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Colégio Militar de Belo Horizonte (CMBH) · Colégio Militar de Belo Horizonte 2025

Questão 26 — Língua Portuguesa: Pontuação — Vírgula em Enumerações

Língua Portuguesa Pontuação — Vírgula em Enumerações

Colégio Militar de Belo Horizonte (CMBH) 2025 Fundamental

Colégio Militar de Belo Horizonte · Admissão ao 6º Ano do Ensino Fundamental

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto I
História de sonho

Esta noite sonhei com Portugal. Queria saber contar sonhos, porque foi um sonho bonito. O medo
que a gente tem (embora na aparência se trate apenas de um sonho inocente e até lírico), o medo são os
amigos interpretadores, capazes de tirar uma história de sete cabeças do sonho mais inofensivo. [...]

Pois como dizia, sonhei com Portugal. Não via mapa, nem letreiro, nem explicação formal, mas que
5 era Portugal, não tinha dúvida. A gente ia num barco por um rio tranquilo, muito largo e com pedras à
margem. E aos poucos se avistava uma cidade ou aldeia com casas antigas, abarracadas, subindo um morro;
e eram tantos os pomares que de repente o rio se afundava entre as árvores e se virava num riachinho à toa;
depois já não tinha riachinho, nem barco, nem nada, a gente estava dentro de uma das casas do lugar, na sala
grande com móveis pesados de talha, e umas cortinas vermelhas de veludo. E na sala estavam duas velhas e
10 um velho, sendo que uma das velhas se sentava numa cadeira de balanço e tinha um gato branco no colo. Os
três falaram comigo, e eu sei que me sentia mal por haver penetrado ali naquela sala particular e tão tranquila
sem pedir licença, mas a velha de pé me tranquilizou — talvez dissesse que era costume receberem turistas;
a velha sentada não dizia nada, continuava se embalando e sorrindo. Depois os três iniciaram uma história,
mas era muito aflitivo porque eu não conseguia entender quase nada do que eles diziam; só me dava a
15 impressão de que era fala das fitas de cinema português, cujo diálogo a gente nunca sabe se o compreende
tão mal, porque é mesmo difícil de entender a língua deles ou se é porque o aparelho de som está ruim. Aliás,
lembrando bem, eles falavam mesmo com voz de cinema, tinha até uma música de fundo. E aí eu perguntava
à senhora da cadeira de balanço quanto é que custava uma casa naquela aldeia — assim bonita e antiga como
aquela. E ela respondeu um preço que não recordo, mas que achei muito barato. [...] Fiz então umas contas
20 de cabeça, calculei que vendendo isto e aquilo aqui no Brasil dava para comprar aquela casa. Sim, aquela.
Com a intensidade maior da minha vida, embora eu não tivesse coragem de o dizer às velhas, assaltara-me a
cobiça de ser dona da casa delas, daquela e nenhuma outra — com aqueles móveis, e a pequena escada
sumida na sombra da sala grande, e os três velhos e a cadeira de embalo com o gato branco.

Nesse ponto o sonho entrou a escurecer e a confundir, [...] e não sei se acordei logo, ou se caí num
25 sono pesado e sem consciência de nada. Só sei que me levantei de manhã com o mesmo desejo no coração,
e por mais que as horas se passem ainda tenho presente na lembrança as mãos claras da velhinha, e a vista
que se enxergava da janela e o soalho da casa de tábuas areadas e bem largas.

Conto este sonho à toa. Mesmo porque diz que é tolice contar sonho. Mas diz também o povo que a
gente não contando ele não acontece. E a verdade é que eu queria satisfazer este sonho, descobrir aquela
30 casa, aquele rio, aquelas velhas. E conversar outra vez com elas, prestando bem atenção, para consertar esta
angústia de não ter entendido as palavras que elas me disseram com o aparelho do som funcionando tão mal.
Porque parece que era coisa importante, coisa essencial que eu ouvisse e entendesse. Depois o desejo de ver
Portugal. Embora, como já foi dito acima, ninguém me dissesse que era Portugal — não tinha placa
explicando, nem vinhedos, nem trigais, nem cachopas. Só sabia que aquilo era Portugal, uma espécie de
35 Pasárgada de identificação absoluta no meu coração. [...]

