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Eu disse uma vez que escrever é uma maldição. Não me lembro por que exatamente eu o disse, e com sinceridade. Hoje repito: é uma maldição, mas uma maldição que salva.
Não estou me referindo muito a escrever para jornal. Mas escrever aquilo que eventualmente pode se transformar num conto ou num romance. É uma maldição porque obriga e arrasta como um vício penoso do qual é quase impossível se livrar, pois nada o substitui. E é uma salvação.
Salva a alma presa, salva a pessoa que se sente inútil, salva o dia que se vive e que nunca se entende a menos que se escreva. Escrever é procurar entender, é procurar reproduzir o irreproduzível, é sentir até o último fim o sentimento que permaneceria apenas vago e sufocador. Escrever é também abençoar uma vida que não foi abençoada.
Que pena que só sei escrever quando espontaneamente a "coisa" vem. Fico assim à mercê do tempo. E, entre um verdadeiro escrever e outro, podem-se passar anos.
Lembro-me agora com saudade da dor de escrever livros.
(LISPECTOR, Clarice. In: A descoberta do mundo, Rio de Janeiro:Rocco, 1999. p. 134.)
[...] para o escritor, a língua não é uma mina de riquezas ou um repertório de possibilidades: a língua é insuficiência e resistência.[...]. (PERRONE-MOISÉS, Leyla. Lição de casa. In: BARTHES, Roland. Aula. São Paulo: Cultrix, 2004. p. 65.)
Que opção, baseada no texto II, apresenta a mesma tese argumentativa de Perrone-Moisés?
Resolução comentada
Perrone-Moisés vê a língua como insuficiência, e isso se liga a "reproduzir o irreproduzível".
Se a língua é insuficiência e resistência, o escritor luta para dizer o que as palavras mal alcançam. Em Clarice, "procurar reproduzir o irreproduzível" expressa essa mesma tese: a linguagem não dá conta do que se quer dizer.
Análise das alternativas
A) Errada: expressa saudade da dor de escrever, não a limitação da língua. B) Errada: destaca o poder salvador da escrita. D) Errada: fala da espontaneidade da inspiração. E) Errada: refere-se à dependência do tempo, sem tratar da insuficiência da língua.
Referência: Perrone-Moisés, Lição de casa; Clarice Lispector.
Resolução comentada do VaiConcursos.