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TEXTO II
O reizinho mandão
Ruth Rocha
(1) Eu vou contar pra vocês uma história que o meu avô sempre contava.
Ele dizia que essa história aconteceu há muitos e muitos anos, num lugar muito
longe daqui.
Nesse lugar tinha um rei, daqueles que têm nas histórias. Da barba branca batendo
(5) no peito, da capa vermelha batendo no pé.
Como esse rei era rei de história, era um rei muito bonzinho, muito justo... E tudo o
que ele fazia era para o bem do povo.
Vai que esse rei morreu, porque era muito velhinho, e o príncipe, filho do rei, virou
rei daquele lugar.
(10) O príncipe era um sujeitinho muito mal-educado, mimado, destes que as mães
deles fazem todas as vontades, e eles ficam pensando que são os donos do mundo.
Eu tenho uma porção de amigos assim. Querem mandar nas brincadeiras...
Querem que a gente faça tudo o que eles gostam...
Quando a gente quer brincar de outra coisa, ficam logo zangados. Vão logo
(15) dizendo: "Não brinco mais!"
E quando as mães deles vêm ver o que aconteceu se atiram no chão e ficam
roxinhos, esperneiam e tudo.
Então as mães deles ficam achando que a gente está maltratando o filhinho delas.
Então, como eu estava contando, o tal do príncipe ficou sendo o rei daquele país.
(20) Precisa ver que reizinho chato que ele ficou! Mandão, teimoso, implicante, xereta!
Ele era tão xereta, tão mandão, que queria mandar em tudo o que acontecia no
reino.
Quando eu digo tudo, era tudo mesmo!
A diversão do reizinho era fazer leis e mais leis. E as leis que ele fazia eram as
(25) mais absurdas do mundo.
Olhem só esta lei:
"Fica terminantemente proibido cortar a unha do dedão do pé direito em noite de
lua cheia!"
Agora, por que é que o reizinho queria mandar no dedão das pessoas, isso ninguém
(30) jamais vai saber.
Outra lei que ele fez:
"É proibido dormir de gorro na primeira quarta-feira do mês".
Agora, por que é que ele inventou essas tolices, isso ninguém sabia.
Eu tenho a impressão de que era mesmo mania de mandar em tudo.(...)
Rocha, Ruth. O reizinho mandão. São Paulo: Quinteto Editorial, 1997.
O diminutivo “-inho”, que, em regra, expressa ideia de carinho, afetividade, pode indicar, também, além da diminuição do tamanho, intensidade maior ou menor de uma qualidade, isto é, pode indicar, por exemplo, a depreciação de um ser, “pode traduzir o nosso desprezo, a nossa crítica, o nosso pouco caso para certos objetos ou pessoas”¹. No texto II, há várias palavras usadas com o diminutivo. Marque, dentre as opções abaixo, aquela que traz a interpretação adequada da ideia representada.
¹ Bechara, Evanildo. Moderna Gramática Portuguesa. Rio de Janeiro: Lucerna, 1999.
Resolução comentada
O sufixo -inho em 'sujeitinho' indica depreciação.
Em 'um sujeitinho muito mal-educado, mimado', o diminutivo não indica tamanho nem carinho. Ele expressa desprezo e crítica ao príncipe, que é o valor depreciativo descrito por Bechara.
Análise das alternativas
A) 'Bonzinho' tem tom afetivo/irônico e reforça a bondade do rei; não indica desprezo. C) 'Roxinhos' intensifica a cor, pois a criança fica bem roxa, e não indica tamanho. D) 'Filhinho' traz ironia e afetividade nas falas das mães, não intensidade. E) 'Reizinho' é depreciativo, pois critica o rei mandão, e não é afetivo.
Referência: Bechara, Moderna Gramática Portuguesa (grau do substantivo).
Resolução comentada do VaiConcursos.