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Texto-base:
Leia o texto 1 para responder às questões 21 a 30.
Texto 1
O som do rugido da onça
01 A mulher se reclina. Seus olhos e seus ouvidos se colocam a postos. Sua boca aberta
02 recebe o hálito que atravessa as folhas das árvores, os animais, que tocara a pele de todas
03 as mulheres antes dela. Ela está no centro da maloca, e a maloca é o ventre do universo, e
04 a barriga dela, o centro do mundo. Sobre o telhado, o céu rebrilha de estrelas, crânios muito
05 alvos faiscando eternamente. Então ela começa a gritar seu suor de seiva e sangue. O
06 trabalho dos ossos do quadril se afastando como pedras que há muito assentadas não
07 resistem à imposição violenta das águas. Ela sente as dores em ondas que vão e vêm em
08 fluxo e refluxo, e enfim seu canal se dilata totalmente para a passagem dos rios, primeiro o
09 rio que traz um menino, depois o rio que traz uma menina.
10 Ela, uma criança mirrada, mas de olhos bem abertos e com uma pequenina boca
11 vermelha como o fruto do buritizeiro e, por esse motivo, é chamada de Iñe-e pelo velho
12 avô, o xamã. Está destinada a crescer e a aprender os ritos das comidas, os usos da
13 açacurana, o preparo do curare. O irmão, em tudo igual e diverso dela, nasce destinado à
14 guerra e, por seu grito, como que de trovão, Tsittsi é chamado. E recebe, do velho avô, um
15 dente de onça do seu colar. A onça, sim, inimiga do seu povo, mas a quem devem temor e
16 respeito por ser a Dona da Caça, aquela que lhes permite viver em seus domínios.
17 Iñe-e cresce escutando a história do seu nascimento e do nascimento do irmão
18 fluindo, como a água de onde veio, da boca de sua mãe. É uma das histórias que mais lhe
19 agrada ouvir, mais do que a de Juziñamui, o devorador de gente, mais do que as histórias
20 do quebradão das antas, mais do que o episódio da tartaruga, que [...] arrancava risadas de
21 todos os ouvintes, moços e velhos. Escuta também como surgiu a desconfiança que o pai
22 passou a ter dela quando, ainda muito pequena, se desgarrou das mulheres que
23 preparavam a yuca e ficou horas desaparecida. Somente a encontraram no fim da tarde.
24 Quando as esperanças de vê-la viva novamente se esvaíam, os parentes a avistaram à
25 margem do rio, em companhia de uma enorme onça; Iñe-e de cócoras, Tipai uu, a onça, a
26 seu lado, a cauda batendo ritmadamente de um lado para o outro, como quem espera,
27 como quem vela, tendo deixado a criança intacta e segura até a chegada do seu povo,
28 quando então foi embora. Naquele dia, o entendimento do pai dizia que a filha, por haver
29 se ajuntado em pacto com a inimiga, mesmo sem ter ciência do que havia de fato
30 acontecido, era agora inimiga como a onça. Muito embora o velho avô a tenha benzido em
31 proteção dos donos dos animais no instante em que nascera, o pai acreditava que o evento
32 era um sinal de maldição.
33 Ela um dia se transforma e nos devora a todos, como Nonueteima se transformou
34 em jaguar, acusou o pai certa vez, deixando a mãe entre irritada e amedrontada pelo
35 destino que via se desenhar para a filha. Para o avô, aquele ódio não estava certo, o
36 encontro da menina com a onça cintilava como uma dádiva quando ele consultou a
37 sabedoria da coca a respeito. Mas mesmo isso não conseguia retirar a cisma do coração do
38 filho, cujas fibras embranqueciam a cada contato com os estrangeiros, o que era, de fato,
39 e o velho sabia, uma verdadeira desgraça.
40 Alheia a esses embates, a menina ia seguindo a vontade de crescer e, ademais, a
41 cisma ou a raiva do pai eram inconstantes. Ora recrudescendo com uma nova implicância,
42 ora adormecendo como se nunca tivesse existido. Ela não sabia se gostava ou não de ter
43 sido onçada por Tipai uu, mas em seu coração sabia que, por outro lado, não desgostava.
44 Onça voa de um grande salto, onça engana os melhores caçadores, onça esturra enchendo
45 a mata de reverência e temor, onça enterra os dentes no cangote do inimigo. Ela pensava,
46 em pensamento desarrumado de criança pequena, pensamento que ia guardando muito
47 bem guardado, que talvez algum dia haveria de ter alguma serventia ter feito pacto com a
48 onça.
49 Quando a menina completou sete anos, o avô decidiu levá-la às festas de Yurupari, o
50 Dono das Frutas, quando meninos e meninas eram colocados diante do Esawámina, para
51 talvez serem escolhidos em uma missão de grande responsabilidade. Entre o povo dela,
52 meninas e meninos tinham a mesma honra de ser escolhidos. Assim, ao som das trompas
53 e flautas, Iñe-e foi uma das crianças eleitas, e por isso deveria mirar Yurupari por sete vezes
54 para que, quando completasse doze anos, se convertesse em curadora do corpo e do
55 espírito, vendo aquilo que ninguém mais poderia enxergar.
VERUNSCHK, Micheliny. O som do rugido da onça. São Paulo: Companhia das Letras, 2021, p 17-19 (fragmento adaptado).
Glossário
açacurana - uma árvore da família das leguminosas.
curare - veneno usado em lanças e flechas.
Observe os destaques no trecho do terceiro parágrafo, das linhas 24 e 25:

As duas palavras destacadas no trecho referem-se, no contexto, à/às
Leia o texto 1 para responder às questões 21 a 30.
