Gabarito disponível
Texto-base:
Leia o texto II para responder aos itens 26 a 29.
TEXTO II
A LANTERNA MÁGICA
Vi na televisão um menininho pobre de uma creche uivando de alegria ao escarafunchar
um engradado com os presentes do Dia da Criança. Eram pequenas tralhas de plástico e caixas
de ovos coloridas, vazias. O pouquíssimo era motivo para incontida e ruidosa alegria. A privação
é a medida do desejo de cada um na vida.
5 Houve um tempo em que as oportunidades de presente resumiam-se a duas: aniversário
e Natal. Hoje, em muitas famílias, o presente é um evento mensal; em outras, semanal. Cada
voltinha num shopping resulta num pequeno agrado. Não se deseja mais com aquela gana,
porque se sabe que alguma coisa virá. O desejo dos meninos é impreciso, vago, incapaz de
provocar uivos de alegria quando satisfeito.
10 Já vivi minhas privações. Nunca pude ter bicicleta, por exemplo, nem bola de futebol.
Tivemos, eu e meus irmãos mais velhos, simulacros: triciclo comunitário e bola de borracha.
Triciclos não permitem ousadias ou temeridades. Bolas de borracha, sabe-se, não formam
craques. Bola de couro só tive mais tarde, no caminho da fazenda de seu Juca, hoje Cidade
Nova, em Belo Horizonte. Talvez por isso, sem traquejo, eu tenha sido um perna de pau e um
15 tímido. Quem sabe.
Entretanto, o que se tornou para mim algo mais perto de maravilha foi uma lanterna de
pilhas. Nunca tinha visto uma, a não ser no cinema e nas histórias em quadrinhos. Não sei,
talvez considerasse aquele objeto coisa de ficção científica, não da realidade. Quando vi uma,
manipulada por meu primo mais velho, já homem, o Zezé, na mesma casa de meu avô, foi um
20 deslumbramento. Brilhava, niquelada, era uma daquelas de quatro pilhas. Deixar que eu a
tomasse nas mãos, e acendesse, e dirigisse a luz para onde quisesse foi mágico. A partir desse
momento nada superou, nos meus sete anos, a beleza daquele fecho de luz. E o poder. Mesmo
quando meu primo não estava, eu me apoderava da lanterna e quixotava, cavaleiro andante.
Deitado, à noite, com a lanterna, dissipava fantasmas. Nos cantos, sombras revelam-se
25 objetos ou cavidades. Uma súbita lagartixa era imobilizada no teto de taquaras e meditava talvez
sobre qual seria a seguir a sua ação mais prudente. O pernilongo era localizado na parede,
motores parados de repente.
Uma coisa era outra coisa na luz que a si mesma se desenhava em cone.
A neblina perdia sua amplidão impalpável, aquele nada que não se podia não ver. Aquela
30 coisa comedora de contornos. A lanterna cortava uma talhada de neblina, via-se claramente do
que ela não era feita. A luz não ia além, mas até onde ia desnudava a coisa, e via-se que era
móvel.
A chuva noturna não era só, não era mais, barulho nas telhas, nas folhas. No facho de
luz da lanterna as gotas de chuva eram cintilações, estrelas cadentes, vaga-lumes.
35 A coruja não se atrevia a piar: emudecia e olhava de perfil.
Bichinhos de asa — se o canudo de luz se demorava — vinham dançar, perdiam aquela
chatice deles, aquela mania de pousar na gente.
O sapo esbarrava seu passeio noturno, como se dissesse:
— Epa, que sol é esse?
40 O poço, mesmo de dia, perdia o mistério. A luz furava a água cristalina e mostrava o fundo,
alguma folha, paz. Uma pedrinha resvalava e a paz lá embaixo se multipartia em tremulações
luminosas, vibrações.
Partes do corpo, no escuro, atravessadas pela luz, mostravam um vermelho de abóbora.
Nos dedos era possível pressentir o esqueleto. Na bochecha, frente ao espelho, viam-se
45 veiazinhas.
O céu negro da noite engolia a luz, era o único a vencê-la.
ÂNGELO, Ivan. O comprador de aventuras e outras crônicas. Col. Para Gostar de Ler. Vol. 8. p. 36-38. São Paulo: Ática, 2000. Adaptado.
Vocabulário:
Simulacros: imitações.
Leia atentamente o trecho abaixo e assinale a alternativa em que a reescrita da expressão destacada não altera o sentido original do texto.

