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Texto-base:
TEXTO III
O celular que escraviza
Eles roubam nosso tempo, atrapalham os relacionamentos e podem até causar acidentes de trânsito. Quando é a hora de desligar?
1 Estamos viciados. Em qualquer lugar, a qualquer momento do dia, não
2 conseguimos deixar de lado o objeto de nossa dependência. Dormimos ao lado dele,
3 acordamos com ele, o levamos para o banheiro e para o café da manhã – e, se, por
4 enorme azar, o esquecemos em casa ao sair, voltamos correndo. Somos incapazes de
5 ficar mais de um minuto sem olhar para ele. É através dele que nos conectamos com o
6 mundo, com os amigos, com o trabalho. Sabemos da vida de todos e informamos a todos
7 o que acontece por meio dele. Os neurocientistas dizem que ele nos fornece pequenos
8 estímulos prazerosos dos quais nos tornamos dependentes. Somos 21 milhões – número
9 de brasileiros com mais de 15 anos que têm smartphones, os celulares que fazem muito
10 mais que falar. Com eles, trocamos e-mails, usamos programas de GPS e navegamos
11 em redes sociais. O tempo todo. Observe a seu redor. Em qualquer situação, as pessoas
12 param, olham a tela do celular, dedilham uma mensagem. Enquanto conversam.
13 Enquanto namoram. Enquanto participam de uma reunião. E – pior de tudo – até mesmo
14 enquanto dirigem.
15 “É uma dependência difícil de eliminar”, diz o psiquiatra americano David
16 Greenfield, diretor do Centro para Tratamento de Vício em Internet e Tecnologia, na
17 cidade de West Hartford. “Nosso cérebro se acostuma a receber essas novidades
18 constantemente e passa a procurar por elas a todo instante.” O pai de todos os vícios,
19 claro, é o Facebook, maior rede social do mundo, onde publicamos notícias sobre nós
20 mesmos como se alimentássemos um grande jornal coletivo sobre a vida cotidiana.
21 Depois dele, novas redes foram criadas e apertaram o nó da dependência. Programas
22 de troca de fotos como o Instagram conectam milhões de pessoas por meio das imagens
23 feitas pelas câmeras cada vez mais potentes dos celulares. Os aplicativos de trocas de
24 mensagem, como o Whatsapp, promovem bate-papos escritos que se assemelham a
25 uma conversa na mesa do bar. O final dessa história pode ser dramático. Interagir com
26 o aparelho – e com centenas de amigos escondidos sob a tela de cristal – tornou-se para
27 alguns uma compulsão tão violenta que pode colocar a própria vida em risco.
28 Parece exagero? Pense na história da garota americana Taylor Sauer, de 18
29 anos. Em janeiro, Taylor dirigia numa rodovia interestadual que liga os Estados de Utah
30 e Idaho quando bateu a 130 quilômetros por hora na traseira de um caminhão. Taylor
31 trocava mensagens com um amigo sobre um time de futebol americano. Uma a cada 90
32 segundos. Seu último post foi: “Não posso discutir isso agora. Dirigir e escrever no
33 Facebook não é seguro! Haha”. Se não estivesse teclando, provavelmente Taylor teria
34 avistado o veículo à frente, que andava a meros 25 quilômetros por hora. O caso terrível
35 não é uma aberração estatística. A cada ano, 3 mil americanos morrem por causa da
36 distração no celular, de acordo com a agência federal National Transportation Safety
37 Board.
38 No Brasil, não é diferente – pelo menos é a impressão dos profissionais que
39 trabalham na área. “Minha experiência sugere que essa é a quarta maior causa de
40 acidentes, só atrás do excesso de velocidade, uso de álcool e drogas e cansaço”, diz
41 Dirceu Júnior, diretor da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego. (...) O cérebro só
42 faz bem uma coisa ou outra. (...) Dirigir falando ao telefone duplica o risco de um
43 acidente.
44 (...)
