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Bem antes que tentassem me convencer que a data de nascimento da modernidade era um espirro cartesiano, ou então um novo interesse empírico pela natureza que transpira das páginas do Novum Organum de Bacon, ou ainda (mais tarde e mais “marxista”) a abertura dos primeiros bancos — bem antes de tudo isso, quando era rapaz, se ensinava que a modernidade começou em outubro de 1492. Nos livros da escola, o primeiro capítulo dos tempos modernos eram e são as grandes explorações. Entre estas, a viagem de Colombo ocupa um lugar muito especial. Descidas Saara adentro ou intermináveis caravanas por montes e desertos até a China de nada valiam comparadas com a aventura do genovês. Precisa ler Mediterrâneo de Fernand Braudel para conceber o alcance simbólico do pulo além de Gibraltar, não costeando, mas reto para frente. Precisa, entre outras palavras, evocar o mar Mediterrâneo — este pátio comum navegável e navegado por milênios, espécie de útero vital compartilhado — para entender por que a viagem de Colombo acabou e continua sendo uma metáfora do fim do mundo fechado, do abandono da casa materna e paterna.
Contardo Calligaris. A psicanálise e o sujeito colonial. In: Edson L. A. Sousa (org.). Psicanálise e colonização: leituras do sintoma social no Brasil. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1999, p. 11-12 (com adaptações).
Julgue os itens que se seguem, relativos ao texto precedente.
Pela leitura do texto, é possível relacionar a construção da história da modernidade a uma perspectiva eurocêntrica, apesar de o Mediterrâneo fazer parte do passado e do presente de outras culturas, além da europeia.
Resolução comentada
O texto trata a modernidade a partir de um marco europeu (viagem de Colombo), embora o Mediterrâneo seja compartilhado por outras culturas.
O texto afirma que a modernidade, nos livros escolares, começa com as grandes explorações e a viagem do genovês Colombo, deixando em segundo plano caravanas e travessias ao Saara e à China. Isso revela uma perspectiva eurocêntrica. O Mediterrâneo, descrito como 'pátio comum' e 'útero compartilhado', é espaço que pertence também a outras culturas (africanas, asiáticas), o que sustenta a ressalva do item.
Análise das alternativas
Certo: a inferência é legítima. Errado: ignoraria a ênfase europeia da narrativa escolar e o caráter 'comum' e 'compartilhado' do Mediterrâneo.
Referência: Interpretação textual (Cebraspe) – Calligaris, A psicanálise e o sujeito colonial.
Resolução comentada do VaiConcursos.