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Leia o texto III para responder aos itens 07 a 11.
TEXTO III
O MÁGICO
Chegara o grande momento. O mágico caminhou até a beira do palco. Sua assistente
Marialva, de maiô prateado, abriu os braços e com gestos graciosos parecia oferecer o mágico ao
seu público. O mágico falou:
— Senhoras e senhores, para terminar minha apresentação desta noite, tentarei realizar um
5 truque jamais tentado em toda a história da mágica. Um truque que revolucionará todas as leis da
Física. Pela primeira vez em um palco, sem uso de espelhos, alçapões, fundos falsos, projeções,
hipnotismo, encanto ou milagre, uma mulher será transformada num pássaro. Sim, com um simples
toque da minha varinha, transformarei minha gentil companheira numa pomba branca...
Murmúrios da plateia. Marialva sorria. O mágico ergueu sua varinha e aproximou-se da
10 assistente. Tocou seus cabelos salpicados de contas com a ponta da varinha. Nada aconteceu.
Tentou outra vez. Nada. Ainda estava tentando quando o pano fechou sob vaias da plateia.
O mágico abandonou a mágica. Foi ser carteiro. Não durou muito na nova profissão. Batia
nas casas e dizia para o destinatário que abrisse a porta:
— Escolha uma carta, qualquer carta...
15 Trabalhou como maître em um restaurante. Novo fracasso. Quando virava a garrafa, saía
confete no copo. Quando tirava a tampa da travessa, em vez de filé aparecia uma pomba viva que
saía voando pelo salão. As pessoas não entendiam. Protestavam. Para acalmá-las, o mágico tirava
um ovo da boca. Escândalo no restaurante. O mágico foi despedido.
No quarto alugado que ocupava com 17 baús, argolas, lenços coloridos, alguns coelhos e seis
20 pombas brancas, o mágico e Marialva discutiam.
— Tente outra vez — insistia Marialva. — Você vai conseguir me transformar numa pomba.
Tente!
— Sou um fracassado.
— Você não pode desistir!
25 — Se não posso ser o maior mágico do mundo, não quero ser mágico nenhum.
— Você é o maior mágico do mundo.
— Se fosse, não teria falhado.
— Tente outra vez!
Um dia, o mágico conseguira fazer o contrário. Transformar uma das pombas brancas numa
30 mulher. Uma morena de maiô dourado, chamada Dagmar. Mas Marialva batera pé e insistira para
que ele desfizesse o truque.
Ele foi ser vendedor de roupa para homens. Não sabia o que dizer. Quando mostrava o
paletó para o cliente, dizia:
— Nada nesta manga, nada na outra...
35 O cliente não entendia. Não comprava. Foi despedido.
No quarto alugado, Marialva, de maiô prateado, insistia:
— Tenta de novo. Pega a varinha e tenta.
Um dia a senhoria, que morava no andar de baixo, ouviu um grito do mágico. Um grito
estranho, de surpresa e orgulho profissional. Deus deve ter gritado assim quando o primeiro pavão
40 abriu sua cauda. A senhoria subiu e olhou pelo buraco da fechadura. Viu o mágico com sua varinha
na mão e uma pomba que voava sozinha por dentro do quarto. Não viu Marialva.
[...]
GLOSSÁRIO:
maître: pessoa responsável pelo gerenciamento e pela supervisão do trabalho realizado pelos garçons de um hotel ou restaurante.
senhoria: proprietária de bens imóveis; senhora.
destinatário: aquele a quem se envia ou destina alguma coisa.
(VERÍSSIMO, Luís Fernando. O mágico. In: O nariz e outras crônicas. São Paulo. 2003: Ática. pp. 31-32. Fragmento adaptado.)
O mágico não durou muito na profissão de carteiro, porque
Resolução comentada
Como carteiro, o mágico continuava agindo como mágico.
Ele batia nas casas e pedia ao destinatário: "Escolha uma carta, qualquer carta...", que é a fala típica do truque de cartas. Esse comportamento de mágico, inadequado ao trabalho de carteiro, explica por que ele durou pouco na função.
Análise das alternativas
A) O texto não fala de endereços trocados. B) Não há reconhecimento do mágico pelos moradores. D) Não há desconfiança dos moradores. E) Ele pedia que escolhessem uma carta como no truque, não os obrigava a adivinhar a que receberiam.
Referência: Interpretação de texto narrativo.
Resolução comentada do VaiConcursos.