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Texto-base:
TEXTO I
Blusão da moda
1 Há cores por todos os lados e um clima de muita
2 generosidade na vitrine, os preços das ofertas fazem graciosos
3 malabarismos.
4 Vejo um blusão de lã e me agrado dele. Sim, a cor me cai
5 no gosto, o talhe não é dos piores, o preço está convidativo. Para
6 quem precisa de um blusão de lã e sabe que ainda tem um pouco
7 de inverno pela frente, é de aproveitar.
8 Entro. Quem me atende é o próprio dono da loja, um cidadão que já vi, creio eu, em
9 mais de uma história d’As mil e uma noites. Um cidadão cortês, prestativo,
10 interessadíssimo na minha humilde pessoa. Digo-lhe que gostei do blusão assim e assim
11 que está na vitrine e ele vai, olha qual é, vem, procura na prateleira um semelhante, não
12 encontra. O que justamente está de amostra é o último.
13 Fico torcendo para que o número seja o meu, 46. Faz tempo que ando procurando
14 um blusão daquele tipo, daquela cor, daquele preço. Decepção: é 50. Quando vou dizer
15 “que pena, é muito grande”, o homem já está me tirando o casaco e me vestindo o blusão.
16 Digo que não adianta, é enorme, mas ele não me dá ouvidos.
17 - Viu? Olha aí!
18 Estou olhando, é monstruoso. Sobra pano nos ombros, nas mangas, nas costas,
19 por todo lado. Mas o persistente comerciante tem a coragem síria de dizer que aquilo está
20 bom.
21 - Está bom demais: é blusão para mim e meus quatro filhos... – digo, com um risinho.
22 Ele não quer saber de piadas. Manda que eu aproveite a oportunidade, pois um
23 blusão daqueles, na verdade, anda custando o dobro. Replico que o blusão não está
24 custando, o blusão é o dobro. Não me escuta, prefere me ensinar que hoje um blusão
25 decente se usa assim mais folgado, é da moda. Com todo respeito, só um palhacinho de
26 circo usaria um mais justo. Depois a tendência da lã é sempre encolher um pouco.
27 Resisto, digo que vou pensar. Consigo, a duras penas, sair.
28 Entro noutra loja, olho, olho, não tenho sorte. Entro em mais outra, olho, olho, nada
29 parecido com o blusão do meu gosto. Tento uma terceira, a mesma coisa. Desisto.
30 Volto ao blusão que já seria meu se fosse 46. Vou pensando: não ficou tão grande,
31 ficou? Não entendo nada de moda, mas parece que já ouvi mesmo minha mulher dizer que
32 roupa agora se usa um pouco mais solta. Será que não ando um pouco antiquado?
33 Chego e verifico que o blusão está sendo visto por outro freguês e sinto-me como
34 que passado para trás. É um blusão bonito mesmo, o danado. O novo pretendente é um
35 animal de grande, deve vestir 54, e ouço-o dizer “que pena, é muito pequeno”, mas o turco
36 não lhe dá ouvidos, diz que hoje um blusão decente se usa assim mais justo, senão o cara,
37 com todo respeito, fica parecendo um palhacinho de circo. Depois, a tendência da lã é
38 sempre a de esticar, claro.
39 Saio resignadamente sem blusão, vou embora ler um pouco das minh’As mil e uma
40 noites.
Cardozo. Flávio José. Uns papéis que voam.São Paulo, FTD, 2003.
Julgue os itens em V, caso considere-os verdadeiros, e em F, caso considere-os falsos e, em seguida, marque a opção com a sequência correta.
I. Em “Volto ao blusão que já seria meu se fosse 46” (l.30) e “(...) dizer que roupa agora se usa um pouco mais solta” (l.31 e 32), as palavras destacadas exercem a mesma função.

II. Ao dizer que o blusão “Está bom demais (...)” (l.21), o freguês foi irônico, sarcástico.
III. No momento em que estava sendo atendido, o freguês achou que o dono da loja estava sendo sincero.
IV. O vendedor não insiste com o freguês, porque sabe que não demorará para que outro cliente logo se interesse pelo blusão e o compre.
