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Texto-base:
Texto 1 - Os meninos morenos
01 O Jarinho falava com os animais. Ao lado das plantas de seu pai, no seu quintal, havia um
pequeno jardim zoológico que me matava de inveja. Jarinho tinha coelhos, porquinhos-da-índia, um
quati, cabritos e até um pequeno jacaré. (...)
A despeito de tudo isso, o Jarinho tinha tempo de brincar com a gente. E aparecia para as
05 brincadeiras, trazendo sempre consigo seu melhor amigo: um melro que vivia pousado no seu
ombro.
Uma das recordações mais felizes da minha infância é da sinfonia dos melros nas palmeiras. A
gente chegava muito cedo para a primeira aula do Grupo Escolar que ficava na praça que era
cercada de altas palmeiras.
10 Pois é: minha terra tinha palmeiras onde, em vez de sabiá, cantava o melro. E, como a gente
chegava muito cedo para a aula, os melros ainda estavam cantando a sua canção matinal. Era
como se estivessem saudando os meninos morenos, que também chegavam em bando para a
escola.
Jarinho chegava pra brincar com a gente e vinha com o melro no
15 ombro. Se a brincadeira era contar história, brincar de gata-parida,
berlinda, mamãe-eu-posso-ir ou qualquer outra que não implicasse correr,
o melro ficava ali, no ombro do Jarinho. Se, porém, a gente tinha que
correr, se a brincadeira era de pique, de pular-carniça, soltar papagaio,
jogar precipício, cobra-caninana, esconde-esconde ou mãos-ao-ar – que,
20 em outras cidades, se chamava bandido-e-mocinho -, o Jarinho botava o
melro no galho de uma árvore ou no umbral de uma janela e dizia: “Fica aí,
que eu já volto”. E o melro ficava esperando seu dono voltar da
brincadeira. A professora pedia ao Jarinho pra não levar o melro para a escola. Era para não
tumultuar as aulas.
25 O Jarinho ficava muito triste de deixar seu amigo em casa.
(...)
Foi num mês de agosto, no dia seguinte de uma grande ventania, que o Jarinho não apareceu
na escola.
Na semana seguinte àquele dia, não só o Jarinho, mas todos os meninos da rua não fizeram
30 senão procurar o melro do Jarinho.
Ele o havia deixado num galho de árvore para fazer uma coisa qualquer (que era melhor fazer
sem seu amigo). Foi quando começou o furacão. Foi de repente, eu me lembro.
Nunca havia ventado tanto na minha cidade. As pessoas se agarravam aos postes para não
serem arrastadas, telhas voaram pelos ares, casebres ficaram sem teto, folhas das palmeiras
35 imperiais da praça se desprenderam, voando a grandes alturas, ameaçadoras.
Todos os meninos da rua só faltaram morrer de tristeza, o Jarinho ficou de cama e não me
lembro mais de voltar a vê-lo imitar seus passarinhos. Minha mãe, que era uma sábia, tentou
explicar para os meninos da rua que era bom a gente prestar bastante atenção nas coisas boas,
enquanto elas duram.
40 Muitos e muitos anos depois – agora, recentemente – reencontrei o Jarinho. Era um senhor
gordinho com os cabelos – muito poucos – completamente brancos e os olhos pequenos mais
sumidos do que nunca. E bem mais moreno do que Jarinho menino, quase marrom. O tempo lhe
deu um ar de santo, seu sorriso era doce como o sorriso simpático de seu velho pai. Perguntei-lhe
se ele se lembrava, com a mesma intensidade que eu, dos velhos tempos da rua de nossa infância.
45 E falei do melro no seu ombro e ele me disse: “Não me esqueço nunca. Ainda hoje, tantos anos
depois, acordo no meio da noite e, dentro do meu quarto, escuto o meu melro cantando direitinho
como se estivesse ali”.
(Ziraldo. Os meninos morenos. 2. ed. São Paulo: Melhoramentos. pp. 44-8)
Assinale a alternativa em que a correspondência entre o termo grifado e a ideia estabelecida está correta.
