Resposta obtida por resolução técnica — sem correção automática
1888
9 de janeiro
Ora bem, faz hoje um ano que voltei definitivamente da Europa. O que me lembrou esta data foi, estando a beber café, o pregão de um vendedor de vassouras e espanadores: “Vai vassouras! vai espanadores!”. Costumo ouvi-lo outras manhãs, mas desta vez trouxe-me à memória o dia do desembarque, quando cheguei aposentado à minha terra, ao meu Catete, à minha língua. Era o mesmo que ouvi há um ano, em 1887, e talvez fosse a mesma boca. Durante os meus trinta e tantos anos de diplomacia algumas vezes vim ao Brasil, com licença. O mais do tempo vivi fora, em várias partes, e não foi pouco. Cuidei que não acabaria de me habituar novamente a esta outra vida de cá. Pois acabei. Certamente ainda me lembram coisas e pessoas de longe, diversões, paisagens, costumes, mas não morro de saudades por nada. Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei.
Machado de Assis. Memorial de Aires. In: Aluizio Leite, Ana Lima Cecília, Heloisa Jahn, Rodrigo Lacerda (org.). Machado de Assis: obra completa em quatro volumes, v. 1. São Paulo: Nova Aguilar, 2015, p.1.197.
Julgue os itens seguintes, com base no texto precedente.
As entradas indicativas de datas, o foco narrativo na primeira pessoa do singular e a ausência de termos figurativos são evidências de que os fatos narrados resultam de memórias factuais, o que caracteriza o texto como não ficcional.
Resolução comentada
Datas, 1ª pessoa e ausência de figuras não bastam para caracterizar texto não ficcional.
O trecho é de Memorial de Aires, obra de ficção de Machado de Assis; o diário é recurso literário. Além disso, o texto contém linguagem figurada (por exemplo, 'não morro de saudades'), e a data e a primeira pessoa não garantem a factualidade. Logo, a conclusão é indevida.
Análise das alternativas
A) Errada: toma recurso ficcional por prova de factualidade. B) Correta.
Referência: Gêneros textuais: ficção e não ficção.
Resolução comentada do VaiConcursos.