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Texto IV
IDIOMA E IDENTIDADE
Na clássica história de Babel o que mais chama a atenção é, claro, a confusão dos idiomas que se instala quando Deus pune este projeto arrogante. O que fica num segundo plano é o projeto propriamente dito, o projeto da torre. É a materialização de uma blasfêmia, como a Bíblia deixa bem claro, mas é, reconheçamos, um projeto arrojado e que, aparentemente, unia toda a humanidade. Concluída, a torre de Babel representaria uma mensagem universal, uma mensagem que todos os homens entenderiam. Mensagem abominável, do ponto de vista de Jeová, mas mensagem, de qualquer modo, como é mensagem todo monumento. Essa mensagem unificadora nunca foi concluída, por causa exatamente do caos linguístico; e foi então substituída por um novo projeto comum, menos ambicioso e mais lógico: o projeto de um idioma universal de que o esperanto do doutor Zamenhoff é o grande exemplo. Dito projeto não chegou a decolar, mas caracterizou como válida a aspiração humana de união. De fato, unidade e diversidade são dois polos da nossa realidade cotidiana, como o são a globalização e a regionalização. Correspondem a duas necessidades básicas da pessoa, a necessidade de uma identidade pessoal e grupal e a necessidade de dissolver-se no todo em que se constitui a condição humana.
O Brasil é um exemplo disso. Por causa de sua extensão classicamente é conhecido como um país continental. E, sendo do tamanho de um continente, poderia ter vários idiomas, como acontece em regiões, aliás muito menores, da Europa. Não, o idioma é um só. Mas é um só diferenciado de acordo com as regiões. O linguajar do gaúcho é muito diferente do linguajar do nordestino, ou do paulista, ou do carioca. Dei-me conta disso quando escrevi o prefácio para um livro de contos do grande escritor rio-grandense-do-sul Simões Lopes Neto. Quando recebi da editora o livro, fiquei impressionado com o tamanho do glossário, que daria até um volume à parte. O que é explicável: pouca gente fora do Rio Grande do Sul sabe, por exemplo, o que é um tirador, aquele avental de couro que o gaúcho usa para conter a rês. E pouca gente usa o "tu" como pronome de segunda pessoa.
A situação poderia permanecer assim por muito tempo, talvez indefinidamente. Mas então surgem as redes de TV, e o Brasil, de sul a norte e de leste a oeste, começa a ouvir um idioma único. O resultado é a homogeneização, que chega a todo o país e põe em xeque as nuances regionais.
No Rio Grande do Sul o "tu" começa a dar lugar ao "você", primeiro nos programas de rádio e TV, logo na conversa informal. O "tu" ainda permanece nos lares e nos bares, mas quem sabe por quanto tempo? E quem imaginaria, por outro lado, a quantidade de anglicismos que, por causa do papel hegemônico dos Estados Unidos, tem penetrado na linguagem corrente?
Caprichosos e às vezes imprevisíveis são os caminhos do idioma, como caprichosos e às vezes imprevisíveis são os caminhos da humanidade, que ora levam à identidade individual/grupal ora à identidade universal. E caprichoso e imprevisível é o destino dos projetos nessa área. Os construtores da torre de Babel que o digam.
(SCLIAR, Moacyr. Idioma e identidade. Revista Língua: ano 7, nº 80, junho de 2012.)
Leia o trecho a seguir.
"Caprichosos e às vezes imprevisíveis são os caminhos do idioma, como caprichosos e às vezes imprevisíveis são os caminhos da humanidade, que ora levam à identidade individual/grupal ora à identidade universal." (5º§)
Segundo o autor, são exemplos da identidade individual/grupal e da identidade universal, respectivamente:
Resolução comentada
Identidade grupal: glossário regional; identidade universal: anglicismos pela influência dos EUA.
O glossário do livro de Simões Lopes Neto reúne termos regionais, como 'tirador', e portanto expressa a identidade de um grupo. Os anglicismos que entram na linguagem corrente por causa da hegemonia dos EUA indicam a tendência universalizante.
Análise das alternativas
A, B, C e D trocam ou misturam os conceitos. Em B, a globalização é universal e o regionalismo é grupal, o inverso do que a alternativa afirma. Em D, o 'tu' e o 'você' não correspondem ao par pedido. Em C, o caos linguístico de Babel não é exemplo de identidade universal. Em A, o esperanto representa a aspiração universal, não a identidade grupal.
Referência: SCLIAR, Idioma e identidade
Resolução comentada do VaiConcursos.