Texto 1 - Os meninos morenos
01 O Jarinho falava com os animais. Ao lado das plantas de seu pai, no seu quintal, havia um
pequeno jardim zoológico que me matava de inveja. Jarinho tinha coelhos, porquinhos-da-índia, um
quati, cabritos e até um pequeno jacaré. (...)
A despeito de tudo isso, o Jarinho tinha tempo de brincar com a gente. E aparecia para as
05 brincadeiras, trazendo sempre consigo seu melhor amigo: um melro que vivia pousado no seu
ombro.
Uma das recordações mais felizes da minha infância é da sinfonia dos melros nas palmeiras. A
gente chegava muito cedo para a primeira aula do Grupo Escolar que ficava na praça que era
cercada de altas palmeiras.
10 Pois é: minha terra tinha palmeiras onde, em vez de sabiá, cantava o melro. E, como a gente
chegava muito cedo para a aula, os melros ainda estavam cantando a sua canção matinal. Era
como se estivessem saudando os meninos morenos, que também chegavam em bando para a
escola.
Jarinho chegava pra brincar com a gente e vinha com o melro no
15 ombro. Se a brincadeira era contar história, brincar de gata-parida,
berlinda, mamãe-eu-posso-ir ou qualquer outra que não implicasse correr,
o melro ficava ali, no ombro do Jarinho. Se, porém, a gente tinha que
correr, se a brincadeira era de pique, de pular-carniça, soltar papagaio,
jogar precipício, cobra-caninana, esconde-esconde ou mãos-ao-ar – que,
20 em outras cidades, se chamava bandido-e-mocinho -, o Jarinho botava o
melro no galho de uma árvore ou no umbral de uma janela e dizia: “Fica aí,
que eu já volto”. E o melro ficava esperando seu dono voltar da
brincadeira. A professora pedia ao Jarinho pra não levar o melro para a escola. Era para não
tumultuar as aulas.
25 O Jarinho ficava muito triste de deixar seu amigo em casa.
(...)
Foi num mês de agosto, no dia seguinte de uma grande ventania, que o Jarinho não apareceu
na escola.
Na semana seguinte àquele dia, não só o Jarinho, mas todos os meninos da rua não fizeram
30 senão procurar o melro do Jarinho.
Ele o havia deixado num galho de árvore para fazer uma coisa qualquer (que era melhor fazer
sem seu amigo). Foi quando começou o furacão. Foi de repente, eu me lembro.
Nunca havia ventado tanto na minha cidade. As pessoas se agarravam aos postes para não
serem arrastadas, telhas voaram pelos ares, casebres ficaram sem teto, folhas das palmeiras
35 imperiais da praça se desprenderam, voando a grandes alturas, ameaçadoras.
Todos os meninos da rua só faltaram morrer de tristeza, o Jarinho ficou de cama e não me
lembro mais de voltar a vê-lo imitar seus passarinhos. Minha mãe, que era uma sábia, tentou
explicar para os meninos da rua que era bom a gente prestar bastante atenção nas coisas boas,
enquanto elas duram.
40 Muitos e muitos anos depois – agora, recentemente – reencontrei o Jarinho. Era um senhor
gordinho com os cabelos – muito poucos – completamente brancos e os olhos pequenos mais
sumidos do que nunca. E bem mais moreno do que Jarinho menino, quase marrom. O tempo lhe
deu um ar de santo, seu sorriso era doce como o sorriso simpático de seu velho pai. Perguntei-lhe
se ele se lembrava, com a mesma intensidade que eu, dos velhos tempos da rua de nossa infância.
45 E falei do melro no seu ombro e ele me disse: “Não me esqueço nunca. Ainda hoje, tantos anos
depois, acordo no meio da noite e, dentro do meu quarto, escuto o meu melro cantando direitinho
como se estivesse ali”.
(Ziraldo. Os meninos morenos. 2. ed. São Paulo: Melhoramentos. pp. 44-8)
Assinale a alternativa em que a correspondência entre o termo grifado e a ideia estabelecida está correta.