Também ninguém pense que estou inventando um apólogo, que no fim haverá uma moral ou uma
explicação. É um sonho e nada mais, naturalmente anárquico e sem sentido. Já falei que o conto à toa —
fazendo um papel que nunca fiz, imagine contar sonho, tanta tolice sem sentido. Mas me deixou melancólica
e cheia de saudades, incapaz de escrever coisas sensatas, como seria da minha obrigação. E o fato é que não
40 consigo tirar da cabeça, nem a casa velha, nem as senhoras idosas, nem o gato branco e a cadeira. Sempre
fui pessoa de poucos sonhos, acordados ou dormidos. Sempre me satisfiz com o meu pedaço de pão e jamais
cobicei a galinha gorda dos outros. Mas me parece que hei de morrer de paixão se não comprar um dia aquela
casa. Pois tanto a casa como a sala hão de existir em algum lugar, não acredito que o meu sonho as inventasse
assim, erguesse-lhes as paredes caiadas, e compusesse os florões dos móveis de talha, e até as franjas de
45 borlas das cortinas vermelhas. E as velhas, então, as velhas. Ah, esqueci de dizer que o velho sumiu, no
próprio momento em que falavam a conversa que não consegui entender: de repente só se viam as duas
senhoras, não havia mais o velho debruçado à janela que cheirava a jasmim. Também esqueci de contar este
detalhe da janela com o jasmim. Era uma das coisas mais agradáveis dali aquele jasmim-estrela miúdo e de
cheiro, cuja massa verde se amontava contra a parede do oitão, desprendendo galhos finos janela adentro. O
50 gato não miava nem se movia; nem sequer ronronava, agora recordo bem. Quem sabe se estava morto ou
empalhado? E, meu Deus, será azar sonhar com gato empalhado? O que vale é que embora empalhado ou
morto, era branco e não preto. Azar de gato preto não precisa ninguém dizer, é coisa sabida e antiga. Branco,
não; branco, sendo o contrário do preto, naturalmente dá sorte, vivo ou morto, que isso da vida e da morte
não faz grande diferença em matéria de azar.

55 E pode ser muito bem que, sendo caso de intuição, ou segunda vista, ou lembrança subconsciente —
sei lá, há muitos nomes para essas coisas — talvez alguém conheça o lugar ou as pessoas e queira me contar
onde fica. Alguém que tenha paciência de ler isto tudo até o fim. Quem não tiver paciência de ler, o que é
justo, mude a vista; há muita coisa no jornal, tanta colaboração de primeira; passe adiante que ninguém
repara, [...] pessoa nenhuma é obrigada a ler o que não gosta, graças a Deus.

QUEIROZ, Rachel. Um alpendre, uma rede, um açude. 8 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2006. Adaptado.

Glossário:
cachopas – colmeia de abelhas ou casa de marimbondos.
apólogo – narrativa que ilustra lições de sabedoria ou ética, com personagens imaginários ou reais.
caiadas – pintadas com mistura de cal e água.
florões – ornamento em forma de flor.
talha – obra de arte que se faz esculpindo a madeira
borlas – bola de tecido ou pano.
oitão – cada parede lateral de uma casa.

Releia o trecho a seguir, retirado do Texto I, para responder à questão de número 26.
“E o fato é que não consigo tirar da cabeça, nem a casa velha, nem as senhoras idosas, nem o gato branco e a cadeira.” (linhas 39 e 40)
Assinale a alternativa em que a vírgula está empregada pelo mesmo motivo que as vírgulas do trecho transcrito:
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

Vírgula usada para separar elementos de uma enumeração.

No trecho do enunciado, as vírgulas separam termos de mesma função, em enumeração (a casa velha, as senhoras idosas, o gato branco). Em “descobrir aquela casa, aquele rio, aquelas velhas”, as vírgulas também separam objetos diretos enumerados.

Análise das alternativas

A) Aí a vírgula isola adjetivo e oração reduzida, e não enumera substantivos de mesma função. C) Isola oração intercalada ou deslocada. D) Isola termos e orações explicativas. E) Isola oração explicativa e separa orações coordenadas.

Referência: Pontuação: vírgula em enumerações.

Resolução comentada do VaiConcursos.

Ver gabarito

Gabarito: B

Fonte: Gabarito preliminar: Gabarito das provas de Matemática e Língua Portuguesa – 6º Ano EF (CMBH 2025/2026)