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Instituto Militar de Engenharia (IME) 2018

Questão 20 — Língua Portuguesa: Variação Linguística — Norma Culta

Língua Portuguesa Variação Linguística — Norma Culta

Instituto Militar de Engenharia (IME) 2018 Médio

Instituto Militar de Engenharia (IME) · Concurso de Admissão — Prova de Português e Inglês

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto 2
O ELEFANTE

1 Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
5 talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
10 A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.

Mas há também as presas,
dessa matéria pura
15 que não sei figurar.
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
20 onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.

Eis o meu pobre elefante
25 pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê em bichos
e duvida das coisas.
30 Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
35 e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
40 pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.

45 É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.
50 Mostra com elegância
sua mínima vida,
e não há cidade
alma que se disponha
a recolher em si
55 desse corpo sensível
a fugitiva imagem,
o passo desastrado
mas faminto e tocante.
Mas faminto de seres
60 e situações patéticas,
de encontros ao luar
no mais profundo oceano,
sob a raiz das árvores
ou no seio das conchas,
65 de luzes que não cegam
e brilham através
dos troncos mais espessos.
Esse passo que vai
sem esmagar as plantas
70 no campo de batalha,
à procura de sítios,
segredos, episódios
não contados em livro,
de que apenas o vento,
75 as folhas, a formiga
reconhecem o talhe,
mas que os homens ignoram,
pois só ousam mostrar-se
sob a paz das cortinas
80 à pálpebra cerrada.

E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
85 se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
90 em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
95 e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
100 Amanhã recomeço.

ANDRADE, Carlos Drummond de. O Elefante. 9ª ed. - São Paulo: Editora Record, 1983.

A respeito do “conceito de erro em língua”, o gramático Luiz Antônio Sacconi, em sua obra “Nossa Gramática – Teoria e Prática”, afirma:

“Em rigor, ninguém comete erro em língua, exceto nos casos de ortografia. O que se comete são transgressões da norma culta. De fato, aquele que, num momento íntimo do discurso, diz: “Ninguém deixou ele falar”, não comete propriamente erro; na verdade, transgride a norma culta. (…) Vale lembrar, finalmente, que a língua é um costume. Como tal, qualquer transgressão, ou chamado erro, deixa de sê-lo no exato instante em que a maioria absoluta o comete, passando, assim, a constituir fato linguístico (registro de linguagem definitivamente consagrado pelo uso, ainda que não tenha amparo gramatical).”

SACCONI, Luiz Antônio. Nossa Gramática – Teoria e Prática – 18ª ed. Reformada e atual. São Paulo: Atual, 1994. pp. 8 e 9.

Considerando o conceito de “erro em língua”, exposto acima, assinale a alternativa em que se apresenta uma transgressão da norma culta considerada “fato linguístico”?
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Transgressão da norma culta já consagrada pelo uso: 'onde' no lugar de 'em que/na qual'.

Na alternativa E, 'onde' é empregado sem noção de lugar físico ('opiniões onde existe controvérsia'), o que a norma culta rígida condena (deveria ser 'em que'/'nas quais'). Contudo, esse uso é tão generalizado entre falantes que se tornou fato linguístico, como descreve Sacconi.

Análise das alternativas

A) 'aonde' com 'chegar' (verbo de movimento) está correto. B) 'cujo' está empregado corretamente. C) 'onde' indica lugar (os olhos), correto. D) 'o de que carecia' está correto (regência de carecer).

Referência: Sacconi, Nossa Gramática; emprego de 'onde'.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Ver gabarito

Gabarito: E

Fonte: Gabarito preliminar: Gabarito Prova Português / Inglês do IME - Vestibular 2018-2019 — página 1