45 A sensação de estar por fora é consequência da hiperconectividade, um conceito
46 elaborado por dois pesquisadores canadenses, Anabel Quan-Haase e Barry Wellman.
47 Eles criaram uma teoria para explicar como vive o dono de um celular moderno. Ele pode
48 se comunicar a partir de qualquer lugar a qualquer instante. Não há fronteiras entre ele,
49 seus amigos e o restante do mundo – com exceção (maldição!) de locais em que o sinal
50 é fraco ou (pesadelo!) não chega. Um dos efeitos colaterais da hiperconectividade é ser
51 altamente viciante. Daí a desconfiança de especialistas de que motoristas que não
52 conseguem largar o celular enquanto dirigem são, na verdade, dependentes.
53 Dispositivos eletrônicos como os celulares geram a sensação de prazer para o cérebro
54 porque ele se sente recompensado a cada novidade recebida. Uma mensagem é um
55 pacotinho de prazer. A descarga de uma substância estimulante para nossos neurônios,
56 a dopamina, encarrega-se de gerar a sensação agradável. O Instituto de Informação e
57 Tecnologia de Helsinque, na Finlândia, fez um estudo para analisar quanto tempo do dia
58 gastamos com o hábito de verificar atualizações em busca desse barato cerebral. De
59 acesso em acesso, somamos duas horas e 40 minutos. É o mesmo tempo gasto nos
60 Estados Unidos com televisão e dez vezes o que se gasta com leitura. (...)
Reportagem de Rafael Barifouse e Isabella Ayub, Revista Época,15/06/2012. Disponível em <http://revistaepoca.globo.com/vida/noticia/2012/06/o-celular-que-escraviza.html>. Último acesso em 03 de outubro de 2017.
Há várias marcas de oralidade no texto III. Escolha a opção em que o termo destacado é devidamente substituído por vocábulo ou expressão formal, presente nas reescrituras entre colchetes, sem que haja mudança de sentido.
TEXTO III
O celular que escraviza
Eles roubam nosso tempo, atrapalham os relacionamentos e podem até causar acidentes de trânsito. Quando é a hora de desligar?
1 Estamos viciados. Em qualquer lugar, a qualquer momento do dia, não
2 conseguimos deixar de lado o objeto de nossa dependência. Dormimos ao lado dele,
3 acordamos com ele, o levamos para o banheiro e para o café da manhã – e, se, por
4 enorme azar, o esquecemos em casa ao sair, voltamos correndo. Somos incapazes de
5 ficar mais de um minuto sem olhar para ele. É através dele que nos conectamos com o
6 mundo, com os amigos, com o trabalho. Sabemos da vida de todos e informamos a todos
7 o que acontece por meio dele. Os neurocientistas dizem que ele nos fornece pequenos
8 estímulos prazerosos dos quais nos tornamos dependentes. Somos 21 milhões – número
9 de brasileiros com mais de 15 anos que têm smartphones, os celulares que fazem muito
10 mais que falar. Com eles, trocamos e-mails, usamos programas de GPS e navegamos
11 em redes sociais. O tempo todo. Observe a seu redor. Em qualquer situação, as pessoas
12 param, olham a tela do celular, dedilham uma mensagem. Enquanto conversam.
13 Enquanto namoram. Enquanto participam de uma reunião. E – pior de tudo – até mesmo
14 enquanto dirigem.
15 “É uma dependência difícil de eliminar”, diz o psiquiatra americano David
16 Greenfield, diretor do Centro para Tratamento de Vício em Internet e Tecnologia, na
17 cidade de West Hartford. “Nosso cérebro se acostuma a receber essas novidades
18 constantemente e passa a procurar por elas a todo instante.” O pai de todos os vícios,
19 claro, é o Facebook, maior rede social do mundo, onde publicamos notícias sobre nós
20 mesmos como se alimentássemos um grande jornal coletivo sobre a vida cotidiana.
