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TEXTO I
Só o homem entediado terá chance de salvação num futuro de smartphones
João Pereira Coutinho
1 Assisto a conferências e a moda não engana: metade da sala (no mínimo) está
2 com a cabeça enfiada em smartphones. Como seriam as conferências antigamente? O
3 que fazia a audiência enquanto alguém falava no palanque?
4 Provavelmente, escutava. Ou dormia. Ou dormia e escutava, em intervalos
5 saudáveis.
6 Hoje, ninguém dorme. Duvido que alguém escute. O smartphone é o inimigo do
7 tédio, ou da reflexão, proporcionando uma festa permanente.
8 Este seria o momento ideal para eu vestir a toga¹ do moralista vulgar, lançando
9 raios homéricos sobre a nefasta² tecnologia. A data, aliás, seria a mais apropriada: o
10 iPhone nasceu dez anos atrás e o dilúvio começou.
11 Infelizmente, não posso pregar. Eu também faço parte do clube que prefere o
12 smartphone ao velho e bom cochilo.
13 Especialistas diversos gostam de explicar a compulsão. É como uma droga, dizem
14 eles: quando espreitamos³ as mensagens, o e-mail, as redes sociais, procuramos uma
15 espécie de recompensa neurobiológica muito semelhante a um viciado.
16 O problema se agrava quando somos privados da nossa dose – e eu sei, o leitor
17 sabe, todos sabemos dessa miserável privação.
18 Tempos atrás, esqueci-me do celular em casa e parti em viagem. Quando dei conta
19 do estrago, uma inquietude foi crescendo com o passar das horas.
20 Ainda pensei em pedir ao companheiro do lado para me emprestar o smartphone
21 dele. Só para eu ler as minhas mensagens. Ou até, sei lá, as mensagens dele. Qualquer
22 coisa servia. Eu era como alguns alcoólatras que, na ausência de bebidas legais,
23 começam a despejar perfume pela goela.
24 Controlei-me. Telefonei para casa – de um telefone fixo, entenda – e pedi, com um
25 último fôlego, que me lessem as novidades. Nenhuma delas era urgente, sequer
26 interessante. Mas o corpo sossegou e mergulhou naquele estranho torpor⁴ que Thomas
27 de Quincey relatou nas suas "Confissões de um Comedor de Ópio⁵". Como se chegou
28 até aqui?
29 Verdade: o tédio sempre foi o grande terror dos homens modernos. Ter no bolso
30 um aparelho que garante distração permanente é a melhor forma de afastar o fantasma.
31 Acontece que o tédio tem as suas vantagens. O filósofo Mark Kingwell tem escrito
32 sobre a matéria (...) Só o tédio, escreve ele, é capaz de sinalizar a existência de um
33 problema entre nós e o mundo. O tédio é a "suspensão da suspensão" em que vivemos
34 – uma forma terapêutica, e até brutal, de olharmos para a realidade sem fugas. E de
35 agirmos em conformidade.
36 Quando abolimos o tédio, e o "dom da escuta" que só ele oferece, desaparece uma
37 parte da nossa humanidade – aquela parte que reflete, imagina ou cria. E que
38 problematiza, critica, propõe.
39 No futuro, não será apenas a audiência que estará mergulhada nas telas dos
40 smartphones. Também suspeito que os próprios conferencistas, privados de pensar e
41 sem nada para dizer, terão o mesmo comportamento.
42 Imagino um encontro de silêncios, onde todos os presentes estarão ausentes – e
43 só o homem entediado terá chance de salvação.
Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2017/06/1897093-so-o-homem-entediado-tera-chance-de-salvacao-num-futuro-de-smartphones.shtml>. Último acesso em 06 de julho de 2017. (Adaptado).
