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No Itamaraty, em dependência do Serviço de Informações, opera autônoma e praticamente sem cessar o telex, espécie de bem-mandada máquina, que tiquetaqueia recebendo notícias diretas radiotelegráficas. Naquela tarde de 22 de novembro de 1963, passando por ali meu amigo o Ministro Portella, perguntou-lhe um subalterno de olhos espantados: que queria dizer “shot” em inglês? A tremenda coisa, no instante, anunciava-se já completa, ainda quente, frases e palavras golpeadas na longa tira de papel que ia adiante desenrolando-se. “Presidente Kennedy...” Susto e consternação confundiam depressa a cidade, os países, todo-o-mundo lívido. Antes que tudo, o assombro. Era uma das vezes em que, enorme, o que devia não ser possível sucede, o desproporcionado. Lembro-me que me volveram à mente outras sortes e mortes. E — por que então — a de Gandhi. Tende-se a supor que esses seres extraordinários, em fino evoluídos, almas altas, estariam além do alcanço de grosseiros desfechos. Quando, ao que parece, são, virtualmente, os que de preferência os chamam; talvez por fato de polarização, o positivo provocando sempre o negativo. De exformes zonas inferiores, onde se atrasa o Mal, medonhantes braços estariam armando a atingir o luminoso. Apenas os detêm permanentes defesas de ordem sutil; mas que, se só um momento cessam de prevalecer, permitem o inominável. Para nós a Providência é incompreendida computadora.
João Guimarães Rosa. Os abismos e os astros. In: Ave, palavra. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2009, p. 69-70.
Com base no texto precedente, julgue os itens subsequentes.
A mistura entre elementos figurativos (metáforas e neologismos) e elementos informativos (datas e fatos passados) indica que o texto constitui uma crônica literária do ofício do narrador no Itamaraty.
Resolução comentada
O texto não é uma crônica sobre o ofício do narrador no Itamaraty.
Embora haja mistura de linguagem figurada e informativa, o texto é um relato/reflexão sobre a reação à morte de Kennedy e sobre a fragilidade de seres elevados diante do mal; o Itamaraty é apenas o cenário. A afirmação de que o texto trata do ofício do narrador é, portanto, indevida, e a mistura de elementos não basta para essa classificação.
Análise das alternativas
A) Errada: atribui ao texto um tema (o ofício no Itamaraty) que não é o seu foco. B) Correta: o tema central é o assombro diante do assassinato de Kennedy e a reflexão a respeito.
Referência: Gêneros textuais: crônica e interpretação.
Resolução comentada do VaiConcursos.