21 Depois dele, novas redes foram criadas e apertaram o nó da dependência. Programas
22 de troca de fotos como o Instagram conectam milhões de pessoas por meio das imagens
23 feitas pelas câmeras cada vez mais potentes dos celulares. Os aplicativos de trocas de
24 mensagem, como o Whatsapp, promovem bate-papos escritos que se assemelham a
25 uma conversa na mesa do bar. O final dessa história pode ser dramático. Interagir com
26 o aparelho – e com centenas de amigos escondidos sob a tela de cristal – tornou-se para
27 alguns uma compulsão tão violenta que pode colocar a própria vida em risco.
28 Parece exagero? Pense na história da garota americana Taylor Sauer, de 18
29 anos. Em janeiro, Taylor dirigia numa rodovia interestadual que liga os Estados de Utah
30 e Idaho quando bateu a 130 quilômetros por hora na traseira de um caminhão. Taylor
31 trocava mensagens com um amigo sobre um time de futebol americano. Uma a cada 90
32 segundos. Seu último post foi: “Não posso discutir isso agora. Dirigir e escrever no
33 Facebook não é seguro! Haha”. Se não estivesse teclando, provavelmente Taylor teria
34 avistado o veículo à frente, que andava a meros 25 quilômetros por hora. O caso terrível
35 não é uma aberração estatística. A cada ano, 3 mil americanos morrem por causa da
36 distração no celular, de acordo com a agência federal National Transportation Safety
37 Board.
38 No Brasil, não é diferente – pelo menos é a impressão dos profissionais que
39 trabalham na área. “Minha experiência sugere que essa é a quarta maior causa de
40 acidentes, só atrás do excesso de velocidade, uso de álcool e drogas e cansaço”, diz
41 Dirceu Júnior, diretor da Associação Brasileira de Medicina de Tráfego. (...) O cérebro só
42 faz bem uma coisa ou outra. (...) Dirigir falando ao telefone duplica o risco de um
43 acidente.
44 (...)
45 A sensação de estar por fora é consequência da hiperconectividade, um conceito
46 elaborado por dois pesquisadores canadenses, Anabel Quan-Haase e Barry Wellman.
47 Eles criaram uma teoria para explicar como vive o dono de um celular moderno. Ele pode
48 se comunicar a partir de qualquer lugar a qualquer instante. Não há fronteiras entre ele,
49 seus amigos e o restante do mundo – com exceção (maldição!) de locais em que o sinal
50 é fraco ou (pesadelo!) não chega. Um dos efeitos colaterais da hiperconectividade é ser
51 altamente viciante. Daí a desconfiança de especialistas de que motoristas que não
52 conseguem largar o celular enquanto dirigem são, na verdade, dependentes.
53 Dispositivos eletrônicos como os celulares geram a sensação de prazer para o cérebro
54 porque ele se sente recompensado a cada novidade recebida. Uma mensagem é um
55 pacotinho de prazer. A descarga de uma substância estimulante para nossos neurônios,
56 a dopamina, encarrega-se de gerar a sensação agradável. O Instituto de Informação e
57 Tecnologia de Helsinque, na Finlândia, fez um estudo para analisar quanto tempo do dia
58 gastamos com o hábito de verificar atualizações em busca desse barato cerebral. De
59 acesso em acesso, somamos duas horas e 40 minutos. É o mesmo tempo gasto nos
60 Estados Unidos com televisão e dez vezes o que se gasta com leitura. (...)
Reportagem de Rafael Barifouse e Isabella Ayub, Revista Época,15/06/2012. Disponível em <http://revistaepoca.globo.com/vida/noticia/2012/06/o-celular-que-escraviza.html>. Último acesso em 03 de outubro de 2017.
Há várias marcas de oralidade no texto III. Escolha a opção em que o termo destacado é devidamente substituído por vocábulo ou expressão formal, presente nas reescrituras entre colchetes, sem que haja mudança de sentido.