Texto 1
O som do rugido da onça
01 A mulher se reclina. Seus olhos e seus ouvidos se colocam a postos. Sua boca aberta
02 recebe o hálito que atravessa as folhas das árvores, os animais, que tocara a pele de todas
03 as mulheres antes dela. Ela está no centro da maloca, e a maloca é o ventre do universo, e
04 a barriga dela, o centro do mundo. Sobre o telhado, o céu rebrilha de estrelas, crânios muito
05 alvos faiscando eternamente. Então ela começa a gritar seu suor de seiva e sangue. O
06 trabalho dos ossos do quadril se afastando como pedras que há muito assentadas não
07 resistem à imposição violenta das águas. Ela sente as dores em ondas que vão e vêm em
08 fluxo e refluxo, e enfim seu canal se dilata totalmente para a passagem dos rios, primeiro o
09 rio que traz um menino, depois o rio que traz uma menina.
10 Ela, uma criança mirrada, mas de olhos bem abertos e com uma pequenina boca
11 vermelha como o fruto do buritizeiro e, por esse motivo, é chamada de Iñe-e pelo velho
12 avô, o xamã. Está destinada a crescer e a aprender os ritos das comidas, os usos da
13 açacurana, o preparo do curare. O irmão, em tudo igual e diverso dela, nasce destinado à
14 guerra e, por seu grito, como que de trovão, Tsittsi é chamado. E recebe, do velho avô, um
15 dente de onça do seu colar. A onça, sim, inimiga do seu povo, mas a quem devem temor e
16 respeito por ser a Dona da Caça, aquela que lhes permite viver em seus domínios.
17 Iñe-e cresce escutando a história do seu nascimento e do nascimento do irmão
18 fluindo, como a água de onde veio, da boca de sua mãe. É uma das histórias que mais lhe
19 agrada ouvir, mais do que a de Juziñamui, o devorador de gente, mais do que as histórias
20 do quebradão das antas, mais do que o episódio da tartaruga, que [...] arrancava risadas de
21 todos os ouvintes, moços e velhos. Escuta também como surgiu a desconfiança que o pai
22 passou a ter dela quando, ainda muito pequena, se desgarrou das mulheres que
23 preparavam a yuca e ficou horas desaparecida. Somente a encontraram no fim da tarde.
24 Quando as esperanças de vê-la viva novamente se esvaíam, os parentes a avistaram à
25 margem do rio, em companhia de uma enorme onça; Iñe-e de cócoras, Tipai uu, a onça, a
26 seu lado, a cauda batendo ritmadamente de um lado para o outro, como quem espera,
27 como quem vela, tendo deixado a criança intacta e segura até a chegada do seu povo,
28 quando então foi embora. Naquele dia, o entendimento do pai dizia que a filha, por haver
29 se ajuntado em pacto com a inimiga, mesmo sem ter ciência do que havia de fato
30 acontecido, era agora inimiga como a onça. Muito embora o velho avô a tenha benzido em
31 proteção dos donos dos animais no instante em que nascera, o pai acreditava que o evento
32 era um sinal de maldição.
33 Ela um dia se transforma e nos devora a todos, como Nonueteima se transformou
34 em jaguar, acusou o pai certa vez, deixando a mãe entre irritada e amedrontada pelo
35 destino que via se desenhar para a filha. Para o avô, aquele ódio não estava certo, o
36 encontro da menina com a onça cintilava como uma dádiva quando ele consultou a
37 sabedoria da coca a respeito. Mas mesmo isso não conseguia retirar a cisma do coração do
38 filho, cujas fibras embranqueciam a cada contato com os estrangeiros, o que era, de fato,
39 e o velho sabia, uma verdadeira desgraça.
40 Alheia a esses embates, a menina ia seguindo a vontade de crescer e, ademais, a
41 cisma ou a raiva do pai eram inconstantes. Ora recrudescendo com uma nova implicância,
42 ora adormecendo como se nunca tivesse existido. Ela não sabia se gostava ou não de ter
43 sido onçada por Tipai uu, mas em seu coração sabia que, por outro lado, não desgostava.
44 Onça voa de um grande salto, onça engana os melhores caçadores, onça esturra enchendo
45 a mata de reverência e temor, onça enterra os dentes no cangote do inimigo. Ela pensava,
46 em pensamento desarrumado de criança pequena, pensamento que ia guardando muito
47 bem guardado, que talvez algum dia haveria de ter alguma serventia ter feito pacto com a
48 onça.
49 Quando a menina completou sete anos, o avô decidiu levá-la às festas de Yurupari, o
50 Dono das Frutas, quando meninos e meninas eram colocados diante do Esawámina, para
51 talvez serem escolhidos em uma missão de grande responsabilidade. Entre o povo dela,
52 meninas e meninos tinham a mesma honra de ser escolhidos. Assim, ao som das trompas
53 e flautas, Iñe-e foi uma das crianças eleitas, e por isso deveria mirar Yurupari por sete vezes
54 para que, quando completasse doze anos, se convertesse em curadora do corpo e do
55 espírito, vendo aquilo que ninguém mais poderia enxergar.
VERUNSCHK, Micheliny. O som do rugido da onça. São Paulo: Companhia das Letras, 2021, p 17-19 (fragmento adaptado).
Glossário
açacurana - uma árvore da família das leguminosas.
curare - veneno usado em lanças e flechas.
Observe os destaques no trecho do terceiro parágrafo, das linhas 24 e 25:
As duas palavras destacadas no trecho referem-se, no contexto, à/às