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Texto 2
O ELEFANTE
1 Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
5 talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
10 A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
15 que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
20 onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.
Eis o meu pobre elefante
25 pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê em bichos
e duvida das coisas.
30 Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
35 e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.
Vai o meu elefante
40 pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
45 É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
50 Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há cidade
alma que se disponha
a recolher em si
55 desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.
Mas faminto de seres
60 e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
65 de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
70 no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
75 as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
80 à pálpebra cerrada.
E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
85 se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
90 em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
95 e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
100 Amanhã recomeço.
ANDRADE, Carlos Drummond de. O Elefante. 9ª ed. - São Paulo: Editora Record, 1983.
Considere os versos 68 a 80 do texto 2, transcritos abaixo:
“Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
à pálpebra cerrada.”
Acerca de “vento”, “folhas” e “formiga”, pode-se afirmar que
Resolução comentada
Vento, folhas e formiga conhecem o que os homens ignoram.
Os versos dizem que apenas o vento, as folhas e a formiga reconhecem o talhe dos segredos e episódios, 'mas que os homens ignoram'. Assim, esses elementos naturais sabem o que o homem ignora; a alternativa E, ao afirmar que eles não ignoram o que o homem ignora, está de acordo com o texto.
Análise das alternativas
A) vento, folhas e formiga não são o público do poema. B) não são comparados ao livro, que é contraponto ('não contados em livro'). C) são justamente capazes de reconhecer o elefante. D) o texto não exalta o comportamento humano, antes o critica.
Referência: Drummond, 'O Elefante'; interpretação.
Resolução comentada do VaiConcursos.