VOCABULÁRIO:
1. Toga – traje preto e comprido, usado por advogados e por professores catedráticos e doutorados em ocasiões especiais.
2. Nefasto – nocivo, prejudicial, perverso, trágico, mau.
3. Espreitar – espiar, olhar demorada e fixamente.
4. Torpor – indiferença ou apatia moral; indolência, prostração.
5. Ópio – narcótico, droga que provoca adormecimento.
TEXTO II
Fiu-fiu
Luis Fernando Veríssimo
Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha?
1 Lançaram agora um celular à prova d’água, que você pode usar no chuveiro. Ou
2 em qualquer outro lugar embaixo d’água. No mar, por exemplo.
3 – Bem, não me espere para o jantar...
4 – Onde você está?
5 – Sabe a nossa pesca submarina?
6 – O que houve?
7 – Pensei que fosse uma garoupa e era um tubarão. E ele está vindo na minha
8 direção.
9 – Você ainda está embaixo d’água?!
10 – Estou.
11 – E o seu arpão?
12 – O tubarão engoliu!
13 – Ligue para a Guarda Costeira!
14 São cada vez mais raros os lugares em que você pode se ver livre de celulares,
15 e agora nem as piscinas estão seguras.
16 Os celulares são práticos e se tornaram indispensáveis, eu sei, mas
17 empobreceram a vida social. Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro
18 pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está
19 falando sozinha? Ou um casal em outra mesa, os dois mergulhados nos respectivos
20 celulares sem nem se olharem, o que dirá se falarem – a não ser que estejam trocando
21 mensagens silenciosas entre si, o que é ainda mais triste.
22 Os celulares podem ser perigosos de várias maneiras, mesmo que não derretam
23 o cérebro, como se andou espalhando há algum tempo. Imagino uma velhinha que
24 ganhou um celular dos netos sem que estes se dessem ao trabalho de explicar seu
25 funcionamento para a vovó. Não contaram, por exemplo, que o celular dado assobia
26 quando recebe uma mensagem. É um assovio humano, um nítido fiu-fiu avisando que
27 alguém ligou, e que pode soar a qualquer hora do dia ou da noite. E imagino a vovó, que
28 mora sozinha, dormindo e, de repente, acordando com o assovio. Um fiu-fiu no meio da
29 noite! A vovó, se não morrer imediatamente do coração, pode ficar apavorada. Quem
30 está lá? Um ladrão ou um fantasma assoviador? E o assovio tem algo de galante. A vovó
31 pode muito bem sair da cama, sem saber se está acordada ou sonhando, e caminhar na
32 direção do fiu-fiu sedutor, como se tivessem vindo buscá-la. Alguém pensou nas vovós
33 solitárias quando inventou o assovio?
34 O fato é que não há mais refúgio. Nem castelos anti-smartphones com um fosso
35 em volta. Eles agora podem atravessar o fosso.
Jornal O Globo, 03/08/2014. Disponível em <https://oglobo.globo.com/opiniao/fiu-fiu-13464128>. Último acesso em 30 de setembro de 2017.
Os textos I e II tratam os smartphones como os itens da contemporaneidade que têm levado as pessoas em geral a lidar (ou a não saberem lidar) com o hábito cotidiano. Que fragmento do texto II pode servir de exemplo para a seguinte reflexão retirada do texto I: “Imagino um encontro de silêncios, onde todos os presentes estarão ausentes” (l.42)?
Resolução comentada
Trecho do texto II que exemplifica 'encontro de silêncios, onde todos estão ausentes'.
A imagem de uma mesa de quatro pessoas em que três mexem no celular e uma fala sozinha mostra pessoas fisicamente presentes, mas ausentes na interação. Isso corresponde ao 'encontro de silêncios' do texto I.
Análise das alternativas
A) É um diálogo cômico sobre o tubarão, sem relação com ausência social. B) Fala da onipresença dos celulares, não de pessoas ausentes. D) Trata do susto da vovó. E) Trata da falta de refúgio contra os celulares.
Referência: Intertextualidade e relação entre textos.
Resolução comentada do VaiConcursos.