Gabarito disponível
Leia o texto para responder às questões de números 01 a 03.
Nossa relação com os animais repete, de maneira invertida, os cuidados que recebemos na primeira infância. Nós também fomos, no início, dependentes, desamparados e estávamos nas mãos de uma figura prestativa e generosa, mas que tinha todo poder sobre nós. Nossa capacidade de sentir piedade vem daí. A irresistível combinação de piedade, simpatia e acolhimento que a imagem de um animal fofinho desperta em nós, também. Contudo, esse é um amor de baixa qualidade e de grande aptidão à dispersão quando falamos em um projeto de longo prazo. Animais de estimação são como filhos. Mas filhos que não crescem, não resistem para ir à escola, não reclamam por autonomias adolescentes nem vão embora para a faculdade e se casam, deixando-nos para trás.
Com os animais de estimação cada um revive a forma de amar e ser amado que Freud descreveu como narcisismo. Nele, confunde-se o amar o outro e o amar-se a si mesmo através do outro. E muitas vezes essa confusão se infiltra e atrapalha decisivamente a vida dos casais. Quando alguém declara que ama os cães a ponto de ter dois ou sete deles em casa, isso não representa nenhuma contradição com o ato de maltratá-los. Tudo depende da qualidade do laço que se estabelece nesse amor.
Quando amamos nossos cães, nossos filhos ou nossas mulheres como a nós mesmos, podemos chegar a maltratá-los da pior maneira. Daí a importância de amar o outro conferindo algum espaço para o fato de que ele é um estranho, alguém diferente de mim. O amor não é garantia nem de si mesmo nem do desejo que ele deve habilitar. Isso vai aparecer na relação com os animais, como uma espécie de raio x das nossas formas de amar. Quem trata seus animais como uma parte de si mesmo, humanizando-os realmente como filhos, chamando-os de nenês, por exemplo, pode estar indicando uma forma mais simples e narcísica de amar.
(Christian Dunker, Reinvenção da intimidade – políticas do sofrimento cotidiano. Adaptado)
Assinale a alternativa cujo trecho reescrito está de acordo com a norma-padrão de pontuação e crase.
Resolução comentada
Só a alternativa C respeita a pontuação e a crase.
Em C, 'E, muitas vezes,' tem a expressão adverbial intercalada entre vírgulas. 'Prejuízos à vida' tem crase correta, pois 'causar prejuízo a' pede preposição e 'vida' é feminino com artigo. A pontuação não separa termos que não devem ser separados.
Análise das alternativas
A) Incorreta: há vírgula indevida após 'amor', e 'à se dispersar' tem crase antes de verbo, o que é proibido. B) Incorreta: 'à animais' tem crase diante de substantivo plural sem artigo, e a vírgula após 'cada um' é indevida. D) Incorreta: a vírgula separa sujeito e verbo, e 'à nós' tem crase diante de pronome. E) Incorreta: há várias vírgulas indevidas, e 'à ele' e 'para à' têm crase indevida.
Referência: Gramática normativa: crase e pontuação.
Resolução comentada do VaiConcursos.