Leia o texto II para responder aos itens 26 a 29.
TEXTO II
A LANTERNA MÁGICA
Vi na televisão um menininho pobre de uma creche uivando de alegria ao escarafunchar
um engradado com os presentes do Dia da Criança. Eram pequenas tralhas de plástico e caixas
de ovos coloridas, vazias. O pouquíssimo era motivo para incontida e ruidosa alegria. A privação
é a medida do desejo de cada um na vida.
5 Houve um tempo em que as oportunidades de presente resumiam-se a duas: aniversário
e Natal. Hoje, em muitas famílias, o presente é um evento mensal; em outras, semanal. Cada
voltinha num shopping resulta num pequeno agrado. Não se deseja mais com aquela gana,
porque se sabe que alguma coisa virá. O desejo dos meninos é impreciso, vago, incapaz de
provocar uivos de alegria quando satisfeito.
10 Já vivi minhas privações. Nunca pude ter bicicleta, por exemplo, nem bola de futebol.
Tivemos, eu e meus irmãos mais velhos, simulacros: triciclo comunitário e bola de borracha.
Triciclos não permitem ousadias ou temeridades. Bolas de borracha, sabe-se, não formam
craques. Bola de couro só tive mais tarde, no caminho da fazenda de seu Juca, hoje Cidade
Nova, em Belo Horizonte. Talvez por isso, sem traquejo, eu tenha sido um perna de pau e um
15 tímido. Quem sabe.
Entretanto, o que se tornou para mim algo mais perto de maravilha foi uma lanterna de
pilhas. Nunca tinha visto uma, a não ser no cinema e nas histórias em quadrinhos. Não sei,
talvez considerasse aquele objeto coisa de ficção científica, não da realidade. Quando vi uma,
manipulada por meu primo mais velho, já homem, o Zezé, na mesma casa de meu avô, foi um
20 deslumbramento. Brilhava, niquelada, era uma daquelas de quatro pilhas. Deixar que eu a
tomasse nas mãos, e acendesse, e dirigisse a luz para onde quisesse foi mágico. A partir desse
momento nada superou, nos meus sete anos, a beleza daquele fecho de luz. E o poder. Mesmo
quando meu primo não estava, eu me apoderava da lanterna e quixotava, cavaleiro andante.
Deitado, à noite, com a lanterna, dissipava fantasmas. Nos cantos, sombras revelam-se
25 objetos ou cavidades. Uma súbita lagartixa era imobilizada no teto de taquaras e meditava talvez
sobre qual seria a seguir a sua ação mais prudente. O pernilongo era localizado na parede,
motores parados de repente.
Uma coisa era outra coisa na luz que a si mesma se desenhava em cone.
A neblina perdia sua amplidão impalpável, aquele nada que não se podia não ver. Aquela
30 coisa comedora de contornos. A lanterna cortava uma talhada de neblina, via-se claramente do
que ela não era feita. A luz não ia além, mas até onde ia desnudava a coisa, e via-se que era
móvel.
A chuva noturna não era só, não era mais, barulho nas telhas, nas folhas. No facho de
luz da lanterna as gotas de chuva eram cintilações, estrelas cadentes, vaga-lumes.
35 A coruja não se atrevia a piar: emudecia e olhava de perfil.
Bichinhos de asa — se o canudo de luz se demorava — vinham dançar, perdiam aquela
chatice deles, aquela mania de pousar na gente.
O sapo esbarrava seu passeio noturno, como se dissesse:
— Epa, que sol é esse?
40 O poço, mesmo de dia, perdia o mistério. A luz furava a água cristalina e mostrava o fundo,
alguma folha, paz. Uma pedrinha resvalava e a paz lá embaixo se multipartia em tremulações
luminosas, vibrações.
Partes do corpo, no escuro, atravessadas pela luz, mostravam um vermelho de abóbora.
Nos dedos era possível pressentir o esqueleto. Na bochecha, frente ao espelho, viam-se
45 veiazinhas.
O céu negro da noite engolia a luz, era o único a vencê-la.
ÂNGELO, Ivan. O comprador de aventuras e outras crônicas. Col. Para Gostar de Ler. Vol. 8. p. 36-38. São Paulo: Ática, 2000. Adaptado.
Vocabulário:
Simulacros: imitações.
Leia atentamente o trecho abaixo e assinale a alternativa em que a reescrita da expressão destacada não altera o sentido original do texto.