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Colégio Militar de Curitiba (DECEx – DEPA) · Colégio Militar de Curitiba 2025

Questão 39 — Língua Portuguesa: Interpretação de Texto — Linguagem Figurada

Língua Portuguesa Interpretação de Texto — Linguagem Figurada

Colégio Militar de Curitiba (DECEx – DEPA) 2025 Fundamental

Colégio Militar de Curitiba · Aluno — 1º ano do Ensino Médio

Gabarito disponível

Texto-base:
Texto II
O menino de água
O menino nadou para depois de uma onda grande e não voltou. A mãe estendeu as mãos na água buscando o seu corpo diluído. Julgava ela que o filho se diluíra como um cubo de açúcar incapaz de adocicar o mar. Jurou que o buscaria sempre. Haveria de o reconhecer nem que ele se tornasse ínfimo. Saberia dele escondido na mais insignificante gota de água. Jurava. Se o seu menino estivesse por perto, ela nunca o ignoraria. Nadou ao fim do mar, à boca dos tubarões, dentro do vazio das baleias, sob as barrigas cegas dos barcos, no pensamento dos peixes e nas suas costas, entre as areias, atrás das pedras e debaixo. Buscou na cintilação quando a luz entrava água adentro fazendo de tudo um cristal gigante, podia ser que o filho fosse agora uma estrela e só soubesse brilhar. A mãe olhava o brilho como se o brilho a estivesse também a observar. Esperava e, de todo o modo, ficaria para sempre a esperar.
Nunca secava o corpo porque a água era agora o seu menino. Molhava-se, estendia as mãos em redor como radares aflitos por um abraço e imaginava que a criança fazia as ondas. Talvez as ondas fossem um modo de falar. E ela ondulava. Sentia as marés como a respiração do mundo a caminho. Sentia que o tempo todo era deslocação e viagem. Era como sabia que a demora lhe criava uma distância insuportável, como se o planeta inteiro fosse constantemente para outro lugar. Como se o planeta inteiro estivesse a ir embora e ela precisasse de agir com urgência.
Ela também achava que o seu corpo a secar era uma partida contínua do filho. Quando sentia a roupa e a pele seca, dizia: partiu. Como se o filho levantasse do colo. De dormir no seu peito, como era costume. O menino evaporava talvez para observar as coisas desde as nuvens. A mãe ficava sozinha. Fechava-se em casa a recordar. Pensava que o corpo do mar era o corpo do filho, sem distinção. O amargo do sal nunca a enganaria perante a falta dos beijos, a nostalgia dos beijos e a delicadeza da sua criança. Ela nadava dentro do filho. Era por causa disso que se estendia e só então acalmava.
Uma vez, a mãe encheu de água um enorme jarro que levou para casa sem entornar. Fitou-o perplexa. Resplandecia na luz da tarde igual a uma lâmpada líquida ou a uma estrela guardada. Cuidadosamente, abraçou o jarro e longamente o acarinhou. Era então um lugar do seu filho. Depois, a mãe afundou um soldadinho para que a água pudesse brincar. Ela disse: brinca, filho. A água aquietou-se. Talvez o menino apenas brilhasse para brincar.
A cada dia, assim repetiu até que a casa inteira fosse o mar. Um mar em vidros puros, transparentes, através dos quais ela o vigiava e expunha ao sol. Afundava lobos e carrinhos de corrida, super-heróis e dinossauros. Flutuava neles barquinhos de papel e afundava mais soldadinhos. Um exército de brinquedos que, na transparência dos vidros, também esperava. E a mãe perscrutava o bulício das águas ou a maior cintilação para saber se o seu menino estava a comunicar.

SILVEIRA, Ingrid Teixeira da. O MENINO DE ÁGUA. In: MÃE, Valter Hugo. Contos de cães e maus lobos. Ed.: Porto Editora, 2015.

No conto, a água assume papel simbólico essencial na narrativa, representando a relação da mãe com a ausência do filho. Assinale a alternativa que melhor interpreta o significado simbólico da água no texto.
Selecione uma alternativa

Resolução comentada

A água é metáfora do corpo do filho ausente.

O texto afirma que "a água era agora o seu menino" e que "o corpo do mar era o corpo do filho, sem distinção". A mãe se funde com a água e, assim, com a ausência e o luto.

Análise das alternativas

B) Errada: o conto fala de lembrança, não de esquecimento. C) Errada: a água não é apresentada como cruel. D) Errada: a água é acolhida e afetiva, não só perigo ou obstáculo. E) Errada: não há superação da perda; a mãe continua esperando.

Referência: Linguagem figurada: metáfora e símbolo.

Resolução comentada do VaiConcursos.

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Gabarito: A

Fonte: Gabarito preliminar: Gabarito 1º ano — página 1