TEXTO I
Blusão da moda
1 Há cores por todos os lados e um clima de muita
2 generosidade na vitrine, os preços das ofertas fazem graciosos
3 malabarismos.
4 Vejo um blusão de lã e me agrado dele. Sim, a cor me cai
5 no gosto, o talhe não é dos piores, o preço está convidativo. Para
6 quem precisa de um blusão de lã e sabe que ainda tem um pouco
7 de inverno pela frente, é de aproveitar.
8 Entro. Quem me atende é o próprio dono da loja, um cidadão que já vi, creio eu, em
9 mais de uma história d’As mil e uma noites. Um cidadão cortês, prestativo,
10 interessadíssimo na minha humilde pessoa. Digo-lhe que gostei do blusão assim e assim
11 que está na vitrine e ele vai, olha qual é, vem, procura na prateleira um semelhante, não
12 encontra. O que justamente está de amostra é o último.
13 Fico torcendo para que o número seja o meu, 46. Faz tempo que ando procurando
14 um blusão daquele tipo, daquela cor, daquele preço. Decepção: é 50. Quando vou dizer
15 “que pena, é muito grande”, o homem já está me tirando o casaco e me vestindo o blusão.
16 Digo que não adianta, é enorme, mas ele não me dá ouvidos.
17 - Viu? Olha aí!
18 Estou olhando, é monstruoso. Sobra pano nos ombros, nas mangas, nas costas,
19 por todo lado. Mas o persistente comerciante tem a coragem síria de dizer que aquilo está
20 bom.
21 - Está bom demais: é blusão para mim e meus quatro filhos... – digo, com um risinho.
22 Ele não quer saber de piadas. Manda que eu aproveite a oportunidade, pois um
23 blusão daqueles, na verdade, anda custando o dobro. Replico que o blusão não está
24 custando, o blusão é o dobro. Não me escuta, prefere me ensinar que hoje um blusão
25 decente se usa assim mais folgado, é da moda. Com todo respeito, só um palhacinho de
26 circo usaria um mais justo. Depois a tendência da lã é sempre encolher um pouco.
27 Resisto, digo que vou pensar. Consigo, a duras penas, sair.
28 Entro noutra loja, olho, olho, não tenho sorte. Entro em mais outra, olho, olho, nada
29 parecido com o blusão do meu gosto. Tento uma terceira, a mesma coisa. Desisto.
30 Volto ao blusão que já seria meu se fosse 46. Vou pensando: não ficou tão grande,
31 ficou? Não entendo nada de moda, mas parece que já ouvi mesmo minha mulher dizer que
32 roupa agora se usa um pouco mais solta. Será que não ando um pouco antiquado?
33 Chego e verifico que o blusão está sendo visto por outro freguês e sinto-me como
34 que passado para trás. É um blusão bonito mesmo, o danado. O novo pretendente é um
35 animal de grande, deve vestir 54, e ouço-o dizer “que pena, é muito pequeno”, mas o turco
36 não lhe dá ouvidos, diz que hoje um blusão decente se usa assim mais justo, senão o cara,
37 com todo respeito, fica parecendo um palhacinho de circo. Depois, a tendência da lã é
38 sempre a de esticar, claro.
39 Saio resignadamente sem blusão, vou embora ler um pouco das minh’As mil e uma
40 noites.
Cardozo. Flávio José. Uns papéis que voam.São Paulo, FTD, 2003.
Julgue os itens em V, caso considere-os verdadeiros, e em F, caso considere-os falsos e, em seguida, marque a opção com a sequência correta.
I. Em “Volto ao blusão que já seria meu se fosse 46” (l.30) e “(...) dizer que roupa agora se usa um pouco mais solta” (l.31 e 32), as palavras destacadas exercem a mesma função.
II. Ao dizer que o blusão “Está bom demais (...)” (l.21), o freguês foi irônico, sarcástico.
III. No momento em que estava sendo atendido, o freguês achou que o dono da loja estava sendo sincero.
IV. O vendedor não insiste com o freguês, porque sabe que não demorará para que outro cliente logo se interesse pelo blusão e o compre.