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TEXTO I
O dono da bola
Ruth Rocha
Caloca morava na casa mais bonita da nossa rua. Os brinquedos que Caloca tinha,
vocês não podem imaginar! Até um trem elétrico ele ganhou do avô.
E tinha bicicleta, com farol e buzina, e tinha tenda de índio, carrinhos de todos os
tamanhos e uma bola de futebol, de verdade. Caloca só não tinha amigos. Porque ele
5 brigava com todo mundo. Não deixava ninguém brincar com os brinquedos dele. Mas
futebol ele tinha que jogar com a gente, porque futebol não se pode jogar sozinho.
O nosso time estava cheio de amigos. O que nós não tínhamos era bola de futebol.
Só bola de meia, mas não é a mesma coisa. Bom mesmo é bola de couro, como a do Caloca. Mas,
toda vez que a gente ia jogar com Caloca, acontecia a mesma coisa. Era só o juiz marcar qualquer
10 falta do Caloca que ele gritava logo:
— Assim eu não jogo mais! Dá aqui a minha bola!
— Ah, Caloca, não vá embora, tenha espírito esportivo, jogo é jogo...
— Espírito esportivo, nada! — berrava Caloca — E não me chame de Caloca, meu
nome é Carlos Alberto!
15 E assim, Carlos Alberto acabava com tudo que era jogo.
A coisa começou a complicar mesmo, quando resolvemos entrar no campeonato do
bairro. A gente precisava treinar com bola de verdade para não estranhar na hora do jogo.
Mas os treinos nunca chegavam ao fim. Carlos Alberto, quando não se fazia o que ele
queria, levava a bola embora e adeus, treino.
20 Catapimba, que era o secretário do clube, resolveu fazer uma reunião:
— Esta reunião é pra resolver o caso do Carlos Alberto. Cada vez que ele se zanga,
carrega a bola e acaba com o treino.
Carlos Alberto pulou, vermelhinho de raiva:
— A bola é minha, eu carrego quantas vezes eu quiser!
25 — Pois é isso mesmo! — disse o Beto, zangado. — É por isso que nós não vamos ganhar
campeonato nenhum!
— Pois azar de vocês, eu não jogo mais nesse time, que nem bola tem!
E Caloca saiu pisando duro, com a bola debaixo do braço.
[...]
30 Um dia, nós ouvimos dizer que o Carlos Alberto estava jogando no time Faz-de-Conta,
que é um time lá da rua de cima. Mas foi por pouco tempo. A primeira vez que ele quis
carregar a bola no melhor do jogo, como fazia conosco, se deu muito mal... O time inteiro
do Faz-de-Conta correu atrás dele e ele só não apanhou porque se escondeu na casa do
Batata.
35 Aí, o Carlos Alberto resolveu jogar bola sozinho. A gente passava pela casa dele e via.
Ele batia bola com a parede. Acho que a parede era o único amigo que ele tinha. Mas eu
acho que jogar com a parede não deve ser muito divertido. Porque, depois de três dias, o
Carlos Alberto não aguentou mais. Apareceu lá no campinho.
— Se vocês me deixarem jogar, eu empresto a minha bola.
40 — Nós não queremos sua bola, não.
— Ué, por quê?
— Você sabe muito bem. No melhor do jogo você sempre dá um jeito de levar a bola
embora.
— Eu não, só quando vocês me amolam.
45 — Pois é por isso mesmo que nós não queremos, só se você der a bola para o time
de uma vez.
— Ah, essa não! Está pensando que eu sou bobo?
E Carlos Alberto continuou sozinho. Mas eu acho que ele já não estava gostando de
estar sempre sozinho. No domingo, ele convidou o Xereta para brincar com o trem elétrico.
50 Na segunda, levou o Beto para ver os peixes na casa dele. Na terça, me chamou para brincar
de índio. E, na quarta, mais ou menos no meio do treino, lá veio ele com a bola debaixo do
braço.
— Oi, turma, que tal jogar com uma bola de verdade?
Nós estávamos loucos para jogar com a bola dele. Mas não podíamos dar o braço a
55 torcer.
— Olha, Carlos Alberto, você apareça em outra hora. Agora, nós precisamos treinar
— disse Catapimba.
Mas eu quero dar a bola ao time. De verdade!
Nós todos estávamos espantados:
60 — E você nunca mais pode levar embora?
— E o que é que você quer em troca?
— Eu só quero jogar com vocês...
Os treinos recomeçaram, animadíssimos. O final do campeonato estava chegando e
nós precisávamos recuperar o tempo perdido. Carlos Alberto estava outro. Jogava direitinho
65 e não criava caso com ninguém.
E quando nós ganhamos o jogo final do campeonato, todo mundo se abraçou.
A gente gritava:
— Viva o Estrela-d’Álva Futebol Clube!
— Viva!
70 — Viva o Catapimba!
— Viva!
— Viva o Carlos Alberto!
— Viva!
Então, o Carlos Alberto gritou:
75 — Ei, pessoal, não me chamem de Carlos Alberto! Podem me chamar de Caloca!
ROCHA, Ruth. Marcelo, marmelo, martelo e outras histórias. São Paulo: Salamandra, 2011 (adaptado).
A ironia presente no desfecho da narrativa está relacionada ao comportamento de Carlos Alberto. Qual das alternativas esclarece esse efeito?
Resolução comentada
A ironia está em exigir ser chamado de Carlos Alberto e, no fim, pedir o apelido Caloca.
No início, Caloca se irrita com o apelido e exige ser chamado de Carlos Alberto. No final, já integrado ao grupo, pede que o chamem de Caloca. A inversão de atitude mostra que ele passou a aceitar a intimidade dos amigos, e é isso que cria a ironia do desfecho.
Análise das alternativas
A) Nada no texto diz que ele convence Catapimba a ser capitão no lugar de Beto. B) O time vence o campeonato junto, não ele sozinho. C) O texto não menciona treino de madrugada. D) Jogar com a parede não é divertido, e por isso ele volta ao grupo.
Referência: Ruth Rocha, 'O dono da bola' (ironia)
Resolução comentada do VaiConcursos.