. E o que acontecia aqui, acontecia em todo o país. [...] Já tínhamos
passado ao dia seguinte, e nele, como se informou logo no princípio deste relato, ninguém iria
morrer. [...]
SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 11-12
José Saramago foi o primeiro escritor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura. Nascido em Portugal, seus romances e contos trazem características particulares quanto à pontuação e a utilização de parágrafos de forma diferenciada. No seu romance, “As intermitências da morte”, percebe-se a morte como personagem principal. De acordo com trecho do livro reproduzido acima, responda aos itens a seguir.
Neste fragmento do texto V: “O fato, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, [...]”(L.01), as duas primeiras virgulas foram empregadas para intercalar uma ideia de:
TEXTO V: As intermitências da morte
No dia seguinte ninguém morreu. O fato, por absolutamente contrário às normas da vida,
causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta
que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem
ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenômeno semelhante, passar-se
[5] um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e
noturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma
queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem sequer um
daqueles acidentes de automóvel tão frequentes em ocasiões festivas, quando a alegre
irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir
[10] sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar. [...] Sangue, porém, houve-o, e
não pouco. Desvairados, confusos, aflitos, dominando a custo as náuseas, os bombeiros
extraíam da amálgama dos destroços míseros corpos humanos que, de acordo com a lógica
matemática das colisões, deveriam estar mortos e bem mortos, mas que, apesar da gravidade
dos ferimentos e dos traumatismos sofridos, se mantinham vivos e assim eram transportados
[15] aos hospitais, ao som das dilacerantes sereias das ambulâncias. Nenhuma dessas pessoas
morreria no caminho e todas iriam desmentir os mais pessimistas prognósticos médicos, Esse
pobre diabo não tem remédio possível, nem valia a pena perder tempo a operá-lo, dizia o
cirurgião à enfermeira enquanto esta lhe ajustava a máscara à cara. Realmente, talvez não
houvesse salvação para o coitado no dia anterior, mas o que estava claro é que a vítima se
[20] recusava a morrer neste. E o que acontecia aqui, acontecia em todo o país. [...] Já tínhamos
passado ao dia seguinte, e nele, como se informou logo no princípio deste relato, ninguém iria
morrer. [...]
SARAMAGO, José. As intermitências da morte. São Paulo: Companhia das Letras, 2005. p. 11-12
José Saramago foi o primeiro escritor de língua portuguesa a receber o Prêmio Nobel de Literatura. Nascido em Portugal, seus romances e contos trazem características particulares quanto à pontuação e a utilização de parágrafos de forma diferenciada. No seu romance, “As intermitências da morte”, percebe-se a morte como personagem principal. De acordo com trecho do livro reproduzido acima, responda aos itens a seguir.
Neste fragmento do texto V: “O fato, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, [...]”(L.01), as duas primeiras virgulas foram empregadas para intercalar uma ideia de:
Resolução comentada
A oração intercalada 'por absolutamente contrário às normas da vida' expressa causa.
O trecho entre vírgulas, 'por absolutamente contrário às normas da vida', explica o motivo da perturbação nos espíritos. Equivale a 'porque era contrário às normas da vida', então indica causa.
Análise das alternativas
A: não há oposição. C: a perturbação é a consequência, não a ideia intercalada. D e E: não há condição nem finalidade.
Referência: Uso da vírgula em termos intercalados; relações de sentido.
Resolução comentada do VaiConcursos.