Gabarito disponível
Leia o texto para responder às questões de números 01 a 07.
Mesa farta
A alimentação, além de necessidade biológica, é um complexo sistema simbólico de significados sociais. Em “A Divina Comédia”, Dante* definiu a fome como o pior desastre. Ele sabia do que falava, pois viu a Europa ser varrida pela Peste Negra no século 14. O desespero levava pessoas a comer de tudo, muitas morrendo com a boca cheia de capim. Outro crucial evento histórico, a Revolução Francesa, teria sido detonado pela falta de comida.
Nos séculos 16 e 17, os livros trazem justificativas médicas para o consumo de certos alimentos. É o caso das frutas. Antes servidas como “entradas” para acalmar o estômago, quando misturadas ao açúcar passam a sobremesas. É o momento em que o açúcar, anteriormente consumido como remédio, invade a Europa por força das exportações portuguesas. De especiaria, ele passa a aditivo de três bebidas que vão estourar na Europa: o chocolate, o café e o chá.
O café, por exemplo, era recomendado pelo médico de dom João V, rei de Portugal, por sua capacidade de “confortar a memória e alegrar o ânimo”. Os cafés se multiplicaram e se tornaram lugares onde se bebia numa verdadeira liturgia: em silêncio, entre pessoas cultas, jogando damas ou cartas.
A Europa dos séculos 16 ao 19 consumiu café, chá e chocolate acompanhados de bolos e outros doces, o que impulsionou o consumo de açúcar. Nascia, assim, a noção de gosto na culinária. Um saber sobre a cozinha se formalizava e livros especializados batiam os 300 mil exemplares.
O comer tornou-se menos encher o estômago e mais escolher segundo o gosto. Certos alimentos passaram de um nível a outro: a batata, primeiramente servida aos porcos, depois de alimentar massas de camponeses, ganhou status de alimento fino, graças às receitas do chef francês Parmentier.
Antigamente, o comer acontecia em momentos regrados e reunia pessoas em torno da mesa, com grande carga simbólica. Hoje, comemos abundante e individualmente. Nessa dinâmica, o lugar da televisão (ou celular) exerce fundamental importância. Em muitas casas e restaurantes, as pessoas comem na frente da TV, ou seja, ingerindo comida sem investimento simbólico, sem prazer de estar junto na descoberta da refeição.
Em todas as esferas da vida, encontramos metáforas alimentares: em relação ao sexo, falamos na doçura do amor, em lua de mel e, em relação aos textos e aos livros, dizemos que podem ser saboreados, digeridos. Vale lembrar que saber e sabor são palavras derivadas do mesmo radical: sapere, ter gosto.
(Mary Del Priore. Aventuras na História. Julho de 2014. Adaptado)
* Dante Alighieri, escritor italiano.
Assinale a alternativa em que o trecho reescrito mantém o sentido original do texto.
Resolução comentada
Paráfrase fiel: metáforas alimentares = expressões baseadas na associação com a comida.
No último parágrafo, a autora dá exemplos como “doçura do amor” e “textos saboreados, digeridos”. São expressões que usam o campo da comida como imagem, e é isso que a reescrita da alternativa C diz. Por isso o sentido original é mantido.
Análise das alternativas
A) Errada: “batiam os 300 mil exemplares” indica vendas altas, mas o texto não fala em preços proibitivos. B) Errada: “complexo sistema simbólico” não equivale a esquema “indecifrável”, e “significados” não são “prescrições”. D) Errada: o texto critica a falta de investimento simbólico e de prazer, não a falta de qualidade nutritiva. E) Errada: “liturgia” é usada em sentido figurado, como comportamento ritualizado (silêncio, jogos), e não como ritual religioso.
Referência: Mary Del Priore, “Mesa farta” (Aventuras na História, 2014); paráfrase e sentido figurado.
Resolução comentada do VaiConcursos.