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TEXTO 6
Emergência – Luís Fernando Veríssimo
É fácil identificar o passageiro de primeira viagem. É o que já entra no avião
desconfiado. O cumprimento da aeromoça, na porta do avião, já é um desafio para a sua
compreensão.
— Bom dia...
5 — Como assim?
Ele faz questão de sentar num banco de corredor, perto da porta. Para ser o
primeiro a sair no caso de alguma coisa dar errado. Tem dificuldade com o cinto de
segurança. Não consegue atá-lo. Confidencia para o passageiro ao seu lado:
— Não encontro o buraquinho. Não tem buraquinho?
10 Acaba esquecendo a fivela e dando um nó no cinto. Comenta, com um falso riso
descontraído: "Até aqui, tudo bem". O passageiro ao lado explica que o avião ainda está
parado, mas ele não ouve. A aeromoça vem lhe oferecer um jornal, mas ele recusa.
— Obrigado. Não bebo.
Quando o avião começa a correr pela pista antes de levantar voo, ele é aquele
15 com os olhos arregalados e a expressão de Santa Mãe do Céu! no rosto. Com o avião no
ar, dá uma espiada pela janela e se arrepende. É a última espiada que dará pela janela.
Mas o pior está por vir. De repente ele ouve uma misteriosa voz descarnada. Olha
para todos os lados para descobrir de onde sai a voz.
"Senhores passageiros, sua atenção, por favor. A seguir, nosso pessoal de bordo
20 fará uma demonstração de rotina do sistema de segurança deste aparelho. Há saídas de
emergência na frente, nos dois lados e atrás."
— Emergência? Que Emergência? Quando eu comprei a passagem ninguém
falou nada em emergência. Olha, o meu é sem emergência.
Uma das aeromoças, de pé ao seu lado, tenta acalmá-lo.
25 — Isto é apenas rotina, cavalheiro.
— Odeio a rotina. Aposto que você diz isso para todos. Ai meu santo.
"No caso de despressurização da cabina, máscaras de oxigênio cairão
automaticamente de seus compartimentos."
— Que história é essa? Que despressurização? Que cabina?
30 "Puxe a máscara em sua direção. Isto acionará o suprimento de oxigênio. Coloque
a máscara sobre o rosto e respire normalmente."
— Respirar normalmente?! A cabina despressurizada, máscaras de oxigênio
caindo sobre nossas cabeças — e ele quer que a gente respire normalmente?!
"Em caso de pouso forçado na água..."
35 — O quê?!
"... os assentos de suas cadeiras são flutuantes e podem ser levados para fora do
aparelho e..."
— Essa não! Bancos flutuantes, não! Tudo, menos bancos flutuantes!
— Calma, cavalheiro.
40 — Eu desisto! Parem este troço que eu vou descer. Onde é a cordinha? Parem!
— Cavalheiro, por favor. Fique calmo.
— Eu estou calmo. Calmíssimo. Você é que está nervosa e, não sei por quê, está
tentando arrancar as minhas mãos do pescoço deste cavalheiro ao meu lado. Que, aliás,
também parece consternado e levemente azul.
45 — Calma! Isso. Pronto. Fique tranquilo. Não vai acontecer nada.
— Só não quero mais ouvir falar em banco flutuante.
— Certo. Ninguém mais vai falar em banco flutuante.
Ele se vira para o passageiro ao lado, que tenta desesperadamente recuperar a
respiração, e pede desculpas. Perdeu a cabeça.
50 — É que banco flutuante foi demais. Imagine só. Todo mundo flutuando sentado.
Fazendo sala no meio do Oceano Atlântico!
A aeromoça diz que vai lhe trazer um calmante e aí mesmo é que ele dá um pulo:
— Calmante, por quê? O que é que está acontecendo? Vocês estão me
escondendo alguma coisa!
55 Finalmente, a muito custo, conseguem acalmá-lo. Ele fica rígido na cadeira.
Recusa tudo que lhe é oferecido. Não quer o almoço. Pergunta se pode receber a sua
comida em dinheiro. Deixa cair a cabeça para trás e tenta dormir. Mas, a cada sacudida
do avião, abre os olhos e fica cuidando a portinha do compartimento sobre sua cabeça,
de onde, a qualquer momento, pode pular uma máscara de oxigênio e matá-lo do coração.
60 De repente, outra voz. Desta vez é a do comandante.
— Senhores passageiros, aqui fala o comandante Araújo. Neste momento, à nossa
direita, podemos ver a cidade de...
Ele pula outra vez da cadeira e grita para a cabina do piloto:
— Olha para a frente, Araújo! Olha para a frente!
Disponível em: https://educarsempre.com/2020/03/16/cronica-interprtacao-e-compreensao/. Acesso em: 12/08/2023.
Marque a correta relação do título da crônica com o seu conteúdo:
Resolução comentada
O título “Emergência” se liga ao medo do passageiro inexperiente, que acha que o avião está prestes a entrar em emergência.
O passageiro de primeira viagem desconfia de toda a rotina do voo e interpreta os avisos de segurança como sinais de perigo real. O título remete à palavra que o assusta (“saídas de emergência”) e ao estado de alarme em que ele vive o tempo todo. Isso é o que a D descreve.
Análise das alternativas
A diz que ele tem vergonha de demonstrar o medo, mas ele o exibe abertamente. B afirma que há sinais reais de emergência, quando são apenas avisos de rotina. C fala em postura ponderada, o oposto do que ocorre. E restringe o título à decolagem, mas os avisos aparecem ao longo de todo o voo.
Referência: Interpretação de texto; relação título-conteúdo.
Resolução comentada do VaiConcursos.