Gabarito disponível
Texto-base:
Leia o texto III e responda às questões 33 e 34.
TEXTO III
ANGÉLICA
Ela é moça (...), jeito simples.
- É aqui que estão precisando de uma empregada?
- É sim. Mas você...
- Quero o emprego, sim, senhora.
Marina fica desconfiada.
- Você é cozinheira?
- De forno e fogão. O trivial e o requintado. Salgados, doces, especialidades. É só pedir.
- Dorme no emprego?
- Se a senhora quiser.
Marina hesita. A moça abre a bolsa simples e tira uns papéis. Oferece para Marina.
- Minhas referências.
- Ora, não precisa – diz Marina, pegando as referências e examinando-as atentamente. São ótimas.
- São ótimas.
- Sim, senhora.
- Quando é que você quer começar?
- Não é melhor acertar o salário, primeiro?
- É verdade – diz Marina, desanimando. Pensando: na certa vai pedir uma fortuna.
- Quanto é que você quer ganhar?
- Duzentos cruzeiros.
- Por dia?!
- Por mês.
- Por mês?! Mas é muito pouco.
- Se a senhora não aceitar...
- Aceito. Aceito! Como é o seu nome?
- Angélica – responde a moça, angelicamente.
▪
Quando Manoel chega a casa, dá com Angélica ao lado da porta.
- O seu casaco?
Ela ajuda Manoel a tirar o casaco. Manoel se deixa ajudar, apalermado.
- O senhor costuma tomar alguma coisa antes do jantar? Um uísque?
- Um uísque está perfeito.
- Quer tirar os sapatos e trocar por chinelos?
- Ahn... Quero.
- E o seu cachimbo. Agora ou depois do jantar?
Manoel está de boca aberta. Leva alguns minutos para se recuperar e responder:
- Depois, depois.
- Vai tomar banho agora ou antes de dormir?
Manoel faz um gesto instintivo, como que para proteger sua nudez.
- Por quê?
- Conforme for, eu já preparo o seu banho.
- Tomo banho antes de dormir, obrigado. Escute. Você é...
- Sua nova empregada. Angélica.
▪
- Ela caiu do céu! – sussurra Marina, na mesa do jantar.
- Que jantar. Que jantar! – exclama Manoel, entusiasmado.
– Quanto é que nós estamos pagando por esse anjo?
- Você não vai acreditar. Duzentos.
- Por dia?!
- Por mês!
Angélica entra na cozinha, trazendo a sobremesa.
- Mmmm – faz Manoel, olhando a sobremesa.
- Mmmmmmmm – faz Marina.
▪
- Já sei – diz Marina, mais tarde, na sala. Ela é ladra.
- Com essa cara? Não pode ser.
- A verdade é que as referências são ótimas.
- Do jeito que ela cozinha, pode roubar-nos à vontade. Só sai daqui por cima do meu cadáver. E vai ser um cadáver gordo. Manoel apalpa a própria barriga com satisfação.
▪
Os dois vão dar uma espiada no quarto de Angélica. Encontram a moça cerzindo meia.
- Olha, se você quiser sair, dar umas voltas, tudo bem.
- Não, senhora. Prefiro ficar em casa. Não sou muito de sair.
- Se quiser ver televisão conosco...
- Não, senhor. Não gosto de televisão. Obrigada.
- O que é que você gosta de fazer? Como passatempo?
- Bom, gosto de jogar damas...
Marina e Manoel se entreolham, enternecidos. Damas. Ela é mesmo um anjo.
▪
- Manoel e Angélica jogam damas enquanto Marina assiste à televisão. Angélica se oferece para trazer café, chá, quem sabe uns bolinhos, mas os dois não aceitam.
- Descanse, menina – diz Manoel. – Você agora faz parte da família. É a sua vez de jogar.
- O senhor não gosta de jogar a dinheiro, Seu Manoel?
- Damas a dinheiro? Nunca joguei.
- Fica muito mais divertido.
- E como é que se joga damas a dinheiro?
- Mil por partida, mais 500 por diferença de pedra, dinheiro na mesa, empate dobra a parada.
▪
Um mês depois. Marina e Manoel sussurram na mesa. Acabaram de comer outro jantar maravilhoso, mas não estão maravilhados. Marina pergunta:
- Quanto é que você já deve a ela?
- Dezesseis mil. Nunca vi ninguém jogar damas como ela. Não perde nunca!
- Shhhh...
Angélica entra na cozinha com uma sobremesa monumental. Mesmo contra a vontade, Manoel não pode deixar de salivar.
- Não esqueça o nosso joguinho de hoje à noite, Seu Manoel – diz Angélica, alegremente.
- Não esqueço não – diz Manoel. E, quando Angélica volta para a cozinha: - Hoje eu ganho. Hoje eu recupero tudo. Ela vai ver.
Mas Angélica ganha outra vez. E não aceita cheque.
VERÍSSIMO, Luis Fernando. Angélica. In: Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2023. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69870/o-analista-de-bage>. Acesso em: 17 out. 2023. (Adaptado).
O texto III é um conto e, como tal, configura-se como uma narrativa literária. Assinale a alternativa que contém as principais características desse gênero textual:
Leia o texto III e responda às questões 33 e 34.
TEXTO III
ANGÉLICA
Ela é moça (...), jeito simples.
- É aqui que estão precisando de uma empregada?
- É sim. Mas você...
- Quero o emprego, sim, senhora.
Marina fica desconfiada.
- Você é cozinheira?
