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TEXTO VI
O espírito do nosso tempo
1 Interpretar o espírito do tempo é tarefa complexa para quem se aventura nesse
2 campo. Periodicamente, este escriba tenta percorrer essa trilha, mesmo conhecendo as
3 dificuldades que se apresentam. Discorrer sobre o espírito do nosso tempo é um exercício
4 que abriga camadas de abstração, bagagem educacional, circunstâncias que cercam o
5 analista e a intrincada floresta da política, da economia e dos costumes. Afinal, trata-se de
6 construir uma passagem entre o ontem e o hoje, e procurar enxergar além dos horizontes.
7 Haja risco.
8 Começo com a hipótese de que vivemos um tempo de angústia acumulada. O labor
9 do cotidiano carrega a pressa, sob o peso de encurtamento de tarefas, cargas amontoadas de
10 informação despejadas sobre nosso aparelho cognitivo, embate surdo com o ponteiro do
11 relógio, que corre sem a percepção de nossos sentidos. O ontem era mais largo e demorado.
12 O tempo parecia esticar sua duração, maximizando o usufruto. A palavra, expressa pela voz,
13 tinha força. Embutia compromisso, firmeza, seriedade. Contratos de palavra entre duas
14 pessoas não exigiam carimbo de cartório.
15 A ciência chega mais perto dos cidadãos, criando remédios para as dores e o
16 sofrimento mental. Até o famigerado câncer, em algumas áreas, passou a ter cura. No
17 entanto, uma enxurrada de novas endemias e pandemias abate a Humanidade, a par de
18 conflitos e mortes em combates e por fome em cantões da África e isoladas regiões do
19 planeta. O medo e mesmo o terror brandem o facão fundamentalista que assombra milhões
20 de seres em lugares tomados pela barbárie.
21 [...]
22 O relógio corre, abrindo imensidões nos espaços da educação, com defasagens no
23 processo de elevação do conhecimento para milhões de crianças que se veem privadas da
24 escola presencial por causa da pandemia maior do século 21. Atraso civilizacional. Enquanto
25 isso, os laboratórios das ciências biológicas produzem substâncias quase milagrosas para
26 evitar a mortandade que assola o planeta, sob volumes sonantes que enchem os cofres das
27 companhias farmacêuticas. Tempos de alívio, padecimento e riqueza.
28 Se os direitos humanos ganham aplausos, com o adensamento de meios de
29 prevenção e defesa, são, por outro lado, desprezados por grupos que adotam métodos
30 ancestrais na realização de suas atividades, como temos visto nos flagrantes de trabalhadores
31 obrigados a trabalhar sob o ferrão da escravidão. Tempos de opressão e massacre.
32 [...]
33 O espírito do nosso tempo passa ao largo. Quase imperceptível.
34 Sêneca, o filósofo que nasceu em Córdova, na Espanha, no ano 1 a.C., alertava:
35 “Não é curto o tempo que temos, mas dele muito perdemos. A vida é suficientemente longa
36 e com generosidade nos foi dada, para a realização das maiores coisas, se a empregamos
37 bem. Mas, quando ela se esvai no luxo e na indiferença, quando não a empregamos em nada
38 de bom, então, finalmente constrangidos pela fatalidade, sentimos que já passou por nós sem
39 que tivéssemos percebido”.
40 “Olhe a régua, olhe a régua”, alertava Vanderlei, neurocirurgião amigo, paraibano e
41 habitante da metrópole paulistana. Abria as palmas das mãos no tamanho de uma régua
42 imaginária de 100 centímetros para arrematar: “Até aqui, a régua marca 50”; apontava para o
43 meio. “Quando passa desse ponto, a régua costuma apressar o tempo.”
44 A sensação é a de um vácuo em nossas vidas. Não vimos o tempo passar. Elos
45 perdidos na teia do cotidiano.
TORQUATO, Gaudêncio. O espírito do nosso tempo. Disponível em: https://jornal.usp.br/articulistas/gaudencio-torquato/o-espirito-do-nosso-tempo/ Acesso em: 30 ago. 2024 (Adaptado).
De acordo com o Texto VI e conforme a norma-padrão da Língua Portuguesa, assinale a alternativa correta quanto à acentuação gráfica:
Resolução comentada
Acentuação: relógio e angústia são paroxítonas terminadas em ditongo.
Relógio (re-ló-gi-o) e angústia (an-gús-ti-a) são paroxítonas terminadas em ditongo crescente átono (-io, -ia). Por isso levam acento, conforme a regra das paroxítonas terminadas em ditongo.
Análise das alternativas
A) Espírito é proparoxítona, e áreas é paroxítona terminada em ditongo. B) Até é oxítona e não monossílabo, e o monossílabo tônico é a palavra é. C) Biológicas e régua não são ambas proparoxítonas, pois régua é paroxítona terminada em ditongo. D) O verbo veem (3ª pessoa do plural) não recebe acento.
Referência: Regras de acentuação gráfica (Acordo Ortográfico).
Resolução comentada do VaiConcursos.