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No clássico “Alice através do espelho”, Lewis Carroll cria um mundo imaginário em que a personagem central, uma menina de 7 anos, atravessa, com sua gatinha Lily, o espelho da sala de estar de sua casa. Na casa do espelho, a menina se depara com um mundo onde a realidade está ao contrário: animais e flores falam e peças de xadrez ganham vida.
TEXTO 1
A casa do espelho
1 Alice, no instante seguinte, atravessara o espelho e saltara com lepidez na sala da Casa do
Espelho. A primeira coisa que fez foi verificar se havia fogo na lareira, e ficou muito satisfeita ao
constatar que havia um fogo de verdade, crepitando tão alegremente quanto o que deixara para trás.
“Assim vou ficar tão aquecida aqui quanto estava lá na sala”, pensou; “ou mais aquecida, porque aqui
não vai haver ninguém mandando que eu me afaste do fogo. Oh, como vai ser engraçado quando me
virem aqui, através do espelho, e não puderem me alcançar!”
Em seguida começou a olhar em volta e notou que o que podia ser visto da sala anterior era
bastante banal e desinteressante, mas todo o resto era tão diferente quanto possível. Por exemplo, os
quadros na parede perto da lareira pareciam todos vivos, e o próprio relógio sobre o console (você
10 sabe que só pode ver o fundo dele no espelho) tinha o rosto de um velhinho, e sorria para ela.
“Esta sala não é tão arrumada como a outra”, Alice pensou, ao notar várias peças do jogo de
xadrez caídas no chão entre as cinzas; mas no instante seguinte, com um pequeno “Oh!” de surpresa,
estava de gatinhas, observando-as. As peças do xadrez estavam andando, duas a duas!
“Aqui estão o Rei Vermelho e a Rainha Vermelha”, Alice disse (num sussurro, com temor de
assustá-los), “e ali estão o Rei Branco e a Rainha Branca, sentados na borda da pá da lareira... e aqui
vão duas Torres, andando de braço dado... Acho que não podem me escutar”, continuou baixando mais
a cabeça, “e tenho quase certeza de que não podem me ver. Alguma coisa me diz que estou invisível...”
Nessa altura algo começou a guinchar na mesa atrás de Alice e a fez virar a cabeça bem a tempo
de ver um dos Peões Brancos cair e começar a espernear. Observou-o, muito curiosa para saber o que
20 iria acontecer em seguida.
“É a voz da minha filha!” exclamou a Rainha Branca passando pelo Rei, com ímpeto e tão
apressada, que o derrubou entre as cinzas. “Minha preciosa Lily!” e começou a escalar com frenesi
um lado do guarda-fogo.
“Desatino imperial!” disse o Rei, esfregando o nariz, que machucara na queda. Tinha direito a
estar um bocadinho aborrecido com a Rainha, pois estava coberto de cinzas da cabeça aos pés.
Alice estava ansiosa por ser útil e, quando a gatinha Lily estava a ponto de ter um ataque de
tanto berrar, passou a mão na Rainha rapidamente e a depositou sobre a mesa junto de sua escandalosa
filhinha.
A Rainha se sentou, arquejante: a rápida viagem pelo ar lhe tirara o fôlego por completo e por
30 um minuto ou dois nada pôde fazer senão abraçar a pequenina Lily em silêncio. Assim que recobrou
um pouquinho de alento, gritou para o Rei Branco, que estava sentado entre as cinzas, mal-humorado:
“Cuidado com o vulcão!”.
“Que vulcão?” perguntou o Rei, olhando aflito para a lareira, como se julgasse aquele o lugar
mais provável para encontrar um.
“Ele... me...expeliu”, arquejou a Rainha, que ainda estava um pouco sem ar. “Trate de subir...
da maneira normal... não se deixe expelir!”
Alice observou o Rei Branco transpor lenta e laboriosamente obstáculo por obstáculo, até que
finalmente disse: “Ora, nesse ritmo você vai levar horas e horas para chegar em cima da mesa. Seria
melhor eu ajudá-lo, não é?” Mas o Rei não tomou conhecimento da pergunta: estava perfeitamente
40 claro que não a podia ouvir nem ver.
Diante disso, Alice o apanhou com muita delicadeza e o ergueu muito mais lentamente do que
erguera a Rainha, tentando não lhe tirar o fôlego. Mas, antes de o pôr na mesa, pensou que não seria
má ideia dar-lhe uma espanadinha, tão coberto de cinzas estava.
Mais tarde, contou que nunca em toda sua vida vira uma cara como a que o Rei fez ao se ver
erguido e espanado no ar por uma mão invisível. Ele ficou espantado demais para gritar, mas seus
olhos e sua boca foram ficando cada vez maiores, e cada vez mais redondos, até que a mão de Alice
tremeu tanto com a gargalhada que ele quase caiu no chão.
Disponível em: http://www.Alice por trás do Espelho. Acesso em: 18 ago 2021. (Com adaptações)
Certas palavras e expressões da língua são comumente utilizadas para construir referências, estabelecendo uma rede de relações textuais. Após leitura dos elementos destacados no texto, aponte a alternativa que apresenta a relação referencial correta.
Resolução comentada
Referenciação por pronomes.
Em "a fez virar a cabeça", o pronome "a" retoma Alice. Em "não podem me escutar", o "me" também se refere a Alice, que é quem fala. Os dois pronomes têm o mesmo referente.
Análise das alternativas
A) As duas salas são a sala de casa (real) e a Casa do Espelho, mas "esta sala" é a do espelho e "a outra" é a real, o inverso do que a alternativa afirma. B) Os "aqui" apontam para referentes diferentes (o Rei e a Rainha Vermelhos, as Torres). C) "Ali" indica um local mais distante. D) "Los" se refere ao Rei e à Rainha Vermelhos e ao casal Branco, e não ao conjunto das peças.
Referência: Coesão referencial – pronomes e dêiticos.
Resolução comentada do VaiConcursos.