- De forno e fogão. O trivial e o requintado. Salgados, doces, especialidades. É só pedir.
- Dorme no emprego?
- Se a senhora quiser.
Marina hesita. A moça abre a bolsa simples e tira uns papéis. Oferece para Marina.
- Minhas referências.
- Ora, não precisa – diz Marina, pegando as referências e examinando-as atentamente. São ótimas.
- São ótimas.
- Sim, senhora.
- Quando é que você quer começar?
- Não é melhor acertar o salário, primeiro?
- É verdade – diz Marina, desanimando. Pensando: na certa vai pedir uma fortuna.
- Quanto é que você quer ganhar?
- Duzentos cruzeiros.
- Por dia?!
- Por mês.
- Por mês?! Mas é muito pouco.
- Se a senhora não aceitar...
- Aceito. Aceito! Como é o seu nome?
- Angélica – responde a moça, angelicamente.
▪
Quando Manoel chega a casa, dá com Angélica ao lado da porta.
- O seu casaco?
Ela ajuda Manoel a tirar o casaco. Manoel se deixa ajudar, apalermado.
- O senhor costuma tomar alguma coisa antes do jantar? Um uísque?
- Um uísque está perfeito.
- Quer tirar os sapatos e trocar por chinelos?
- Ahn... Quero.
- E o seu cachimbo. Agora ou depois do jantar?
Manoel está de boca aberta. Leva alguns minutos para se recuperar e responder:
- Depois, depois.
- Vai tomar banho agora ou antes de dormir?
Manoel faz um gesto instintivo, como que para proteger sua nudez.
- Por quê?
- Conforme for, eu já preparo o seu banho.
- Tomo banho antes de dormir, obrigado. Escute. Você é...
- Sua nova empregada. Angélica.
▪
- Ela caiu do céu! – sussurra Marina, na mesa do jantar.
- Que jantar. Que jantar! – exclama Manoel, entusiasmado.
– Quanto é que nós estamos pagando por esse anjo?
- Você não vai acreditar. Duzentos.
- Por dia?!
- Por mês!
Angélica entra na cozinha, trazendo a sobremesa.
- Mmmm – faz Manoel, olhando a sobremesa.
- Mmmmmmmm – faz Marina.
▪
- Já sei – diz Marina, mais tarde, na sala. Ela é ladra.
- Com essa cara? Não pode ser.
- A verdade é que as referências são ótimas.
- Do jeito que ela cozinha, pode roubar-nos à vontade. Só sai daqui por cima do meu cadáver. E vai ser um cadáver gordo. Manoel apalpa a própria barriga com satisfação.
▪
Os dois vão dar uma espiada no quarto de Angélica. Encontram a moça cerzindo meia.
- Olha, se você quiser sair, dar umas voltas, tudo bem.
- Não, senhora. Prefiro ficar em casa. Não sou muito de sair.
- Se quiser ver televisão conosco...
- Não, senhor. Não gosto de televisão. Obrigada.
- O que é que você gosta de fazer? Como passatempo?
- Bom, gosto de jogar damas...
Marina e Manoel se entreolham, enternecidos. Damas. Ela é mesmo um anjo.
▪
- Manoel e Angélica jogam damas enquanto Marina assiste à televisão. Angélica se oferece para trazer café, chá, quem sabe uns bolinhos, mas os dois não aceitam.
- Descanse, menina – diz Manoel. – Você agora faz parte da família. É a sua vez de jogar.
- O senhor não gosta de jogar a dinheiro, Seu Manoel?
- Damas a dinheiro? Nunca joguei.
- Fica muito mais divertido.
- E como é que se joga damas a dinheiro?
- Mil por partida, mais 500 por diferença de pedra, dinheiro na mesa, empate dobra a parada.
▪
Um mês depois. Marina e Manoel sussurram na mesa. Acabaram de comer outro jantar maravilhoso, mas não estão maravilhados. Marina pergunta:
- Quanto é que você já deve a ela?
- Dezesseis mil. Nunca vi ninguém jogar damas como ela. Não perde nunca!
- Shhhh...
Angélica entra na cozinha com uma sobremesa monumental. Mesmo contra a vontade, Manoel não pode deixar de salivar.
- Não esqueça o nosso joguinho de hoje à noite, Seu Manoel – diz Angélica, alegremente.
- Não esqueço não – diz Manoel. E, quando Angélica volta para a cozinha: - Hoje eu ganho. Hoje eu recupero tudo. Ela vai ver.
Mas Angélica ganha outra vez. E não aceita cheque.
VERÍSSIMO, Luis Fernando. Angélica. In: Enciclopédia Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileira. São Paulo: Itaú Cultural, 2023. Disponível em: <http://enciclopedia.itaucultural.org.br/obra69870/o-analista-de-bage>. Acesso em: 17 out. 2023. (Adaptado).
O texto III é um conto e, como tal, configura-se como uma narrativa literária. Assinale a alternativa que contém as principais características desse gênero textual:
Resolução comentada
Conto: narrativa curta, com conflito, tempo e espaço condensados.
O conto é uma narrativa breve, com poucos personagens, conflito único e tempo e espaço reduzidos. Pode seguir vertentes variadas, como a fantástica ou a psicológica.
Análise das alternativas
A está errada ao chamar o conto de narrativa longa. C está errada: tem poucos personagens e não se restringe ao realismo. D descreve a notícia ou reportagem. E descreve o poema, pois fala em versos e rimas.
Referência: Gêneros narrativos – o conto.
Resolução comentada do VaiConcursos.